Paulo Moreira Leite
Brasil 247
Vivemos num país onde o lucro dos quatro maiores bancos cresceu 46% entre o primeiro semestre de 2014 e o primeiro semestre de 2015.
Neste período, a taxa de juros, que era de 10,4%, passou a 14,5%, seguindo uma alta que quase dobrou o custo do dinheiro em relação a março de 2013.
A economia brasileira, em compensação, caiu 0,7% negativos no primeiro trimestre de 2015 e 1,9% negativos no segundo.
Quem já se conformou com a taxa de juros do Banco Central e até aceita com naturalidade a ideia de que eles não devem cair tão cedo, deveria ler "A bronca dos banqueiros," artigo de Paul Krugman no Globo de hoje. (http://oglobo.globo.com/opiniao/a-bronca-dos-banqueiros-17565255).
O Premio Nobel de Economia de 2002 analisa a decepção dos banqueiros dos Estados Unidos depois que, na semana passada, o FED decidiu manter a taxa básica de juros em 0,25% ao ano, patamar que se encontra desde dezembro de 2008 – ou seja, há sete anos – sem interrupção.
A decisão marcou uma derrota do setor financeiro que, escondendo-se atrás do eufemismo "normalização", que no fundo sugere que juro natural é juro alto, pressionava para elevar o patamar histórico.
Num bom aviso aos navegantes, Krugman recorda que o desempenho da inflação norte americana contraria uma das supostas verdades estabelecidas do pensamento econômico há mais de um século – aquela que diz que juros baixos estimulam a inflação. Medida pelo patamar mais aceito nos EUA, que exclui preços voláteis por natureza – como alimento e energia – a inflação encontra-se abaixo de 2%.
Com base no primeiro trimestre, o crescimento de 2015 ficou em 3,7%.
Vivendo um momento bem diferente do Brasil, os banqueiros dos EUA não podem pedir a alta dos juros pelos argumentos clássicos, é obvio.
Mesmo assim, não deixam de pressionar o Federal Reserve para fazer mudanças, multiplicando ares decepcionados quando elas não ocorrem. Por que? Krugman explica:
"Muitas pessoas têm sido enganadas por tentar decifrar se dinheiro fácil é bom ou ruim para as pessoas ricas em geral. Esta é, na verdade, uma questão complexa. O que é claro, porém, é que taxas de juros baixas são ruins para os banqueiros."
Krugman continua, explicando quem ganha e quem perde com juros baixos no mercado de crédito: "os bancos obtêm seus lucros recebendo depósitos e emprestando os fundos a uma taxa de juros mais alta. E esse negócio fica mais apertado num ambiente de baixas taxas de juros: os juros que os bancos podem impor nos empréstimos são puxados para baixo, mas as taxas sobre depósitos só podem ir tão baixo. A margem líquida de juros — a diferença entre a taxa de juros que os bancos cobram nos empréstimos e a taxa que eles pagam nos depósitos — caiu vertiginosamente nos últimos cinco anos. "
Prevendo novas pressões no futuro, Krugman adverte: "o uivo dos banqueiros não tem nada a ver com o interesse público."
Este é ponto que interessa debater aqui – também. Apesar dos juros a 14,5%, não é só o desemprego que sobe. A renda também cai.
Como disse Marieta Severo, “estamos numa crise mas vamos sair dela. Eu sou sempre otimista. O país caminhou muito. Pra mim, tem uma coisa muito importante: a inclusão social, a luta contra a desigualdade. A gente teve muito isso nos últimos anos.”
Mas basta ler os jornais com atenção para ouvir, desde já, o uivo dos banqueiros de que fala Krugman – apesar dos lucros históricos de 2015, já fazem campanha preventiva contra qualquer redução na política de juros.
O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
terça-feira, setembro 22, 2015
Brasil 2015, um país sem médio prazo
A crise é geral, o PT entrou em pane e, por enquanto, incendiários e irresponsáveis ganham terreno
por Mauricio Moraes
Protesto liderado por PSTU e Conlutas em São Paulo, na sexta-feira 18: contra Dilma, Aécio e Eduardo Cunha
Em 2002, o último spot da campanha vitoriosa de Lula à Presidência, assinado por Duda Mendonça, mostrava uma série de mulheres grávidas e felizes num campo de trigo. Ali se desenhava o país do futuro, que cuidaria bem daquelas crianças, um país justo e sonhado pela esquerda. Em setembro de 2015 não sabemos qual será o Brasil nos próximos meses. Não sabemos sequer se Dilma estará na Presidência, qual será o nível de emprego, a cotação do dólar, nada.
Cheguei a Londres nesta semana, para uma temporada acadêmica. E aqui já me inundam de questões: o que está acontecendo com o Brasil? O que vai ser do Brasil?
Este texto não tem a pretensão de trazer respostas e é bem possível que já esteja desatualizado com a mesma rapidez que a escalada golpista pelo impeachment se instala no Congresso. A minha geração, que cresceu na democracia, sempre achou que golpes e instabilidade profunda eram coisas do passado. O Brasil país do futuro, tão esperado por nossos pais e avós, parecia estar finalmente chegando (de mansinho ele parecia estar ali, ao alcance da mão).
Mas eis que, em menos de um ano, vimos nossas certezas se esfarelarem e os velhos fantasmas do passado voltarem à tona para nos assombrar. Vimos gente defender a ditadura e até pedir a volta da monarquia nas manifestações verde-amarela da Avenida Paulista. Qual é o próximo ítem? Revogar a independência e voltar a ser colônia portuguesa?
É a economia, estúpido! (diria algum mais avisado, repetindo um velho chavão). Sim, é a economia, mas é sobretudo a política! É claro que a crise econômica está instalada (com menor intensidade do que o caos noticiado pela grande imprensa, mas ela existe sim e corrói nosso poder de compra).
Qualquer analista irá apontar a inflação, a dívida pública, o câmbio, o grau de investimento, etc, etc. Culpa da Dilma? Em partes... O próprio governo tem reconhecido erros. Mas não só. A questão maior é que a grande crise da qual o País padece, e para a qual a retomada do crescimento chinês ou as medidas “estruturantes” não são remédio, é a crise política.
Vivemos o fim de um ciclo, mas não meramente o fim do ciclo do PT. É o fim da retomada democrática conciliatória, daqueles que se uniram contra a ditadura, redigiram e fizeram cumprir uma nova Constituição a partir de 1988. Criamos o Sistema Único de Saúde, demos direitos a todos (ao menos no papel), sonhamos, em suma fazer do Brasil uma espécie de Noruega tropical. O sonho está em risco.
A velha direita, que havia marchado com os militares, assentiu em certa medida com esse projeto, sem opção, fragilizada com a crise do velho regime que acabara em 1985. Por muito tempo, conservador no Brasil teve vergonha se assumir como direita. Basta olhar o nome dos partidos, como o PP (Partido Progressista? – só que não) - apenas para ficar em um exemplo.
Sempre defendi que a direita se assumisse como tal no Brasil, que tivesse um programa claro, se agrupasse em um partido sério, até para melhorar o nível do debate político. Pois desde as Jornadas de Junho de 2013, o estopim dessa crise toda, a direita saiu do armário e mostrou que é a mesma de sempre – golpista, burra, oportunista e sem nenhum comprometimento com um projeto amplo de país.
