O Senador Aécio Neves e o ex-governador Eduardo Campos defenderam no fórum empresarial de Comandatuba a autonomia do BC como arma para combater a inflação.
O Senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador Eduardo Campos (PSB), ambos pré-candidatos à presidência da República, defenderam no fórum empresarial de Comandatuba a autonomia do Banco Central (BACEN) como arma para combater a inflação. No final do ano passado, muito se falou na imprensa da intenção (ademais nunca confirmada) do presidente do Senado de apresentar um projeto de lei garantindo a independência do Bacen.
Apesar de os pré-candidatos de oposição à presidente Dilma usarem os adjetivos independência e autonomia como sinônimos, eles podem representar desenhos institucionais razoavelmente distintos do papel do Banco Central na condução da política monetária. Da existência de mandatos de sua diretoria não coincidentes com o mandato presidencial à mera autonomia operacional para atingir metas determinadas pelo governo, os termos, em um sentido amplo, podem inclusive descrever o funcionamento atual de nossa autoridade monetária ao operar as metas inflacionárias.
O que quiseram então dizer os presidenciáveis de oposição ao defender a independência do Banco Central? A meu ver, sinalizar para os agentes econômicos, particularmente para o mercado financeiro que: 1) que dentre o conjunto de instrumentos de política econômica, a política monetária (leia-se, alterações na taxa Selic) terá estatuto superior e que, consequentemente, 2) a política de estabilização de preços terá prioridade sobre objetivos macroeconômicos, notadamente a geração de empregos e o nível da taxa de câmbio, fundamental para a sobrevivência da nossa indústria. As propostas de Aécio e Eduardo Campos têm importante repercussão programática e, caso algum dia se concretizem, terão graves consequências para o futuro do país.
No fundo, as teses de autonomia ou independência dos Bancos Centrais partem de pressupostos comuns. Em ambos casos casos comungam de versões contemporâneas de teorias econômicas ultra-ortodoxas, típicas do século XIX, que acreditam que a tendência natural do capitalismo é o pleno emprego (ou, na sua versão tautológica, de uma taxa de desemprego em que a inflação seja estável) a partir do equilíbrio entre oferta e demanda dos diversos mercados em regime de livre concorrência. A existência de desemprego crônico ou de equilíbrios "sub-ótimos" normalmente é fruto de intervenção indevida de instituições (dentre elas o Estado) no livre funcionamento do mercado.
Entre essas intervenções "indevidas" estariam políticas de afrouxamento monetário – quedas nas taxas básicas de juros ou ampliação da base monetária – visando ao estímulo à atividade econômica e à geração de empregos, típicas do arroz com feijão keynesiano que vigorou como verdade inatacável desde o New Deal americano até o surgimento do neoliberalismo, no final da década de 1970.
Segundo os ortodoxos, tentativas recorrentes de estímulo monetário estão fadadas a gerar descontrole inflacionário, já que a moeda é neutra no longo prazo e têm efeito somente sobre a variação do nível de preços, sendo ineficaz na aceleração do nível do produto.
Portanto, a receita de política monetária advogada pelos economistas hoje articulados em torno de Aécio e Eduardo Campos é centrada na concepção de "um instrumento" para "um objetivo" de política econômica. O instrumento recomendado é a taxa de juros; o objetivo sugerido é o controle da inflação. Nestes termos, a política monetária, leia-se a gestão da taxa básica de juros da economia (Selic), deve ser orientada exclusivamente para o alcance de uma meta de inflação.
O argumento central para fundamentar a escolha deste modelo é que a adoção de uma meta para a inflação constitui uma âncora para as expectativas dos agentes econômicos quanto ao comportamento futuro da inflação. Expectativas bem ancoradas seriam capazes de ampliar os investimentos e favorecer o crescimento.
A ancoragem depende da reputação da autoridade responsável pela condução da política monetária. Esta reputação é determinada pelo compromisso político e a capacidade operacional referente à execução da política de metas.
Aqui reside o argumento "técnico" para justificar a "independência" do Banco Central. Esta independência diz respeito ao Poder Executivo. Mais especificamente, é independência em relação ao presidente da República, eleito pelo voto direto da população brasileira, em eleições realizadas dentro dos marcos constitucionais, sob condições de plena transparência e reconhecimento da comunidade internacional de países. Um argumento que, na realidade, é fundamentalmente, político.
Segundo seus adeptos, o bom funcionamento da política monetária de metas para a inflação, ao consolidar expectativas sobre a estabilidade da trajetória da inflação, reduz incertezas relacionadas ao comportamento futuro dos preços dos ativos de capital e dos fluxos de renda decorrentes da exploração econômica destes ativos. Ou seja, reduz as incertezas sobre a dinâmica do processo de acumulação de capital.
E qual o papel reservado aos objetivos de políticas econômicas relacionadas ao nível de emprego e da renda real dos trabalhadores? Bem, estes objetivos não são considerados no âmbito da política econômica dos Inocentes do Leblon. Para eles, a estabilidade da economia favorece o funcionamento dos mercados e, consequentemente, (sem necessidade de execução de medidas de política econômica) constitui condições favoráveis à expansão do emprego e da renda das famílias.
O governo do PSDB praticou taxas abusivas de juros e encerrou o mandato em dezembro de 2002 com Selic igual a 25% a.a. O governo da presidente Dilma Rousseff praticou a menor taxa média de juros dos últimos 25 anos e opera atualmente uma Selic igual a 10,5%.
Apesar das taxas de juros abusivas, o governo de FHC conviveu com uma inflação média no período 1999-2002 de aproximadamente 8,8% a.a., chegando a 12,5% no último ano do mandato, em 2002. O governo da presidente Dilma manteve a inflação dentro da meta e, no período 2011-2013, a inflação média foi da ordem de 6% a.a.
Por fim, cabe ressaltar que o segundo governo do PSDB de Fernando Henrique Cardoso conviveu com taxas de desemprego médio de 10% a.a. e encerrou o mandato, em 2002, com uma taxa batendo na casa dos 11%. O Governo da presidente Dilma, orientado num modelo de política econômica que valoriza a coordenação de políticas econômicas e objetiva competitividade e pleno emprego, alcançou as menores taxas de desemprego da série histórica calculada pelo IBGE, alcançando uma média anual de aproximadamente 4,6%a.a no período 2011-2013.
Estes dados são ainda mais expressivos quando consideramos que o PSDB governou o país sob condições internacionais muito favoráveis, e a Presidente Dilma governa o Brasil sob um cenário internacional adverso, que observa o sétimo ano consecutivo de turbulências (2008-2014) determinadas pela maior crise da economia mundial desde os anos 1930.
Uma política econômica que sustente um projeto democrático e popular não pode ser caolha e nem prescindir de um firme compromisso com o emprego e com a defesa dos interesses de nossa produção. Isso exige um grande esforço de coordenação macroeconômica a partir do Executivo e envolve, obviamente, o Bacen. É o que demonstra nossa experiência recente, nos acertos de Dilma... e nos erros (reincidentes) da oposição.
(*) Deputado federal (PT-PA)
O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
terça-feira, maio 13, 2014
Recomendações aos brasileiros sobre os turistas na Copa
A Copa pode ser um momento difícil para os brasileiros, tendo que aguentar gente sem a mínima educação, achando que são os civilizados visitando os bárbaros.
por Emir Sader
O brasileiro é conhecido por sua simpatia e amabilidade com todo mundo, inclusive com os turistas. Mas é preciso tomar precauções quando nos preparamos para recebemos grande quantidade de turistas, munidos de preconceitos, clichês, taras, etc. Vamos recebê-los com a hospitalidade de sempre, mas temos que levar em conta certas normas, baseadas na nossa experiência de tratamento com os turistas, mas também em conhecimento de coisas que acontecem hoje no mundo e que nos obriga a ficarmos muito alertas com os turistas, especialmente os da Europa, dos EUA e de outras regiões do mundo que se consideram superiores aos outros, “civilizados” que vem a um país “bárbaro”.
São gente em geral com boa disposição com o Brasil mas que, colocando pra fora algumas taras pessoais, alimentando preconceitos e clichês, podem se tornar pessoas sumamente perigosas, violentas, sob o efeito do álcool, de drogas e outros estupefacientes.
Vai ser um momento mudo bom, mas também muito cheio de provas para nós, brasileiros. Podemos ter certeza de que sairemos bem dessa circunstância, mas para isso temos que obedecer a certas normas e comportamentos.
1. Muitos turistas, especialmente vindos de alguns países da Europa, já contratam em agências de turismo, programas de turismo sexual, inclusive de pederastia. Vamos ser muito duros com eles, nos mantermos vigilantes, denunciarmos suas atitudes, acompanharmos os procedimentos policiais e garantirmos que eles sejam punidos exemplarmente aqui mesmo.
2. Muitos turistas acham que vivem aqui no paraíso das drogas, que podem consumir o que bem entenderem, entrar em contato com traficantes e aviõezinhos, fumar e cheirar o que bem entendam. Devemos cuidar para que depois não venham denunciar que caíram em algum golpe de forma inocente.
3. Muitos torcedores – especialmente europeus – costumam se comportar de maneira preconceituosa e desrespeitosa com pessoas que julgam de menor nível de vida e, especialmente, de outras etnias. Os europeus desenvolveram, ao longo da sua história, uma concepção de que “negro serve para ser escravo”, para trabalhar como raça inferior para que eles se enriquecessem. Até hoje, muitos ainda consideram os negros uma raça inferior. Por isso que grita ofensas aos jogadores negros nos campos de futebol, jogam bananas para alguns deles.
Devemos estar muito vigilantes com esses comportamentos estúpidos de alguns turistas. Discriminação aqui é crime inafiançável, previsto na Constituição. Por lá eles tendem a ser condescendentes com esse tipo de comportamento, porque é o sentimento que grande parte deles tem em relação aos imigrantes, por exemplo, fazendo com que a força política que mais cresça lá seja a extrema direita, que ataca fortemente os direitos dos imigrantes e os discrimina fortemente, desejando expulsá-los dos seus países.
4. Muitos turistas vem de países em que a mídia e mesmo meios governamentais os preparam para vir encontrar um caldeirão de conflitos e violências por aqui. Acreditam que podem ser assaltados a cada esquina, que vão encontrar macacos, cobras, em cada rua, que não podem sair à noite pelas ruas. Que, ao contrário do que Lula propalou pelo mundo afora, a miséria, a pobreza, o desemprego, só aumentam, há uma crise social prestes a explodir.
5. Na Europa em particular, os níveis de desemprego são altíssimos. Em países como a Espanha, Portugal, Grecia, mais do que 50% dos jovens são desempregados, há anos. Eles não estão acostumados mais a situações de pleno emprego. Podem estranhar. Não tem um líder popular como o Lula. Podem estranhar. Ainda mais se lerem os jornais, lembrarem do que leram nos seus países, podem achar que há um Estado policial que impede as pessoas a se manifestarem por emprego, por salário, por licença desemprego. Podem se comportar de maneira estranha.
Em suma, a Copa pode ser um momento difícil para os brasileiros, tendo que aguentar muita gente sem a mínima educação, achando que são os “civilizados”, se achando os “democratas”, sem saber conviver com pessoas diferentes em étnicas em comportamentos, em valores. Mas acho que vamos sobreviver, com nossa hospitalidade, nosso costuma de conviver com gente diferente, nossa forma bem humorada de levar adiante os problemas, de gozar os “gringos” que vierem metidos a besta.
por Emir Sader
O brasileiro é conhecido por sua simpatia e amabilidade com todo mundo, inclusive com os turistas. Mas é preciso tomar precauções quando nos preparamos para recebemos grande quantidade de turistas, munidos de preconceitos, clichês, taras, etc. Vamos recebê-los com a hospitalidade de sempre, mas temos que levar em conta certas normas, baseadas na nossa experiência de tratamento com os turistas, mas também em conhecimento de coisas que acontecem hoje no mundo e que nos obriga a ficarmos muito alertas com os turistas, especialmente os da Europa, dos EUA e de outras regiões do mundo que se consideram superiores aos outros, “civilizados” que vem a um país “bárbaro”.
São gente em geral com boa disposição com o Brasil mas que, colocando pra fora algumas taras pessoais, alimentando preconceitos e clichês, podem se tornar pessoas sumamente perigosas, violentas, sob o efeito do álcool, de drogas e outros estupefacientes.
Vai ser um momento mudo bom, mas também muito cheio de provas para nós, brasileiros. Podemos ter certeza de que sairemos bem dessa circunstância, mas para isso temos que obedecer a certas normas e comportamentos.
1. Muitos turistas, especialmente vindos de alguns países da Europa, já contratam em agências de turismo, programas de turismo sexual, inclusive de pederastia. Vamos ser muito duros com eles, nos mantermos vigilantes, denunciarmos suas atitudes, acompanharmos os procedimentos policiais e garantirmos que eles sejam punidos exemplarmente aqui mesmo.
2. Muitos turistas acham que vivem aqui no paraíso das drogas, que podem consumir o que bem entenderem, entrar em contato com traficantes e aviõezinhos, fumar e cheirar o que bem entendam. Devemos cuidar para que depois não venham denunciar que caíram em algum golpe de forma inocente.
3. Muitos torcedores – especialmente europeus – costumam se comportar de maneira preconceituosa e desrespeitosa com pessoas que julgam de menor nível de vida e, especialmente, de outras etnias. Os europeus desenvolveram, ao longo da sua história, uma concepção de que “negro serve para ser escravo”, para trabalhar como raça inferior para que eles se enriquecessem. Até hoje, muitos ainda consideram os negros uma raça inferior. Por isso que grita ofensas aos jogadores negros nos campos de futebol, jogam bananas para alguns deles.
Devemos estar muito vigilantes com esses comportamentos estúpidos de alguns turistas. Discriminação aqui é crime inafiançável, previsto na Constituição. Por lá eles tendem a ser condescendentes com esse tipo de comportamento, porque é o sentimento que grande parte deles tem em relação aos imigrantes, por exemplo, fazendo com que a força política que mais cresça lá seja a extrema direita, que ataca fortemente os direitos dos imigrantes e os discrimina fortemente, desejando expulsá-los dos seus países.
4. Muitos turistas vem de países em que a mídia e mesmo meios governamentais os preparam para vir encontrar um caldeirão de conflitos e violências por aqui. Acreditam que podem ser assaltados a cada esquina, que vão encontrar macacos, cobras, em cada rua, que não podem sair à noite pelas ruas. Que, ao contrário do que Lula propalou pelo mundo afora, a miséria, a pobreza, o desemprego, só aumentam, há uma crise social prestes a explodir.
5. Na Europa em particular, os níveis de desemprego são altíssimos. Em países como a Espanha, Portugal, Grecia, mais do que 50% dos jovens são desempregados, há anos. Eles não estão acostumados mais a situações de pleno emprego. Podem estranhar. Não tem um líder popular como o Lula. Podem estranhar. Ainda mais se lerem os jornais, lembrarem do que leram nos seus países, podem achar que há um Estado policial que impede as pessoas a se manifestarem por emprego, por salário, por licença desemprego. Podem se comportar de maneira estranha.
Em suma, a Copa pode ser um momento difícil para os brasileiros, tendo que aguentar muita gente sem a mínima educação, achando que são os “civilizados”, se achando os “democratas”, sem saber conviver com pessoas diferentes em étnicas em comportamentos, em valores. Mas acho que vamos sobreviver, com nossa hospitalidade, nosso costuma de conviver com gente diferente, nossa forma bem humorada de levar adiante os problemas, de gozar os “gringos” que vierem metidos a besta.
Os políticos devem definir política monetária, diz Rui Falcão
Presidente do PT afirma que Banco Central não deve ter autonomia formal
Bloomberg
redação@brasileconomico.com.br
Autoridades eleitas pelo povo, no lugar do Banco Central, deveriam ter a palavra final na formulação da política monetária, disse nesta terça-feira, Rui Falcão, coordenador da campanha de reeleição da presidenta Dilma Rousseff.
"O Banco Central tem autonomia operacional, e achamos que a economia - e a questão monetária é parte da economia como um todo - precisa ser dirigida por aqueles que são eleitos", disse em uma entrevista na sede do Partido dos Trabalhadores (PT). "Eu sou contra a autonomia formal do Banco Central."
O governo de Dilma Rousseff tem se esforçado para manter a inflação dentro da margem de dois pontos percentuais acima da meta de 4,5%, enquanto o crescimento econômico durante seu mandato foi o menor em duas décadas. O Banco Central, que aumentou a taxa básica de juros por nove vezes consecutivas, para 11% ao ano, fará sua próxima reunião de política monetária em 27 e 28 de maio.
Economistas estimam que o crescimento econômico vai desacelerar de 2,3% em 2013 para 1,69% este ano, de acordo com pesquisa do BC junto a cerca de cem analistas publicada nesta segunda-feira. O mercado reduziu a estimativa média da inflação em 2014 de 6,5% para 6,39%, também segundo o boletim Focus. A inflação nos 12 meses até abril foi de 6,28%, o mais alto percentual anual em dez meses.
A assessoria de imprensa do BC não quis comentar a opinião de Rui Falcão sobre a autonomia do Banco Central quando procurada por telefone.
Independência
Concorrentes de Dilma para as eleições em outubro, o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), defendem a independência oficial do Banco Central e menor participação do Estado na economia. Falcão, que também é presidente do PT, disse que o governo irá considerar controles de capital em um possível segundo mandato desde que eles não afetem o investimento estrangeiro direto.
"Pode-se discutir corretamente os controles de capital no próximo mandato, para evitar a fuga de capitais", disse Falcão, de Brasília. "Em todas essas questões em que o Estado intervém para alcançar um crescimento econômico com inclusão social, o mercado grita."
A popularidade de Dilma entre os brasileiros vem caindo desde o final de março, de acordo com pesquisas de opinião pública, conforme o aumento dos preços ao consumidor e uma possível escassez de energia levam os eleitores a considerar outros candidatos.
Pesquisa do Datafolha publicada em 9 de maio mostrou que 37% dos brasileiros disseram que votariam em Dilma, contra 20% para Aécio Neves (PSDB) e 11% Campos (PSB). A pesquisa teve uma margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Próximo candidato
A campanha de Dilma Rousseff não precisa de um diretor econômico, pois a política econômica de seu governo já está bem definida, disse Falcão. Ele afirmou que os investimentos em infraestrutura, saúde e educação vão começar a dar frutos durante um possível segundo mandato, preparando o terreno para o próximo candidato do PT.
"Há um crescimento menor do PIB neste período, mas temos mantido o que é essencial para nós: o crescimento econômico sem comprometer emprego, renda e salário e sem aumentar a inflação", disse Falcão.
As prioridades do PT são reeleger Dilma Rousseff neste ano, para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa voltar como o candidato do partido em 2018, disse Falcão. Ele comentou que o ex-presidente de 68 anos, que em 2 de maio disse que iria fazer campanha para Dilma nesta eleição, tem dado sinais contraditórios sobre se está interessado em concorrer à presidência novamente.
"Reeleger Dilma também significa tornar possível o retorno de Lula em 2018", disse Falcão. "A declaração dele, em sua própria maneira de falar, é que 'se você me atormentar bastante, eu vou voltar'."
Bloomberg
redação@brasileconomico.com.br
Autoridades eleitas pelo povo, no lugar do Banco Central, deveriam ter a palavra final na formulação da política monetária, disse nesta terça-feira, Rui Falcão, coordenador da campanha de reeleição da presidenta Dilma Rousseff.
"O Banco Central tem autonomia operacional, e achamos que a economia - e a questão monetária é parte da economia como um todo - precisa ser dirigida por aqueles que são eleitos", disse em uma entrevista na sede do Partido dos Trabalhadores (PT). "Eu sou contra a autonomia formal do Banco Central."
O governo de Dilma Rousseff tem se esforçado para manter a inflação dentro da margem de dois pontos percentuais acima da meta de 4,5%, enquanto o crescimento econômico durante seu mandato foi o menor em duas décadas. O Banco Central, que aumentou a taxa básica de juros por nove vezes consecutivas, para 11% ao ano, fará sua próxima reunião de política monetária em 27 e 28 de maio.
Economistas estimam que o crescimento econômico vai desacelerar de 2,3% em 2013 para 1,69% este ano, de acordo com pesquisa do BC junto a cerca de cem analistas publicada nesta segunda-feira. O mercado reduziu a estimativa média da inflação em 2014 de 6,5% para 6,39%, também segundo o boletim Focus. A inflação nos 12 meses até abril foi de 6,28%, o mais alto percentual anual em dez meses.
A assessoria de imprensa do BC não quis comentar a opinião de Rui Falcão sobre a autonomia do Banco Central quando procurada por telefone.
Independência
Concorrentes de Dilma para as eleições em outubro, o senador Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), defendem a independência oficial do Banco Central e menor participação do Estado na economia. Falcão, que também é presidente do PT, disse que o governo irá considerar controles de capital em um possível segundo mandato desde que eles não afetem o investimento estrangeiro direto.
"Pode-se discutir corretamente os controles de capital no próximo mandato, para evitar a fuga de capitais", disse Falcão, de Brasília. "Em todas essas questões em que o Estado intervém para alcançar um crescimento econômico com inclusão social, o mercado grita."
A popularidade de Dilma entre os brasileiros vem caindo desde o final de março, de acordo com pesquisas de opinião pública, conforme o aumento dos preços ao consumidor e uma possível escassez de energia levam os eleitores a considerar outros candidatos.
Pesquisa do Datafolha publicada em 9 de maio mostrou que 37% dos brasileiros disseram que votariam em Dilma, contra 20% para Aécio Neves (PSDB) e 11% Campos (PSB). A pesquisa teve uma margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Próximo candidato
A campanha de Dilma Rousseff não precisa de um diretor econômico, pois a política econômica de seu governo já está bem definida, disse Falcão. Ele afirmou que os investimentos em infraestrutura, saúde e educação vão começar a dar frutos durante um possível segundo mandato, preparando o terreno para o próximo candidato do PT.
