O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
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quarta-feira, junho 15, 2016
Moniz Bandeira denuncia apoio dos EUA a golpe no Brasil
do PT na Câmara
O cientista político e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira alertou nesta terça-feira (14) que por trás do processo golpista no Brasil, que levou à ascensão do presidente interino Michel Temer no lugar da presidenta legítima Dilma Rousseff, há poderosos interesses dos Estados Unidos, para ampliar sua presença econômica e geopolítica na América do Sul.
“Esse golpe deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os EUA tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina. O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil”, afirmou Moniz Bandeira, em entrevista concedida por e-mail ao PT na Câmara.
Moniz, que é autor de mais de 20 obras, entre elas A Segunda Guerra Fria — Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos (2013, Civilização Brasileira) e está lançando agora A Desordem Internacional, entende que o processo golpista no Brasil recebeu apoio dos EUA e de outros setores estrangeiros com interesse nas riquezas do País.
Ele criticou também setores da burocracia do Estado (como Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal e Judiciário) por atuarem para solapar a democracia brasileira, prejudicar empresas nacionais e abrir caminho para a consolidação de interesses estrangeiros no País, em especial dos EUA.
“Muito dinheiro correu na campanha pelo impeachment. E a influência dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava-Jato. Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007”, disse.
Leia a entrevista completa:
Como o senhor avalia o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff?
O fato de que o presidente interino Michel Temer e seus acólitos, nomeados ministros, atuarem como definitivos, mudando toda a política da presidenta Dilma Roussefff, evidencia nitidamente a farsa montada para encobrir o golpe de Estado, um golpe frio contra a democracia, desfechado sob o manto de impeachment.
Esse golpe, entretanto, deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os Estados Unidos tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina.
O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil.
Onde seriam implantadas tais bases?
Uma seria em Ushuaia, na província da Terra do Fogo, cujos limites se estendem até a Antártida; a outra na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), antiga ambição de Washington, a título de combater o terrorismo e o narcotráfico. Mas o grande interesse, inter alia, é, provavelmente, o Aquífero Guarani, o maior manancial subterrâneo de água doce do mundo, com um total de 200.000 km2, um manancial transfronteiriço, que abrange o Brasil (840.000l Km²), Paraguai (58.500 Km²), Uruguai (58.500 Km²) e Argentina (255.000 Km²).
Aí os grandes bancos dos Estados Unidos e da Europa — Citigroup, UBS, Deutsche Bank, Credit Suisse, Macquarie Bank, Barclays Bank, the Blackstone Group, Allianz, e HSBC Bank e outros –compraram vastas extensões de terra.
A eleição de Maurício Macri significa que a Argentina vai voltar ao tempo em que o ex-presidente Carlos Menem, com a doutrina do “realismo periférico”, desejava manter “relações carnais” com os Estados Unidos?
Os EUA estão a buscar a recuperação de sua hegemonia na América do Sul, hegemonia que começaram a perder com o fracasso das políticas neoliberais na década de 1990. Com a eleição de Maurício Macri, na Argentina, conseguiram grande vitória.
E, na Venezuela, o Estado encontra-se na iminência do colapso, devido à conjugação de desastrosas políticas dos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro com a queda do preço do petróleo e as operações para a mudança de regime, implementadas pela CIA, USAID, NED e ONGs financiadas por essas e outras entidades.
A implantação de bases militares em Ushuaia e na Tríplice Fronteira, além de ferir a soberania da Argentina, significa séria ameaça à segurança nacional não só do Brasil como dos demais países da região.
Os EUA possuem bases na Colômbia e alguns contingentes militares no Peru, a ostentarem sua presença nos Andes e no Pacifico Ocidental. E com as bases na Argentina completariam um cerco virtual da região, ao norte e ao sul, ao lado do Pacífico e do Atlântico.
Que implicações teria o estabelecimento de tais bases na Argentina?
Quaisquer que sejam as mais diversas justificativas, inclusive científicas, a presença militar dos EUA na Argentina implicaria maior infiltração da OTAN, na América do Sul, penetrada já, sorrateiramente, pela Grã-Bretanha no arquipélago das Malvinas, e anularia de facto e definitivamente a resolução 41/11 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que, em 1986, estabeleceu o Atlântico Sul como Zona de Paz e Cooperação (ZPCAS).
E o Brasil jamais aceitou que a OTAN estendesse ao Atlântico Sul sua área de influência e atuação.
Em 2011, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, o então ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim (do PMDB, o mesmo partido do presidente provisório Temer), atacou a estratégia de ampliar a área de ingerência da OTAN ao Atlântico Sul, afirmando que nem o Brasil nem a América do Sul podem aceitar que os Estados Unidos “se arvorem” o direito de intervir em “qualquer teatro de operação” sob “os mais variados pretextos”, com a OTAN “a servir de instrumento para o avanço dos interesses de seu membro exponencial, os Estados Unidos da América, e, subsidiariamente, dos aliados europeus”.
Mas estabelecer uma base militar na região da Antártida não é uma antiga pretensão dos EUA?
Sim. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial esse é um objetivo estratégico do Pentágono a fim de dominar a entrada no Atlântico Sul. E, possivelmente, tal pretensão agora ainda mais se acentuou devido ao fato de que a China, que está a construir em Paraje de Quintuco, na província de Neuquén, coração da Patagônia, a mais moderna estação interplanetária e a primeira fora de seu próprio território, com poderosa antena de 35 metros para pesquisas do “espaço profundo”, como parte do Programa Nacional de Exploração da Lua e Marte.
A previsão é de que comece a operar em fins de 2016. Mas a fim de recuperar a hegemonia sobre toda a América do Sul, na disputa cada vez mais acirrada com a China era necessário controlar, sobretudo, o Brasil, e acabar o Mercosul, a Unasul e outros órgãos criados juntamente com a Argentina, seu principal sócio e parceiro estratégico, a envolver os demais países da América do Sul.
A derrubada da presidente Dilma Rousseff poderia permitir a Washington colocar um preposto para substituí-la.
A mudança na situação econômica e política tanto da Argentina como do Brasil afigura-se, entretanto, muito difícil para os EUA. A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, com investimentos previstos superiores a US$54 bilhões, e o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil.
O Brasil, ao desenvolver uma política exterior com maior autonomia, fora da órbita de Washington, e de não intervenção nos países vizinhos e de integração da América do Sul, conforme a Constituição de 1988, constituía um obstáculo aos desígnios hegemônicos dos EUA, que pretendem impor a todos os países da América tratados de livre comércio similares aos firmados com as repúblicas do Pacífico.
Os EUA não se conformam com o fato de o Brasil integrar o bloco conhecido como BRICs e seja um dos membros do banco em Shangai, que visa a concorrer com o FMI e o Banco Mundial.
Como o senhor vê a degradação da democracia no Brasil, com a atuação de setores da burocracia do Estado (Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário) que agem de modo a rasgar a Constituição, achicanando o país?
A campanha contra a corrupção, nos termos em que o procurador-geral Rodrigo Janot e o juiz Sérgio Moro executam, visou, objetivamente, a desmoralizar a Petrobras e as grandes construtoras nacionais, tanto que nem sequer as empresas estrangeiras foram investigadas, e elas estão, de certo, envolvidas também na corrupção de políticos brasileiros.
Ao mesmo tempo se criou o clima para o golpe frio contra o governo da presidente Dilma Rousseff, adensado pelas demonstrações de junho de 2013 e as vaias contra ela na Copa do Mundo.
A estratégia inspirou-se no manual do professor Gene Sharp, intitulado Da Ditadura à Democracia, para treinamento de agitadores, ativistas, em universidades americanas e até mesmo nas embaixadas dos Estados Unidos, para liderar ONGs, entre as quais Estudantes pela Liberdade e o Movimento Brasil Livre, financiadas com recursos dos bilionários David e Charles Koch, sustentáculo do Tea Party, bem como pelos bilionários Warren Buffett e Jorge Paulo Lemann, proprietários dos grupos Heinz Ketchup, Budweiser e Burger King, e sócios de Verônica Allende Serra, filha do ex-governador de São Paulo José Serra, na sorveteria Diletto.
Outras ONGs são sustentadas pelo especulador George Soros, que igualmente financiou a campanha “Venha para as ruas”.
Os pedidos de prisão de próceres do PMDB e do presidente do Senado, encaminhados pelo procurador-geral da República, podem desestabilizar o Estado brasileiro?
Os motivos alegados, que vazaram para a mídia, não justificariam medida tão radical, a atingir toda linha sucessória do governo brasileiro.
O objetivo do PGR poderia ser de promoção pessoal, porém tanto ele como o juiz Sérgio Moro atuam, praticamente, para desmoralizar ainda mais todo o Estado brasileiro, como se estivessem a serviço de interesses estrangeiros.
E não só desmoralizar o Estado brasileiro. Vão muito mais longe nos seus objetivos antinacionais.
As suspeitas levantadas contra a fábrica de submarinos, onde se constrói, inclusive, o submarino nuclear, todos com transferência para o Brasil de tecnologia francesa, permitem perceber o intuito de desmontar o programa de rearmamento das Forças Armadas, reiniciado pelo presidente Lula e continuado pela presidente Dilma Rousseff.
E é muito possível que, em seguida, o alvo seja a fabricação de jatos, com transferência de tecnologia da Suécia, o que os EUA não fazem, como no caso do submarino nuclear.
É preciso lembrar que, desde o governo de Collor de Melo e, principalmente, durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi virtualmente desarmado, o Exército nem recursos tinha para alimentar os recrutas e foi desmantelada a indústria bélica, que o governo do general Ernesto Geisel havia incentivado, após romper o Acordo Militar com os Estados Unidos, na segunda metade dos anos 1970.
O senhor julga que os Estados Unidos estiveram por trás da campanha para derrubar o governo da presidente Dilma Rousseff?
Há fortes indícios de que o capital financeiro internacional, isto é, de que Wall Street e Washington nutriram a crise política e institucional, aguçando feroz luta de classes no Brasil.
Ocorreu algo similar ao que o presidente Getúlio Vargas denunciou na carta-testamento, antes de suicidar-se, em 24 de agosto de 1954: “A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de liberdade e garantia do trabalho”.
Muito dinheiro correu na campanha pelo impeachment. E a influência dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava-Jato.
Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007.
No ano seguinte, em 2008, passou um mês num programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto com sua colega Gisele Lemke. E, em outubro de 2009, participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos.
A Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, passou informação sobre o doleiro Alberto Yousseff a um delegado da Polícia Federal e ao juiz Sérgio Moro, de Curitiba, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros).
Não sem motivo o juiz Sérgio Moro foi eleito como um dos dez homens mais influentes do mundo pela revista Time.
Ele dirigiu a Operação Lava-Jato, coadjuvado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como um reality show, sem qualquer discrição, vazando seletivamente informações para a mídia, com base em delações obtidas sob ameaças e coerção, e prisões ilegais, com o fito de macular e incriminar, sobretudo, o ex-presidente Lula. E a campanha continua.
Aonde vai?
Vai longe. Visa a atingir todo o Brasil como Nação.
E daí que se prenuncia uma campanha contra a indústria bélica, a começar contra a construção dos submarinos, com tecnologia transferida da França, o único país que concordou em fazê-lo, e vai chegar à construção dos jatos, com tecnologia da Suécia e outras indústrias.
Essas iniciativas dos presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff afetaram e afetam os interesses dos Estados Unidos, cuja economia se sustenta, largamente, com a exportação de armamentos.
Apesar de toda a pressão de Washington, o Brasil não comprou os jatos F/A-18 Super Hornets da Boeing, o que contribuiu, juntamente com o cancelamento das encomendas pela Coréia do Sul, para que ela tivesse de fechar sua planta em Long Beach, na Califórnia.
A decisão da presidente Dilma Rousseff de optar pelos jatos da Suécia representou duro golpe na divisão de defesa da Boeing, com a perda de um negócio no valor US$4,5 bilhões.
Esse e outros fatores concorreram para a armação do golpe no Brasil.
E qual a perspectiva?
É sombria. O governo interino de Michel Temer não tem legitimidade, é impopular e, ao que tudo indica, não há de perdurar até 2018. É fraco. Não contenta a gregos e troianos.
E, ainda que o presidente interino Michel Temer não consiga o voto de 54 senadores para efetivar o impeachment, será muito difícil a presidenta Dilma Rousseff governar com um Congresso, em grande parte corrompido, e o STF comprometido pela desavergonhada atuação, abertamente político-partidária, de certos ministros.
Novas eleições, portanto, creio que só as Forças Armadas, cujo comando do Exército, Marinha e Aeronáutica até agora está imune e isento, podem organizar e presidir o processo.
Também só elas podem impedir que o Estado brasileiro seja desmantelado, em meio a esse clima de inquisição, criado e mantido no País, em colaboração com a mídia corporativa, por elementos do Judiciário, como se estivessem acima de qualquer suspeita. E não estão. Não são deuses no Olimpo.
sexta-feira, março 11, 2016
O processo de desmonte do capitalismo brasileiro, por André Araújo
Por André Araújo
A luta pelas causas serve de capa a grandes aventuras politicas. Algumas causas são temas clássicos que se usam como arietes para qualquer tipo de ação verdadeira sendo a causa a desculpa.
Todos são a favor da PAZ, uma causa nobre. Ninguém é a favor da GUERRA, uma causa torpe. Neville Chamberlain era a favor da paz, mas a História o jogou no limbo porque, sob a capa do apaziguamento, provocou um desastre político para seu País. Seu opositor, Winston Churchill, era a favor da guerra e a História o consagrou como um dos grandes estadistas do Século XX. As causas são portanto enganadoras, servem para muita coisa, nem sempre benignas.
Sob a capa de causa do ANTI-TERRORISMO, os EUA invadiram o Iraque e desarrumaram todo o Oriente Médio. A causa era boa, mas o PROCESSO de se chegar à causa foi desastroso. Causas nobres podem portanto arruinar países se os processos para atingir essas causas foram errados, excessivos, desequilibrados, mal operados.
Ninguém é a favor da corrupção, todos são contra. Mas o processo na luta ANTI-CORRUPÇÃO pode arruinar um País, custando muito mais que a própria corrupção. É fundamental, portanto, o discernimento sobre os processos que se praticam para atingir causas aparentemente nobres, porque os processos podem matar as causas a que se destinam e criar novos problemas sem resolver o objetivo inicial.
A atual luta anti-corrupção no Brasil está destruindo os fundamentos do capitalismo brasileiro. Os EUA como Pais também são contra a corrupção, mas lá os processos nem de longe tocam no resguardo ao seu capitalismo corporativo.
A Lockheed Martin, grande empresa fabricante de aviões militares, nos anos 60 praticou tanta corrupção que foi ela a razão da promulgação da Lei contra Práticas Corruptas no Exterior, a FCPA, de 1973. Mas sendo a Lockheed a razão da lei, a empresa mal foi tocada, o Governo dos EUA exigiu a troca de seu presidente, ninguém foi preso e a Lockheed segue hoje sendo uma das maiores e mais sólidas empresas dos EUA. Muito mais recentemente a Kellog, Brown abd Root, uma das maiores empreiteiras dos EUA, com sede no Texas, da qual o Presidente Lyndon Johnson foi lobista a vida inteira e cujo nome consta de sua monumental biografia por Robert Caro em mais de mil citações, Johnson deveu a Brown and Root a fortuna de 14 milhões de dólares que legou à Lady Bird, sua viúva, a KBR teve recentemente um processo por corrupção na Nigéria, uma propina de US$192 milhões ao ditador daquele País. O executivo Albert Stanley foi punido com dois anos e meio de prisão e o processo terminou aí, a Kellog Brown and Root não foi minimamente afetada em seus negócios.
O cuidado absoluto com a PRESERVAÇÃO de suas grandes empresas é uma caracteristica do sistema americano de organização capitalista. Na crise de 2008, estando em risco mais de 50 bancos e grandes empresas industriais, crise causada por monumentais trapaças de Wall Street, o Tesouro americano ofereceu recursos de 700 bilhões de dólares para essas empresas e bancos, um banco (Lehman) foi deixado quebrar, os demais foram salvos, ninguém foi processado ou muito menos preso, a fraude gigantesca passou batida para que se salvasse o capitalismo americano.
Nos últimos dois dias, o sistema GLOBO, pelo Globonews, vem repetindo que o Brasil está sendo elogiado no exterior por causa de sua campanha anti-corrupção. A fala apareceu no programa EM PAUTA de 8 de março pela locução de Guga Chacra e ontem, no programa JORNAL DAS DEZ pela locução de Donny De Nuccio, âncora do Jornal. Guga Chacra citou um elogio de Dany Rodrick, professor de economia e só. Donny não citou ninguém, disse que o Brasil está sendo elogiado e que a operação anti-corrupção vai fazer os investidores voltarem ao Brasil porque agora o pais está limpo.
È uma lenda de mau gosto. Empresários do mundo inteiro detestam investigadores e promotores, seus inimigos naturais, e sentem afinidade com colegas empresários de outros países. É como um clube. Empresários se percebem como companheiros de outros empresários e se incomodam em ver seus colegas presos e não se sentem bem em países que os prenderam em grande quantidade e os mantem presos, é da natureza humana. Empresários não tem simpatia por aparelhos repressivos, tem simpatia por empresários que são considerados colegas de profissão. Portanto esse papo de que o Brasil está sendo ""elogiado" é politicamente correto apenas, na verdade o Brasil está sendo PROCESSADO por todo lado nos EUA por causa da exposição excessiva e escandalosa da corrupção, o que dá argumentos para promotores americanos e gangues de advogados abutres que compram ações da Petrobras só para processar e extorquir danos morais, alimentados pela abundância de "escrachos" produzidos no Brasil e que se voltam contra nós mesmos.
Se o ambiente de corrupção afasta investidores, como a economia mexicana, com longo histórico de corrupção política, está bombando? Não se defende a corrupção, mas os contextos precisam ser aclarados. Os primeiros empresários da Era Moderna foram os PIRATAS INGLESES do Caribe, a alma do empresário é do pirata e não do juiz, quem acha que país limpinho atrai investidor não tem a mais remota noção de negócios no mundo real.
Há também o problema geopolítico, há duas áreas no Brasil que são de grande irritação para Washington, a fabricação do submarino nuclear e a fabricação de mísseis pelo Brasil, área em que temos já tradição de 30 anos, não é uma coisa simples. Ambas áreas foram atingidas pela Lava jato, o submarino nuclear está sendo construído pela Odebrecht Defesa e os mísseis pela Mecatron, empresa controlada pela Odebrecht, já o programa nuclear tem como principal contratante a Andrade Gutierrez, através da Eletronuclear. Todas essas áreas estão sendo atingidas pela Lava Jato.
Por coincidência, a empreiteira brasileira pioneira na expansão para o exterior, a Mendes Júnior, acaba de pedir recuperação judicial, um símbolo que cai como a sinalizar o desmonte do capitalismo brasileiro, em larga medida um trem puxado pelas grandes empreiteiras, hoje todas na linha de tiro para serem estraçalhadas.
Há séculos o imperialismo usa o moralismo como ariete de rompimento de barreiras. O moralismo é sempre o PRETEXTO para atingir fins bem menos morais. O moralismo inglês que combateu o tráfico negreiro nos Século XIX não tinha fins tão nobres, tratava-se de criar mercado para os tecidos ingleses nas Américas, para o que os trabalhadores negros precisavam receber salários, portanto não deveriam ser escravos.
O moralismo nos EUA não acabou com a corrupção, apenas a legalizou. As doações políticas por empresas nos EUA são legais e ilimitadas, foi criado um mecanismo, os POLITICAL ACTION COMMITTEES, que podem receber qualquer valor das empresas, sempre declarados e dedutíveis do imposto de renda. Já a operação de interesses junto aos políticos foi há muito tempo legalizada pelo LOBBY registrado e legal, com despesas também deduzidas dos lucros.
Mesmo assim, há no setor do orçamento militar dos EUA, que gira em torno de US$680 bilhões anuais, um imenso número de malfeitos, de roubalheiras, as famosas tampas de privada de 2 mil dólares, que são apontados em muitos livros sobre o tema. Lá não são tão limpinhos como aqui os sacristãos de fórum vendem. Só que lá eles são mais discretos e não colocam a sujeira na janela. E nos EUA a Justiça jamais supera o interesse do Estado nacional e dentro desse interesse está a proteção ERGA OMNES das grandes corporações que são a espinha dorsal da economia americana.
As grandes empresas podem ser processadas mas os processos não atingem a essência da empresa, nem sua solidez ou potencial de operação presente e futuro. Centenas de prisões e delações ao mesmo tempo é coisa nunca vista nos EUA e nem em qualquer outro país de economia organizada, nenhuma causa justifica desmontar ao mesmo tempo grandes e importantes empresas como se está se fazendo aqui sem que ninguém se importe, como se isso fosse coisa normal.
