VALOR - 18/02/2010
Maria Inês Nassif, de São Paulo
O PT já esteve muito mais à esquerda do que está hoje; também já esteve muito mais à direita. Desde 2002, quando venceu um processo eleitoral imbricado com uma grave crise financeira - alimentada por um movimento especulativo de motivação também eleitoral -, a posição ideológica do partido tem sido mais movida pela conjuntura do que pelos grandes embates internos que marcaram a vida da legenda até o XII Encontro Nacional, de dezembro de 2001, responsável pelo último documento que foi produto de uma disputa acirrada entre suas tendências.
Segundo o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, a radicalização da oposição, a partir de 2005, levou a um paradoxo: enquanto a esquerda perdia espaço internamente, todo o partido se "esquerdizava". "A burguesia, a direita, a oposição radicalizaram e o efeito foi 'esquerdizar' o partido, ou seja, trazê-lo da Carta aos Brasileiros para o programa do XII Encontro", disse.
O PT, no seu 4º Congresso, que começa hoje, deve manter a tendência do 3º Congresso, de assumir-se como partido socialista democrático, sem, contudo, voltar ao período pré-XII Congresso, quando os grupos mais radicais chegavam a pregar a ruptura democrática. As teses apresentadas pelas tendências que disputaram o Processo de Eleição Direta (PED) do ano passado são um claro sinal disso: apenas a tendência mais radical, a Esquerda Socialista, fala em mudança no "modo de produção" e na "superação prática das relações capitalistas".
"As teses do PED relatam a consolidação da ideia da revolução democrática no Brasil, do socialismo democrático. O PT, antes de ser comprometido com a ruptura, tem compromisso com o Estado democrático de direito", afirma o ex-ministro da Justiça Tarso Genro. "Foi um caminho processual: não quebramos a ordem nem fizemos a revolução", constata o deputado José Genoino, ex-presidente do partido.
O XII Encontro Nacional do PT, realizado em dezembro de 2001, aprovou "Diretrizes do Programa de Governo do PT para o Brasil", documento coordenado pelo então prefeito de Santo André, Celso Daniel, num trabalho de costura das posições das facções mais à esquerda do partido e as do já consolidado Campo Majoritário , que havia feito uma forte inflexão ao centro como concessão para eleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente. O documento professava o socialismo, mas admitia uma aliança com a "burguesia" - definia uma política de alianças mais ampla, uma exigência de Luiz Inácio Lula da Silva para concorrer em 2002, depois de ter sido derrotado em 1989, em 1994 e 1998 como candidato de uma coligação que sequer conseguia reunir todos os partidos que se diziam de esquerda. A "Carta ao Povo Brasileiro", divulgada em junho de 2002, quando o dólar fazia uma escalada perigosa frente ao real, deu a guinada definitiva ao centro, prometendo continuidade na política econômica do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. O socialismo encolheu.
Em 2005, atingido em cheio pelo chamado Mensalão - série de denúncias de comprometimento da direção do partido com captação ilegal de dinheiro para financiar campanhas eleitorais -, o PT sofreu dois movimentos que teoricamente neutralizariam um ao outro. De um lado, perdeu a parcela mais radical da esquerda, que saiu com muito barulho e fundou o P-SOL. Isso teoricamente definiria o esvaziamento da esquerda partidária. De outro lado, foram excluídos do governo os integrantes do Campo Majoritário que detinham grande poder sobre as definições de política e política econômica, o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o chefe da Casa Civil, José Dirceu - e o controle exercido por ambos não era favorável às tendências de esquerda. Palocci era o fiador da política econômica ortodoxa, de continuidade à do governo anterior. Dirceu, segundo integrantes da esquerda, exercia controle sobre as minorias internas, dificultando o acesso delas ao governo petista.
O racha do P-SOL, na época um trauma partidário, conteve o avanço das tendências de esquerda quando a grande crise política do Mensalão colocava em xeque, internamente, o pragmatismo do Campo Majoritário (hoje chamado Construindo um Novo Brasil - PNB, que elegeu José Eduardo Dutra no Processo de Eleição Direta, o PED, de 2009). No PED de 2005, o primeiro depois do escândalo, o grupo que daria origem ao P-SOL concorreu à presidência do partido com Plínio de Arruda Sampaio. Derrotado no primeiro turno, Sampaio anunciou a saída do partido. Somados os votos de toda a oposição ao Campo Majoritário no primeiro turno do PED de 2005, ela tinha mais do que Ricardo Berzoini (SP), do Campo Majoritário; sem o grupo de Sampaio, a esquerda perdeu por 5 mil votos.
Para o secretário das Relações Internacionais, a "ironia da história" é que, a partir da saída desse grupo, o PT como um todo foi para a esquerda. Para o ex-presidente do PT, o deputado José Genoino, a dissidência "fez mais barulho do que deu prejuízo efetivo". "A saída do grupo não foi representativa", concorda o deputado Paulo Teixeira (PT-SP).
"A esquerda do PT começou a transitar no governo depois da saída do Palocci. Ele na economia, e Dirceu na política, limitaram muito o debate ideológico interno no primeiro mandato", afirma Teixeira. Mas, para o ex-prefeito Raul Pont, da Democracia Socialista (DS), tendência também à esquerda do Campo Majoritário ), de alguma forma o grupo hegemônico, de centro, foi obrigado a ceder e "re-ideologizar" o PT, pois o pragmatismo do setor hegemônico não conseguiu, por si só, consolidar uma unidade partidária. Assim, foi obrigado a assumir "compromissos mais estratégicos".
O fato é que, sem Palocci e Dirceu no governo, e mesmo sem o grupo que originou o P-SOL no partido, em 2006 os documentos do PT deram uma nova guinada à esquerda. Nas resoluções do 3º Congresso, em 2007, o socialismo democrático voltou a ser professado como opção ideológica sem que isso fosse considerado constrangimento político à legenda que ocupa o poder desde 2003, pelo voto direito, e já havia abandonado há algum tempo ideias de ruptura revolucionária. No documento final, o partido retoma a ideia de socialismo de forma clara, embora definindo o tipo de mudança que prega para o país: "A grande tarefa que o PT, o governo Lula, os movimentos sociais e as demais forças de esquerda têm pela frente é avançar na construção permanente de um governo democrático e popular com base em um projeto de desenvolvimento de longo prazo para o país, e que já está em andamento".
"Além da reforma política e de mudanças na política econômica - com predominância do desenvolvimento sobre a estabilidade - temos de lutar por uma ampla reforma do Estado brasileiro", diz o documento. E define a diferença entre o seu projeto e o do PSDB. "A direita tucano-liberal quer que o Estado apenas financie, não planeje. Nós entendemos que deve financiar e planejar."
Segundo Genro, o debate sobre o socialismo nunca foi abandonado, mas foi obstruído. "A discussão permaneceu no partido durante todo o tempo, mas o PT ficou na defensiva em função da crise do socialismo real", disse. "O socialismo democrático é uma visão que se consolida no PT desde 2002 e tem como ideia central a democracia como reguladora das relações entre o Estado e a sociedade. Hoje os partidos do mundo inteiro têm como ponto de partida de reflexão a questão da democracia."
O que define um programa socialista, no entanto, não é a defesa de uma maior intervenção na economia - esse assunto transcende os partidos socialistas ou os governos considerados de esquerda depois da crise mundial do ano passado. "Exemplos de projetos inspirados na ideia do socialismos democrático são o alargamento do espaço da universidade pública, o repasse de recursos do Estado para diminuir a desigualdade de renda e a não-submissão do Brasil ao jugo dos países que definem o domínio do capital financeiro", diz Genro. O "desenvolvimentismo" não necessariamente é considerado uma bandeira de esquerda, e o debate sobre o papel do Estado está situado na órbita do desenvolvimentismo. "Achar que o PT propõe a re-estatização é relativo. A capitalização da Petrobras foi muito importante para o Brasil durante a crise. As grandes empresas sabem que a gestão do PT ajuda o processo de internacionalização das empresas nacionais. O Programa Minha Casa, Minha Vida, teria sido inviável sem a capitalização dos bancos", afirma a ex-prefeita Marta Suplicy.
Para a esquerda petista, o debate sobre o tamanho do Estado ou o seu poder de intervenção na economia não caracterizam o partido como mais ou menos socialista. Pomar vê, na história interna do partido, o período de 2003 a 2010 como o do debate entre "desenvolvimentistas versus os social-liberais"; hoje, o debate estaria se deslocando para uma polarização entre "desenvolvimentistas conservadores", que não tocam nas reformas estruturais, e "desenvolvimentistas democrático-populares", "que querem combinar desenvolvimento com democracia, igualdade e soberania".
Para Raul Pont, da Democracia Socialista, embora o partido tenha colocado a palavra "socialismo" em seus documentos programáticos novamente, isso não se materializou no governo petista. "Para nós, ser socialista significa democratizar as decisões, aumentar a participação popular no governo", opina. Para Pont, a proposta socialista não elimina a revisão de privatizações feitas no passado e cujas empresas são prestadoras de serviço ineficientes.
O fato de existirem internamente ainda essas posições, no entanto, não significa que todo o debate sobre o socialismo está liberado. "É preciso evitar fios desencapados", afirma Genoino. "O idealismo é muito bonito, mas temos que ter cuidado para que isso não seja usado contra a ministra Dilma (Rousseff, candidata do partido à Presidência)", completa a ex-prefeita Marta Suplicy.
O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
Dilma em evento da juventude petista: no discurso para o partido,
No discurso a ser feito sábado, depois do lançamento de sua candidatura a presidente no 4º Congresso Nacional do PT, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, defenderá a necessidade de investimentos maciços em educação e ciência e tecnologia. Para a ministra, esses são fatores essenciais para "aumentar o nível de competitividade da economia brasileira" e colocar o país na rota de uma "sociedade do conhecimento".
Dilma fará uma defesa enfática das conquistas obtidas nos oito anos de governo Lula e apontará o que precisa ser feito para o país prosseguir na rota do desenvolvimento. Além disso, vai reforçar o papel do Estado no planejamento, aliado à capacidade do mesmo em executar políticas públicas. E dirá que é essencial intensificar as obras de infraestrutura. "O salto já foi dado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nós aprendemos o caminho e vamos continuar nele", dirá, segundo um aliado da ministra.
A tendência é que Dilma adote um discurso otimista, mostrando que o modo petista de governar - ao qual ela dará continuidade - conseguiu incluir uma legião de pessoas de baixa renda na sociedade de consumo sem que isso atrapalhasse a economia ou trouxesse de volta a inflação. Que o fortalecimento desse mercado interno de massas foi fundamental para o país entrar em um ciclo de prosperidade econômica que não se via antes.
Mas chegou o momento de avançar para que estas conquistas não se percam. Por isso, destacará Dilma, a necessidade de intensificar os investimentos em educação e ciência e tecnologia para que o Brasil possa ser considerado uma nação desenvolvida.
Chamada pelo presidente Lula de mãe do PAC, Dilma também vai abordar a importância de se remover os entraves ao desenvolvimento provocados pelos gargalos no setor de infraestrutura. Vai defender os avanços do PAC 1 e reforçar que o PAC 2 virá para intensificar a presença do Estado nas periferias dos grandes centros, com o aparelhamento público - postos de saúde, postos policiais, escolas, creches e centros de cultura - para atender a população mais carente.
O discurso deve fazer ainda a defesa de um Estado indutor e parceiro, que facilita as ações da iniciativa privada e abre caminhos para a criação de novos pólos econômicos. Embora não deva ser citada na fala da ministra, um auxiliar da candidata deu como exemplo desta vertente a inauguração de uma fábrica estatal de fabricação de chips no Rio Grande do Sul, há duas semanas.
Para exercer melhor esse papel, no entanto, será preciso recompor a máquina pública. Para Dilma, isso só será possível se o funcionalismo for melhor capacitado do ponto de vista de formação e melhor remunerado, para não sucumbir ao setor privado.
O documento final ainda está sendo elaborado pela ministra, mas as linhas gerais estão definidas. Como destacaram ao Valor dois aliados próximos de Dilma, a comparação entre o governo Lula e a gestão de Fernando Henrique Cardoso - essência da campanha plebiscitária defendida por Lula - terá menos ênfase no discurso de sábado. "A fala do Congresso é para a militância petista, é o público da ministra. Durante a campanha eleitoral essa comparação será exaustivamente trabalhada. Nesse momento, contudo, ela não é necessária", afirmou um ministro do núcleo dirigente do governo e da campanha.
O discurso da pré-candidata está sendo feito em conjunto com o publicitário João Santana e com outros aliados que integram o núcleo de seu comando de campanha. Mas a redação final será decidida por ela. "Não se iludam, ela está cada vez mais confiante e com mais domínio do diálogo político. Ela vai sempre ouvir o presidente Lula, mas vai adotar um tom mais independente", assegurou um petista ligado a Dilma.
Todos os principais pontos que serão explorados por Dilma em seu discurso de sábado estão presentes no programa de governo do PT, coordenado pelo assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. O texto terá que ser votado pelos delegados do PT na sexta-feira e servirá como documento base para ser apresentado aos demais partidos da coalizão governista.
Nele aparece um Estado mais forte, com participação direta na construção de hidrelétricas e em obras de saneamento. Há também a proposta de democratização da comunicação social e fortalecimento das conferências populares como formas de subsidiar as políticas públicas.
