O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
segunda-feira, agosto 15, 2011
OTAN: massacre em Majer, Líbia
Franklin Lamb, Countercurrents – http://www.countercurrents.org/lamb130811.htm
Franklin Lamb escreve da Líbia. Recebe e-emails em fplamb@gmail.com.
Majer, Líbia. Localizada a cerca de 40km a leste da cidade romana de Leptis Magna, menos de 20km ao sul de Zliten, no litoral sul da Líbia, no Mediterrâneo, Majer era cidade turística, conhecida pela qualidade de suas tâmaras e aclamada na região por produzir o melhor tarbuni (suco de tâmaras) da Líbia.
Familiares dos mortos, testemunhas oculares e autoridades do governo líbio informam que os ataques aéreos da OTAN contra Majer mataram 85 pessoas, entre as quais 33 crianças, 32 mulheres e 20 homens. Jornalistas e familiares foram autorizados a ver os 30 cadáveres num necrotério local, entre os quais uma mãe e dois filhos. Autoridades locais e moradores informam que cerca de 50 outros cadáveres foram retirados pelas famílias para serem enterrados em cidades próximas e a maioria dos feridos foram levados para hospitais em Trípoli.
Em Majer, a OTAN bombardeou três conjuntos residenciais, onde testemunhas e autoridades examinaram um total de cinco casas destruídas. Não havia qualquer sinal de armas nas casas bombardeadas, onde só se encontraram colchões, roupas e livros. Uma jovem de 15 anos, gravemente ferida, Salwa Ageil Al Jaoud, encontrou seu notebook entre os escombros. Foi interrogada mais tarde no hospital e disse, como outras testemunhas ouvidas em Qana, que não havia nem jamais houve qualquer presença militar nas casas destruídas.
A OTAN usou a mesma tática que Israel usou nos dois massacres de Qana. Lançou inicialmente três bombas, perto das 23h, na 2ª.feira, 8 de agosto; pouco depois, quando muitos moradores já haviam corrido para os locais atacados e tentavam ajudar os feridos, foram lançadas no mínimo mais duas bombas, que, essas, mataram 85 civis líbios.
Familiares recolheram dos escombros os corpos destroçados de dois meninos, Adil Moayed Gafes e Aynan Gafees. Vi um homem jovem que repetia sem parar “Allah é único. Allah abençoa os mártires”. Logo, vários reuniram-se em volta dele, na mesma oração.
Falando de cima de uma pilha de ruínas, o porta-voz do governo líbio Moussa Ibrahim disse que “vemos aqui um crime além da imaginação humana. Aqui só viviam civis!"
Segundo funcionários do governo líbio que entrevistei ontem à noite no Hotel Rixos, em Trípoli, a OTAN atacou Majer “na tentativa de ajudar o pessoal de Benghazi a invadir a cidade pelo sul, no movimento de envolvimento crescente da OTAN com Benghazi, colaborando com um dos lados numa guerra civil. Aos países da OTAN o que interessa é o processo de reconstrução, os contratos milionários e os negócios do petróleo, os mesmos interesses que movem o pessoal de Benghazi.”
Como se lessem um press-release do exército israelense, Carmen Romero, porta-voz da OTAN, e o coronel Roland Lavoie, porta-voz militar da Operação “Proteção Unificada” da OTAN disseram, dia 9 de agosto, numa conferência de imprensa unificada Bruxelas-Nápoles, que “a cidade bombardeada localiza-se em setor militarizado; até o presente a OTAN não tem conhecimento de danos colaterais (leia-se “civis mortos”). A OTAN sempre toma medidas de extraordinária cautela, para garantir a segurança de civis”.
Deve-se prever que, à medida que o massacre de Majer seja divulgado, a OTAN seja pressionada a dar melhores explicações sobre mais civis mortos na Líbia. O mais provável é que, nas próximas 48 horas, a OTAN divulgue nova nota, na qual anunciará “investigação interna” sobre os eventos em Majer, anunciando também como fazem os israelenses, que as bombas visaram exclusivamente “alvos militares legítimos”. (...)
Mais uma vez, usaram-se, no massacre de civis em Majer, armas e bombas pagas pelos contribuintes norte-americanos, sem seu conhecimento ou consentimento, e contra todos os valores humanitários que os norte-americanos de boa vontade tanto prezam.
Como no massacre de palestinos em Qana, o inventário de armas norte-americanas e outras distribuído pela OTAN e que estão sendo usadas aqui na Líbia desde 29 de março de 2011, muitas vezes indiscriminadamente, para “proteger civis”, inclui, dentre outras armas, as seguintes:
Jatos bombardeiros B-2 stealth [de tecnologia que os tornam invisíveis aos radares], do grupamento 509 de bombardeiros da Base Whiteman da Força Aérea dos EUA; jatos bombardeiros F-15Es dos 492º e 494º Esquadrões de Combate da Força Aérea Britânica da base britânica em Lakenheath; aviões F-16CJ para “supressão de defesa” estacionados na base aérea do 480º Esquadrão de Combate em Spangdahlem, Alemanha; aeronaves do EC-130 Commando Solo de operações para guerra psicológica do 193º Comando de Operações Especiais da Base da Guarda Nacional em Middletown, Pennsylvania; PA, KC-135s do 100º Grupamento de Reabastecimento em Voo, atualmente baseado em Mildenhall, Grã-Bretanha; Fairchild AFB, WA,C-130Js recentemente deslocados para a base aérea do 37º Esquadrão Aéreo em Ramstein, Alemanha; jatos de ataque A-10 e bombardeiros AC-130.
Os ataques da OTAN contra a Líbia começaram com bombardeio de um suposto equipamento de defesa antiaérea dos líbios. Muitos Tomahawks foram disparados também de navios britânicos ancorados na região.
Dentre outras naves de guerra da Marinha dos EUA que a OTAN está usando para “proteger” civis líbios, estão as seguintes:
Os destróieres USS Stout (DDG 55) e USS Barry (DDG 52) classe Arleigh Burke, armados com mísseis teleguiados; os submarinos USS Providence (SSN 719), USS Scranton (SSN 756) e USS Florida (SSGN 728); naves anfíbias USS Kearsarge (LHD 3) e USS Ponce (LPD 15); a nave comandante USS Mount Whitney (LCC/JCC 20); naves de apoio Lewis and Clark, Robert E. Peary e Kanawha; naves de combate AV-8B Harrier; helicópteros CH-53 Super Stallion e MV-22 Osprey a bordo nas naves anfíbias Kearsarge e Ponce; aviões KC-130J baseados na base aérea de Sigonella, na Itália; aviões AQ-132, baseados em Whidbey Island, estado de Washington e que partem também da base aérea de Aviano, Itália (todos os aviões foram deslocados do Iraque para a Líbia, a pedido da OTAN “para ajudar a proteger os civis líbios”); P-3 Orion sub-hunters e EP-3 Aries, aviões adaptados para ataque eletrônico[1].
Além da relação aqui reproduzida de armas, a OTAN armazena mais de 50 tipos de bombas e mísseis norte-americanos, para serem usados “para proteger os civis líbios” e o uso dessas bombas é ilegal, tanto nos termos da lei dos EUA da lei internacional, porque, entre 29 de março e hoje, 9/8/2011, já mataram cerca de 7.800 civis líbios.
Exame feito pela OTAN nos locais bombardeados cujos laudos foram publicados, inspeções em campo, números seriais catalogados de bombas que não explodiram, exame de fragmentos de bombas e mísseis feitos por especialistas na Líbia atacada, e consultas feitas a fontes militares da Líbia atacada confirmam o que dois especialistas da Comissão das Forças Armadas do Senado dos EUA e especialistas internacionais já disseram. A OTAN, como seus aliados israelenses em Qana, Líbano, cometeram crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Majer, Líbia, dia 8 de agosto de 2011.
Mais especificamente, a OTAN deve ser acusada pela prática de crimes de guerra contra o povo líbio, segundo opinião consensual de vários especialistas internacionais e defensores de direitos humanos que se reúnem atualmente na Líbia, vindos da Europa, Ásia, América do Sul e América do Norte.
A legislação aplicável inclui, mas não se limita, ao artigo 3º do Estatuto de Haia do Tribunal Penal Internacional que claramente determina o critério para acusação formal por crime de guerra: “Atacar ou bombardear, por quaisquer meios, cidades não protegidas militarmente, cidades, vilas ou vilarejos, prédios ou casas”.
A OTAN, na Líbia, continuadamente ataca alvos civis para finalidades militares, o que insistentemente descreve como “dano colateral”. Essa atitude reincidente preenche perfeitamente as condições da cláusula legal acima e pode servir como base para acusação formal, contra a OTAN, por crimes de guerra, por violação do art. 3º, alínea (a), parágrafo IV da Convenção de Genebra:
“Esses atos são e devem continuar a ser formalmente proibidos em qualquer lugar e a qualquer tempo, em todos os casos, contra [população civil]: violência contra a vida e a pessoa, notadamente o assassinato, de qualquer tipo”.
É ação semelhante à impetrada contra militares israelenses por advogados norte-americanos do Center for Constitutional Rights em New York, como se lê em Ali Saadallah BELHAS, et al., Plaintiffs, v. Moshe YA’ALON, Defendant (466 F.Supp.2d 127 (2006). Esse caso educou a comunidade jurídica internacional e a opinião pública, sobre a necessidade de quebrar a imunidade de estados soberanos no caso de prática de atos ilegais de guerra, e abriu caminho para processos semelhantes, no plano nacional e internacional.
O massacre em Majer, pelos exércitos da OTAN deve ser objeto de ação judicial semelhante.
[1] Essa longa lista de aviões e navios de guerra pode estar e provavelmente está cheia de erros, nessa tradução. Paciência. Os mesmos parágrafos, sem tradução, podem ser lidos em Countercurrents e em várias outras publicações que reproduzem esse artigo em inglês. Traduzimos, sem qualquer aspiração a algum dispensável rigor técnico, apenas a intenção do autor, de denunciar o gigantesco aparato bélico que está mobilizado contra civis líbios, denúncia com a qual nos solidarizamos [NTs].
sábado, agosto 13, 2011
Dias na Carta: Amorim é o anti-Lafer
O novo ministro da Defesa jamais diria "o que é bom para os EUA é bom para o Brasil"
O Conversa Afiada publica artigo de Mauricio Dias na Carta Capital que está nas bancas:
O anti-Celso Lafer
Mauricio Dias
Já é possível traçar um retrato do novo ministro da Defesa, Celso Amorim, ainda que seja um ministro jovem no cargo. Jovem de poucos dias.
Na Defesa, Amorim ganhou muito mais visibilidade do que tinha nos longos anos que comandou o Itamaraty.
Funções distintas, ações distintas. Mas Amorim não retocou a forma de agir. Firme, sem ser rude, objetivo, embora diplomático, exercitou agora essas virtudes sob o fogo das críticas mais estapafúrdias. Chegaram mesmo a plantar notícias de reações nos quartéis, inventadas, em geral, por oficiais de pijama. Daqueles que reagem ao perceber que a grama já cresce à porta da casa deles.