Construir grandes empresas leva duas ou três gerações, quem diz que virão empresas estrangeiras no lugar das detonadas ou que médias empresas ocuparão seu lugar, não tem a MÍNIMA noção do mundo real, simplesmente não sabe do que está falando, não conhece o âmago da economia. Uma grande empresa é uma obra complexa, não se improvisa.
Alguns poucos na mÍdia e na academia estão associando as operações policialescas e todo o conjunto de ações anti-corrupção com o debacle da economia, mas muitos não correlacionam. A atual recessão se deve a vários fatores, mas o clima de caça as bruxas dá uma enorme contribuição ao ambiente de desânimo e desalento, além de afetar a economia real pelo desemprego nas construtoras, no cancelamento de pedidos e projetos, no desmonte de canteiros e estaleiros, na perda de grandes players para novas concessões que são essenciais para reerguer a economia.
Ao final, corruptos ou não, são os empresários que movem a economia e não inquéritos, processos e prisões.
O problema não é a tese pura da luta anti-corrupção, meritória por si própria. O problema está nos MÉTODOS que se usam para combater a corrupção, que podem matar o doente. O que sobra de uma grande empresa onde todos os executivos estão presos há meses, como fica o "clima" na empresa, os projetos futuros, a credibilidade perante os clientes e bancos? Empresas que sofrem essa razia de prisões e delações são arrasadas para não mais voltarem a funcionar.
Infelizmente a midia, por vício de escorpião, entra nessa cruzada matando os potenciais anunciantes que estão na economia produtiva, boa ou ruim, é de lá que vem seu faturamento, sem empresas não há anunciantes e não há economia.
A luta pelas causas serve de capa a grandes aventuras politicas. Algumas causas são temas clássicos que se usam como arietes para qualquer tipo de ação verdadeira sendo a causa a desculpa.
Todos são a favor da PAZ, uma causa nobre. Ninguém é a favor da GUERRA, uma causa torpe. Neville Chamberlain era a favor da paz, mas a História o jogou no limbo porque, sob a capa do apaziguamento, provocou um desastre político para seu País. Seu opositor, Winston Churchill, era a favor da guerra e a História o consagrou como um dos grandes estadistas do Século XX. As causas são portanto enganadoras, servem para muita coisa, nem sempre benignas.
Sob a capa de causa do ANTI-TERRORISMO, os EUA invadiram o Iraque e desarrumaram todo o Oriente Médio. A causa era boa, mas o PROCESSO de se chegar à causa foi desastroso. Causas nobres podem portanto arruinar países se os processos para atingir essas causas foram errados, excessivos, desequilibrados, mal operados.
Ninguém é a favor da corrupção, todos são contra. Mas o processo na luta ANTI-CORRUPÇÃO pode arruinar um País, custando muito mais que a própria corrupção. É fundamental, portanto, o discernimento sobre os processos que se praticam para atingir causas aparentemente nobres, porque os processos podem matar as causas a que se destinam e criar novos problemas sem resolver o objetivo inicial.
A atual luta anti-corrupção no Brasil está destruindo os fundamentos do capitalismo brasileiro. Os EUA como Pais também são contra a corrupção, mas lá os processos nem de longe tocam no resguardo ao seu capitalismo corporativo.
A Lockheed Martin, grande empresa fabricante de aviões militares, nos anos 60 praticou tanta corrupção que foi ela a razão da promulgação da Lei contra Práticas Corruptas no Exterior, a FCPA, de 1973. Mas sendo a Lockheed a razão da lei, a empresa mal foi tocada, o Governo dos EUA exigiu a troca de seu presidente, ninguém foi preso e a Lockheed segue hoje sendo uma das maiores e mais sólidas empresas dos EUA. Muito mais recentemente a Kellog, Brown abd Root, uma das maiores empreiteiras dos EUA, com sede no Texas, da qual o Presidente Lyndon Johnson foi lobista a vida inteira e cujo nome consta de sua monumental biografia por Robert Caro em mais de mil citações, Johnson deveu a Brown and Root a fortuna de 14 milhões de dólares que legou à Lady Bird, sua viúva, a KBR teve recentemente um processo por corrupção na Nigéria, uma propina de US$192 milhões ao ditador daquele País. O executivo Albert Stanley foi punido com dois anos e meio de prisão e o processo terminou aí, a Kellog Brown and Root não foi minimamente afetada em seus negócios.
O cuidado absoluto com a PRESERVAÇÃO de suas grandes empresas é uma caracteristica do sistema americano de organização capitalista. Na crise de 2008, estando em risco mais de 50 bancos e grandes empresas industriais, crise causada por monumentais trapaças de Wall Street, o Tesouro americano ofereceu recursos de 700 bilhões de dólares para essas empresas e bancos, um banco (Lehman) foi deixado quebrar, os demais foram salvos, ninguém foi processado ou muito menos preso, a fraude gigantesca passou batida para que se salvasse o capitalismo americano.
Nos últimos dois dias, o sistema GLOBO, pelo Globonews, vem repetindo que o Brasil está sendo elogiado no exterior por causa de sua campanha anti-corrupção. A fala apareceu no programa EM PAUTA de 8 de março pela locução de Guga Chacra e ontem, no programa JORNAL DAS DEZ pela locução de Donny De Nuccio, âncora do Jornal. Guga Chacra citou um elogio de Dany Rodrick, professor de economia e só. Donny não citou ninguém, disse que o Brasil está sendo elogiado e que a operação anti-corrupção vai fazer os investidores voltarem ao Brasil porque agora o pais está limpo.
È uma lenda de mau gosto. Empresários do mundo inteiro detestam investigadores e promotores, seus inimigos naturais, e sentem afinidade com colegas empresários de outros países. É como um clube. Empresários se percebem como companheiros de outros empresários e se incomodam em ver seus colegas presos e não se sentem bem em países que os prenderam em grande quantidade e os mantem presos, é da natureza humana. Empresários não tem simpatia por aparelhos repressivos, tem simpatia por empresários que são considerados colegas de profissão. Portanto esse papo de que o Brasil está sendo ""elogiado" é politicamente correto apenas, na verdade o Brasil está sendo PROCESSADO por todo lado nos EUA por causa da exposição excessiva e escandalosa da corrupção, o que dá argumentos para promotores americanos e gangues de advogados abutres que compram ações da Petrobras só para processar e extorquir danos morais, alimentados pela abundância de "escrachos" produzidos no Brasil e que se voltam contra nós mesmos.
Se o ambiente de corrupção afasta investidores, como a economia mexicana, com longo histórico de corrupção política, está bombando? Não se defende a corrupção, mas os contextos precisam ser aclarados. Os primeiros empresários da Era Moderna foram os PIRATAS INGLESES do Caribe, a alma do empresário é do pirata e não do juiz, quem acha que país limpinho atrai investidor não tem a mais remota noção de negócios no mundo real.
Há também o problema geopolítico, há duas áreas no Brasil que são de grande irritação para Washington, a fabricação do submarino nuclear e a fabricação de mísseis pelo Brasil, área em que temos já tradição de 30 anos, não é uma coisa simples. Ambas áreas foram atingidas pela Lava jato, o submarino nuclear está sendo construído pela Odebrecht Defesa e os mísseis pela Mecatron, empresa controlada pela Odebrecht, já o programa nuclear tem como principal contratante a Andrade Gutierrez, através da Eletronuclear. Todas essas áreas estão sendo atingidas pela Lava Jato.
Por coincidência, a empreiteira brasileira pioneira na expansão para o exterior, a Mendes Júnior, acaba de pedir recuperação judicial, um símbolo que cai como a sinalizar o desmonte do capitalismo brasileiro, em larga medida um trem puxado pelas grandes empreiteiras, hoje todas na linha de tiro para serem estraçalhadas.
Há séculos o imperialismo usa o moralismo como ariete de rompimento de barreiras. O moralismo é sempre o PRETEXTO para atingir fins bem menos morais. O moralismo inglês que combateu o tráfico negreiro nos Século XIX não tinha fins tão nobres, tratava-se de criar mercado para os tecidos ingleses nas Américas, para o que os trabalhadores negros precisavam receber salários, portanto não deveriam ser escravos.
O moralismo nos EUA não acabou com a corrupção, apenas a legalizou. As doações políticas por empresas nos EUA são legais e ilimitadas, foi criado um mecanismo, os POLITICAL ACTION COMMITTEES, que podem receber qualquer valor das empresas, sempre declarados e dedutíveis do imposto de renda. Já a operação de interesses junto aos políticos foi há muito tempo legalizada pelo LOBBY registrado e legal, com despesas também deduzidas dos lucros.
Mesmo assim, há no setor do orçamento militar dos EUA, que gira em torno de US$680 bilhões anuais, um imenso número de malfeitos, de roubalheiras, as famosas tampas de privada de 2 mil dólares, que são apontados em muitos livros sobre o tema. Lá não são tão limpinhos como aqui os sacristãos de fórum vendem. Só que lá eles são mais discretos e não colocam a sujeira na janela. E nos EUA a Justiça jamais supera o interesse do Estado nacional e dentro desse interesse está a proteção ERGA OMNES das grandes corporações que são a espinha dorsal da economia americana.
As grandes empresas podem ser processadas mas os processos não atingem a essência da empresa, nem sua solidez ou potencial de operação presente e futuro. Centenas de prisões e delações ao mesmo tempo é coisa nunca vista nos EUA e nem em qualquer outro país de economia organizada, nenhuma causa justifica desmontar ao mesmo tempo grandes e importantes empresas como se está se fazendo aqui sem que ninguém se importe, como se isso fosse coisa normal.
Construir grandes empresas leva duas ou três gerações, quem diz que virão empresas estrangeiras no lugar das detonadas ou que médias empresas ocuparão seu lugar, não tem a MÍNIMA noção do mundo real, simplesmente não sabe do que está falando, não conhece o âmago da economia. Uma grande empresa é uma obra complexa, não se improvisa.
Alguns poucos na mÍdia e na academia estão associando as operações policialescas e todo o conjunto de ações anti-corrupção com o debacle da economia, mas muitos não correlacionam. A atual recessão se deve a vários fatores, mas o clima de caça as bruxas dá uma enorme contribuição ao ambiente de desânimo e desalento, além de afetar a economia real pelo desemprego nas construtoras, no cancelamento de pedidos e projetos, no desmonte de canteiros e estaleiros, na perda de grandes players para novas concessões que são essenciais para reerguer a economia.
Ao final, corruptos ou não, são os empresários que movem a economia e não inquéritos, processos e prisões.
O problema não é a tese pura da luta anti-corrupção, meritória por si própria. O problema está nos MÉTODOS que se usam para combater a corrupção, que podem matar o doente. O que sobra de uma grande empresa onde todos os executivos estão presos há meses, como fica o "clima" na empresa, os projetos futuros, a credibilidade perante os clientes e bancos? Empresas que sofrem essa razia de prisões e delações são arrasadas para não mais voltarem a funcionar.
Infelizmente a midia, por vício de escorpião, entra nessa cruzada matando os potenciais anunciantes que estão na economia produtiva, boa ou ruim, é de lá que vem seu faturamento, sem empresas não há anunciantes e não há economia.
segunda-feira, março 07, 2016
Terremoto no Brasil, por Pepe Escobar
7/3/2016, Pepe Escobar, SputnikNews
http://blogdoalok.blogspot.com.br/2016/03/terremoto-no-brasil-por-pepe-escobar.html#more
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Imagine um dos líderes políticos mais admirados em todo o planeta na história moderna arrancado do apartamento onde mora, às 6h da manhã, por agentes armados da Polícia Federal Brasileira, enfiado num carro sem identificação e levado ao aeroporto de São Paulo, para ser interrogado por mais de quatro horas, sobre eventos conectados a um escândalo de corrupção de um bilhão de dólares que envolve a petroleira brasileira Petrobrás.
Desse material se fazem os delírios de Hollywood. E a 'lógica' dos delírios de Hollywood é, exatamente, a 'lógica' por trás de mais essa elaborada produção.
Os procuradores por trás da investigação chamada "Car Wash"[1], que já dura dois anos, não se cansam de repetir que há "elementos de prova" que implicariam Lula, o qual teria recebido fundos – no mínimo, 1,1 milhão de euros – do esquema de corrupção que envolveria grandes empresas de construção conectadas à Petrobrás. As acusações rezam que Lula teria – e é o máximo que se pode dizer: "teria" – sido pessoalmente beneficiado de grande parte desse dinheiro, sob a forma de um sítio (que não pertence ao ex-presidente), um apartamento modesto à beira-mar, de remunerações por palestras no circuito mundial da 'palestragem', de doações à fundação que leva seu nome.
Lula é o mais consumadamente talentoso animal político – em nível Bill Clinton, de competência. Já havia avisado que esperava algum movimento desse tipo, porque a máquina da "Operação Car Wash" já havia prendido dúzia de pessoas suspeitas de manipularem contratos e concorrências comerciais entre suas respectivas empresas comerciais e a Petrobrás – mais de $2 bilhões – para subornar políticos do Workers' Party (WT), ao qual Lula, então presidente da República, era/é filiado.
O nome de Lula surgiu nas investigações, pela boca do proverbial gângster que se torna delator para reduzir a própria pena. A hipótese que ainda se mantém de pé – porque não há prova de nenhuma dessas acusações – é que Lula, quando governou o Brasil, entre 2003 e 2010, ter-se-ia beneficiado pessoalmente do esquema de corrupção que tem no centro a Petrobrás, e que teria obtido favores para si mesmo. Entrementes, a ineficiente atual presidenta Dilma Rousseff também está sob ataque, também por efeito de delação premiada feita pelo ex-líder de seu governo no Senado.
Lula foi interrogado em conexão com acusações por lavagem de dinheiro, corrupção e ocultação de patrimônio. A blitz hollywoodiana foi autorizada pelo juiz federal Sergio Moro – que não se cansa de repetir que se inspira no juiz italiano Antonio di Pietro e a famosa investigação dos anos 1990s Mani Pulite ("Mãos Limpas").
E é aqui que, inevitavelmente, a trama engrossa.
Prenda os que jornais e TVs acusam!
Moro e os procuradores da "Operação Car Wash" justificam a blitz hollywoodiana, com o argumento de que Lula ter-se-ia recusado a comparecer a qualquer interrogatório. Lula e o PT negam veementemente a 'acusação'.
Até agora, repetidas vezes os investigadores da "Operação Car Wash" têm vazado 'informes' e 'declarações' para a grande mídia – jornais, rádios e TVs –, sempre na direção de divulgar a 'notícia' segundo a qual "Até agora só conseguimos morder Lula. Quando o pegarmos, o engoliremos." Significa, para dizer o mínimo, uma politização, com partidarização, da Justiça, da Polícia Federal e do Ministério Público. Implica também que a blitz à moda de Hollywood pode ter autor ativo. A 'notícia' repetida incontáveis vezes no ciclo das 'notícias' da grande mídia-empresa, hoje instantaneamente global, foi que Lula teria sido preso 'porque é corrupto'.
Mas... a coisa vai ficando cada vez mais estranha, quando se descobre que o juiz Moro é autor de artigo publicado numa revista obscura, nos idos de 2004 ("Considerações sobre Mãos Limpas", revista CEJ, n. 26, Julho-Set. 2004). Nesse artigo, Moro prega, claramente, "a subversão autoritária da ordem jurídica para alcançar alvos específicos" e o uso da mídia para intoxicar a atmosfera política.
Claro que tudo isso serve a uma agenda específica. Na Itália, a direita viu a saga das Mani Pulite como excesso vicioso do exercício da justiça; a esquerda, do outro lado, entrou em êxtase. O Partido Comunista Italiano saiu da investigação com as mãos limpas. Mas no Brasil, a operação tomou a esquerda como alvo predefinido antes de qualquer devido processo legal –, e a direita, pelo menos até agora, está sendo mostrada como constituída só arcanjos tocadores de harpa e cantadores de hinos.
O candidato derrotado nas eleições presidenciais de 2014, por exemplo, herdeiro mimado e cheirador de cocaína Aécio Neves, por exemplo, foi absolvido em três acusações por corrupção, canceladas, pode-se dizer, sem maiores investigações.
O mesmo vale também para outro muito suspeito esquema que envolve o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – conhecido autopromotor dos próprios suspeitos talentos e feitos, ex-desenvolvimentista convertido em empenhado aplicador de política neoliberais.
A impressão que a Operação Lava-Jato já deixou bem fundamente marcada em todo o Brasil é que acusações de corrupção só são investigadas se o acusado for nacionalista progressista. Os vassalos do consenso de Washington são sempre predefinidos como anjos – generosamente imunizados contra acusações, delações e processos.
Está acontecendo como se vê, porque Moro e a equipe dele estão-se servindo empenhadamente da 'tática' que o próprio juiz Moro definiu, de usar a mídia-empresa para intoxicar a atmosfera política, com a opinião pública tornada alvo de manipulação serial, mesmo antes de qualquer acusado ser formalmente acusado de qualquer crime.
Aí está. Já se sabe que Moro e as fontes de que se servem ele e seus procuradores são em enorme medida farsescas, ou trambiqueiros conhecidos, ou mentirosos seriais. Por que, então, tantos parecem acreditar no que eles dizem? Porque não há prova de nenhuma das acusações. Simples. O próprio juiz Moro admite.
E isso nos leva a um quadro terrível: o complexo midiático-judiciário-policial parece ter sequestrado, no Brasil-2016, uma das mais saudáveis democracias do planeta.
Essa ideia encontra corroboração num fato visível para todos. O 'projeto' da oposição de direita no Brasil resume-se a um só objetivo: arruinar a economia da 7ª maior potência econômica do mundo, para, assim, conseguir destruir Lula como candidato á presidência em 2018.
Reina a elite saqueadora
Nada do que acima se lê pode ser compreendido por público global, sem algum conhecimento da Brasiliana clássica. No Brasil, reza a lenda que "o Brasil não é para amadores". Não é mesmo. Trata-se de sociedade espantosamente complexa – que transitou praticamente sem pausa de um Jardim do Éden [a Terra sem Mal, dos guaranis? (NTs)] (antes de a terra ser "descoberta" pelos portugueses em 1500), para a escravidão [que durou 300 anos e ainda permeia todas as relações sociais (NTs)][2]), dali a outro evento crucial, em 1808: a mudança, para o Brasil, de Dom João 6º de Portugal (e imperador vitalício do Brasil), que fugia da invasão napoleônica, arrastando consigo 20 mil nobres portugueses, que lá organizaram o "moderno" estado brasileiro. "Moderno" é eufemismo; a história mostra que descendentes daqueles 20 mil europeus só fizeram saquear o país, ao longo dos últimos 208 anos. Poucos deles algum dia chegaram a ser julgados e condenados.
As elites tradicionais brasileiras compõem uma das misturas mais repugnante-arrogante-ignorantemente preconceituosas e tóxicas de todo o planeta. "Justiça" – e aplicação policial da lei – só se usam como armas quando as pesquisas não favorecem a agenda daquela gente.
E uma parte intrínseca daquelas elites são os proprietários dos veículos da mídia-empresa hegemônica no Brasil. Em grande medida semelhante ao modelo concentracionista que se vê nos EUA, no Brasil apenas quatro famílias controlam toda a paisagem 'midiática', com destaque para a família Marinho, que comanda o império empresarial midiático O Globo. Tenho experiência direta, de dentro, detalhada, de como operam.
O Brasil é estrutura corrompida até o cerne – das elites 'comprador' até largas fatias das "novas" elites, que incluem o Workers' Party. O Partido padece de grave carência de quadros qualificados. Parece inegável que houve e há a corrupção e tráfico de influência envolvendo a Petrobras, construtoras e políticos de vários partidos, embora a coisa nem de longe se possa comparar ao dia a dia do 'relacionamento' de compra-e-venda e suborno de políticos, do tipo Estado & Goldman Sachs, ou Estado & Big Oil e/ou do tipo Estado & Irmãos Koch/Sheldon Adelson nos EUA.
Se o que hoje se vê no Brasil fosse, cruzada sem limites contra a corrupção – que os operadores da Operação Car Wash não se cansam de repetir que seria – a oposição de direita/vassalos das velhas elites também já teriam aparecido nas 'investigações' e já teriam sido expostas nos veículos da mídia-empresa dominante. Mas se aparecessem nomes conectados às velhas elites, a mídia-empresa dominante atentamente zelaria para que não fossem expostos e apagaria completamente do noticiário qualquer investigação em curso.
E jamais haveria, com personagem das elites, a blitz hollywoodiana montada contra Lula – apresentado como delinquente, com vistas a humilhá-lo diante do mundo.
Os procuradores da Operação Car Wash têm razão nisso: a percepção construída pela mídia-empresa passa a ser a realidade. Sim, mas, e se o tiro sair pela culatra?
Consumo zero, investimento zero, crédito zero
O Brasil atravessa situação extremamente difícil. O PIB caiu 3,8% ano passado; provavelmente cairá 3,5% esse ano. O setor industrial encolheu 6,2% ano passado; a mineração, caiu 6,6% no último trimestre. O país caminha na direção da sua pior recessão, desde... 1901.