No mesmo dia, serão votadas também outras propostas, que, se aprovadas, poderão integrar o programa de governo do PT para a candidata Uma delas foi elaborada por Markus Sokol, da tendência O Trabalho. A proposta diverge de dois pontos essenciais do discurso de Dilma: a necessidade da aliança com o PMDB e a manutenção da política econômica. Para Sokol, que teve 1% dos votos no último Processo de Eleição Direta (PED) do partido, o PT deve ter candidato próprio em todos os Estados e dizer um "não redondo" à aliança com o PMDB. Além disso, ele defende o fim da Lei de Responsabilidade Fiscal, das metas de superávit primário e a implantação de uma política de controle do câmbio. Já a Juventude petista apresentou documento defendendo o fim do monopólio nos meios de comunicação, a revisão dos critérios de concessão de emissoras de rádio e televisão e a constituição de um sistema público de comunicação com controle social e participação popular.
Dilma fará uma defesa enfática das conquistas obtidas nos oito anos de governo Lula e apontará o que precisa ser feito para o país prosseguir na rota do desenvolvimento. Além disso, vai reforçar o papel do Estado no planejamento, aliado à capacidade do mesmo em executar políticas públicas. E dirá que é essencial intensificar as obras de infraestrutura. "O salto já foi dado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nós aprendemos o caminho e vamos continuar nele", dirá, segundo um aliado da ministra.
A tendência é que Dilma adote um discurso otimista, mostrando que o modo petista de governar - ao qual ela dará continuidade - conseguiu incluir uma legião de pessoas de baixa renda na sociedade de consumo sem que isso atrapalhasse a economia ou trouxesse de volta a inflação. Que o fortalecimento desse mercado interno de massas foi fundamental para o país entrar em um ciclo de prosperidade econômica que não se via antes.
Mas chegou o momento de avançar para que estas conquistas não se percam. Por isso, destacará Dilma, a necessidade de intensificar os investimentos em educação e ciência e tecnologia para que o Brasil possa ser considerado uma nação desenvolvida.
Chamada pelo presidente Lula de mãe do PAC, Dilma também vai abordar a importância de se remover os entraves ao desenvolvimento provocados pelos gargalos no setor de infraestrutura. Vai defender os avanços do PAC 1 e reforçar que o PAC 2 virá para intensificar a presença do Estado nas periferias dos grandes centros, com o aparelhamento público - postos de saúde, postos policiais, escolas, creches e centros de cultura - para atender a população mais carente.
O discurso deve fazer ainda a defesa de um Estado indutor e parceiro, que facilita as ações da iniciativa privada e abre caminhos para a criação de novos pólos econômicos. Embora não deva ser citada na fala da ministra, um auxiliar da candidata deu como exemplo desta vertente a inauguração de uma fábrica estatal de fabricação de chips no Rio Grande do Sul, há duas semanas.
Para exercer melhor esse papel, no entanto, será preciso recompor a máquina pública. Para Dilma, isso só será possível se o funcionalismo for melhor capacitado do ponto de vista de formação e melhor remunerado, para não sucumbir ao setor privado.
O documento final ainda está sendo elaborado pela ministra, mas as linhas gerais estão definidas. Como destacaram ao Valor dois aliados próximos de Dilma, a comparação entre o governo Lula e a gestão de Fernando Henrique Cardoso - essência da campanha plebiscitária defendida por Lula - terá menos ênfase no discurso de sábado. "A fala do Congresso é para a militância petista, é o público da ministra. Durante a campanha eleitoral essa comparação será exaustivamente trabalhada. Nesse momento, contudo, ela não é necessária", afirmou um ministro do núcleo dirigente do governo e da campanha.
O discurso da pré-candidata está sendo feito em conjunto com o publicitário João Santana e com outros aliados que integram o núcleo de seu comando de campanha. Mas a redação final será decidida por ela. "Não se iludam, ela está cada vez mais confiante e com mais domínio do diálogo político. Ela vai sempre ouvir o presidente Lula, mas vai adotar um tom mais independente", assegurou um petista ligado a Dilma.
Todos os principais pontos que serão explorados por Dilma em seu discurso de sábado estão presentes no programa de governo do PT, coordenado pelo assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. O texto terá que ser votado pelos delegados do PT na sexta-feira e servirá como documento base para ser apresentado aos demais partidos da coalizão governista.
Nele aparece um Estado mais forte, com participação direta na construção de hidrelétricas e em obras de saneamento. Há também a proposta de democratização da comunicação social e fortalecimento das conferências populares como formas de subsidiar as políticas públicas.
No mesmo dia, serão votadas também outras propostas, que, se aprovadas, poderão integrar o programa de governo do PT para a candidata Uma delas foi elaborada por Markus Sokol, da tendência O Trabalho. A proposta diverge de dois pontos essenciais do discurso de Dilma: a necessidade da aliança com o PMDB e a manutenção da política econômica. Para Sokol, que teve 1% dos votos no último Processo de Eleição Direta (PED) do partido, o PT deve ter candidato próprio em todos os Estados e dizer um "não redondo" à aliança com o PMDB. Além disso, ele defende o fim da Lei de Responsabilidade Fiscal, das metas de superávit primário e a implantação de uma política de controle do câmbio. Já a Juventude petista apresentou documento defendendo o fim do monopólio nos meios de comunicação, a revisão dos critérios de concessão de emissoras de rádio e televisão e a constituição de um sistema público de comunicação com controle social e participação popular.
Brasil pode crescer sem problemas a 7% ao ano, diz Delfim
Entrevista: Déficit em transações correntes não assusta o ex-ministro, conselheiro informal do governo Lula
A política cambial brasileira é um desastre, mas sua consequência mais imediata – o aumento do déficit em transações correntes – não assusta. O país pode crescer 7% ao ano com endividamento externo nos próximos cinco anos e, antes que se torne um problema, o déficit poderá ser resolvido com a entrada dos dólares oriundos das exportações do petróleo do pré-sal, que começarão a fluir a partir de 2015. O que assusta nesse cenário otimista de crescimento elevado são os efeitos do câmbio valorizado sobre a indústria nacional. Essa é a avaliação do economista Antônio Delfim Netto, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.
O petróleo da camada do pré-sal, para Delfim, é a grande saída para evitar os dois entraves que “sempre limitaram nosso crescimento”: o déficit em conta corrente e a falta de energia. O pré-sal, no entanto, pode chegar atrasado. Graças ao câmbio valorizado, que, segundo ele, “está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada”, a atividade industrial pode alcançar 2015 fragilizada.
Segundo Delfim, um dos conselheiros econômicos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe, o governo agiu de maneira “razoavelmente correta”. A estratégia de fundir e fortalecer grandes grupos nacionais em diferentes setores por meio de operações financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é acertada, diz Delfim. “Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando essa estratégia com aquela história de que ‘o Estado escolhe os vencedores’. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.”
Delfim reconhece que os investimentos públicos melhoraram um pouco, mas critica outros gastos do governo federal, como os aumentos dados ao funcionalismo público. “É muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo”, diz. Para ele, é preciso aproveitar as eleições de outubro deste ano para conscientizar a sociedade de que “existem limites físicos ao crescimento”, que para ocorrer no longo prazo prescinde de um consumo menos acelerado no presente. A seguir, os principais trechos da entrevista de Delfim Netto:
Valor: A crise mundial acabou?
Antonio Delfim Netto : O pior passou, mas temos resquícios, embora isso não signifique uma crise em forma de “W” ou “L”. O nível de atividade na economia real está com um sentimento de entusiasmo, porque voltou a crescer, mas continua um resíduo no sistema financeiro. Agora, o equilíbrio fiscal de alguns países, que tinham razoável equilíbrio antes da crise, piorou demais por causa da ação anticíclica feita no ano passado. O problema mais importante hoje é o risco que se estabeleceu sobre o euro. No fundo, na minha opinião, nenhum daqueles países mais enrascados, como Grécia, Espanha, Portugal ou Itália vai quebrar. Eles vão ter de fazer um ajuste que vai depender da política de cada país, da qualidade de sua administração, mas todos têm um interesse medonho de permanecer no euro. A questão é que esses países já estavam quebrados há muito tempo, mas não era algo visível, porque eles se beneficiavam do euro, que reduziu as taxas de juros dos papéis desses países dramaticamente. Em lugar de aproveitar os juros baixos da moeda única para melhorar sua situação fiscal, reduzindo sua dívida, eles continuaram em situações dramáticas. No caso da Espanha, você tem país robusto, grande, com investimentos externos importantes, mas com uma taxa de desemprego gigantesca e de composição crítica, porque ocorre na faixa entre 20 e 30 anos de idade.
Valor: A situação fiscal dos países europeus é a grande preocupação deste 2010?
Delfim : Todo mundo sempre imaginou que a Europa fosse uma área monetária ótima. Agora está provado que não é possível ter uma área monetária ótima sem ter um governo, sem uma política fiscal ou uma política monetária. Esses países abdicaram de seus poderes. Lá os presidentes e primeiro-ministros são como os prefeitos de regiões dentro de um só país. Os presidentes da Grécia, da Espanha, da Itália são prefeitos para administrar saúde, educação. Essa área monetária ótima para a qual estão caminhando na comunidade europeia chegou num ponto crítico. Bateram no teto. Daqui para frente, precisarão instituir um controle muito maior da parte fiscal dos países membros. Agora é um problema sério.
Valor: Há um ano, havia certo consenso de que o Estado deveria ampliar gastos e incorrer em déficits fiscais, se preciso, para estimular a economia. Hoje, o debate se dá quanto à retirada desses estímulos. O cenário mudou rapidamente?
Delfim : Quando se está em processo recessivo é natural que se use a política fiscal para reduzir os efeitos negativos. Mas é natural que se use a política fiscal no sentido correto. Ninguém propõe aumento de custeio. O ideal seria que cada país tivesse um estoque de projetos de infraestrutura com taxas de retorno baixas – porque se fossem altas o setor privado os faria – que poderia ser rolado pelo Estado num momento de crise. Quando termina a crise, a situação fiscal volta para o equilíbrio. Só que é muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo.
Valor: É o que tem acontecido no Brasil?
Delfim : Em parte é, mas no caso brasileiro houve um aumento do investimento um pouquinho maior do que as pessoas dizem. É claro que tudo isso é medido em relação ao PIB e essas medidas são terrivelmente enganosas, porque quando se diz que a despesa de custeio do governo está constante em 5% do PIB, as pessoas esquecem que o PIB está crescendo, então se ela permanece constante significa que a despesa aumentou também. É um truque impressionístico.
Valor: O estímulo do consumo foi a estratégia correta?
Delfim : Claro, mas o nível de consumo não cresceu em relação ao PIB, permanecendo constante na casa dos 65% do PIB mesmo depois das medidas. Essa foi uma medida anticíclica de verdade, porque ela vai terminar. Aumento de funcionalismo público não é medida anticíclica.
Valor: Mas isso também não aconteceu?
Delfim : Aconteceu. Acho o governo Lula com muitas virtudes, mas não é uma coisa perfeita. Como todo governo, tem suas idiossincrasias, suas preferências. É um Estado onde o sindicalismo tem um poder muito maior do que tinha, apesar da participação dos sindicatos ter diminuído. O verdadeiro trabalhador teme o sindicato. Mas tudo isso são pequenas coisas dentro de um grande projeto. É uma ilusão tentar diminuir o governo Lula, como é uma ilusão tentar diminuir o governo Fernando Henrique, que cometeu seus erros. Desde 1988 o país foi encontrando seu caminho com um sistema político organizado. Talvez seja o único país subdesenvolvido que não tem nenhum problema maior.
Valor: O que o sr. achou da ação do Banco Central no período?
Delfim : O governo entrou na crise no dia 16 de setembro de 2008 [um dia depois da falência do Lehman Brothers nos EUA]. Por quê? Porque o sistema bancário brasileiro não poderia ficar em tom de deselegância com o resto do mundo. O sistema bancário do mundo parou, o sistema bancário brasileiro tinha de parar também. O Banco Central poderia ter agido mais rapidamente, mas também há justificativas para seu conservadorismo. O funcionário do BC é um homem temeroso, porque está vendo aqueles que fizeram o Proer, que com custo de 3% do PIB higienizou o sistema bancário brasileiro, respondendo a processos do Ministério Público, com bens indisponíveis e tudo o mais. Isso assusta o funcionário. Como é que ele vai tomar risco, se não tem proteção? Acho que isso torna a ação do BC sempre lenta e homeopática.
Valor: O sr. percebe uma ressureição do consenso acerca do Estado grande?
Delfim : É preciso separar as coisas. Estado balofo é um equívoco. A economia de mercado não é o sistema financeiro. A economia de mercado é o sistema produtivo, a economia real. Esse foi vítima, tendo sido encoleirado pelo sistema financeiro, que deveria ser servo do sistema produtivo. Foi uma farra em que todo mundo ganhou e é visível que esse sistema não pode continuar sem um controle eficaz das operações financeiras. Mas isso nada tem a ver com o sistema produtivo. O Estado produtor é uma tragédia, mas Estado indutor é fundamental. Não há desenvolvimento econômico no mundo que não tenha sido feito sem o apoio de um Estado indutor. A maior ilusão é pensar que o desenvolvimento inglês, na revolução industrial, não tinha o Estado por trás. Os americanos então nem se fala. Algumas pessoas imaginam que os EUA sempre foram liberais. Não tem nada disso.