"Há um crescimento menor do PIB neste período, mas temos mantido o que é essencial para nós: o crescimento econômico sem comprometer emprego, renda e salário e sem aumentar a inflação", disse Falcão.
As prioridades do PT são reeleger Dilma Rousseff neste ano, para que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva possa voltar como o candidato do partido em 2018, disse Falcão. Ele comentou que o ex-presidente de 68 anos, que em 2 de maio disse que iria fazer campanha para Dilma nesta eleição, tem dado sinais contraditórios sobre se está interessado em concorrer à presidência novamente.
"Reeleger Dilma também significa tornar possível o retorno de Lula em 2018", disse Falcão. "A declaração dele, em sua própria maneira de falar, é que 'se você me atormentar bastante, eu vou voltar'."
ARROCHO NEVES SAI DO ARMÁRIO: CONFESSA QUE É ENTREGUISTA
O Príncipe é que queria entrar para a Alca – depois de tirar os sapatos. O Nunca Dantes foi quem não deixou !
Amigo navegante sugere a leitura desse texto no Brasil Atual – não sem antes voltar ao lançamento da candidatura de Aécio, quando também saiu do armário e preferiu a concessão à partilha do pré-sal:
EM DOCUMENTO, AÉCIO PREGA ACORDO ‘URGENTE’ COM EUA E FIM DO MERCOSUL
Retomar a Alca entra no rol das possíveis ‘medidas impopulares’ do candidato tucano, que como presidente da Câmara cobrou fechamento imediato de acordo de livre comércio com Casa Branca
Em recente passagem por Porto Alegre, para uma palestra durante o chamado Fórum da Liberdade, promovido pelo Instituto de Estudos Empresariais (IEE), o senador e pré-candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, propôs o fim do Mercosul, que na sua visão deveria ser substituído por uma área de livre comércio.
A proposta remete à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), um projeto, digamos, neocolonizador para a América Latina, lançado pelo ex-presidente dos EUA Bill Clinton e abraçado pelo governo tucano de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
Não chega a causar surpresa as declarações do senador mineiro, se resgatarmos sua atuação como presidente da Câmara dos Deputados.
No ano de 2001, por exemplo, Aécio Neves estendeu o tapete vermelho do Parlamento brasileiro para o então secretário de Defesa dos EUA, William Cohen, empurrar a Alca goela abaixo do Brasil. O seminário “O Brasil e Alca”, na Câmara, tinha oficialmente o objetivo de debater o tema, mas politicamente foi uma ação de pressão política, para reduzir resistências e abrir caminhos para a implementação daquele projeto.
Do encontr, foi produzido o compêndio – há quem chame de livro – com o mesmo nome do seminário, organizado pelo ex-deputado neoliberal Marcos Cintra (PFL) e pelo diplomata Carlos Henrique Cardim. O prefácio é de Aécio Neves e, nele, encontramos um pouco de seu pensamento de rendição à dependência econômica do país, via Alca.
O atual presidenciável dava como certa a implementação da Alca, e tratava o evento que acabara de patrocinar como “um marco” para alcançar os objetivos (estadunidenses), chamados por Aécio como “formidável”:
“De fato, o Seminário “O Brasil e a Alca”, realizado nas dependências da Câmara dos Deputados, por iniciativa desta Casa, nos dias 23 e 24 de outubro de 2001, pode ser interpretado – e certamente assim o será nos anos vindouros – como um marco na trajetória de nosso processo de integração continental.
(…)
Sem dúvida, a liberalização do comércio em um território habitado por mais de 800 milhões de pessoas, com um PIB conjunto de US$ 11 trilhões, simultaneamente à construção de uma normativa comum em áreas como a de serviços, de investimentos, de compras governamentais e de propriedade intelectual, é, em si mesma, um objetivo formidável.”
Este parágrafo acima é uma pérola de servilismo, que parece até escrita pelo Departamento de Estado dos EUA e apenas entregue a Aécio para assinar, pois nem sequer cita as barreiras impostas pelos norte-americanos para a entrada de produtos agrícolas brasileiros, um contencioso histórico.
Ou seja, defendeu integralmente que o Brasil abrisse seu mercado interno para os EUA, sem sequer exigir qualquer contrapartida, mesmo em setores que o Brasil já era mais competitivo.
Como se não bastasse, o prefácio de Aécio ainda trata a Alca como “acordo já firmado”, “caráter urgente”, e estabelece prazo-limite para 2005, o que faz o texto parecer mais uma peça de lobismo escancarado.
“… Há que se ressaltar o caráter relativamente urgente de tão ambicioso empreendimento. Com efeito, não defrontamos com um mero protocolo de intenções, mas, sim, somos partícipes de um acordo já firmado sobre o cronograma das correspondentes negociações, o qual prevê a conclusão dos entendimentos no horizonte já visível do ano de 2005″.
Para se ter uma ideia, a proposta de fazer um tratado de livre comércio amarrando compras governamentais condenaria todo o futuro da política de conteúdo nacional na exploração do pré-sal. Hoje o Brasil já cria uma indústria até de sondas de perfuração, a qual nunca teve. Com a Alca, teria de comprar eternamente tudo em Houston. O resultado imediato disso? Desemprego e desindustrialização no Brasil.
Com a Alca, dificilmente teríamos como escolher o caça sueco Grippen e participar de seu desenvolvimento tecnológico. Seríamos praticamente obrigados, por tratados, a comprar os caças da Boeing e nas condições deles de não oferecer transferência de tecnologia.
Também eram um desastre anunciado as cláusulas de proteção de investimento. Se um investidor americano fizesse uma aplicação financeira no Brasil e o dólar aqui desvalorizasse, teríamos de pagar indenização por isso.
Outro desastre seria a abertura irrestrita do mercado a bancos e seguradoras dos EUA. Imaginem o rico dinheiro da poupança do cidadão brasileiro aplicado no Lehman Brothers, que faliu na primeira das recentes crises internacionais, em 2008…
Agora, a ameaça de acabar com o Mercosul e retomar a agenda da Alca entra no rol das “medidas amargas” e impopulares – já anunciadas, mas ainda obscuras – propostas pelos tucanos.
segunda-feira, maio 12, 2014
Das advertências que vem de lá
No Brasil, hoje, o que está sendo preparado pela grande mídia e pela direita, que é beneficiária conjuntural das suas manipulações, é a intolerância.
O colunista Arnaldo Jabor no jornal Estado de São Paulo (06.05), termina uma coluna política da sua lavra, com o seguinte apelo: "O Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima e nossas cabeças também. É preciso tirar do poder esses caras que se julgam 'sujeitos da história'. Até que são mesmo, só que de uma história suja e calamitosa". Este texto foi publicado no curso de uma campanha da mídia tradicional, não somente contra o governo da Presidenta Dilma, mas já combinada com uma campanha contra o Estado e contra os partidos em geral, especialmente contra tudo que cheira esquerda.
Esta cruzada já está contaminando, igualmente, a suposta isenção da cobertura eleitoral, bem como a importância das eleições presidenciais. Já festejam que quase 70% dos eleitores não gostariam de votar em 2014. De outra parte, a campanha contra Petrobrás e a favor de uma CPI, como se esta tivesse interesse em investigar corrupção e ilegalidades - de resto já sob análise do MP e da Polícia Federal - alcançou um paroxismo inédito.
Não há mais noticiário político, nas televisões, com um mínimo de equilíbrio. Aliás, os informativos tratam, principalmente,de crimes (assassinatos em especial), incêndios de ônibus nas grandes capitais; tratam de deficiências na prestação dos serviços públicos (com fatos singulares, como se fossem característicos das prestações dos serviços estatais); tratam de pequenas e grandes corrupções, com acompanhamento (para humilhar) do cumprimento da pena do ex-Ministro José Dirceu (já privilegiando a visita da sua filha!); tratam da impropriedade do BNDES subsidiar investimentos que promovem empregos.
Certamente o fazem para que esqueçamos um fato já notório, atestado por juristas insuspeitos: Dirceu e Genoíno foram condenados sem provas, depois uma formidável pressão, promovida para desgastar a memória positiva, no meio popular, dos governos do Presidente Lula.
Nem tudo que é publicado é inverdade ou manipulação. Inclusive sobre a esquerda em geral e sobre o próprio partido que pertenço, como se vê de casos recentes. Mas a grande mensagem que está sendo passada, de forma abrangente e totalitária não é, na verdade, destinada a criticar o sistema político, melhorar a vida interna e os procedimentos dos partidos ou mesmo as instituições públicas do Estado. A grande mensagem é outra e a questão de fundo está contida no texto de Jabor, que diz com todas as letras: "O Brasil está sofrendo mutação gravíssima e as nossas cabeças também."
À medida que é dado tratamento distorcido ao Governo - seus problemas e suas conquistas -, à medida que não se contrastam os problemas econômicos e financeiros do país com o cenário da crise global; à medida que é promovida uma propaganda massiva do privatismo e do antiestatismo - relativizando ou deixando de lado todas as incompetências e corrupções do polo neoliberal, desde a crise da água em São Paulo até o "mensalão mineiro"; à medida que se omite que a corrupção aparece mais, porque os nossos Governos instituíram a Controladoria da União e aparelharam os demais órgãos de controle e a própria Polícia Federal; à medida que se coloca como regra que os políticos e os partidos, em geral, são ineficientes e corruptos, o que está se tratando, meticulosamente, é de promover uma disputa de fundo sobre o futuro. Esta "mutação gravíssima" do Brasil e das "nossas cabeças", como disse Jabor, vai para que direção? É isso que está em disputa e das suas respostas vai ser instituída uma democracia mais, ou menos substantiva, mais, ou menos receptiva das desigualdades brutais que o nosso país ainda mantém.
Como as políticas de desenvolvimento e as políticas de redistribuição de renda promoveram a redução das diferenças, internamente ao mundo trabalho - diminuindo os espaços entre os assalariados de baixa e alta renda - mas não atingiram as desigualdades que ocorrem na apropriação desigual entre capital e trabalho (para reduzir a diferença entre a "renda do capital" e "renda do trabalho"), fica claro que o Brasil, para avançar com mais estabilidade, terá de enfrentar agora um outro conflito: entre a totalidade dos assalariados que querem mais renda e mais Estado social, de um lado e, de outro, o grande capital quer mais "renda", através do sistema financeiro privado, e menos Estado social, com redução dos gastos públicos especialmente na área social.
O artigo de José Luís Fiori, "A miragem mexicana", (Carta Maior, 01.05.14) faz uma síntese perfeita do que está em disputa entre as grandes correntes políticas que incidem sobre as eleições de 2014. A saber, entre os entusiastas do modelo mexicano, de corte liberal não-intervencionista (depreciadores da capacidade regulatória do Estado) e os que entendem que a capacidade regulatória do Estado pode criar uma sociedade mais coesa ( corrente neo-keinesianista social-democrata), própria para atenuar as brutalidades do capitalismo e abrir à sociedade, perspectivas de emancipação social.
Ressalto esta contradição porque é voluntarista entender, hoje, que o debate principal no país é entre socialistas e não socialistas. Esta análise gera divisões artificiais no campo popular e democrático, já que o debate real foi bem colocado e com intenções muito claras pelo estrategista Jabor: a mutação gravíssima das "nossas cabeças" embarcará na tolerância do caminho aberto da "tradição da dúvida" - como diz Maria Rita Khel -, ou se fixará na a "tradição da certeza".
Ficará com esta visão do caminho único, defendida pelo estrategista Jabor, que querem nos impingir (de mais desigualdades, guerras e intolerância), ou se abrirá para o caminho da utopia democrática, que contém o socialismo ( não como repartidor de carências) como democracia realizada no seu sentido pleno.
Na verdade, lamentavelmente, a História tem sido sempre "suja e calamitosa" e ela revela, em todos os campos políticos, não somente as imperfeições humanas, mas também as grandezas, as escolhas morais, as capacidades do indivíduos se posicionarem nos grandes conflitos sociais e econômicos, de um lado ou de outro. Mas ela também revela a capacidade de cada um escolher o seu desempenho ético, naquilo que Lukács designou como "centralidade ontológica do presente".
No Brasil, hoje, o que está sendo preparado pela grande mídia e pela direita - que é beneficiária conjuntural das suas manipulações - é a intolerância, não somente com os movimentos sociais, com os comunistas ou com o PT, mas sobretudo com a democracia e com as instituições republicanas. Como disse, recentemente, aqui no meu Rio Grande, o líder empresarial Jorge Gerdau, um dos homens mais ricos do mundo: "Os gaúchos estão felizes, mas por acomodação" (Zero Hora 04. 05). Se o texto não foi editado para prejudicar o entrevistado, o que parece improvável pelo posicionamento político tradicional do referido jornal, Gerdau quer dizer que aqueles que não forem ricos como ele, não tem direito à felicidade dentro da democracia. Mesmo que seja num momento de pleno emprego e de funcionamento razoável do Estado Democrático de Direito.
(*) Governador do Rio Grande do Sul
O colunista Arnaldo Jabor no jornal Estado de São Paulo (06.05), termina uma coluna política da sua lavra, com o seguinte apelo: "O Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima e nossas cabeças também. É preciso tirar do poder esses caras que se julgam 'sujeitos da história'. Até que são mesmo, só que de uma história suja e calamitosa". Este texto foi publicado no curso de uma campanha da mídia tradicional, não somente contra o governo da Presidenta Dilma, mas já combinada com uma campanha contra o Estado e contra os partidos em geral, especialmente contra tudo que cheira esquerda.
Esta cruzada já está contaminando, igualmente, a suposta isenção da cobertura eleitoral, bem como a importância das eleições presidenciais. Já festejam que quase 70% dos eleitores não gostariam de votar em 2014. De outra parte, a campanha contra Petrobrás e a favor de uma CPI, como se esta tivesse interesse em investigar corrupção e ilegalidades - de resto já sob análise do MP e da Polícia Federal - alcançou um paroxismo inédito.
Não há mais noticiário político, nas televisões, com um mínimo de equilíbrio. Aliás, os informativos tratam, principalmente,de crimes (assassinatos em especial), incêndios de ônibus nas grandes capitais; tratam de deficiências na prestação dos serviços públicos (com fatos singulares, como se fossem característicos das prestações dos serviços estatais); tratam de pequenas e grandes corrupções, com acompanhamento (para humilhar) do cumprimento da pena do ex-Ministro José Dirceu (já privilegiando a visita da sua filha!); tratam da impropriedade do BNDES subsidiar investimentos que promovem empregos.
Certamente o fazem para que esqueçamos um fato já notório, atestado por juristas insuspeitos: Dirceu e Genoíno foram condenados sem provas, depois uma formidável pressão, promovida para desgastar a memória positiva, no meio popular, dos governos do Presidente Lula.
Nem tudo que é publicado é inverdade ou manipulação. Inclusive sobre a esquerda em geral e sobre o próprio partido que pertenço, como se vê de casos recentes. Mas a grande mensagem que está sendo passada, de forma abrangente e totalitária não é, na verdade, destinada a criticar o sistema político, melhorar a vida interna e os procedimentos dos partidos ou mesmo as instituições públicas do Estado. A grande mensagem é outra e a questão de fundo está contida no texto de Jabor, que diz com todas as letras: "O Brasil está sofrendo mutação gravíssima e as nossas cabeças também."
À medida que é dado tratamento distorcido ao Governo - seus problemas e suas conquistas -, à medida que não se contrastam os problemas econômicos e financeiros do país com o cenário da crise global; à medida que é promovida uma propaganda massiva do privatismo e do antiestatismo - relativizando ou deixando de lado todas as incompetências e corrupções do polo neoliberal, desde a crise da água em São Paulo até o "mensalão mineiro"; à medida que se omite que a corrupção aparece mais, porque os nossos Governos instituíram a Controladoria da União e aparelharam os demais órgãos de controle e a própria Polícia Federal; à medida que se coloca como regra que os políticos e os partidos, em geral, são ineficientes e corruptos, o que está se tratando, meticulosamente, é de promover uma disputa de fundo sobre o futuro. Esta "mutação gravíssima" do Brasil e das "nossas cabeças", como disse Jabor, vai para que direção? É isso que está em disputa e das suas respostas vai ser instituída uma democracia mais, ou menos substantiva, mais, ou menos receptiva das desigualdades brutais que o nosso país ainda mantém.
Como as políticas de desenvolvimento e as políticas de redistribuição de renda promoveram a redução das diferenças, internamente ao mundo trabalho - diminuindo os espaços entre os assalariados de baixa e alta renda - mas não atingiram as desigualdades que ocorrem na apropriação desigual entre capital e trabalho (para reduzir a diferença entre a "renda do capital" e "renda do trabalho"), fica claro que o Brasil, para avançar com mais estabilidade, terá de enfrentar agora um outro conflito: entre a totalidade dos assalariados que querem mais renda e mais Estado social, de um lado e, de outro, o grande capital quer mais "renda", através do sistema financeiro privado, e menos Estado social, com redução dos gastos públicos especialmente na área social.
O artigo de José Luís Fiori, "A miragem mexicana", (Carta Maior, 01.05.14) faz uma síntese perfeita do que está em disputa entre as grandes correntes políticas que incidem sobre as eleições de 2014. A saber, entre os entusiastas do modelo mexicano, de corte liberal não-intervencionista (depreciadores da capacidade regulatória do Estado) e os que entendem que a capacidade regulatória do Estado pode criar uma sociedade mais coesa ( corrente neo-keinesianista social-democrata), própria para atenuar as brutalidades do capitalismo e abrir à sociedade, perspectivas de emancipação social.
Ressalto esta contradição porque é voluntarista entender, hoje, que o debate principal no país é entre socialistas e não socialistas. Esta análise gera divisões artificiais no campo popular e democrático, já que o debate real foi bem colocado e com intenções muito claras pelo estrategista Jabor: a mutação gravíssima das "nossas cabeças" embarcará na tolerância do caminho aberto da "tradição da dúvida" - como diz Maria Rita Khel -, ou se fixará na a "tradição da certeza".
Ficará com esta visão do caminho único, defendida pelo estrategista Jabor, que querem nos impingir (de mais desigualdades, guerras e intolerância), ou se abrirá para o caminho da utopia democrática, que contém o socialismo ( não como repartidor de carências) como democracia realizada no seu sentido pleno.
Na verdade, lamentavelmente, a História tem sido sempre "suja e calamitosa" e ela revela, em todos os campos políticos, não somente as imperfeições humanas, mas também as grandezas, as escolhas morais, as capacidades do indivíduos se posicionarem nos grandes conflitos sociais e econômicos, de um lado ou de outro. Mas ela também revela a capacidade de cada um escolher o seu desempenho ético, naquilo que Lukács designou como "centralidade ontológica do presente".
No Brasil, hoje, o que está sendo preparado pela grande mídia e pela direita - que é beneficiária conjuntural das suas manipulações - é a intolerância, não somente com os movimentos sociais, com os comunistas ou com o PT, mas sobretudo com a democracia e com as instituições republicanas. Como disse, recentemente, aqui no meu Rio Grande, o líder empresarial Jorge Gerdau, um dos homens mais ricos do mundo: "Os gaúchos estão felizes, mas por acomodação" (Zero Hora 04. 05). Se o texto não foi editado para prejudicar o entrevistado, o que parece improvável pelo posicionamento político tradicional do referido jornal, Gerdau quer dizer que aqueles que não forem ricos como ele, não tem direito à felicidade dentro da democracia. Mesmo que seja num momento de pleno emprego e de funcionamento razoável do Estado Democrático de Direito.
(*) Governador do Rio Grande do Sul
"BC independente é uma patetada", diz Maria da Conceição Tavares
Para a economista, não se pode culpar o Banco Central por ter metas contraditórias: eleva juros para combater a inflação e valoriza o real, criando uma barreira para a indústria
Marcelo Loureiro
marcelo.loureiro@brasileconomico.com.br
,
Octávio Costa
ocosta@brasileconomico.com.br
e
Paulo Henrique de Noronha
paulo.noronha@brasileconomico.com.br
Maria da Conceição Tavares dispensa apresentação. Aos 84 anos, a maior economista do Brasil continua tão aguerrida quanto na época da ditadura militar, quando atacava sem piedade o modelo econômico. Se desaprova um conceito ou ideia, usa expressões demolidoras. “É uma patetada!”, exclamou por duas vezes nesta entrevista ao Brasil Econômico . Na primeira, ao atacar os que pedem a substituição do ministro Guido Mantega, como solução aos problemas da economia. “O ideal é trocar o lençol da cama, é isso?”, ironizou. Na segunda, usou para rejeitar a pressão pela independência do Banco Central: “Independente não quer dizer porcaria nenhuma!”, bradou, ressaltando que nem mesmo nos Estados Unidos o Fed tem autonomia.
Em sua opinião, o BC de Alexandre Tombini está trabalhando com metas contraditórias: eleva a taxa de juros para combater a inflação, e promove a apreciação do real, prejudicando o crescimento da indústria. “Com o dólar no nível atual, é difícil completar as cadeias industriais, porque o cenário provoca uma ‘dessubstituição’ das importações”. Petista de coração, diz que “a situação não está nenhuma maravilha, mas não há razão para um pessimismo negro”. Conta que a presidenta Dilma Rousseff “é uma mulher muito inteligente, mas o pessoal implica porque ela é meio brusca. Eu também sou”. Conceição não vê qualidades nos adversários de Dilma. E fulmina a proposta de Eduardo Campos de reduzir a meta da inflação para 3%: “Isso é uma maluquice! Obviamente, ele não entende porcaria nenhuma de economia...”.