O que se vê é um cenário difuso. De repente, é como se o sistema político brasileiro tivesse entrado em colapso, já não comportasse o novo Brasil que emergiu da pobreza e ascendeu para a classe média na era PT, nem o velho Brasil patrimonialista que sempre deu o tom dos conchavos e se viu supostamente perdendo espaço nesse jogo que existe desde o nosso sempre.
A velha direita reapareceu com sangue nos olhos e a esquerda se vê aturdida na resistência, indo para a rua combater projetos grotescos como a diminuição da maioridade penal ou para conter a reforma política escabrosa que a bancada BBB (boi, bala e Bíblia) tenta impor no Congresso. Estamos perdendo a capacidade de pautar a agenda política.
Isso sem falar dos ajustes draconianos na economia (ajustes necessários, diga-se, mas que já deveriam ter sido feitos há tempos, de forma escalonada. Agora, o que se vê são os donos do capital pautando o governo e passando a fatura sobretudo para o andar de baixo).
A crise é geral. Entrou em pane o PT, o velho partido da esquerda que um dia inspirou muita gente e que se envenenou com os vícios da direita (apesar da resistência de bravos petistas que ainda acreditam na sua construção). Entrou em pane o PSDB (que irônica e momentaneamente se fortalece de forma errática no meio da lama), esse partido que um dia se disse moderno e socialdemocrata e agora joga com o velho golpismo udenista e tem a pachorra de ter entre seus representantes de direitos humanos um sujeito chamado Coronel Telhada (aquele que se vangloria de ter matado mais de 30 pessoas à frente da Rota). Está tudo virado, difícil de entender.
É fácil apontar o dedo para o PT. Mas se enganam redondamente aqueles que querem destruir o partido. Se está ruim com ele no cenário político, será muito pior sem. Prova disso é que a mesma massa que aponta contra Dilma não enxerga alternativas na oposição. Pesquisa interna da Secom, da Presidência da República, mostra que apenas 17% dos brasileiros acreditam que o governo pode tirar o país da crise. É ruim, mas o saldo da oposição é muito pior – apenas 13% acreditam na capacidade dos opositores.
Na demagogia rasa e barata dos direitosos verde-amarelos, o PT estaria tornando o Brasil uma Venezuela, um país dividido, em crise permanente. A maior ironia é que foi essa própria direita, de forma prosaica, que empurrou o processo de venezuelização. Foram eles que não reconheceram a derrota, tentaram recontar os votos, depois pediram o impeachment, fizeram e aconteceram. O resultado é o caos.
A grande ironia é que todo o discurso é formatado a partir da corrupção. E neste cenário, temos na dianteira do golpe um réu da Lava Jato (Eduardo Cunha) e outro que já foi investigado nessa mesma operação e que até já construiu aeroporto na fazenda do tio (Aécio Neves). E o grande alvo é Dilma, que sequer investigada é.
Isso não exime o PT e muitos petistas de seus pecados. Mas o cenário é de uma hipocrisia tamanha que consegue chocar até quem já está acostumado com a desfaçatez da política nacional. É só ver a cobertura da grande imprensa, ou a reforma política, que de mansinho vai passando no Congresso cristalizando esse sistema podre (agora até mesmo ocultando quem serão os doadores privados das campanhas proporcionais).
Por ora, os incendiários e irresponsáveis ganham terreno. Mas a história será implacável (assim como absolverá Dilma de grande parte do que se atribui a ela). Como sou um otimista inveterado, vale repetir a máxima, verdadeira, de que é na crise que se constroem as alternativas. O horizonte é turvo, mas o médio prazo, dia ou outro, há de chegar. Fiquemos espertos.
por Mauricio Moraes
Protesto liderado por PSTU e Conlutas em São Paulo, na sexta-feira 18: contra Dilma, Aécio e Eduardo Cunha
Em 2002, o último spot da campanha vitoriosa de Lula à Presidência, assinado por Duda Mendonça, mostrava uma série de mulheres grávidas e felizes num campo de trigo. Ali se desenhava o país do futuro, que cuidaria bem daquelas crianças, um país justo e sonhado pela esquerda. Em setembro de 2015 não sabemos qual será o Brasil nos próximos meses. Não sabemos sequer se Dilma estará na Presidência, qual será o nível de emprego, a cotação do dólar, nada.
Cheguei a Londres nesta semana, para uma temporada acadêmica. E aqui já me inundam de questões: o que está acontecendo com o Brasil? O que vai ser do Brasil?
Este texto não tem a pretensão de trazer respostas e é bem possível que já esteja desatualizado com a mesma rapidez que a escalada golpista pelo impeachment se instala no Congresso. A minha geração, que cresceu na democracia, sempre achou que golpes e instabilidade profunda eram coisas do passado. O Brasil país do futuro, tão esperado por nossos pais e avós, parecia estar finalmente chegando (de mansinho ele parecia estar ali, ao alcance da mão).
Mas eis que, em menos de um ano, vimos nossas certezas se esfarelarem e os velhos fantasmas do passado voltarem à tona para nos assombrar. Vimos gente defender a ditadura e até pedir a volta da monarquia nas manifestações verde-amarela da Avenida Paulista. Qual é o próximo ítem? Revogar a independência e voltar a ser colônia portuguesa?
É a economia, estúpido! (diria algum mais avisado, repetindo um velho chavão). Sim, é a economia, mas é sobretudo a política! É claro que a crise econômica está instalada (com menor intensidade do que o caos noticiado pela grande imprensa, mas ela existe sim e corrói nosso poder de compra).
Qualquer analista irá apontar a inflação, a dívida pública, o câmbio, o grau de investimento, etc, etc. Culpa da Dilma? Em partes... O próprio governo tem reconhecido erros. Mas não só. A questão maior é que a grande crise da qual o País padece, e para a qual a retomada do crescimento chinês ou as medidas “estruturantes” não são remédio, é a crise política.
Vivemos o fim de um ciclo, mas não meramente o fim do ciclo do PT. É o fim da retomada democrática conciliatória, daqueles que se uniram contra a ditadura, redigiram e fizeram cumprir uma nova Constituição a partir de 1988. Criamos o Sistema Único de Saúde, demos direitos a todos (ao menos no papel), sonhamos, em suma fazer do Brasil uma espécie de Noruega tropical. O sonho está em risco.
A velha direita, que havia marchado com os militares, assentiu em certa medida com esse projeto, sem opção, fragilizada com a crise do velho regime que acabara em 1985. Por muito tempo, conservador no Brasil teve vergonha se assumir como direita. Basta olhar o nome dos partidos, como o PP (Partido Progressista? – só que não) - apenas para ficar em um exemplo.
Sempre defendi que a direita se assumisse como tal no Brasil, que tivesse um programa claro, se agrupasse em um partido sério, até para melhorar o nível do debate político. Pois desde as Jornadas de Junho de 2013, o estopim dessa crise toda, a direita saiu do armário e mostrou que é a mesma de sempre – golpista, burra, oportunista e sem nenhum comprometimento com um projeto amplo de país.
O que se vê é um cenário difuso. De repente, é como se o sistema político brasileiro tivesse entrado em colapso, já não comportasse o novo Brasil que emergiu da pobreza e ascendeu para a classe média na era PT, nem o velho Brasil patrimonialista que sempre deu o tom dos conchavos e se viu supostamente perdendo espaço nesse jogo que existe desde o nosso sempre.