Valor: O sr. vê gente no governo defendendo o Estado balofo?
Delfim : Honestamente, não. É preciso distinguir o partido do governo. O PT tem isso no sangue, não adianta ficar com ilusão. É o Estado que convém ao estamento sindical. Não acredito que algum dos dois candidatos [do PT e do PSDB] tenha uma ideia de Estado balofo. Os dois, acredito, defendem um Estado indutor forte, mas isso nada tem a ver com o Estado cheio de funcionário público fingindo que está trabalhando.
Valor: A oposição critica o governo Lula por, segundo entende, promover um retorno do Estado interventor. O que o sr. acha?
Delfim : Nenhum tijolo do Minha Casa, Minha Vida foi feito pelo Estado. Tudo tem participação do setor privado. Este é o efeito típico do Estado indutor. É uma crítica indevida. O absurdo seria o Estado fazer as usinas de Santo Antônio e Jirau, mas o Estado criar condições para essas usinas é algo fundamental. Acho que o governo tem agido de maneira razoavelmente correta. Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando o governo com aquela história de que “o Estado escolhe os vencedores”. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.
Valor: O cenário pós-2010 é de continuidade?
Delfim : O Brasil é o ‘avant-garde’ do mundo. A situação brasileira melhorou muito mesmo, mas o Lula soube vender isso como ninguém, ele é um ótimo marqueteiro. É claro que os investidores estrangeiros enxergam o Brasil com muitos bons olhos e veem isso porque as perspectivas de crescimento são importantes e são reais.
Valor: O que o sr. mudaria?
Delfim : Estou velho demais para isso. Vejo o Brasil com grande otimismo. Temos todas as condições para engrenar um crescimento de 6% ou 7% ao ano. Com o crescimento populacional diminuindo, isso nos colocará numa situação muito interessante, com consciência ecológica e desenvolvimento dos combustíveis renováveis. O Brasil tem tudo para chegar na metade do século XXI como um país desenvolvido, democrático, um mercado interno com proporções extraordinárias e importante participação política no mundo. Não vejo nenhuma restrição. O pré-sal é uma garantia, que vai aparecer entre 2014 e 2015. Até lá o câmbio flutuante e as reservas que temos vão dar conta desse processo de endividamento nas transações correntes. Não vamos voltar a nos endividar nos níveis que nos endividamos no passado, quando ocorreram crises nos anos 80 e 90. Isso dá uma perspectiva nova para o nosso crescimento. O pré-sal é uma espécie de seguro contra os riscos do passado.
Valor: A aposta nesta década que se inicia deve ser o petróleo?
Delfim : O petróleo é século XX, temos de reservá-lo para seu uso mais nobre, que é a indústria química. O Brasil tem tudo para ser um participante extraordinário nisso. Sem o comércio exterior robusto, nenhuma indústria brasileira consegue a dimensão ótima. O comércio exterior é um complemento fundamental do mercado interno.
Valor: O que o sr. acha da queda na balança comercial, que sai de US$ 25 bilhões no ano passado para pouco acima de zero, como prevê o governo, neste ano?
Delfim : A política cambial brasileira é um desastre. É uma ilusão em um país pobre como o Brasil, cujo câmbio é um ativo financeiro manipulado por forças que ele não conhece, ficar defendendo a ideia de que é o mercado quem produz o equilíbrio cambial adequado. Essa ilusão é dirigida por esse mito do fundamentalismo mercadista de que a taxa de câmbio é um fenômeno natural, que intervir é um pecado capital, uma violação às leis divinas. O real valorizado está destruindo nossas cadeias produtivas. Isso está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada. Nós temos que continuar insistindo na diversificação das exportações, no aperfeiçoamento dos ganhos de valor adicionado interno.
Valor: Como isso pode ser feito com câmbio valorizado?
Delfim: Fico espantado de ver as mesmas pessoas que diziam que o câmbio de R$ 1,60 era ruim, agora pedindo para o BC vender dólar a fim de evitar que a cotação alcance R$ 2,00. Sabe qual é a explicação disso? É que as mesmas experiências de derivativos tóxicos realizadas por empresas no período pré-crise estão sendo realizadas agora. Acho que o governo deveria explodi-los mesmo. Nós já fizemos o que podíamos fazer por eles. Daqui para frente é usar o regime iraquiano, que é a limpeza do sistema.
Valor: Das empresas que operam com derivativos de câmbio?
Delfim : O hedge é a coisa mais perfeita que existe. Mas quem usou hedge para especular com a cotação não pode continuar. Não tem nenhuma importância, o patrimônio está aí. Arranja-se um comprador, o BNDES dá um dinheiro, substitui-se a gestão e pronto, melhora.
Valor: A China, com seu câmbio desvalorizado praticamente fixo ao dólar, é um exemplo?
Delfim : Não, e, aliás, do jeito que está, se a China não fechar um acordo razoável de valorização de sua moeda veremos aumento do protecionismo e redução do movimento de capitais. Só um país descerebrado pode pensar que o yuan [a moeda chinesa] vai ser uma moeda internacional. Moeda é confiança. Quem confia no Partido Comunista chinês? Nem os comunistas confiam.
Valor: O que o sr. acha dos candidatos a presidente?
Delfim : A gente só vai julgar os candidatos com seus programas. A coisa mais fundamental é chamar a atenção dos eleitores para um debate novo. Há uns candidatos que chamo de “vendedor de óleo de cobra”, que era aquele sujeito do Velho Oeste que vendia uma solução para qualquer problema, de unha do pé encravada a tumor cerebral. Tem outros que vão vender as coisas possíveis. Temos de insistir em determinados assuntos. O eleitor precisa entender que existem sim limites físicos que não são manipuláveis por nenhum vendedor de óleo de cobra. Que crescimento rápido hoje exige menor consumo. Aumento do consumo hoje significa redução do crescimento amanhã. Portanto, por maior que seja o desejo de redistribuir e crescer, existe um limite físico para isso.
Valor: Algum candidato vai defender consumo menor?
Delfim : Essa é a tarefa da mídia. Não é o candidato que vai dizer isso – embora espere que digam.
A política cambial brasileira é um desastre, mas sua consequência mais imediata – o aumento do déficit em transações correntes – não assusta. O país pode crescer 7% ao ano com endividamento externo nos próximos cinco anos e, antes que se torne um problema, o déficit poderá ser resolvido com a entrada dos dólares oriundos das exportações do petróleo do pré-sal, que começarão a fluir a partir de 2015. O que assusta nesse cenário otimista de crescimento elevado são os efeitos do câmbio valorizado sobre a indústria nacional. Essa é a avaliação do economista Antônio Delfim Netto, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.
O petróleo da camada do pré-sal, para Delfim, é a grande saída para evitar os dois entraves que “sempre limitaram nosso crescimento”: o déficit em conta corrente e a falta de energia. O pré-sal, no entanto, pode chegar atrasado. Graças ao câmbio valorizado, que, segundo ele, “está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada”, a atividade industrial pode alcançar 2015 fragilizada.
Segundo Delfim, um dos conselheiros econômicos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe, o governo agiu de maneira “razoavelmente correta”. A estratégia de fundir e fortalecer grandes grupos nacionais em diferentes setores por meio de operações financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é acertada, diz Delfim. “Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando essa estratégia com aquela história de que ‘o Estado escolhe os vencedores’. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.”
Delfim reconhece que os investimentos públicos melhoraram um pouco, mas critica outros gastos do governo federal, como os aumentos dados ao funcionalismo público. “É muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo”, diz. Para ele, é preciso aproveitar as eleições de outubro deste ano para conscientizar a sociedade de que “existem limites físicos ao crescimento”, que para ocorrer no longo prazo prescinde de um consumo menos acelerado no presente. A seguir, os principais trechos da entrevista de Delfim Netto:
Valor: A crise mundial acabou?
Antonio Delfim Netto : O pior passou, mas temos resquícios, embora isso não signifique uma crise em forma de “W” ou “L”. O nível de atividade na economia real está com um sentimento de entusiasmo, porque voltou a crescer, mas continua um resíduo no sistema financeiro. Agora, o equilíbrio fiscal de alguns países, que tinham razoável equilíbrio antes da crise, piorou demais por causa da ação anticíclica feita no ano passado. O problema mais importante hoje é o risco que se estabeleceu sobre o euro. No fundo, na minha opinião, nenhum daqueles países mais enrascados, como Grécia, Espanha, Portugal ou Itália vai quebrar. Eles vão ter de fazer um ajuste que vai depender da política de cada país, da qualidade de sua administração, mas todos têm um interesse medonho de permanecer no euro. A questão é que esses países já estavam quebrados há muito tempo, mas não era algo visível, porque eles se beneficiavam do euro, que reduziu as taxas de juros dos papéis desses países dramaticamente. Em lugar de aproveitar os juros baixos da moeda única para melhorar sua situação fiscal, reduzindo sua dívida, eles continuaram em situações dramáticas. No caso da Espanha, você tem país robusto, grande, com investimentos externos importantes, mas com uma taxa de desemprego gigantesca e de composição crítica, porque ocorre na faixa entre 20 e 30 anos de idade.
Valor: A situação fiscal dos países europeus é a grande preocupação deste 2010?
Delfim : Todo mundo sempre imaginou que a Europa fosse uma área monetária ótima. Agora está provado que não é possível ter uma área monetária ótima sem ter um governo, sem uma política fiscal ou uma política monetária. Esses países abdicaram de seus poderes. Lá os presidentes e primeiro-ministros são como os prefeitos de regiões dentro de um só país. Os presidentes da Grécia, da Espanha, da Itália são prefeitos para administrar saúde, educação. Essa área monetária ótima para a qual estão caminhando na comunidade europeia chegou num ponto crítico. Bateram no teto. Daqui para frente, precisarão instituir um controle muito maior da parte fiscal dos países membros. Agora é um problema sério.
Valor: Há um ano, havia certo consenso de que o Estado deveria ampliar gastos e incorrer em déficits fiscais, se preciso, para estimular a economia. Hoje, o debate se dá quanto à retirada desses estímulos. O cenário mudou rapidamente?
Delfim : Quando se está em processo recessivo é natural que se use a política fiscal para reduzir os efeitos negativos. Mas é natural que se use a política fiscal no sentido correto. Ninguém propõe aumento de custeio. O ideal seria que cada país tivesse um estoque de projetos de infraestrutura com taxas de retorno baixas – porque se fossem altas o setor privado os faria – que poderia ser rolado pelo Estado num momento de crise. Quando termina a crise, a situação fiscal volta para o equilíbrio. Só que é muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo.
Valor: É o que tem acontecido no Brasil?
Delfim : Em parte é, mas no caso brasileiro houve um aumento do investimento um pouquinho maior do que as pessoas dizem. É claro que tudo isso é medido em relação ao PIB e essas medidas são terrivelmente enganosas, porque quando se diz que a despesa de custeio do governo está constante em 5% do PIB, as pessoas esquecem que o PIB está crescendo, então se ela permanece constante significa que a despesa aumentou também. É um truque impressionístico.
Valor: O estímulo do consumo foi a estratégia correta?
Delfim : Claro, mas o nível de consumo não cresceu em relação ao PIB, permanecendo constante na casa dos 65% do PIB mesmo depois das medidas. Essa foi uma medida anticíclica de verdade, porque ela vai terminar. Aumento de funcionalismo público não é medida anticíclica.
Valor: Mas isso também não aconteceu?
Delfim : Aconteceu. Acho o governo Lula com muitas virtudes, mas não é uma coisa perfeita. Como todo governo, tem suas idiossincrasias, suas preferências. É um Estado onde o sindicalismo tem um poder muito maior do que tinha, apesar da participação dos sindicatos ter diminuído. O verdadeiro trabalhador teme o sindicato. Mas tudo isso são pequenas coisas dentro de um grande projeto. É uma ilusão tentar diminuir o governo Lula, como é uma ilusão tentar diminuir o governo Fernando Henrique, que cometeu seus erros. Desde 1988 o país foi encontrando seu caminho com um sistema político organizado. Talvez seja o único país subdesenvolvido que não tem nenhum problema maior.
Valor: O que o sr. achou da ação do Banco Central no período?
Delfim : O governo entrou na crise no dia 16 de setembro de 2008 [um dia depois da falência do Lehman Brothers nos EUA]. Por quê? Porque o sistema bancário brasileiro não poderia ficar em tom de deselegância com o resto do mundo. O sistema bancário do mundo parou, o sistema bancário brasileiro tinha de parar também. O Banco Central poderia ter agido mais rapidamente, mas também há justificativas para seu conservadorismo. O funcionário do BC é um homem temeroso, porque está vendo aqueles que fizeram o Proer, que com custo de 3% do PIB higienizou o sistema bancário brasileiro, respondendo a processos do Ministério Público, com bens indisponíveis e tudo o mais. Isso assusta o funcionário. Como é que ele vai tomar risco, se não tem proteção? Acho que isso torna a ação do BC sempre lenta e homeopática.
Valor: O sr. percebe uma ressureição do consenso acerca do Estado grande?