Não há Plano B – no governo incompetente de Rousseff – para enfrentar a desaceleração da China, quando se reduziram as compras de produtos agrícolas e minérios do Brasil, nem o tropeço global nos preços de commodities.
O Banco Central mantém a taxa de juros em espantosos 14,25%. Um "ajuste fiscal" neoliberal desastroso, tentado pelo governo Rousseff, só aprofundou a crise. Pode-se dizer, usando uma figura de linguagem, que hoje Rousseff "governa" – para o cartel de bancos e os rentistas que lucram com a dívida pública brasileira. Mais de $120 bilhões do orçamento do governo evapora, para pagar juros da dívida pública.
A inflação está subindo – já entrando em território dos dois dígitos. Desemprego está em 7,6% – de fato, muito melhor que em muitos países da União Europeia –, mas aumentando.
Os suspeitos de sempre, claro, festejam, e nunca param de 'analisar' que o Brasil se teria tornado "tóxico" para investimentos globais.
Não há dúvidas de que a coisa está feia. Não há consumo. Não há investimento. Não há crédito. A única saída possível seria esvaziar a crise política. Mas os micróbios que pululam na 'oposição' só têm uma obsessão: o impeachment da presidenta Rousseff.
Pairam sombras da velha tática da "mudança de regime": para aqueles vassalos de Wall Street/EUA "Império do Caos", uma crise econômica, alimentada todos os dias por uma crise política, levará fatalmente, necessariamente, à derrubada do governo eleito naquele país BRICS crucialmente importante.
E então, de repente, do nada, aparece... Lula.
A ação da Operação Car Wash pode, sim, sair pela culatra – e gravemente pela culatra. Lula voltou à liça. Entrou em modo de campanha eleitoral para 2018 – embora ainda não seja candidato oficial. Que ninguém jamais subestime um animal político de tal envergadura.
O Brasil não está nas cordas. Se reeleito, Lula pode expurgar do Workers' Party uma legião de escroques, e imprimir nova dinâmica ao partido e ao país. Antes da crise, o capital brasileiro estava rapidamente se globalizando – via Petrobrás, Embraer, o BNDES (o modelo de banco que inspirou o banco dos BRICS), as grandes construtoras.
Ao mesmo tempo, pode haver vantagens em romper, pelo menos em parte, o cartel oligárquico que controla toda a construção de infraestrutura no Brasil. Para ver as vantagens, basta pensar em empresas chinesas construindo ferrovias para trens de alta velocidade, barragens e portos dos quais o Brasil tão desesperadamente carece.
O próprio juiz Moro teorizou que a corrupção prosperaria, porque a economia brasileira é excessivamente fechada, como foi a Índia até há pouco tempo. Sim, mas... Há enorme diferença entre abrir alguns setores da economia brasileira, e escancarar tudo para que interesses associados às elites comprador estrangeiras saqueiem o país.
E então, mais uma vez, temos de voltar ao tema recorrente em todos os grandes conflitos globais.
É o petróleo, estúpido!
Para o Império do Caos, o Brasil sempre foi grave dor de cabeça desde a primeira eleição de Lula, em 2002 (para avaliação das complexas relações EUA-Brasil, vide o trabalho indispensável de Moniz Bandeira[3]).
Alta prioridade do Império do Caos é impedir a emergência de potências regionais que cheguem abarrotadas de recursos naturais, do petróleo a minérios estratégicos. É o Brasil, descrito em minúcias. Washington como sempre se sente perfeitamente autorizada e legitimada para "defender" recursos que não lhe pertencem. Mas, para tanto, ela não só precisa fazer abortar quaisquer associações de integração regional, como Mercosul e Unasul, mas, sobretudo, tem de impedir que cresça o alcance global dos BRICS.
A Petrobrás sempre foi empresa estatal muito eficiente, que passou a ser também operadora única das maiores reservas de petróleo descobertas, até agora, no século 21: os depósitos do pré-sal. Antes de tornar-se alvo de ataque massivo de especuladores, 'judiciário' brasileiro e mídia-empresas, a Petrobrás gerava 10% dos investimentos e 18% do PIB brasileiro.
A Petrobrás descobriu os depósitos do pré-sal baseada em suas próprias pesquisas e inovações tecnológicas aplicada à busca por petróleo em águas profundas – sem nenhuma participação de outros países, de nenhum tipo. A beleza da coisa está em que não há risco: se você perfura aquela camada de pré-sal, o petróleo ali está. Nenhuma empresa do planeta entregaria essa riqueza à concorrência.
Pois mesmo assim, uma lesma da oposição de direita prometeu à Chevron em 2014 que entregaria a exploração do pré-sal com preferência ao Big Oil. Agora, a oposição de direita trabalha para alterar o regime jurídico do pré-sal; a modificação já foi aprovada no Senado. E Rousseff está cordatamente deixando a coisa evoluir. Para piorar, o governo Rousseff nada fez para recomprar ações da Petrobrás – cuja queda vertiginosa foi espertamente construída pelos suspeitos de sempre.
O desmanche meticuloso da Petrobrás, com o Big Oil eventualmente chegando aos depósitos do pré-sal, para deter e manter parada a projeção do poder global de mais um BRICS, tudo isso casa-se às mil maravilhas com os interesses do Império do Caos. Geopoliticamente, isso é muitíssimo mais importante que blitz hollywoodiana e investigação de Operação Car Wash.
Não é coincidência que as três maiores nações BRICS estejam sendo simultaneamente atacadas – em incontáveis níveis: Rússia, China e Brasil. A estratégia combinada pelos Masters of the Universe que ditam as regras no eixo Wall Street/Av. Beltway [governo dos EUA em Washington] é minar por todos os meios possíveis o esforço coletivo dos BRICS para produzir alternativa viável ao sistema econômico/financeiro global – esse mesmo que, atualmente, está submetido ao capitalismo-de-cassino. É pouco provável que Lula, sozinho, consiga detê-los.*****
[1] Em port. "Operação Lava Jato". Dado que toooooooooooooooodos os jornais da mídia-empresa falam de Lava Jato, optamos por introduzir essa variante, na discussão: Operação Car Wash. O mesmo vale para Workers's Party (WP), para Partido dos Trabalhadores (PT), que optamos por referir em inglês. São ferramentas discursivas q temos de aprender a usar, para reorientar a discussão. Guerra é guerra. Não vai ter golpe. [NTs]
[2] Os dois livros mais importantes sobre essa específica trajetória histórica do Brasil, com sua correspondentemente específica inserção no mundo do capital ocidental são:
– SCHWARZ, Roberto, Um Mestre na Periferia do Capitalismo: Machado de Assis. São Paulo: Duas Cidades, 1990. (3ª ed. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34, 2001), em inglês: A Master on the Periphery of Capitalism: Machado de Assis. Trans. John Gledson. Durham: Duke University Press, 2002); e
– SCHWARZ, Roberto, Ao Vencedor as Batatas: Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. São Paulo: Duas Cidades, 1977 (5ª ed., revista. São Paulo: Duas Cidades / Ed. 34, 2000), em ing. Misplaced Ideas: Essays on Brazilian Culture.(Ed. and with an introduction by John Gledson). London: Verso, 1992 [NTs].
[3] MONIZ BANDEIRA, Luiz Alberto. Brasil, Argentina e Estados Unidos: conflito e integração na América do Sul (da Tríplice Aliança ao Mercosul), 1870-2003. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010, 3ª edição revista e ampliada, 669 págs (dentre vários outros títulos todos importantes). O professor Moniz Bandeira é empenhado amigo do Coletivo de Tradutores Vila Vudu, do que muito nos orgulhamos [NTs].
sábado, fevereiro 06, 2016
Para a Rússia, basta: Acabou-se a conversa de "business, como sempre" com EUA
Gilbert Doctorow, Rússia Insider
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=36400348#editor/target=post;postID=3149408377098199481
O ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov falou impressionantemente numa conferência de imprensa, que a mídia-empresa ocidental fingiu que não aconteceu. Disse que, para a Rússia, basta. Que se acabou a conversa de 'business como sempre' com a União Europeia ou com os EUA. Que se inicia um novo estágio na história, que só terá futuro se baseado em direitos iguais e em todos os demais princípios da lei internacional.
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Na 3ª-feira, 26/1/2016, o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, participou de sua conferência anual com a imprensa, à qual estavam presentes cerca de 150 jornalistas, inclusive o correspondente da BBC Steve Rosenberg e muitos outros representantes dos mais conhecidos veículos da mídia-empresa ocidental. É evento anual, que tem o objetivo de passar em revista as questões que o Ministério enfrentou no ano anterior e avaliar os resultados alcançados.
As palavras iniciais do ministro foram concisas, não mais de 15 minutos. As restantes duas horas foram consumidas em perguntas feitas pelos jornalistas presentes. Com o microfone andando de mão em mão entre jornalistas de todos os cantos do mundo, a discussão cobriu variedade muito grande de assuntos. Por exemplo, cito as negociações sobre novas conversações de paz para a Síria em Genebra; comentários de David Cameron sobre as descobertas de um inquérito no Reino Unido sobre o assassinato de Litvinenko; as possibilidades de restabelecerem relações diplomáticas com a Geórgia, a possibilidade de mais um 'res-set' com os EUA; e possibilidades de solução para o conflito em torno das ilhas Kurile sul, e de concluir um tratado de paz com o Japão.
Que eu saiba, nenhuma matéria sobre o evento apareceu em qualquer veículo, jornal ou canal de TV norte-americano, francês, britânico ou alemão. Não por falta de material importante ou substancial, incluindo o título sobre "acabou-se a conversa de 'business' como sempre". Como disse há algum tempo, depois de blecaute semelhante no noticiário sobre evento na Rússia, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Maria Zakharova, conhecida pela língua afiadíssima: "Nem se sabe o que fazem em Moscou tantos correspondentes estrangeiros de tão respeitados veículos, se os jornais deles nada publicam... O que fazem eles o dia todo, aqui em Moscou?"
Como sempre faz, o Ministério postou no Youtube o vídeo integral, de três horas de duração. Também postou transcrições em russo e em inglês no website www.mid.ru. A versão em russo cobre 26 laudas datilografadas em espaço um. Usei essa versão, porque sempre prefiro trabalhar com textos em idioma original e, sendo preciso traduzir, gosto de traduzir eu mesmo. A versão em inglês cobre cerca de 40 páginas, porque o russo é idioma mais sintético que o inglês.
Observei, primeiro no Pervy Kanal da televisão russa, depois na transcrição, o quanto Lavrov conhece impressionantemente bem todas as questões que se discutiram e o cuidado do ministro para oferecer respostas detalhadas, que se estendiam por vários minutos, sem consultar qualquer nota escrita.
Em segundo lutar, era óbvio que Lavrov falava ali mais 'livremente', sem recorrer a eufemismos diplomáticos, do que em qualquer outra ocasião que eu o tenha ouvido falar. Concluí que recebeu autorização do presidente Putin para falar o mais claramente possível, sem impedimentos de qualquer tipo. Dadas a experiência de Lavrov, que já é um dos ministros de Relações Exteriores que permaneceu no cargo por mais tempo dentre todas as grandes potências e sua brilhante inteligência, Lavrov ofereceu ali não um, mas vários ensaios, como se os estivesse ditando, para posterior revisão e publicação.
Por essas razões, decidi dividir meu relato daquela conferência de imprensa, em duas partes. Uma, para oferecer Lavrov 'em suas próprias palavras'; e a outra, com minhas conclusões sobre o ambiente internacional nos anos futuros, consideradas as posições básicas da Rússia. Concentro-me, especialmente no possível fim das sanções norte-americanas e europeias contra a Rússia e em como o próximo governo dos EUA pode preparar-se para relações com a Rússia, assumindo que nada mude muito no pensamento das elites norte-americanas sobre o papel do país no mundo.
Parte 1: Sergey Lavrov em suas próprias palavras
Para essa primeira parte, extraí alguns trechos que caracterizam todo o amplo arco de ideias de Lavrov e do Kremlin sobre relações internacionais, aplicando a elas o prisma de sua Realpolitik e focados, para começar, nas relações EUA-Rússia. É recorte essencial, desde que, ao ver só as árvores, não percamos de vista a floresta.
Com respeito aos EUA, as relações bilaterais transcendem as contingências do próprio ministro. Na verdade, toda a política externa dos EUA é sobre relações com os EUA. Por isso selecionei os dois primeiros excertos que se leem entre aspas, abaixo. O terceiro excerto, sobre sanções, parece ter mais a ver com relações com a União Europeia. Selecionei-o porque o fim das sanções com certeza será questão chave de política externa que a Rússia enfrentará nos primeiros seis meses desse ano, e por trás dela vê-se a posição dos EUA. Resumi trechos onde me pareceu adequado, para não repetir argumentos (no texto abaixo, meus resumos aparecem em itálicos).
Pergunta 1: Há algum 'res-set' possível nesse último ano do governo de Barack Obama?
"Não é pergunta que nós possamos responder. Nossas relações de Estado caíram a ponto lamentável, por mais que houvesse excelentes relações pessoais entre o ex-presidente Bush dos EUA e o presidente Putin da Rússia. Quando o presidente Barack Obama assumiu a Casa Branca e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton ofereceu um "res-set," foi reflexo do fato de que os próprios norte-americanos afinal viam a anormalidade daquela situação – quando Rússia e EUA não cooperavam para resolver problemas que, sem os dois estados, não tinham solução possível...
"Demos resposta construtiva ao 'res-set.' Dissemos que apreciávamos a decisão da nova presidência, para corrigir os erros dos predecessores. Conseguimos muita coisa: o Novo Tratado START [Strategic Arms Reduction Treaty]; a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio; um conjunto de novos tratados para várias situações de conflito.
Até que, sem mais nem menos, tudo começou a regredir rapidamente de volta ao zero. Agora todos, inclusive nossos colegas norte-americanos, nos dizem: 'Basta cumprirem os acordos de Minsk sobre a Ucrânia, e imediatamente tudo voltará ao normal. Imediatamente cancelaremos as sanções e abrir-se-ão possibilidades tentadoras de cooperação entre Rússia e os EUA em questões muito mais agradáveis, não só para gestão de crises; imediatamente, ganhará forma um programa de parceria construtiva.'
"Os russos estamos abertos à cooperação com todos os países, em bases igualitárias, mutuamente vantajosas. Claro que os russos não desejamos que alguém construa as próprias políticas baseadas no pressuposto de que a Rússia, não a Ucrânia, é quem teria de cumprir os acordos de Minsk. Os acordos trazem, escrito, quem deve cumpri-los. Espero que os EUA tenham percebido isso. Pelo menos, meus mais recentes contatos com o secretário de Estado John Kerry; e os contados de Surkov, Assessor da Presidência da Rússia, com a vice-secretária de Estado Victoria Nuland, indicam que os EUA, sim, conseguem entender a essência dos acordos de Minsk. Grosso modo, todo mundo entende tudo...
"Acabo de dizer que há gente recomeçando a propor um novo 'res-set.' Se cumprirmos (se a Rússia cumprir) os acordos de Minsk, nesse caso imediatamente tudo ficará maravilhoso, com possibilidades futuras esplêndidas e tentadoras.
"Mas o resfriamento das nossas relações com o governo do presidente Barack Obama dos EUA e o fim do período associado com o 'res-set' começaram muito antes da Ucrânia.
Lembremos como aconteceu. Primeiro, quando finalmente conseguimos o 'de acordo' de nossos parceiros ocidentais sobre condições para nos integrarmos à OMC que fossem aceitáveis para a Rússia, os norte-americanos puseram-se a dizer que não interessava a eles manter a emenda Jackson-Vanik. Que eles seriam privados dos privilégios e vantagens que se conectam à participação da Rússia na OMC. E começaram a trabalhar para excluir aquela emenda.
Mas os norte-americanos não seriam os norte-americanos se simplesmente abolissem a emenda e dissessem "Pronto, está feito, agora podemos cooperar normalmente". Nada disso. Imediatamente, conceberam a tal [lei]'Magnitsky Act,' por mais que eu tenha certeza de que não aconteceu a Magnitsky o que se divulgou que teria acontecido. Espero sinceramente que, mais dia menos dia, a verdade venha à tona e todos afinal saibamos o que realmente aconteceu.
"É terrível como se construíram provocações e especulações em torno da morte de um homem. Fato é que aconteceu, os senhores aqui presentes sabem quem fez lobby para aprovar essa 'Lei Magnitsky', a qual imediatamente substituiu a emenda Jackson-Vanik.
"Tudo isso começou muito antes de se falar sobre Ucrânia, por mais que os norte-americanos agora tentem atribuir tudo a violações de princípios da OSCE.
Hoje, toda e qualquer coisa que aconteça entre o ocidente e a Rússia é explicado 'por que' a Rússia teria deixado de cumprir suas obrigações; porque não teríamos respeitado a ordem mundial implantada na Europa depois do Helsinki Act, etc.
Todas essas são tentativas para justificar e encontrar desculpas para manter a política de contenção. Na verdade, essa política nunca terminou.
"Depois da 'Lei Magnitsky' houve reação absoluta e completamente inadequada, super dimensionada, quanto ao que aconteceu a Edward Snowden, que foi trazido para a Rússia contra nossa vontade. Não sabíamos coisa alguma sobre isso. Snowden não tinha passaporte (seus documentos foram cancelados durante a viagem, em voo). Não podia ir para lugar algum, saindo da Rússia, por causa de decisões que já haviam sido tomadas em Washington.
Só nos restou dar-lhe a chance de permanecer na Rússia, para garantir que estaria a salvo, conhecendo bem os artigos das leis que ameaçavam aplicar-lhe. Os norte-americanos não fizeram segredo de nada disso. O que fizemos foi simplesmente garantir proteção elementar a uma pessoa que estava com a vida ameaçada.
"Na sequência, o presidente dos EUA Barack Obama cancelou uma visita à Rússia. Inventaram um escândalo horrível. Dúzias de telefonemas chegavam, do FBI, da CIA, do Departamento de Estado. Houve contatos diretos com o presidente. Disseram-nos que, se não entregássemos Snowden, as relações seriam rompidas. Os EUA cancelaram a visita. Aquela visita não houve, mas o presidente dos EUA veio para a reunião do G-20 em São Petersburgo, onde ele, vale destacar, fez coisa bem útil – chegamos a um acordo sobre os princípios para a remoção das armas químicas sírias.
"Ucrânia foi apenas pretexto. A crise ucraniana não está tão conectada como se supõe com alguma preocupação que seria justificada com suposta violação, pela Rússia, dos princípios de Helsinki (embora tudo tenha começado com o Kosovo, com o bombardeio da Iugoslávia, etc.).
O 'caso' Ucrânia foi expressão de irritação porque o coup d'état não levou diretamente aos resultados esperados pelos que o promoveram e apoiaram.
"Digo-lhes honestamente que não guardamos qualquer ressentimento. Essa não é nossa tradição nas relações entre estados. Compreendemos profundamente que a vida é mais dura que esquemas românticos, idealizados, como 'res-sets' ou similares. Também compreendemos que vivemos num mundo no qual os choques de interesses são duríssimos, e que nos chegam desde o tempo em que o ocidente dominava completamente o mundo.
Tudo isso passa hoje por um longo período de transição na direção de sistema mais estável, no qual não haverá um nem mesmo dois polos dominantes, mas vários, muitos diferentes polos. A transição é longa e dolorosa. Velhos hábitos demoram a morrer. Compreendemos perfeitamente tudo isso.
"Compreendemos que os EUA têm interesse em que haja número menor de concorrentes com território, influência, poder militar, economia comparáveis aos deles.
Vê-se a mesma coisa também nas relações entre EUA e China, no modo como os EUA operam com a União Europeia, tentando criar um cerco em torno dela com aquela Parceria Trans-Atlântica, e, para o leste da Rússia, com a outra 'parceria', a Parceria Trans-Pacífico, que exclui Rússia e China. O presidente Vladimir Putin falou sobre isso detalhadamente quando analisou o processo ativado hoje na economia e política mundiais. Nós compreendemos muito bem tudo isso.
"Claro que cada época traz com ela novas tendências, quadros conceituais e modos de pensar de uma ou de outra elite, especialmente nos grandes países que veem a seu modo as maneiras para lutar por seus interesses. Seria muito ruim, seria ruinoso para todos nós, se esses processos abandonassem o contexto das normas e leis internacionais geralmente aceitas.
Se acontecer desse modo, dito bem claramente, tudo vira de pernas para o ar, e seríamos arrastados para um mundo de anarquia e caos – mais ou menos o que já se vê no Oriente Próximo, talvez sem derramamento de sangue. Cada um se porá a agir como entender necessário, e nada de bom brota daí. É muito importante observar algum tipo de regras gerais de jogo para todos.
"Respondendo sua pergunta: eu gostaria muito de que os EUA tivessem um 'res-set' com o mundo inteiro, um 'res-set' geral, de modo que todos pudéssemos nos reunir e confirmar o compromisso de todos com a Carta da ONU, com os princípios ali incorporados, incluindo a não interferência em assuntos internos dos estados, respeito à soberania e integridade territorial e ao direito dos povos à autodeterminação, ao direito dos povos de escolherem o próprio futuro, sem interferência externa."