A velha direita reapareceu com sangue nos olhos e a esquerda se vê aturdida na resistência, indo para a rua combater projetos grotescos como a diminuição da maioridade penal ou para conter a reforma política escabrosa que a bancada BBB (boi, bala e Bíblia) tenta impor no Congresso. Estamos perdendo a capacidade de pautar a agenda política.
Isso sem falar dos ajustes draconianos na economia (ajustes necessários, diga-se, mas que já deveriam ter sido feitos há tempos, de forma escalonada. Agora, o que se vê são os donos do capital pautando o governo e passando a fatura sobretudo para o andar de baixo).
A crise é geral. Entrou em pane o PT, o velho partido da esquerda que um dia inspirou muita gente e que se envenenou com os vícios da direita (apesar da resistência de bravos petistas que ainda acreditam na sua construção). Entrou em pane o PSDB (que irônica e momentaneamente se fortalece de forma errática no meio da lama), esse partido que um dia se disse moderno e socialdemocrata e agora joga com o velho golpismo udenista e tem a pachorra de ter entre seus representantes de direitos humanos um sujeito chamado Coronel Telhada (aquele que se vangloria de ter matado mais de 30 pessoas à frente da Rota). Está tudo virado, difícil de entender.
É fácil apontar o dedo para o PT. Mas se enganam redondamente aqueles que querem destruir o partido. Se está ruim com ele no cenário político, será muito pior sem. Prova disso é que a mesma massa que aponta contra Dilma não enxerga alternativas na oposição. Pesquisa interna da Secom, da Presidência da República, mostra que apenas 17% dos brasileiros acreditam que o governo pode tirar o país da crise. É ruim, mas o saldo da oposição é muito pior – apenas 13% acreditam na capacidade dos opositores.
Na demagogia rasa e barata dos direitosos verde-amarelos, o PT estaria tornando o Brasil uma Venezuela, um país dividido, em crise permanente. A maior ironia é que foi essa própria direita, de forma prosaica, que empurrou o processo de venezuelização. Foram eles que não reconheceram a derrota, tentaram recontar os votos, depois pediram o impeachment, fizeram e aconteceram. O resultado é o caos.
A grande ironia é que todo o discurso é formatado a partir da corrupção. E neste cenário, temos na dianteira do golpe um réu da Lava Jato (Eduardo Cunha) e outro que já foi investigado nessa mesma operação e que até já construiu aeroporto na fazenda do tio (Aécio Neves). E o grande alvo é Dilma, que sequer investigada é.
Isso não exime o PT e muitos petistas de seus pecados. Mas o cenário é de uma hipocrisia tamanha que consegue chocar até quem já está acostumado com a desfaçatez da política nacional. É só ver a cobertura da grande imprensa, ou a reforma política, que de mansinho vai passando no Congresso cristalizando esse sistema podre (agora até mesmo ocultando quem serão os doadores privados das campanhas proporcionais).
Por ora, os incendiários e irresponsáveis ganham terreno. Mas a história será implacável (assim como absolverá Dilma de grande parte do que se atribui a ela). Como sou um otimista inveterado, vale repetir a máxima, verdadeira, de que é na crise que se constroem as alternativas. O horizonte é turvo, mas o médio prazo, dia ou outro, há de chegar. Fiquemos espertos.
segunda-feira, setembro 21, 2015
O Papa que dá à crise o seu nome
Francisco afirma que o mundo vive uma terceira guerra mundial, e resume o que entende por paz: 'nenhuma família sem teto, nenhum ser humano sem pão'.
por: Saul Leblon
Uma das características que impressionam no Papa, pelo ineditismo em relação à norma dominante, é a sensação de que ele está sempre chegando.
Francisco é o dado novo na mesa rasa, previsível, da policrise do nosso tempo, ao mesmo tempo uma crise do capitalismo e da civilização, cujo vórtice ambiental ameaça a própria sobrevivência da humanidade.
É disso que ele trata em sua primeira encíclica ‘Laudato si’.
E o faz de forma desabrida, como nas suas primeiras declarações ao chegar em Cuba, neste sábado (leia a cobertura de Carta Maior nesta pág; direto de Havana).
Poucos minutos depois de seu desembarque, como o terceiro papa a pisar em solo cubano, mas o primeiro a abraçar a luta pelo fim do embargo norte-americano, disparou: ‘O mundo vive uma terceira guerra mundial por etapas. Precisamos de conciliação’.
A conciliação que ele tem pleiteado é aquela baseada na maior igualdade, na menor obsessão consumista, no fim do fetiche do dinheiro, no resgate dos excluídos, na repartição da riqueza, na reconciliação entre as formas de viver e de produzir e a natureza.
O nome da crise é capitalismo turbinado, diz o idioma religioso de Francisco.
Em outubro de 2014, ele promoveu um Encontro Mundial de Movimentos Populares nas dependências do Vaticano.
O desassombro não ficou na forma.
Ao falar aos participantes, entre eles o líder do MST, João Pedro Stédile, que saiu convencido de que o Papa estava à esquerda dos presentes, resumiu o que entende por conciliação e reconciliação: ‘Nenhuma família sem teto; nenhum agricultor sem terra; nenhum ser humano sem pão’.
Mas foi além.
Como se fora uma espécie de Polanyi de batina, criticou o comércio dos recursos essenciais: o solo e a água, por exemplo,
O filósofo e economista húngaro Karl Polanyi (1886/1964) autor de ‘A grande transformação’, advertiu pioneiramente para esse risco.
Elementos essenciais ao equilíbrio da vida e à construção do bem comum, como o trabalho, a terra --e também o dinheiro, disse Polanyi, filho de húngaros, nascido em Viena, não deveriam ser submetidos a um liberalismo subordinado à cobiça do interesse privado.
As evidências do nosso tempo mostram que ele tinha razão.
Nesse mundo onde tudo o que é rentável deve ser desregulado, para a livre mastigação dos mercados, os recursos que formam as bases da vida na terra, e o ‘recurso’ humano, encontram-se ameaçados pela inconciliável relação entre o capitalismo, a temperança e o equilíbrio ambiental.
Há dois anos e meio do seu Papado, iniciado em março de 2013, Francisco parece que acabou de entrar na sala.
É a visita que a qualquer momento pode trazer novidades.
Não é truque, nem miragem.
Ao contrário daquilo que se ouve da maioria dos líderes convencionais, seu discurso escapa à circularidade dos interesses e reiterações paralisantes.
A renovação que expressa ganha interesse ecumênico, para além das fronteiras dos vaticanistas, na medida em que envolveu uma superação dos limites e ambiguidades do próprio Cardeal Jorge Mario Bergoglio.
Longe de ser retórica, reflete a circunstância histórica de quem soube captar toda a extensão da suas responsabilidades e a emergência dos dias que correm.
Um ciclo está se fechando na sociedade capitalista como a conhecemos no século XXI.
A supremacia insaciável da lógica financeira perdeu a capacidade de girar a roda da história na direção das necessidades objetivas e psicológicas da humanidade.
O dinheiro celibatário, que se reproduz à margem da produção e do bem comum, coroou esse esgotamento em uma crise capitalista de superprodução de capital fictício.