Delfim : É preciso separar as coisas. Estado balofo é um equívoco. A economia de mercado não é o sistema financeiro. A economia de mercado é o sistema produtivo, a economia real. Esse foi vítima, tendo sido encoleirado pelo sistema financeiro, que deveria ser servo do sistema produtivo. Foi uma farra em que todo mundo ganhou e é visível que esse sistema não pode continuar sem um controle eficaz das operações financeiras. Mas isso nada tem a ver com o sistema produtivo. O Estado produtor é uma tragédia, mas Estado indutor é fundamental. Não há desenvolvimento econômico no mundo que não tenha sido feito sem o apoio de um Estado indutor. A maior ilusão é pensar que o desenvolvimento inglês, na revolução industrial, não tinha o Estado por trás. Os americanos então nem se fala. Algumas pessoas imaginam que os EUA sempre foram liberais. Não tem nada disso.
Valor: O sr. vê gente no governo defendendo o Estado balofo?
Delfim : Honestamente, não. É preciso distinguir o partido do governo. O PT tem isso no sangue, não adianta ficar com ilusão. É o Estado que convém ao estamento sindical. Não acredito que algum dos dois candidatos [do PT e do PSDB] tenha uma ideia de Estado balofo. Os dois, acredito, defendem um Estado indutor forte, mas isso nada tem a ver com o Estado cheio de funcionário público fingindo que está trabalhando.
Valor: A oposição critica o governo Lula por, segundo entende, promover um retorno do Estado interventor. O que o sr. acha?
Delfim : Nenhum tijolo do Minha Casa, Minha Vida foi feito pelo Estado. Tudo tem participação do setor privado. Este é o efeito típico do Estado indutor. É uma crítica indevida. O absurdo seria o Estado fazer as usinas de Santo Antônio e Jirau, mas o Estado criar condições para essas usinas é algo fundamental. Acho que o governo tem agido de maneira razoavelmente correta. Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando o governo com aquela história de que “o Estado escolhe os vencedores”. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.
Valor: O cenário pós-2010 é de continuidade?
Delfim : O Brasil é o ‘avant-garde’ do mundo. A situação brasileira melhorou muito mesmo, mas o Lula soube vender isso como ninguém, ele é um ótimo marqueteiro. É claro que os investidores estrangeiros enxergam o Brasil com muitos bons olhos e veem isso porque as perspectivas de crescimento são importantes e são reais.
Valor: O que o sr. mudaria?
Delfim : Estou velho demais para isso. Vejo o Brasil com grande otimismo. Temos todas as condições para engrenar um crescimento de 6% ou 7% ao ano. Com o crescimento populacional diminuindo, isso nos colocará numa situação muito interessante, com consciência ecológica e desenvolvimento dos combustíveis renováveis. O Brasil tem tudo para chegar na metade do século XXI como um país desenvolvido, democrático, um mercado interno com proporções extraordinárias e importante participação política no mundo. Não vejo nenhuma restrição. O pré-sal é uma garantia, que vai aparecer entre 2014 e 2015. Até lá o câmbio flutuante e as reservas que temos vão dar conta desse processo de endividamento nas transações correntes. Não vamos voltar a nos endividar nos níveis que nos endividamos no passado, quando ocorreram crises nos anos 80 e 90. Isso dá uma perspectiva nova para o nosso crescimento. O pré-sal é uma espécie de seguro contra os riscos do passado.
Valor: A aposta nesta década que se inicia deve ser o petróleo?
Delfim : O petróleo é século XX, temos de reservá-lo para seu uso mais nobre, que é a indústria química. O Brasil tem tudo para ser um participante extraordinário nisso. Sem o comércio exterior robusto, nenhuma indústria brasileira consegue a dimensão ótima. O comércio exterior é um complemento fundamental do mercado interno.
Valor: O que o sr. acha da queda na balança comercial, que sai de US$ 25 bilhões no ano passado para pouco acima de zero, como prevê o governo, neste ano?
Delfim : A política cambial brasileira é um desastre. É uma ilusão em um país pobre como o Brasil, cujo câmbio é um ativo financeiro manipulado por forças que ele não conhece, ficar defendendo a ideia de que é o mercado quem produz o equilíbrio cambial adequado. Essa ilusão é dirigida por esse mito do fundamentalismo mercadista de que a taxa de câmbio é um fenômeno natural, que intervir é um pecado capital, uma violação às leis divinas. O real valorizado está destruindo nossas cadeias produtivas. Isso está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada. Nós temos que continuar insistindo na diversificação das exportações, no aperfeiçoamento dos ganhos de valor adicionado interno.
Valor: Como isso pode ser feito com câmbio valorizado?
Delfim: Fico espantado de ver as mesmas pessoas que diziam que o câmbio de R$ 1,60 era ruim, agora pedindo para o BC vender dólar a fim de evitar que a cotação alcance R$ 2,00. Sabe qual é a explicação disso? É que as mesmas experiências de derivativos tóxicos realizadas por empresas no período pré-crise estão sendo realizadas agora. Acho que o governo deveria explodi-los mesmo. Nós já fizemos o que podíamos fazer por eles. Daqui para frente é usar o regime iraquiano, que é a limpeza do sistema.
Valor: Das empresas que operam com derivativos de câmbio?
Delfim : O hedge é a coisa mais perfeita que existe. Mas quem usou hedge para especular com a cotação não pode continuar. Não tem nenhuma importância, o patrimônio está aí. Arranja-se um comprador, o BNDES dá um dinheiro, substitui-se a gestão e pronto, melhora.
Valor: A China, com seu câmbio desvalorizado praticamente fixo ao dólar, é um exemplo?
Delfim : Não, e, aliás, do jeito que está, se a China não fechar um acordo razoável de valorização de sua moeda veremos aumento do protecionismo e redução do movimento de capitais. Só um país descerebrado pode pensar que o yuan [a moeda chinesa] vai ser uma moeda internacional. Moeda é confiança. Quem confia no Partido Comunista chinês? Nem os comunistas confiam.
Valor: O que o sr. acha dos candidatos a presidente?
Delfim : A gente só vai julgar os candidatos com seus programas. A coisa mais fundamental é chamar a atenção dos eleitores para um debate novo. Há uns candidatos que chamo de “vendedor de óleo de cobra”, que era aquele sujeito do Velho Oeste que vendia uma solução para qualquer problema, de unha do pé encravada a tumor cerebral. Tem outros que vão vender as coisas possíveis. Temos de insistir em determinados assuntos. O eleitor precisa entender que existem sim limites físicos que não são manipuláveis por nenhum vendedor de óleo de cobra. Que crescimento rápido hoje exige menor consumo. Aumento do consumo hoje significa redução do crescimento amanhã. Portanto, por maior que seja o desejo de redistribuir e crescer, existe um limite físico para isso.
Valor: Algum candidato vai defender consumo menor?
Delfim : Essa é a tarefa da mídia. Não é o candidato que vai dizer isso – embora espere que digam.
Chomsky: A compra direta das eleições
A apropriação da democracia dos EUA pelas empresas
Com a decisão do Supremo Tribunal dos EUA de 21 de Janeiro deste ano, os gestores das empresas podem passar a comprar eleições directamente.
Por Noam Chomsky, na Esquerda.Net
O dia 21 de Janeiro de 2010 irá permanecer como um dia sombrio na história da democracia dos EUA e do seu declínio.
Nesse dia, o Supremo Tribunal dos EUA decidiu que o governo não poderá impedir as empresas de fazer gastos políticos nas eleições - uma decisão que afecta profundamente a política governamental, quer interna quer externa.
A decisão marca ainda mais a apropriação pelas empresas do sistema político dos EUA. Para os editores do The New York Times, a decisão "atinge o coração da democracia" tendo "aberto caminho para as empresas usarem as suas vastas tesourarias para dominar as eleições e pressionar os políticos eleitos a cumprir as suas ordens."
O Tribunal estava dividido, 5-4, com os quatro juízes reaccionários (erradamente designados "conservadores") a receber o apoio do Juiz Anthony M. Kennedy. O Presidente do Supremo, John G. Roberts Jr., escolheu um caso que poderia ter sido facilmente resolvido em esferas mais baixas e manobrou o tribunal, usando-o para impor uma decisão de grande alcance, que derruba um século de precedentes restringindo as contribuições das empresas para campanhas federais.
Agora, os gestores das empresas podem efectivamente comprar eleições directamente, ultrapassando meios indirectos mais complexos. É bem sabido que as contribuições das empresas, embrulhadas por vezes em formas complexas, podem inclinar a balança nas eleições, conduzindo dessa forma a política. O tribunal acabou de atribuir muito mais poder ao pequeno sector da população que domina a economia.
A "teoria do investimento político" do economista político Thomas Ferguson é um prognóstico bastante eficaz da política do governo durante um longo período. A teoria interpreta as eleições como ocasiões em que segmentos do poder do sector privado se unem para investir no controlo do Estado.
A decisão de 21 de Janeiro apenas reforça os meios para minar o funcionamento da democracia.
O contexto é esclarecedor. No seu voto de vencido, o juiz John Paul Stevens reconheceu que "há muito que sustentamos a ideia de que as empresas estão cobertas pela Primeira Emenda" - a garantia constitucional da liberdade de expressão, que incluiria o apoio aos candidatos políticos.
No início do século XX, os teóricos de Direito e os tribunais implementaram a decisão do tribunal de 1886 pela qual as empresas - "estas entidades legais colectivistas" - têm os mesmos direitos que as pessoas de carne e osso.
Este ataque ao liberalismo clássico foi duramente condenado por uma espécie de conservadores em extinção. Christopher G. Tiedeman descreveu o princípio como "uma ameaça à liberdade do indivíduo e à estabilidade dos Estados norte-americanos enquanto governos populares."
Morton Horwitz escreve na sua história do Direito que o conceito de personalidade empresarial evoluiu paralelamente à mudança do poder dos accionistas para os gestores, e finalmente para a doutrina em que "os poderes do conselho de administração são idênticos aos poderes da empresa." Anos mais tarde, os direitos das empresas foram expandidos muito além das pessoas, nomeadamente pelos mal designados "acordos de livre comércio." Segundo esses acordos, por exemplo, se a General Motors instalar uma fábrica no México, pode exigir que seja tratada como qualquer negócio mexicano ("tratamento nacional") - ao contrário de um mexicano de carne e osso que procure "tratamento nacional" em Nova York, ou mesmo os direitos humanos mínimos.
Há um século atrás, Woodrow Wilson, na altura um académico, descreveu uma América na qual "grupos comparativamente pequenos de homens," gestores empresariais, "detêm um poder e controlo sobre a riqueza e as operações de negócios do país," tornando-se "rivais do próprio governo."
Na verdade, estes "pequenos grupos" tornaram-se cada vez mais os donos do governo. O tribunal de Roberts deu-lhes um alcance ainda maior.
A decisão de 21 de Janeiro chegou três dias depois de uma outra vitória para a riqueza e o poder: a eleição do candidato republicano Scott Brown para substituir o falecido senador Edward M. Kennedy, o "leão liberal" de Massachusetts. A eleição de Brown foi descrita como uma "vaga populista" contra as elites liberais que lideram o governo.
Os dados da votação revelam uma história bastante diferente.
Elevados índices de participação nos subúrbios ricos, e baixos nas áreas urbanas maioritariamente democratas, ajudaram a eleger Brown. "Cinquenta e cinco por cento dos eleitores republicanos afirmaram estar 'bastante interessados' na eleição", informou a sondagem do Wall St. Journal/NBC, "comparado com os 38% dos democratas."
Assim, os resultados foram de facto um acto de revolta contra as políticas do presidente Obama: para os ricos, ele não estava a fazer o suficiente para enriquecê-los ainda mais, enquanto que para os sectores mais pobres estava a fazer demasiado para atingir esse fim.
A irritação popular é bastante compreensível, dado que os bancos estão a prosperar, graças às ajudas do governo, enquanto o desemprego aumentou para 10%.
No sector industrial, uma em cada seis pessoas está desempregada - um desemprego ao nível da Grande Depressão. Com a financiarização crescente da economia e o esvaziamento da indústria produtiva, as perspectivas são sombrias para a recuperação dos empregos perdidos.
Brown apresentou-se a si mesmo como o 41º voto contra o sistema de saúde - ou seja, o voto que poderia minar a maioria do Senado dos EUA.
É verdade que o programa de cuidados de saúde de Obama foi um factor importante na eleição de Massachusetts. Os títulos dos jornais estão correctos quando se lê que a população está a voltar-se contra o programa.
As sondagens explicam porquê: o projecto de lei não vai suficientemente longe. A sondagem do Wall St. Journal/NBC demonstra que a maioria dos eleitores desaprova a forma como tanto os republicanos quanto Obama têm lidado com a reforma do sistema de saúde.
Estes números estão de acordo com as recentes sondagens nacionais. A opção do sistema público foi apoiada por 56% dos entrevistados, e a adesão ao Medicare aos 55 anos de idade foi apoiada por 64%; ambos os programas foram abandonados.
Oitenta e cinco por cento acreditam que o governo deveria ter o direito de negociar o preço dos medicamentos, como acontece noutros países; Obama garantiu à indústria farmacêutica que não irá seguir em frente com essa opção.