A visão no exterior sobre a economia brasileira é bastante crítica. Fala-se de desequilíbrio fiscal e inflação fora de controle, batendo no teto. O governo rebate e diz que o pessimismo é exagerado. Como a senhora vê o cenário atual?
O quadro não é esse. Não há nenhum desequilíbrio fiscal. Tem uma meta de superávit fiscal enorme, que, aliás, eu acho exagerada, de 1,9% do PIB. Querem o que mais? O ciclo de crescimento desacelerou, não há necessidade de fazer uma política fiscal mais austera ainda. O ciclo reverteu de 2002 até agora, o dinamismo dele está se esgotando. O consumo está mais ou menos no patamar esperado, com o alargamento entre as classes mais baixas. O investimento está no mesmo nível de 2002, em valores absolutos, e ele precisa aumentar um pouco. Mas o problema maior que eu vejo é com o balanço de pagamentos.
Por que, professora?
É muito difícil fazer uma política para reverter a situação do balanço de pagamentos porque a desvalorização do dólar foi definida pelos americanos. Não fomos nós que colocamos o câmbio no patamar atual. A política é deles. Os americanos estão se defendendo às custas dos demais. Sobre a inflação, eu acho que está em alta por causa dos bens de consumo, como os alimentos.
A srª acha que a inflação pode cair rapidamente, como acredita o governo?
Claro! Com uma alta baseada nos alimentos, basta que a seca diminua para os preços voltarem a cair pelo aumento da oferta.
Mas o governo tem aumentado a taxa de juros como principal arma de combate à inflação. A srª acha que esse é um mecanismo correto?
O problema é que não sei bem se a alta dos juros é apenas para conter os preços. Parece ser também para atrair capitais. O investimento direto estrangeiro não está crescendo, e metade do que tem chegado ao Brasil tem ido para os títulos da dívida pública. Então, a impressão é a de que o governo tenta atrair capitais para fechar o rombo de pagamentos. O balanço de pagamentos tem um problema grave, de natureza estrutural, que, para ser corrigido, seria necessário o Congresso votar uma reforma fiscal. No governo do Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2003), ele tirou os impostos sobre as remessas de lucros ao exterior. Não tem imposto algum e a empresa pode registrar o lucro que bem entender. O resultado é que a remessa de lucros tem crescido desvairadamente. Com o dólar desvalorizado, mais as viagens ao exterior crescendo e outras forças, a conta “Serviços” da balança comercial está toda desequilibrada, entendeu?
E a elevação da taxa de juros seria uma tentativa de corrigir esse problema?
De corrigir, não! Mas, sim, de permitir fechar o balanço de pagamentos final sem que haja déficit. É para tapar a brecha das transações correntes.
Mas, voltando à inflação alta, a srª considera que é apenas uma questão sazonal?
Acho que é sazonal, sim, provocada pelos alimentos. Não é uma alta forçada pelos bens de capital, pelos bens de consumo em geral. Temos uma pressão específica nos alimentos, que vêm subindo muito.
Em entrevista recente ao Brasil Econômico, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo também apontou nessa direção e firmou que a inflação hoje no Brasil é muito mais pelo lado da oferta, e nem tanto pela demanda.
Mas é, uai! Estamos com um problema de oferta, principalmente devido à escassez de alimentos, porque a seca que vivemos é brutal. O efeito da estiagem também tem complicado a situação do setor de energia. Mas o problema é fundamentalmente de oferta. Não há nenhum descontrole de inflação de demanda. Nenhuma das componentes de pressão, como o investimento, o consumo, nem as exportações, cresceram além do que era esperado. Pelo contrário, têm se expandido até pouco.
Ao mesmo tempo, professora, se diz que o aumento de renda da população provocou uma demanda maior sobre os bens de consumo básico.
Pois é, e se não há oferta elástica, como visivelmente não tem, a consequência é dar um impulso nos preços para cima. O ponto que defendo é que esse movimento se corrigirá.
Outro problema muito falado por economistas e empresários é a questão da indústria. Ela não tem crescido. A que se deve atribuir esse mau desempenho?
Está claro: nós temos tido um câmbio sistematicamente sobrevalorizado. Com o câmbio como está, é muito difícil a nossa indústria enfrentar a concorrência das importações. Já começou no governo FHC e será muito difícil de reverter. Claramente, só a isenção fiscal para alguns setores não resolve. Precisamos de uma política industrial mais ampla.
Então, os incentivos setoriais não funcionam?
Durante um certo momento funcionaram, mas o mercado para automóveis e produtos da linha branca, por exemplo, está saturado. As cidades estão entupidas de carros e também não há mais onde colocar carros no mundo. Acho que a recuperação da indústria não virá pela via dos bens duráveis, entendeu? Devemos recuperar pelo lado dos bens não duráveis. A estratégia central, eu acho, é levantar um pouco a taxa de investimentos, ver se acelera mais as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
A previsão para o PIB este ano está sendo revista para baixo. Na semana passada, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) refez sua projeção de crescimento de 2,2% para 1,8%. A projeção do mercado financeiro é menor, algo perto de 1,6%. Por que isso?
As previsões mais baixas vêm desde o ano passado. É a indicação de esgotamento de um ciclo. Não é uma crise propriamente dita, ou uma recessão; é uma desaceleração do crescimento mesmo. Para voltar a acelerar, tem de forçar a taxa de investimento para cima, é a única componente que pode dar resposta à dinâmica. O crédito não vai resolver mais: já foi emprestado o que precisa e não há restrição de crédito.
Que mecanismo pode se utilizar para melhorar a taxa de investimento?
Acelerar os projetos do PAC, com os programas de infraestrutura.
Mas o governo parece não ter abandonado a via do crédito. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, comentou recentemente que tem tentado convencer os banqueiros a facilitar o acesso dos consumidores ao crédito.
Sim, mas ele vai convencer os banqueiros de quê? Com essa taxa de juros e com a demanda como está? Banqueiro lá se convence com argumento? Eles estão é ganhando dinheiro... A escassez para eles é ótima para ganhar dinheiro. Estão com uma taxa de lucro ótima e não estão nada preocupados. Por isso, digo que só por esse caminho não vamos voltar a crescer como antes. Temos de melhorar a taxa de investimento. Não que esteja muito baixa, mas tem de subir de alguma maneira.
Sempre se diz que a taxa de investimento no Brasil, em torno de 18% do PIB, deveria se aproximar de 22%. Mas nunca se chegou lá. Esse objetivo continua de pé?
Pois é... não chega, mas precisa chegar. A linha de maior dinamismo para a recuperação é por aí. Completando os programas de investimento em infraestrutura que estão programados, o país resolve não só os problemas de estrangulamento, como também os de demanda.
Os críticos dizem que a matriz de crescimento que se baseia no consumo está vencida, não traz mais efeitos positivos como há alguns anos. Essa visão é correta?
O governo não adotou apenas o incentivo ao consumo. A taxa de investimento foi mantida. O que defendo é que ela precisa acelerar. Realmente, essa matriz se esgotou; o consumo foi acelerado ao máximo. E também já houve a incorporação das classes mais baixas, com os programas sociais pesados que o governo tem feito. Por isso que eu digo: dada a rigidez da oferta de alimentos e a estagnação no consumo de bens duráveis, o que resta para estimular é o investimento, está claro?
O novo ciclo seria, então, o do investimento?
Sim, primeiramente na infraestrutura e depois tentar remendar as cadeias produtivas da indústria. Mas, para tanto, é preciso que a taxa de câmbio melhore. Com o dólar no nível atual, é difícil completar as cadeias industriais porque o cenário provoca uma “dessubstituição” de importações, quando o que precisamos agora é o contrário. Então, eu vejo uma barreira pelo lado do câmbio, desfavorável, que para se consertar não depende só de nós. A desvalorização do dólar foi provocada pelos Estados Unidos! Não foi pela nossa taxa de juros, nem por nada que fizemos por aqui. O investimento, super bem-vindo, tem de acelerar. Mas o PAC está indo muito lento, não é...
Há gente, principalmente no exterior, defendendo que se mude o ministro da Fazenda. A srª acha que essa sugestão faz sentido?
Ai, ai... essa é ótima. O ideal é trocar o lençol da cama, é isso? Ao invés de arrumar a infraestrutura, troquemos os lençóis da cama? Mas que patetada! Eu não acho que é isso. Estou lhe dizendo que é estrutural, poxa! Já dei os argumentos do que eu acho que se passou e o porquê de ter acontecido. Isso, não há nenhum ministro da Fazenda que seja capaz de reverter. Não é algo que o sujeito chegue lá, dê um bafo, e o ciclo se reverte. É um projeto trabalhoso, vai levar um certo tempo. Mas é possível reverter, porque nós não estamos em recessão. Não estamos mais em 2009, quando houve aquela crise mundial que nos atingiu. Outra coisa que se precisa ver é que a renda não está caindo. Muito pelo contrário, tanto assim que o lado da demanda vai bem.
Como a srª citou, os EUA estão retirando os incentivos monetários e ameaçam elevar as taxas de juros. Esse desmonte da política de quantitative easing é perigoso para o Brasil?
Olha, tenho a impressão de que os Estados Unidos deram uma guinada tão violenta agora que não é provável que façam outra, até porque prejudicaria todo o mundo, não apenas nós. A China também não está achando graça nenhuma.
Mas o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), está falando em elevar os juros já no próximo ano.
Eu sei. Eles estão salvando os bancos deles. O resto do mundo dança a valsa. E isso ninguém pode impedir, porque o banco central americano é o banco dos bancos, não é independente como se imagina. Ele depende dos bancos, e como eles queriam melhorar suas posições porque estavam com ativos podres na carteira, os Estados Unidos fizeram o programa de expansão da liquidez exatamente para comprar esses títulos ruins. O Fed fez essa política e aí ficou difícil. Talvez pudéssemos fazer uma política cambial mais ativa, não sei. Penso nisso porque não há muito espaço no campo fiscal. Pelo lado monetário também não dá, porque subir a taxa de juros não melhora o câmbio, pelo contrário. Veja que essa medida usada para combater a inflação desvaloriza a cotação do dólar e atrapalha a recuperação da indústria. Os juros não podem subir indefinidamente. Não bastassem as razões externas, temos também as internas.
Pesquisas recentes feitas com empresários apontam um pessimismo muito grande por parte deles. Com esse cenário, haverá razão para eles investirem?
Eles não estão dispostos porque as importações estão abertas. O cara investe na produção para ver os chineses, os americanos e quaisquer outros invadirem o país com importações. É prejuízo, expectativa de lucro baixa...
Seria o caso de aplicar um instrumento de defesa, como sobretaxar de alguma forma as importações?
Sobretaxar seria legal, sabe... Mas não é ortodoxo. Eu sou a favor, mas porque não sou ortodoxa (risos). Sou, sim, a favor de um controle de importações. Acho que está demais, uma esbórnia. Mas antes disso, eu sou a favor de tributar a remessa de lucros, está claro? São dezenas e mais dezenas de bilhões de dólares, o que é um disparate.
A atuação do BC, com rações diárias de contratos de dólares mais a elevação da taxa de juros, poderia ajudar a reanimar a indústria?
Não mesmo! O BC não está agindo de uma maneira contracíclica. A política atual é pró-cíclica. O ciclo de crescimento desacelerou e o BC está ajudando a desacelerar. Subir a Selic não vai incentivar o investimento, tampouco a demanda, está claro?
Mas há indicações de que o BC deve seguir com o ciclo de aperto monetário na próxima reunião do Copom.
Ah, eu por mim acho que já chega, porque essa política monetária já fez o que deveria ter sido feito. Agora, não tem que subir. É esperar que a inflação reverta naturalmente.
A srª concorda com a política de meta de inflação?
Depende de onde se bota a meta. Em princípio, ainda estamos abaixo do teto, não o estouramos. Não precisa ficar tão nervoso, não é? Não fico nervosa. A meta é uma invenção que foi feita e que não se volta mais atrás. Mas não é o meu ideal de política monetária.
Como a srª vê a posição dos que defendem a independência do Banco Central?
Ai, isso é outra patetada... Eu me cansei. Não há nenhum banco central independente, meu bem! O dos Estados Unidos, que devia ser o paradigma, não é independente, como é que o nosso seria? Independente quer dizer o que, hein? Não quer dizer nada. Independente do governo? Do mercado? Das metas da política econômica? Independente não quer dizer porcaria nenhuma! O BC tem é que tentar agir de uma maneira coerente. Agora, quando ele tem metas contraditórias, como conter inflação e fazer uma política cambial mais ativa, fica difícil culpar o BC. E olha que o presidente atual (Alexandre Tombini) é um cara bom, respeitável. Não é o caso de mudar nada. O problema é que a situação está meia de bico nesse caso particular, um problema de curto prazo atrapalhado, acho que não dura muito. Estou moderadamente otimista.
A srª acredita que a economia brasileira voltará a crescer em 2015?
Volta, mas não aos níveis que cresceu no passado. Temos uma crise mundial ainda sendo digerida. Mas o fato de o país continuar forte em emprego, salário e renda para as classes trabalhadoras é um alívio, rapaz. Lembre quantos anos passamos sem isso. Houve anos em que a economia brasileira cresceu muito, sem que tenham crescido os salários e a renda das famílias. Ninguém come PIB como eu já disse, precisa ter renda e salário. Isso está sendo mantido. Espero que não façam nenhum disparate com o salário mínimo.
A inflação alta está chegando até a mesa das pessoas. A srª acha que o aumento de preços dos alimentos pode prejudicar a reeleição da presidenta Dilma?
Não acho não, porque não vejo quem vá fazer melhor. Você já viu algum programa bacaninha? Algum dos candidatos da oposição tem algum projeto maravilhoso que eu não saiba da existência dele? Que eu saiba, eles não têm programa nenhum. O nosso, ao menos já é conhecido. Já tem 12 anos de experiência. A oposição não está propondo nada. Criticar, bater no tambor é fácil. Agora, não vi nenhum dos dois candidatos propor nada.
O ex-governador Eduardo Campos apresentou a proposta de baixar a meta de inflação para 3%...
Ai, que maravilha! Isso é uma maluquice! A meta está em até 6,5% e ele propõe cortar pela metade! Bom, o Eduardo Campos obviamente não entende porcaria nenhuma de economia. Não é o caso da presidenta Dilma, que foi uma aluna brilhante minha.
Como era a aluna Dilma Rousseff?
Ela fez doutorado lá em Campinas (na Unicamp). É uma mulher muito inteligente. O pessoal às vezes implica porque ela é meio brusca. É o estilo dela. Eu não posso falar nada, porque também sou... de maneira que não tenho como criticar. Sobre a reeleição dela, estou otimista. Não está nenhuma maravilha a situação, mas não há qualquer razão para um pessimismo negro, porque os outros candidatos não são nenhuma Brastemp, ou são?
Com o fechamento do ciclo de crescimento e a indústria patinando, a srª acredita que a taxa de desemprego pode subir e sair desse nível historicamente baixo?
Não, porque a taxa de desemprego está muito ligada aos serviços, e nem tanto à indústria. Os serviços é que estão segurando o PIB, o emprego. É o que está segurando tudo. O Brasil hoje tem uma economia de serviços mais desenvolvida.
A pauta de exportação do Brasil está voltando a ficar muito dependente das commodities. Isso é bom para o país?
Como não seria bom para o país? Deixar de exportar commodities quando somos o número 1 do mundo, com produtividade altíssima e tecnologia de alto nível, não teria nem pé nem cabeça. Exportamos mais do que café, atualmente. Quero saber o que os críticos querem que exportemos no lugar dos produtos do agrobusiness. Querem que exportemos gente?
É possível ter uma pauta mais diversificada?
Ela é diversificada, tanto no setor primário quanto no secundário. O problema é que o segundo está muito pequeno pela falta de competitividade da indústria. Com essa taxa de câmbio, fica difícil exportar produtos industriais, bem como investir. Sem investimento, fica ainda mais penoso.
Marcelo Loureiro
marcelo.loureiro@brasileconomico.com.br
,
Octávio Costa
ocosta@brasileconomico.com.br
e
Paulo Henrique de Noronha
paulo.noronha@brasileconomico.com.br
Maria da Conceição Tavares dispensa apresentação. Aos 84 anos, a maior economista do Brasil continua tão aguerrida quanto na época da ditadura militar, quando atacava sem piedade o modelo econômico. Se desaprova um conceito ou ideia, usa expressões demolidoras. “É uma patetada!”, exclamou por duas vezes nesta entrevista ao Brasil Econômico . Na primeira, ao atacar os que pedem a substituição do ministro Guido Mantega, como solução aos problemas da economia. “O ideal é trocar o lençol da cama, é isso?”, ironizou. Na segunda, usou para rejeitar a pressão pela independência do Banco Central: “Independente não quer dizer porcaria nenhuma!”, bradou, ressaltando que nem mesmo nos Estados Unidos o Fed tem autonomia.
Em sua opinião, o BC de Alexandre Tombini está trabalhando com metas contraditórias: eleva a taxa de juros para combater a inflação, e promove a apreciação do real, prejudicando o crescimento da indústria. “Com o dólar no nível atual, é difícil completar as cadeias industriais, porque o cenário provoca uma ‘dessubstituição’ das importações”. Petista de coração, diz que “a situação não está nenhuma maravilha, mas não há razão para um pessimismo negro”. Conta que a presidenta Dilma Rousseff “é uma mulher muito inteligente, mas o pessoal implica porque ela é meio brusca. Eu também sou”. Conceição não vê qualidades nos adversários de Dilma. E fulmina a proposta de Eduardo Campos de reduzir a meta da inflação para 3%: “Isso é uma maluquice! Obviamente, ele não entende porcaria nenhuma de economia...”.
A visão no exterior sobre a economia brasileira é bastante crítica. Fala-se de desequilíbrio fiscal e inflação fora de controle, batendo no teto. O governo rebate e diz que o pessimismo é exagerado. Como a senhora vê o cenário atual?
O quadro não é esse. Não há nenhum desequilíbrio fiscal. Tem uma meta de superávit fiscal enorme, que, aliás, eu acho exagerada, de 1,9% do PIB. Querem o que mais? O ciclo de crescimento desacelerou, não há necessidade de fazer uma política fiscal mais austera ainda. O ciclo reverteu de 2002 até agora, o dinamismo dele está se esgotando. O consumo está mais ou menos no patamar esperado, com o alargamento entre as classes mais baixas. O investimento está no mesmo nível de 2002, em valores absolutos, e ele precisa aumentar um pouco. Mas o problema maior que eu vejo é com o balanço de pagamentos.
Por que, professora?
É muito difícil fazer uma política para reverter a situação do balanço de pagamentos porque a desvalorização do dólar foi definida pelos americanos. Não fomos nós que colocamos o câmbio no patamar atual. A política é deles. Os americanos estão se defendendo às custas dos demais. Sobre a inflação, eu acho que está em alta por causa dos bens de consumo, como os alimentos.
A srª acha que a inflação pode cair rapidamente, como acredita o governo?
Claro! Com uma alta baseada nos alimentos, basta que a seca diminua para os preços voltarem a cair pelo aumento da oferta.
Mas o governo tem aumentado a taxa de juros como principal arma de combate à inflação. A srª acha que esse é um mecanismo correto?
O problema é que não sei bem se a alta dos juros é apenas para conter os preços. Parece ser também para atrair capitais. O investimento direto estrangeiro não está crescendo, e metade do que tem chegado ao Brasil tem ido para os títulos da dívida pública. Então, a impressão é a de que o governo tenta atrair capitais para fechar o rombo de pagamentos. O balanço de pagamentos tem um problema grave, de natureza estrutural, que, para ser corrigido, seria necessário o Congresso votar uma reforma fiscal. No governo do Fernando Henrique Cardoso (de 1995 a 2003), ele tirou os impostos sobre as remessas de lucros ao exterior. Não tem imposto algum e a empresa pode registrar o lucro que bem entender. O resultado é que a remessa de lucros tem crescido desvairadamente. Com o dólar desvalorizado, mais as viagens ao exterior crescendo e outras forças, a conta “Serviços” da balança comercial está toda desequilibrada, entendeu?
E a elevação da taxa de juros seria uma tentativa de corrigir esse problema?
De corrigir, não! Mas, sim, de permitir fechar o balanço de pagamentos final sem que haja déficit. É para tapar a brecha das transações correntes.
Mas, voltando à inflação alta, a srª considera que é apenas uma questão sazonal?
Acho que é sazonal, sim, provocada pelos alimentos. Não é uma alta forçada pelos bens de capital, pelos bens de consumo em geral. Temos uma pressão específica nos alimentos, que vêm subindo muito.
Em entrevista recente ao Brasil Econômico, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo também apontou nessa direção e firmou que a inflação hoje no Brasil é muito mais pelo lado da oferta, e nem tanto pela demanda.
Mas é, uai! Estamos com um problema de oferta, principalmente devido à escassez de alimentos, porque a seca que vivemos é brutal. O efeito da estiagem também tem complicado a situação do setor de energia. Mas o problema é fundamentalmente de oferta. Não há nenhum descontrole de inflação de demanda. Nenhuma das componentes de pressão, como o investimento, o consumo, nem as exportações, cresceram além do que era esperado. Pelo contrário, têm se expandido até pouco.
Ao mesmo tempo, professora, se diz que o aumento de renda da população provocou uma demanda maior sobre os bens de consumo básico.
Pois é, e se não há oferta elástica, como visivelmente não tem, a consequência é dar um impulso nos preços para cima. O ponto que defendo é que esse movimento se corrigirá.
Outro problema muito falado por economistas e empresários é a questão da indústria. Ela não tem crescido. A que se deve atribuir esse mau desempenho?