O impasse coloca uma disjuntiva extremada: ou uma desvalorização épica da riqueza financeira predadora, ou a imposição, ao seu redor, de uma desigualdade exacerbada, vendida como o novo normal da humanidade.
Diante do dilúvio, Bento VI, seu antecessor, resignou-se ao encolhimento da fronteira cristã, atrás de um muro alto de expurgo e purificação doutrinária.
Renunciou.
Francisco entendeu a dimensão terminal da encruzilhada entre a entropia da finança desregulada e a ‘salvação’ que não prescinde do chão firme na terra.
Foi à luta. Que é ao mesmo tempo, por igualdade e libertação do garrote ideológico.
Por isso dá às coisas protegidas pela dissimulação midiática e plutocrática o seu nome.
O problema não é apenas que instituições internacionais, partidos e lideranças passaram a incorporar políticas inadequadas, como a desregulamentação indiscriminada e a abertura das contas de capitais a qualquer custo em vidas humanas e dilapidação ambiental.
O problema principal é a falta de capacidade política par refletir sobre o colapso correspondente fora da ‘caixinha’, isto é, fora do consenso conservador ancorado em arrocho e desemprego ante qualquer ameaça à remuneração do capital a juro.
Em 2011, em plena curva ascendente da crise, o Escritório de Avaliação Independente (IEO, na sigla e inglês) analisou 6.500 trabalhos escritos produzidos ou contratados pelo FMI nos últimos dez anos, portanto na chocadeira da crise mundial.
Praticamente todos afiançavam as boas condições do comboio capitalista que rumava em alta velocidade para espatifar a ordem neoliberal.
Pior: 62% dos economistas do Fundo afirmaram que se sentiam pressionados a alinhar as conclusões de suas pesquisas econômicas ao pensamento dominante no órgão.
Dados de então mostravam que 60% dos cargos de chefia no FMI eram ocupados por profissionais de países anglo-saxões. Nada menos que 63% dos economistas haviam obtido seu doutorado em universidades americanas.
Não por acaso, representantes das economias em desenvolvimento consideravam que esses trabalhos e seus autores apenas reiteram um conjunto prevalecente de ideias e receitas, sem espaço para visões alternativas.
A indiferenciação entre direita e a esquerda no manejo da crise é parte constitutiva da encruzilhada atual.
Por isso Francisco estremece o chão como um touro selvagem quando dá às coisas o seu nome. Por isso também políticos e governantes lhanos afundam na areia movediça quando recitam a bula do veneno para tratar dos seus efeitos.
O que chamamos de crise, hoje, é a fotografia de corpo inteiro da longa captura da esquerda mundial, e sobretudo da social-democracia europeia, pelo cânone neoliberal.
Como isso se transforma no interdito político que faz do pensamento livre do Papa Francisco uma usina transgressora carregada de frescor?
O economista Robert Kuttner explica assim a asfixia do esclarecimento e da razão diante de uma crise que empurra a humanidade para o impasse: ‘É uma questão do poder. Os proprietários da riqueza financeira se tornaram cada vez mais poderosos politicamente; os movimentos que lhes são contrários se tornaram drasticamente enfraquecidos".
A trinca aberta entre a base da sociedade e aqueles que deveriam vocalizar o conflito, mas, sobretudo, a negligência deliberada com a organização dessa bases, redundou no paradoxo de uma crise sistêmica do capitalismo que não gera forças de ruptura capaz de supera-la.
O fosso é proporcional à virulência do que se busca despejar nos ombros da sociedade.
Ou não é essa transferência leonina que se assiste hoje no Brasil, mas também na Grécia, Espanha, Itália, Portugal, França etc etc
O déficit de democracia emerge, assim, como o mais importante desequilíbrio revelado pela crise, em contraposição à hegemonia capilar, estrutural, midiática e institucional acumulada pelo capital financeiro.
É nesse ambiente de ar quase irrespirável que ganha singularidade faiscante a figura de um Papa que não desvia o olhar diante do que vê e manifesta a sua repulsa diante do espetáculo.
Apenas um governo parece ter assumido coerência equivalente.
Ao devolver ao poder plebiscitário da sociedade a decisão quanto ao passo seguinte da crise que levara a Islândia à bancarrota, em 2009, seu presidente, Ólafur Grímsson, declarou, à moda Francisco: ‘Somos uma democracia, não um sistema financeiro’.
Ser uma democracia, não um anexo do sistema financeiro é o que pode ainda devolver aos cidadãos a responsabilidade compartilhada pelas escolhas do seu destino e o comando do desenvolvimento em nosso tempo.
A blindagem ideológica do neoliberalismo –e o evidente esgotamento do seu arranjo-- ainda não foram suficientes para alterar a condução da crise justamente pela tímida delegação das decisões ao povo e a falta de uma contrapartida de coordenação internacional desse enfrentamento.
O que se assiste por enquanto é a degradante marcha em sentido contrário.
O fatalismo construído ao longo de décadas de recuos, e o correspondente desarmamento organizativo que se seguiu, explicam a sobrevida de uma hegemonia cuja base objetiva esfarelou.
O esgotamento da margem de manobra na economia não dispõe de um contrapeso à altura no ambiente político.
O desenlace permanece em aberto em todo o mundo, a evidenciar uma mudança de época que não encontrou ainda o protagonista capaz de virar a página do calendário.
O Brasil faz parte desse salto parado no ar.
E é pelo menos arriscado apostar que o terceiro turno em curso, marcado pelo passo de ganso golpista, cederá a uma negociação branda entre concessão e indulgência.
A busca do impossível – arrochar para crescer, a contração expansionista— faz água em todas as latitudes.
Oximoros -- contradições em seus próprios termos-- refletem o esgotamento de uma agenda, que só tem a oferecer a estabilidade inspirada na paz dos cemitérios.
Nesse novo normal –para sempre ou por um prazo sem fim-- nada se move, exceto as curvas da desigualdade, o empoçamento do capital fictício e a incerteza diuturna sobre tudo em todos os lugares.
Mais que isso.
Um conjunto bíblico de sobras humanas passa a ser expelido pelo sistema cujo êxito gera a própria danação.
Trata-se de uma entropia estrutural à engrenagem capitalista, cada vez mais clara na crise iniciada em 2008.
A eficiência acumulativa deprecia o valor adicionado ao promover o descarte do componente humano que impulsiona a riqueza e gera a sua própria obsolescência, ao mesmo tempo e com igual intensidade.
Sobra o ponto de fuga do capital fictício que se empanturra de bolhas à margem da produção e às expensas das dívidas públicas e dos direitos sociais, decepados para deslocar recursos ao rentismo.
Não há escolha fácil nesse ambiente difícil, assoalhado de chão mole por todos os lados.
Mas a história não é fatalidade.
O que importa perguntar aqui é o que teria sido do Papa se mantivesse em Roma a ambiguidade do seu cardinalato na Argentina?
Certamente seria uma figura de baixo relevo na desordem mundial; um pequeno conservador na cena de um mundo extremado, que busca de uma nova identidade para o desenvolvimento, a vida e a espiritualidade.
Seriam, enfim, tudo o que o cristão que agora reza missa em Cuba de olho no fim do embargo americano, decidiu não ser e não é.