Largas maiorias são a favor da redução de custos, o que faz todo o sentido: os custos per capita dos EUA para o sistema de saúde são cerca do dobro relativamente a outros países industrializados, e os resultados da saúde estão a regredir.
Mas a redução de custos não pode ser levada a cabo seriamente quando as indústrias farmacêuticas são agraciadas, e o sistema de saúde está nas mãos das seguradoras privadas praticamente desreguladas - um sistema peculiar bastante caro aos E.U.A.
A decisão de 21 de Janeiro levanta novas barreiras significativas para ultrapassar a grave crise no sistema de saúde, ou para lidar com questões críticas como as ameaçadoras crises ambiental e energética. O hiato entre a opinião pública e a política pública avizinha-se crescente. E o prejuízo para a democracia norte-americana dificilmente pode ser sobrevalorizado.
Publicado em Znet
Traduzido por: Sara Vicente
Com a decisão do Supremo Tribunal dos EUA de 21 de Janeiro deste ano, os gestores das empresas podem passar a comprar eleições directamente.
Por Noam Chomsky, na Esquerda.Net
O dia 21 de Janeiro de 2010 irá permanecer como um dia sombrio na história da democracia dos EUA e do seu declínio.
Nesse dia, o Supremo Tribunal dos EUA decidiu que o governo não poderá impedir as empresas de fazer gastos políticos nas eleições - uma decisão que afecta profundamente a política governamental, quer interna quer externa.
A decisão marca ainda mais a apropriação pelas empresas do sistema político dos EUA. Para os editores do The New York Times, a decisão "atinge o coração da democracia" tendo "aberto caminho para as empresas usarem as suas vastas tesourarias para dominar as eleições e pressionar os políticos eleitos a cumprir as suas ordens."
O Tribunal estava dividido, 5-4, com os quatro juízes reaccionários (erradamente designados "conservadores") a receber o apoio do Juiz Anthony M. Kennedy. O Presidente do Supremo, John G. Roberts Jr., escolheu um caso que poderia ter sido facilmente resolvido em esferas mais baixas e manobrou o tribunal, usando-o para impor uma decisão de grande alcance, que derruba um século de precedentes restringindo as contribuições das empresas para campanhas federais.
Agora, os gestores das empresas podem efectivamente comprar eleições directamente, ultrapassando meios indirectos mais complexos. É bem sabido que as contribuições das empresas, embrulhadas por vezes em formas complexas, podem inclinar a balança nas eleições, conduzindo dessa forma a política. O tribunal acabou de atribuir muito mais poder ao pequeno sector da população que domina a economia.
A "teoria do investimento político" do economista político Thomas Ferguson é um prognóstico bastante eficaz da política do governo durante um longo período. A teoria interpreta as eleições como ocasiões em que segmentos do poder do sector privado se unem para investir no controlo do Estado.
A decisão de 21 de Janeiro apenas reforça os meios para minar o funcionamento da democracia.
O contexto é esclarecedor. No seu voto de vencido, o juiz John Paul Stevens reconheceu que "há muito que sustentamos a ideia de que as empresas estão cobertas pela Primeira Emenda" - a garantia constitucional da liberdade de expressão, que incluiria o apoio aos candidatos políticos.
No início do século XX, os teóricos de Direito e os tribunais implementaram a decisão do tribunal de 1886 pela qual as empresas - "estas entidades legais colectivistas" - têm os mesmos direitos que as pessoas de carne e osso.
Este ataque ao liberalismo clássico foi duramente condenado por uma espécie de conservadores em extinção. Christopher G. Tiedeman descreveu o princípio como "uma ameaça à liberdade do indivíduo e à estabilidade dos Estados norte-americanos enquanto governos populares."
Morton Horwitz escreve na sua história do Direito que o conceito de personalidade empresarial evoluiu paralelamente à mudança do poder dos accionistas para os gestores, e finalmente para a doutrina em que "os poderes do conselho de administração são idênticos aos poderes da empresa." Anos mais tarde, os direitos das empresas foram expandidos muito além das pessoas, nomeadamente pelos mal designados "acordos de livre comércio." Segundo esses acordos, por exemplo, se a General Motors instalar uma fábrica no México, pode exigir que seja tratada como qualquer negócio mexicano ("tratamento nacional") - ao contrário de um mexicano de carne e osso que procure "tratamento nacional" em Nova York, ou mesmo os direitos humanos mínimos.
Há um século atrás, Woodrow Wilson, na altura um académico, descreveu uma América na qual "grupos comparativamente pequenos de homens," gestores empresariais, "detêm um poder e controlo sobre a riqueza e as operações de negócios do país," tornando-se "rivais do próprio governo."
Na verdade, estes "pequenos grupos" tornaram-se cada vez mais os donos do governo. O tribunal de Roberts deu-lhes um alcance ainda maior.
A decisão de 21 de Janeiro chegou três dias depois de uma outra vitória para a riqueza e o poder: a eleição do candidato republicano Scott Brown para substituir o falecido senador Edward M. Kennedy, o "leão liberal" de Massachusetts. A eleição de Brown foi descrita como uma "vaga populista" contra as elites liberais que lideram o governo.
Os dados da votação revelam uma história bastante diferente.
Elevados índices de participação nos subúrbios ricos, e baixos nas áreas urbanas maioritariamente democratas, ajudaram a eleger Brown. "Cinquenta e cinco por cento dos eleitores republicanos afirmaram estar 'bastante interessados' na eleição", informou a sondagem do Wall St. Journal/NBC, "comparado com os 38% dos democratas."
Assim, os resultados foram de facto um acto de revolta contra as políticas do presidente Obama: para os ricos, ele não estava a fazer o suficiente para enriquecê-los ainda mais, enquanto que para os sectores mais pobres estava a fazer demasiado para atingir esse fim.
A irritação popular é bastante compreensível, dado que os bancos estão a prosperar, graças às ajudas do governo, enquanto o desemprego aumentou para 10%.
No sector industrial, uma em cada seis pessoas está desempregada - um desemprego ao nível da Grande Depressão. Com a financiarização crescente da economia e o esvaziamento da indústria produtiva, as perspectivas são sombrias para a recuperação dos empregos perdidos.
Brown apresentou-se a si mesmo como o 41º voto contra o sistema de saúde - ou seja, o voto que poderia minar a maioria do Senado dos EUA.
É verdade que o programa de cuidados de saúde de Obama foi um factor importante na eleição de Massachusetts. Os títulos dos jornais estão correctos quando se lê que a população está a voltar-se contra o programa.
As sondagens explicam porquê: o projecto de lei não vai suficientemente longe. A sondagem do Wall St. Journal/NBC demonstra que a maioria dos eleitores desaprova a forma como tanto os republicanos quanto Obama têm lidado com a reforma do sistema de saúde.
Estes números estão de acordo com as recentes sondagens nacionais. A opção do sistema público foi apoiada por 56% dos entrevistados, e a adesão ao Medicare aos 55 anos de idade foi apoiada por 64%; ambos os programas foram abandonados.
Oitenta e cinco por cento acreditam que o governo deveria ter o direito de negociar o preço dos medicamentos, como acontece noutros países; Obama garantiu à indústria farmacêutica que não irá seguir em frente com essa opção.
Largas maiorias são a favor da redução de custos, o que faz todo o sentido: os custos per capita dos EUA para o sistema de saúde são cerca do dobro relativamente a outros países industrializados, e os resultados da saúde estão a regredir.
Mas a redução de custos não pode ser levada a cabo seriamente quando as indústrias farmacêuticas são agraciadas, e o sistema de saúde está nas mãos das seguradoras privadas praticamente desreguladas - um sistema peculiar bastante caro aos E.U.A.
A decisão de 21 de Janeiro levanta novas barreiras significativas para ultrapassar a grave crise no sistema de saúde, ou para lidar com questões críticas como as ameaçadoras crises ambiental e energética. O hiato entre a opinião pública e a política pública avizinha-se crescente. E o prejuízo para a democracia norte-americana dificilmente pode ser sobrevalorizado.
Publicado em Znet
Traduzido por: Sara Vicente
HERÓIS BRASILEIROS - Carlos Marighella ganha título de cidadão paulistano

Carlos Marighella ganha título de cidadão paulistano
publicada domingo, 25/10/2009 às 20:55 e atualizado quarta, 28/10/2009 às 01:28 |
O jornalista Pedro Venceslau relembra, na edição de novembro da revista "Fórum", as circunstâncias da morte de Carlos Marighella, lendário líder comunista - que rompeu com o velho PCB e, nos anos 60, ajudou a criar a ALN (grupo guerrilheiro que lutou contra a ditadura militar).
No próximo dia 4, completam-se 40 anos da morte de Marighella - assassinado numa emboscada chefiada pelo delegado Fleury, em São Paulo.
Quem se interessa pelo assunto pode ler "O Batismo de Sangue", de Frei Betto. O livro conta como a prisão de religiosos da ordem dominicana em São Paulo (barbaramente torturados) ajudou a polícia a localizar Marighella.
O líder da ALN vai virar filme em 2010. E ganhará também o título de cidadão pauliatano. Tudo isso você confere na "Fórum" - http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/NoticiasIntegra.asp?id_artigo=7664.
Sei também que um dos mais competentes jornalistas da nova geração (agora já não tão nova assim), Mário Magalhães, prepara uma biografia sobre Marighlella.
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CARLOS MARIGHELLA SERÁ CIDADÃO PAULISTANO - Por Pedro Venceslau
Quarenta anos depois de ser assassinado pelos militares, o mitológico Carlos Marighella, fundador da Ação Libertadora Nacional, ganhará o título de “Cidadão Paulistano”. A honraria póstuma será condedida dia 4, na Câmara Municipal, por iniciativa do vereador petista Ítalo Cardoso.
Essa será apenas uma das homenagens. Também no dia 4, sua ex-companheira, Clara Charf, comanda cerimônia na Alameda Casa Branca, local do crime. “Vamos colocar flores no local ele foi morto”, conta Clara. O guerrilheiro foi surpreendido por uma emboscada do DOPS, em ação coordenada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury. Para fechar o ciclo, o Museu da Resistência, no antigo DOPS, receberá uma exposição sobre Marighella, que começa dia 7 com a presença de Paulo Vannuchi, ministro dos Direitos Humanos.
“Carlos Marighella é parte da história brasileira. ele acreditava que a principal tarefa era a libertação nacional e o fim da ditadura, para retomar o fio da história”, diz o ex-ministro José Dirceu. Em 2010, a história do líder da ALN será contada em um longa metragem, que está sendo produzido pela cineasta Isa Grinspun. Nascido em Salvador, em 5 de dezembro de 1911, Marighella completaria 98 anos em 2009. A edição de novembro de Fórum contará sua história.
(Confira na edição de novembro da revista Fórum matéria especial que relembra o assassinato de Marighella)
As pedras do cais já não são o único monumento para o Almirante Negro

Rodrigo Vianna
“Salve, o navegante* negro, que tem por monumento as pedras pisadas do cais”.
Se você tem mais de 30 anos, já deve ter ouvido esses versos, na interpretação belíssima de Elis Regina.
A letra é de Aldir Blanc – um dos maiores compositores da MPB, carioca da zona norte, vascaíno, homem simples e erudito ao mesmo tempo.
Nos anos 70, Aldir Blanc (em parceria com João Bosco) fez o que nossa escola não fazia: contou a história de João Cândido, marinheiro que, em 1910, comandou a “Revolta da Chibata” - rebelião contra os castigos corporais que, em pleno século XX, ainda eram adotados pela gloriosa Marinha brasileira.
Onze anos atrás, eu era repórter na Globo do Rio. Tim Lopes era produtor. Trabalhei com ele em algumas reportagens. A mais bacana foi essa, levada ao ar em 20 de novembro de 1997: Tim descobriu que o povo da Baixada Fluminense tinha montado uma exposição sobre João Cândido, e resolvemos aproveitar o dia de Zumbi (como era chamado o 20 de novembro), pra falar de João Cândido, herói negro menos conhecido.
Tim não gostava do circuito jornalístico da zona sul. Criado no pé do Morro da Mangueira, negro, filho de militar, ele já era um jornalista consagrado naquele tempo, mas não esquecera suas origens. “Eu gosto de falar sobre o meu povo, eu gosto de matéria com o pé no chão”, ensinava ele para este paulistano branquela, durante as sessões de muito chopp no Calamares ( misto de boteco e restaurante, no Jardim Botânico, ao lado da Globo do Rio).
Vocês sabem que a turma que hoje está na direção da Globo não gosta muito de mim. E eu não gosto deles. Mas, o pessoal que cuida do site do "JN" não deve saber disso. Hoje, achei até engraçado: na primeira página do "JN", na internet, há um link pra matéria que eu fiz com o Tim Lopes há onze anos, sobre João Cândido. É aquela coisa curta, de telejornal. Ainda assim, foi uma vitória botar no ar. Na época, vibramos muito: Tim, eu e a Cristina Aragão (ótima editora que hoje cuida do “Arquivo N”, da Globo News). O link pra matéria está aqui.