Amorim tem mesmo vários pontos que desagradam ao establishment nacional e internacional. Isso ficou claro com o foco das perguntas ao longo das entrevistas que concedeu. Isso é atacado por argumentos tacanhos e genéricos, por se tratar de ideologia. Posições políticas contrárias às de Amorim não são ideológicas? Existiria no mundo alguém que comentasse qualquer coisa a partir de uma visão não ideológica?
Foram resgatar, por exemplo, artigos escritos por ele em CartaCapital, onde ele teria exercitado “ideias mais à esquerda”.
Nesse período, exerceu o papel de um articulista livre, sem compromissos. Isto é, sem as amarras das funções públicas e, assim, apresentou discordância com a decisão do governo Dilma de apoiar a resolução do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que instituiu um relator especial para o Irã.
Amorim, já fora do cargo e em conversas informais, explicou que era uma discordância pontual, reafirmou apoio ao chanceler Antonio Patriota e pontuou também que os dois trabalharam juntos por 15 anos. Isso gerou uma relação de absoluta confiança.
O chanceler Amorim jamais tiraria os sapatos no aeroporto Kennedy, em Nova York, por exigência do protocolo imperial da segurança norte-americana. Um ritual humilhante obedecido, por exemplo, pelo ex-chanceler tucano Celso Lafer.
Em artigo escrito para CartaCapital, embora tenha atacado o preconceito ocidental contra os países islâmicos, que, segundo ele, levou à execução de Saddam Hussein, no Iraque, ressalvou: “Não sejamos inocentes. Interesses econômicos e políticos motivaram a decisão de atacar o Iraque”.
Amorim é o anti-Lafer.
Como ministro da Defesa, Celso Amorim também desarmou várias armadilhas contidas nas perguntas que respondeu ao longo das últimas entrevistas. Uma das indagações transmitia o sentimento contra a presença de um diplomata à frente da função recém-assumida. Teria sido formulada por “um oficial”, conforme foi relatado pela repórter porta-voz: “E se fosse um general mandando no Itamaraty?”
“Já houve ministro militar: Juracy Magalhães”, respondeu Amorim.
Ele pôs o ponto final da resposta no momento certo. Diplomaticamente. Poderia, no entanto, ter exposto o verdadeiro caráter da pergunta do oficial guarnecido pelo anonimato. A razão de Amorim talvez esteja no contexto político em que Juracy atuou. General da reserva, ele foi chanceler do também general Castelo Branco, primeiro presidente da ditadura. Foi então que formulou o lema inscrito hoje na bandeira do servilismo: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.
Amorim é o anti-Juracy.
(…)
sexta-feira, agosto 12, 2011
Santayana: o tempo exausto 1 e 2
Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana, publicado no JB:
O tempo exausto (1)
por Mauro Santayana
Em todos os séculos houve a percepção de que o mundo chegava a seu fim, com a extinção da vida na Terra, como castigo divino ou inevitável cataclismo. Mas a vida, essa inexplicável rebelião da matéria, que encontra sua perfeição e perversão na existência do homem, consegue impor-se. O preço da sobrevivência é o conflito. Desde que o registro da vida da espécie existe, a existência tem sido a crônica da resistência contra as forças naturais, os outros seres biológicos, feras, bactérias e vírus, e, sobretudo, contra parcelas da própria espécie.
Há uma tese, presente em vários pensadores, e de forma difusa, que explica o conflito básico do homem entre o predador e o solidário. O instinto de caça e de destruição, enfim, de canibalismo direto ou sutil, só consegue ser combatido pela inteligência. A inteligência conduziu o homem a se ver como ser frágil e precário que só poderia sobreviver em comunhão com os outros, multiplicando a força individual, certo de que sua proteção dependia da vida do companheiro. Mas houve o momento em que essa mesma inteligência, que indicava a solidariedade como necessária à existência individual e coletiva, passou a servir ao instinto predador. Ora o homem é o lobo do homem, na definição de Plauto, ora o homem é o anjo do homem, como ocorre, quase todos os dias, no heroísmo de pessoas simples, que chegam a morrer para salvar a vida de outras. Os homens são construtores de sua História. E a História, não obstante a presunção de alguns acadêmicos parvos, como Fukuyama, nunca chegará a seu fim – a menos que o Sol esfrie de repente ou de repente estoure, na impaciência de seus gases comprimidos.
O tempo histórico de vez em quando entra em exaustão. São momentos, que podem durar décadas ou séculos, em que os ritos essenciais da vida são perturbados pelas superestruturas da sociedade, e o indivíduo redescobre a solidariedade, aquele sentimento de que a sua sobrevivência (e sua autonomia como ente, ou aquele que é) só pode ser defendida se contar com o outro. Nesses momentos, para o bem – e, algumas vezes, para o mal – surgem as grandes mudanças, com novas normas de convivência da espécie. Embora possam identificar-se como religiosas ou étnicas, são necessariamente políticas, porque se referem à vida prática dos seres humanos.
Ontem, Londres entrava em seu terceiro dia de tumultos urbanos. Não é a primeira vez que isso ocorre. Além dos protestos sangrentos de Brixton, de há trinta anos, a cidade conheceu o conflito brutal de 1780, em que centenas de católicos foram massacrados pelos protestantes açulados por Lord George Gordon. Vivendo como cidadãos de segunda classe, desde Henrique VIII, os católicos recuperaram sua cidadania de acordo com o Catholic Relief Act, de 1778. Gordon, um nobre frustrado em sua tentativa de fazer carreira no Almirantado, encontrou sua chance para a demagogia, mobilizando os protestantes contra a lei e os levando a queimar propriedades de católicos e a assassiná-los em plena rua. Antes de ser condenado à prisão por rebeldia, Gordon se converteu ao judaísmo. Acabou morrendo na prisão de Newgate.
Há uma diferença entre as agitações urbanas e as revoluções. Como resumia um autor inconveniente, Lenine, sem teoria revolucionária não há revolução. Jean Tulard, um dos melhores historiadores contemporâneos, é seguro quando afirma que as rebeliões populares podem ser facilmente vencidas, seja pela repressão policial, seja pelo engodo por parte do poder. As revoluções necessitam de um esforço intelectual poderoso, de líderes que pensem uma nova ordem e a imponham no exercício da razão. Esses líderes podem surgir no desenvolvimento natural das rebeliões, como ocorreu na França de 1789, depois da Queda da Bastilha, ou em demoradas e pacientes carreiras políticas.
Londres repete, com a mesma impaciência, o que está ocorrendo em várias partes do mundo, e parece provável que virá a ocorrer nas regiões ainda preservadas. O tempo, e nele, os homens, parecem exaustos do modelo da sociedade contemporânea, baseado na competitividade, na voracidade do consumo e do lucro. É uma sociedade contraditória. De um lado, a aplicação tecnológica das descobertas científicas torna a vida mais confortável e mais durável, mas não parece que isso responda aos anseios mais profundos da espécie. E, ainda pior: a tecnologia torna a crueldade mais organizada e mais eficaz. O nazismo foi a mais perfeita utilização da tecnologia para o assassinato em massa de toda a História. Os norte-americanos os repetem, desde a Guerra do Golfo, no Oriente Médio.
Como em outras épocas, a civilização se encontra diante de uma ruptura. O sistema econômico, submetido ao domínio do capital financeiro, entra em crises sucessivas, com a criminosa especulação dos operadores no mercado de capitais. Os indignados, com razões maiores ou menores, se multiplicam. A internet substitui – é outra das surpresas da tecnologia – os agitadores de rua, na condução dos protestos. Falta apenas a ideologia, a que se referem, entre outros, Lenine e Tulard.
O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana extraído do JB:
O tempo exausto (2)
por Mauro Santayana
A mesma espécie de sábios que decretou o fim da História, com o triunfo da globalização neoliberal, decretara antes o fim das ideologias. A ordem do raciocínio é a mesma: o capitalismo, premiando os audazes e persistentes, liquidaria as ideologias. Na realidade, eles pensavam em uma só ideologia, o que é correto, do ponto de vista lógico: o fim do pensamento de esquerda, com o domínio absoluto da ordem da direita, contra a “anarquia” libertária, acabaria com os lados ideológicos. Onde predomina o pensamento único – no caso, o neoliberal – as idéias se encontram castradas, mortas.
Mas a ideologia não é uma diversão da inteligência. Ela corresponde a interesses humanos bem claros e definidos. Os homens, mesmo quando submetidos ao sofrimento mais terrível, não deixam de aspirar à felicidade. O que difere é o conceito de felicidade de cada um. Para os lúcidos, a felicidade é altruísta. Assim a sentem, por exemplo, os patriotas, quando seu país cresce em prosperidade, e todos vivem em paz e têm a mesma oportunidade de realização. Não pode haver segurança pessoal e o conforto que o trabalho permite, enquanto houver crianças famintas e adolescentes perdidos no turbilhão da miséria, das drogas e do crime. Em uma sociedade como a que nos cabe, ainda não podemos ser felizes, se possuirmos sentimento de pátria. A pátria não é referência geográfica, é uma reunião de seres humanos que falam a mesma língua e têm projetos comuns. Como resumiu Renan, a nação é o ato cotidiano de solidariedade. Os grandes interesses, que manipulam os meios de informação, para manter os povos submissos, inoculam os vírus da intolerância para com os diferentes, e pervertem as parcelas mais débeis dos povos, transformando-as em hordas de predadores e assassinos. Isso ocorre em todos os países do mundo, porque é inerente ao sistema mundial de domínio.
Submetidas à insânia construída e mantida pelo controle da indústria cultural, muitas pessoas só se sentem felizes no usufruto da desigualdade e da injustiça. São aquelas cuja fortuna só lhes serve para a soberba e a intolerância. Há muitos homens ricos que escapam dessa maldição. Lembro-me de uma confidência que me fez, quando participávamos da Comissão Arinos, o industrial Antonio Ermírio de Moraes, cuja posição no grupo de estudos era de centro-esquerda: ele se sentia tranqüilo porque não fazia de sua fortuna uma ofensa a ninguém. Guardava os seus domingos para servir aos outros, na direção de um grande hospital, e não os usava para a ostentação e o hedonismo. Ele, como alguns outros empresários brasileiros, como foi José Alencar, são daqueles que se orgulham mais do número de empregos que criam, do que do conforto e do poder de que podem desfrutar. Mas há – e não só entre os ricos, mas também entre os pobres alienados – aqueles que só se sentem felizes diante da infelicidade alheia. Só são ricos porque vivem em um mundo de pobres. A partir dessa simplificação, podemos concluir que há, sim, e continuará havendo, duas ideologias, direita e esquerda, com suas pequenas variantes no espectro doutrinário.