Está claro: nós temos tido um câmbio sistematicamente sobrevalorizado. Com o câmbio como está, é muito difícil a nossa indústria enfrentar a concorrência das importações. Já começou no governo FHC e será muito difícil de reverter. Claramente, só a isenção fiscal para alguns setores não resolve. Precisamos de uma política industrial mais ampla.
Então, os incentivos setoriais não funcionam?
Durante um certo momento funcionaram, mas o mercado para automóveis e produtos da linha branca, por exemplo, está saturado. As cidades estão entupidas de carros e também não há mais onde colocar carros no mundo. Acho que a recuperação da indústria não virá pela via dos bens duráveis, entendeu? Devemos recuperar pelo lado dos bens não duráveis. A estratégia central, eu acho, é levantar um pouco a taxa de investimentos, ver se acelera mais as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
A previsão para o PIB este ano está sendo revista para baixo. Na semana passada, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) refez sua projeção de crescimento de 2,2% para 1,8%. A projeção do mercado financeiro é menor, algo perto de 1,6%. Por que isso?
As previsões mais baixas vêm desde o ano passado. É a indicação de esgotamento de um ciclo. Não é uma crise propriamente dita, ou uma recessão; é uma desaceleração do crescimento mesmo. Para voltar a acelerar, tem de forçar a taxa de investimento para cima, é a única componente que pode dar resposta à dinâmica. O crédito não vai resolver mais: já foi emprestado o que precisa e não há restrição de crédito.
Que mecanismo pode se utilizar para melhorar a taxa de investimento?
Acelerar os projetos do PAC, com os programas de infraestrutura.
Mas o governo parece não ter abandonado a via do crédito. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, comentou recentemente que tem tentado convencer os banqueiros a facilitar o acesso dos consumidores ao crédito.
Sim, mas ele vai convencer os banqueiros de quê? Com essa taxa de juros e com a demanda como está? Banqueiro lá se convence com argumento? Eles estão é ganhando dinheiro... A escassez para eles é ótima para ganhar dinheiro. Estão com uma taxa de lucro ótima e não estão nada preocupados. Por isso, digo que só por esse caminho não vamos voltar a crescer como antes. Temos de melhorar a taxa de investimento. Não que esteja muito baixa, mas tem de subir de alguma maneira.
Sempre se diz que a taxa de investimento no Brasil, em torno de 18% do PIB, deveria se aproximar de 22%. Mas nunca se chegou lá. Esse objetivo continua de pé?
Pois é... não chega, mas precisa chegar. A linha de maior dinamismo para a recuperação é por aí. Completando os programas de investimento em infraestrutura que estão programados, o país resolve não só os problemas de estrangulamento, como também os de demanda.
Os críticos dizem que a matriz de crescimento que se baseia no consumo está vencida, não traz mais efeitos positivos como há alguns anos. Essa visão é correta?
O governo não adotou apenas o incentivo ao consumo. A taxa de investimento foi mantida. O que defendo é que ela precisa acelerar. Realmente, essa matriz se esgotou; o consumo foi acelerado ao máximo. E também já houve a incorporação das classes mais baixas, com os programas sociais pesados que o governo tem feito. Por isso que eu digo: dada a rigidez da oferta de alimentos e a estagnação no consumo de bens duráveis, o que resta para estimular é o investimento, está claro?
O novo ciclo seria, então, o do investimento?
Sim, primeiramente na infraestrutura e depois tentar remendar as cadeias produtivas da indústria. Mas, para tanto, é preciso que a taxa de câmbio melhore. Com o dólar no nível atual, é difícil completar as cadeias industriais porque o cenário provoca uma “dessubstituição” de importações, quando o que precisamos agora é o contrário. Então, eu vejo uma barreira pelo lado do câmbio, desfavorável, que para se consertar não depende só de nós. A desvalorização do dólar foi provocada pelos Estados Unidos! Não foi pela nossa taxa de juros, nem por nada que fizemos por aqui. O investimento, super bem-vindo, tem de acelerar. Mas o PAC está indo muito lento, não é...
Há gente, principalmente no exterior, defendendo que se mude o ministro da Fazenda. A srª acha que essa sugestão faz sentido?
Ai, ai... essa é ótima. O ideal é trocar o lençol da cama, é isso? Ao invés de arrumar a infraestrutura, troquemos os lençóis da cama? Mas que patetada! Eu não acho que é isso. Estou lhe dizendo que é estrutural, poxa! Já dei os argumentos do que eu acho que se passou e o porquê de ter acontecido. Isso, não há nenhum ministro da Fazenda que seja capaz de reverter. Não é algo que o sujeito chegue lá, dê um bafo, e o ciclo se reverte. É um projeto trabalhoso, vai levar um certo tempo. Mas é possível reverter, porque nós não estamos em recessão. Não estamos mais em 2009, quando houve aquela crise mundial que nos atingiu. Outra coisa que se precisa ver é que a renda não está caindo. Muito pelo contrário, tanto assim que o lado da demanda vai bem.
Como a srª citou, os EUA estão retirando os incentivos monetários e ameaçam elevar as taxas de juros. Esse desmonte da política de quantitative easing é perigoso para o Brasil?
Olha, tenho a impressão de que os Estados Unidos deram uma guinada tão violenta agora que não é provável que façam outra, até porque prejudicaria todo o mundo, não apenas nós. A China também não está achando graça nenhuma.
Mas o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), está falando em elevar os juros já no próximo ano.
Eu sei. Eles estão salvando os bancos deles. O resto do mundo dança a valsa. E isso ninguém pode impedir, porque o banco central americano é o banco dos bancos, não é independente como se imagina. Ele depende dos bancos, e como eles queriam melhorar suas posições porque estavam com ativos podres na carteira, os Estados Unidos fizeram o programa de expansão da liquidez exatamente para comprar esses títulos ruins. O Fed fez essa política e aí ficou difícil. Talvez pudéssemos fazer uma política cambial mais ativa, não sei. Penso nisso porque não há muito espaço no campo fiscal. Pelo lado monetário também não dá, porque subir a taxa de juros não melhora o câmbio, pelo contrário. Veja que essa medida usada para combater a inflação desvaloriza a cotação do dólar e atrapalha a recuperação da indústria. Os juros não podem subir indefinidamente. Não bastassem as razões externas, temos também as internas.
Pesquisas recentes feitas com empresários apontam um pessimismo muito grande por parte deles. Com esse cenário, haverá razão para eles investirem?
Eles não estão dispostos porque as importações estão abertas. O cara investe na produção para ver os chineses, os americanos e quaisquer outros invadirem o país com importações. É prejuízo, expectativa de lucro baixa...
Seria o caso de aplicar um instrumento de defesa, como sobretaxar de alguma forma as importações?
Sobretaxar seria legal, sabe... Mas não é ortodoxo. Eu sou a favor, mas porque não sou ortodoxa (risos). Sou, sim, a favor de um controle de importações. Acho que está demais, uma esbórnia. Mas antes disso, eu sou a favor de tributar a remessa de lucros, está claro? São dezenas e mais dezenas de bilhões de dólares, o que é um disparate.
A atuação do BC, com rações diárias de contratos de dólares mais a elevação da taxa de juros, poderia ajudar a reanimar a indústria?
Não mesmo! O BC não está agindo de uma maneira contracíclica. A política atual é pró-cíclica. O ciclo de crescimento desacelerou e o BC está ajudando a desacelerar. Subir a Selic não vai incentivar o investimento, tampouco a demanda, está claro?
Mas há indicações de que o BC deve seguir com o ciclo de aperto monetário na próxima reunião do Copom.
Ah, eu por mim acho que já chega, porque essa política monetária já fez o que deveria ter sido feito. Agora, não tem que subir. É esperar que a inflação reverta naturalmente.
A srª concorda com a política de meta de inflação?
Depende de onde se bota a meta. Em princípio, ainda estamos abaixo do teto, não o estouramos. Não precisa ficar tão nervoso, não é? Não fico nervosa. A meta é uma invenção que foi feita e que não se volta mais atrás. Mas não é o meu ideal de política monetária.
Como a srª vê a posição dos que defendem a independência do Banco Central?
Ai, isso é outra patetada... Eu me cansei. Não há nenhum banco central independente, meu bem! O dos Estados Unidos, que devia ser o paradigma, não é independente, como é que o nosso seria? Independente quer dizer o que, hein? Não quer dizer nada. Independente do governo? Do mercado? Das metas da política econômica? Independente não quer dizer porcaria nenhuma! O BC tem é que tentar agir de uma maneira coerente. Agora, quando ele tem metas contraditórias, como conter inflação e fazer uma política cambial mais ativa, fica difícil culpar o BC. E olha que o presidente atual (Alexandre Tombini) é um cara bom, respeitável. Não é o caso de mudar nada. O problema é que a situação está meia de bico nesse caso particular, um problema de curto prazo atrapalhado, acho que não dura muito. Estou moderadamente otimista.
A srª acredita que a economia brasileira voltará a crescer em 2015?
Volta, mas não aos níveis que cresceu no passado. Temos uma crise mundial ainda sendo digerida. Mas o fato de o país continuar forte em emprego, salário e renda para as classes trabalhadoras é um alívio, rapaz. Lembre quantos anos passamos sem isso. Houve anos em que a economia brasileira cresceu muito, sem que tenham crescido os salários e a renda das famílias. Ninguém come PIB como eu já disse, precisa ter renda e salário. Isso está sendo mantido. Espero que não façam nenhum disparate com o salário mínimo.
A inflação alta está chegando até a mesa das pessoas. A srª acha que o aumento de preços dos alimentos pode prejudicar a reeleição da presidenta Dilma?
Não acho não, porque não vejo quem vá fazer melhor. Você já viu algum programa bacaninha? Algum dos candidatos da oposição tem algum projeto maravilhoso que eu não saiba da existência dele? Que eu saiba, eles não têm programa nenhum. O nosso, ao menos já é conhecido. Já tem 12 anos de experiência. A oposição não está propondo nada. Criticar, bater no tambor é fácil. Agora, não vi nenhum dos dois candidatos propor nada.
O ex-governador Eduardo Campos apresentou a proposta de baixar a meta de inflação para 3%...
Ai, que maravilha! Isso é uma maluquice! A meta está em até 6,5% e ele propõe cortar pela metade! Bom, o Eduardo Campos obviamente não entende porcaria nenhuma de economia. Não é o caso da presidenta Dilma, que foi uma aluna brilhante minha.
Como era a aluna Dilma Rousseff?
Ela fez doutorado lá em Campinas (na Unicamp). É uma mulher muito inteligente. O pessoal às vezes implica porque ela é meio brusca. É o estilo dela. Eu não posso falar nada, porque também sou... de maneira que não tenho como criticar. Sobre a reeleição dela, estou otimista. Não está nenhuma maravilha a situação, mas não há qualquer razão para um pessimismo negro, porque os outros candidatos não são nenhuma Brastemp, ou são?
Com o fechamento do ciclo de crescimento e a indústria patinando, a srª acredita que a taxa de desemprego pode subir e sair desse nível historicamente baixo?
Não, porque a taxa de desemprego está muito ligada aos serviços, e nem tanto à indústria. Os serviços é que estão segurando o PIB, o emprego. É o que está segurando tudo. O Brasil hoje tem uma economia de serviços mais desenvolvida.
A pauta de exportação do Brasil está voltando a ficar muito dependente das commodities. Isso é bom para o país?
Como não seria bom para o país? Deixar de exportar commodities quando somos o número 1 do mundo, com produtividade altíssima e tecnologia de alto nível, não teria nem pé nem cabeça. Exportamos mais do que café, atualmente. Quero saber o que os críticos querem que exportemos no lugar dos produtos do agrobusiness. Querem que exportemos gente?
É possível ter uma pauta mais diversificada?
Ela é diversificada, tanto no setor primário quanto no secundário. O problema é que o segundo está muito pequeno pela falta de competitividade da indústria. Com essa taxa de câmbio, fica difícil exportar produtos industriais, bem como investir. Sem investimento, fica ainda mais penoso.
quinta-feira, maio 08, 2014
LEBLON: ARROCHO, DUDU E A RECEITA PARA DESIGUALDADE
Ambos – Arrocho Neves e Dudu 3% – querem devolver aos mercados o comando do país.
O Conversa Afiada reproduz editorial de Saul Leblon, extraído da Carta Maior:
UMA RECEITA PARA A DESIGUALDADE
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como se fosse um biscoito fino para o país.
por: Saul Leblon
O conservadorismo costuma se declarar vítima do maniqueísmo que regularmente carimbaria na testa de seus candidatos rótulos depreciativos aos olhos da população.
Elitistas e entreguistas, por exemplo.
O problema real parece ser outro. Candidaturas conservadoras mostram dificuldade para conciliar o discurso de palanque com a identidade do projeto que defendem para o país.
Na história recente tornou-se emblemático o caso do governador Geraldo Alckmin.
Presidenciável tucano em 2006, ele se fantasiou com adesivos de estatais brasileiras na vã tentativa de afastar compreensíveis suspeitas do eleitor.
Convenceu tanto quanto o lobo vestido de vovozinha na história da Chapeuzinho Vermelho.
Ou então Serra. Em 2010, já descendo a ladeira, aliado ao humanista bispo Malafaia para atacar gays, aborto e petistas, o tucano chegou a acenar com um gesto generoso.
O governo propunha então R$ 538 reais para o salario mínimo válido a partir de 2011, um valor calculado conforme a regra pactuada com CUT e sindicatos quatro anos antes.
‘Acho pouco’, disse o tucano e sapecou:
‘Vou fixar em R$ 600 reais’ (veja aqui: www.youtube.com/watch?v=qzyOIv–uKw).
Não contente, prometeu um aumento de 10% para os aposentados.
E arrematou com o compromisso de incluir 15 milhões no Bolsa Família (o programa reunia então 12,3 milhões; hoje são 13, 8 milhões), ademais de assegurar um 13º pagamento a todos os beneficiados.
Digamos que Dilma tomasse decisão semelhante hoje.
O que diriam os centuriões do equilíbrio fiscal que saíram de faca na boca diante do reajuste de 10% para o Bolsa Família, somado à correção da tabela do IR, ambos anunciados no discurso presidencial do 1º de Maio?
No caso de Serra, zumbiu um silencio obsequioso.
Inútil.
A credibilidade do discurso tucano não superou as desconfianças entranhadas no personagem.
O resultado é sabido: Dilma venceu as eleições de 2010, no 2º turno, por uma diferença de mais de 10 milhões de votos sobre o delfim do conservadorismo.
Tome-se agora o caso dos gêmeos ideológicos, Aécio & Eduardo.
Ambos querem devolver aos mercados o comando do país.
Há diferenças de estilo, mas nisso são univitelinos.
Em linguagem explícita ou cifrada vão alternando, como num jogral, detalhes de como se faz esse cozido de uma Nação.
Junte um Banco Central independente (da sociedade), a um choque de juros; acrescente mais duas voltas de arrocho com um superávit de 3,5%. Pique a meta da inflação ao gosto dos rentistas. Depois misture tudo com a batedeira da liberdade irrestrita aos capitais; leve ao forno da abertura comercial plena, geral e irrestrita.
Sirva fervendo.
Só falta explicitar à opinião pública os custos de cada ingrediente.
Colunistas isentos (ideológicos são os blogueiros ) adornam a omissão com uma condescendência melosa e enjoativa.
A exemplo do que fizeram com Serra não arguem o preço social e estratégica do cardápio maturado na cozinha dos gêmeos ideológicos.
Coube à Presidenta Dilma quebrar o segredo culinário nesta 3ª feira, ao calcular aquilo que se omite deliberadamente:
‘Baixar a meta da inflação para 3% (como querem os gêmeos) jogaria 8,2% dos trabalhadores no desemprego’, advertiu escancarando a linha tênue que separa o salitre impopular do lacto purga antipopular.
Preguiçosa nos cálculos quando se trata de escarafunchar a cozinha conservadora, a mídia reagiu celeremente ao discurso do 1º de Maio.
Manchetes faiscantes denunciavam no dia seguinte a ‘gastança’: R$ 8,9 bi vai custar o reajuste de 10% para o Bolsa Família e a correção da tabela do IR.
A assimetria da reação reflete uma divergência de prioridades.
Um aumento anterior de impostos providenciado pelo governo, sobre cervejas e refrigerantes, custeará quase a metade da despesa anunciada no 1º de Maio (R$ 3,6 bi).
O mercado financeiro reagiu inconsolável.
Do Itaú, o Banco Central tucano, veio a explicação: ‘esperava-se que a receita extra fosse cobrir despesas das elétricas para não prejudicar ainda mais o superávit de 2014’.
Em bom português: teme-se que a hidráulica fiscal vire o registro para subtrair água dos que já tem a caixa cheia, em benefício de que vivem de gota em gota.
Só no 1º trimestre deste ano, por exemplo, R$ 13,048 bilhões foram adicionados à caixa dos rentistas da dívida interna.
O volume poderia ser significativamente menor se o registro dos juros girasse para baixo.
O Brasil paga o terceiro juro real mais alto do mundo, cerca de 5%, depois de uma queda de braço em que Dilma conseguiu, momentaneamente, trazer para 3,5%, uma taxa real que foi da ordem de 11,5%, em média, no segundo governo Lula e de 18,5% na média do segundo governo FHC.
As medidas que os gêmeos ideológicos listam para o país requisitam um cavalo de pau nessa trajetória descendente.
Com elevado risco de retornos pífios em relação aos seus próprios objetivos.
É o que demonstra o pulso agonizante de países europeus que desde a crise de 2008 vem sendo tratados com o receituário que Aécio & Eduardo querem agora ministrar aqui.
Vejamos.
Depois de três anos de arrocho, que decepou 7% de sua economia, a dívida pública em Portugal saltou de 108% para 129% do PIB. O desemprego médio passa de 15%; e supera os 30% entre os jovens.
Na Espanha, que começou o arrocho antes do vizinho ibérico, ainda com o PSOE, e o aprofundou com a chegada da direita ao poder, em 2011, o quadro é ainda mais sombrio.
A ponto de o país registrar um déficit fiscal que é quase o dobro daquele anterior à crise.
O arrocho congelou a economia e decepou a receita do governo. A recessão fez o resto e tornou a crise autossustentável.
Há quase seis milhões de desempregados na Espanha (24% da força de trabalho)
A população ativa encolhe mês a mês pela desistência pura e simples de se procurar o que não tem: emprego.
Hoje ela é inferior à existente há seis anos –evolução semelhante a uma situação de guerra, quando os adultos em idade produtiva, jovens, sobretudo, vão para os campos de batalha e não retornam.
Na Espanha eles estão indo às filas de embarque .
A taxa de desemprego na juventude espanhola passa de 55%. Significa que metade de uma geração inteira talvez nunca encontre trabalho em sua terra.
Pior só a Grécia.
Seis de cada 10 jovens gregos estão desempregados e cerca de 4 milhões dos seus 11 milhões de habitantes vivem em um labirinto de pobreza e exclusão.
Há seis anos sob implacável terapia de arrocho, o país perdeu 25% de seu PIB. Em compensação, a taxa de suicídio aumentou 45% desde 2007.
O conservadorismo sabe as consequências da receita que preconiza para o Brasil.
O colunismo especializado, que encena esclarecimento diante do livro de Thomas Piketty (‘ O Capital no Século XXI’), tem a exata dimensão do que está em jogo.
Está em jogo assegurar aos endinheirados uma fatia da riqueza crescentemente superior ao desempenho médio da economia. Exatamente o traço forte do capitalismo atual denunciado minuciosamente por Piketty.
Ao fixar essa estaca, a conta de chegar não fecha para o resto da sociedade.
O capitalismo assume a sua genética como usina imbatível de assimetrias sociais.
Ou não será exatamente essa a raiz da desordem europeia nos dias que correm?
Rentistas e banqueiros (alemães, sobretudo) festejam a ‘retomada’, laços sociais se desintegram e a extrema direita colhe os frutos desesperados da pobreza e do desemprego propondo uma ordem policial contra a anomia neoliberal.
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como biscoito fino para o país.
Apenas os mais afoitos admitem que o segredo da massa remonta a uma tradição que vem da casa grande no trato com a senzala.
Trata-se da receita da desigualdade, segundo a qual , para uma sociedade avançar , é preciso o seu povo regredir.
O Conversa Afiada reproduz editorial de Saul Leblon, extraído da Carta Maior:
UMA RECEITA PARA A DESIGUALDADE
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como se fosse um biscoito fino para o país.
por: Saul Leblon
O conservadorismo costuma se declarar vítima do maniqueísmo que regularmente carimbaria na testa de seus candidatos rótulos depreciativos aos olhos da população.
Elitistas e entreguistas, por exemplo.
O problema real parece ser outro. Candidaturas conservadoras mostram dificuldade para conciliar o discurso de palanque com a identidade do projeto que defendem para o país.
Na história recente tornou-se emblemático o caso do governador Geraldo Alckmin.
Presidenciável tucano em 2006, ele se fantasiou com adesivos de estatais brasileiras na vã tentativa de afastar compreensíveis suspeitas do eleitor.
Convenceu tanto quanto o lobo vestido de vovozinha na história da Chapeuzinho Vermelho.
Ou então Serra. Em 2010, já descendo a ladeira, aliado ao humanista bispo Malafaia para atacar gays, aborto e petistas, o tucano chegou a acenar com um gesto generoso.
O governo propunha então R$ 538 reais para o salario mínimo válido a partir de 2011, um valor calculado conforme a regra pactuada com CUT e sindicatos quatro anos antes.
‘Acho pouco’, disse o tucano e sapecou:
‘Vou fixar em R$ 600 reais’ (veja aqui: www.youtube.com/watch?v=qzyOIv–uKw).
Não contente, prometeu um aumento de 10% para os aposentados.