Pergunta 2 : Na Conferência de Segurança de Munique em 2007, o presidente Putin disse ao ocidente que "vocês precisam de nós mais do que nós precisamos de vocês". A posição da Rússia ainda é essa?
"Idealmente, os dois lados necessitam um do outro para fazer frente aos desafios e ameaças. Mas a realidade é diferente. O ocidente nos pede ajuda muito mais frequentemente do que nós pedimos a ele."
Como resposta às sanções ocidentais, lutamos hoje para ser autossuficientes e promovemos substituição de importações. Não queremos nos isolar do mundo. Estamos prontos a cooperar, desde que a cooperação dê-se em termos igualitários.
"Temos de fazer de tudo para garantir que não dependamos do arbítrio de um país ou grupo de países, sobretudo de nossos parceiros ocidentais (como aconteceu quando se ofenderam porque apoiamos a população de russos na Ucrânia, que não reconheceu o coup d'etat). Citei Dmitry Yarosh [líder dos nacionalistas radicais do Setor Direita] que queria destruir os falantes de russo na Ucrânia ou privá-los de seus direitos. Queremos nos preservar contra situações desse tipo.
"(...) Observo que não somos os russos que estamos correndo aos nossos colegas europeus e dizendo "façamos alguma coisa para remover as sanções". Não. Os russos não estamos fazendo isso. Estamos focados em não depender desses ziguezagues da política ocidental, em não depender de a Europa fazer o que os EUA ordenam. Mas em nossos contatos bilaterais, nossos colegas europeus, quando nos procuram ou nos encontramos em fóruns internacionais, dizem: 'Vamos pensar em alguma coisa. Ajudem-nos a levar adiante os acordos de Minsk, ou essas sanções vão provocar grande dano. Queremos é virar essa página.' Fato é que nessa situação eles precisam mais de nós que nós deles. Inclusive para cumprir os acordos de Minsk. (...) Sim, temos influência no Donbass e os apoiamos. Sem dúvida, se não tivessem nossa ajuda e os suprimentos humanitários, o Donbass estaria em situação muito grave. Mas é preciso também que alguém exerça influência em Kiev. É necessário que o ocidente influencie as autoridades em Kiev. Até agora porém nada disso está acontecendo.
"Ou considerem a questão do programa nuclear iraniano. Nos estágios decisivos daquelas negociações, nós fomos literalmente bombardeados com solicitações de que era necessário resolver as questões da exportar urânio enriquecido em troca de urânio natural, que seria a condição chave para alcançarem-se os acordos; quando era necessário resolver a questão de quem converteria os locais de enriquecimento em Fordu em pesquisa para produzir isótopos médicos, etc. Vieram a nós com pedidos que implicavam significativa carga financeira, ou, no mínimo, que não traziam qualquer benefício material. Mas nós cumprimos nossa parte do trabalho. Agora, estão aí nos convocando, e nossos colegas chineses, para encaminharmos o problema norte-coreano 'ajudem-nos a fazer algo que obrigue a Coreia do Norte a cumprir suas obrigações.'
"Ou, então, vejam o caso da Síria."
"Não consigo lembrar de qualquer pedido de ajuda que tenhamos feito recentemente aos nossos colegas ocidentais. Entendemos que não há sentido algum em fazer solicitações. Depois que você assina acordos na conclusão de negociações, o que resta a fazer é cumprir as obrigações assumidas, não encaminhar pedidos de favores."
Questão 3: Sobre se as sanções terão fim em breve
"(...) Eu lhe diria que, entre grande número de nossos parceiros há consciência de que não podem continuar assim por muito mais tempo, que a situação é danosa para eles.
"Nossa justificativa para falar sobre algumas possíveis mudanças positivas resume-se ao seguinte: nossos parceiros ocidentais com frequência cada vez maior começam a compreender que caíram numa armadilha que eles mesmos criaram, quando disseram que levantarão as sanções depois de a Rússia 'cumprir os acordos de Minsk.
"Parece que agora compreenderam que, muito provavelmente, foi um lapsus linguae. Mas em Kiev ouvia-se aquilo com muita frequência, e a coisa era interpretada como uma indulgência que os 'autorizava' a não cumprirem os acordos de Minsk.
"A evidência de que não cumprem o que assinaram não significa só que Kiev não tem o dever de tomar quaisquer medidas e de cumprir suas obrigações. Significa também que o ocidente terá de manter as sanções contra a Rússia. Foi necessário provar tudo isso a alguns cavalheiros que estão em Kiev soprando brasas para incendiar atitudes radicais."
Lavrov diz que falou com o representante russo à mais recente sessão do Grupo de Contato e que ouviu sobre essa atitude dos intermediários da OSCE que trabalham como coordenadores. Diz que também sentiu isso nas discussões no Formato Normandia em nível de ministros de Relações Exteriores. A próxima reunião está marcada para 8 de fevereiro.
"O ocidente compreende que a presente situação é completamente sem esperança, mesmo que todos finjam que a Rússia tem de cumprir os acordos de Minsk, mas a Ucrânia não poderia fazer coisa alguma – não poderia mudar a Constituição, não poderia dar status especial ao Donbass, não poderia oferecer uma anistia, não poderia organizar eleições em comum acordo com o Donbass.
"Todos compreendem que ninguém resolverá esses problemas pela Ucrânia. Todos compreendem que é anormal, algo patológico que emergiu, convertendo a crise ucraniana – que surgiu como resultado de um golpe de estado absolutamente ilegal, anticonstitucional –, em régua para aferir todas as relações entre a Rússia e o ocidente.
"Tudo isso é absolutamente anormal, situação doentia, artificialmente inflada por países muito distantes da Europa. A Europa não quer continuar como refém dessa situação. Para mim, isso é absolutamente óbvio."
Parte 2: Conclusões gerais
Na primeira parte desse meu exame da conferência anual de imprensa do ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, realizada em Moscou, dia 26 de janeiro, apresentei três longos excertos da transcrição publicada pelo Ministério. Minha intenção era dar aos leitores uma pitada do método de argumentar de Lavrov e do tom sóbrio em que conduziu o encontro, sem se amparar em qualquer nota escrita e sem conhecer as perguntas que os jornalistas fariam. Quis oferecer minha tradução, para escapar dos termos-códigos, como "solicitações", que o ocidente encaminharia à Rússia, e dar ao leitor noção mais clara do que realmente passa pela cabeça do ministro russo.
Na fala de abertura – que trouxe redigida – Lavrov já fixara alguns dos pontos chaves da abordagem geral dos assuntos internacionais, a que a Rússia chegou servindo-se de duas ferramentas analíticas: o realismo e o interesse nacional da Rússia. A questão número 1 que a Rússia vê à frente dela e do mundo, do ponto de vista russo, é chegar a um novo sistema de gestão dos assuntos internacionais. As relações da Rússia com o ocidente são parte e parcela desse desafio mais amplo.
O novo sistema esperado será construído em plena igualdade de relações entre estados, respeito por seus interesses e não interferência em assuntos internos. Numa palavra, Lavrov estava repetindo a convocação que Vladimir Putin fez para que as nações se reorientassem na direção dos princípios da Carta da ONU, que o presidente russo enunciou em New York em setembro de 2015 na reunião que comemorou o 70º aniversário da Assembleia Geral. O novo sistema de governança global será resultado de reformas nas instituições internacionais básicas, ao mesmo tempo em que o poder político e econômico é realocado de modo que reflita as mudanças no poder econômico e militar relativo das nações, em relação ao tempo em que aquelas instituições foram estabelecidas.
Nela mesma, nada há de especialmente novo nessa visão. É de domínio público há anos e já inspirou uma conclamação para que se reajustem as potências votantes dentro do FMI.
A novidade, que chocará muitos em Washington, foi a repetida e clara identificação dos EUA, na fala de Sergey Lavrov, como a potência que obra para frustrar a renovação da governança global, porque obcecadamente agarra-se ao controle hegemônico das instituições, ao mesmo tempo em que busca consolidar ainda mais o controle que ainda exerce sobre seus aliados na Europa e na Ásia, à custa dos interesses nacional dos aliados, sacrificados à promoção do exclusivo interesse dos EUA.
Por isso Lavrov mencionou os projetos das 'parcerias' TPP e TIPP. Por isso mencionou repetidas vezes a ação de forças estranhas, de fora, sempre em clara referência aos EUA, que impuseram sanções europeias contra a Rússia, contra a vontade de vários estados-membros da União Europeia.
A certa altura, respondendo a um jornalista do Japão, Lavrov abandonou completamente a linguagem velada. Disse que a Rússia é favorável, em princípio, a dar assento permanente ao Japão no Conselho de Segurança da ONU, mas que o país só votará nessa direção quando for absolutamente claro e garantido que o Japão, nas discussões e nas votações, manifestará o interesse e a posição nacional do Japão, contribuindo para ampliar a diversidade de pontos de vista, em vez de meramente repetir o que os EUA mandem dizer, como mais um país vassalo.
É interessante que Lavrov tenha explicitamente negado que a Rússia sinta-se ofendida, ou, como traduzi alternativamente, guarde "qualquer ressentimento" quanto ao modo como tem sido tratada pelos EUA na espiral descendente de relações, do ponto mais alto do 'res-set' até o fundo do poço em que estão hoje. O contexto dessa observação é a incansável campanha de desmoralização de que Putin é alvo, sobretudo dos discursos do presidente da Rússia. Observações feitas por Putin, de o quanto as coisas saíram erradas desde o final da Guerra Fria são regularmente classificadas como "diatribes" e "revisionismo", para dizer que seriam agressivas, ameaçadoras e possivelmente irracionais.
Lavrov diz que Rússia reconhece que a vida é dura, o mundo é difícil e a concorrência é cruel. Esse o real sentido da fala 'para as manchetes', segundo a qual não há como voltar ao clima de "business, como sempre", ou às noções idealistas que subjazem aos 'res-sets' mesmo depois de as sanções contra a Rússia terem sido levantadas. Mas a Rússia está, mesmo assim, aberta a negócios que se construam em termos igualitários e mutuamente interessantes, com vantagens para todos os lados onde e quando sejam possíveis.
Quanto a esse ponto, Lavrov está em perfeita harmonia com especialistas norte-americanos como Angela Stent da Georgetown University, que aconselha o próximo governo que assumirá em 2017 para que não planeje qualquer tipo de novo 'res-set.' Lavrov e Stent chegaram à mesma conclusão, apesar de terem partido de premissas diametralmente opostas sobre quem é responsável pela nova realidade.
Lavrov fala de estarmos atravessando período longo e dolorosa de transição, deixando para trás um mundo dominado pelo 'ocidente', o qual por sua vez é dominado por uma única potência, os EUA. E nos encaminhamos na direção de mundo multipolar com vários estados que terão participação-chave na governança global. Mas isso não exclui melhorias e Lavrov parece compartilhar da visão que começa a disseminar-se na mídia ocidental, segundo a qual as sanções de EUA e Europa serão levantadas em futuro próximo. Outro exemplo recente dessa expectativa que já gera euforia nos círculos comerciais do 'ocidente' apareceu em Bloomberg online na véspera da conferência de imprensa de Lavrov: "Russian Entente Nears as Allies Hint at End of Uckraine Sanctions."
A importante mensagem de Sergey Lavrov, dia 26, é que Rússia não mudou nem mudará o que faz e sempre fez. Faz-nos lembrar que a Rússia não implorou alívio das sanções, nem está negociando o apoio que dá a Bashar al-Assad na Síria, em troca de alívio nas sanções a propósito da Ucrânia. Talvez tenha certeza de que EUA e União Europeia apresentação o fim das sanções numa proposta de tipo toma-lá-dá-cá. Mesmo assim, a realidade implicará que os EUA terão de afastar-se de uma de suas políticas mais insustentáveis, porque agride muito mais interesses ocidentais, que interesses russos. Esse é o sentido de Lavrov tanto insistir em que o ocidente precisa da Rússia mais do que a Rússia, do ocidente.
Já é óbvio o dano econômico que agricultores e fazendeiros europeus e outros setores seletos da economia estão sofrendo, causado pelo embargo imposto à Rússia. O dano causado a interesses dos EUA é menos óbvio. Mas já apareceu destacado recentemente em artigo publicado na revista Foreign Affairs, de autoria de membro do Cato Institute e intitulado "Not-So Smart Sanctions" [lit. Sanções não muito espertas].
Ali se lê que o establishment de Washington está sim, afinal, dando sinais de preocupações com a criação, por russos e chineses, de instituições financeiras globais alternativas às existentes, com base em Washington. O Banco dos BRICS Bank, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, a introdução de centros de compensação bancária para concorrer com o sistema SWIFT: todas essas são iniciativas que visam a pôr fim, de uma vez por todas, às capacidades dos EUA para infligir dor econômica incapacitante a quem caia em suas listas de inimigos, como os EUA ainda puderam fazer para punir o Kremlin pela reintegração da Crimeia e as ações russas no Donbass.
Lavrov falou repetidamente sobre defender 'interesses nacionais' como princípio guia das relações internacionais. Aí se ouvem ecos de Hans Morgenthau, fundador e principal teórico da Escola Realista norte-americana, que se pode dizer que lá estava falando, ao lado de Lavrov. Mas Lavrov e os russos levaram a um patamar superior os princípios expostos em Politics Among Nations [A política entre as nações], livro famoso entre gerações de universitários nos EUA nos cursos de Políticas de Governo.
A Rússia de Lavrov está conclamando as nações a romper cadeias, a parar de castigar os próprios interesses nacionais, para só ouvir o que lhes diga Washington. As nações devem concorrer e disputar influência, mas em condições de livre intercâmbio de ideias e livre mercado, sempre jogando por regras reconhecidas por todos. Se se seguem as regras, o ambiente internacional não colapsa no caos, por maiores que sejam as contradições entre as nações. Eis uma lição que os institucionalistas liberais nos EUA ou nunca aprenderam na escola, ou esqueceram depois dos exames de fim de ano.*****
https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=36400348#editor/target=post;postID=3149408377098199481
O ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov falou impressionantemente numa conferência de imprensa, que a mídia-empresa ocidental fingiu que não aconteceu. Disse que, para a Rússia, basta. Que se acabou a conversa de 'business como sempre' com a União Europeia ou com os EUA. Que se inicia um novo estágio na história, que só terá futuro se baseado em direitos iguais e em todos os demais princípios da lei internacional.
Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu
Na 3ª-feira, 26/1/2016, o ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, participou de sua conferência anual com a imprensa, à qual estavam presentes cerca de 150 jornalistas, inclusive o correspondente da BBC Steve Rosenberg e muitos outros representantes dos mais conhecidos veículos da mídia-empresa ocidental. É evento anual, que tem o objetivo de passar em revista as questões que o Ministério enfrentou no ano anterior e avaliar os resultados alcançados.
As palavras iniciais do ministro foram concisas, não mais de 15 minutos. As restantes duas horas foram consumidas em perguntas feitas pelos jornalistas presentes. Com o microfone andando de mão em mão entre jornalistas de todos os cantos do mundo, a discussão cobriu variedade muito grande de assuntos. Por exemplo, cito as negociações sobre novas conversações de paz para a Síria em Genebra; comentários de David Cameron sobre as descobertas de um inquérito no Reino Unido sobre o assassinato de Litvinenko; as possibilidades de restabelecerem relações diplomáticas com a Geórgia, a possibilidade de mais um 'res-set' com os EUA; e possibilidades de solução para o conflito em torno das ilhas Kurile sul, e de concluir um tratado de paz com o Japão.
Que eu saiba, nenhuma matéria sobre o evento apareceu em qualquer veículo, jornal ou canal de TV norte-americano, francês, britânico ou alemão. Não por falta de material importante ou substancial, incluindo o título sobre "acabou-se a conversa de 'business' como sempre". Como disse há algum tempo, depois de blecaute semelhante no noticiário sobre evento na Rússia, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Maria Zakharova, conhecida pela língua afiadíssima: "Nem se sabe o que fazem em Moscou tantos correspondentes estrangeiros de tão respeitados veículos, se os jornais deles nada publicam... O que fazem eles o dia todo, aqui em Moscou?"
Como sempre faz, o Ministério postou no Youtube o vídeo integral, de três horas de duração. Também postou transcrições em russo e em inglês no website www.mid.ru. A versão em russo cobre 26 laudas datilografadas em espaço um. Usei essa versão, porque sempre prefiro trabalhar com textos em idioma original e, sendo preciso traduzir, gosto de traduzir eu mesmo. A versão em inglês cobre cerca de 40 páginas, porque o russo é idioma mais sintético que o inglês.
Observei, primeiro no Pervy Kanal da televisão russa, depois na transcrição, o quanto Lavrov conhece impressionantemente bem todas as questões que se discutiram e o cuidado do ministro para oferecer respostas detalhadas, que se estendiam por vários minutos, sem consultar qualquer nota escrita.
Em segundo lutar, era óbvio que Lavrov falava ali mais 'livremente', sem recorrer a eufemismos diplomáticos, do que em qualquer outra ocasião que eu o tenha ouvido falar. Concluí que recebeu autorização do presidente Putin para falar o mais claramente possível, sem impedimentos de qualquer tipo. Dadas a experiência de Lavrov, que já é um dos ministros de Relações Exteriores que permaneceu no cargo por mais tempo dentre todas as grandes potências e sua brilhante inteligência, Lavrov ofereceu ali não um, mas vários ensaios, como se os estivesse ditando, para posterior revisão e publicação.
Por essas razões, decidi dividir meu relato daquela conferência de imprensa, em duas partes. Uma, para oferecer Lavrov 'em suas próprias palavras'; e a outra, com minhas conclusões sobre o ambiente internacional nos anos futuros, consideradas as posições básicas da Rússia. Concentro-me, especialmente no possível fim das sanções norte-americanas e europeias contra a Rússia e em como o próximo governo dos EUA pode preparar-se para relações com a Rússia, assumindo que nada mude muito no pensamento das elites norte-americanas sobre o papel do país no mundo.
Parte 1: Sergey Lavrov em suas próprias palavras
Para essa primeira parte, extraí alguns trechos que caracterizam todo o amplo arco de ideias de Lavrov e do Kremlin sobre relações internacionais, aplicando a elas o prisma de sua Realpolitik e focados, para começar, nas relações EUA-Rússia. É recorte essencial, desde que, ao ver só as árvores, não percamos de vista a floresta.
Com respeito aos EUA, as relações bilaterais transcendem as contingências do próprio ministro. Na verdade, toda a política externa dos EUA é sobre relações com os EUA. Por isso selecionei os dois primeiros excertos que se leem entre aspas, abaixo. O terceiro excerto, sobre sanções, parece ter mais a ver com relações com a União Europeia. Selecionei-o porque o fim das sanções com certeza será questão chave de política externa que a Rússia enfrentará nos primeiros seis meses desse ano, e por trás dela vê-se a posição dos EUA. Resumi trechos onde me pareceu adequado, para não repetir argumentos (no texto abaixo, meus resumos aparecem em itálicos).
Pergunta 1: Há algum 'res-set' possível nesse último ano do governo de Barack Obama?
"Não é pergunta que nós possamos responder. Nossas relações de Estado caíram a ponto lamentável, por mais que houvesse excelentes relações pessoais entre o ex-presidente Bush dos EUA e o presidente Putin da Rússia. Quando o presidente Barack Obama assumiu a Casa Branca e a ex-secretária de Estado Hillary Clinton ofereceu um "res-set," foi reflexo do fato de que os próprios norte-americanos afinal viam a anormalidade daquela situação – quando Rússia e EUA não cooperavam para resolver problemas que, sem os dois estados, não tinham solução possível...
"Demos resposta construtiva ao 'res-set.' Dissemos que apreciávamos a decisão da nova presidência, para corrigir os erros dos predecessores. Conseguimos muita coisa: o Novo Tratado START [Strategic Arms Reduction Treaty]; a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio; um conjunto de novos tratados para várias situações de conflito.
Até que, sem mais nem menos, tudo começou a regredir rapidamente de volta ao zero. Agora todos, inclusive nossos colegas norte-americanos, nos dizem: 'Basta cumprirem os acordos de Minsk sobre a Ucrânia, e imediatamente tudo voltará ao normal. Imediatamente cancelaremos as sanções e abrir-se-ão possibilidades tentadoras de cooperação entre Rússia e os EUA em questões muito mais agradáveis, não só para gestão de crises; imediatamente, ganhará forma um programa de parceria construtiva.'
"Os russos estamos abertos à cooperação com todos os países, em bases igualitárias, mutuamente vantajosas. Claro que os russos não desejamos que alguém construa as próprias políticas baseadas no pressuposto de que a Rússia, não a Ucrânia, é quem teria de cumprir os acordos de Minsk. Os acordos trazem, escrito, quem deve cumpri-los. Espero que os EUA tenham percebido isso. Pelo menos, meus mais recentes contatos com o secretário de Estado John Kerry; e os contados de Surkov, Assessor da Presidência da Rússia, com a vice-secretária de Estado Victoria Nuland, indicam que os EUA, sim, conseguem entender a essência dos acordos de Minsk. Grosso modo, todo mundo entende tudo...