A extrema-direita só pode impor-se mediante a fraude e o terror. Ela sempre se valeu da combinação dos dois expedientes que, na perfeita síntese da Igreja Católica e da Reforma dos tempos inquisitoriais, se fazia mediante o pavor do inferno, reproduzido no mundo com as torturas, os massacres mútuos de católicos e protestantes, e a hipocrisia da caridade, a fim de garantir a submissão dos oprimidos, com o uso alternado da piedade e da forca, como resumiu um conservador lúcido, Bronislaw Geremek.
Como em todas as grandes mudanças históricas, aguarda-se a intervenção da inteligência, a fim de conduzir a revolução que as ruas anunciam, nos paises árabes, nas praças espanholas e nos bairros de Londres – não só os “sujos” de imigrantes negros e morenos, como Tottenham, mas também em áreas centrais, como a de Oxford City.
A última manifestação de rebeldia que contou com a presença de grandes intelectuais foi a eclosão da juventude, em 1968. Os homens que deram o suporte de suas idéias ao movimento, como Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Max Horkheimer, Jean Paul Sartre, já não existem. Os pensadores de hoje parecem acomodados. Não aparentam dispor da chama interior próxima dos jovens que queriam amar e expressar seu inconformismo com o mal-estar de um mundo unidimensional e injusto, como os que se rebelaram em Paris, em maio de 1968 – e, em seguida, no resto do Ocidente.
O tempo está exausto, mas é provável que se canse da própria exaustão, a fim de, tal como em outras épocas, provocar o fulgor da inteligência e dar a alguns homens não só idéias fortes, mas também o poder de, com elas, convocar a consciência solidária e essencial dos homens, contra os novos bárbaros.
Clique aqui para ler a primeira parte do texto de Santayana: “Santayana analisa o quebra-quebra na Inglaterra”.
O colonialismo cultural
De que tipo de economistas o Brasil precisa? De economistas que pensem de acordo com os problemas e interesses nacionais ou conforme a agenda e os interesses dos ricos?
Faço essa pergunta ao verificar que hoje o padrão de qualidade do ensino e da pesquisa aceito pela “comunidade acadêmica” é definido pelas revistas estrangeiras.
Ao fazermos isso, estamos formando professores e pesquisadores alienados dos interesses nacionais, estamos praticando uma violência contra a nação brasileira.
Para que uma nação seja forte, precisa dominar a ciência e a tecnologia, o que permitiu que os primeiros países que se industrializaram se tornassem ricos e poderosos.
Para isso, países como o Brasil, cuja revolução capitalista foi retardatária, precisam contar com universidades capazes de absorver a ciência e a tecnologia estrangeiras.
Não é, porém, com esse tipo de argumentação que se pode explicar o fato de que no Qualis -o sistema de qualificação de periódicos da Capes que serve para avaliar a produção acadêmica- não haja sequer uma revista nacional de economia classificada como A.
Se a teoria econômica fosse uma ciência natural e exata como é a física, não haveria problema aí. Mas a economia é uma ciência social, é uma ciência que busca compreender como as sociedades modernas produzem e distribuem riqueza.
É uma ciência imprecisa porque os homens não são autômatos previsíveis e é sempre marcada pela ideologia, pois os interesses que envolve são muito grandes.
Pretender transformá-la em uma ciência matemática é pura arrogância, o que leva à desregulamentação dos mercados e abre espaço para baixo crescimento e crises.
A economia é uma ciência que sempre refletiu interesses nacionais. E os países ricos sempre a usaram para “empurrar a escada” dos retardatários, ou seja, para convencê-los a adotar políticas que consultam seus interesses nacionais.
Não obstante isso, os artigos publicados por pesquisadores em revistas brasileiras obtêm uma pontuação nas avaliações da Capes muito menor do que os publicados em revistas estrangeiras.
A participação das revistas nacionais na classe A é zero. O que estamos dizendo aos jovens brasileiros com essa política?
Que pautem suas pesquisas e sua forma de pensar pelos padrões dos países ricos nossos concorrentes. “Mas é mais difícil publicar em uma revista estrangeira”, dizem-nos.
Claro que é em algumas revistas, mas não é esse o critério. Ao Brasil, o que interessa são economistas que saibam analisar e propor soluções para os problemas brasileiros.
Quando revelo à Capes minha indignação com o colonialismo cultural, dizem-me que estão traduzindo a visão da comunidade acadêmica.
Mas quem “consagra” tal monstruosidade é o Estado brasileiro, que existe não para traduzir, mas para afirmar valores.
Para resolver esse problema, a Capes deveria estabelecer para as ciências humanas um porcentual mínimo de periódicos nacionais A.
Não precisa ser um percentual alto como o da história. Um número em torno de 20% como é o caso da antropologia é aceitável. Inaceitável é o que ocorre na economia.
COMENTÁRIO E & P
Jonhn Kenneth Galbraith escreveu que tinha dó de economistas que vinham de países pobres estudar em universidades dos Estados Unidos e aprendiam fórmulas econômicas que nunca seriam aplicadas nem lá. Já um famoso economista disse que jovens brilhantes iam para os Estados Unidos ser adestrados lá pelas escolas de economia. Esse jovens eram trabalhados de forma a defender os interesses dos países ricos em detrimento de seus países. Na verdade se transformaram em fundamentalistas como muitos economistas brasileiros que estudaram em universdades estadunidenses, como se tivessem sofrido uma lavagem cerebral. São os teólogos neoliberais. Escolas como Harvard, chicago e Yale fizeram um grande estrago na América Latina com os economistas da região que estudaram nelas. Muitas escolas de economia brasileira aderiram alegremente ao Mainstream e formam hoje matemáticos frustados e não economistas. A maioria dessas escolas baniu o termo desenvolvimento econômico. O que importa agora é o curto prazo e o mercado financeiro e dane-se a população e o emprego. O que importa é o ajuste fiscal e as reformas que vão sempre ferrar os mais pobres da sociedade. Esses economistas vem de famílias ricas e não precisam dos serviços públicos. Estudaram em escolas pagas e usam serviço de saúde privado. Ganham fortunas para defender essas teses. Como disse o filósofo Falcão "pimenta anus autrem kisuco este".Mesmo com o fracasso de suas fórmulas seguem como suicidas rumo ao abismo. A imprensa brasileira também está formatada nesse modelo. Os comentaristas econômicos brasileiros na sua grande maioria não sabem do que está falando, mas parecem palpiteiros econômicos. A economia passa por uma grande crise, pois deixou de ser ciência para ser axioma, a serviço da ideologia neoliberal. Concordo plenamente com o texto do Bresser Pereira, apesar desse ter sido adepto do neoliberalismo e ajudado a FHC e sua turma a plicar um programa que quase destrói a nação brasileira, provocando miséria e violência. Aos poucos estão dizendo que o rei está nu. Esse modelo que vingou nos últimos 20 anos se traduz em maior desigualdade social e vai contra toda proposta de civilização. É o modelo Genghis Khan!
Cada país que se cuide - Até a Suíça está taxando os ganhos de capital...
os que criticam as medidas do governo com relação aos derivativos cambiais, a Europa não esta nem aí para a suposta racionalidade dos mercados financeiros, como querem muitos aqui no Brasil.
Por aqui, ao final do mês passado, o governo divulgou a mais dura ação já tomada no câmbio, taxando em 1% as operações de derivativos cambiais feitas por investidores brasileiros e estrangeiros no país. E deixou aberta a possibilidade de aumentar a alíquota até 25%, caso fosse necessário. Alexandre Tombini, presidente do Banco Central (BC) justificou a medida. Hoje, no país, a posição vendida no câmbio estaria próxima de US$ 4 bi a US$ 5 bi. No entanto, essas apostas na valorização do real já chegaram a US$ 21 bi, segundo o titular do BC. "Introduzimos medidas para reduzir a capacidade do mundo de especular contra o dólar no nosso mercado", disse Tombini. "Se não tivéssemos feito nada, de que tamanho essa cifra estaria?", questionou.
Já, do outro lado do oceano Atlântico, no caso da União Europeia, as ações são claras. As autoridades do velho continente simplesmente suspenderam as operações com determinados papéis dos bancos, as chamadas "venda a descoberto", que apostam na queda de uma ação. Esse movimento nos mercados acaba induzindo os investidores a vender os papéis e pode levar um determinado banco ao risco. Isto porque as operações comumente são acompanhadas de campanhas de rumores e boatos falsos. A prática visa provocar o pânico no mercado e levar determinado banco à falência.
"Salve-se quem puder"
Mas, não é só: os europeus agora falam em aumentar a taxação de ganhos de capital. É isto mesmo: aumentar a taxação de ganhos de capital. A própria Suíça estuda indexar o franco ao euro. Como vemos, cada país se defende como pode - o mesmo que devemos fazer. Essa é a saída, até que a comunidade internacional adote políticas gerais para enfrentar a crise. O fato é que, enquanto predominar “o salve-se quem puder”, o Brasil não pode - e não deve - vacilar. Vamos, sim, defender a nossa economia e o nosso país.
Patrick Cockburn: Aliados duvidosos: os “rebeldes” na Líbia
Patrick Cockburn
Patrick Cockburn, Counterpunch –
Dubious Allies: Libya’s Ragtag Rebels
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Rebeldes, desde a Guerra das Rosas até hoje, sempre fizeram o que puderam para não se dividir em facções nem pôr-se a matarem-se uns os outros até, no mínimo, terem chegado ao poder e estar no controle. Por mais profundas que sejam as divisões, sempre fizeram o possível para mantê-las ocultas, longe da vista do resto do mundo.
Os “rebeldes” líbios são diferentes. Membros do Conselho Nacional de Transição [ing. Transitional National Council (TNC)] dos “rebeldes” em Benghazi, mês passado, prenderam o seu próprio comandante militar, o general Abdel Fatah Younes, por suspeita de traição; atraíram-no para longe dos guarda-costas e o assassinaram. Essa semana, o líder do Conselho Nacional de Transição, Mustafa Abdel Jalil, desconstituiu o próprio governo (demitiu), sob o argumento de que vários governantes seriam cúmplices do assassinato. Parece ter sido obrigado a isso, tentando conter a ira da poderosa tribo Obeidi, à qual pertencia, por etnia, o general assassinado.
Aspecto, de fato, cômico de todo o caso é que, no momento em que os líderes “rebeldes” dedicavam-se a matar uns os outros... eles estavam sendo oficialmente reconhecidos, país após país, como legítimo governo da Líbia. Essa semana, diplomatas do Conselho Nacional de Transição ocuparam as embaixadas líbias em Londres e Washington e já há aspirantes à ocupação também da embaixada líbia em Ottawa. No que parece ser a decisão mais perfeitamente fora de hora, obra-prima em matéria de escolher o pior momento, a Grã-Bretanha reconheceu o governo dos “rebeldes” no mesmo dia em que membros do governo “reconhecido” metralhavam o próprio comandante-em-chefe e queimavam o cadáver.