E arrematou com o compromisso de incluir 15 milhões no Bolsa Família (o programa reunia então 12,3 milhões; hoje são 13, 8 milhões), ademais de assegurar um 13º pagamento a todos os beneficiados.
Digamos que Dilma tomasse decisão semelhante hoje.
O que diriam os centuriões do equilíbrio fiscal que saíram de faca na boca diante do reajuste de 10% para o Bolsa Família, somado à correção da tabela do IR, ambos anunciados no discurso presidencial do 1º de Maio?
No caso de Serra, zumbiu um silencio obsequioso.
Inútil.
A credibilidade do discurso tucano não superou as desconfianças entranhadas no personagem.
O resultado é sabido: Dilma venceu as eleições de 2010, no 2º turno, por uma diferença de mais de 10 milhões de votos sobre o delfim do conservadorismo.
Tome-se agora o caso dos gêmeos ideológicos, Aécio & Eduardo.
Ambos querem devolver aos mercados o comando do país.
Há diferenças de estilo, mas nisso são univitelinos.
Em linguagem explícita ou cifrada vão alternando, como num jogral, detalhes de como se faz esse cozido de uma Nação.
Junte um Banco Central independente (da sociedade), a um choque de juros; acrescente mais duas voltas de arrocho com um superávit de 3,5%. Pique a meta da inflação ao gosto dos rentistas. Depois misture tudo com a batedeira da liberdade irrestrita aos capitais; leve ao forno da abertura comercial plena, geral e irrestrita.
Sirva fervendo.
Só falta explicitar à opinião pública os custos de cada ingrediente.
Colunistas isentos (ideológicos são os blogueiros ) adornam a omissão com uma condescendência melosa e enjoativa.
A exemplo do que fizeram com Serra não arguem o preço social e estratégica do cardápio maturado na cozinha dos gêmeos ideológicos.
Coube à Presidenta Dilma quebrar o segredo culinário nesta 3ª feira, ao calcular aquilo que se omite deliberadamente:
‘Baixar a meta da inflação para 3% (como querem os gêmeos) jogaria 8,2% dos trabalhadores no desemprego’, advertiu escancarando a linha tênue que separa o salitre impopular do lacto purga antipopular.
Preguiçosa nos cálculos quando se trata de escarafunchar a cozinha conservadora, a mídia reagiu celeremente ao discurso do 1º de Maio.
Manchetes faiscantes denunciavam no dia seguinte a ‘gastança’: R$ 8,9 bi vai custar o reajuste de 10% para o Bolsa Família e a correção da tabela do IR.
A assimetria da reação reflete uma divergência de prioridades.
Um aumento anterior de impostos providenciado pelo governo, sobre cervejas e refrigerantes, custeará quase a metade da despesa anunciada no 1º de Maio (R$ 3,6 bi).
O mercado financeiro reagiu inconsolável.
Do Itaú, o Banco Central tucano, veio a explicação: ‘esperava-se que a receita extra fosse cobrir despesas das elétricas para não prejudicar ainda mais o superávit de 2014’.
Em bom português: teme-se que a hidráulica fiscal vire o registro para subtrair água dos que já tem a caixa cheia, em benefício de que vivem de gota em gota.
Só no 1º trimestre deste ano, por exemplo, R$ 13,048 bilhões foram adicionados à caixa dos rentistas da dívida interna.
O volume poderia ser significativamente menor se o registro dos juros girasse para baixo.
O Brasil paga o terceiro juro real mais alto do mundo, cerca de 5%, depois de uma queda de braço em que Dilma conseguiu, momentaneamente, trazer para 3,5%, uma taxa real que foi da ordem de 11,5%, em média, no segundo governo Lula e de 18,5% na média do segundo governo FHC.
As medidas que os gêmeos ideológicos listam para o país requisitam um cavalo de pau nessa trajetória descendente.
Com elevado risco de retornos pífios em relação aos seus próprios objetivos.
É o que demonstra o pulso agonizante de países europeus que desde a crise de 2008 vem sendo tratados com o receituário que Aécio & Eduardo querem agora ministrar aqui.
Vejamos.
Depois de três anos de arrocho, que decepou 7% de sua economia, a dívida pública em Portugal saltou de 108% para 129% do PIB. O desemprego médio passa de 15%; e supera os 30% entre os jovens.
Na Espanha, que começou o arrocho antes do vizinho ibérico, ainda com o PSOE, e o aprofundou com a chegada da direita ao poder, em 2011, o quadro é ainda mais sombrio.
A ponto de o país registrar um déficit fiscal que é quase o dobro daquele anterior à crise.
O arrocho congelou a economia e decepou a receita do governo. A recessão fez o resto e tornou a crise autossustentável.
Há quase seis milhões de desempregados na Espanha (24% da força de trabalho)
A população ativa encolhe mês a mês pela desistência pura e simples de se procurar o que não tem: emprego.
Hoje ela é inferior à existente há seis anos –evolução semelhante a uma situação de guerra, quando os adultos em idade produtiva, jovens, sobretudo, vão para os campos de batalha e não retornam.
Na Espanha eles estão indo às filas de embarque .
A taxa de desemprego na juventude espanhola passa de 55%. Significa que metade de uma geração inteira talvez nunca encontre trabalho em sua terra.
Pior só a Grécia.
Seis de cada 10 jovens gregos estão desempregados e cerca de 4 milhões dos seus 11 milhões de habitantes vivem em um labirinto de pobreza e exclusão.
Há seis anos sob implacável terapia de arrocho, o país perdeu 25% de seu PIB. Em compensação, a taxa de suicídio aumentou 45% desde 2007.
O conservadorismo sabe as consequências da receita que preconiza para o Brasil.
O colunismo especializado, que encena esclarecimento diante do livro de Thomas Piketty (‘ O Capital no Século XXI’), tem a exata dimensão do que está em jogo.
Está em jogo assegurar aos endinheirados uma fatia da riqueza crescentemente superior ao desempenho médio da economia. Exatamente o traço forte do capitalismo atual denunciado minuciosamente por Piketty.
Ao fixar essa estaca, a conta de chegar não fecha para o resto da sociedade.
O capitalismo assume a sua genética como usina imbatível de assimetrias sociais.
Ou não será exatamente essa a raiz da desordem europeia nos dias que correm?
Rentistas e banqueiros (alemães, sobretudo) festejam a ‘retomada’, laços sociais se desintegram e a extrema direita colhe os frutos desesperados da pobreza e do desemprego propondo uma ordem policial contra a anomia neoliberal.
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como biscoito fino para o país.
Apenas os mais afoitos admitem que o segredo da massa remonta a uma tradição que vem da casa grande no trato com a senzala.
Trata-se da receita da desigualdade, segundo a qual , para uma sociedade avançar , é preciso o seu povo regredir.
Salário mínimo é responsável por 70% da redução da desigualdade, diz professor
Carta Capital
Para Naercio Menezes Filho, do Insper, o efeito da redução da desigualdade é ainda maior sobre as mulheres, que estão ganhando o salário mínimo ao entrar no mercado de trabalho
por Redação —
valorização do salário mínimo na última década foi responsável por 70% da redução no coeficiente de Gini - índice que mede a desigualdade de renda no mercado de trabalho e indica menos desigualdade quanto mais próximo de zero. O índice passou de 0,594, em 2001, para 0,527, em 2011. "O efeito é mais importante para as mulheres do que para os homens, já que há muitas mulheres ganhando salário mínimo, principalmente empregadas domésticas”, afirma o professor Naercio Menezes Filho, do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa.
O professor participou na terça-feira 7 do seminário Política de Salário Mínimo para 2015–2018: Avaliações de Impacto Econômico e Social, organizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) e pela Escola de Economia de São Paulo (Eesp-FGV). Na mesa que discutiu a distribuição de renda promovida pelo salário mínimo, o professor André Portela, da Eesp, avaliou que a valorização tem beneficiado a população com renda intermediária nos últimos anos, e não os mais carentes.
Isso mostra, afirma ele, que a a política econômica deveria investir em outros mecanismos de redução da desigualdade, como a ampliação de programas como o abono salarial e o Bolsa Família.
Para o professor Marcio Pochmann, da Universidade de Campinas (Unicamp), a valorização do mínimo precisa retomar o objetivo de quando o benefício foi criado, de ser um parâmetro para as necessidades de sobrevivência do trabalhador.
“O salário mínimo foi estabelecido na década de 1940 como a média do salário urbano e era acima do PIB [Produto Interno Bruto] per capita. Representava um componente de garantir o mínimo para a força de trabalho. Com a política de arrocho da década de 1960, o mínimo não acompanhou a inflação. Somente a partir do Plano Real, o mínimo se deslocou de elemento de combate à inflação para instrumento de combate à pobreza”, relembrou.
O seminário do Ibre/FGV termina nesta quarta-feira 8, quando serão debatidos os temas finanças públicas, inflação e macroeconomia do salário mínimo.
Com informações da Agência Brasil
Para Naercio Menezes Filho, do Insper, o efeito da redução da desigualdade é ainda maior sobre as mulheres, que estão ganhando o salário mínimo ao entrar no mercado de trabalho
por Redação —
valorização do salário mínimo na última década foi responsável por 70% da redução no coeficiente de Gini - índice que mede a desigualdade de renda no mercado de trabalho e indica menos desigualdade quanto mais próximo de zero. O índice passou de 0,594, em 2001, para 0,527, em 2011. "O efeito é mais importante para as mulheres do que para os homens, já que há muitas mulheres ganhando salário mínimo, principalmente empregadas domésticas”, afirma o professor Naercio Menezes Filho, do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa.
O professor participou na terça-feira 7 do seminário Política de Salário Mínimo para 2015–2018: Avaliações de Impacto Econômico e Social, organizado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) e pela Escola de Economia de São Paulo (Eesp-FGV). Na mesa que discutiu a distribuição de renda promovida pelo salário mínimo, o professor André Portela, da Eesp, avaliou que a valorização tem beneficiado a população com renda intermediária nos últimos anos, e não os mais carentes.
Isso mostra, afirma ele, que a a política econômica deveria investir em outros mecanismos de redução da desigualdade, como a ampliação de programas como o abono salarial e o Bolsa Família.
Para o professor Marcio Pochmann, da Universidade de Campinas (Unicamp), a valorização do mínimo precisa retomar o objetivo de quando o benefício foi criado, de ser um parâmetro para as necessidades de sobrevivência do trabalhador.
“O salário mínimo foi estabelecido na década de 1940 como a média do salário urbano e era acima do PIB [Produto Interno Bruto] per capita. Representava um componente de garantir o mínimo para a força de trabalho. Com a política de arrocho da década de 1960, o mínimo não acompanhou a inflação. Somente a partir do Plano Real, o mínimo se deslocou de elemento de combate à inflação para instrumento de combate à pobreza”, relembrou.
O seminário do Ibre/FGV termina nesta quarta-feira 8, quando serão debatidos os temas finanças públicas, inflação e macroeconomia do salário mínimo.
Com informações da Agência Brasil
quarta-feira, maio 07, 2014
Brasil vai bombar em 2015, garante Dilma
A afirmação foi feita a um grupo de mulheres jornalistas durante jantar no Palácio do Planalto
Por Mariana Zoccoli da Agência PT de Notícias
A presidenta Dilma Rousseff afirmou, na noite desta terça-feira (6), que a economia brasileira vai “bombar” em 2015.
“É absurda essa história de o Brasil explodir em 2015. É ridículo. Pelo contrário, o Brasil vai bombar”, explicou, otimista, a um grupo de mulheres jornalistas durante jantar no Palácio da Alvorada.
Entre outros assuntos, a presidenta falou sobre Copa do Mundo, CPI da Petrobras, inflação, liberdade de imprensa e impostos.
Ela ressaltou que não teme a CPI, pois o “governo é de absoluta transparência”. No entanto, para Dilma, a polêmica em torno da Petrobras tem fins exclusivamente políticos.
“É muito contraditório o tratamento que se dá no Brasil às investigações sobre qualquer coisa”, afirmou a presidenta.
“As investigações só atingem o governo federal. E o interesse todo nessa história sou eu”, completou
Além disso, ela destacou que é contra qualquer nível de inflação e que o governo federal não cogita aumentar os impostos no próximo ano.
“Passamos três anos e meio da nossa vida sem aumentar imposto”, enfatizou.
A presidenta também fez questão de defender o Bolsa Família.
“Quem não tem compromisso com os mais pobres acha que é uma besteira colocar dinheiro no Bolsa Família. O programa já foi chamado de ‘Bolsa Esmola’, no entanto, é repetido em outros países”, completou.
Por Mariana Zoccoli da Agência PT de Notícias
A presidenta Dilma Rousseff afirmou, na noite desta terça-feira (6), que a economia brasileira vai “bombar” em 2015.
“É absurda essa história de o Brasil explodir em 2015. É ridículo. Pelo contrário, o Brasil vai bombar”, explicou, otimista, a um grupo de mulheres jornalistas durante jantar no Palácio da Alvorada.
Entre outros assuntos, a presidenta falou sobre Copa do Mundo, CPI da Petrobras, inflação, liberdade de imprensa e impostos.
Ela ressaltou que não teme a CPI, pois o “governo é de absoluta transparência”. No entanto, para Dilma, a polêmica em torno da Petrobras tem fins exclusivamente políticos.
“É muito contraditório o tratamento que se dá no Brasil às investigações sobre qualquer coisa”, afirmou a presidenta.
“As investigações só atingem o governo federal. E o interesse todo nessa história sou eu”, completou
Além disso, ela destacou que é contra qualquer nível de inflação e que o governo federal não cogita aumentar os impostos no próximo ano.
“Passamos três anos e meio da nossa vida sem aumentar imposto”, enfatizou.
A presidenta também fez questão de defender o Bolsa Família.
“Quem não tem compromisso com os mais pobres acha que é uma besteira colocar dinheiro no Bolsa Família. O programa já foi chamado de ‘Bolsa Esmola’, no entanto, é repetido em outros países”, completou.
Ganhar para avançar
Dilma deve se comprometer com as transformações estruturais que abram uma segunda etapa de governos do PT. Trata-se de ganhar para mudar as estruturas de poder.
por Emir Sader
Carta Maior
O que se está esgotando não é o governo do PT, mas sua primeira fase. A prioridade das políticas sociais é amplamente vitoriosa, foi e continua sendo a responsável pelo imenso processo de democratização social por que passa o Brasil desde 2003. É assim que diminuímos a exclusão social, a desigualdade, a pobreza e a miséria – objetivo fundamental de um país que sempre carregou esses carmas -, mesmo em meio a uma profunda e prolongada recessão internacional.
A política externa que prioriza os processos de integração regional e os intercâmbios Sul-Sul se confirmou como a melhor forma de inserção internacional do Brasil e de contribuição para o desenvolvimento das áreas sempre exploradas e subordinadas e de construção de um mundo multipolar. Essas políticas têm é que avançar muito, especialmente no Mercosul, na Unasul, no Banco do Sul, no Conselho Sulamericano de Defesa.
O papel ativo do Estado é o responsável por o Brasil ter resistido à crise, fortalecendo os bancos públicos, induzindo a reação ativa diante da crise e não se submetendo a ela. Precisamos, sim, é readequar o Estado para um papel ainda mais ativo na economia, ainda mais quando setores do empresariado privado resistem a participar do esforço produtivo do país e se refugiam na especulação financeira.
Assim, os caminhos escolhidos pelo governo Lula – prioridade do social, integração regional, papel ativo do Estado – são corretos e, ao contrário de ser abandonados, devem ser fortalecidos. Mas esses avanços foram obtidos explorando as linhas de menor resistência do neoliberalismo, sem alterar as estruturas de poder, que seguem vigentes, e se colocam como obstáculos para dar continuidade e aprofundar a radical transformação democrática que o Brasil precisa.
As políticas sociais podem seguir, mesmo com crescimento menor, mas tem um limite. Além de que, somado às politicas de distribuição de renda, se necessita melhorar a qualidade das políticas sociais, especialmente as de saúde, educação, transporte, segurança pública, cultura, entre outras. Esse deve ser um objetivo prioritário do próximo mandato.
O crescimento econômico requer imperiosamente a quebra da hegemonia do capital especulativo, o que supõe realizar o que a Presidenta Dilma tinha prometido para seu primeiro mandato: colocar as taxas de juros no nível internacional, para desincentivar a especulação financeira e a vinda de capitais para usufruir de taxas de juros muito altas e tributação baixa.
O Estado, por sua vez, precisa ser reformado para readequar-se aos processos de transformação que o país precisa enfrentar. Precisa de uma reforma tributaria socialmente justa, em que quem ganha mais paga mais.
Com o Estado, o sistema político precisa sofrer transformações que tornem a representação popular mais legítima. O financiamento público de campanhas e critérios mais rigorosos para o registro de partidos são necessidades urgentes. A convocação de uma Assembleia Constituinte autônoma é a única vida possível para essa reforma e tem que constar desde agora no calendário do próximo ano.
Se trata agora de ganhar para avançar. Não é mais possível simplesmente administrar o modelo tal qual existiu até agora, sem reformas estruturais que desbloqueiem os obstáculos que tem freado o crescimento econômico e dificultado a melhoria dos serviços públicos.
Dilma é favorita para ganhar, até mesmo no primeiro turno, mas essa vitória se dá pela acumulação de apoio popular da primeira fase dos governos, especialmente pelo sucesso das políticas sociais. Agora já não será mais possível surfar nesse impulso. Dilma tem que se comprometer, desde agora, com as transformações estruturais que abram uma segunda etapa dos governos do PT. Trata-se de ganhar para avançar, para transformar as estruturas profundas do poder, herdadas ainda da ditadura e do neoliberalismo.
por Emir Sader
Carta Maior
O que se está esgotando não é o governo do PT, mas sua primeira fase. A prioridade das políticas sociais é amplamente vitoriosa, foi e continua sendo a responsável pelo imenso processo de democratização social por que passa o Brasil desde 2003. É assim que diminuímos a exclusão social, a desigualdade, a pobreza e a miséria – objetivo fundamental de um país que sempre carregou esses carmas -, mesmo em meio a uma profunda e prolongada recessão internacional.
A política externa que prioriza os processos de integração regional e os intercâmbios Sul-Sul se confirmou como a melhor forma de inserção internacional do Brasil e de contribuição para o desenvolvimento das áreas sempre exploradas e subordinadas e de construção de um mundo multipolar. Essas políticas têm é que avançar muito, especialmente no Mercosul, na Unasul, no Banco do Sul, no Conselho Sulamericano de Defesa.
O papel ativo do Estado é o responsável por o Brasil ter resistido à crise, fortalecendo os bancos públicos, induzindo a reação ativa diante da crise e não se submetendo a ela. Precisamos, sim, é readequar o Estado para um papel ainda mais ativo na economia, ainda mais quando setores do empresariado privado resistem a participar do esforço produtivo do país e se refugiam na especulação financeira.
Assim, os caminhos escolhidos pelo governo Lula – prioridade do social, integração regional, papel ativo do Estado – são corretos e, ao contrário de ser abandonados, devem ser fortalecidos. Mas esses avanços foram obtidos explorando as linhas de menor resistência do neoliberalismo, sem alterar as estruturas de poder, que seguem vigentes, e se colocam como obstáculos para dar continuidade e aprofundar a radical transformação democrática que o Brasil precisa.
As políticas sociais podem seguir, mesmo com crescimento menor, mas tem um limite. Além de que, somado às politicas de distribuição de renda, se necessita melhorar a qualidade das políticas sociais, especialmente as de saúde, educação, transporte, segurança pública, cultura, entre outras. Esse deve ser um objetivo prioritário do próximo mandato.
O crescimento econômico requer imperiosamente a quebra da hegemonia do capital especulativo, o que supõe realizar o que a Presidenta Dilma tinha prometido para seu primeiro mandato: colocar as taxas de juros no nível internacional, para desincentivar a especulação financeira e a vinda de capitais para usufruir de taxas de juros muito altas e tributação baixa.
O Estado, por sua vez, precisa ser reformado para readequar-se aos processos de transformação que o país precisa enfrentar. Precisa de uma reforma tributaria socialmente justa, em que quem ganha mais paga mais.
Com o Estado, o sistema político precisa sofrer transformações que tornem a representação popular mais legítima. O financiamento público de campanhas e critérios mais rigorosos para o registro de partidos são necessidades urgentes. A convocação de uma Assembleia Constituinte autônoma é a única vida possível para essa reforma e tem que constar desde agora no calendário do próximo ano.
Se trata agora de ganhar para avançar. Não é mais possível simplesmente administrar o modelo tal qual existiu até agora, sem reformas estruturais que desbloqueiem os obstáculos que tem freado o crescimento econômico e dificultado a melhoria dos serviços públicos.
Dilma é favorita para ganhar, até mesmo no primeiro turno, mas essa vitória se dá pela acumulação de apoio popular da primeira fase dos governos, especialmente pelo sucesso das políticas sociais. Agora já não será mais possível surfar nesse impulso. Dilma tem que se comprometer, desde agora, com as transformações estruturais que abram uma segunda etapa dos governos do PT. Trata-se de ganhar para avançar, para transformar as estruturas profundas do poder, herdadas ainda da ditadura e do neoliberalismo.
Sobre a campanha do Financial Times contra o governo
O Financial Times e Os Três Patetas
Prossegue a todo vapor campanha do Financial Times contra o governo brasileiro, executada com perfeito timing eleitoral
Por Marcelo Zero*
O FT, a bíblia britânica do capital financeiro e da ortodoxia econômica, que defende as políticas econômicas que ocasionaram a recessão mundial e que atrasam a recuperação dos países que as adotam, não se conforma com as políticas contracíclicas adotadas por Dilma. Eles preferem, é claro, as medidas impopulares que promete Aécio.