A mutação processada na travessia de Bergoglio para Francisco oferece uma lição da inexcedível pertinência à encruzilhada brasileira nos dias que correm.
Só a determinação política de superar as amarras das circunstâncias pode alterar a circularidade de um processo em que a rendição da vítima é o lubrificante dopoder opressor.
O espaço estreito e perigoso das escolhas na história é a variável autônoma que restou nesse redil paralisante.
Parece pouco?
Francisco, o Papa que parece que acabou de chegar, mostra o quanto existe de potência nessa condição.
13 pontos sobre a situação política e as tarefas do Partido.
Valter Pomar*
1. Estamos sendo vítimas de uma operação de “cerco e aniquilamento”. Não estamos “apenas” diante do risco de perder o governo, agora ou em 2018. Nem “apenas” de levar uma sova nas municipais de 2016, apesar da ótima decisão do STF acerca do financiamento empresarial. Nem “apenas” diante da tragédia de ver nosso governo implementar, em crescente medida, o programa dos derrotados em 2014. Muito mais grave do que isto, estamos ameaçados de assistir a um retrocesso geral nas liberdades democráticas, nas condições de vida da classe trabalhadora e na política externa. Em particular, nosso Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança estão sob ameaça de desmoralização e interdição.
2. Estamos sob ataque múltiplo. Não existe uma única operação conduzida por uma única direita. O grande capital, o oligopólio da mídia, a oposição de direita e inclusive setores da base do governo parecem cada vez mais unificados quanto aos objetivos finais (realinhar o país com os EUA, desfazer as conquistas populares, interditar a esquerda). Mas eles ainda estão divididos quanto ao que fazer de imediato. Moro, Cunha, Renan, Temer, Aécio, Serra, Alckmin etc. jogam papéis e expressam interesses diferentes, motivo pelo qual apostam em roteiros diferenciados. Mas isto, que poderia ser um fator positivo a nosso favor, converte-se na prática numa dificuldade adicional, uma vez que não existe de nossa parte uma política coordenada e centralizada de defesa. O que fica particularmente claro na nossa atitude (ou falta de) frente a berlusconiana Operação Lava Jato.
3. A manutenção da atual política econômica sabota o apoio popular ao governo. É muito difícil termos êxito na defesa do governo e das liberdades democráticas, contra as diferentes alternativas golpistas (impeachment, novas eleições, posse do vice, parlamentarismo), sem que ocorra uma alteração imediata na política econômica. É muito difícil engajar amplos setores populares em nossa defesa, se as ações do governo contribuem para a recessão e o desemprego. É praticamente impossível reavivar o apoio entusiasmado dos setores democráticos, quando os fatos apontam no sentido de que o governo desrespeitou o voto popular, aplica o programa dos derrotados, comete “estelionato eleitoral” como se diz cada vez mais. Lutaremos contra o golpismo em qualquer caso, mas a política econômica reduz as chances de êxito, tanto agora quanto depois.
4.Nosso problema não é de “narrativa”. Ganhamos quatro eleições presidenciais seguidas, não apenas devido aos nossos feitos, mas também devido à narrativa que contamos a respeito. Acontece que ganhamos a eleição em 2014 falando uma coisa e iniciamos o governo fazendo exatamente o contrário. Quais as causas disto? Não basta falar da crise internacional, da oposição de direita, dos erros do PT e da presidenta Dilma. Há outro aspecto fundamental: o esgotamento da estratégia de conciliação. Por isto, o que deu certo em 2003 não dará certo em 2015. Sem mudar de estratégia, sem abandonar a conciliação e as ilusões nos inimigos, a política de “apoiar e empurrar o governo” (para citar palavras ditas em recente reunião da FPA) vai resultar apenas e tão somente em patinar.
5. Não basta mudar a política econômica, é preciso mudar o conjunto da política. Mas insistir na atual política econômica, convertendo o ministro Joaquim Levy (e os setores do grande Capital que ele representa) em fiador de nossa continuidade no governo, arrasta o governo, o PT e Lula para o fundo do poço. Os fatos já demonstraram que o ajuste não resolve a questão fiscal nem contém a inflação, pelo contrário. Além disto, o ajuste derruba o crescimento, provoca desemprego, reduz políticas sociais e salários. Cria um ambiente hostil para o governo e também hostil para uma possível candidatura Lula em 2018. A popularidade da principal liderança popular do país terá muita dificuldade de resistir aos efeitos combinadas da atual política econômica, dos ataques da mídia e da Operação Lava Jato.
6.É preciso “romper o cerco”. Para usar uma analogia militar: se ficarmos onde estamos, seremos destruídos. É preciso mudar de posição. Isto parece arriscado e é. Mas muito mais arriscado é o imobilismo. Romper o cerco exige escolher o ponto por onde vamos tentar escapar. Em minha opinião, o ponto onde podemos romper o cerco com mais chances de êxito –tanto imediato quanto posterior-- é a política econômica. É preciso mudar imediata e radicalmente a política econômica. Mudar a política envolve alto risco, mas a alternativa em curso é muitas vezes pior. Sem outra política econômica, tão cedo não haverá reversão do quadro de recessão e desemprego. Quem acha errado dar “cavalo de pau” na política econômica precisa lembrar que isto significa apenas e tão somente desfazer o cavalo de pau dado após a eleição, na contramão da opinião majoritária no eleitorado. Por outro lado, é preciso lembrar os efeitos positivos – tanto econômicos quanto políticos—da inflexão que fizemos depois de 2005 e da reação que tivemos frente a crise de 2008. Lá foi necessária uma inflexão. Agora será preciso algo mais. Por fim: sem mudar a política, não há como mudar o discurso atual, que piora o que já é ruim, que joga para baixo nosso ânimo.
7.É possível fazer diferente. Embora vá ser muito difícil, não é verdade que não tenhamos força para fazer diferente. Muito menos é verdade que não saibamos o que fazer. Sem prejuízo de discutir a proposta econômica debatida pela CUT e a que vem sendo debatida com a participação da FPA, no curto prazo o que necessitamos é – em grande medida-- retomar, aprofundar e principalmente atualizar um caminho que já começamos a trilhar antes e ideias que foram apresentadas durante a campanha de 2014. Do ponto de vista emergencial, trata-se de reduzir a taxa de juros, alongar o pagamento da dívida pública, estabelecer controle de câmbio, lançar mão das reservas internacionais, tributar fortemente as grandes fortunas, cumprir o orçamento, retomar o papel da Petrobrás e do Minha Casa Minha Vida. Numa palavra, parar o ajuste e colocar o Estado à serviço do crescimento com e através da distribuição de renda. Quanto ao desenho geral de nossa alternativa: a) sem indústria forte e tecnologicamente avançada, não há como implementar nosso programa e estratégia; b) sem um setor financeiro poderoso e público, não teremos capital para fazê-lo; c) sem resolver a questão agrária e universalizar as políticas sociais, será impossível conciliar desenvolvimento econômico com elevação do bem-estar social; d) sem fazer tudo isto junto e misturado, será impossível no médio prazo derrotar a direita e sua ofensiva contra as liberdades democráticas conquistadas pela classe trabalhadora, nem tampouco sustentar uma política externa soberana e de integração regional.