Se os “rebeldes” fazem o que fazem hoje, quando seu máximo interesse é manter uma fachada de unidade, o que mais farão quando estiverem instalados no poder em Trípoli? Mas essa é a única política da OTAN e não há outra. Uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, que visava a impedir, por razões humanitárias, que tanques de Gaddafi tomassem Benghazi em março, foi rapidamente ‘convertida’ em autorização para derrubar o governo líbio. Grã-Bretanha e França, com o apoio essencial de EUA, ainda repetem que, para o bem do povo líbio, seria indispensável substituir Gaddafi por aqueles sanguinários “democratas” de Benghazi e do leste da Líbia reunidos no Conselho Nacional de Transição.
Essa estratégia de força bruta conseguirá ter sucesso, em estrito sentido bélico? As colunas de caminhões “rebeldes” com metralhadoras montadas na caçamba conseguirão avançar e tomar Trípoli, protegidas por barreira de bombas despejadas sobre a cidade pela OTAN? Já faltam combustível, artigos de primeira necessidade e eletricidade na capital líbia.
Os “rebeldes” parecem avançar pelo leste e sudoeste da capital. Mas, mesmo com o impressionante apoio das bombas da OTAN, o avanço é muito lento. Se os “rebeldes” padecem tanto para tomar uma vila como Brega, com população de 4.000 pessoas, ou o Golfo de Sirte... o que garante que conseguirão tomar Trípoli, com população de 1,7 milhão de habitantes?
É possível que Gaddafi caia, mas o que se vê, cada dia mais claramente, é que, se cair, terá sido derrubado por um bando desorganizado e confuso de milícias que, ganhem o que ganhem, e se ganharem, só terão ganho graças ao apoio da artilharia aérea da OTAN. Dado que os “rebeldes” não têm liderança nem comando coerentes nem são força militar homogênea, o final da disputa será vitória, no mínimo, também dividida, sem qualquer coerência ou homogeneidade. Tudo estará na dependência de apoio estrangeiro, em todos os níveis de autoridade e governo na Líbia, que é um vasto país.
Como no Afeganistão em 2001 e no Iraque em 2003, EUA e Grã-Bretanha aprenderam que uma coisa foi derrubar os Talibã ou Saddam Hussein; e outra coisa, muito diferente, encontrar substitutos para eles. Tratar aliados locais duvidosos como governo legítimo talvez tenha valor de propaganda, mas é tolice pretender, contra todas as evidências, que o parceiro local tenha poder ou autoridade legítimos. Tendo já passado por essa experiência, é temeridade – ou é atitude política pouco inteligente – os britânicos meterem-se em outra guerra, sob a crença de que, ‘agora-sim’, apostaram no cavalo certo. É possível que Gaddafi seja derrubado do governo da Líbia; mas é altamente provável que a luta interna, entre facções do poder, continue.
Colorida e high-tech, mas terrivelmente enganadora...
A imprensa mundial teve fracassos no Iraque, piorou muito no Afeganistão, mas chegou ao fundo do poço, à treva, na cobertura da guerra na Líbia. “Reportagem” passou a significar repetir releases do exército, linguagem militarizada, critérios militarizados. Do front só chegam “notícias” e imagens coloridas e high-tech sobre avanços (muitos) e recuos (praticamente nenhum) dos milicianos “rebeldes”. É preciso coragem para o jornalismo de guerra e os jornalistas tendem a solidarizar-se com o lado dos jovens (soldados em guerra sempre são jovens) com os quais partilham trincheiras e barracas. Mas, ainda assim, a cobertura jornalística foi escandalosamente favorável aos “rebeldes” e hostil a Gaddafi.
Quando o general Abdel Fatah Younes foi assassinado nenhum jornal ou jornalista ocidental sabia dizer o que ou como acontecera o crime. A liderança dos “rebeldes” sempre mostrada como “heróico grupo de irmãos” foi, afinal, exposta aos olhos do mundo como de fato é: dividida por rivalidades e vendettas mortais.
Muitos jornalistas nada fizeram além de simplesmente regurgitar versões inverossímeis, que alguns líderes “rebeldes” ainda tentavam implantar na opinião pública, segundo as quais o general teria sido assassinado por combatentes pró-Gaddafi acampados em Benghazi. Outros jornalistas “informavam” que haveria 30 diferentes milícias islâmicas na cidade.
Até hoje, os políticos insistem em justificam a intervenção da OTAN na Líbia citando atrocidades que teriam sido cometidas por forças pro-Gaddafi, como estupros em massa, e pelo uso extensivo de mercenários. Organizações de direitos humanos, como Anistia Internacional e Human Rights Watch já declararam que não há qualquer prova de que essas atrocidades tenham acontecido; o mesmo já disse, até, uma comissão da ONU, chefiada por Cherif Bassiouni, professor de Direito. Esses relatórios, construídos por métodos confiáveis, continuam até hoje absolutamente ausentes dos veículos da imprensa ocidental, inclusive dos que divulgaram as histórias de atrocidades que teriam sido cometidos por Gaddafi.
A militarização da reportagem no Iraque e no Afeganistão provocou um boom do sistema de “incorporar” jornalistas nas unidades militares. Foi quase inevitável, dado o perigo a que se expunham os jornalistas, frente à guerrilha iraquiana ou os Talibã. Mas o efeito disso, como se pode ver hoje, foi atrasar a reportagem e o jornalismo de guerra, até devolvê-los aos vícios e distorções do noticiário no século 19, nas guerras imperiais.
A imprensa mais moderna e mais high tech da história do mundo, nada conseguiu além de divulgar e impor à opinião pública em geral uma versão parcial e enganadora, falsa, do que aconteceu e está acontecendo na Líbia.
http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/patrick-cockburn-aliados-duvidosos-os.html
http://goo.gl/UnIsf /tweeter
quinta-feira, agosto 11, 2011
Dilma no CE: estamos
O que se falou no post anterior sobre o que é, de fato, o pensamento e a ação da Presidenta Dilma Roussef está expresso no discurso que ela fez hoje, ao visitar as obras da siderúrgica que se está construindo junto ao Porto de pecém, no Ceará.
Dilma foi direto ao ponto, politizando seu discurso que, infelizmente, não tem a repercussão que deveria.
Disse que aquela siderúrgica era uma “vitória contra a inércia do pensamento do atraso” que achava que o Nordeste não podia se industrializar, não podia ter siderúrgicas ou refinarias de petróleo.
Exaltada, Dilma disse que “nós não vamos enfrentar a crise com recessão… Nós vamos enfrentar a crise gerando emprego e assegurando renda e defendendo o mercado interno”.
Essa é a presidenta que o país precisa ver.
Tijolaço do Brizola Neto
COMENTÁRIO E & P
Esse evento que interessa a todo povo brasileiro dificilmente será noticiado no Jornal Nacional. A Globo procura é fomentar crise para tentar desconstruir a imagem da presidenta com o povo brasileiro, além do objetivo de dinamitar a base política do governo no Congresso. Informaçõe que interessam ao povo brasileiro não são noticiadas ou então ocupam parcos segundos no noticiário da empresa. Estão agindo como na década de 1950 e início da de 1960, em que o tema corrupção era trabalhado diuturnamente na imprensa, em conluio com a UDN. Essa prática desencadeou o golpe cívico militar de 1 de abril de 1964, com os resultados negativos para o país que todos nós conhecemos. Concessão pública deveria ser usada em benefício da população brasileira e não de um grupo que almeja destruir um projeto de nação para manter o Brasil na inércia e na pobreza.
quarta-feira, agosto 10, 2011
A estratégia da Globo com Celso Amorim
A caça às bruxas na Rede Globo
Uma fonte na TV Globo conta que desde sexta-feira começou uma caça às bruxas na emissora.
Eles querem saber quem foi que vazou para o Rodrigo Vianna o plano de desqualificar o novo ministro da defesa, Celso Amorim. Como era sigiloso e envolveu não mais do que 20 profissionais de três capitais, eles consideram que fazer o mapeamento e achar o "traidor" é questão de tempo.
Só que eles ignoram que este tipo de segredo é de polichinelo, não dá para ser guardado numa redação. Por uma razão simples: um editor tem sempre outro editor com quem troca confidências. Repórteres, mesmo que tenham sido poucos e confiáveis os acionados, sempre comentam com os cinegrafistas - afinal têm uma amizade muito longa. E, não raro, há alguém que ouve, um auxiliar, um motorista... Portanto, esqueçam, será impossível descobrir de onde partiu a notícia que caiu como uma bomba no colo dos gestores.
Dizem até que o Código de Princípios que estava planejado para ser divulgado depois de um Seminário, com pompa e circunstância foi antecipado. Os principais apresentadores do Jornal Nacional, Wiliam Bonner e Fátima Bernardes teriam sido convocados para trabalhar no fim de semana, fato raríssimo. Tudo para tentar apagar o incêndio de proporções desastrosas.
Sinal de que há sim um grupo lá dentro muito insatisfeito com o comando do jornalismo. Na Avenida Chucri Zaidan, por exemplo, onde fica a sede da emissora em São Paulo, o clima é de tensão e medo. O vazamento é tratado como crime e ao traidor está reservada a forca, o esfolamento - como na pintura de Michelângelo na Capela Sistina - com consequente exibição de vísceras em praça pública.
Ninguém mandou tratar jornalismo como se fosse mercadoria. Jornalismo é informação, sem viés ideológico, sem interesse econômico e político. Simples assim!
http://maureliomello.blogspot.com/2011/08/valei-me-sao-bartolomeu.html
Esse jornalista anônimo que denunciou os planos da Globo merece um prêmio. E nós precisamos de mais gente assim -- que investiguem e denunciem o que está errado dentro de suas organizações.
Corporações não são pessoas, não devemos fidelidade à elas -- devemos ser fiéis apenas aos nossos princípios e à nossa consciência.
COMENTÁRIO E & P
Uma empresa de comunicação usando uma concessão pública para tentar derrubar um ministro de Estado. E isso pelo Celso Amorim ser nacionalista e defender os interesses do Brasil. Será que foi o Departamento de Estado dos Estados Unidos quem pautou a Globo? Afinal motivos não faltam, pois dá urtigária nos estadunidenses ter dirigentes que defendam os interesses dos seus povos. Eles estão acostumados com governantes fantoches como foi no período FHC e como era no Egito com o Mubarack. Lembrem que o tucano ligou pessoalmente para o presidente Clinton dizendo que a Raytheon iria ficar o SIVAM, projeto estratégico que escaneia a Amazônia e segundo dizem, graças a isso, os estadunidenses tem acesso a todas as informações geradas pelo sistema. E a favorita para ganhar era uma empresa francesa. Agora, dificilmente os estadunidenses conseguirão empurar o caça F -18 Hornet da Boeing, apesar de ter escalado jornalistas em todos os meios brasileiros, especialmente na Folha de São Paulo para escrever contra o caça escolhido. De novo a empresa favorita é uma francesa a Dassault,que fabrica o Rafale F3. O ministro anterior da Defesa, segundo o Weaks Leaks,passava informações ao embaixador dos Estados Unidos. O Brasil precisa se consolidar como país independente, mas precisa levar em conta que a velha imprensa brasileira é muito dependente dos Estados Unidos e defende os interesses desse país por afinidades financeiras e ideológicas. um país que quer se desenvolver precisa ter a liberdade de escolher o seu próprio caminho. A função da política dos Estados Unidos no mundo é manter os países no subdesenvolmento e na pobreza. Não interessa a eles que outros povos se fortaleçam e cresçam. E tudo isso é feito com ajuda velha imprensa nativa, conforme podemos observar nos últimos anos.
terça-feira, agosto 09, 2011
Dilma enfatiza que comando geral das Forças Armadas no país é seu
Demétrio Weber
Jailton de Carvalho
BRASÍLIA. Ao empossar ontem o ex-chanceler Celso Amorim no Ministério da Defesa, a presidente Dilma Rousseff chamou para si a responsabilidade sobre o comando geral das Forças Armadas do país. A presidente deixou claro que a troca do ex-ministro Nelson Jobim por Amorim não implicará em mudanças na Estratégia Nacional de Defesa. Na mesma linha do antecessor, Amorim defendeu o fortalecimento do aparato militar brasileiro e o respeito aos direitos humanos.