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM914351-7823-DIA+DA+CONSCIENCIA+NEGRA+RELEMBRA+A+HISTORIA+DE+JOAO+CANDIDO,00.html
Confesso que fiquei emocionado quando li, hoje, uma outra notícia no jornal: Lula inaugurou um monumento a João Cândido no porto do Rio. Até hoje, o único monumento a ele, como dizia Aldir Blanc, eram as “pedras pisadas do cais”. Agora, o Almirante Negro ganhou uma estátua. O presidente da República estava lá , na Praça 15, e disse: "precisamos aprender a transformar nossos mortos em heróis". Isso não é pouco! Basta dizer que até hoje a Marinha rechaça a figura de João Cândido.
O Centro de Comunicação Social da Marinha disse ao repórter Mario Magalhães, da "Folha", que nao reconhece "heroísmo nas ações daquele movimento", classificado como um "triste episódio da história do país".
Triste ou vergonhoso?
Registros da época dão conta que 2 mil marinheiros se sublevaram contra a prática de punir com chibatadas os militares considerados indisciplinados. A revolta durou 4 dias e terminou com vários mortos, incluindo alguns oficiais. Será que foi isso que a Marinha classificou como "triste"? Ou "triste" era o fato de os marinheiros serem punidos com chibatadas?
Explulso da Marinha, João Cândido terminou seus dias na pobreza; dizem que vendia peixe no cais do Rio para ganhar uns trocados. Agora, ganhou um monumento.
Representantes de nossa Armada não foram à inauguração da estátua. Isso, sim, eu acho muito triste! Mostra que mentalidade ainda comanda as Forças Armadas no Brasil. Mas, azar o dessa gente, que ainda carrega nas costas essa história vergonhosa.
João Cândido, esse carrega uma história de heroísmo e glória!
Viva o Almirante Negro! Viva Tim Lopes! Viva Aldir Blanc! Viva nossa Brava Gente Brasileira.
*a letra original falava em “almirante” negro; mas, como os tempos eram de ditadura, a censura obrigou Aldir Blanc e João Bosco a trocar “almirante” por “navegante negro”.
Neste link, você encontra a letra original, e a que foi censurada pelos militares: http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/revoltachibata.html.
EMPREGO - Criação de empregos formais bate recorde em janeiro, diz governo
ImprimirEnviarCorrigirNotícias SMSFale ConoscoA economia brasileira criou 181.419 postos de trabalho com carteira assinada em janeiro, informou o Ministério do Trabalho nesta quinta-feira. Trata-se do recorde para o mês, segundo o governo.
Indústria bate recorde de geração de vagas, diz Lupi
O número faz parte do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado nesta quinta-feira.
O resultado ficou bem acima dos 142 mil empregos criados em janeiro de 2008, até então o maior patamar. No dia 5 de fevereiro, o ministro Carlos Lupi havia previsto que este número seria superado.
Lupi destacou que o resultado do Caged reflete a recuperação da economia depois de um período de crise. Ele voltou a estimar a criação de 2 milhões de postos de trabalho até o final do ano e disse que "2010 vai ser o melhor ano do emprego".
Admissões e desligamentos
Em janeiro de 2010, o Caged registrou um total de 1.410.462 admissões em postos formais de emprego e 1.229.043 desligamentos. Com isso, o saldo líquido do Caged ficou positivo em 181.419 vagas com carteira assinada - crescimento de 0,55%.
Regiões
O maior número de vagas abertas foi verificado na região Sudeste - 79.652 vagas. Deste total, 51.159 só em São Paulo. Em relação às taxas de crescimento, a região Centro-Oeste liderou com 1% - acima da média nacional. A região Sul também teve porcentual superior, de 0,86%.
Em relação aos setores da economia, a construção civil foi responsável pela maior parcela do crescimento - alta de 2,40%. Já em relação ao total de vagas criadas, a indústria detém o maior número, com 68.920 novas vagas.
Em 12 meses, até janeiro deste ano, o número de vagas abertas é de 1.278.277 - diferença entre 16.381.552 contratações e 15.103.275 desligamentos -, crescimento de 4,01% em relação ao mesmo período do ano passado.
(Com Reuters, Agência Brasil e Agência Estado)
Indústria bate recorde de geração de vagas, diz Lupi
O número faz parte do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado nesta quinta-feira.
O resultado ficou bem acima dos 142 mil empregos criados em janeiro de 2008, até então o maior patamar. No dia 5 de fevereiro, o ministro Carlos Lupi havia previsto que este número seria superado.
Lupi destacou que o resultado do Caged reflete a recuperação da economia depois de um período de crise. Ele voltou a estimar a criação de 2 milhões de postos de trabalho até o final do ano e disse que "2010 vai ser o melhor ano do emprego".
Admissões e desligamentos
Em janeiro de 2010, o Caged registrou um total de 1.410.462 admissões em postos formais de emprego e 1.229.043 desligamentos. Com isso, o saldo líquido do Caged ficou positivo em 181.419 vagas com carteira assinada - crescimento de 0,55%.
Regiões
O maior número de vagas abertas foi verificado na região Sudeste - 79.652 vagas. Deste total, 51.159 só em São Paulo. Em relação às taxas de crescimento, a região Centro-Oeste liderou com 1% - acima da média nacional. A região Sul também teve porcentual superior, de 0,86%.
Em relação aos setores da economia, a construção civil foi responsável pela maior parcela do crescimento - alta de 2,40%. Já em relação ao total de vagas criadas, a indústria detém o maior número, com 68.920 novas vagas.
Em 12 meses, até janeiro deste ano, o número de vagas abertas é de 1.278.277 - diferença entre 16.381.552 contratações e 15.103.275 desligamentos -, crescimento de 4,01% em relação ao mesmo período do ano passado.
(Com Reuters, Agência Brasil e Agência Estado)
terça-feira, fevereiro 16, 2010
Serra: a favor da elite e contra o povo brasileiro
COMENTÁRIO E&P
A mídia sempre trata o Serra como um sujeito preparado e competente. Após ser prefeito de São Paulo e não ter implantado nenhum projeto novo, ao contrário destriuu os programas de inclusão social do governo Marta e ser governador em que no Estado de São Paulo também não houve nenhuma grande gestão, a conclusão é que Serra é um simulacro fabricado pela imprensa e sempre a favor dos interesses da elite vassala desse país. Elite vassala, porque não temos uma elite clássica no Brasil. A faixa dos mais ricos não está preocupada com o desenvolvimento social e econômico do país. A elite age como capitã do mato, defendendo os interesses estrangeiros em detrimento dos nacionais. Dessa forma ela se sente cosmopolita. Isso acontece muito no jornalismo brasileiro. Quanto mais defende idéias que vão contra o país, maior é o seu espaço. E Serra os tucanos representam essa pseudo elite.
sábado, fevereiro 13, 2010
PÉROLA - BARRACÃO DE ZINCO
Essa é uma das grandes preciosidades da música nacional e ouso dizer universal. Elizeth Cardoso cantando Barracão de Zinco ao vivo com Jacob do Bandolim. Alguém grita Bravo! como num grande concerto. E é um grande concerto de música brasileira. Simplesmente genial. E & P
Para quem gosta de aviação, 4 dos melhores caças da atualidade
Possivelmente o Brasil vai adquirir o Rafale para equipar a FAB. é um projeto estratégico com a França.
Zé Alagão chama manifestante de ‘energúmeno’

Para Zé Alagão é errado fazer manifestações
Saiu no JB online:
Vaiado por professores, Serra bate-boca e xinga manifestante
Chico Siqueira, Portal Terra
ARAÇATUBA – O governador de São Paulo José Serra e o secretário de Educação do Estado Paulo Renato Souza foram vaiados nesta sexta-feira por professores e representantes do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) durante cerimônia para entrega de 57 ônibus escolares, na praça central de Guararapes, distante a 560 km de São Paulo. Irritado, com os constantes gritos de manifestantes que diziam “Serra Nunca Mais”, “Mentiroso” e “Pedágio”, Serra bateu-boca e xingou por duas vezes um empresário que protestava, enquanto andava em direção o palanque.
Das 150 pessoas que assistiam ao discurso, 50 eram manifestantes que, portando faixas, cartazes e narizes de palhaço, promoviam um apitaço e gritavam palavras de protesto contra a política para a educação do governo.
O manifestante cortou o discurso do governador quando este pedia ajuda dos prefeitos para uma rede de atendimentos de deficientes físicos. “Interna no Mandaqui, interna no Mandaqui (hospital do Mandaqui, na cpital, especializado em politraumatismo)”, disse o empresário, interrompendo o discurso do governador.
Confundindo o empresário com os manifestantes, Serra revidou: “Este energúmeno que está gritando é contra a educação, contra o atendimento dos cegos, contra os deficientes físicos, contra os ônibus escolares, é contra o Acesso São Paulo, é contra tudo e contra a maioria que está aqui”, disse, sendo aplaudido pelos presentes, enquanto o empresário revidava: “Energúmeno é o governo, energúmeno é o governo.”
COMENTÁRIO E & P
Aos poucos Serra está ficando nu, como naquela fábula em que um menino nos ombros do pai, coloca aquilo que todos estão vendo, mas ninguém tem coragem de dizer que o rei está nu. Serra é um político que age nas sombras de forma sinistra. Sua especialidade é fabricar dossiês contra os inimigos políticos, pois para Serra não há adversários e sim inimigos que devem ser destruído. A sua psique é necrófila, nada que ele inicia termina. Entrou no curso de engenharia na Poli, e foi eleito presidente da UNE. Ao contrário dos outros membros da diretoria, assim que se instalou o golpe de estado de 1964, ele fugiu do país, revelando ai também uma parte da personalidade do tucano, a covardia de enfrentar adversidades. É por isso que domina, via dinheiro público do orçamento estadual e afinidade ideológica, a Folha de São Paulo, a Rede Globo, a Veja a Bandeirantes e o Estado de São Paulo. Pois, bem Serra não terminou o curso de engenharia nem o mandato da UNE. Estudou economia no chile, mas não terminou, foi prefeito de São Paulo, mas não terminou e como governador, também não terminará o mandato. José Serra é do tipo que usa da mentira para governar. Ao colocar unicamente as causas das enchentes em São Paulo à chuva, ele foge das suas responsabilidades de não ter desassoreado o rio Tietê, que compete ao Estado tal função. Serra é medíocre. No meio de tanta mazela, qual a importância da Madonna, a não ser criar um factóide político? O ogovernador é autoritário, São Paulo vive um regime de exceção, em que ele controla a justiça e a imprensa. Não dialoga com os movimentos sociais e se mostra um desequilibrado ao se confrontar com qualquer manifestação. Maquiavelicamente jogou a polícia militar contra a civil e depois no Datena da Rede Bandeirantes, disse que era culpa do PT. Isso ajudou o seu poste, Gilberto Kassab, que a partir desse evento melhorou na intenção de voto para a prefeitura em 2008. Serra ainda precisa dizer ao país qual o motivo que e o levou a ir embora, sendo presidente da UNE, após o golpe de 1964, quem financiou os seus estudos e se ele tem alguma ligação com alguma agência de "ineligência" estadunidense. O Serra está nu e é isso que a população está percebendo.
Mino Carta: FHC é pecador contumaz

Na foto, FHC, morto de inveja de Mozart
O Conversa Afiada publica o editorial de Mino Carta, na Carta Capital desta semana:
Pecado capital
É do conhecimento até do mundo mineral que Fernando Henrique é vaidoso. Mesmo os amigos mais chegados lhe apontam o pecado desde os tempos em que iam às calçadas paulistanas na noite da corrida de São Silvestre para torcer pelo tcheco Emil Zatopek, a “locomotiva humana”, por enxergar nele o perfeito representante do império soviético.
Pecado capital, a vaidade, segundo os católicos. Se esse aspecto da personalidade do ex-presidente não passa despercebido aos olhos do Pão de Açúcar e da Pedra do Baú, imaginem o que se dá com Lula, um expert em FHC. As mais recentes reações do príncipe dos sociólogos às comparações promovidas na área petista entre seu governo e o de Lula servem somente para demonstrar que FHC é pecador contumaz, de sorte a alegrar seus adversários e, assim me parece, inquietar José Serra.
Se a vaidade de FHC se estabelece, Lula vence, pois é exatamente a vitória que procura. O presidente montou o ardil, o ex-presidente caiu na esparrela. Adaptou-se ao esquema do plebiscito convocado peremptoriamente pelo atual titular sem perceber o erro pueril que estava a cometer. Vanitas vanitatum, diriam os antigos romanos. Dona Dilma esfrega as mãos de puro contentamento.
Interessantes as repercussões na mídia nativa. O Estadão, por exemplo, com patética insistência, orgulha-se por ter publicado no domingo 7 o artigo de FHC que abre fogo e que teria seguimento na segunda com novos, comovedores esforços do ex-presidente para levar lenha à lareira petista. Já a Folha de S.Paulo na terça levanta claras dúvidas quanto à conveniência das atitudes fernandistas a contrariar a estratégia do governador Serra. O qual, anote-se, fecha-se em copas.
O jornal tem sido bom intérprete do pensamento serrista, de sorte a induzir a impressão de que expõe, de fato, o desconforto do pré-candidato. E chega ao ponto de colocar em papel impresso aquilo que FHC não disse e deveria ter dito a bem da verdade factual. No caso da taxa de pobreza, ela permaneceu estável de 1996 a 2002, caiu “de forma aguda” somente sob Lula. A Folha lembra também que o salário mínimo cresceu mais no governo atual e que as dívidas interna e externa fermentaram à desmesura à sombra do tucanato.