"Acabo de dizer que há gente recomeçando a propor um novo 'res-set.' Se cumprirmos (se a Rússia cumprir) os acordos de Minsk, nesse caso imediatamente tudo ficará maravilhoso, com possibilidades futuras esplêndidas e tentadoras.
"Mas o resfriamento das nossas relações com o governo do presidente Barack Obama dos EUA e o fim do período associado com o 'res-set' começaram muito antes da Ucrânia.
Lembremos como aconteceu. Primeiro, quando finalmente conseguimos o 'de acordo' de nossos parceiros ocidentais sobre condições para nos integrarmos à OMC que fossem aceitáveis para a Rússia, os norte-americanos puseram-se a dizer que não interessava a eles manter a emenda Jackson-Vanik. Que eles seriam privados dos privilégios e vantagens que se conectam à participação da Rússia na OMC. E começaram a trabalhar para excluir aquela emenda.
Mas os norte-americanos não seriam os norte-americanos se simplesmente abolissem a emenda e dissessem "Pronto, está feito, agora podemos cooperar normalmente". Nada disso. Imediatamente, conceberam a tal [lei]'Magnitsky Act,' por mais que eu tenha certeza de que não aconteceu a Magnitsky o que se divulgou que teria acontecido. Espero sinceramente que, mais dia menos dia, a verdade venha à tona e todos afinal saibamos o que realmente aconteceu.
"É terrível como se construíram provocações e especulações em torno da morte de um homem. Fato é que aconteceu, os senhores aqui presentes sabem quem fez lobby para aprovar essa 'Lei Magnitsky', a qual imediatamente substituiu a emenda Jackson-Vanik.
"Tudo isso começou muito antes de se falar sobre Ucrânia, por mais que os norte-americanos agora tentem atribuir tudo a violações de princípios da OSCE.
Hoje, toda e qualquer coisa que aconteça entre o ocidente e a Rússia é explicado 'por que' a Rússia teria deixado de cumprir suas obrigações; porque não teríamos respeitado a ordem mundial implantada na Europa depois do Helsinki Act, etc.
Todas essas são tentativas para justificar e encontrar desculpas para manter a política de contenção. Na verdade, essa política nunca terminou.
"Depois da 'Lei Magnitsky' houve reação absoluta e completamente inadequada, super dimensionada, quanto ao que aconteceu a Edward Snowden, que foi trazido para a Rússia contra nossa vontade. Não sabíamos coisa alguma sobre isso. Snowden não tinha passaporte (seus documentos foram cancelados durante a viagem, em voo). Não podia ir para lugar algum, saindo da Rússia, por causa de decisões que já haviam sido tomadas em Washington.
Só nos restou dar-lhe a chance de permanecer na Rússia, para garantir que estaria a salvo, conhecendo bem os artigos das leis que ameaçavam aplicar-lhe. Os norte-americanos não fizeram segredo de nada disso. O que fizemos foi simplesmente garantir proteção elementar a uma pessoa que estava com a vida ameaçada.
"Na sequência, o presidente dos EUA Barack Obama cancelou uma visita à Rússia. Inventaram um escândalo horrível. Dúzias de telefonemas chegavam, do FBI, da CIA, do Departamento de Estado. Houve contatos diretos com o presidente. Disseram-nos que, se não entregássemos Snowden, as relações seriam rompidas. Os EUA cancelaram a visita. Aquela visita não houve, mas o presidente dos EUA veio para a reunião do G-20 em São Petersburgo, onde ele, vale destacar, fez coisa bem útil – chegamos a um acordo sobre os princípios para a remoção das armas químicas sírias.
"Ucrânia foi apenas pretexto. A crise ucraniana não está tão conectada como se supõe com alguma preocupação que seria justificada com suposta violação, pela Rússia, dos princípios de Helsinki (embora tudo tenha começado com o Kosovo, com o bombardeio da Iugoslávia, etc.).
O 'caso' Ucrânia foi expressão de irritação porque o coup d'état não levou diretamente aos resultados esperados pelos que o promoveram e apoiaram.
"Digo-lhes honestamente que não guardamos qualquer ressentimento. Essa não é nossa tradição nas relações entre estados. Compreendemos profundamente que a vida é mais dura que esquemas românticos, idealizados, como 'res-sets' ou similares. Também compreendemos que vivemos num mundo no qual os choques de interesses são duríssimos, e que nos chegam desde o tempo em que o ocidente dominava completamente o mundo.
Tudo isso passa hoje por um longo período de transição na direção de sistema mais estável, no qual não haverá um nem mesmo dois polos dominantes, mas vários, muitos diferentes polos. A transição é longa e dolorosa. Velhos hábitos demoram a morrer. Compreendemos perfeitamente tudo isso.
"Compreendemos que os EUA têm interesse em que haja número menor de concorrentes com território, influência, poder militar, economia comparáveis aos deles.
Vê-se a mesma coisa também nas relações entre EUA e China, no modo como os EUA operam com a União Europeia, tentando criar um cerco em torno dela com aquela Parceria Trans-Atlântica, e, para o leste da Rússia, com a outra 'parceria', a Parceria Trans-Pacífico, que exclui Rússia e China. O presidente Vladimir Putin falou sobre isso detalhadamente quando analisou o processo ativado hoje na economia e política mundiais. Nós compreendemos muito bem tudo isso.
"Claro que cada época traz com ela novas tendências, quadros conceituais e modos de pensar de uma ou de outra elite, especialmente nos grandes países que veem a seu modo as maneiras para lutar por seus interesses. Seria muito ruim, seria ruinoso para todos nós, se esses processos abandonassem o contexto das normas e leis internacionais geralmente aceitas.
Se acontecer desse modo, dito bem claramente, tudo vira de pernas para o ar, e seríamos arrastados para um mundo de anarquia e caos – mais ou menos o que já se vê no Oriente Próximo, talvez sem derramamento de sangue. Cada um se porá a agir como entender necessário, e nada de bom brota daí. É muito importante observar algum tipo de regras gerais de jogo para todos.
"Respondendo sua pergunta: eu gostaria muito de que os EUA tivessem um 'res-set' com o mundo inteiro, um 'res-set' geral, de modo que todos pudéssemos nos reunir e confirmar o compromisso de todos com a Carta da ONU, com os princípios ali incorporados, incluindo a não interferência em assuntos internos dos estados, respeito à soberania e integridade territorial e ao direito dos povos à autodeterminação, ao direito dos povos de escolherem o próprio futuro, sem interferência externa."
Pergunta 2 : Na Conferência de Segurança de Munique em 2007, o presidente Putin disse ao ocidente que "vocês precisam de nós mais do que nós precisamos de vocês". A posição da Rússia ainda é essa?
"Idealmente, os dois lados necessitam um do outro para fazer frente aos desafios e ameaças. Mas a realidade é diferente. O ocidente nos pede ajuda muito mais frequentemente do que nós pedimos a ele."
Como resposta às sanções ocidentais, lutamos hoje para ser autossuficientes e promovemos substituição de importações. Não queremos nos isolar do mundo. Estamos prontos a cooperar, desde que a cooperação dê-se em termos igualitários.
"Temos de fazer de tudo para garantir que não dependamos do arbítrio de um país ou grupo de países, sobretudo de nossos parceiros ocidentais (como aconteceu quando se ofenderam porque apoiamos a população de russos na Ucrânia, que não reconheceu o coup d'etat). Citei Dmitry Yarosh [líder dos nacionalistas radicais do Setor Direita] que queria destruir os falantes de russo na Ucrânia ou privá-los de seus direitos. Queremos nos preservar contra situações desse tipo.
"(...) Observo que não somos os russos que estamos correndo aos nossos colegas europeus e dizendo "façamos alguma coisa para remover as sanções". Não. Os russos não estamos fazendo isso. Estamos focados em não depender desses ziguezagues da política ocidental, em não depender de a Europa fazer o que os EUA ordenam. Mas em nossos contatos bilaterais, nossos colegas europeus, quando nos procuram ou nos encontramos em fóruns internacionais, dizem: 'Vamos pensar em alguma coisa. Ajudem-nos a levar adiante os acordos de Minsk, ou essas sanções vão provocar grande dano. Queremos é virar essa página.' Fato é que nessa situação eles precisam mais de nós que nós deles. Inclusive para cumprir os acordos de Minsk. (...) Sim, temos influência no Donbass e os apoiamos. Sem dúvida, se não tivessem nossa ajuda e os suprimentos humanitários, o Donbass estaria em situação muito grave. Mas é preciso também que alguém exerça influência em Kiev. É necessário que o ocidente influencie as autoridades em Kiev. Até agora porém nada disso está acontecendo.
"Ou considerem a questão do programa nuclear iraniano. Nos estágios decisivos daquelas negociações, nós fomos literalmente bombardeados com solicitações de que era necessário resolver as questões da exportar urânio enriquecido em troca de urânio natural, que seria a condição chave para alcançarem-se os acordos; quando era necessário resolver a questão de quem converteria os locais de enriquecimento em Fordu em pesquisa para produzir isótopos médicos, etc. Vieram a nós com pedidos que implicavam significativa carga financeira, ou, no mínimo, que não traziam qualquer benefício material. Mas nós cumprimos nossa parte do trabalho. Agora, estão aí nos convocando, e nossos colegas chineses, para encaminharmos o problema norte-coreano 'ajudem-nos a fazer algo que obrigue a Coreia do Norte a cumprir suas obrigações.'
"Ou, então, vejam o caso da Síria."
"Não consigo lembrar de qualquer pedido de ajuda que tenhamos feito recentemente aos nossos colegas ocidentais. Entendemos que não há sentido algum em fazer solicitações. Depois que você assina acordos na conclusão de negociações, o que resta a fazer é cumprir as obrigações assumidas, não encaminhar pedidos de favores."
Questão 3: Sobre se as sanções terão fim em breve
"(...) Eu lhe diria que, entre grande número de nossos parceiros há consciência de que não podem continuar assim por muito mais tempo, que a situação é danosa para eles.
"Nossa justificativa para falar sobre algumas possíveis mudanças positivas resume-se ao seguinte: nossos parceiros ocidentais com frequência cada vez maior começam a compreender que caíram numa armadilha que eles mesmos criaram, quando disseram que levantarão as sanções depois de a Rússia 'cumprir os acordos de Minsk.
"Parece que agora compreenderam que, muito provavelmente, foi um lapsus linguae. Mas em Kiev ouvia-se aquilo com muita frequência, e a coisa era interpretada como uma indulgência que os 'autorizava' a não cumprirem os acordos de Minsk.
"A evidência de que não cumprem o que assinaram não significa só que Kiev não tem o dever de tomar quaisquer medidas e de cumprir suas obrigações. Significa também que o ocidente terá de manter as sanções contra a Rússia. Foi necessário provar tudo isso a alguns cavalheiros que estão em Kiev soprando brasas para incendiar atitudes radicais."
Lavrov diz que falou com o representante russo à mais recente sessão do Grupo de Contato e que ouviu sobre essa atitude dos intermediários da OSCE que trabalham como coordenadores. Diz que também sentiu isso nas discussões no Formato Normandia em nível de ministros de Relações Exteriores. A próxima reunião está marcada para 8 de fevereiro.
"O ocidente compreende que a presente situação é completamente sem esperança, mesmo que todos finjam que a Rússia tem de cumprir os acordos de Minsk, mas a Ucrânia não poderia fazer coisa alguma – não poderia mudar a Constituição, não poderia dar status especial ao Donbass, não poderia oferecer uma anistia, não poderia organizar eleições em comum acordo com o Donbass.
"Todos compreendem que ninguém resolverá esses problemas pela Ucrânia. Todos compreendem que é anormal, algo patológico que emergiu, convertendo a crise ucraniana – que surgiu como resultado de um golpe de estado absolutamente ilegal, anticonstitucional –, em régua para aferir todas as relações entre a Rússia e o ocidente.
"Tudo isso é absolutamente anormal, situação doentia, artificialmente inflada por países muito distantes da Europa. A Europa não quer continuar como refém dessa situação. Para mim, isso é absolutamente óbvio."
Parte 2: Conclusões gerais
Na primeira parte desse meu exame da conferência anual de imprensa do ministro de Relações Exteriores da Rússia Sergey Lavrov, realizada em Moscou, dia 26 de janeiro, apresentei três longos excertos da transcrição publicada pelo Ministério. Minha intenção era dar aos leitores uma pitada do método de argumentar de Lavrov e do tom sóbrio em que conduziu o encontro, sem se amparar em qualquer nota escrita e sem conhecer as perguntas que os jornalistas fariam. Quis oferecer minha tradução, para escapar dos termos-códigos, como "solicitações", que o ocidente encaminharia à Rússia, e dar ao leitor noção mais clara do que realmente passa pela cabeça do ministro russo.
Na fala de abertura – que trouxe redigida – Lavrov já fixara alguns dos pontos chaves da abordagem geral dos assuntos internacionais, a que a Rússia chegou servindo-se de duas ferramentas analíticas: o realismo e o interesse nacional da Rússia. A questão número 1 que a Rússia vê à frente dela e do mundo, do ponto de vista russo, é chegar a um novo sistema de gestão dos assuntos internacionais. As relações da Rússia com o ocidente são parte e parcela desse desafio mais amplo.
O novo sistema esperado será construído em plena igualdade de relações entre estados, respeito por seus interesses e não interferência em assuntos internos. Numa palavra, Lavrov estava repetindo a convocação que Vladimir Putin fez para que as nações se reorientassem na direção dos princípios da Carta da ONU, que o presidente russo enunciou em New York em setembro de 2015 na reunião que comemorou o 70º aniversário da Assembleia Geral. O novo sistema de governança global será resultado de reformas nas instituições internacionais básicas, ao mesmo tempo em que o poder político e econômico é realocado de modo que reflita as mudanças no poder econômico e militar relativo das nações, em relação ao tempo em que aquelas instituições foram estabelecidas.
Nela mesma, nada há de especialmente novo nessa visão. É de domínio público há anos e já inspirou uma conclamação para que se reajustem as potências votantes dentro do FMI.
A novidade, que chocará muitos em Washington, foi a repetida e clara identificação dos EUA, na fala de Sergey Lavrov, como a potência que obra para frustrar a renovação da governança global, porque obcecadamente agarra-se ao controle hegemônico das instituições, ao mesmo tempo em que busca consolidar ainda mais o controle que ainda exerce sobre seus aliados na Europa e na Ásia, à custa dos interesses nacional dos aliados, sacrificados à promoção do exclusivo interesse dos EUA.
Por isso Lavrov mencionou os projetos das 'parcerias' TPP e TIPP. Por isso mencionou repetidas vezes a ação de forças estranhas, de fora, sempre em clara referência aos EUA, que impuseram sanções europeias contra a Rússia, contra a vontade de vários estados-membros da União Europeia.
A certa altura, respondendo a um jornalista do Japão, Lavrov abandonou completamente a linguagem velada. Disse que a Rússia é favorável, em princípio, a dar assento permanente ao Japão no Conselho de Segurança da ONU, mas que o país só votará nessa direção quando for absolutamente claro e garantido que o Japão, nas discussões e nas votações, manifestará o interesse e a posição nacional do Japão, contribuindo para ampliar a diversidade de pontos de vista, em vez de meramente repetir o que os EUA mandem dizer, como mais um país vassalo.
É interessante que Lavrov tenha explicitamente negado que a Rússia sinta-se ofendida, ou, como traduzi alternativamente, guarde "qualquer ressentimento" quanto ao modo como tem sido tratada pelos EUA na espiral descendente de relações, do ponto mais alto do 'res-set' até o fundo do poço em que estão hoje. O contexto dessa observação é a incansável campanha de desmoralização de que Putin é alvo, sobretudo dos discursos do presidente da Rússia. Observações feitas por Putin, de o quanto as coisas saíram erradas desde o final da Guerra Fria são regularmente classificadas como "diatribes" e "revisionismo", para dizer que seriam agressivas, ameaçadoras e possivelmente irracionais.
Lavrov diz que Rússia reconhece que a vida é dura, o mundo é difícil e a concorrência é cruel. Esse o real sentido da fala 'para as manchetes', segundo a qual não há como voltar ao clima de "business, como sempre", ou às noções idealistas que subjazem aos 'res-sets' mesmo depois de as sanções contra a Rússia terem sido levantadas. Mas a Rússia está, mesmo assim, aberta a negócios que se construam em termos igualitários e mutuamente interessantes, com vantagens para todos os lados onde e quando sejam possíveis.
Quanto a esse ponto, Lavrov está em perfeita harmonia com especialistas norte-americanos como Angela Stent da Georgetown University, que aconselha o próximo governo que assumirá em 2017 para que não planeje qualquer tipo de novo 'res-set.' Lavrov e Stent chegaram à mesma conclusão, apesar de terem partido de premissas diametralmente opostas sobre quem é responsável pela nova realidade.
Lavrov fala de estarmos atravessando período longo e dolorosa de transição, deixando para trás um mundo dominado pelo 'ocidente', o qual por sua vez é dominado por uma única potência, os EUA. E nos encaminhamos na direção de mundo multipolar com vários estados que terão participação-chave na governança global. Mas isso não exclui melhorias e Lavrov parece compartilhar da visão que começa a disseminar-se na mídia ocidental, segundo a qual as sanções de EUA e Europa serão levantadas em futuro próximo. Outro exemplo recente dessa expectativa que já gera euforia nos círculos comerciais do 'ocidente' apareceu em Bloomberg online na véspera da conferência de imprensa de Lavrov: "Russian Entente Nears as Allies Hint at End of Uckraine Sanctions."
A importante mensagem de Sergey Lavrov, dia 26, é que Rússia não mudou nem mudará o que faz e sempre fez. Faz-nos lembrar que a Rússia não implorou alívio das sanções, nem está negociando o apoio que dá a Bashar al-Assad na Síria, em troca de alívio nas sanções a propósito da Ucrânia. Talvez tenha certeza de que EUA e União Europeia apresentação o fim das sanções numa proposta de tipo toma-lá-dá-cá. Mesmo assim, a realidade implicará que os EUA terão de afastar-se de uma de suas políticas mais insustentáveis, porque agride muito mais interesses ocidentais, que interesses russos. Esse é o sentido de Lavrov tanto insistir em que o ocidente precisa da Rússia mais do que a Rússia, do ocidente.
Já é óbvio o dano econômico que agricultores e fazendeiros europeus e outros setores seletos da economia estão sofrendo, causado pelo embargo imposto à Rússia. O dano causado a interesses dos EUA é menos óbvio. Mas já apareceu destacado recentemente em artigo publicado na revista Foreign Affairs, de autoria de membro do Cato Institute e intitulado "Not-So Smart Sanctions" [lit. Sanções não muito espertas].
Ali se lê que o establishment de Washington está sim, afinal, dando sinais de preocupações com a criação, por russos e chineses, de instituições financeiras globais alternativas às existentes, com base em Washington. O Banco dos BRICS Bank, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, a introdução de centros de compensação bancária para concorrer com o sistema SWIFT: todas essas são iniciativas que visam a pôr fim, de uma vez por todas, às capacidades dos EUA para infligir dor econômica incapacitante a quem caia em suas listas de inimigos, como os EUA ainda puderam fazer para punir o Kremlin pela reintegração da Crimeia e as ações russas no Donbass.
Lavrov falou repetidamente sobre defender 'interesses nacionais' como princípio guia das relações internacionais. Aí se ouvem ecos de Hans Morgenthau, fundador e principal teórico da Escola Realista norte-americana, que se pode dizer que lá estava falando, ao lado de Lavrov. Mas Lavrov e os russos levaram a um patamar superior os princípios expostos em Politics Among Nations [A política entre as nações], livro famoso entre gerações de universitários nos EUA nos cursos de Políticas de Governo.
A Rússia de Lavrov está conclamando as nações a romper cadeias, a parar de castigar os próprios interesses nacionais, para só ouvir o que lhes diga Washington. As nações devem concorrer e disputar influência, mas em condições de livre intercâmbio de ideias e livre mercado, sempre jogando por regras reconhecidas por todos. Se se seguem as regras, o ambiente internacional não colapsa no caos, por maiores que sejam as contradições entre as nações. Eis uma lição que os institucionalistas liberais nos EUA ou nunca aprenderam na escola, ou esqueceram depois dos exames de fim de ano.*****
sexta-feira, outubro 23, 2015
Rússia destrói o sonho de Israel
Carta Maior
O que é mais frustrante pra Israel é que eles não podem chantagear, coagir ou comprar o governo de Putin.
http://www.informationclearinghouse.info/
O plano corria bem. O conceito de guerras intermináveis para uma Grande Israel funcionava e produzia resultados impressionantes. De modo oportuno, com o agravamento de guerra após guerra, fatia por fatia de território árabe era usurpada e o mapa de Israel pouco a pouco se materializava. Pouco importa a instabilidade e o caos que cercam o Estado israelense pelas últimas sete décadas. Pouco importa a incansável resistência palestina e as violentas intifadas que irrompem internamente. O sonho sionista da Grande Israel persistia consistente e progredia sem grandes obstáculos.