As mesmas que são adotadas hoje na Europa fragilizada e em crise, inclusive no Reino Unido. As mesmas que vêm aumentando as desigualdades e o desemprego; e diminuindo salários, aposentadorias e direitos.
Em novo artigo pomposamente intitulado Brazil´s Olympian World Cup Blues, o FT critica Dilma pelo atraso nas obras da Copa e pela economia “ladeira abaixo”. Chegam a afirmar que Rousseff é “Merkel-seeming but Marx brothers-delivering” (com aparência de Merkel, mas com resultados dos Irmãos Marx). Os nossos conservadores com alma de vira-latas vibram com o desrespeito vulgar à nossa presidenta, achando que o FT é a voz de Deus. Senão do Todo Poderoso, pelos menos do Mercado, o Deus ex Machina do liberalismo.
O gozado é que o FT há pouco comemorou o resultado do PIB britânico de 2013, o qual, depois de corrigido, mal chegou a 1,7%, resultado bem inferior ao Brasil, que foi de 2,3%.
Ressalte-se que, mesmo com esse resultado, o PIB britânico continua 1,3% inferior ao PIB de 2008, como se mostra na linha inferior do gráfico abaixo. Essa linha mostra também uma recuperação muito lenta e penosa, refreada pelas políticas ortodoxas que o FT tanto recomenda. Ninguém, nem mesmo os irmãos Marx, conseguiriam fazer humor com esse desastre.
Em contraste, o PIB do Brasil, estimulado pelas “desastrosas” políticas contracíclicas adotadas pelo governo brasileiro, está hoje, mesmo com a redução recente do crescimento econômico, 14% acima do seu nível de 2008.
Essa recuperação britânica muito lenta e difícil também afeta o mercado de trabalho. Há atualmente, no Reino Unido, um número menor de empregados de tempo integral do que havia em 2008. Mesmo com a pequena e lenta recuperação recente, houve a destruição líquida de 135 mil de empregos desse tipo, desde 2008. Na realidade, até 2012, o Reino Unido havia perdido 2,7 milhões de ocupações. O pequeno crescimento recente recuperou as ocupações perdidas, mas essa geração de ocupações se concentrou no trabalho autônomo e no trabalho em tempo parcial. Os empregos de qualidade, os empregos em tempo integral, ainda continuam em nível inferior ao dos tempos pré-crise.
Em contraste, o governo dos “irmãos Marx” de Dilma Rousseff gerou nada menos que 4,8 milhões de empregos com carteira assinada em apenas três anos. Como são eficientes esses Irmãos Marx brasileiros!
No que tange aos rendimentos do trabalho, 2014 será a primeira vez, em seis anos (!), que os salários mínimos do Reino Unido crescerão além da inflação, isto é, terão algum ganho real. Nada de mais, somente algo em torno de 2%. Isso não fará nem cócegas na diminuição dos rendimentos reais do trabalho, naquele país.
Em contraste, nos governos do PT o salário mínimo cresceu, em termos reais, cerca de 70%. Nem a imaginação dos irmãos Marx faria o salário mínimo crescer tanto.
O contraste maior, entretanto, está nas desigualdades. As políticas ortodoxas adotadas no Reino Unido desde o período de governo de Margaret Thatcher, que o FT sempre aplaudiu, vêm aumentando bastante as desigualdades naquele país. O índice de Gini passou de 0,240, ao final dos anos 70, para 0,340, em 2012. Hoje, apenas as cinco mais ricas famílias do Reino Unido têm mais que os 20% mais pobres da população. Algo surreal, digno do humor cáustico dos irmãos Marx.
CRESCIMENTO das Desigualdades No Reino Unido
O Reino Unido é hoje um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido
Já no Brasil, as políticas de eliminação da pobreza a e de diminuição das desigualdades adotadas pelos governos à la irmãos Marx, na definição do FT, vêm diminuindo rapidamente as desigualdades. Vejam o gráfico abaixo.
mi_14335794930583724
O FT quer fazer gracinhas com o Brasil de hoje, que não segue, como no passado, o script desastroso das políticas ortodoxas. Mas se esquece de um pequeno detalhe: a realidade.
Quando se compara um modelo com o outro só se pode chegar a uma conclusão: se o governo de Dilma Rousseff é algo semelhante a uma comédia dos Irmãos Marx, então as análises do FT são dignas dos filmes dos Três Patetas.
*Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais pela UnB e assessor legislativo do Partido dos Trabalhadores
- See more at: http://www.ocafezinho.com/2014/05/07/sobre-a-campanha-do-financial-times-contra-o-governo/#sthash.96tGiVvD.dpuf
Prossegue a todo vapor campanha do Financial Times contra o governo brasileiro, executada com perfeito timing eleitoral
Por Marcelo Zero*
O FT, a bíblia britânica do capital financeiro e da ortodoxia econômica, que defende as políticas econômicas que ocasionaram a recessão mundial e que atrasam a recuperação dos países que as adotam, não se conforma com as políticas contracíclicas adotadas por Dilma. Eles preferem, é claro, as medidas impopulares que promete Aécio.
As mesmas que são adotadas hoje na Europa fragilizada e em crise, inclusive no Reino Unido. As mesmas que vêm aumentando as desigualdades e o desemprego; e diminuindo salários, aposentadorias e direitos.
Em novo artigo pomposamente intitulado Brazil´s Olympian World Cup Blues, o FT critica Dilma pelo atraso nas obras da Copa e pela economia “ladeira abaixo”. Chegam a afirmar que Rousseff é “Merkel-seeming but Marx brothers-delivering” (com aparência de Merkel, mas com resultados dos Irmãos Marx). Os nossos conservadores com alma de vira-latas vibram com o desrespeito vulgar à nossa presidenta, achando que o FT é a voz de Deus. Senão do Todo Poderoso, pelos menos do Mercado, o Deus ex Machina do liberalismo.
O gozado é que o FT há pouco comemorou o resultado do PIB britânico de 2013, o qual, depois de corrigido, mal chegou a 1,7%, resultado bem inferior ao Brasil, que foi de 2,3%.
Ressalte-se que, mesmo com esse resultado, o PIB britânico continua 1,3% inferior ao PIB de 2008, como se mostra na linha inferior do gráfico abaixo. Essa linha mostra também uma recuperação muito lenta e penosa, refreada pelas políticas ortodoxas que o FT tanto recomenda. Ninguém, nem mesmo os irmãos Marx, conseguiriam fazer humor com esse desastre.
Em contraste, o PIB do Brasil, estimulado pelas “desastrosas” políticas contracíclicas adotadas pelo governo brasileiro, está hoje, mesmo com a redução recente do crescimento econômico, 14% acima do seu nível de 2008.
Essa recuperação britânica muito lenta e difícil também afeta o mercado de trabalho. Há atualmente, no Reino Unido, um número menor de empregados de tempo integral do que havia em 2008. Mesmo com a pequena e lenta recuperação recente, houve a destruição líquida de 135 mil de empregos desse tipo, desde 2008. Na realidade, até 2012, o Reino Unido havia perdido 2,7 milhões de ocupações. O pequeno crescimento recente recuperou as ocupações perdidas, mas essa geração de ocupações se concentrou no trabalho autônomo e no trabalho em tempo parcial. Os empregos de qualidade, os empregos em tempo integral, ainda continuam em nível inferior ao dos tempos pré-crise.
Em contraste, o governo dos “irmãos Marx” de Dilma Rousseff gerou nada menos que 4,8 milhões de empregos com carteira assinada em apenas três anos. Como são eficientes esses Irmãos Marx brasileiros!
No que tange aos rendimentos do trabalho, 2014 será a primeira vez, em seis anos (!), que os salários mínimos do Reino Unido crescerão além da inflação, isto é, terão algum ganho real. Nada de mais, somente algo em torno de 2%. Isso não fará nem cócegas na diminuição dos rendimentos reais do trabalho, naquele país.
Em contraste, nos governos do PT o salário mínimo cresceu, em termos reais, cerca de 70%. Nem a imaginação dos irmãos Marx faria o salário mínimo crescer tanto.
O contraste maior, entretanto, está nas desigualdades. As políticas ortodoxas adotadas no Reino Unido desde o período de governo de Margaret Thatcher, que o FT sempre aplaudiu, vêm aumentando bastante as desigualdades naquele país. O índice de Gini passou de 0,240, ao final dos anos 70, para 0,340, em 2012. Hoje, apenas as cinco mais ricas famílias do Reino Unido têm mais que os 20% mais pobres da população. Algo surreal, digno do humor cáustico dos irmãos Marx.
CRESCIMENTO das Desigualdades No Reino Unido
O Reino Unido é hoje um dos países mais desiguais do mundo desenvolvido
Já no Brasil, as políticas de eliminação da pobreza a e de diminuição das desigualdades adotadas pelos governos à la irmãos Marx, na definição do FT, vêm diminuindo rapidamente as desigualdades. Vejam o gráfico abaixo.
mi_14335794930583724
O FT quer fazer gracinhas com o Brasil de hoje, que não segue, como no passado, o script desastroso das políticas ortodoxas. Mas se esquece de um pequeno detalhe: a realidade.
Quando se compara um modelo com o outro só se pode chegar a uma conclusão: se o governo de Dilma Rousseff é algo semelhante a uma comédia dos Irmãos Marx, então as análises do FT são dignas dos filmes dos Três Patetas.
*Marcelo Zero é formado em Ciências Sociais pela UnB e assessor legislativo do Partido dos Trabalhadores
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A ofensiva simultânea do destemido Obama contra Rússia e China
Carta Maior
Enquanto planeja um enfrentamento direto com a Rússia na Ucrânia, Obama visita seus aliados asiáticos no marco de sua política para conter avanço da China.
Nem em seus melhores anos de imperialismo Washington tinha se atrevido a atuar como um suicida: enquanto planeja um enfrentamento direto com a Rússia na Ucrânia, Barak Obama visita seus aliados asiáticos (Japão, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas), no marco de sua política de “Volta à Ásia”, para conter o avanço da China no mundo. A batalha ocorre entre China e Japão (ou EUA?), pelo controle do estratégico Mar Oriental da China (reclamado por Pequim quase em sua totalidade) que, além de ser rota do fornecimento de energia e de outras mercadorias, é o depósito de grandes recursos naturais, de gás e de petróleo; pela soberania das rochas militarizáveis Diaoyu/Senkaku, e também pelo Estreito de Malaca, que une o Mar da China Oriental com o oceano Indico e a Europa (ver: Y ahora, a por China). Com sua propaganda anti-China, os EUA pretendem assustar seus vizinhos, reforçando as instalações militares que possuem na região, além de exercer pressão sobre tais países para que ingressem na OTAN.
Trata-se do avanço dos chamados “caçadores de dragões” da administração Obama sobre os “amigos do Panda”: contenção e enfrentamento em vez de acordos com o gigante asiático.
Até o momento, Washington tinha se centrado em cortar o abastecimento de energia para seu rival econômico (da Líbia, do Irã ou do Sudão, entre outros). Agora, entretanto, está planejando outras opções possíveis de uma guerra: segundo o Wall Street Journal, sob o nome AirSea battle, o Pentágono planeja aumentar as operações de vigilância perto da China, deslocar aviões de caça e usar mísseis para destruir a infraestrutura militar do inimigo e enviar um porta-aviões ao Estreito de Taiwan.
O jornal esconde que Washington, além disso, costuma usar grupos terroristas para desestabilizar o país que já caiu em desgraça. Do mesmo modo que o massacre que aconteceu recentemente na Ucrânia por criminosos coincidiu com a presença de John Brennan, diretor da CIA, e de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, em Kiev, o atentado em uma estação de trem em Xinjiang, região muçulmana da China, na fronteira com o Afeganistão e com o Paquistão (ambos aliados de Washington), aconteceu depois da viagem de Obama pela Ásia.
Pinçar a partir do Cáucaso
A linha vermelha que Moscou impôs para si própria, que corresponderia a considerar “o ataque aos cidadãos russos na Ucrânia como um ataque à própria Rússia”, pode se transformar em uma armadilha mortal para Putin. É justo o que Washington busca: envolvê-lo em uma longa guerra de desgaste na Ucrânia para, desta maneira, prejudicar sua economia, reduzir seu peso nas relações internacionais (agora que a Rússia tinha se transformado em mediadora dos conflitos como o do Irã e da Síria), parar o processo de melhora de sua relação com os Estados ex-soviéticos, privar a Velha Europa de um sólido sócio comercial (e de vender a eles seu excedente de gás), obrigando os europeus a participarem de sanções econômicas contra Moscou e inclusive a entrar em guerra contra seu próprio provedor de gás. E, como não, dar um novo protagonismo à OTAN.
O Pentágono vai deslocar mais paraquedistas na Polônia, na Estônia, na Letônia e na Lituânia. Enviará um navio de guerra ao Mar Negro e, em alguns meses, vai realizar a manobra da Operação Tridente com a Ucrânia.
Putin pode pedir a presença das forças de paz internacionais para proteger os civis ucranianos, sejam ou não falantes de russo (ver: EEUU planea desmantelar la Federación Rusa), e prestar assistência a Síria ou a outras fronteiras de seu país %u200como com a Geórgia, parceira do Ocidente%u200, de onde novos golpes estão sendo preparados.
A morte, em janeiro, do autoproclamado emir do Emirato del Cáucaso, o terrorista checheno Doku Khamatovich Umarov, desencadeou fatos destacáveis:
1) Que seu sucessor é um daguestanês chamado Alí Abú-Muhammad, que está transformando um movimento nacionalista checheno em um movimento islâmico e, portanto, capaz de acolher milhares de jihadistas de outras nacionalidades.
2) Já não se trata de islamizar o Cáucaso Norte e a independência da Chechênia, mas de estabelecer um Estado autônomo islâmico sunita do Mar Negro ao Mar Cáspio.
Com o objetivo de minar a segurança nacional da Rússia, estão agindo contra os gaseodutos, redes de transporte e lugares turísticos no interior da Federação Russa. Este grupo coopera com o Frente Al Nusra, da Síria, e os mujahidin do Tartaristão, ambos na linha da Al Qaeda.
A disputa entre Rússia e Geórgia pela soberania de Abecásia e na Ossétia do Sul continua aberta e em qualquer momento pode se transformar em um novo conflito bélico, talvez depois do próximo setembro, quando a Geórgia já tiver se transformado em membro da OTAN.
***
O que chama atenção nos últimos cenários tensos são: a presença do fator gás-petróleo e suas rotas, de indivíduos com bandeiras patrióticas, nacionalistas ou religiosas, e de tratados de defensa mútua entre os EUA e algum vizinho do país perseguido: Polônia, limítrofe com a Ucrânia; Turquia, que compartilha fronteira com a Síria e o Cáucaso; e Japão, nas proximidades da China.
Os EUA pretendem impedir que a integração econômica entre a Ásia e a Europa (a Ucrânia ia fazer uma ligação entre a União Eurasiática e a UE) seja feita com o controle de fluxo de energia no mundo e que esta seja comercializada em dólares. Os que se opuserem serão castigados duramente.
Barak Obama, quem os Neocon acusam de analfabeto na política internacional, se lançou em uma façanha titânica, brincando de roleta russa com a China.
A avareza voltará a estourar o saco, assim como a miopia política da Casa Branca reforçará as relações militares entre China e Rússia (enquanto a aliança entre EUA e UE se enfraquece nestes conflitos). Esses países já preparam manobras navais conjuntas no Mar Oriental da China para finais de maio, entre outros projetos defensivos.
(*) Nazanín Armanian é iraniana e residente em Barcelona desde 1983, data em que se exilou de seu país. É licenciada em Ciência Política e leciona em cursos on-line da Universidade de Barcelona. É também colunista do jornal on-line Publico.es.
Tradução: Daniella Cambaúva
Enquanto planeja um enfrentamento direto com a Rússia na Ucrânia, Obama visita seus aliados asiáticos no marco de sua política para conter avanço da China.
Nem em seus melhores anos de imperialismo Washington tinha se atrevido a atuar como um suicida: enquanto planeja um enfrentamento direto com a Rússia na Ucrânia, Barak Obama visita seus aliados asiáticos (Japão, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas), no marco de sua política de “Volta à Ásia”, para conter o avanço da China no mundo. A batalha ocorre entre China e Japão (ou EUA?), pelo controle do estratégico Mar Oriental da China (reclamado por Pequim quase em sua totalidade) que, além de ser rota do fornecimento de energia e de outras mercadorias, é o depósito de grandes recursos naturais, de gás e de petróleo; pela soberania das rochas militarizáveis Diaoyu/Senkaku, e também pelo Estreito de Malaca, que une o Mar da China Oriental com o oceano Indico e a Europa (ver: Y ahora, a por China). Com sua propaganda anti-China, os EUA pretendem assustar seus vizinhos, reforçando as instalações militares que possuem na região, além de exercer pressão sobre tais países para que ingressem na OTAN.
Trata-se do avanço dos chamados “caçadores de dragões” da administração Obama sobre os “amigos do Panda”: contenção e enfrentamento em vez de acordos com o gigante asiático.
Até o momento, Washington tinha se centrado em cortar o abastecimento de energia para seu rival econômico (da Líbia, do Irã ou do Sudão, entre outros). Agora, entretanto, está planejando outras opções possíveis de uma guerra: segundo o Wall Street Journal, sob o nome AirSea battle, o Pentágono planeja aumentar as operações de vigilância perto da China, deslocar aviões de caça e usar mísseis para destruir a infraestrutura militar do inimigo e enviar um porta-aviões ao Estreito de Taiwan.
O jornal esconde que Washington, além disso, costuma usar grupos terroristas para desestabilizar o país que já caiu em desgraça. Do mesmo modo que o massacre que aconteceu recentemente na Ucrânia por criminosos coincidiu com a presença de John Brennan, diretor da CIA, e de Joe Biden, vice-presidente dos EUA, em Kiev, o atentado em uma estação de trem em Xinjiang, região muçulmana da China, na fronteira com o Afeganistão e com o Paquistão (ambos aliados de Washington), aconteceu depois da viagem de Obama pela Ásia.
Pinçar a partir do Cáucaso
A linha vermelha que Moscou impôs para si própria, que corresponderia a considerar “o ataque aos cidadãos russos na Ucrânia como um ataque à própria Rússia”, pode se transformar em uma armadilha mortal para Putin. É justo o que Washington busca: envolvê-lo em uma longa guerra de desgaste na Ucrânia para, desta maneira, prejudicar sua economia, reduzir seu peso nas relações internacionais (agora que a Rússia tinha se transformado em mediadora dos conflitos como o do Irã e da Síria), parar o processo de melhora de sua relação com os Estados ex-soviéticos, privar a Velha Europa de um sólido sócio comercial (e de vender a eles seu excedente de gás), obrigando os europeus a participarem de sanções econômicas contra Moscou e inclusive a entrar em guerra contra seu próprio provedor de gás. E, como não, dar um novo protagonismo à OTAN.
O Pentágono vai deslocar mais paraquedistas na Polônia, na Estônia, na Letônia e na Lituânia. Enviará um navio de guerra ao Mar Negro e, em alguns meses, vai realizar a manobra da Operação Tridente com a Ucrânia.
Putin pode pedir a presença das forças de paz internacionais para proteger os civis ucranianos, sejam ou não falantes de russo (ver: EEUU planea desmantelar la Federación Rusa), e prestar assistência a Síria ou a outras fronteiras de seu país %u200como com a Geórgia, parceira do Ocidente%u200, de onde novos golpes estão sendo preparados.
A morte, em janeiro, do autoproclamado emir do Emirato del Cáucaso, o terrorista checheno Doku Khamatovich Umarov, desencadeou fatos destacáveis:
1) Que seu sucessor é um daguestanês chamado Alí Abú-Muhammad, que está transformando um movimento nacionalista checheno em um movimento islâmico e, portanto, capaz de acolher milhares de jihadistas de outras nacionalidades.
2) Já não se trata de islamizar o Cáucaso Norte e a independência da Chechênia, mas de estabelecer um Estado autônomo islâmico sunita do Mar Negro ao Mar Cáspio.
Com o objetivo de minar a segurança nacional da Rússia, estão agindo contra os gaseodutos, redes de transporte e lugares turísticos no interior da Federação Russa. Este grupo coopera com o Frente Al Nusra, da Síria, e os mujahidin do Tartaristão, ambos na linha da Al Qaeda.
A disputa entre Rússia e Geórgia pela soberania de Abecásia e na Ossétia do Sul continua aberta e em qualquer momento pode se transformar em um novo conflito bélico, talvez depois do próximo setembro, quando a Geórgia já tiver se transformado em membro da OTAN.
***
O que chama atenção nos últimos cenários tensos são: a presença do fator gás-petróleo e suas rotas, de indivíduos com bandeiras patrióticas, nacionalistas ou religiosas, e de tratados de defensa mútua entre os EUA e algum vizinho do país perseguido: Polônia, limítrofe com a Ucrânia; Turquia, que compartilha fronteira com a Síria e o Cáucaso; e Japão, nas proximidades da China.
Os EUA pretendem impedir que a integração econômica entre a Ásia e a Europa (a Ucrânia ia fazer uma ligação entre a União Eurasiática e a UE) seja feita com o controle de fluxo de energia no mundo e que esta seja comercializada em dólares. Os que se opuserem serão castigados duramente.
Barak Obama, quem os Neocon acusam de analfabeto na política internacional, se lançou em uma façanha titânica, brincando de roleta russa com a China.
A avareza voltará a estourar o saco, assim como a miopia política da Casa Branca reforçará as relações militares entre China e Rússia (enquanto a aliança entre EUA e UE se enfraquece nestes conflitos). Esses países já preparam manobras navais conjuntas no Mar Oriental da China para finais de maio, entre outros projetos defensivos.