8.Ao mesmo tempo que buscamos convencer o governo a mudar de política, o Partido precisa subir muito o tom contra o golpismo. Para além do que se faça no Congresso Nacional para garantir uma minoria de parlamentares que impeça a aprovação do impeachment; para além das mobilizações que a Frente Brasil Popular está convocando; é preciso que o PT deixe claro para nossa base social e militante que estamos sob risco iminente. Temos que desencadear esta semana uma vigília permanente em defesa das liberdades democráticas e contra o golpismo. Ao mesmo tempo, precisamos fazer a direita perceber que haverá muita resistência. Gestos simbólicos – como esvaziar os “pixulecos” -- devem ser estimulados publicamente. Nossos parlamentares precisam mudar de postura e dar exemplo de combatividade. Não podemos deixar nenhum ataque sem resposta. E basta de ilusões acerca do que está em jogo, não apenas em relação ao governo, mas também em relação ao PT e Lula. É verdade que não estamos em 1947 nem em 1964; mas também é verdade que nas duas ocasiões a maior parte da esquerda demorou muito a perceber qual a real disposição da direita, o que contribuiu para o desfecho.
9.Do ponto de vista institucional, a resistência inclui mudar a postura política e pública do governo. Um exemplo: a presidenta não apenas precisa vetar o financiamento empresarial, mas ir a público deixar claro os motivos. E devemos nos preparar para a reação de Cunha et caterva à decisão do STF, reação que será muito dura e envolverá chantagem política. Outro exemplo: ou o ministro da Justiça muda ou muda o ministro da Justiça. Não é possível aceitar impassível o comportamento predominante em setores da Justiça, do MP e da Polícia Federal, em conluio com determinados meios de comunicação, a começar por conhecida empresa criminosa que se fantasia de revista semanal. A atitude do Ministro da Justiça não é republicana, nem democrática, nem imparcial: se fosse, deveria garantir o acesso público a todas as informações, não assistir impassível o vazamento seletivo para as Veja da vida, nem o comportamento partidarizado de setores da PF, do MP e da Justiça.
10. O PT precisa reocupar espaço, tomar partido nos grandes debates, opinar e inclusive disputar o governo. Entre as muitas coisas que devem ser feitas, cito uma: construir imediatamente uma “agência de notícias”, articulada com as várias iniciativas de comunicação da Frente Brasil Popular, com a Rede Brasil Atual, com a imprensa sindical e popular. Basta de reclamar que o PIG não divulga o nosso ponto de vista, façamos nós por nossas mãos o que pode, deve e precisa ser feito. Mas para isto a política de comunicação do Partido precisa ser outra, completamente diferente da atual. Vale dizer, contudo, que o principal problema de comunicação do PT está na linha política (ou na falta de linha) adotada.
11.Aos inimigos nada, mas aos nossos amigos devemos desculpas e explicações. A direita nos ataca por nossos acertos e deles não temos que fazer autocrítica. Mas amplos setores democráticos e populares estão decepcionados conosco devido aos nossos erros, ao que fizemos e deixamos de fazer. É para estes setores democráticos e populares que estamos devendo uma autocrítica, principalmente devido à promiscuidade com a direita e suas práticas; bem como devido à insistência na já citada estratégia de conciliação. O PT não deve temer autocrítica. O que não faremos – ao contrário do que a direita pede e alguns ensaiam-- é pedir desculpas pelo que fizemos de certo, pedir desculpas pelo que somos, pedir desculpas por nossa história.
12.Temos que ampliar a presença do PT na construção da Frente Brasil Popular. Parte do êxito da Frente Brasil Popular dependerá de ampliarmos o engajamento da CUT, da UNE, do MST, do PT e do PCdoB. De imediato devemos jogar muito peso na mobilização do dia 3 de outubro, relacionada à defesa da Petrobrás. Na mesma linha, devemos dar toda atenção para o próximo Congresso nacional da CUT, cuja posição frente à conjuntura tem sido globalmente correta e continuará sendo extremamente importante.
13.Resumidamente: para derrotar a direita, é preciso derrotar a inação e a alienação. A alienação dos que minimizam os riscos e a inação dos que acham que a situação estaria tão ruim, que seria melhor não se mexer. É fato que a situação mudou para pior, desde o início do ano. Nosso partido deve reconhecer esta mudança e convocar um encontro nacional extraordinário: com outra linha e outro comportamento, temos como vencer mais uma vez.
*Contribuição baseada nos textos “O que não fazer” (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/08/contribuicao-ao-seminario-de.html); “O Partido dos Trabalhadores precisa defender outro caminho” (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/09/o-partido-dos-trabalhadores-precisa.html); e “Contribuição à discussão” (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/09/contribuicao-discussao.html) e também nos debates travados em recente reunião da FPA.
1. Estamos sendo vítimas de uma operação de “cerco e aniquilamento”. Não estamos “apenas” diante do risco de perder o governo, agora ou em 2018. Nem “apenas” de levar uma sova nas municipais de 2016, apesar da ótima decisão do STF acerca do financiamento empresarial. Nem “apenas” diante da tragédia de ver nosso governo implementar, em crescente medida, o programa dos derrotados em 2014. Muito mais grave do que isto, estamos ameaçados de assistir a um retrocesso geral nas liberdades democráticas, nas condições de vida da classe trabalhadora e na política externa. Em particular, nosso Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança estão sob ameaça de desmoralização e interdição.
2. Estamos sob ataque múltiplo. Não existe uma única operação conduzida por uma única direita. O grande capital, o oligopólio da mídia, a oposição de direita e inclusive setores da base do governo parecem cada vez mais unificados quanto aos objetivos finais (realinhar o país com os EUA, desfazer as conquistas populares, interditar a esquerda). Mas eles ainda estão divididos quanto ao que fazer de imediato. Moro, Cunha, Renan, Temer, Aécio, Serra, Alckmin etc. jogam papéis e expressam interesses diferentes, motivo pelo qual apostam em roteiros diferenciados. Mas isto, que poderia ser um fator positivo a nosso favor, converte-se na prática numa dificuldade adicional, uma vez que não existe de nossa parte uma política coordenada e centralizada de defesa. O que fica particularmente claro na nossa atitude (ou falta de) frente a berlusconiana Operação Lava Jato.
3. A manutenção da atual política econômica sabota o apoio popular ao governo. É muito difícil termos êxito na defesa do governo e das liberdades democráticas, contra as diferentes alternativas golpistas (impeachment, novas eleições, posse do vice, parlamentarismo), sem que ocorra uma alteração imediata na política econômica. É muito difícil engajar amplos setores populares em nossa defesa, se as ações do governo contribuem para a recessão e o desemprego. É praticamente impossível reavivar o apoio entusiasmado dos setores democráticos, quando os fatos apontam no sentido de que o governo desrespeitou o voto popular, aplica o programa dos derrotados, comete “estelionato eleitoral” como se diz cada vez mais. Lutaremos contra o golpismo em qualquer caso, mas a política econômica reduz as chances de êxito, tanto agora quanto depois.