Mas é da natureza do sonho que possa ser abruptamente interrompido - e facilmente transformado em um pesadelo. De fato, um piscar de olhos pode ser o bastante.
Ninguém esperava que o sonho sionista fosse detido de modo tão repentino. Ninguém esperava que a Rússia se impusesse militarmente na região do Levante e, no processo, convertesse o sonho sionista em um pesadelo geopolítico e existencial. Agora, nenhuma expansão territorial é ao menos remotamente possível com a presença das tropas russas no Levante. E os israelenses sabem que os russos chegaram para ficar.
A Rússia não é um inimigo declarado de Israel. Não foi propositalmente que os russos esmagaram o sonho sionista, mas consequência de uma posição que serve aos interesses regionais e globais da Rússia. Acontece que o sonho sionista estava no caminho das ambições russas. Simples assim.
Mas, afinal, quais são os interesses russos em enlaçar o Levante?
Bom, em primeiro lugar, Putin pretende reabastecer a velha pretensão russa de estabilizar bases militares nas “águas mornas” do mundo, mais precisamente no Mediterrâneo, a fim de projetar seu poder e influência em direção ao ocidente com maior facilidade. Além, é claro, de estabelecer bases navais no mediterrâneo enquanto uma primeira linha de defesa contra o avanço das potências à oeste. A crescente presença militar dos russos na Síria é uma questão de “segurança nacional”, como Putin já declarou inúmeras vezes. A consolidação de multiplas bases no mediterrâneo não é possível desde a Guerra dos 6 dias (1967), quando perdeu a disputa pelo Oriente-Médio contra os EUA, simbolizada pela derrocada do Egito, zona de influência dos soviéticos naquele momento cuja estrutura militar foi devastada pela investida israelense. Investida, é óbvio, carregada com armamentos norte-americanos.
Hoje a Rússia compreende seu avanço sobre a Síria enquanto manobra geopolítica vital para restabelecer seu poderio no Oriente-Médio e novamente se consolidar como superpotência. Diante do caos no Levante, a ambição russa precisa ser implementada imediatamente, antes que a região caia nas garras do Estado Islâmico ou do sionismo.
Em segundo lugar, Putin observa a influência do Império Americano claramente se esvair, especialmente no Oriente Médio, e está tirando proveito disso: colocando em andamento sua proposição desafiadora aos EUA. Sim, Vladimir Putin, o presidente da Rússia conhecido pelo sangue-frio e pelo realismo, está tão ciente das fraquezas americanas quanto das potencialidades russas. (...) “Veja bem, você continua extremamente poderoso, mas está sangrando no Oriente-Médio e o estado agora ficou crítico. Você não pode arcar com um novo conflito em larga escala por aqui sem a garantia de reafirmar vitoriosamente sua dominação. E você também foi rebaixado em todas as últimas guerras na região - você ficou sem cartas na manga. Você não pode seguir por esse caminho desvantajoso, não pode ficar parado e tampouco pode retirar-se da região. Todas essas são opções estratégicamente inferiores e você vai continuar sangrando seu poder. Sua única alternativa é o pragmatismo. A única solução é dividir seu controle sobre o Oriente-Médio conosco, os russos. Nós já compartilhamos influência sobre a região durante a Guerra-Fria e, sim, isso gerou perigos e complexidades para ambos os países no passado. Mas hoje é diferente: não há Guerra Fria entre nós e nossa nova parceria pode apenas nos fortalecer”.
Esse, caro leitor, é o pronunciamento diplomático da Rússia, recebido com grande alívio pela Casa Branca e desprezado pelos sionistas em Washington. Resumindo: Putin está na Síria e seu recado realista pros EUA é: “Compartilhem o Oriente-Médio conosco agora ou ambos cairemos no futuro”. E parece que o Obama silenciosamente captou a mensagem, de acordo com o interesse do Império e em nome do realismo, não por covardice ou submissão a Putin. O problema do Obama é que, embora concorde relutantemente com a posição do Putin, não pode respaldá-la em público, pois nesse caso os neoconservadores soltariam os cães da traição sobre ele, obstruindo seu mandato pelos próximos 15 meses e, no pior dos casos, prejudicando as chances de vitória do seu partido nas próximas eleições.
Em terceiro lugar, na minha opinião, a Rússia ocupa a Síria também com o propósito de realçar sua imagem e história de poder militar. Com a devastadora derrota da União Soviética na Guerra do Afeganistão (1979-1989) pelas tropas respaldadas pelos EUA e, considerando o forte nacionalismo impregnado na sociedade russa no que se refere a suas instituições militares, não é de se surpreender que qualquer líder russo moderno que arranque uma vitória militar sobre a nova versão do velho inimigo represente um marco moral e histórico.
Sim, a estrutura militar russa implantada na Síria, sobretudo a marinha e aeronáutica, agora parece relativamente permanente. E é isso que está causando insônia em Israel e em seus amigos sionistas de Washington. Eles sabem que o sonho da Grande Israel não pode ser concretizado com a Rússia dominando os céus e os mares do Levante. Essa é a atual e inescapável realidade. Como uma grande muralha russa que se levanta entre os sionistas e seu sonho imperial.
Alguns veriam nisso certa justiça poética.
O sonho despedaçado enquanto realidade inaudita. Israel deixada sem recursos ou alternativas. Não pode entrar em enfrentamento direto com uma Rússia mais poderosa e recuperar seu domínio sobre o Levante. Não podia nem ao menos derrotar o Hezbollah em 2006, que não dispunha de nenhuma força aérea. E ainda mais frustrante pra Israel: também não pode chantagear, coagir ou comprar o governo de Putin. Em suma, com a gestão Obama, fica claro que os EUA não estão preparados para entrar em conflito direto com qualquer nação em nome de Israel, quanto mais com a Rússia. Os arquitetos do sionismo expansionista estão diante de um absoluto constrangimento. Sem mais pequenas reuniões para definir o próximo país árabe a destroçar ou o próximo território que possa ser usurpado.
Alias, não há qualquer ideia na mesa dos arquitetos sionistas. Apenas um genuíno silêncio.
Algo mais compõe essa catatonia que os sionistas vem experimentando: o fato de que a credibilidade do Estado Israelense nunca esteve tão baixa e, cedo ou tarde, a comunidade internacional - observando a fragilidade geopolítica de Israel - tende a pressioná-lo ainda mais, senão impôr uma solução de segundo Estado, pautado nas fronteiras de 1967. Ou seja, uma martelada ainda mais forte no sonho da Grande Israel. Não apenas deixará de expandir, mas possivelmente perderá uma porção dos territórios que (ilegalmente) ocupa hoje. Algo que o público e as autoridades israelenses não estão preparados para engolir.
Observando o padrão de comportamento dos sionistas, percebemos que aquilo que não podem controlar, geralmente eles destroem. E aparentemente essa é a única coisa que eles podem fazer nesse momento. Sem dúvida, veremos uma tentativa de prolongar os conflitos regionais por mais um século de guerras entre os árabes - eles vivem em função de estragar a vida dos seus vizinhos árabes. Também sabemos que, quando os sionistas não estão dispostos ou hábeis para entrar em conflito, geralmente procuram mandar outras nações desejosas ou capazes. Mas como destaquei anteriormente, isso não será possível durante a administração Obama.
Que fazer então? Será que Israel preferiria que os EUA entrassem em confronto militar direto com a Rússia no Levante? Eu creio que sim. Mesmo com o risco de causar uma Terceira Guerra? Sim. Mesmo com o risco de disparar uma Grande Guerra? Sim.
Três vezes sim: a patologia dos sionistas fornece todos os indicativos. “A tribo acima de tudo” é seu mantra. São uma versão do Estado-Islâmico cheia de mísseis no porão. Suas intenções narcisistas são sempre notórias - e seus motivos e manobras nunca devem ser subestimados.
Nós estamos em um ponto muito sóbrio da série de dramas que se travam no Levante e no Oriente-Médio. Todos procuram se preparar pro desconhecido. A conjunção de desconhecidos tão massacrantes é rara na história. A tensão geopolítica - apesar do nivelamento que os russos representam no Levante - mantém todos os personagens estressados. Todos tem muito a perder com um simples passo em falso. Movimentos hesitantes são feitos e agilmente desfeitos. Se perguntássemos ao Obama ou ao Putin o que aconteceria ao mundo no dia em que as duas nações entrassem em guerra, ambos responderiam sombriamente com um “Não sei”.
Por agora, os sionistas pretendem manter a morte da Grande Israel em segredo, esperando que o próximo presidente americano seja mais maleável e reacionário que Obama. Eles estarão matando tempo e torcendo para que assuma alguém mais sionista que Theodore Herzl. Ideologicamente mais violento que o Estado Islâmico e o Tarantino. Esperando, contra todas as chances, que o pequeno Estado de Israel sobreviva à catástrofe da Terceira Guerra Mundial com pouco estrago dentro de sua fronteiras. Esperando, contra todas as chances, que o mundo árabe ao redor Israel seja bombardeado de volta à idade da pedra, enquanto Israel continua como noiva super tecnológica do Oriente-Médio. Esperando, contra todas as chances, que a Rússia seja novamente derrotada pelos EUA - apenas para que os israelenses retomem as águas e o céu do Levante e revivam o sonho da Grande Israel. Esperando, contra toda e qualquer chance, que uma Terceira Guerra possa resolver os problemas de Israel.
Tradução por Allan Brum
O que é mais frustrante pra Israel é que eles não podem chantagear, coagir ou comprar o governo de Putin.
http://www.informationclearinghouse.info/
O plano corria bem. O conceito de guerras intermináveis para uma Grande Israel funcionava e produzia resultados impressionantes. De modo oportuno, com o agravamento de guerra após guerra, fatia por fatia de território árabe era usurpada e o mapa de Israel pouco a pouco se materializava. Pouco importa a instabilidade e o caos que cercam o Estado israelense pelas últimas sete décadas. Pouco importa a incansável resistência palestina e as violentas intifadas que irrompem internamente. O sonho sionista da Grande Israel persistia consistente e progredia sem grandes obstáculos.
Mas é da natureza do sonho que possa ser abruptamente interrompido - e facilmente transformado em um pesadelo. De fato, um piscar de olhos pode ser o bastante.
Ninguém esperava que o sonho sionista fosse detido de modo tão repentino. Ninguém esperava que a Rússia se impusesse militarmente na região do Levante e, no processo, convertesse o sonho sionista em um pesadelo geopolítico e existencial. Agora, nenhuma expansão territorial é ao menos remotamente possível com a presença das tropas russas no Levante. E os israelenses sabem que os russos chegaram para ficar.
A Rússia não é um inimigo declarado de Israel. Não foi propositalmente que os russos esmagaram o sonho sionista, mas consequência de uma posição que serve aos interesses regionais e globais da Rússia. Acontece que o sonho sionista estava no caminho das ambições russas. Simples assim.
Mas, afinal, quais são os interesses russos em enlaçar o Levante?
Bom, em primeiro lugar, Putin pretende reabastecer a velha pretensão russa de estabilizar bases militares nas “águas mornas” do mundo, mais precisamente no Mediterrâneo, a fim de projetar seu poder e influência em direção ao ocidente com maior facilidade. Além, é claro, de estabelecer bases navais no mediterrâneo enquanto uma primeira linha de defesa contra o avanço das potências à oeste. A crescente presença militar dos russos na Síria é uma questão de “segurança nacional”, como Putin já declarou inúmeras vezes. A consolidação de multiplas bases no mediterrâneo não é possível desde a Guerra dos 6 dias (1967), quando perdeu a disputa pelo Oriente-Médio contra os EUA, simbolizada pela derrocada do Egito, zona de influência dos soviéticos naquele momento cuja estrutura militar foi devastada pela investida israelense. Investida, é óbvio, carregada com armamentos norte-americanos.
Hoje a Rússia compreende seu avanço sobre a Síria enquanto manobra geopolítica vital para restabelecer seu poderio no Oriente-Médio e novamente se consolidar como superpotência. Diante do caos no Levante, a ambição russa precisa ser implementada imediatamente, antes que a região caia nas garras do Estado Islâmico ou do sionismo.
Em segundo lugar, Putin observa a influência do Império Americano claramente se esvair, especialmente no Oriente Médio, e está tirando proveito disso: colocando em andamento sua proposição desafiadora aos EUA. Sim, Vladimir Putin, o presidente da Rússia conhecido pelo sangue-frio e pelo realismo, está tão ciente das fraquezas americanas quanto das potencialidades russas. (...) “Veja bem, você continua extremamente poderoso, mas está sangrando no Oriente-Médio e o estado agora ficou crítico. Você não pode arcar com um novo conflito em larga escala por aqui sem a garantia de reafirmar vitoriosamente sua dominação. E você também foi rebaixado em todas as últimas guerras na região - você ficou sem cartas na manga. Você não pode seguir por esse caminho desvantajoso, não pode ficar parado e tampouco pode retirar-se da região. Todas essas são opções estratégicamente inferiores e você vai continuar sangrando seu poder. Sua única alternativa é o pragmatismo. A única solução é dividir seu controle sobre o Oriente-Médio conosco, os russos. Nós já compartilhamos influência sobre a região durante a Guerra-Fria e, sim, isso gerou perigos e complexidades para ambos os países no passado. Mas hoje é diferente: não há Guerra Fria entre nós e nossa nova parceria pode apenas nos fortalecer”.
Esse, caro leitor, é o pronunciamento diplomático da Rússia, recebido com grande alívio pela Casa Branca e desprezado pelos sionistas em Washington. Resumindo: Putin está na Síria e seu recado realista pros EUA é: “Compartilhem o Oriente-Médio conosco agora ou ambos cairemos no futuro”. E parece que o Obama silenciosamente captou a mensagem, de acordo com o interesse do Império e em nome do realismo, não por covardice ou submissão a Putin. O problema do Obama é que, embora concorde relutantemente com a posição do Putin, não pode respaldá-la em público, pois nesse caso os neoconservadores soltariam os cães da traição sobre ele, obstruindo seu mandato pelos próximos 15 meses e, no pior dos casos, prejudicando as chances de vitória do seu partido nas próximas eleições.
Em terceiro lugar, na minha opinião, a Rússia ocupa a Síria também com o propósito de realçar sua imagem e história de poder militar. Com a devastadora derrota da União Soviética na Guerra do Afeganistão (1979-1989) pelas tropas respaldadas pelos EUA e, considerando o forte nacionalismo impregnado na sociedade russa no que se refere a suas instituições militares, não é de se surpreender que qualquer líder russo moderno que arranque uma vitória militar sobre a nova versão do velho inimigo represente um marco moral e histórico.
Sim, a estrutura militar russa implantada na Síria, sobretudo a marinha e aeronáutica, agora parece relativamente permanente. E é isso que está causando insônia em Israel e em seus amigos sionistas de Washington. Eles sabem que o sonho da Grande Israel não pode ser concretizado com a Rússia dominando os céus e os mares do Levante. Essa é a atual e inescapável realidade. Como uma grande muralha russa que se levanta entre os sionistas e seu sonho imperial.
Alguns veriam nisso certa justiça poética.
O sonho despedaçado enquanto realidade inaudita. Israel deixada sem recursos ou alternativas. Não pode entrar em enfrentamento direto com uma Rússia mais poderosa e recuperar seu domínio sobre o Levante. Não podia nem ao menos derrotar o Hezbollah em 2006, que não dispunha de nenhuma força aérea. E ainda mais frustrante pra Israel: também não pode chantagear, coagir ou comprar o governo de Putin. Em suma, com a gestão Obama, fica claro que os EUA não estão preparados para entrar em conflito direto com qualquer nação em nome de Israel, quanto mais com a Rússia. Os arquitetos do sionismo expansionista estão diante de um absoluto constrangimento. Sem mais pequenas reuniões para definir o próximo país árabe a destroçar ou o próximo território que possa ser usurpado.
Alias, não há qualquer ideia na mesa dos arquitetos sionistas. Apenas um genuíno silêncio.
Algo mais compõe essa catatonia que os sionistas vem experimentando: o fato de que a credibilidade do Estado Israelense nunca esteve tão baixa e, cedo ou tarde, a comunidade internacional - observando a fragilidade geopolítica de Israel - tende a pressioná-lo ainda mais, senão impôr uma solução de segundo Estado, pautado nas fronteiras de 1967. Ou seja, uma martelada ainda mais forte no sonho da Grande Israel. Não apenas deixará de expandir, mas possivelmente perderá uma porção dos territórios que (ilegalmente) ocupa hoje. Algo que o público e as autoridades israelenses não estão preparados para engolir.
Observando o padrão de comportamento dos sionistas, percebemos que aquilo que não podem controlar, geralmente eles destroem. E aparentemente essa é a única coisa que eles podem fazer nesse momento. Sem dúvida, veremos uma tentativa de prolongar os conflitos regionais por mais um século de guerras entre os árabes - eles vivem em função de estragar a vida dos seus vizinhos árabes. Também sabemos que, quando os sionistas não estão dispostos ou hábeis para entrar em conflito, geralmente procuram mandar outras nações desejosas ou capazes. Mas como destaquei anteriormente, isso não será possível durante a administração Obama.
Que fazer então? Será que Israel preferiria que os EUA entrassem em confronto militar direto com a Rússia no Levante? Eu creio que sim. Mesmo com o risco de causar uma Terceira Guerra? Sim. Mesmo com o risco de disparar uma Grande Guerra? Sim.
Três vezes sim: a patologia dos sionistas fornece todos os indicativos. “A tribo acima de tudo” é seu mantra. São uma versão do Estado-Islâmico cheia de mísseis no porão. Suas intenções narcisistas são sempre notórias - e seus motivos e manobras nunca devem ser subestimados.
Nós estamos em um ponto muito sóbrio da série de dramas que se travam no Levante e no Oriente-Médio. Todos procuram se preparar pro desconhecido. A conjunção de desconhecidos tão massacrantes é rara na história. A tensão geopolítica - apesar do nivelamento que os russos representam no Levante - mantém todos os personagens estressados. Todos tem muito a perder com um simples passo em falso. Movimentos hesitantes são feitos e agilmente desfeitos. Se perguntássemos ao Obama ou ao Putin o que aconteceria ao mundo no dia em que as duas nações entrassem em guerra, ambos responderiam sombriamente com um “Não sei”.
Por agora, os sionistas pretendem manter a morte da Grande Israel em segredo, esperando que o próximo presidente americano seja mais maleável e reacionário que Obama. Eles estarão matando tempo e torcendo para que assuma alguém mais sionista que Theodore Herzl. Ideologicamente mais violento que o Estado Islâmico e o Tarantino. Esperando, contra todas as chances, que o pequeno Estado de Israel sobreviva à catástrofe da Terceira Guerra Mundial com pouco estrago dentro de sua fronteiras. Esperando, contra todas as chances, que o mundo árabe ao redor Israel seja bombardeado de volta à idade da pedra, enquanto Israel continua como noiva super tecnológica do Oriente-Médio. Esperando, contra todas as chances, que a Rússia seja novamente derrotada pelos EUA - apenas para que os israelenses retomem as águas e o céu do Levante e revivam o sonho da Grande Israel. Esperando, contra toda e qualquer chance, que uma Terceira Guerra possa resolver os problemas de Israel.
Tradução por Allan Brum
A máquina de triturar nações
O arrocho fiscal tem agora, em um projeto de José Serra, a capacidade de promover um longo ciclo de recessão no país.
por: Saul Leblon
A ideia de que sem o Estado a sociedade funciona melhor está arraigada na efervescência golpista que ronda o país à procura de um pretexto para se consumar.
Não é um simples cacoete conservador.
O calibre superlativo de interesses abrigados sob esse guarda-chuva ideológico explica porque o ruidoso apodrecimento de Eduardo Cunha não basta para devolver o chão firme ao governo Dilma.
É preciso enfrentar a agenda por trás do abusado operador.
A intuição do ex-presidente Lula estava certa ao advertir os mais entusiasmados, na semana passada: o inimigo continua intacto, disse Lula.
O PSDB é a âncora local da ideia-força, que na verdade deixou o campo imaterial desde os anos setenta para se tornar a lógica ubíqua do poder na globalização.
Entre outras determinações, ela estabeleceu uma devastadora desconexão entre desenvolvimento e soberania democrática, jogando as nações em um pântano estratégico do qual estão longe de se livrar.
Assentada na supremacia do capital rentista, a globalização financeira instalou no interior dos Estados nacionais uma contradição nos seus próprios termos.
Governos eleitos para desobstruir canais de crescimento e prover direitos a populações historicamente excluídas, descobrem-se capturados por uma malha de interditos e chantagens.
Um poder inefável e sem rosto exerce a vigilância asfixiante nos principais circuitos de decisão local e supranacional.