Apesar de tudo, a Folha foi generosa com o ex-presidente, aquele que o mundo nos invejou, não é mesmo? Aliás, Lula atingiu uma popularidade mundial com que FHC nunca sonhou, graças também a uma política exterior conduzida com extrema competência, enquanto o antecessor, protegido de Clinton, atrelou-se passivamente à vontade americana e professou a religião neoliberal. Quem sabe, no caso dê o ar de sua graça outro pecado capital: a inveja, ótima aliada da vaidade.
Há, entretanto, comparações mais preocupantes, digamos assim. Fernando Henrique quebrou o Brasil três vezes e sua obra-prima em matéria foi realizada para garantir o segundo mandato, quando, em campanha, prometeu a estabilidade do real para desvalorizá-lo doze dias depois de empossado. Antes, votos de parlamentares haviam sido comprados para assegurar a alteração constitucional.
E nem se fale das privatizações, colossal bandalheira sem precedentes na história pátria, tormentosa época em que a turma da equipe econômica se referia a FHC como a “bomba atômica”. E também evitemos referências à chacina de Eldorado dos Carajás, perpetrada pela polícia de um governador tucano pronta a atirar em lavradores do MST. Dezenove morreram diante do descaso do presidente da República.
E por que não evocar a figura onipresente de Daniel Dantas, o banqueiro do Opportunity, favorecido pelas privatizações e pela condescendência de FHC, que mais de uma vez lhe fez as vontades? Ou não seria mais verdadeira a recíproca? Ou, por outra, a condescendência de Dantas em relação ao presidente da República e ao tucanato em geral?
Certo é que FHC fortalece a ideia do plebiscito, tão cara e pacientemente cultivada pelo adversário.
COMENTÁRIO E&P
Muito bem Mino! Na "jestão" FHC o Brasil virou uma colônia dos Estados Unidos. O próprio FHC ligou para Clinton para dizer que a Raytheon tinha ganho um presentão. O SIVAM. Dizem que os estadunidenses instalaram o sistema, mas podem ter acesso a todas as informações coletadas. Que beleza! Ganhar US$ 1 bilhão e ainda ter gratuitamente as informações da Amazônia. O Celso Lafer não honrou o país, miseravelmente tirou os sapatos para entrar nos Estados Unidos. Era suspeito de ser terrorista! A banca tucana se locupletou, foi um festival de economistas conservadores que ficaram ricos de repente. E o Gustavo Franco que enganou todo mundo dizendo que o câmbio não estava sobrevalorizado. Eu estudava na PUC-SP, nessa época e tivemos uma palestra de um físico que estava fazendo doutorado em economia na USP que atestava matematicamente que o câmbio estava no ponto de equilíbrio. Tive vontade de dizer-lhe que era balela, pois era só observar o balanço de pagamentos e os déficits seguidos para ver que Gustavo Franco estava nu e o câmbio estava de fato sobrevalorizado. Naqueles dias não adiantava, pois o Sardenberg e a Miriam Leitão martelavam dia e noite que estávamos no paraíso. Na verdade estávamos no inferno, pois essa política nefasta desempregou 10 milhões de brasileiros. É por essas e outras que o povo brasileiro tem verdadeiro repúdio ao FHC. Fujimori está preso, Carlos Salinas, do México fugiu, Menem foi processado pela justiça argentina. E FHC naõ deveria ter o mesmo destino deles?
sexta-feira, fevereiro 12, 2010
No governo Lula, Brasil passou pela maior expansão em 30 anos, diz FGV
João Villaverde, de São Paulo – VALOR
Antes da explosão da crise mundial, no fim de 2008, o Brasil passou pela mais longa expansão econômica dos últimos 30 anos. Entre junho de 2003, quando restaurou o crescimento após a recessão desencadeada no ano anterior, e julho de 2008, quando alcançou o auge da expansão, o país cresceu por 61 meses consecutivos. O levantamento foi realizado pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da Fundação Getulio Vargas (FGV). Nos últimos 30 anos, o período que mais se aproxima do passado recente foram os 48 meses entre fevereiro de 1983 e fevereiro de 1987.
Quando estourou, em setembro de 2008, a atual crise mundial foi comparada ao crash de 1929 – a mais grave crise do século XX. No entanto, também seus efeitos no Brasil foram os mais rápidos dos últimos 30 anos, tendo durado apenas seis meses. Ao sustentar sua análise em variações mensais que indicam recessão como o período entre o pico e o vale, o Codace produz datação diferente do consenso na teoria econômica, que caracteriza recessões como dois trimestres consecutivos de queda da atividade.
Desde 1980, os períodos recessivos duraram em média 15,8 meses, tendo o período entre junho de 1989 e dezembro de 1991 alcançado o pior resultado: 30 tombos mensais. Na esteira da escalada inflacionária que se seguiu ao Plano Verão, quando a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 1989 em 1.972,91%, o país sofreu fortes reversões econômicas entre 1990 e 1991, com os planos Collor I e II. Em 1990, o PIB mergulhou 4,3% – o pior resultado em todo o século XX, segundo dados do IpeaData.
Uma década antes, no início dos anos 80, o país passou pela segunda maior recessão, de acordo com o levantamento do Codace. Entre outubro de 1980, quando o modelo de desenvolvimento econômico impetrado pelos militares desde 1964 se esgotou, e fevereiro de 1983, quando a crise alcançou o fundo do poço, foram 28 meses de recessão.
À época, o Brasil sofria os efeitos do choque internacional promovido pela crise do petróleo de 1979 e pela elevação das taxas de juros americanas, que saltaram de 8,7% (em 1978) para 17%, em 1981. Os juros altos encareceram a rolagem da dívida externa brasileira, questão que voltaria a trazer problemas entre fevereiro de 1987 e outubro de 1988, segundo o Codace, quando os 20 meses de recessão seguiram a moratória do passivo externo declarada pelo governo.
A partir de 1994 foram cinco períodos recessivos. O mais longo deles ocorreu entre outubro de 1997 e fevereiro de 1999, quando crises externas – na Ásia, em 1997, e na Rússia, em 1998 – se somaram à turbulências internas – a maxidesvalorização do real ocorrida em 13 de janeiro de 1999. Desde então, os períodos de quedas mensais no PIB têm diminuído – e as expansões durado mais. De acordo com o estudo do Codace, divulgado ontem, nos últimos 30 anos os períodos de expansão duraram em média 28,7 meses.
Antes da explosão da crise mundial, no fim de 2008, o Brasil passou pela mais longa expansão econômica dos últimos 30 anos. Entre junho de 2003, quando restaurou o crescimento após a recessão desencadeada no ano anterior, e julho de 2008, quando alcançou o auge da expansão, o país cresceu por 61 meses consecutivos. O levantamento foi realizado pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), da Fundação Getulio Vargas (FGV). Nos últimos 30 anos, o período que mais se aproxima do passado recente foram os 48 meses entre fevereiro de 1983 e fevereiro de 1987.
Quando estourou, em setembro de 2008, a atual crise mundial foi comparada ao crash de 1929 – a mais grave crise do século XX. No entanto, também seus efeitos no Brasil foram os mais rápidos dos últimos 30 anos, tendo durado apenas seis meses. Ao sustentar sua análise em variações mensais que indicam recessão como o período entre o pico e o vale, o Codace produz datação diferente do consenso na teoria econômica, que caracteriza recessões como dois trimestres consecutivos de queda da atividade.
Desde 1980, os períodos recessivos duraram em média 15,8 meses, tendo o período entre junho de 1989 e dezembro de 1991 alcançado o pior resultado: 30 tombos mensais. Na esteira da escalada inflacionária que se seguiu ao Plano Verão, quando a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 1989 em 1.972,91%, o país sofreu fortes reversões econômicas entre 1990 e 1991, com os planos Collor I e II. Em 1990, o PIB mergulhou 4,3% – o pior resultado em todo o século XX, segundo dados do IpeaData.
Uma década antes, no início dos anos 80, o país passou pela segunda maior recessão, de acordo com o levantamento do Codace. Entre outubro de 1980, quando o modelo de desenvolvimento econômico impetrado pelos militares desde 1964 se esgotou, e fevereiro de 1983, quando a crise alcançou o fundo do poço, foram 28 meses de recessão.
À época, o Brasil sofria os efeitos do choque internacional promovido pela crise do petróleo de 1979 e pela elevação das taxas de juros americanas, que saltaram de 8,7% (em 1978) para 17%, em 1981. Os juros altos encareceram a rolagem da dívida externa brasileira, questão que voltaria a trazer problemas entre fevereiro de 1987 e outubro de 1988, segundo o Codace, quando os 20 meses de recessão seguiram a moratória do passivo externo declarada pelo governo.
A partir de 1994 foram cinco períodos recessivos. O mais longo deles ocorreu entre outubro de 1997 e fevereiro de 1999, quando crises externas – na Ásia, em 1997, e na Rússia, em 1998 – se somaram à turbulências internas – a maxidesvalorização do real ocorrida em 13 de janeiro de 1999. Desde então, os períodos de quedas mensais no PIB têm diminuído – e as expansões durado mais. De acordo com o estudo do Codace, divulgado ontem, nos últimos 30 anos os períodos de expansão duraram em média 28,7 meses.
Alta generalizada no nível de emprego, é a previsão da Fiesp para 2010
Alta generalizada no nível de emprego, é a previsão da Fiesp para 2010
Fernando Taquari, de São Paulo – VALOR
A indústria paulista deve apresentar um crescimento generalizado no nível de emprego nos próximos meses por conta da forte retomada da economia. A tendência de alta será reforçada em março, com a provável antecipação da safra do açúcar e do álcool.
“Algumas dessas indústrias pretendem aproveitar o preço dos dois produtos, que estão em expansão, para antecipar a safra, o que contribuirá para a criação de empregos”, afirmou Walter Sacca, diretor adjunto do Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O preço do álcool teve significativa elevação nos últimos meses por causa do aumento no consumo interno, enquanto o açúcar ficou mais caro em função do crescimento da demanda externa com a quebra da safra em 2009 na Índia.
Os dois setores, no entanto, puxaram o índice de emprego para baixo em janeiro, com o corte de cerca de 3 mil postos de trabalho. Apesar disso, Sacca lembra que nesta época do ano sempre há o efeito sazonal sobre indicador, com o fim da safra e corte de vagas.
De acordo com a pesquisa de emprego da Fiesp, foram criados no mês passado 12 mil postos de trabalho, com um avanço de 0,54% no comparativo com dezembro, na série sem ajuste sazonal. Com ajuste, houve alta de 0,42%. No confronto com o primeiro mês de 2009, o indicador apresentou queda de 2,68%, o que significou o fim de 60 mil vagas.
“Começamos o ano e o nível de emprego está próximo ao registrado em 2008 e 2007, dois bons anos para a indústria. A tendência aponta para a continuidade desse processo, mas não dá para dizer que vamos superar os números do pré-crise”, acrescenta Sacca.
No início de 2010, 17 setores apresentaram um desempenho positivo e três ficaram estáveis. Apenas dois tiveram um resultado negativo. Entre aqueles que mais contrataram, destaque para produtos de madeira (1,7%). “Neste caso, influenciou a construção civil, que atravessa um momento de quase euforia”, explicou Walter Sacca. Em seguida aparecem produtos farmoquímicos e farmacêuticos (1,5%) e máquinas e equipamentos (1,3%), que ainda se recupera das perdas ocorridas durante a crise financeira mundial.
Em contrapartida, houve enxugamento de funcionários em fabricação de coque, produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis (-3,3%), que engloba o álcool. Já em produtos alimentícios, onde se encontra o açúcar, o recuo foi de 0,7%.
Fernando Taquari, de São Paulo – VALOR
A indústria paulista deve apresentar um crescimento generalizado no nível de emprego nos próximos meses por conta da forte retomada da economia. A tendência de alta será reforçada em março, com a provável antecipação da safra do açúcar e do álcool.
“Algumas dessas indústrias pretendem aproveitar o preço dos dois produtos, que estão em expansão, para antecipar a safra, o que contribuirá para a criação de empregos”, afirmou Walter Sacca, diretor adjunto do Departamento de Pesquisa e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O preço do álcool teve significativa elevação nos últimos meses por causa do aumento no consumo interno, enquanto o açúcar ficou mais caro em função do crescimento da demanda externa com a quebra da safra em 2009 na Índia.
Os dois setores, no entanto, puxaram o índice de emprego para baixo em janeiro, com o corte de cerca de 3 mil postos de trabalho. Apesar disso, Sacca lembra que nesta época do ano sempre há o efeito sazonal sobre indicador, com o fim da safra e corte de vagas.
De acordo com a pesquisa de emprego da Fiesp, foram criados no mês passado 12 mil postos de trabalho, com um avanço de 0,54% no comparativo com dezembro, na série sem ajuste sazonal. Com ajuste, houve alta de 0,42%. No confronto com o primeiro mês de 2009, o indicador apresentou queda de 2,68%, o que significou o fim de 60 mil vagas.
“Começamos o ano e o nível de emprego está próximo ao registrado em 2008 e 2007, dois bons anos para a indústria. A tendência aponta para a continuidade desse processo, mas não dá para dizer que vamos superar os números do pré-crise”, acrescenta Sacca.