4.Nosso problema não é de “narrativa”. Ganhamos quatro eleições presidenciais seguidas, não apenas devido aos nossos feitos, mas também devido à narrativa que contamos a respeito. Acontece que ganhamos a eleição em 2014 falando uma coisa e iniciamos o governo fazendo exatamente o contrário. Quais as causas disto? Não basta falar da crise internacional, da oposição de direita, dos erros do PT e da presidenta Dilma. Há outro aspecto fundamental: o esgotamento da estratégia de conciliação. Por isto, o que deu certo em 2003 não dará certo em 2015. Sem mudar de estratégia, sem abandonar a conciliação e as ilusões nos inimigos, a política de “apoiar e empurrar o governo” (para citar palavras ditas em recente reunião da FPA) vai resultar apenas e tão somente em patinar.
5. Não basta mudar a política econômica, é preciso mudar o conjunto da política. Mas insistir na atual política econômica, convertendo o ministro Joaquim Levy (e os setores do grande Capital que ele representa) em fiador de nossa continuidade no governo, arrasta o governo, o PT e Lula para o fundo do poço. Os fatos já demonstraram que o ajuste não resolve a questão fiscal nem contém a inflação, pelo contrário. Além disto, o ajuste derruba o crescimento, provoca desemprego, reduz políticas sociais e salários. Cria um ambiente hostil para o governo e também hostil para uma possível candidatura Lula em 2018. A popularidade da principal liderança popular do país terá muita dificuldade de resistir aos efeitos combinadas da atual política econômica, dos ataques da mídia e da Operação Lava Jato.
6.É preciso “romper o cerco”. Para usar uma analogia militar: se ficarmos onde estamos, seremos destruídos. É preciso mudar de posição. Isto parece arriscado e é. Mas muito mais arriscado é o imobilismo. Romper o cerco exige escolher o ponto por onde vamos tentar escapar. Em minha opinião, o ponto onde podemos romper o cerco com mais chances de êxito –tanto imediato quanto posterior-- é a política econômica. É preciso mudar imediata e radicalmente a política econômica. Mudar a política envolve alto risco, mas a alternativa em curso é muitas vezes pior. Sem outra política econômica, tão cedo não haverá reversão do quadro de recessão e desemprego. Quem acha errado dar “cavalo de pau” na política econômica precisa lembrar que isto significa apenas e tão somente desfazer o cavalo de pau dado após a eleição, na contramão da opinião majoritária no eleitorado. Por outro lado, é preciso lembrar os efeitos positivos – tanto econômicos quanto políticos—da inflexão que fizemos depois de 2005 e da reação que tivemos frente a crise de 2008. Lá foi necessária uma inflexão. Agora será preciso algo mais. Por fim: sem mudar a política, não há como mudar o discurso atual, que piora o que já é ruim, que joga para baixo nosso ânimo.
7.É possível fazer diferente. Embora vá ser muito difícil, não é verdade que não tenhamos força para fazer diferente. Muito menos é verdade que não saibamos o que fazer. Sem prejuízo de discutir a proposta econômica debatida pela CUT e a que vem sendo debatida com a participação da FPA, no curto prazo o que necessitamos é – em grande medida-- retomar, aprofundar e principalmente atualizar um caminho que já começamos a trilhar antes e ideias que foram apresentadas durante a campanha de 2014. Do ponto de vista emergencial, trata-se de reduzir a taxa de juros, alongar o pagamento da dívida pública, estabelecer controle de câmbio, lançar mão das reservas internacionais, tributar fortemente as grandes fortunas, cumprir o orçamento, retomar o papel da Petrobrás e do Minha Casa Minha Vida. Numa palavra, parar o ajuste e colocar o Estado à serviço do crescimento com e através da distribuição de renda. Quanto ao desenho geral de nossa alternativa: a) sem indústria forte e tecnologicamente avançada, não há como implementar nosso programa e estratégia; b) sem um setor financeiro poderoso e público, não teremos capital para fazê-lo; c) sem resolver a questão agrária e universalizar as políticas sociais, será impossível conciliar desenvolvimento econômico com elevação do bem-estar social; d) sem fazer tudo isto junto e misturado, será impossível no médio prazo derrotar a direita e sua ofensiva contra as liberdades democráticas conquistadas pela classe trabalhadora, nem tampouco sustentar uma política externa soberana e de integração regional.
8.Ao mesmo tempo que buscamos convencer o governo a mudar de política, o Partido precisa subir muito o tom contra o golpismo. Para além do que se faça no Congresso Nacional para garantir uma minoria de parlamentares que impeça a aprovação do impeachment; para além das mobilizações que a Frente Brasil Popular está convocando; é preciso que o PT deixe claro para nossa base social e militante que estamos sob risco iminente. Temos que desencadear esta semana uma vigília permanente em defesa das liberdades democráticas e contra o golpismo. Ao mesmo tempo, precisamos fazer a direita perceber que haverá muita resistência. Gestos simbólicos – como esvaziar os “pixulecos” -- devem ser estimulados publicamente. Nossos parlamentares precisam mudar de postura e dar exemplo de combatividade. Não podemos deixar nenhum ataque sem resposta. E basta de ilusões acerca do que está em jogo, não apenas em relação ao governo, mas também em relação ao PT e Lula. É verdade que não estamos em 1947 nem em 1964; mas também é verdade que nas duas ocasiões a maior parte da esquerda demorou muito a perceber qual a real disposição da direita, o que contribuiu para o desfecho.
9.Do ponto de vista institucional, a resistência inclui mudar a postura política e pública do governo. Um exemplo: a presidenta não apenas precisa vetar o financiamento empresarial, mas ir a público deixar claro os motivos. E devemos nos preparar para a reação de Cunha et caterva à decisão do STF, reação que será muito dura e envolverá chantagem política. Outro exemplo: ou o ministro da Justiça muda ou muda o ministro da Justiça. Não é possível aceitar impassível o comportamento predominante em setores da Justiça, do MP e da Polícia Federal, em conluio com determinados meios de comunicação, a começar por conhecida empresa criminosa que se fantasia de revista semanal. A atitude do Ministro da Justiça não é republicana, nem democrática, nem imparcial: se fosse, deveria garantir o acesso público a todas as informações, não assistir impassível o vazamento seletivo para as Veja da vida, nem o comportamento partidarizado de setores da PF, do MP e da Justiça.
10. O PT precisa reocupar espaço, tomar partido nos grandes debates, opinar e inclusive disputar o governo. Entre as muitas coisas que devem ser feitas, cito uma: construir imediatamente uma “agência de notícias”, articulada com as várias iniciativas de comunicação da Frente Brasil Popular, com a Rede Brasil Atual, com a imprensa sindical e popular. Basta de reclamar que o PIG não divulga o nosso ponto de vista, façamos nós por nossas mãos o que pode, deve e precisa ser feito. Mas para isto a política de comunicação do Partido precisa ser outra, completamente diferente da atual. Vale dizer, contudo, que o principal problema de comunicação do PT está na linha política (ou na falta de linha) adotada.
11.Aos inimigos nada, mas aos nossos amigos devemos desculpas e explicações. A direita nos ataca por nossos acertos e deles não temos que fazer autocrítica. Mas amplos setores democráticos e populares estão decepcionados conosco devido aos nossos erros, ao que fizemos e deixamos de fazer. É para estes setores democráticos e populares que estamos devendo uma autocrítica, principalmente devido à promiscuidade com a direita e suas práticas; bem como devido à insistência na já citada estratégia de conciliação. O PT não deve temer autocrítica. O que não faremos – ao contrário do que a direita pede e alguns ensaiam-- é pedir desculpas pelo que fizemos de certo, pedir desculpas pelo que somos, pedir desculpas por nossa história.