Basta uma tecla para desencadear ordens de compra e venda que podem esfarelar o mandato de um Presidente.
Ou reduzir nações a uma montanha desordenada de impossibilidades.
A soberania dos povos, em certa medida, foi sequestrada pelo diuturno escrutínio dos pregões ao redor do planeta.
A abertura e o fechamento dos mercados de câmbio atualiza essa servidão, emitindo pronunciamentos diários em cadeia mundial.
Tudo se passa como se uma junta militar editasse sentenças de vida ou morte sobre o destino das nações e a sorte de seu desenvolvimento.
Nunca como hoje a luta pela sociedade digna remeteu tão diretamente à necessidade de se deter o controle do poder de Estado.
E nunca o Estado esteve tão engessado por um poder prevalecente, quase integralmente subordinado a normas e agendas que o reduzem a pouco mais que uma anexo dos desígnios dos mercados.
A política fiscal –ou seja, a ferramenta que dá ao Estado o poder de induzir e ordenar o investimento público e privado-- é o canal estruturante através do qual se exerce o sequestro da agenda do desenvolvimento soberano em nosso tempo.
Não por acaso ela é o alvo central da vigilância das agências de risco, das consultorias infatigáveis, dos departamentos econômicos dos bancos, do anexo acadêmico do rentismo e do jornalismo a serviço dessa maquinaria.
A caçada diuturna visa manter o azeite num eixo de ação que assegura todos os demais interditos.
Urdida na impossibilidade de taxar a riqueza, a camisa de força fiscal leva a sucessivas espirais de endividamento público até, finalmente, enjaular o governante num regime destrutivo de juros altos e investimentos medíocres.
É o ardil dentro do qual o Brasil se debate nesse momento, entre o golpe paraguaio e a paralisia governamental que o lubrifica.
A bonança recente do ciclo de commodities ofereceu ao Brasil uma década trufada por excedentes que ampliaram a margem de manobra do governo e amorteceram a percepção dessa polaridade extrema.
Três gestões petistas sucessivas souberam aproveitar esse atalho para reduzir a perversão social acumulada em 500 anos de capitalismo perverso.
Dobraram a aposta nessa via de resistência durante a crise deflagrada pela desordem neoliberal em 2008.
Os resultados são conhecidos e documentados como um dos estirões mais robustos na luta conta a pobreza e a fome em nosso tempo.
Um dado resume todos os demais: o mercado de massa criado nesse processo acoplou à economia brasileira um outro país, com peso e medida para credenciar-se ao G-20.
Embora o dever de ofício midiático se esmere em negá-lo, o fato é que todo o vapor da caldeira conservadora hoje se concentra em desmontar o avanço da justiça social que seus porta-vozes desmentem ter ocorrido.
Dê-se a isso o nome técnico que for.
O que se mira é a regressão das conquistas sociais, salariais e políticas dos últimos doze anos.
A melhor forma de proceder ao desmonte é no atacado da coleira fiscal.
Ou seja, subordinando o aparelho de Estado ao garrote de um labirinto de cortes e arrocho que reduz a função do governante à de um contador kafkiano.
Coagido a prestar contas de metas irreais, em prazos impossíveis, ele deve ao mesmo tempo saciar a intolerância tributária das elites e a voracidade usurária dos rentistas --sem recorrer a pedaladas, nem hesitar em proceder a cortes drásticos, gerar desemprego, redução do poder de compra das famílias assalariadas e escalpo de direitos para cumprir as metas de superávit fiscal.
Esse tornique de muitas voltas poderá ganhar agora o arremate de um ajuste draconiano, capaz de jogar a pá de cal, por década e meia, na esperança de retomada do desenvolvimento no país.
O senador José Serra é o responsável pela emenda a um projeto de resolução em curso no Senado, que redefine limites para a dívida pública da União.
A contribuição do tucano, se consumada, erguerá uma espécie de linha de Tordesilhas na geografia fiscal do Estado brasileiro.
O ex-governador de São Paulo, de sensibilidade social conhecida, quer tornar impositivos superávits em torno de 3% do PIB até meados de 2030.
O potencial recessivo inerente a esse arrocho -- ainda mais profundo do que o verificado atualmente-- motivou intelectuais, lideranças e economistas, de Maria da Conceição Tavares a Celso Amorin, de Guilherme Boulos a Alfredo Bosi, entre dezenas de outros, a lançarem um chamado de alerta e urgência à nação (leia a íntegra do documento).
Por mais que se dissimule essa truculência em afirmação de responsabilidade fiscal, o fato é que a eventual implantação da ‘mecânica Serra’ só fará aprofundar a anemia do investimento público; por conseguinte aprofundará a rosca da recessão em marcha na economia brasileira.
Pior que isso.
Um longo ciclo de aperto fiscal como o preconizado pelo tucano –que coerentemente se dispõe a entregar o pre-sal às petroleiras internacionais-- privará a sociedade dos investimentos necessários ao salto de infraestrutura e de produtividade que devem caracterizar o passo seguinte do crescimento nacional..
Sem salto de produtividade, o que sobra para se agregar competitividade a uma economia?
Sobra forçar a queda real do salário direto e indireto -- via supressão de ganhos de poder de compra no salários mínimos e com a liquidação de direitos trabalhistas.
Essa dimensão sistêmica embutida na ‘mecânica Serra’ atende à agenda antissocial advogada pelos paladinos da contração expansiva. Qual seja, a dilapidação das estacas civilizatórias de contenção da barbárie capitalista que propiciaria o impulso ao florescimento das inversões privadas.
A Europa em carne viva de estagnação, desemprego e pobreza que enreda 122 milhões de cidadãos é a vitrine mais vistosa dessa receita ali praticada desde o colapso de 2008.
São esses os desdobramentos embutidos na convicção conservadora de que ter menos Estado redundará em uma melhor sociedade.
Redundará, na verdade, em um horizonte, em que o empobrecimento passará a ser o requisito da competitividade, o arrocho fiscal uma vacina de classe à reforma tributária que faça o rentista pagar imposto, e a liquidação da soberania, a salvaguarda preventiva a qualquer ameaça de controle de capital, que devolva à sociedade o comando do seu destino.
Cabe advertir, porém: nem Cunha, nem Serra lavram no deserto.
A margem de manobra de que desfrutam deriva em grande parte do flanco – e dos impasses que irradia — aberto pela política econômica equivocada adotada no segundo governo Dilma.
Ao associar recessão, portanto, queda de receita, e juros siderais, ela reforça as grades de um cativeiro fiscal que literalmente empurra a sociedade para um regime de pura servidão à ganância rentista.
A disjuntiva política intrínseca a uma encruzilhada de empobrecimento e paralisia é o golpe ou a repactuação democrática do futuro.
O curso do enredo golpista tem em Cunha e Serra dois personagens ilustrativos e complementares –um na esfera institucional, o outro no arremate macroeconômico do arrocho.
Resta a alternativa de uma repactuação democrática do desenvolvimento.
Para que seja sólida –e inclusive capaz de reverter a trajetória da dívida pública a confortáveis 60% do PIB—requer um protagonista dotado de força e consentimento, capaz de livrar a sociedade da prostração e docorporativismo em que se encontra, para compartilhar metas, salvaguardas, concessões e avanços que ergam as linhas de passagem a um novo ciclo de construção da democracia social brasileira.
Seu nome é frente popular. Sua viabilidade objetiva está dada. Seu peso efetivo nos acontecimentos em curso depende do discernimento político das lideranças e movimentos sociais para escolher entre o sectarismo ou a grandeza histórica.
por: Saul Leblon
A ideia de que sem o Estado a sociedade funciona melhor está arraigada na efervescência golpista que ronda o país à procura de um pretexto para se consumar.
Não é um simples cacoete conservador.
O calibre superlativo de interesses abrigados sob esse guarda-chuva ideológico explica porque o ruidoso apodrecimento de Eduardo Cunha não basta para devolver o chão firme ao governo Dilma.
É preciso enfrentar a agenda por trás do abusado operador.
A intuição do ex-presidente Lula estava certa ao advertir os mais entusiasmados, na semana passada: o inimigo continua intacto, disse Lula.
O PSDB é a âncora local da ideia-força, que na verdade deixou o campo imaterial desde os anos setenta para se tornar a lógica ubíqua do poder na globalização.
Entre outras determinações, ela estabeleceu uma devastadora desconexão entre desenvolvimento e soberania democrática, jogando as nações em um pântano estratégico do qual estão longe de se livrar.
Assentada na supremacia do capital rentista, a globalização financeira instalou no interior dos Estados nacionais uma contradição nos seus próprios termos.
Governos eleitos para desobstruir canais de crescimento e prover direitos a populações historicamente excluídas, descobrem-se capturados por uma malha de interditos e chantagens.
Um poder inefável e sem rosto exerce a vigilância asfixiante nos principais circuitos de decisão local e supranacional.
Basta uma tecla para desencadear ordens de compra e venda que podem esfarelar o mandato de um Presidente.
Ou reduzir nações a uma montanha desordenada de impossibilidades.
A soberania dos povos, em certa medida, foi sequestrada pelo diuturno escrutínio dos pregões ao redor do planeta.
A abertura e o fechamento dos mercados de câmbio atualiza essa servidão, emitindo pronunciamentos diários em cadeia mundial.
Tudo se passa como se uma junta militar editasse sentenças de vida ou morte sobre o destino das nações e a sorte de seu desenvolvimento.
Nunca como hoje a luta pela sociedade digna remeteu tão diretamente à necessidade de se deter o controle do poder de Estado.
E nunca o Estado esteve tão engessado por um poder prevalecente, quase integralmente subordinado a normas e agendas que o reduzem a pouco mais que uma anexo dos desígnios dos mercados.
A política fiscal –ou seja, a ferramenta que dá ao Estado o poder de induzir e ordenar o investimento público e privado-- é o canal estruturante através do qual se exerce o sequestro da agenda do desenvolvimento soberano em nosso tempo.
Não por acaso ela é o alvo central da vigilância das agências de risco, das consultorias infatigáveis, dos departamentos econômicos dos bancos, do anexo acadêmico do rentismo e do jornalismo a serviço dessa maquinaria.
A caçada diuturna visa manter o azeite num eixo de ação que assegura todos os demais interditos.
Urdida na impossibilidade de taxar a riqueza, a camisa de força fiscal leva a sucessivas espirais de endividamento público até, finalmente, enjaular o governante num regime destrutivo de juros altos e investimentos medíocres.
É o ardil dentro do qual o Brasil se debate nesse momento, entre o golpe paraguaio e a paralisia governamental que o lubrifica.
A bonança recente do ciclo de commodities ofereceu ao Brasil uma década trufada por excedentes que ampliaram a margem de manobra do governo e amorteceram a percepção dessa polaridade extrema.
Três gestões petistas sucessivas souberam aproveitar esse atalho para reduzir a perversão social acumulada em 500 anos de capitalismo perverso.
Dobraram a aposta nessa via de resistência durante a crise deflagrada pela desordem neoliberal em 2008.
Os resultados são conhecidos e documentados como um dos estirões mais robustos na luta conta a pobreza e a fome em nosso tempo.
Um dado resume todos os demais: o mercado de massa criado nesse processo acoplou à economia brasileira um outro país, com peso e medida para credenciar-se ao G-20.
Embora o dever de ofício midiático se esmere em negá-lo, o fato é que todo o vapor da caldeira conservadora hoje se concentra em desmontar o avanço da justiça social que seus porta-vozes desmentem ter ocorrido.
Dê-se a isso o nome técnico que for.
O que se mira é a regressão das conquistas sociais, salariais e políticas dos últimos doze anos.
A melhor forma de proceder ao desmonte é no atacado da coleira fiscal.
Ou seja, subordinando o aparelho de Estado ao garrote de um labirinto de cortes e arrocho que reduz a função do governante à de um contador kafkiano.
Coagido a prestar contas de metas irreais, em prazos impossíveis, ele deve ao mesmo tempo saciar a intolerância tributária das elites e a voracidade usurária dos rentistas --sem recorrer a pedaladas, nem hesitar em proceder a cortes drásticos, gerar desemprego, redução do poder de compra das famílias assalariadas e escalpo de direitos para cumprir as metas de superávit fiscal.
Esse tornique de muitas voltas poderá ganhar agora o arremate de um ajuste draconiano, capaz de jogar a pá de cal, por década e meia, na esperança de retomada do desenvolvimento no país.
O senador José Serra é o responsável pela emenda a um projeto de resolução em curso no Senado, que redefine limites para a dívida pública da União.
A contribuição do tucano, se consumada, erguerá uma espécie de linha de Tordesilhas na geografia fiscal do Estado brasileiro.
O ex-governador de São Paulo, de sensibilidade social conhecida, quer tornar impositivos superávits em torno de 3% do PIB até meados de 2030.
O potencial recessivo inerente a esse arrocho -- ainda mais profundo do que o verificado atualmente-- motivou intelectuais, lideranças e economistas, de Maria da Conceição Tavares a Celso Amorin, de Guilherme Boulos a Alfredo Bosi, entre dezenas de outros, a lançarem um chamado de alerta e urgência à nação (leia a íntegra do documento).
Por mais que se dissimule essa truculência em afirmação de responsabilidade fiscal, o fato é que a eventual implantação da ‘mecânica Serra’ só fará aprofundar a anemia do investimento público; por conseguinte aprofundará a rosca da recessão em marcha na economia brasileira.
Pior que isso.
Um longo ciclo de aperto fiscal como o preconizado pelo tucano –que coerentemente se dispõe a entregar o pre-sal às petroleiras internacionais-- privará a sociedade dos investimentos necessários ao salto de infraestrutura e de produtividade que devem caracterizar o passo seguinte do crescimento nacional..
Sem salto de produtividade, o que sobra para se agregar competitividade a uma economia?
Sobra forçar a queda real do salário direto e indireto -- via supressão de ganhos de poder de compra no salários mínimos e com a liquidação de direitos trabalhistas.
Essa dimensão sistêmica embutida na ‘mecânica Serra’ atende à agenda antissocial advogada pelos paladinos da contração expansiva. Qual seja, a dilapidação das estacas civilizatórias de contenção da barbárie capitalista que propiciaria o impulso ao florescimento das inversões privadas.
A Europa em carne viva de estagnação, desemprego e pobreza que enreda 122 milhões de cidadãos é a vitrine mais vistosa dessa receita ali praticada desde o colapso de 2008.
São esses os desdobramentos embutidos na convicção conservadora de que ter menos Estado redundará em uma melhor sociedade.
Redundará, na verdade, em um horizonte, em que o empobrecimento passará a ser o requisito da competitividade, o arrocho fiscal uma vacina de classe à reforma tributária que faça o rentista pagar imposto, e a liquidação da soberania, a salvaguarda preventiva a qualquer ameaça de controle de capital, que devolva à sociedade o comando do seu destino.
Cabe advertir, porém: nem Cunha, nem Serra lavram no deserto.
A margem de manobra de que desfrutam deriva em grande parte do flanco – e dos impasses que irradia — aberto pela política econômica equivocada adotada no segundo governo Dilma.
Ao associar recessão, portanto, queda de receita, e juros siderais, ela reforça as grades de um cativeiro fiscal que literalmente empurra a sociedade para um regime de pura servidão à ganância rentista.
A disjuntiva política intrínseca a uma encruzilhada de empobrecimento e paralisia é o golpe ou a repactuação democrática do futuro.
O curso do enredo golpista tem em Cunha e Serra dois personagens ilustrativos e complementares –um na esfera institucional, o outro no arremate macroeconômico do arrocho.
Resta a alternativa de uma repactuação democrática do desenvolvimento.
Para que seja sólida –e inclusive capaz de reverter a trajetória da dívida pública a confortáveis 60% do PIB—requer um protagonista dotado de força e consentimento, capaz de livrar a sociedade da prostração e docorporativismo em que se encontra, para compartilhar metas, salvaguardas, concessões e avanços que ergam as linhas de passagem a um novo ciclo de construção da democracia social brasileira.
Seu nome é frente popular. Sua viabilidade objetiva está dada. Seu peso efetivo nos acontecimentos em curso depende do discernimento político das lideranças e movimentos sociais para escolher entre o sectarismo ou a grandeza histórica.
terça-feira, outubro 13, 2015
Teoria da conspiração ? : O que está em jogo por trás do golpe no Brasil
Evaristo Almeida*
Desde o início do governo Lula em 2003, a subelite brasileira, que defende os interesses de outros países, vem tentando tomar o poder. Primeiro tentaram com o chamado processo do mensalão, que muito adequadamente foi apelidado de mentirão.
Nesse processo várias irregularidades jurídicas foram cometidas para atingir os objetivos da direita brasileira, como condenações sem provas como reconheceu uma ministra do Supremo Tribunal Federal, réus sem direito a fórum privilegiado que foram julgados diretamente pelo STF, o que não ocorreu com o mensalão tucano que foi desmembrado; usaram a chamada teoria do domínio de fato, cuja aplicabilidade nesse caso foi criticada pelo próprio Claus Roxin, o criador da tese.
E o pior, o objetivo era acabar com o governo e não com a corrupção, pois o mensalão do PSDB, mesmo sendo mais antigo, até o momento não foi julgado e provavelmente nunca será.
Ainda assim, com todas essas armações, a subelite brasileira continuou perdendo as eleições, mesmo tendo a grande imprensa como aliada, difundindo mentiras e principalmente o ódio contra o governo e o PT. Diariamente a classe média brasileira recebe uma dose de veneno dos três grandes jornais brasileiros e semanalmente, através das três grandes revistas semanais.
Isso fomentou em membros dessa classe um ódio visceral contra o PT, chegando a ser patológico. Agressões contra petistas passaram a ser constantes nas ruas, restaurantes e locais públicos em geral. Recentemente, uma pessoa vinda do litoral paulista esteve em risco, junto com a família, porque ainda tem o adesivo da campanha de 2014 aderida no carro.
Dois carrões, esses SUVs, fecharam-no e quase provocaram uma batida só por causa disso, além das agressões verbais que foram muitas.
Com a perda da eleição em 2010, a subelite brasileira, através dos seus partidos, dos meios de comunicação e estamentos do Estado brasileiro, começaram a unificar o pensamento e as ações. A imprensa praticamente reproduz as mesmas matérias, provavelmente construídas pelas mesmas pessoas que usam processos semióticos para induzir um conjunto de conceitos ideológicos, de interesse dessa classe social, que vão sendo assimilados pela população.
A partir de 2011, várias ações foram sendo feitas para que a oposição ao governo federal ganhasse as eleições de 2014. Estavam certos que venceriam essas eleições.
Para isso além do que já vinham fazendo, trouxeram a tona a operação lava jato e as acusações contra a Petrobras.
Esses dois movimentos, mas o ataque cerrado da grande imprensa brasileira garantiria a vitória da oposição.
Nessa operação entram em cena dois fatos importantes, um é a espionagem da agência estadunidense NSA, que teve acesso a informações do governo federal e da Petrobras, divulgado pelo Wikileaks, fato que fez com que a presidenta cancelasse sua viagem aos Estados Unidos.
O outro é a chegada em 2013 da embaixadora dos Estados Unidos Liliana Ayalde, que chefiava a embaixada paraguaia, antes do golpe contra Fernando Lugo.
Várias matérias publicadas referendaram os indícios do envolvimento da embaixadora no golpe daquele país, inclusive o Whikileaks, https://wikileaks.org/plusd/cables/09ASUNCION675_a.html, pela EBC, http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2013/02/paraguai-os-eua-e-o-impeachment e também na Carta Maior http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-Golpe-de-Estado-no-Paraguai-e-a-America-do-Sul%0D%0A/6/25446.
O motivo econômico para o golpe de estado
O petróleo é o principal motivo para um golpe no Brasil, advindo de que os Estados Unidos estão perdendo o controle no Oriente Médio, com a ação russa na Síria.
O petróleo para os Estados Unidos tem dois pontos principais, o principal deles é a garantia do fornecimento para o maior consumidor mundial, junto com a China. O segundo é o petrodólar, acordo que faz com a transação na compra e venda de petróleo seja efetuada em dólar. Isso garante ao emissor dessa moeda um cheque especial, podendo se endividar eternamente pagando com a impressão do dólar. Como o resto do mundo demanda essa moeda, não traz efeitos inflacionários.
Quem se insurgiu contra essa prática como o Iraque e a Líbia foram invadidos e o país destruído.
Para sorte e azar do Brasil, descobrimos a principal província petrolífera do século XXI, chamada de pré-sal que pode ter 300 bilhões de barris de óleo de excelente qualidade.
A sorte prevalecerá se conseguirmos o controle nacional sobre essas reservas, com a Petrobras sendo a única exploradora e mantido o regime de partilha, o Brasil poderá ser um país desenvolvido, com uma indústria offshore e com essa riqueza distribuída, o nosso povo terá um padrão de vida muito melhor.
O nosso risco ou azar, é que exceto a Noruega, país com grandes reservas petrolíferas, os demais foram alvos de todos os meios usados para que as reservas petrolíferas passassem para o controle estrangeiro.