- Não tenham dúvida: com o meu apoio e sob o meu comando direto, ele (Amorim) ajudará muito o Ministério da Defesa a vencer os seus maiores desafios, tanto os mais urgentes, os mais conjunturais, quanto os mais estratégicos - discursou a presidente.
Dilma disse que escolheu Amorim para a vaga de Jobim depois de refletir longamente sobre o assunto. Para ela, o ex-chanceler tem qualidades pessoais e profissionais que o credenciam para a nova missão. A presidente sustenta que o novo ministro vai manter os projetos em andamento e, em alguns casos, poderá até acelerar alguns programas.
- O convoquei porque tenho convicção de que ele é o homem certo para o lugar certo. Muitos projetos estratégicos para o país e para o nosso futuro estão em andamento lá no Ministério da Defesa. São projetos que não podem, em hipótese alguma, sofrer rupturas, atrasos ou adiamentos - disse Dilma.
Em seu discurso, Celso Amorim defendeu o fortalecimento das Forças Armadas. Para ele, existe um descompasso entre a crescente inserção do Brasil no cenário internacional e sua estrutura de defesa, essencial para proteger riquezas do país, entre elas as reservas de petróleo do pré-sal.
- Um país pacífico como o Brasil não pode ser confundido com país desarmado e indefeso. Vivemos em paz com os nossos vizinhos. Mas o Brasil é detentor de enormes riquezas e possuidor de infraestruturas de grandes dimensões. Cabe ao Estado brasileiro resguardar extensas fronteiras terrestres e marítimas - disse o ministro.
Discurso da Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante cerimônia de posse do Ministro da Defesa, Celso Amorim
Palácio do Planalto, 08 de agosto de 2011
Boa tarde a todos,
Senhor vice-presidente da República, Michel Temer,
Senhor senador José Sarney, presidente do Senado,
Senhor deputado Marco Maia, presidente da Câmara dos Deputados,
Embaixador Celso Amorim, ministro de Estado da Defesa, por intermédio de quem cumprimento os ministros presentes,
Minha querida ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, por intermédio de quem cumprimento as ministras presentes,
Senhores comandantes de Força: almirante-de-esquadra Julio Soares de Moura Neto, da Marinha; general de exército Enzo Martins Peri, do tenente-brigadeiro-do-ar Juniti Saito, da Aeronáutica; general de exército José Carlos De Nardi, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas,
Meu querido governador Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro,
Almirante-de-esquadra Álvaro Luiz Pinto, presidente do Superior Tribunal Militar, por intermédio de quem cumprimento todos os oficiais-generais aqui presentes,
Senador Romero Jucá,
Senador Fernando Collor,
Deputados e deputadas federais aqui presentes. Eu cumprimento o líder da Câmara, Cândido Vaccarezza, em nome de todos eles.
Senhoras e senhores jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas,
Senhoras e senhores aqui presentes,
E senhora querida Ana. E, cumprimentando a Ana, eu cumprimento toda a família do Celso, especialmente os netos. Quem tem neto, sabe a importância deles.
Senhoras e senhores,
Mudanças importantes, elas sempre provocam tensão. Mas elas requerem cuidado, elas cobram sensatez e exigem escolhas bem refletidas. E foi com cuidado e com a devida reflexão que eu convidei o embaixador Celso Amorim para o cargo de ministro da Defesa.
O convoquei porque tenho convicção de que ele é o homem certo para o lugar certo. Muitos projetos estratégicos para o país e para o nosso futuro estão em andamento lá no Ministério da Defesa. São projetos que não podem, em hipótese alguma, sofrer rupturas, atrasos ou adiamentos. Eu escolhi o ex-ministro Celso Amorim porque eu tenho certeza absoluta de que com ele esses projetos terão continuidade e ganharão mesmo maior velocidade e solidez.
Celso Amorim é um homem de Estado, um funcionário de carreira, um profissional dedicado ao Brasil. Foi assim como Chanceler, durante o governo de Itamar Franco; foi assim como nosso representante na ONU e em organismos internacionais de comércio, durante o governo Fernando Henrique Cardoso; e foi assim também como ministro das Relações Exteriores do governo do nosso querido presidente Lula, quando o Brasil foi elevado à condição de protagonista, com voz ativa no cenário mundial e sujeito do seu próprio destino.
Celso Amorim tem qualidades pessoais que o aproximam muito dos senhores, militares de longa formação: cultura e preparo técnico, coleguismo e solidariedade no ambiente de trabalho, moderação nas manifestações públicas, elegância no relacionamento, profissionalismo e método na atividade como homem público. Sobretudo, disciplina e respeito à hierarquia. Na verdade, Celso Amorim é um patriota, Celso Amorim é um homem talhado para esta fase do Brasil, que é um país de cabeça erguida, consciente da sua soberania.
Falo aqui, na verdade, de características da formação militar e da formação diplomática, duas carreiras de Estado. Não tenham dúvida: com o meu apoio e sob meu comando direto, ele ajudará muito o Ministério da Defesa a vencer os seus maiores desafios, tanto os mais urgentes, os mais conjunturais, quanto os mais estratégicos.
A experiência de Celso Amorim em política externa será valiosa para o Ministério da Defesa. O Brasil enfrentará importantes questões que envolvem diretamente as nossas Forças Armadas: há acordos bilaterais em andamento, há negociações sobre compra de armamento e aquisição de tecnologia bélica, além da inadiável exigência de proteção e controle de nossas fronteiras terrestres e de nosso mar territorial, com suas – como todos sabem – enormes riquezas.
O meu governo – e eu acredito que todo e qualquer governo – tem ministérios cuja importância estratégica para o país impõem rigorosa distância de injunções externas de qualquer tipo – o Ministério da Defesa é um deles. A lógica do Ministério da Defesa é a disciplina, a competência e a dedicação. A ideologia do Ministério da Defesa é o respeito à Constituição e a subordinação aos interesses nacionais. O partido do Ministério da Defesa é a pátria. Os senhores sabem disso, o novo Ministro sabe disso, e todos sabemos que trocas de comando fazem parte da rotina, desde que se troque o comandante, mas não se deixe de fazer o que precisa ser feito.
Eu tenho absoluta certeza de que esse brasileiro chamado Celso Amorim fará não só o que precisa ser feito, mas dedicar-se-á de corpo e alma a construir esta política de defesa, esta estratégia nacional de defesa, que a todos nós é muito cara.
Desejo boa sorte a todos.
Presidenta da República, Dilma Rousseff
DEFESA - Discurso Celso Amorim
Íntegra do discurso do ministro Celso Amorim ao tomar posse como ministro da Defesa
Brasília, 08/08/2011– A presidenta da República, Dilma Rousseff, empossou nesta segunda-feira à tarde o novo ministro da Defesa, Celso Amorim, em solenidade realizada no Palácio do Planalto. Confira a íntegra do discurso de Amorim por ocasião da cerimônia de posse no cargo. O texto não inclui improvisos feitos ao longo da fala.
Palavras do ministro de Estado da Defesa, Celso Amorim, por ocasião da cerimônia de posse no cargo
Antes de mais nada, agradeço o honroso convite da presidenta da República, Dilma Rousseff, para assumir a pasta da defesa.
Sou grato pela confiança e pela oportunidade de participar dessa importante etapa da longa transição do Brasil rumo a uma sociedade mais livre, mais justa e mais igualitária.
Serei breve.
A realidade de uma política pública complexa e multifacetada como a Defesa não oferece espaço à pretensão.
De maneira serena, cabe a mim neste momento mais ouvir do que falar – sem com isso me furtar ao diálogo franco e transparente.
Identifico nos militares valores dignos de admiração:
- patriotismo;
- abnegação;
- zelo pela coletividade;
- respeito à hierarquia e à disciplina.
Graças a importantes iniciativas levadas a cabo em governos anteriores, e mais particularmente durante o governo do presidente Lula, o panorama da Defesa nacional é qualitativamente distinto do cenário em que nos encontrávamos no início da redemocratização.
Contamos com Forças Armadas profissionais e plenamente conscientes de sua subordinação ao poder democrático civil.
A Estratégia Nacional de Defesa e o Plano de Articulação e Equipamento da Defesa dela decorrente oferecem um horizonte de curto, médio e longo prazo para o setor.
Sob o signo da continuidade que caracteriza os estados que atingiram maturidade democrática, trabalharei para implementá-los.
Farei isso com espírito crítico e de maneira atenta aos ajustes e adaptações que se façam necessários.
Dedicarei esforços ao fortalecimento da indústria nacional de material de emprego militar e à ampliação da autonomia tecnológica de nossas Forças Armadas, em estreita coordenação com os ministérios do Desenvolvimento e da Ciência e Tecnologia.
O momento que vivemos em termos de política industrial reforça essa prioridade.
O aprimoramento da capacidade de operação conjunta entre marinha, exército e aeronáutica, a racionalização de processos e programas e o robustecimento da supervisão do Ministério da Defesa sobre as políticas setoriais das forças são compromissos do titular da pasta.
O Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas terá importante papel nesse processo.
O Instituto Pandiá Calógeras, a ser implantado com celeridade, será importante instrumento de reflexão sobre temas estratégicos e servirá para formar os futuros analistas civis de Defesa.
Não ignoro a centralidade da questão orçamentária.
Conhecendo a atenção que a presidenta da República atribui aos assuntos de Defesa, cabe a mim empenhar-me em obter os recursos indispensáveis ao equipamento adequado das Forças Armadas. Conto para tanto com a compreensão de meus colegas da área financeira. Afinal, o próprio documento legal que instituiu a Estratégia Nacional de Defesa estabelece vínculo indissociável entre esta e a estratégia nacional de desenvolvimento.
Devemos conceber e aprovar mecanismo que permita conferir previsibilidade, estabilidade e perenidade aos projetos de equipamento e de desenvolvimento tecnológico das Forças.