(*) Nazanín Armanian é iraniana e residente em Barcelona desde 1983, data em que se exilou de seu país. É licenciada em Ciência Política e leciona em cursos on-line da Universidade de Barcelona. É também colunista do jornal on-line Publico.es.
Tradução: Daniella Cambaúva
Sheherazade e o Reino da Barbárie
Luís Antônio Albiero
Sheherazade contava histórias ao marido, rei da Pérsia que, traído pela primeira esposa, matara a infiel e a todas as que a sucederam, com as quais se casara posteriormente, ceifando-lhes a vida logo nas noites das respectivas nùpcias. Contando histórias instigantes que nunca concluía, a esperta Sheherezade adiou sua morte e trouxe sossego ao povo por mil e uma noites.
No Brasil, a vida real parece oposta à da lenda persa. Aqui, contando histórias reais noite após noite, por meio da televisão, Rachel Sheherazade e suas versões masculinas - os Datenas e Marcelos Rezendes da programação nossa de cada dia - trouxeram desassossego ao povo brasileiro. Com sua voz firme e seus exuberantes olhos claros, a encantadora apresentadora de cabelos louros disseminou o ódio contra os meninos pretos e pobres da periferia, avalizando e incitando o justiçamento, a prática de uma suposta "justiça" com mãos próprias, ainda que à custa da vida de um infeliz acusado sem prova de furto ou outro crime.
A humanidade evoluiu da barbárie à civilização e encontrou no direito e na politica os meios pacificos e equilibrados de praticar justiça, a partir da preservação da dignidade humana, erigindo a presunção da inocência a um valor a ser respeitado por todos e para todos e delegando ao estado a apuração dos fatos, com garantia do devido processo legal, do direito à ampla defesa e ao contraditório, até chegar à definição e execução das penas dos culpados. O avanço dos meios de comunicação contribuiu significativamente para a difusão desses conceitos e para a paz social no âmbito territorial mais amplo possível.
Os modernos meios de intercomunicação social, porém, na medida em que experimentam natural evolução, parecem sofrer grave inflexão histórica, passando a contribuir para um célere retrocesso aos tempos primitivos. A exortação da apresentadora do SBT abriu as comportas para uma sequência de linchamentos que se seguiram ao do menino negro amarrado ao poste, mas não passou de um grão de areia ao lado de infindáveis linchamentos morais que visualizamos diuturnamente nas redes sociais. Essa escalada de estímulos à violencia culminou com o recente episódio ocorrido no Guarujá, onde a violência virtual saiu da tela do Facebook e se transformou em tragédia real, por conta de um boato, uma mal formulada suposição de culpa, onde a patuleia, inebriada com as histórias raivosas da Sheherazade moderna e seus assemelhados masculinos, substituiu o papel do estado e, sumariamente, sem sequer ouvir a verrsão da acusada, decretou e executou a pena de morte contra uma dona-de-casa inocente.
Assome-se a isso a violência arbitrária praticada ao vivo e em rede nacional por ministros de nossa mais alta Corte no julgamento da ação apelidada "mensalão", como que abonando e estimulando, com suas condenações sem prova e baseadas em presunções e juízos políticos, as ações sanguinolentas do populacho. Aos poucos, vamos abrindo mão de nossa capacidade de nos indignarmos, substituindo-a por uma indignação seletiva, permitindo passivamente o restabelecimento do reino da barbárie, patrocinado por meios de comunicação que são concessões públicas, em relação aos quais a sociedade brasileira não exerce qualquer forma de controle.
Sheherazade contava histórias ao marido, rei da Pérsia que, traído pela primeira esposa, matara a infiel e a todas as que a sucederam, com as quais se casara posteriormente, ceifando-lhes a vida logo nas noites das respectivas nùpcias. Contando histórias instigantes que nunca concluía, a esperta Sheherezade adiou sua morte e trouxe sossego ao povo por mil e uma noites.
No Brasil, a vida real parece oposta à da lenda persa. Aqui, contando histórias reais noite após noite, por meio da televisão, Rachel Sheherazade e suas versões masculinas - os Datenas e Marcelos Rezendes da programação nossa de cada dia - trouxeram desassossego ao povo brasileiro. Com sua voz firme e seus exuberantes olhos claros, a encantadora apresentadora de cabelos louros disseminou o ódio contra os meninos pretos e pobres da periferia, avalizando e incitando o justiçamento, a prática de uma suposta "justiça" com mãos próprias, ainda que à custa da vida de um infeliz acusado sem prova de furto ou outro crime.
A humanidade evoluiu da barbárie à civilização e encontrou no direito e na politica os meios pacificos e equilibrados de praticar justiça, a partir da preservação da dignidade humana, erigindo a presunção da inocência a um valor a ser respeitado por todos e para todos e delegando ao estado a apuração dos fatos, com garantia do devido processo legal, do direito à ampla defesa e ao contraditório, até chegar à definição e execução das penas dos culpados. O avanço dos meios de comunicação contribuiu significativamente para a difusão desses conceitos e para a paz social no âmbito territorial mais amplo possível.
Os modernos meios de intercomunicação social, porém, na medida em que experimentam natural evolução, parecem sofrer grave inflexão histórica, passando a contribuir para um célere retrocesso aos tempos primitivos. A exortação da apresentadora do SBT abriu as comportas para uma sequência de linchamentos que se seguiram ao do menino negro amarrado ao poste, mas não passou de um grão de areia ao lado de infindáveis linchamentos morais que visualizamos diuturnamente nas redes sociais. Essa escalada de estímulos à violencia culminou com o recente episódio ocorrido no Guarujá, onde a violência virtual saiu da tela do Facebook e se transformou em tragédia real, por conta de um boato, uma mal formulada suposição de culpa, onde a patuleia, inebriada com as histórias raivosas da Sheherazade moderna e seus assemelhados masculinos, substituiu o papel do estado e, sumariamente, sem sequer ouvir a verrsão da acusada, decretou e executou a pena de morte contra uma dona-de-casa inocente.
Assome-se a isso a violência arbitrária praticada ao vivo e em rede nacional por ministros de nossa mais alta Corte no julgamento da ação apelidada "mensalão", como que abonando e estimulando, com suas condenações sem prova e baseadas em presunções e juízos políticos, as ações sanguinolentas do populacho. Aos poucos, vamos abrindo mão de nossa capacidade de nos indignarmos, substituindo-a por uma indignação seletiva, permitindo passivamente o restabelecimento do reino da barbárie, patrocinado por meios de comunicação que são concessões públicas, em relação aos quais a sociedade brasileira não exerce qualquer forma de controle.
segunda-feira, maio 05, 2014
Como o establishment dos EUA quer apresentar o que acontece na Ucrânia
O establishment norte-americano sempre chamou seus adversários de Hitler. Agora, chegou a vez do presidente russo Vladimir Putin ser apresentado como tal.
Vicenç Navarro - Público.es
Atualmente, o establishment (estrutura de poder financeiro, econômico, político e midiático) norte-americano, ou seja, o 1% que governa o país (com a assistência de outros 9%), está tentando criar uma leitura do que está acontecendo na Ucrânia, onde a responsabilidade pelas tensões – que poderiam desembocar em um conflito mundial – é das aspirações imperialistas da Rússia, presidida pelo sr. Putin, quem a ex-secretária Hillary Clinton e o senador John McCain definiram como o novo Hitler. E mostram a anexação da Crimeia como uma prova irrefutável disso. E os maiores meios de comunicação espanhóis, conhecidos por seu servilismo e docilidade com esse establishment midiático, reproduzem, sem fissuras, tal percepção.
Vamos por partes, começando pela equiparação de Putin a Hitler. Primeiramente, é preciso destacar, como bem afirma o professor Floyd Rudmin (de família ucraniana, certamente), da Universidade de Tromsø, na Noruega, em seu artigo “Viewing the Ukraine Crisis From Russia’s Perspective”, do qual tiro muitos dos dados que apresento neste artigo, o establishment norte-americano (a partir de agora EUA-NSA) sempre chamou seus adversários de Hitler. Hillary Clinton definiu Assad como Hitler, John McCain chamou Fidel Castro de Hitler, George Bush fez o mesmo com Saddam Husein e Donald Rumself também chamou o presidente Chávez, da Venezuela, de Hitler. No passado, figuras dos EUA chamaram de Hitler o presidente Allende, do Chile, Ortega (Nicarágua), Arafat (Palestina)... e uma longa lista de dirigentes. E o último da lista é o sr. Putin.
Classificar o presidente da Rússia como Hitler já alcança nível recorde, mostrando o grau de ignorância e de insensibilidade dos EUA, pois foram a Rússia e as outras repúblicas da União Soviética que derrotaram Hitler. Ao contrário do que Hollywood mostrou, as tropas nazistas foram derrotadas predominantemente pelas tropas da União Soviética e não pelas dos Estados Unidos. Aqui estão os dados que comprovam.
Em 1941, Hitler criou o maior exército que já existira na Europa, com 3.2 milhões de soldados alemães e 500 mil soldados da Itália e da Romênia. Esse exército invadiu a Rússia e o resto da União Soviética. Nunca conseguiu conquistar Moscou, nem Leningrado, nem Stalingrado, nem os campos de petróleo do Mar Cáspio. As mortes russas e soviéticas foram enormes. Foram 13 milhões de soldados e mais de 20 milhões de civis. Somente na localidade de Leningrado houve 1.2 milhões de civis e 200 mil soldados mortos. Em contrapartida, o número de mortos norte-americanos durante toda a Segunda Guerra Mundial foi de 418 mil soldados e apenas dois mil civis.
Foram a União Soviética e o Exército Vermelho que primordialmente derrotaram Hitler e o nazismo, como bem lembrou Winston Churchill. Depois da derrota nazista em Stalingrado em fevereiro de 1943 e na batalha de Kursk em agosto do mesmo ano, a Alemanha começou a perder a guerra. O dia da vitória final aconteceu apenas um ano depois. Ao terminar o conflito, 90% de todos os mortos causados pelo Exército nazista eram cidadãos soviéticos, russos em sua maioria. O fato de os EUA chamarem atualmente o presidente da Rússia de Hitler rebaixa qualquer fronteira da decência que deveria vigorar inclusive entre adversários. Os EUA exerceram um papel menor na derrota de Hitler na Europa (sua maior contribuição foi no Pacífico).
Quem é mais imperialista?
Se analisarmos o mapa de bases militares no mundo, podemos ver que existem bases militares norte-americanos por todo o globo, especialmente ao redor da Rússia e da China. Não há bases militares russas ao redor dos EUA e há muito poucas fora da Rússia. São dados fáceis de comprovar. Quem tem, portanto, mais anseio de expandir seu peso militar e sua influência? Não há dúvidas de que o governo federal dos EUA é o mais expansionista.
Na verdade, um dado deliberadamente ignorado na mídia norte-americana é que, quando o então presidente da União Soviética, o sr. Gorbachev, aceitou a reunificação da Alemanha, o fez com uma condição – aceita pelos EUA (governo de George H. W. Bush) e pela Alemanha (chanceler Kohl, pai da unificação alemã) - que a OTAN não se expandisse para o Leste, o que não foi respeitado.
Expandiu-se, na verdade, para cercar ainda mais a Rússia. E, conforme conversas telefônicas interceptadas e publicadas registraram, havia um plano (explicitado por Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt) do Departamento de Estado para trocar o governo democraticamente eleito da Ucrânia por um governo títere (como já aconteceu).
Não é, portanto, surpreendente que o governo russo, no recente Tratado de Genebra, ressalte a necessidade de a Ucrânia não se transformar em membro da OTAN, o que continua sendo um desejo dos EUA. Conforme afirma o professor Rudmin, a Rússia foi invadida constantemente em sua história, sendo a última delas a invasão nazista. Os EUA nunca sofreram uma invasão em seu território.
E por último, está a anexação da Crimeia como mostra do suposto imperialismo russo. E a melhor maneira de responder a essa suposta prova de imperialismo soviético é olhar para a própria história dos EUA. Em 1835, os norte-americanos (camponeses em sua grande maioria) que estavam no território mexicano do Texas, sentiram-se ameaçados pelo governo mexicano, governo do Estado a que pertenciam. Tal ameaça forçou que esses cidadãos pedissem a independência e negociassem mais tarde sua anexação aos EUA. O governo dos EUA deveria se lembrar de sua história e, portanto, compreender que, se os cidadãos russos da Ucrânia se sentiram ameaçados quando o novo governo da Ucrânia liderou um golpe contra um governo corrupto – mas democraticamente eleito – e tomou medidas ameaçadoras contra a população russa, eles se tornaria independente e pediria depois sua anexação e união à Rússia. Na realidade, a Crimeia já havia sido russa durante 170 anos, o que explica ainda mais seu desejo de união com a Rússia.
Bem, encerro acrescentando um pedido. Que o leitor distribua amplamente meus artigos sobre a Ucrânia (“Lo que no se está diciendo sobre Ucrania”, “Lo que no se está diciendo sobre Ucrania. Parte II”; “Las falsedades de los mayores medios españoles en su cobertura de Ucrania”; e “El silenciado movimiento de tropas estadounidenses cerca de Ucrania”, visto que a falta de diversidade dos meios de comunicação explica que se esteja criando uma histeria que pode nos levar a uma Terceira Guerra Mundial. Acreditem em mim, pois isto é possível. Daí a necessidade de a população se informar, o que não está acontecendo. Por favor, façam isso!
(*) Catedrático de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra e Professor de Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins.
Tradução: Daniella Cambaúva
Vicenç Navarro - Público.es
Atualmente, o establishment (estrutura de poder financeiro, econômico, político e midiático) norte-americano, ou seja, o 1% que governa o país (com a assistência de outros 9%), está tentando criar uma leitura do que está acontecendo na Ucrânia, onde a responsabilidade pelas tensões – que poderiam desembocar em um conflito mundial – é das aspirações imperialistas da Rússia, presidida pelo sr. Putin, quem a ex-secretária Hillary Clinton e o senador John McCain definiram como o novo Hitler. E mostram a anexação da Crimeia como uma prova irrefutável disso. E os maiores meios de comunicação espanhóis, conhecidos por seu servilismo e docilidade com esse establishment midiático, reproduzem, sem fissuras, tal percepção.
Vamos por partes, começando pela equiparação de Putin a Hitler. Primeiramente, é preciso destacar, como bem afirma o professor Floyd Rudmin (de família ucraniana, certamente), da Universidade de Tromsø, na Noruega, em seu artigo “Viewing the Ukraine Crisis From Russia’s Perspective”, do qual tiro muitos dos dados que apresento neste artigo, o establishment norte-americano (a partir de agora EUA-NSA) sempre chamou seus adversários de Hitler. Hillary Clinton definiu Assad como Hitler, John McCain chamou Fidel Castro de Hitler, George Bush fez o mesmo com Saddam Husein e Donald Rumself também chamou o presidente Chávez, da Venezuela, de Hitler. No passado, figuras dos EUA chamaram de Hitler o presidente Allende, do Chile, Ortega (Nicarágua), Arafat (Palestina)... e uma longa lista de dirigentes. E o último da lista é o sr. Putin.
Classificar o presidente da Rússia como Hitler já alcança nível recorde, mostrando o grau de ignorância e de insensibilidade dos EUA, pois foram a Rússia e as outras repúblicas da União Soviética que derrotaram Hitler. Ao contrário do que Hollywood mostrou, as tropas nazistas foram derrotadas predominantemente pelas tropas da União Soviética e não pelas dos Estados Unidos. Aqui estão os dados que comprovam.
Em 1941, Hitler criou o maior exército que já existira na Europa, com 3.2 milhões de soldados alemães e 500 mil soldados da Itália e da Romênia. Esse exército invadiu a Rússia e o resto da União Soviética. Nunca conseguiu conquistar Moscou, nem Leningrado, nem Stalingrado, nem os campos de petróleo do Mar Cáspio. As mortes russas e soviéticas foram enormes. Foram 13 milhões de soldados e mais de 20 milhões de civis. Somente na localidade de Leningrado houve 1.2 milhões de civis e 200 mil soldados mortos. Em contrapartida, o número de mortos norte-americanos durante toda a Segunda Guerra Mundial foi de 418 mil soldados e apenas dois mil civis.
Foram a União Soviética e o Exército Vermelho que primordialmente derrotaram Hitler e o nazismo, como bem lembrou Winston Churchill. Depois da derrota nazista em Stalingrado em fevereiro de 1943 e na batalha de Kursk em agosto do mesmo ano, a Alemanha começou a perder a guerra. O dia da vitória final aconteceu apenas um ano depois. Ao terminar o conflito, 90% de todos os mortos causados pelo Exército nazista eram cidadãos soviéticos, russos em sua maioria. O fato de os EUA chamarem atualmente o presidente da Rússia de Hitler rebaixa qualquer fronteira da decência que deveria vigorar inclusive entre adversários. Os EUA exerceram um papel menor na derrota de Hitler na Europa (sua maior contribuição foi no Pacífico).
Quem é mais imperialista?
Se analisarmos o mapa de bases militares no mundo, podemos ver que existem bases militares norte-americanos por todo o globo, especialmente ao redor da Rússia e da China. Não há bases militares russas ao redor dos EUA e há muito poucas fora da Rússia. São dados fáceis de comprovar. Quem tem, portanto, mais anseio de expandir seu peso militar e sua influência? Não há dúvidas de que o governo federal dos EUA é o mais expansionista.
Na verdade, um dado deliberadamente ignorado na mídia norte-americana é que, quando o então presidente da União Soviética, o sr. Gorbachev, aceitou a reunificação da Alemanha, o fez com uma condição – aceita pelos EUA (governo de George H. W. Bush) e pela Alemanha (chanceler Kohl, pai da unificação alemã) - que a OTAN não se expandisse para o Leste, o que não foi respeitado.
Expandiu-se, na verdade, para cercar ainda mais a Rússia. E, conforme conversas telefônicas interceptadas e publicadas registraram, havia um plano (explicitado por Victoria Nuland e Geoffrey Pyatt) do Departamento de Estado para trocar o governo democraticamente eleito da Ucrânia por um governo títere (como já aconteceu).
Não é, portanto, surpreendente que o governo russo, no recente Tratado de Genebra, ressalte a necessidade de a Ucrânia não se transformar em membro da OTAN, o que continua sendo um desejo dos EUA. Conforme afirma o professor Rudmin, a Rússia foi invadida constantemente em sua história, sendo a última delas a invasão nazista. Os EUA nunca sofreram uma invasão em seu território.
E por último, está a anexação da Crimeia como mostra do suposto imperialismo russo. E a melhor maneira de responder a essa suposta prova de imperialismo soviético é olhar para a própria história dos EUA. Em 1835, os norte-americanos (camponeses em sua grande maioria) que estavam no território mexicano do Texas, sentiram-se ameaçados pelo governo mexicano, governo do Estado a que pertenciam. Tal ameaça forçou que esses cidadãos pedissem a independência e negociassem mais tarde sua anexação aos EUA. O governo dos EUA deveria se lembrar de sua história e, portanto, compreender que, se os cidadãos russos da Ucrânia se sentiram ameaçados quando o novo governo da Ucrânia liderou um golpe contra um governo corrupto – mas democraticamente eleito – e tomou medidas ameaçadoras contra a população russa, eles se tornaria independente e pediria depois sua anexação e união à Rússia. Na realidade, a Crimeia já havia sido russa durante 170 anos, o que explica ainda mais seu desejo de união com a Rússia.
Bem, encerro acrescentando um pedido. Que o leitor distribua amplamente meus artigos sobre a Ucrânia (“Lo que no se está diciendo sobre Ucrania”, “Lo que no se está diciendo sobre Ucrania. Parte II”; “Las falsedades de los mayores medios españoles en su cobertura de Ucrania”; e “El silenciado movimiento de tropas estadounidenses cerca de Ucrania”, visto que a falta de diversidade dos meios de comunicação explica que se esteja criando uma histeria que pode nos levar a uma Terceira Guerra Mundial. Acreditem em mim, pois isto é possível. Daí a necessidade de a população se informar, o que não está acontecendo. Por favor, façam isso!
(*) Catedrático de Políticas Públicas da Universidade Pompeu Fabra e Professor de Políticas Públicas da Universidade Johns Hopkins.
Tradução: Daniella Cambaúva
As falácias neoliberais sobre o trabalho
Entre suas propostas de desregulamentação, o neoliberalismo colocou ênfase na flexibilização laboral. Por trás dessas palavras está a precarização do trabalho.
por Emir Sader
Entre suas propostas de desregulamentação, o neoliberalismo colocou forte ênfase na “flexibilização laboral”. Por trás dessa palavra atraente - assim como a de “informalização” – o que se esconde é a precarizacao das relações de trabalho, é o trabalho sem carteira de trabalho.
Esta foi uma das transformações mais importantes pregadas pelo neoliberalismo. Junto a ela promoveu a invisibilização das temáticas do mundo do trabalho. O aumento do desemprego e do que eles chamam de “desemprego tecnológico”, alegando que a tecnologia dispensa mão de obra, produzindo mais com menos trabalhadores, com aumentos de produtividade.
Se colocaria para o trabalhador a alternativa entre seguir empregado, mas baixando a produtividade e a competitividade da empresa e do próprio país ou sair do mercado para melhorar sua qualificação e retornar depois. Na verdade, não existe o tal “desemprego tecnológico”.
Quando há um aumento de produtividade, significa que se pode produzir a mesma mercadoria em menos tempo, digamos, na metade do tempo. Não se deduz imediatamente daí, que se deve expulsar tralhadores dos seus empregos. Há três alternativas: ou se produz o dobro da mesma mercadoria e se mantem a todos os trabalhadores empregados. Ou se produz a mesma quantidade de mercadorias e se diminui a jornada de trabalho pela metade. Ou então – que é o costume acontecer – se continua produzindo a mesma quantidade de mercadorias e se manda embora a metade dos trabalhadores.