Uma das pragas do Oriente Médio é justamente a riqueza abrigada no seu subsolo, com governos despóticos apoiados pelo Ocidente, invasão e guerra permanente.
E neste cenário da operação Lava Jato segue metódica, com informações privilegiadas e seletividade, junto com a grande imprensa, ajudou nos objetivos das petroleiras estrangeiras na desconstrução da Petrobras, apesar da empresa valer muitas vezes mais no mercado, estar mais rentável e ter aumentado as reservas de petróleo, tendo por base o ano de 2002.
Juntaram as empresas de engenharia nacional no chamado petrolão para martelar diuturnamente de que deveriam acabar com essas empresas, porque estavam metidas em corrupção. Agiram como se em outros países, ricos ou pobres a corrupção não existisse.
Passaram para a população a idéia de que a corrupção é um mal que afeta unicamente o povo brasileiro. Essa é a síntese desse processo todo.
Como se as empresas capitalistas não fossem em sua essência corruptas e se medidas saneadoras já não tivessem sido tomadas.
O escândalo do trensalão em São Paulo foi praticado por empresas francesa, japonesa, alemã e brasileira, que provocaram um rombo de pelo menos R$ 1 bilhão nos cofres públicos, segundo o Ministério Público.
A corrupção de militares alemães por uma grande empresa estadunidense na venda de caças na década de 1960 provocou um grande escândalo, mas nem por isso a empresa foi fechada. Esse fato está em https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_bribery_scandals,
O grande golpe de corrupção privado foi o de 2008, em que grandes empresas financeiras, da área de seguros e bancos provocaram a crise do subprime, que causou um prejuízo de US$ 780 bilhões aos contribuintes dos Estados Unidos, desemprego e crise econômica e ninguém foi preso, tema do documentário Inside Job em http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-trabalho-interno-dublado-online.html.
A grande mídia brasileira e estrangeira, junto com funcionários públicos, inclusive alguns que estudaram nos Estados Unidos, montaram um grande esquema para tirar o pré-sal do controle da Petrobras e num futuro próximo a empresa ser privatizada, sob o argumento de que empresa pública é essencialmente corrupta e a privada não, outra falácia.
Quem ganharia com tudo isso seriam as grandes empresas petrolíferas estadunidenses e européias.
E o Brasil veria de novo sua riqueza ir enriquecer outros povos, como aconteceu no ciclo da cana-de-açúcar e do ouro, que os europeus ganharam tudo e nós ficamos com a herança da escravidão e os buracos em Ouro Preto.
Além do petróleo e da Petrobras, os países que ganham com o golpe ainda ocupariam o espaço das empresas de engenharia nacionais e poderiam exportar bens, como navios e plataformas para a exploração do pré-sal no Brasil, o que atualmente não é possível.
Para tentar isso eles contam com apoio de senadores e deputados que apresentaram projetos leis para tentar tirar o pré-sal do povo brasileiro. Os projetos estão tramitando e o processo está em andamento.
A traição em 1789 por Joaquim Silvério dos Reis causou a morte de Tiradentes e o Brasil continuou como colônia, essa trama se for efetivada por esses parlamentares, condenará o Brasil a ser ad perpetum um país subdesenvolvido, causará pobreza, tirando a chance de uma vida melhor à milhões de brasileiros e o país voltará à condição do que já foi um dia, colônia.
É um crime de lesa pátria, que vai contra os interesses do nosso povo.
Os motivos geopolíticos para o golpe
Um novo mundo está em nascimento, mas o velho, baseado na unipolaridade dos Estados Unidos, recusa-se a acabar.
A maior porção de terra, a Eurásia, ou a hurt land, na qual fazem parte a Russia e a China, novos atores no cenário mundial, estão construindo laços comerciais, culturais e estratégicos que mudam o eixo estratégico do mundo.
Construção de ferrovias de alta velocidade, de exploração de gás petróleo e formação de blocos, como o BRICS, estão avançando rapidamente, sob liderança desses países.
Os Estados Unidos, com a pax americana já não convencem ninguém e a Europa perdeu o protagonismo, principalmente com a crise econômica que está assolando países como Grécia, Espanha e Portugal, ameaçando a unidade da União Européia e do euro.
Enquanto isso, no continente latino americano vários países se reconstruíram das ditaduras implantadas pelos Estados Unidos com as subelites locais nas décadas de 1960 e 1970, e da derrocada do neoliberalismo, fundamentalismo econômico, sem base científica, que afundou o nosso continente em crises econômicas e sociais na década de 1990.
O Brasil é o país mais importante dessa porção de terra do mundo, sem nenhuma pretensão imperialista. E o nosso país tem garantido a democracia em vários países que sofreram processos de golpes de estado, como a Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina, através de instituições como o Mercosul e a Unasul.
Mesmo com esses instrumentos não conseguimos barrar os golpes em Honduras e no Paraguai.
Outro fator importante são os acordos comerciais, como o Trans-Pacífico (TPP), o Trans-Atlântico (TPA) e o Tratado de Serviços (TISA).
Quem está puxando esses tratados são os Estados Unidos e os países europeus e representam a morte da democracia nos países que aderirem a eles, pois todos os direitos sociais, o parlamento e iniciativas governamentais seguirão ritos que beneficiam as grandes empresas transnacionais.
Então, um Brasil, sob controle da oposição, como escreveu Fernando Henrique Cardoso, aderiria a um tratado desses, em nome da modernidade. Ser colônia para ele é ser moderno.
E sairia dos BRICS, para tentar enfraquecer esse bloco, principalmente depois da criação do banco de desenvolvimento, que substituirá o Banco Mundial e do arranjo financeiro, que substituirá o FMI. É uma libertação do mundo do acordo de Bretton Woods.
É tudo o que os países centrais não querem, pois contam com a chantagem financeira feita através do BIRD e do FMI, que eles controlam para conseguirem o controle político e econômico de países que são obrigados a abrir mão da soberania para acessarem linhas de crédito oferecidas por esses organismos.
E a América Latina ficaria sem pai nem mãe, pois os golpistas estariam livres para derrubar regimes democráticos, pintados de ditaduras pela grande imprensa, como a Venezuela.
Essa é a essência o que está por trás desse golpe de estado que estão tentando implantar no Brasil.
Final
O Brasil passa por um momento crucial em que a democracia conquistada a duras penas, a ascensão social, direitos trabalhistas e civis, a soberania brasileira e o futuro do país estão em risco.
A oposição, que não conseguiu ganhar as quatro últimas eleições para a presidência, resolveu partir para o golpe de estado, junto com a grande imprensa brasileira e partes de instituições estatais.
Subjacente a tudo isso, de forma dissimulada, estão interesses estrangeiros no Brasil e na América Latina que querem de novo o protagonismo colonialista que sempre tiveram.
A cobiça do pré-sal por povos estrangeiros, a privatização da Petrobras e a abertura do mercado brasileiro para produtos de exploração offshore de petróleo, é parte da força que se esconde atrás desse processo.
A saída do Brasil dos BRICS, a entrada subalterna no TPP, TPA ou TISA, poriam fim a qualquer projeto de inserção soberana do país no mundo.
As democracias da América Latina também estariam em risco.
Assim como na batalha de Stalingrado, a nossa luta de hoje é entre a civilização ou a barbárie.
A oposição brasileira quer o retrocesso do país e além de representar os próprios interesses oligárquicos estão a serviço de interesses obscuros de outros povos.
Defender a democracia e o resultado da eleição de 2014 é garantir um futuro promissor para o nosso país.
Como escreveu Ricardo Semler, nunca se roubou tão pouco como agora, que pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/196552-nunca-se-roubou-tao-pouco.shtml.
Graças aos governos do PT, a corrupção que já foi de 5% do PIB, passou para 3,1% e seria de 0,8%. E vai continuar diminuindo.
Isso demonstra o quanto a roubalheira vem sendo combatida desde 2003, o que está assustando muita gente da subelite brasileira que se acostumou a usar o Estado brasileiro em benefício próprio e isso está acabando.
Estão usando a corrupção como falsa bandeira; não é para acabar com os maus feitos, mas para que eles continuem por mais 500 anos.
·Economista, Mestre em Economia Política – PUC-SP
Desde o início do governo Lula em 2003, a subelite brasileira, que defende os interesses de outros países, vem tentando tomar o poder. Primeiro tentaram com o chamado processo do mensalão, que muito adequadamente foi apelidado de mentirão.
Nesse processo várias irregularidades jurídicas foram cometidas para atingir os objetivos da direita brasileira, como condenações sem provas como reconheceu uma ministra do Supremo Tribunal Federal, réus sem direito a fórum privilegiado que foram julgados diretamente pelo STF, o que não ocorreu com o mensalão tucano que foi desmembrado; usaram a chamada teoria do domínio de fato, cuja aplicabilidade nesse caso foi criticada pelo próprio Claus Roxin, o criador da tese.
E o pior, o objetivo era acabar com o governo e não com a corrupção, pois o mensalão do PSDB, mesmo sendo mais antigo, até o momento não foi julgado e provavelmente nunca será.
Ainda assim, com todas essas armações, a subelite brasileira continuou perdendo as eleições, mesmo tendo a grande imprensa como aliada, difundindo mentiras e principalmente o ódio contra o governo e o PT. Diariamente a classe média brasileira recebe uma dose de veneno dos três grandes jornais brasileiros e semanalmente, através das três grandes revistas semanais.
Isso fomentou em membros dessa classe um ódio visceral contra o PT, chegando a ser patológico. Agressões contra petistas passaram a ser constantes nas ruas, restaurantes e locais públicos em geral. Recentemente, uma pessoa vinda do litoral paulista esteve em risco, junto com a família, porque ainda tem o adesivo da campanha de 2014 aderida no carro.
Dois carrões, esses SUVs, fecharam-no e quase provocaram uma batida só por causa disso, além das agressões verbais que foram muitas.
Com a perda da eleição em 2010, a subelite brasileira, através dos seus partidos, dos meios de comunicação e estamentos do Estado brasileiro, começaram a unificar o pensamento e as ações. A imprensa praticamente reproduz as mesmas matérias, provavelmente construídas pelas mesmas pessoas que usam processos semióticos para induzir um conjunto de conceitos ideológicos, de interesse dessa classe social, que vão sendo assimilados pela população.
A partir de 2011, várias ações foram sendo feitas para que a oposição ao governo federal ganhasse as eleições de 2014. Estavam certos que venceriam essas eleições.
Para isso além do que já vinham fazendo, trouxeram a tona a operação lava jato e as acusações contra a Petrobras.
Esses dois movimentos, mas o ataque cerrado da grande imprensa brasileira garantiria a vitória da oposição.
Nessa operação entram em cena dois fatos importantes, um é a espionagem da agência estadunidense NSA, que teve acesso a informações do governo federal e da Petrobras, divulgado pelo Wikileaks, fato que fez com que a presidenta cancelasse sua viagem aos Estados Unidos.
O outro é a chegada em 2013 da embaixadora dos Estados Unidos Liliana Ayalde, que chefiava a embaixada paraguaia, antes do golpe contra Fernando Lugo.
Várias matérias publicadas referendaram os indícios do envolvimento da embaixadora no golpe daquele país, inclusive o Whikileaks, https://wikileaks.org/plusd/cables/09ASUNCION675_a.html, pela EBC, http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2013/02/paraguai-os-eua-e-o-impeachment e também na Carta Maior http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-Golpe-de-Estado-no-Paraguai-e-a-America-do-Sul%0D%0A/6/25446.
O motivo econômico para o golpe de estado
O petróleo é o principal motivo para um golpe no Brasil, advindo de que os Estados Unidos estão perdendo o controle no Oriente Médio, com a ação russa na Síria.
O petróleo para os Estados Unidos tem dois pontos principais, o principal deles é a garantia do fornecimento para o maior consumidor mundial, junto com a China. O segundo é o petrodólar, acordo que faz com a transação na compra e venda de petróleo seja efetuada em dólar. Isso garante ao emissor dessa moeda um cheque especial, podendo se endividar eternamente pagando com a impressão do dólar. Como o resto do mundo demanda essa moeda, não traz efeitos inflacionários.
Quem se insurgiu contra essa prática como o Iraque e a Líbia foram invadidos e o país destruído.
Para sorte e azar do Brasil, descobrimos a principal província petrolífera do século XXI, chamada de pré-sal que pode ter 300 bilhões de barris de óleo de excelente qualidade.
A sorte prevalecerá se conseguirmos o controle nacional sobre essas reservas, com a Petrobras sendo a única exploradora e mantido o regime de partilha, o Brasil poderá ser um país desenvolvido, com uma indústria offshore e com essa riqueza distribuída, o nosso povo terá um padrão de vida muito melhor.
O nosso risco ou azar, é que exceto a Noruega, país com grandes reservas petrolíferas, os demais foram alvos de todos os meios usados para que as reservas petrolíferas passassem para o controle estrangeiro.
Uma das pragas do Oriente Médio é justamente a riqueza abrigada no seu subsolo, com governos despóticos apoiados pelo Ocidente, invasão e guerra permanente.
E neste cenário da operação Lava Jato segue metódica, com informações privilegiadas e seletividade, junto com a grande imprensa, ajudou nos objetivos das petroleiras estrangeiras na desconstrução da Petrobras, apesar da empresa valer muitas vezes mais no mercado, estar mais rentável e ter aumentado as reservas de petróleo, tendo por base o ano de 2002.
Juntaram as empresas de engenharia nacional no chamado petrolão para martelar diuturnamente de que deveriam acabar com essas empresas, porque estavam metidas em corrupção. Agiram como se em outros países, ricos ou pobres a corrupção não existisse.
Passaram para a população a idéia de que a corrupção é um mal que afeta unicamente o povo brasileiro. Essa é a síntese desse processo todo.
Como se as empresas capitalistas não fossem em sua essência corruptas e se medidas saneadoras já não tivessem sido tomadas.
O escândalo do trensalão em São Paulo foi praticado por empresas francesa, japonesa, alemã e brasileira, que provocaram um rombo de pelo menos R$ 1 bilhão nos cofres públicos, segundo o Ministério Público.
A corrupção de militares alemães por uma grande empresa estadunidense na venda de caças na década de 1960 provocou um grande escândalo, mas nem por isso a empresa foi fechada. Esse fato está em https://en.wikipedia.org/wiki/Lockheed_bribery_scandals,
O grande golpe de corrupção privado foi o de 2008, em que grandes empresas financeiras, da área de seguros e bancos provocaram a crise do subprime, que causou um prejuízo de US$ 780 bilhões aos contribuintes dos Estados Unidos, desemprego e crise econômica e ninguém foi preso, tema do documentário Inside Job em http://www.filmesonlinegratis.net/assistir-trabalho-interno-dublado-online.html.
A grande mídia brasileira e estrangeira, junto com funcionários públicos, inclusive alguns que estudaram nos Estados Unidos, montaram um grande esquema para tirar o pré-sal do controle da Petrobras e num futuro próximo a empresa ser privatizada, sob o argumento de que empresa pública é essencialmente corrupta e a privada não, outra falácia.
Quem ganharia com tudo isso seriam as grandes empresas petrolíferas estadunidenses e européias.
E o Brasil veria de novo sua riqueza ir enriquecer outros povos, como aconteceu no ciclo da cana-de-açúcar e do ouro, que os europeus ganharam tudo e nós ficamos com a herança da escravidão e os buracos em Ouro Preto.
Além do petróleo e da Petrobras, os países que ganham com o golpe ainda ocupariam o espaço das empresas de engenharia nacionais e poderiam exportar bens, como navios e plataformas para a exploração do pré-sal no Brasil, o que atualmente não é possível.
Para tentar isso eles contam com apoio de senadores e deputados que apresentaram projetos leis para tentar tirar o pré-sal do povo brasileiro. Os projetos estão tramitando e o processo está em andamento.
A traição em 1789 por Joaquim Silvério dos Reis causou a morte de Tiradentes e o Brasil continuou como colônia, essa trama se for efetivada por esses parlamentares, condenará o Brasil a ser ad perpetum um país subdesenvolvido, causará pobreza, tirando a chance de uma vida melhor à milhões de brasileiros e o país voltará à condição do que já foi um dia, colônia.
É um crime de lesa pátria, que vai contra os interesses do nosso povo.
Os motivos geopolíticos para o golpe
Um novo mundo está em nascimento, mas o velho, baseado na unipolaridade dos Estados Unidos, recusa-se a acabar.
A maior porção de terra, a Eurásia, ou a hurt land, na qual fazem parte a Russia e a China, novos atores no cenário mundial, estão construindo laços comerciais, culturais e estratégicos que mudam o eixo estratégico do mundo.
Construção de ferrovias de alta velocidade, de exploração de gás petróleo e formação de blocos, como o BRICS, estão avançando rapidamente, sob liderança desses países.
Os Estados Unidos, com a pax americana já não convencem ninguém e a Europa perdeu o protagonismo, principalmente com a crise econômica que está assolando países como Grécia, Espanha e Portugal, ameaçando a unidade da União Européia e do euro.
Enquanto isso, no continente latino americano vários países se reconstruíram das ditaduras implantadas pelos Estados Unidos com as subelites locais nas décadas de 1960 e 1970, e da derrocada do neoliberalismo, fundamentalismo econômico, sem base científica, que afundou o nosso continente em crises econômicas e sociais na década de 1990.
O Brasil é o país mais importante dessa porção de terra do mundo, sem nenhuma pretensão imperialista. E o nosso país tem garantido a democracia em vários países que sofreram processos de golpes de estado, como a Venezuela, Bolívia, Equador e Argentina, através de instituições como o Mercosul e a Unasul.
Mesmo com esses instrumentos não conseguimos barrar os golpes em Honduras e no Paraguai.
Outro fator importante são os acordos comerciais, como o Trans-Pacífico (TPP), o Trans-Atlântico (TPA) e o Tratado de Serviços (TISA).
Quem está puxando esses tratados são os Estados Unidos e os países europeus e representam a morte da democracia nos países que aderirem a eles, pois todos os direitos sociais, o parlamento e iniciativas governamentais seguirão ritos que beneficiam as grandes empresas transnacionais.
Então, um Brasil, sob controle da oposição, como escreveu Fernando Henrique Cardoso, aderiria a um tratado desses, em nome da modernidade. Ser colônia para ele é ser moderno.
E sairia dos BRICS, para tentar enfraquecer esse bloco, principalmente depois da criação do banco de desenvolvimento, que substituirá o Banco Mundial e do arranjo financeiro, que substituirá o FMI. É uma libertação do mundo do acordo de Bretton Woods.
É tudo o que os países centrais não querem, pois contam com a chantagem financeira feita através do BIRD e do FMI, que eles controlam para conseguirem o controle político e econômico de países que são obrigados a abrir mão da soberania para acessarem linhas de crédito oferecidas por esses organismos.
E a América Latina ficaria sem pai nem mãe, pois os golpistas estariam livres para derrubar regimes democráticos, pintados de ditaduras pela grande imprensa, como a Venezuela.
Essa é a essência o que está por trás desse golpe de estado que estão tentando implantar no Brasil.
Final
O Brasil passa por um momento crucial em que a democracia conquistada a duras penas, a ascensão social, direitos trabalhistas e civis, a soberania brasileira e o futuro do país estão em risco.
A oposição, que não conseguiu ganhar as quatro últimas eleições para a presidência, resolveu partir para o golpe de estado, junto com a grande imprensa brasileira e partes de instituições estatais.
Subjacente a tudo isso, de forma dissimulada, estão interesses estrangeiros no Brasil e na América Latina que querem de novo o protagonismo colonialista que sempre tiveram.
A cobiça do pré-sal por povos estrangeiros, a privatização da Petrobras e a abertura do mercado brasileiro para produtos de exploração offshore de petróleo, é parte da força que se esconde atrás desse processo.
A saída do Brasil dos BRICS, a entrada subalterna no TPP, TPA ou TISA, poriam fim a qualquer projeto de inserção soberana do país no mundo.
As democracias da América Latina também estariam em risco.
Assim como na batalha de Stalingrado, a nossa luta de hoje é entre a civilização ou a barbárie.
A oposição brasileira quer o retrocesso do país e além de representar os próprios interesses oligárquicos estão a serviço de interesses obscuros de outros povos.
Defender a democracia e o resultado da eleição de 2014 é garantir um futuro promissor para o nosso país.
Como escreveu Ricardo Semler, nunca se roubou tão pouco como agora, que pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/196552-nunca-se-roubou-tao-pouco.shtml.
Graças aos governos do PT, a corrupção que já foi de 5% do PIB, passou para 3,1% e seria de 0,8%. E vai continuar diminuindo.
Isso demonstra o quanto a roubalheira vem sendo combatida desde 2003, o que está assustando muita gente da subelite brasileira que se acostumou a usar o Estado brasileiro em benefício próprio e isso está acabando.
Estão usando a corrupção como falsa bandeira; não é para acabar com os maus feitos, mas para que eles continuem por mais 500 anos.
·Economista, Mestre em Economia Política – PUC-SP
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