Na mesma linha, não desconheço as legítimas aspirações dos militares no que se refere à garantia de condições de vida compatíveis com suas responsabilidades, vitais para toda a nação.
Um país pacífico como o Brasil não pode ser confundido com país desarmado e indefeso.
Vivemos em paz com os nossos vizinhos. Mas o B|rasil é detentor de enormes riquezas e possuidor de infraestruturas de grandes dimensões.
Cabe ao estado brasileiro resguardar extensas fronteiras terrestres e marítimas.
Além da indispensável defesa da população, devemos proteger nossos recursos naturais, a começar pelas riquezas contidas na Amazônia e nas águas jurisdicionais brasileiras.
As descobertas de significativas reservas de petróleo, sobretudo na camada pré-sal, reforçam essa necessidade.
Nosso território, da Amazônia ao Aquífero Guarani, que compartilhamos com os vizinhos do Mercosul, é repositório de enorme quantidade de água, recurso cada vez mais escasso no mundo.
É fundamental assegurar que a nossa soberania sobre o recurso água – além de sua utilização sustentável – seja preservada.
Hoje, é preciso admitir, nossas forças sofrem de carências que não permitem o efeito dissuasório indispensável à segurança desses ativos.
Há um descompasso entre a crescente influência internacional brasileira e nossa capacidade de respaldá-la no plano da Defesa. Uma não será sustentável sem a outra.
Atentos ao ecumenismo que caracteriza a inserção internacional do Brasil contemporâneo, devemos valorizar o Conselho de Defesa Sul-americano e intensificar a cooperação entre os países da região.
Pretendo também atribuir especial ênfase ao relacionamento de Defesa com os países africanos.
Juntamente com o Itamaraty, fortaleceremos a zona de paz e cooperação do Atlântico Sul.
Buscaremos assegurar que o Atlântico Sul seja uma área livre de armas de destruição em massa, em particular de armas nucleares.
Continuaremos a dar nossa contribuição a operações de paz da ONU, dentro dos preceitos do direito internacional, sobretudo naquelas áreas de maior interesse para o Brasil e onde disponhamos de clara vantagem comparativa.
Defesa e sociedade devem estar permanentemente em harmonia.
Historicamente, nossas Forças Armadas constituíram importantes instrumentos de ascensão social.
É importante, assim, que reflitam de forma crescente a diversidade da sociedade brasileira.
Devemos valorizar a discussão de temas como direitos humanos, desenvolvimento sustentável e igualdade de raça, gênero e crença.
Gostaria de encerrar com as palavras de um grande defensor das Forças Armadas, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio-Branco. Em seu último discurso, proferido no Clube Militar, em 11 de outubro de 1911, Rio-Branco afirmou:
“Toda a nossa vida como estado livre e soberano atesta a nossa moderação e os sentimentos pacíficos do governo brasileiro, em perfeita consonância com a índole e a vontade da nação.”
Essa convicção sobre nossa vocação pacifista não impediu Rio-Branco de, nas suas palavras:
“Lembrar, como tantos outros compatriotas, a necessidade (...) de tratarmos seriamente de reorganizar a Defesa nacional.”
Muito obrigado.
"O partido da Defesa é a pátria", diz Dilma em posse de Amorim
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Fernando Exman
O governo aproveitou ontem a posse do novo ministro da Defesa, Celso Amorim, para tentar abater no nascedouro o estranhamento gerado nas Forças Armadas pela nomeação do ex-chanceler. Em um gesto para se aproximar dos militares, Amorim prometeu trabalhar dentro do governo para garantir as verbas necessárias ao reequipamento do Exército, Marinha e Aeronáutica. Já a presidente Dilma Rousseff tratou de afastar desconfianças surgidas nas tropas pelo fato de Amorim ser um diplomata de carreira filiado ao PT.Dilma argumentou que militares e diplomatas têm características comuns. São carreiras de Estado que contam com quadros de grande formação técnica, moderação em manifestações públicas, elegância nos relacionamentos e disciplina à hierarquia, destacou.
"A ideologia do Ministério da Defesa é o respeito à Constituição e a subordinação aos interesses nacionais. O partido do Ministério da Defesa é a pátria. Os senhores sabem disso, o novo ministro sabe disso", discursou Dilma na posse do auxiliar, lembrando que sob a responsabilidade do Ministério da Defesa estão diversos projetos estratégicos para o país e que a troca de comando é uma "rotina".
A Pasta participa, por exemplo, do plano do governo de proteção às fronteiras e coordena os debates sobre o reaparelhamento das Forças Armadas. "São projetos que não podem, em hipótese alguma, sofrer atrasos, rupturas ou adiamentos. Escolhi o ministro Celso Amorim porque eu tenho certeza absoluta que, com ele, esses projetos terão continuidade e ganharão maior velocidade e solidez", comentou Dilma.
Amorim prometeu esforçar-se para fortalecer a indústria nacional de material militar, ampliar a autonomia tecnológica e promover o debate sobre direitos humanos nas Forças Armadas, assim como lutar por melhores salários para os militares. "Não ignoro a centralidade da questão orçamentária. Conhecendo a atenção que a presidenta da República atribui aos assuntos de Defesa, cabe a mim empenhar-me em obter os recursos indispensáveis ao equipamento adequado das Forças Armadas", sublinhou Amorim a uma plateia repleta de ministros e representantes das três Forças.
Amorim, que afirmou não ter tratado ainda em seu novo cargo da compra dos novos caças para a Força Aérea Brasileira, destacou que o Brasil precisa ter meios para proteger sua infraestrutura e recursos naturais, como a Amazônia e o petróleo da camada pré-sal. "Um país pacífico como o Brasil não pode ser confundido como um país desarmado e indefeso."
Ressaltando que as forças de paz das Nações Unidas lideradas pelo Brasil precisam consolidar seu trabalho no Haiti, Amorim defendeu a discussão de uma estratégia de retirada das tropas daquele país. Ex-ministro das Relações Exteriores nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Itamar Franco, Amorim assume a função depois da demissão de Nelson Jobim.
O pemedebista pediu demissão depois de ter dado uma série de declarações polêmicas à imprensa.
segunda-feira, agosto 08, 2011
De Jobim a Amorim
Luiz Edgard Cartaxo de Arruda Júnior
Continua a campanha para desestabilizar o governo Dilma. O alvo agora é o chanceler e novo ministro nomeado e ainda não empossado Celso Amorim.
As alas ocultas de forças desconhecidas propalam: os militares não gostam de diplomacia. Porque o diplomata não gosta de guerra. O Brasil deve acreditar na diplomacia como quem acredita que o tempo tem que ser de paz . Esse tem que ser o lema do Brasil no mundo.
Alguns militares reacionários não querem Amorim porque diplomata não gosta de guerra.
Pense numa máxima burra! É essa aí. Dita com idiotice pela canalha que tenta inutilmente iludir os dignos.
Celso Amorim pode até não gostar de guerra como eles querem. Como quando Amorim, o Chanceler do Brasil, não apoiou o Golpe em Honduras para derrubar Zelaia, eleito democraticamente pelo voto livre do povo e asilado na embaixada Brasileira. Tremiam de medo do império americano, quando o Chanceler Brasileiro não admitiu que as democracias latino- americanas fossem tratadas como republiquetas de bananas, manipuladas ao bel- prazer pelos abutres falcões(os urubus) do tio Sam e os magnatas da especulação a serviço dos interesses multinacionais.
Dessas guerras para manter a democracia no planeta Celso Amorim tem coragem para por o Brasil na linha de frente dessa batalha e vencer os combates de toda ordem em todo tempo por toda terra. Enquanto eles tremem mais que vara verde ao bajular e se curvarem diante da carcomida grande potencia ianque que pretendia manter as republicas da America latina como colônias. Como foi o caso recente de Honduras. Onde Celso Amorim não se curvou diante da mídia manipulada pelos interesses do império do norte, nosso chanceler resistiu e manteve o leme forte em defesa da liberdade, do respeito ao voto direto na democracia, da liberdade e autodeterminação dos povos nativo, latino, ibero- americano.
E mais, é Celso Amorim o principal responsável pela desconstrução da ALCA; numa guerra vitoriosa contra esse criado braço da CIA. Substituído por algo surgido no pensamento libertário brasileiro de Celso Amorim alicerçado em Capistrano de Abreu: O Mercosul. E agora realizando o grande sonho do cearense abrindo saídas do Brasil para o oceano Pacífico.
Penso eu que é provável que o novo ministro da Dilma dé prioridade a construção de submarinos devido ao pré-sal do que a compra dos nebulosos aviões fervorosamente defendidos por Nelson Jobim. E mais, nós dispensamos até os submarinos agora mesmo em detrimento da crise econômica mundial que se alastra.
Melhor mesmo que essas é a guerra pela preservação da memória e da verdade que o ministro Celso Amorim irá travar junto com Maria do Rosário,ministra da pasta presidencial responsável pelo Diretos Humanos no Brasil – para dignificar nossa história perante a humanidade.
Quem sabe tem que fazer uma espécie de CPI cujo primeiro a ser chamado a depor nela seja o ex ministro da Defesa o Rambo Nelson Jobim. Pois é ele que vai ter de explicar onde, como, quando e de quem, tim tim por tim tim, disse a ele que os papéis dos torturadores foram queimados. (Isso sim uma grande trapalhada). Ou se não foi ele próprio Nelson Jobim quem determinou a queima. Esta pensando que hoje a história terá a mesma complacência concedida a Rui Barbosa quando mandou queimar os papeis da escravidão! Tem muito é que fazer uma espécie de CPI da gorilada para tirar a história dos desaparecidos revolucionários da democracia brasileira do limbo. E pô-los nos píncaros da história.
O certo é que ao contrario do que diz o pig, a administração Jobim é responsável pela página contemporânea mais negra da historia. Por sua causa de Nelson Jobim, de sua omissão, covardia e inoperância que o Brasil está condenado na suprema corte de San José da OEA. Uma coisa vergonhosa, para não falar nas denúncias contra os direitos humanos que o Brasil responde na ONU, também efeito direto de suas trapalhadas.
Em sua mão a nossa Constituição foi adulterada, em tópicos que feriram a nossa soberania. Nisso é réu confesso. Depois da morte de Ulysses Guimarães ele vem tirar o corpo fora dizendo que foi o Sr. Diretas e Presidente da Constituinte que fez as nefastas alterações na Constituição Cidadã que permitia a alienação do patrimônio nacional e a evasão de riquezas feitas a rodo pelas multinacionais.
Das inúmeras páginas negras de Jobim se destaca o respaldo que ele deu ao desmoronamento de toda a operação Sathiagra ao sustentar a existência de um áudio sem gravação feito por equipamento que o delegado Paulo Lacerda nunca adquiriu para a Policia Federal e Abin. Tudo invenção para livrar o compadre do Daniel Dantas. Resultado esta lá o grande delegado servindo de porteiro na embaixada brasileira em Portugal. A Operação desacreditada e o Daniel Dantas serelepe e impune por aí. Dilma é hora de trazer o ínclito delegado Paulo Lacerda de volta.