No início de 2010, 17 setores apresentaram um desempenho positivo e três ficaram estáveis. Apenas dois tiveram um resultado negativo. Entre aqueles que mais contrataram, destaque para produtos de madeira (1,7%). “Neste caso, influenciou a construção civil, que atravessa um momento de quase euforia”, explicou Walter Sacca. Em seguida aparecem produtos farmoquímicos e farmacêuticos (1,5%) e máquinas e equipamentos (1,3%), que ainda se recupera das perdas ocorridas durante a crise financeira mundial.
Em contrapartida, houve enxugamento de funcionários em fabricação de coque, produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis (-3,3%), que engloba o álcool. Já em produtos alimentícios, onde se encontra o açúcar, o recuo foi de 0,7%.
PAC 2 prevê 11 mil km de ferrovias até 2020

VALOR – 12.02.10
Infraestrutura: Custo do investimento na expansão da malha pode alcançar aproximadamente R$ 21 bilhões
Danilo Fariello, de Brasília
A segunda versão do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC 2) está em fase final de ajustes no governo e deverá conter investimentos planejados para até 2020. Entre seus principais destaques estarão projetos do setor de transportes, principalmente hidrovias e ferrovias, para apoiar a produção agropecuária e industrial. O Valor teve acesso ao projeto mais avançado de investimentos que deverão ser feitos para expandir a malha ferroviária dos atuais 29 mil quilômetros para 40 mil km até 2020. Desse total, 35 mil km já deverão estar prontos em 2015.
Essas projeções incluem também projetos previstos, e não realizados, no primeiro PAC, que deverão ser acelerados para que as licitações sejam feitas ainda neste ano. O orçamento total de ferrovias no PAC 2 ainda não está delimitado, mas, se considerado o preço médio de US$ 1 milhão por quilômetro de ferrovia, até 2020 seriam US$ 11 bilhões investidos, ou quase R$ 21 bilhões.
O projeto prevê uma interligação entre os principais ramais do país e, destes, com os diferentes portos. Além dos portos de Pecém (CE) e Suape (PE), onde chegará a Nova Transnordestina até 2012, haverá também ligações para o porto de Barcarena (PA), pela Norte-Sul, e até o porto de Rio Grande (RS), pela Ferrosul. A expansão da Ferrosul é uma das principais novidades do PAC 2.
As novas ferrovias deverão ser feitas em bitola larga. Onde houver ligação com ramais de bitola estreita, serão feitas três linhas sobre os trilhos, de forma que, pela mesma infraestrutura, possam circular tanto locomotivas e vagões de bitola larga, quanto de estreita, para otimizar o uso da malha. Exemplo desse uso deverá ser adotado no corredor Ferrosul, de Panorama (SP) até o porto do Rio Grande, passando por Guarapuava (PR).
Também há previsão para execução da ferrovia de Dionísio Cerqueira (SC) ao porto de Itajaí (SC), passando por Chapecó. O projeto é conhecido como Ferrovia do Frango, por causa da produção granjeira, que se estende de leste a oeste do Estado. Por Itajaí, perpendicularmente à linha do Frango, passará a Ferrovia Litorânea, que contornará a costa de Santa Catarina, entre Araquari e Imbituba. Em Chapecó, haverá a conexão entre a Ferrovia do Frango e a Ferrosul.
Na região Sul, o PAC 2 prevê também uma nova linha que chegará ao porto de Paranaguá partindo de Guarapuava. Seria uma segunda descida para o porto, com o objetivo de desafogar a já existente. Com a maior interconexão entre as ferrovias nacionais, prevê-se fluxo mais intenso nos entroncamentos que chegam aos portos.
O desenho das ferrovias no novo programa traz também uma linha de bitola larga entre Ipatinga (MG) e Uruaçu (GO), passando por Brasília, de onde sai um ramal em direção a Anápolis (GO). Em Ipatinga, a linha conecta-se aos trilhos da Estrada de Ferro Vitória Minas (EFVM) e, em Anápolis e Uruaçu, conecta-se à Norte-Sul. Será um acesso mais rápido para exportar a produção de grãos do Centro-Oeste, principalmente soja, pelo porto de Tubarão (ES). Em Uruaçu chegará também uma nova linha que parte de Vilhena (RO) e passa por Sorriso (MT), outra região de produção agrícola.
O PAC 2, porém, deverá deixar para um segundo momento algumas das grandes obras projetadas para o sistema ferroviário. O corredor Bioceânico, que sairá de Rondonópolis, passando por Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC) até a fronteira da Bolívia, onde chegaria até o Pacífico, não deverá ter prazos específicos na nova edição do programa. Também a linha que liga Cuiabá (MT) a Santarém (PA) e a expansão da Ferroeste até Foz do Iguaçu (PR) ficariam sem previsão.
Até a definição final do PAC 2, ainda discutido na Casa Civil e ministérios, há probabilidade maior de que obras incluídas sejam retiradas do que as desconsideradas sejam inseridas, segundo pessoa próxima às discussões.
O planejamento do PAC 2, de chegar a 40 mil km de linhas férreas em 2020 deverá colocar o sistema logístico brasileiro em nível mais próximo do de outros países de dimensões continentais. Hoje, os EUA têm cerca de 280 mil km de ferrovias e a China tem 86 mil km. A China, porém, tem em curso um plano para expandir a malha para 125 mil km até 2015.
O crescimento da malha ferroviária brasileira poderá vir acompanhado por um novo modelo para o setor, que se assemelharia ao rodoviário. Nesse plano, concebido na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e no Ministério dos Transportes, os concessionários da infraestrutura dos novos trilhos não terão direito à exclusividade sobre os vagões e locomotivas que circularem sobre eles. Pelo modelo considerado, uma empresa poderia trazer seu comboio de determinada região para desembarcar em qualquer porto onde os trilhos possam levá-la, pagando direitos de passagem aos concessionários das linhas. Dessa forma, seria estimulada a concorrência entre os concessionários dos trilhos e também entre os porto, como ocorre na Espanha.
quinta-feira, fevereiro 11, 2010
EM NOME DE LOTT E DOS TENENTES
Desconheço como anda a formação dos militares brasileiros, mas sei que a Escola Superior de Guerra, por exemplo, tem se aberto a ouvir diferentes pontos de vista sobre a realidade do país. O dirigente do MST, João Pedro Stédile, já fez palestra na ESG sobre a questão da reforma agrária, assim como o deputado federal Aldo Rebelo, do PCdoB, partido combatido diretamente pelo Exército durante a guerrilha do Araguaia, nos anos 70.
Essa abertura, digamos assim, poderia levar os próprios militares a encabeçarem um movimento pelo esclarecimento dos abusos cometidos durante a ditadura, de 1964 a 1985. O interesse de limpar a imagem das Forças Armadas compete, primeiramente, a seus próprios integrantes. Os torturadores não foram só militares, vide o delegado Sérgio Fleury e outros notórios conhecidos, assim como o golpe de 64 também não foi exclusivamente militar, com forte e importante participação de segmentos civis.
As Forças Armadas costumam ser respeitadas em seus países até o momento em que agem contra seu próprio povo. Os militares brasileiros têm uma tradição de lutas importantes, como pela abolição da escravatura, pela república e contra as oligarquias que dominaram esta mesma república em seus primeiros períodos. O seu grande passo em falso foi o golpe de 64, mas mesmo que não o reconheçam como tal, deveriam condenar seus pecados, como a imperdoável tortura, em nome da recuperação da sua credibilidade.
Se os velhos generais já não ousam fazer isso, a iniciativa deveria caber ao jovem oficialato, mais arejado, que nada têm a ver com as manchas do passado. Ou melhor, só não terá mesmo a ver se as enfrentar de frente e tratar de removê-las da história das Forças Armadas brasileiras.
Nos anos 20, os jovens oficiais brasileiros se rebelaram contra as oligarquias da República Velha e protagonizaram momentos importantes da nossa história, como o levante do Forte de Copacabana, as revoltas militares do Rio Grande do Sul e de São Paulo e a Coluna Prestes, que marchou durante mais de dois anos pelo país sem jamais ser derrotada pelas forças conservadoras.
Os jovens militares daquela época lutavam por reforma constitucional, pelo voto secreto, contra a corrupção, enfim pelos anseios das camadas urbanas brasileiras que já não aceitavam as práticas políticas arcaicas da República Velha ruralista. Estavam sintonizados com a população e dispostos a se sacrificar por ela.
O verdadeiro Exército brasileiro é também o do general Lott, o soldado absoluto, o poderoso ministro da Guerra de JK, que jamais usou tal poder além dos estritos limites de sua função. Lott evitou um golpe de Estado no Brasil, em 1955, tramado pelas mesmas forças que em 1964 se aliariam aos militares para promovê-lo. Em 1961, na renúncia de Jânio, Lott reforçou sua postura legalista ao ser preso por defender a posse do vice-presidente João Goulart.
No livro “O dia em que Getúlio matou Allende”, Flávio Tavares conta uma história jamais comprovada e nunca desmentida que se ajusta aos princípios éticos de Lott. “Ao saber que seu neto Nelson, membro da resistência à ditadura tinha sido preso e torturado quase à morte, Lott vestiu a velha farda de general, armou-se com a pistola regulamentar e foi ao quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio. Lá, abordou o major torturador-chefe, o chamou de “indigno de envergar a farda” e deu-lhe um tiro na frente da oficialidade. O torturador teria morrido no ato. Recolocou a pistola no coldre e retirou-se do quartel sem que ninguém se animasse a interromper-lhe o passo. Para evitar revelar a dimensão da tortura às próprias Forças Armadas, o caso teria sido abafado.”
A prática da tortura por integrantes das Forças Armadas e/ou com o conhecimento destas é uma traição à memória de Lott. Em seu nome e no dos inspiradores do tenentismo, os jovens oficiais precisam lutar por revelar essa história de vez, com a identificação de todos os envolvidos.
Mair Pena Neto
Essa abertura, digamos assim, poderia levar os próprios militares a encabeçarem um movimento pelo esclarecimento dos abusos cometidos durante a ditadura, de 1964 a 1985. O interesse de limpar a imagem das Forças Armadas compete, primeiramente, a seus próprios integrantes. Os torturadores não foram só militares, vide o delegado Sérgio Fleury e outros notórios conhecidos, assim como o golpe de 64 também não foi exclusivamente militar, com forte e importante participação de segmentos civis.
As Forças Armadas costumam ser respeitadas em seus países até o momento em que agem contra seu próprio povo. Os militares brasileiros têm uma tradição de lutas importantes, como pela abolição da escravatura, pela república e contra as oligarquias que dominaram esta mesma república em seus primeiros períodos. O seu grande passo em falso foi o golpe de 64, mas mesmo que não o reconheçam como tal, deveriam condenar seus pecados, como a imperdoável tortura, em nome da recuperação da sua credibilidade.
Se os velhos generais já não ousam fazer isso, a iniciativa deveria caber ao jovem oficialato, mais arejado, que nada têm a ver com as manchas do passado. Ou melhor, só não terá mesmo a ver se as enfrentar de frente e tratar de removê-las da história das Forças Armadas brasileiras.
Nos anos 20, os jovens oficiais brasileiros se rebelaram contra as oligarquias da República Velha e protagonizaram momentos importantes da nossa história, como o levante do Forte de Copacabana, as revoltas militares do Rio Grande do Sul e de São Paulo e a Coluna Prestes, que marchou durante mais de dois anos pelo país sem jamais ser derrotada pelas forças conservadoras.
Os jovens militares daquela época lutavam por reforma constitucional, pelo voto secreto, contra a corrupção, enfim pelos anseios das camadas urbanas brasileiras que já não aceitavam as práticas políticas arcaicas da República Velha ruralista. Estavam sintonizados com a população e dispostos a se sacrificar por ela.
O verdadeiro Exército brasileiro é também o do general Lott, o soldado absoluto, o poderoso ministro da Guerra de JK, que jamais usou tal poder além dos estritos limites de sua função. Lott evitou um golpe de Estado no Brasil, em 1955, tramado pelas mesmas forças que em 1964 se aliariam aos militares para promovê-lo. Em 1961, na renúncia de Jânio, Lott reforçou sua postura legalista ao ser preso por defender a posse do vice-presidente João Goulart.
No livro “O dia em que Getúlio matou Allende”, Flávio Tavares conta uma história jamais comprovada e nunca desmentida que se ajusta aos princípios éticos de Lott. “Ao saber que seu neto Nelson, membro da resistência à ditadura tinha sido preso e torturado quase à morte, Lott vestiu a velha farda de general, armou-se com a pistola regulamentar e foi ao quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, no Rio. Lá, abordou o major torturador-chefe, o chamou de “indigno de envergar a farda” e deu-lhe um tiro na frente da oficialidade. O torturador teria morrido no ato. Recolocou a pistola no coldre e retirou-se do quartel sem que ninguém se animasse a interromper-lhe o passo. Para evitar revelar a dimensão da tortura às próprias Forças Armadas, o caso teria sido abafado.”
A prática da tortura por integrantes das Forças Armadas e/ou com o conhecimento destas é uma traição à memória de Lott. Em seu nome e no dos inspiradores do tenentismo, os jovens oficiais precisam lutar por revelar essa história de vez, com a identificação de todos os envolvidos.
Mair Pena Neto
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