Não é a tecnologia que manda embora aos trabalhadores, não é ela que desemprega. É a luta de classes, é quem se apropria do desenvolvimento tecnológico, que pode servir seja para diminuira a jornada de trabalho ou para aumentar os lucros dos empresários.
Quando foi inventada a luz elétrica, a primeira consequência nao foi a melhoria das condições de vida na casa das pessoas, mas a introdução da jornada noturna de trabalho. A culpa não foi do Thomas Edson, mas da apropriação dessa invenção para estender a jornada de trabalho e a super exploração dos trabalhadores.
Desde que se fez a crítica do paradigma da centralidade do trabalho, como uma visão reducionista em relação às outras contradições, se impôs uma tendência oposta, a de fazer do trabalho uma atividade menor, sem transcendência. Exatamente quando mais gente que nunca vive do seu trabalho. De atividades heterogêneas, diversificadas, frequentemente com o mesmo trabalhador em vários empregos ao mesmo tempo. Mas trabalham homens e mulheres, idosos, jovens e crianças, brancos e negros – todos ou quase todos vivem do seu trabalho.
No entanto o tema do trabalho quase desapareceu, inclusive no pensamento social, em que a sociologia do trabalho passou, em poucas décadas, de uns dos ramos mais buscados a um especialidade entre outras. A mídia invisibiliza a atividade que mais ocupa as pessoas no mundo – a atividade laboral. Como se a tecnologia tivesse reduzido o trabalho a uma atividade virtual, sem esforço físico, sem desgaste de energia, sem a super exploração de jornadas de trabalho esgotadoras e intermináveis.
Para completar, tentam sempre fazer do primeiro de maio o Dia do trabalho e não do trabalhador.
por Emir Sader
Entre suas propostas de desregulamentação, o neoliberalismo colocou forte ênfase na “flexibilização laboral”. Por trás dessa palavra atraente - assim como a de “informalização” – o que se esconde é a precarizacao das relações de trabalho, é o trabalho sem carteira de trabalho.
Esta foi uma das transformações mais importantes pregadas pelo neoliberalismo. Junto a ela promoveu a invisibilização das temáticas do mundo do trabalho. O aumento do desemprego e do que eles chamam de “desemprego tecnológico”, alegando que a tecnologia dispensa mão de obra, produzindo mais com menos trabalhadores, com aumentos de produtividade.
Se colocaria para o trabalhador a alternativa entre seguir empregado, mas baixando a produtividade e a competitividade da empresa e do próprio país ou sair do mercado para melhorar sua qualificação e retornar depois. Na verdade, não existe o tal “desemprego tecnológico”.
Quando há um aumento de produtividade, significa que se pode produzir a mesma mercadoria em menos tempo, digamos, na metade do tempo. Não se deduz imediatamente daí, que se deve expulsar tralhadores dos seus empregos. Há três alternativas: ou se produz o dobro da mesma mercadoria e se mantem a todos os trabalhadores empregados. Ou se produz a mesma quantidade de mercadorias e se diminui a jornada de trabalho pela metade. Ou então – que é o costume acontecer – se continua produzindo a mesma quantidade de mercadorias e se manda embora a metade dos trabalhadores.
Não é a tecnologia que manda embora aos trabalhadores, não é ela que desemprega. É a luta de classes, é quem se apropria do desenvolvimento tecnológico, que pode servir seja para diminuira a jornada de trabalho ou para aumentar os lucros dos empresários.
Quando foi inventada a luz elétrica, a primeira consequência nao foi a melhoria das condições de vida na casa das pessoas, mas a introdução da jornada noturna de trabalho. A culpa não foi do Thomas Edson, mas da apropriação dessa invenção para estender a jornada de trabalho e a super exploração dos trabalhadores.
Desde que se fez a crítica do paradigma da centralidade do trabalho, como uma visão reducionista em relação às outras contradições, se impôs uma tendência oposta, a de fazer do trabalho uma atividade menor, sem transcendência. Exatamente quando mais gente que nunca vive do seu trabalho. De atividades heterogêneas, diversificadas, frequentemente com o mesmo trabalhador em vários empregos ao mesmo tempo. Mas trabalham homens e mulheres, idosos, jovens e crianças, brancos e negros – todos ou quase todos vivem do seu trabalho.
No entanto o tema do trabalho quase desapareceu, inclusive no pensamento social, em que a sociologia do trabalho passou, em poucas décadas, de uns dos ramos mais buscados a um especialidade entre outras. A mídia invisibiliza a atividade que mais ocupa as pessoas no mundo – a atividade laboral. Como se a tecnologia tivesse reduzido o trabalho a uma atividade virtual, sem esforço físico, sem desgaste de energia, sem a super exploração de jornadas de trabalho esgotadoras e intermináveis.
Para completar, tentam sempre fazer do primeiro de maio o Dia do trabalho e não do trabalhador.
A tarefa de Lula
Aécio preconiza processo de desenvolvimento flutuante. Uma montanha russa ordenada pelo livre fluxo dos capitais, com seu carrossel de arrocho e desemprego.
por: Saul Leblon
A decisão tomada no Encontro Nacional do PT de dar à reforma política e à democracia a centralidade que lhes cabe na luta pelo desenvolvimento não pode ser subestimada.
É mais que uma inflexão de método.
Vem rejuvenescer a meta histórica –esgarçada sob o peso da responsabilidade institucional e da correlação de forças, mas também pelo estiolamento ideológico de alguns setores do partido-- de construir neste país uma verdadeira democracia social.
Aquela que se ergue a contrapelo da lógica capitalista, e propicia às grandes massas que não detém a riqueza, mesmo assim, um poder de voz e peso na ordenação da sociedade e da economia.
Há consequências.
E elas não são desprezíveis.
Dilma sintetizou a principal delas em uma frase de contundente antagonismo com aquilo que tem sido dito de forma cifrada ou explícita pelos candidatos do dinheiro grosso:
‘Não fomos eleitos para promover o arrocho contra o trabalhador’.
O arrocho é a operação intrínseca à agenda ortodoxa que, na opinião do próprio presidenciável Aécio Neves, interliga a sua candidatura à de Campos e assemelhados.
É tudo a mesma sopa.
No fundo foi isso que disse o tucano na semana passada, em ato falho, num cenário propício: o clube dos endinheirados, em Comandatuba, onde ele e Campos se exibiram aos donos do país, sob a batuta do animador Dória Jr.
Não foi uma agenda de exceção.
Dias antes, conforme o cada vez mais insuspeito jornal Valor Econômico, o ex-governador mineiro e seu fiador no mercado, Armínio Fraga, estiveram na sede do Itaú, em São Paulo, para falar a clientes milionários do banco .
Membros de uma confraria que, segundo o mesmo Valor, tem R$ 577 bilhões empoçados no sistema bancário, os rentistas do Itaú estão se lixando para as urgências do investimento brasileiro.
Seu país é a taxa de juro.
Essa linha de frente daquilo que Keynes definia como ‘a obsessão mórbida pela liquidez’, ouviu Aécio e Armínio com atenção prestativa.
Ao final, aplaudiu-os de pé.
A razão da empatia não foi revelada pelo igualmente prestativo Valor.
Mas uma coisa é certa: se foi pronunciada, dificilmente a palavra arrocho teve ali a mesma conotação empregada por Dilma no encontro do PT.
O antagonismo retórico, de qualquer forma, não basta.
A luta pela reeleição desta vez se dá em condições de beligerância que prometem suplantar as de 2002 e a do cerco de 2006 ensejado pela farsa do ‘mensalão’.
O combate à quase insurgência conservadora --que outro nome dar a isso que figura como uma convocação diária ao extermínio do PT e de seu governo?—precisa ir além dos enunciados.
Aécio e assemelhados preconizam um processo de desenvolvimento flutuante.
Uma montanha russa ordenada pelo livre fluxo dos capitais, portanto, entregue à inconstância da especulação financeira, com seu carrossel de bolhas, colapso e desemprego.
A isso dá-se o nome de mercados autorreguláveis.
A resposta à cosmologia da incerteza só pode ser política.
Mas, sobretudo, deve ser imediatamente palpável para ser crível e relevante nas condições de vale tudo impostas à disputa pelo campo conservador.
Significa dizer que um segundo governo Dilma precisa se tornar perceptível desde já, na campanha eleitoral.
Significa, ademais, que as resoluções anunciadas no Encontro do PT desenham um caminho sem volta que requer imediata transposição das palavras para os atos.
Entre eles, a imediata deflagração de um processo de negociações por um pacto pelo desenvolvimento, capaz de selar a nova identidade da agenda progressista –e de seu método de luta.
Trata-se de dar consequências ao propósito de deslocar a correlação de forças do país para uma democracia social, ancorada em ganhos de produtividade, crescimento, distribuição de renda e melhor qualidade de vida.
Um requisito crucial dessa travessia é a credibilidade de seu negociador .
Ademais da legitimidade própria, é imperativo que guarde sintonia estreita com a candidata-presidenta , que dificilmente poderia exercer esse papel de forma direta e imediata, por força de sua dupla função.
Esse personagem-ponte existe.
Chama-se Lula.
Tem tudo para ser o porta-voz de um compromisso claro de Dilma e do PT com a emancipação das grandes massas que saíram da miséria e as que ascenderam na pirâmide de renda nos últimos anos.
O conservadorismo fez do ‘centro da meta da inflação’ uma espécie de leilão público para escrutinar qual, dentre os seus candidatos, estaria disposto a ir mais fundo no arrocho monetário calibrado pela alta dos juros.
A mesma gincana pode ser observada em relação ao superávit primário. Ou à desregulação trabalhista.
Há ofertas cada vez mais explícitas de arrocho no mercado. E o dinheiro ensaia um levante da república argentária rumo a outubro, em intercurso obsceno com a mídia isenta (ideológicos são os blogs progressistas).
Sua bandeira-mestra é ampliar a fatia rentista na divisão da renda nacional.
A resposta de um pacto pelo desenvolvimento deve ser distinta em sua hierarquia de prioridades.
A fatia dos salários no PIB figura desde logo como sua espinha estruturante.
Muito se avançou em 12 anos de valorização do salário mínimo, formalização do mercado de trabalho e expansão do emprego.
Mas o fato é que a fatia do trabalhador na renda no país ainda está aquém do que foi no início dos anos 90.
No ciclo do tucano FHC, 1995 e 2002, essa participação decresceu.
Caiu de 48% para 42,4% do PIB, empurrada pelas políticas antipopulares conhecidas –entre elas o rebaixamento virulento do poder de compra do salário mínimo, a informalidade galopante e a depressão instalada no mercado de trabalho.
No período seguinte, 2002 até meados de 2010, a fatia do salário na renda brasileira cresceu de 42,4% para 43,4% . Mantém-se em torno disso na média dos últimos anos.
Qual a meta para esse decisivo guarda-chuva da justiça social num segundo governo Dilma?
Em Comandatuba ou no Itaú a pergunta não faz sentido.
Ela só faz sentido quando passa a existir um portador disposto a respondê-la afirmativamente.
É isso que cabe a um pacto pelo desenvolvimento a ser deflagrado desde já.
Trata-se de dar à deliberação do encontro do PT a sua dimensão de um caminho distinto e sem volta em relação à ganância rentista.
Mais que nunca, as mudanças requeridas pelo desenvolvimento brasileiro exigem a participação direta de seus interessados para serem efetivadas.
O 14º Encontro do PT resgatou essa convicção.
Trata-se agora de exercê-la – com a celeridade que a hora exige.
A miragem mexicana
Na última década, o modelo mexicano de abertura liberal, integração com os EUA, e livre comércio teve um desempenho extraordinariamente pior do que o do Brasil.
José Luís Fiori
Poucas pessoas inteligentes – fora da Inglaterra - ainda prestam atenção nas notícias da monarquia inglesa e da sua família real, em pleno século XXI. Mas o mesmo não se pode dizer da City, centro financeiro de Londres, e dos seus dois principais órgãos de imprensa e divulgação – o Financial Times, e o The Economist – que seguem tendo importância decisiva na formação das opiniões e dos consensos ideológicos dentro das elites liberais e conservadoras do mundo.
A escolha dos seus temas e o uso de sua linguagem nunca é casual. Como no caso recente do seu entusiasmo pelo México e seu modelo de desenvolvimento liberal e seu ataque cada vez mais estridente, ao “intervencionismo” da economia brasileira. Uma tomada de posição compreensível do ponto de vista ideológico, mas que não vem sendo confirmado pelos fatos.
Em 1994, o México assinou o Tratado de Livre Comercio da América do Norte/ NAFTA, junto com os EUA e Canadá, e nos últimos 20 anos tem sido absolutamente fiel ao livre-cambismo, incluindo sua adesão a Aliança do Pacífico, e à inciativa norte-americana do TPP. Por outro lado, nesse mesmo período, o México praticou uma política macroeconômica e financeira rigorosamente ortodoxa - em particular na última década - mantendo inflação baixa, cambio flexível, taxas de juros moderadas e amplo acesso ao crédito.
Mesmo assim, depois de duas décadas, o balanço dessa experiência ultraliberal deixa muito a desejar [1]. Como era de se prever o comercio exterior do país cresceu significativamente no período e passou – em termos absolutos - de U$ 60 bilhões em 1994, para U$ 400 bi em 2013. Mas nesse mesmo período, a economia mexicana teve um crescimento médio anual pífio, de 2,6%, sendo o crescimento per capita, de apenas 1,2%. O emprego industrial cresceu de forma setorial e vegetativa, e mesmo nas “maquiladoras”, foi de apenas 20%, algo em torno de 700 mil novos postos de trabalho. A participação dos salários na renda permaneceu em trono de 29% da renda nacional, e a pobreza absoluta da população mexicana aumentou significativamente.
Por fim, ao contrário do que havia sido previsto, a economia mexicana não se integrou nas “cadeias globais de produção”, a produtividade média da economia praticamente só cresceu de forma segmentada e vegetativa, e o “investimento direto estrangeiro” (o principal “premio” anunciado em troca da abertura da economia) não teve nenhuma alteração significativa.
Esse balanço fica ainda mais decepcionante quando se compara o desempenho do “modelo mexicano”, com o “modelo intervencionista” da economia brasileira, no período entre 2003 e 2012. Segundo dados publicados pelo Banco Mundial [2], e pelos Ministérios do Trabalho dos dois países, os números e as diferenças são realmente chocantes. Nesse período, a crescimento médio anual do PIB brasileiro, foi de 4,21%, o do México de 2,92%. O crescimento total a economia brasileira foi de 42,17%, o do México, de 29,29 %. As exportações brasileiras cresceram, a uma taxa anual de 6,59%, as do México, a uma taxa de 5,35%. O crescimento total das exportações brasileiras foi de 65.95%, o do México, foi de 53,35%. As importações brasileiras cresceram a uma taxa média anual de 17,33%, e as do México, a uma taxa de 6,75%. O crescimento total das importações no Brasil foi de 173,32%, e no México de apenas 67,54%.
Por outro lado, a renda per capita brasileira cresceu a uma taxa anual de 2,84%, e a do México, 1,42%; o crescimento total da renda no Brasil foi de 28,4%, e no México foi de 14,26%; e a participação dos salários na renda chegou a 45 % , no Brasil, e no México, a 29%. Nesse mesmo período, o Brasil criou 16 milhões de novos empregos formais, e o México 3.500 milhões; e a pobreza absoluta foi reduzida a 15,9%, no Brasil, e aumentou para 51,3%, no México.
Por fim, (pasme-se), entre 2002 e 2012, o “investimento direto estrangeiro” no Brasil, cresceu de U$ 16.590 milhões, para U$ 76.110 milhões de dólares, e no México, caiu de U$ 23. 932 milhões, em 2002, para U$ 15.4553 milhões, em 2012 ! Só para encerrar a comparação, em 2103 a economia brasileira cresceu 2,3%, em ( uma das maiores taxas entre as grandes economias do mundo) enquanto a economia mexicana cresceu 1,1%.
Isto posto, o elogio do México deve ser considerado um caso de má fé, fundamentalismo ideológico, ou estratégia internacional ? As três coisas ao mesmo tempo. Mas o que importa é o que dizem os números, e a conclusão é uma só: na última década, o “modelo mexicano” de abertura liberal, integração com os EUA, e livre comércio teve um desempenho extraordinariamente pior do que o “modelo intervencionista”, “heterodoxo” e “fechado”(apud FT e TE) da economia brasileira, junto com seu projeto de integração do Mercosul.
Notas
[1] Vide artigo do ex-ministro de Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda: “NAFTA´s mixed record”, publicado no numero da Revista Foreign Affairs,. de janeiro/fevereiro de 2014.
[2] www.data.worldbank.org
José Luís Fiori
Poucas pessoas inteligentes – fora da Inglaterra - ainda prestam atenção nas notícias da monarquia inglesa e da sua família real, em pleno século XXI. Mas o mesmo não se pode dizer da City, centro financeiro de Londres, e dos seus dois principais órgãos de imprensa e divulgação – o Financial Times, e o The Economist – que seguem tendo importância decisiva na formação das opiniões e dos consensos ideológicos dentro das elites liberais e conservadoras do mundo.
A escolha dos seus temas e o uso de sua linguagem nunca é casual. Como no caso recente do seu entusiasmo pelo México e seu modelo de desenvolvimento liberal e seu ataque cada vez mais estridente, ao “intervencionismo” da economia brasileira. Uma tomada de posição compreensível do ponto de vista ideológico, mas que não vem sendo confirmado pelos fatos.
Em 1994, o México assinou o Tratado de Livre Comercio da América do Norte/ NAFTA, junto com os EUA e Canadá, e nos últimos 20 anos tem sido absolutamente fiel ao livre-cambismo, incluindo sua adesão a Aliança do Pacífico, e à inciativa norte-americana do TPP. Por outro lado, nesse mesmo período, o México praticou uma política macroeconômica e financeira rigorosamente ortodoxa - em particular na última década - mantendo inflação baixa, cambio flexível, taxas de juros moderadas e amplo acesso ao crédito.
Mesmo assim, depois de duas décadas, o balanço dessa experiência ultraliberal deixa muito a desejar [1]. Como era de se prever o comercio exterior do país cresceu significativamente no período e passou – em termos absolutos - de U$ 60 bilhões em 1994, para U$ 400 bi em 2013. Mas nesse mesmo período, a economia mexicana teve um crescimento médio anual pífio, de 2,6%, sendo o crescimento per capita, de apenas 1,2%. O emprego industrial cresceu de forma setorial e vegetativa, e mesmo nas “maquiladoras”, foi de apenas 20%, algo em torno de 700 mil novos postos de trabalho. A participação dos salários na renda permaneceu em trono de 29% da renda nacional, e a pobreza absoluta da população mexicana aumentou significativamente.
Por fim, ao contrário do que havia sido previsto, a economia mexicana não se integrou nas “cadeias globais de produção”, a produtividade média da economia praticamente só cresceu de forma segmentada e vegetativa, e o “investimento direto estrangeiro” (o principal “premio” anunciado em troca da abertura da economia) não teve nenhuma alteração significativa.
Esse balanço fica ainda mais decepcionante quando se compara o desempenho do “modelo mexicano”, com o “modelo intervencionista” da economia brasileira, no período entre 2003 e 2012. Segundo dados publicados pelo Banco Mundial [2], e pelos Ministérios do Trabalho dos dois países, os números e as diferenças são realmente chocantes. Nesse período, a crescimento médio anual do PIB brasileiro, foi de 4,21%, o do México de 2,92%. O crescimento total a economia brasileira foi de 42,17%, o do México, de 29,29 %. As exportações brasileiras cresceram, a uma taxa anual de 6,59%, as do México, a uma taxa de 5,35%. O crescimento total das exportações brasileiras foi de 65.95%, o do México, foi de 53,35%. As importações brasileiras cresceram a uma taxa média anual de 17,33%, e as do México, a uma taxa de 6,75%. O crescimento total das importações no Brasil foi de 173,32%, e no México de apenas 67,54%.
Por outro lado, a renda per capita brasileira cresceu a uma taxa anual de 2,84%, e a do México, 1,42%; o crescimento total da renda no Brasil foi de 28,4%, e no México foi de 14,26%; e a participação dos salários na renda chegou a 45 % , no Brasil, e no México, a 29%. Nesse mesmo período, o Brasil criou 16 milhões de novos empregos formais, e o México 3.500 milhões; e a pobreza absoluta foi reduzida a 15,9%, no Brasil, e aumentou para 51,3%, no México.
Por fim, (pasme-se), entre 2002 e 2012, o “investimento direto estrangeiro” no Brasil, cresceu de U$ 16.590 milhões, para U$ 76.110 milhões de dólares, e no México, caiu de U$ 23. 932 milhões, em 2002, para U$ 15.4553 milhões, em 2012 ! Só para encerrar a comparação, em 2103 a economia brasileira cresceu 2,3%, em ( uma das maiores taxas entre as grandes economias do mundo) enquanto a economia mexicana cresceu 1,1%.
Isto posto, o elogio do México deve ser considerado um caso de má fé, fundamentalismo ideológico, ou estratégia internacional ? As três coisas ao mesmo tempo. Mas o que importa é o que dizem os números, e a conclusão é uma só: na última década, o “modelo mexicano” de abertura liberal, integração com os EUA, e livre comércio teve um desempenho extraordinariamente pior do que o “modelo intervencionista”, “heterodoxo” e “fechado”(apud FT e TE) da economia brasileira, junto com seu projeto de integração do Mercosul.
Notas
[1] Vide artigo do ex-ministro de Relações Exteriores do México, Jorge Castañeda: “NAFTA´s mixed record”, publicado no numero da Revista Foreign Affairs,. de janeiro/fevereiro de 2014.
[2] www.data.worldbank.org
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