Nem devemos esquecer a trama do abaixo assinado feito por Nelson Jobim e assinado por ele e pelos ministros militares, talvez o primeiro da vida deles chantageado o presidente da república Luiz Inácio Lula da Silva para ele apagar da Lei já aprovada a abrangência do Programa Nacional de Direitos humanos. Fato que levou o Brasil a ser condenado pela OEA . E o Brasil vai ter que se explicar ao mundo a razão inconseqüente da demora em julgar e punir os torturadores da ditadura. Mas uma vergonhosa pagina negra do enigmático Nelson Jobim. São muitas e graves as falhas e crimes desse impostor, que ludibriou até os líderes do movimento de redemocratização da política brasileira.
Setores conservadores da imprensa temem Celso Amorim porque ele é nacionalista e democrata. A sua luta na África e no Oriente para a implantação da democracia em todas as nações de todos os continentes, o levou a ser titulado como o melhor Chanceler do mundo. Verdade que teimam em manter oculta e provoca suspeitas de que avanços reais sejam perseverados em novo desenho da política de segurança nacional e da participação do Brasil no cenário mundial.
A Dilma reagiu a tempo para corrigir os rumos da consolidação democrática e afastar os fantasmas que pairavam sob a sombra de Nelson Jobim, fazendo chantagens e ameaças e alardeando retrocessos de nossas conquistas históricas. A sua saída foi acerto irreprensivel, mas não elimina que o destemido Jobim venha a pagar o preço justo pelos abusos cometidos contra a democracia brasileira.
Mas cuidado Amorim estas a pisar em ovos fritos verdes e frios.
O parto assustador de um novo mundo
Na Reuters, Petter Apps, Analista de Risco Político, assina uma bela reportagem em que sustenta que aparentemente os Estados-Nação perderam o controle da globalização.
Bate na mesma tecla da Coluna Econômica.
No curto prazo, os políticos se tornam impotentes diante da rápida evolução dos mercados – minando sua autoridade e ampliando a agitação social.
No longo prazo, há o o risco de que o mundo repita os erros dos anos 1930 e recue para o protecionismo e polarização política. É essa a opinião de Celina Realuyo, professora assistente de assuntos de segurança nacional do National Defense University EUA, em Washington DC.
Assim como na opinião pública nacional, houve uma explosão de novos temas na opinião pública mundial e múltiplos centros de interesse, seja na mudança climática, sistema financeiro global, cyber segurança. "Não está claro como o Estado-Nação tradicional poderá avançar em todos esses temas, muito menos o que poderia ser um consenso global", diz ela.
Não apenas o sistema financeiro, como a Internet e até mesmo a questão dos recursos naturais avançaram muito além das formas efetivas de controle estatal.
No caso dos mercados, a tecnologia e a desregulamentação permitem que a informação e os ativos financeiros sejam transferidos em todo o mundo muito mais rapidamente do que antes.
Cria-se um impasse. Nos Estados Unidos e na Europa, crescem os grupos de ultradireita, incluindo o Tea Party, eurocéticos e forças nacionalistas. À esquerda, crescem as pressões para maior controle sobre mercados e os capitais. Desde o ano passado, as desvalorizações cambiais competitivas se tornaram fontes de preocupação, com cada país querendo aumentar suas exportações.
No ciberespaço, há preocupações de ataques a computadores poderosos podendo eventualmente desencadear uma guerra.
Controles impossíveis
O analista diz ser impossível pensar em controles. Muitas áreas da economia global se tornaram efetivamente "espaço sem governo" na qual saltaram entusiasticamente uma série de atores – de criminosos a empresas internacionais.
Dinheiro é movimentado, até fábricas são transportadas de um país a outro, de jurisdição para jurisdição, atrás de baixos salários, para evitar tributação.
Alguns grupos propõem novos controles, diz a professora. Mas muitas das crises atuais do sistema são o resultado de tentativas de controle.
Outra fonte ouvida, Charles Robertson, economista-chefe do banco britânico russo Renaissance Capital, sustenta que sem controle de capitais em massa, os países não conseguirão segurar a crise. E o conselho vale não apenas para os países em crise como para as novas potências emergentes.
Simon Derrick, diretor de câmbio do Banco of New York Mellon afirma que em muitos alugares a atividade econômica foi impulsionada por forças que eram inerentemente não-sustentáveis. Durante muito tempo foram garantidas pelos gastos do governo dos EUA, inclusive com guerras onerosas, sendo financiado por economias emergentes, especialmente a China, graças a um dólar irrealisticamente apreciado.
Para muitos, a única esperança de curto prazo é a China. "O domínio de sua economia pelo Estado criou o maior buffer de curto prazo para a instabilidade no mundo em desenvolvimento mas é, de longe, o mais insustentável e volátil cenário de longo prazo:, escreveu Ian Bremmer, presidente da consultoria de risco político Eurasia Group.
Do Blog do Nassif
Onde estava você no golpe militar?
países costumam ter momentos fundamentais, em que se decidem os seus destinos. Nesses momentos cada pessoa, cada força política, cada meio de comunicação, todos, revelam suas posições profundas, os interesses que defendem, de que lado estão. O golpe militar de 1964 foi esse momento decisivo na história do Brasil, quando a democracia foi questionada e finalmente derrubada e destruída por uma ditadura militar.
Daí que faz todo sentido perguntar para cada um: Onde estava você no golpe militar?
Havia dois discursos, antagônicos. Um, o da defesa da democracia e extensão das suas conquistas, com a incorporação de setores cada vez mais amplos aos seus direitos fundamentais. A favor da extensão da democratização do Brasil – da sociedade e do seu Estado.
O outro, assumido por toda a mídia, junto com os partidos de oposição e o governo dos EUA, era de que os riscos à democracia que representaria o governo de Jango, justificariam um golpe militar preventivo. Argumento típico da guerra fria, que mobilizou forças contra a democracia, promovendo golpes militares em muitos países do continente. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.
“Nas palavras do presidente (sic) Castello Branco proferidas na solenidade de posse há uma nítida convocação para que a obra de reconstrução se faça com a colaboração indistinta de todas as classes, das produtoras e das trabalhadoras, das armadas e das civis, das eventualmente saudosistas do antigo regime e das que se regozijaram com a sua deposição.” O ditador é tratado, no título do editorial, como: “O Presidente de todos”, pelo jornal dos otavinhos. A manchete do dia do golpe – primeiro de abril – foi: “Ademar: 6 estados sublevam-se para derrubar Goulart.” Nenhuma menção à palavra golpe, menos ainda a ditadura e à intervenção dos militares, aliados com o grande empresariado, com os partidos de oposição, com a hierarquia da Igreja Católica e com o governo dos EUA.
Nesse momento crucial da nossa história, que mudou a nossa história de forma tão radical na direção da ditadura contra a democracia, de um modelo econômico excludente contra a inclusão social, pela aliança subordinada com os EUA contra a soberania nacional – nesse momento, cada um mostrou sua cara, disse de que lado está. Do lado da democracia ou da ditadura, dos interesses nacionais ou do entreguismo, da inclusão social ou da exclusão social.
É fácil, depois que a resistência popular derrubou a ditadura, tergiversar com a palavra democracia, esconder o passado, tentar embaralhas as coisas, para buscar impedir que se recorde onde estava cada um no dia primeiro de abril. Mas tudo está consignado pela história. O editorial mencionado acima é apenas um dessa empresa e de todas as outras – à exceção da Última Hora, que por isso mesmo não sobreviveu -, de apoio e incentivo ao golpe e à instauração da ditadura militar. Que venham a publico desmentir ou se arrependerem, se consideram que cometeram o pior erro que se pode cometer, de atentado grave e reiterado á democracia.
Todos os que estivemos do lado de cá, de defesa da democracia, não temos nada a esconder, nos orgulhamos disso e seguimos coerentes com essa luta. Estávamos, no primeiro de abril, e seguimos estando, do lado da democracia, dos interesses populares e nacionais.
Postado por Emir Sader
Crise avança mais rápida e forte e favorece avanço de novo sistema
Amir Khair
O sistema capitalista sofre seu mais duro golpe, ao evidenciar que é inviável por ser incapaz de controlar os fluxos financeiros que caminham com vida própria, independente da produção de bens e serviços da chamada economia real.
Ao invés de se apoiar no atendimento das necessidades de acesso da maior parte da população mundial especialmente das marginalizadas dos países ditos em desenvolvimento aos bens e serviços, endereçou sua expansão artificializando o excesso de consumo da população dos países do centro do capitalismo, (Estados Unidos, Europa e Japão). Essa artificialização se manifestou via empréstimos sem controle, ampliando volumes crescentes de títulos podres, que se espalharam como um câncer em expansão exponencial sem possibilidade de ser contido.
Partiu do princípio que esse sistema se auto-regularia, o que ficou evidenciado ser impossível. Está sendo duramente vitimado pela sua própria contradição interna, qual seja, ser incapaz de se desenvolver distribuindo os benefícios criados pelos trabalhadores e, pelo descontrole dos fluxos financeiros internacionais em busca desenfreada de lucros nas movimentações, que ultrapassam em volume centenas de vezes a movimentação de mercadorias.
• Recidiva - Nessa sequência está ficando cada vez mais clara a recidiva da crise de 2008, só que de forma mais ampla e virulenta. As avaliações de vários analistas que enfocam os problemas da zona do euro e dos Estados Unidos pioram dia a dia. Os países mais frágeis do sul da Europa não têm condições de resolver seus elevados déficits fiscais e reduzir suas dívidas, pois as medidas a que tiveram de se submeter de aperto fiscal e redução de salários e direitos criam, em contrapartida, efeito maior em queda de arrecadação, devido à redução da atividade econômica e elevação da inadimplência, pois os contribuintes passam a ter piores condições financeiras, e a primeira decisão que tomam é não pagar ou protelar o pagamento de impostos.
Assim, vai ficando mais claro que esses países não conseguirão pagar as prestações das dívidas que assumiram e os calotes irão se suceder atingindo o sistema financeiro privado em operação dominó, cujos reflexos podem ser de contaminação do sistema bancário de outros países como França, Alemanha e, como existem relações entre sistemas financeiros fortes entre Europa e Estados Unidos, este último poderá sentir os impactos financeiros, o que debilitaria ainda mais sua economia. Ao lado desse processo intensifica-se a mobilização social e manifestações públicas de reação da população atingida ou ameaçada pelas decisões de agravamento das condições de vida que usufruíam. Esse processo só tende a crescer.
Nos EUA, às voltas com o desenlace da autorização do Congresso para a elevação do teto da dívida do governo, a disputa política e a visão fiscal entre democratas e republicanos pode causar um trauma de proporções inimagináveis caso o acordo não saia. Os títulos americanos já sofreram a ameaça de rebaixamento nas agências de classificação de risco e, a economia até agora não eu sinais de recuperação do golpe sofrido em 2008, com elevado nível de desemprego, fragilidade no consumo interno e pouca competitividade externa face ao mercado internacional mais concorrencial, especialmente devido à posição agressiva das exportações do leste asiático, com destaque para a China.
Para agravar ainda mais esse quadro, a agência de classificação de risco Moody”s anunciou dia 13 ter colocado em revisão para potencial rebaixamento o rating soberano dos Estados Unidos, devido à possibilidade de o limite de endividamento não ser elevado em momento oportuno e, dessa forma, levar o país a declarar calote em suas obrigações de dívidas.
A Moody”s também colocou os ratings de instituições financeiras diretamente ligadas ao governo dos EUA em revisão para potencial rebaixamento. Entre elas, estão a Fannie Mae e a Freddie Mac.
Em abril, a Standard & Poor”s reduziu a perspectiva da classificação de estável para negativa, pois “Mais de dois anos depois do começo da crise, os formadores de política dos EUA ainda não chegaram a um acordo sobre como reverter a recente deterioração fiscal ou solucionar as pressões fiscais de longo prazo”.
• Solução coordenada - Parece que não existe mais a possibilidade de uma solução coordenada de salvamento das economias dos países mais frágeis da zona do euro, nem perspectivas sólidas e duradouras de acordo para ampliar o limite de endividamento dos EUA. Há sérios riscos de empurrar o problema para frente tornando-o impossível de ser resolvido.
Esses países vão sentindo os golpes e o que prevalece é o salve-se quem puder. A crise de 2008 não conseguiu estabelecer regras para controlar os fluxos financeiros internacionais, que comandam o sistema capitalista e nem conseguirão agora, pois é da essência desse sistema ter vida própria, o que o vitimiza.
• Novo sistema - A China vem desenvolvendo, há mais de vinte anos, sistema próprio de um misto de capitalismo, abrindo espaços a iniciativas privadas e recebendo o ingresso de capitais e empresas de fora, mas sob controle do Estado e com plano estratégico de desenvolvimento. Como tem elevado exército de reserva no campo, os salários são baixos em relação à maioria dos países e seus trabalhadores não contam com a proteção da seguridade social. Com essa precarização do custo da mão de obra conseguem deslocar produtos de outros países no comércio internacional e continuam penetrando cada vez mais seus produtos em mercados que têm custos de mão de obra mais elevados. Seu calcanhar de Aquiles é que nesse processo os trabalhadores irão progressivamente reivindicar melhores condições salariais e de proteção do Estado, o que elevará gradualmente seus custos de produção. Temendo os reflexos de se apoiar em excesso no mercado externo o novo plano do Partido chinês é se voltar para buscar centrar sua expansão mais voltada para seu mercado interno, à semelhança do que já vem sendo feito por vários países emergentes.
• Trabalho x Trabalho – A lógica do sistema capitalista, em sua evolução, evidencia, com clareza, séria disputa entre trabalhadores no confronto internacional. Há deslocamentos de empregos e movimentos migratórios com ou sem controle na busca de oportunidades de trabalho. A tendência que parece natural, mas que precisa ser acompanhada e analisada é de um menor distanciamento entre custos de trabalho entre países, uma vez que a tecnologia pode se deslocar para sistemas produtivos sem maiores problemas, e essa tecnologia é mais diversificada e em forte processo de desenvolvimento. Não será surpresa se ocorrer gradualmente redução dos salários nos países hoje desenvolvidos e elevação nos emergentes dentro desse processo.
Em escala global isso pode ser um avanço, mas repito, é um processo a ser acompanhado e analisado, cabendo aos governos dos países adotarem estratégias de redução dos custos de reprodução da mão de obra, especialmente os relativos à alimentação, transporte, moradia, saúde, assistência social, bem como proteção ao emprego e preparo técnico da mão de obra. É a melhor forma de proteção de seus trabalhadores dentro dessa disputa internacional de custos de trabalho.
• Brasil – No caso desta recidiva da crise, o Brasil não pode titubear e continuar seguindo o que dita o mercado financeiro e os economistas ortodoxos e conservadores, com amplo espaço de expressão na mídia, criando um verdadeiro efeito manada, de sob o pretexto do risco da inflação – que depende mais de fora do que de dentro – pisar no freio da economia. Ao contrário, deve reforçar políticas de distribuição de renda para ampliar sua base interna de consumo, em doses bem mais acentuadas do que os programas de renda, miséria e habitação já anunciados. Representam apenas cerca de 1,1% do PIB. Deve imediatamente reduzir as taxas de juros bancários do governo (Selic) e dos bancos, as mais elevadas do mundo e causas centrais dos prejuízos que o País tem. O governo tem que botar limites e penalizações fortes sobre as taxas de juros e tarifas exorbitantes dos bancos. Tem poder para isso, mas não o exerce, pois está submisso e conivente ao poder do mercado financeiro.
Só de juros são jogados no lixo cerca de 6% do PIB todo o ano, o que obriga a se ter uma carga tributária onerosa, que causa informalização de empresas e empregos. Há que deslocar os benefícios da produção do sistema financeiro para a base da pirâmide social. Temos alto potencial de mercado interno disponível e elevados déficits sociais e de infraestrutura, que nos dificulta a concorrência com outros países e criam problemas sociais que poderiam não existir na magnitude atual.
Nesse sentido, o governo deveria tomar as rédeas da economia elevando as transferências de renda e reduzindo os custos com juros. Quanto mais demorar pior será para enfrentar os problemas existentes e os que virão importados, que são imprevisíveis em seus efeitos danosos ao País.
Amir Khair é Mestre em Finanças Públicas pela FGV e consultor
Publicado em Carta Maior
domingo, agosto 07, 2011
Estado de São Paulo reduz em R$ 2,1 bilhões os investimentos no primeiro semestre
Nestes tempos de balanço do Programa de Aceleração do Crescimento/PAC do governo federal, a grande imprensa apressou-se em observar que os investimentos federais foram 10% inferiores, no primeiro semestre de 2011, aos valores realizados em igual período de 2010.
As críticas com relação à lentidão dos investimentos federais foram constantes em diversas reportagens. Mesmo diante de um novo governo, os argumentos desenvolvidos pela grande imprensa falavam em “governo de continuidade”, tornando injustificável a redução dos investimentos. Incompetência e corrupção foram causas listadas para a pequena redução nos investimentos federais.
O que falar, então, dos números alarmantes apresentados pelo governo Alckmin nestes primeiros seis meses de 2011?
Mesmo diante de um aumento de 5,47% na arrecadação em relação ao ano anterior, os investimentos estaduais executados caíram 52% no mesmo período.
De janeiro a junho de 2011, o governo estadual teve uma arrecadação superior em ICMS e IPVA (os dois principais tributos estaduais) de quase R$ 6 bilhões em relação ao mesmo período de 2010.
Governo do Estado de SP - Valores arrecadados - 1º Semestre
Ainda assim, os investimentos diretos do governo Alckmin e os repasses para as empresas estatais investirem foram muito menores, apresentando uma queda de R$ 2,1 bilhões no período.
O total dos investimentos (investimentos diretos + repasses para empresas estatais), que no primeiro semestre de 2010 já havia atingido a casa dos R$ 4 bilhões, agora, em 2011, foi de apenas R$ 1,9 bilhão.
Os investimentos realizados diretamente pelas secretarias estaduais foram de R$ 3 bilhões de janeiro a junho de 2010, enquanto no primeiro semestre de 2011 este valor foi inferior a R$ 1,4 bilhão.
Dentro deste item, destaca-se a queda de 56,9% no valor gasto com “obras e instalações” – de R$ 2,4 bilhões em 2010 para R$ 1 bilhão em 2011.
Já os repasses para as empresas estatais investirem foram 42,7% menores do que no ano passado. Enquanto em 2010 estes repasses haviam sido de R$ 1 bilhão, em 2011 eles foram inferiores a R$ 600 milhões.
Governo do Estado de SP - Valores liquidados - 1º Semestre
Esta queda nos investimentos atingiu todas as principais secretarias do governo do Estado de SP.
Na educação, a queda dos investimentos foi de quase 63%, atingindo, principalmente, os programas de construção de escolas e de apoio às APAES.
Na saúde, a queda dos investimentos foi de 71%, sendo que as ações mais atingidas foram as de apoio às Santas Casas (entidades filantrópicas), os repasses para as organizações sociais e os investimentos nas unidades e serviços de saúde administrados pelo próprio Estado.
Na cultura, o corte dos investimentos foi quase total (83%), atingindo as obras de criação, expansão e readequação de museus, bem como a construção de novas “fábricas de cultura”.
Na agricultura, o governo paulista não investiu um único centavo no crédito para expansão do agronegócio, cortando quase pela metade os valores investidos na subvenção “prêmio-seguro” para o agronegócio.
Nos transportes, os investimentos foram 56,7% menores. O governo estadual cortou recursos em todas as ações, principalmente na duplicação e recuperação das rodovias estaduais e na ampliação e modernização dos aeroportos estaduais.
Na segurança os cortes foram de 45,8%, atingindo principalmente as ações de re-aparelhamento da polícia civil.
Na administração penitenciária, a ampliação do sistema prisional teve apenas a metade dos recursos investidos quando comparamos com o ano anterior.
Na habitação, a secretaria não gastou um centavo no re-assentamento habitacional e na produção de unidades habitacionais. Os repasses para a CDHU investir também foram 22,4% menores do que em 2010.
No meio ambiente, destaca-se a queda dos investimentos na recuperação da Serra do Mar e no desenvolvimento do ecoturismo na região da mata atlântica.
Finalmente, na Secretaria de Transportes Metropolitanos, o governo Alckmin investiu 23,6% menos na CPTM e repassou 58,2% a menos para o Metrô em comparação com 2010.
Na CPTM, praticamente todas as linhas de trens receberam menos investimentos em relação a 2010, enquanto o governo estadual deixou de repassar ao Metrô quase R$ 400 milhões em relação ao ano passado.
Todos os números demonstram uma só realidade: o governo Alckmin praticamente “paralisou” os investimentos públicos nestes primeiros seis meses.
Incompetência administrativa, corrupção, falta de planejamento ou crença absurda no “ajuste fiscal permanente” baseado em corte de investimentos, as causas desta paralisia merecem investigação.
Comparando os números iniciais, o governo Dilma apresentou uma capacidade de investimento muito maior do que o governo Alckmin.
Eduardo Marques e Emílio Lopes são assessores da Liderança do PT na Assembleia de São Paulo, respectivamente economista e sociólogo.
COMENTÁRIO E & P
Cadê o escarcéu da Globo, Abril. Folha e Estado como fizeram com a suposta queda de investimento do governo federal, que segundo eles mesmo foi bem menor do que está apresentado no governo paulista. E estão quietos com a queda dos investimentos no governo de Geraldo Alckmin? São seletivos, o que atinge os tucanos eles nã o publicam. É o padrão Murdoch de jornalismo.
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