12.Temos que ampliar a presença do PT na construção da Frente Brasil Popular. Parte do êxito da Frente Brasil Popular dependerá de ampliarmos o engajamento da CUT, da UNE, do MST, do PT e do PCdoB. De imediato devemos jogar muito peso na mobilização do dia 3 de outubro, relacionada à defesa da Petrobrás. Na mesma linha, devemos dar toda atenção para o próximo Congresso nacional da CUT, cuja posição frente à conjuntura tem sido globalmente correta e continuará sendo extremamente importante.
13.Resumidamente: para derrotar a direita, é preciso derrotar a inação e a alienação. A alienação dos que minimizam os riscos e a inação dos que acham que a situação estaria tão ruim, que seria melhor não se mexer. É fato que a situação mudou para pior, desde o início do ano. Nosso partido deve reconhecer esta mudança e convocar um encontro nacional extraordinário: com outra linha e outro comportamento, temos como vencer mais uma vez.
*Contribuição baseada nos textos “O que não fazer” (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/08/contribuicao-ao-seminario-de.html); “O Partido dos Trabalhadores precisa defender outro caminho” (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/09/o-partido-dos-trabalhadores-precisa.html); e “Contribuição à discussão” (http://www.valterpomar.blogspot.com.br/2015/09/contribuicao-discussao.html) e também nos debates travados em recente reunião da FPA.
domingo, setembro 20, 2015
Uma aula de pré-sal: privatizar é atrasado, ineficiente e lesivo ao Brasil
O programa Melhor e Mais Justo, da TVT, realizou, quinta-feira, um debate entre o geólogo Guilherme Estrella, que comandou a equipe da Petrobras que descobriu petróleo abaixo da camada do pré-sal no litoral brasileiro e o sindicalista João Antônio de Moraes – uma das melhores e mais equilibradas cabeças da Federação dos Petroleiros.
Os dois contestam, com muita firmeza, todos os argumentos dos projetos – entre eles o de José Serra – que pretendem reverter o modelo de partilha do petróleo e tirar da Petrobras a condição de operadora única
POR FERNANDO BRITO
É uma aula sobre a exploração do pré-sal brasileiro, que revela dados muito pouco divulgados, como o fato de que a Petrobras extrai dali petróleo a nove dólares o barril, contra 14 dólares de custo por barril nos poços de petroleiras estrangeiras tidas como “eficientes” no discurso mercadista. Multiplique isso pelo milhão de barris (Estrella fala em 900 mil, mas isto não inclui o gás) retirados do pré-sal a cada dia e você verá que o que essa parcela de custo extra , que não é dividica com o Estado, representaria em termos de prejuízo para os cofres públicos.
Com o baixo preço do petróleo hoje, essa diferença equivale a 10% a mais de custo sobre cada barril extraído.
Mais: Estrella, ao comentar o declínio natural dos poços da Bacia de Campos, lembra que, sem o pré-sal, o Brasil estaria importando hoje perto de meio milhão de barris de petróleo por dia, com as consequências que se pode imaginar para a balança de pagamentos do país.
João Moraes recorda outro ponto interessante: em 1970, 90% do petróleo do mundo estava sob controle de multinacionais. Hoje, a proporção se inverteu e 80% do óleo é controlado por empresas dos próprios países produtores ou sob controle dos Estados nacionais, com suas petroleiras.
Assista a entrevista, em três partes, que me chega às mãos por iniciativa de meu amigo Oswaldo Maneschy, incansável defensor do controle brasileiro sobre nossa riqueza. É, como disse, uma aula: coisa de gente que conhece tanto de petróleo que não precisa ficar de tecnicismo, gente que sabe tanto da importância dele que não precisa apelar a chavões.
Os dois contestam, com muita firmeza, todos os argumentos dos projetos – entre eles o de José Serra – que pretendem reverter o modelo de partilha do petróleo e tirar da Petrobras a condição de operadora única
POR FERNANDO BRITO
É uma aula sobre a exploração do pré-sal brasileiro, que revela dados muito pouco divulgados, como o fato de que a Petrobras extrai dali petróleo a nove dólares o barril, contra 14 dólares de custo por barril nos poços de petroleiras estrangeiras tidas como “eficientes” no discurso mercadista. Multiplique isso pelo milhão de barris (Estrella fala em 900 mil, mas isto não inclui o gás) retirados do pré-sal a cada dia e você verá que o que essa parcela de custo extra , que não é dividica com o Estado, representaria em termos de prejuízo para os cofres públicos.
Com o baixo preço do petróleo hoje, essa diferença equivale a 10% a mais de custo sobre cada barril extraído.
Mais: Estrella, ao comentar o declínio natural dos poços da Bacia de Campos, lembra que, sem o pré-sal, o Brasil estaria importando hoje perto de meio milhão de barris de petróleo por dia, com as consequências que se pode imaginar para a balança de pagamentos do país.
João Moraes recorda outro ponto interessante: em 1970, 90% do petróleo do mundo estava sob controle de multinacionais. Hoje, a proporção se inverteu e 80% do óleo é controlado por empresas dos próprios países produtores ou sob controle dos Estados nacionais, com suas petroleiras.
Assista a entrevista, em três partes, que me chega às mãos por iniciativa de meu amigo Oswaldo Maneschy, incansável defensor do controle brasileiro sobre nossa riqueza. É, como disse, uma aula: coisa de gente que conhece tanto de petróleo que não precisa ficar de tecnicismo, gente que sabe tanto da importância dele que não precisa apelar a chavões.
sábado, setembro 19, 2015
Elite brasileira enriqueceu com paraísos fiscais
Via Correio do Brasil
Um estudo inédito que, pela primeira vez, chegou a valores depositados nas chamadas contas offshore sobre as quais as autoridades tributárias dos países não têm como cobrar impostos, mostra que os super-ricos brasileiros somaram até 2010 cerca de US$520 bilhões (ou mais de R$1 trilhão) em paraísos fiscais. Trata-se da quarta maior quantia do mundo depositada nesta modalidade de conta bancária.
O documento The price of offshore revisited, escrito por James Henry, ex-economista-chefe da consultoria McKinsey, e encomendado pela Tax Justice Network, cruzou dados do Banco de Compensações Internacionais, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de governos nacionais para chegar a valores considerados pelo autor.
O relatório destaca o impacto sobre as economias dos 139 países mais desenvolvidos da movimentação de dinheiro enviado a paraísos fiscais. Henry estima que, desde os anos 1970 até 2010, os cidadãos mais ricos desses 139 países aumentaram de US$$7,3 trilhões para US$9,3 trilhões a “riqueza offshore não registrada” para fins de tributação.
A riqueza privada offshore representa “um enorme buraco negro na economia mundial”, disse o autor do estudo. Na América Latina, chama a atenção o fato de, além do Brasil, países como o México, a Argentina e Venezuela aparecerem entre os 20 que mais enviaram recusos a paraísos fiscais.
John Christensen, diretor da Tax Justice Network, organização que combate os paraísos fiscais e que encomendou o estudo, afirmou ao jornal da BBC Brasil que países exportadores de riquezas minerais seguem um padrão. Segundo ele, elites locais vêm sendo abordadas há décadas por bancos, principalmente norte-americanos, para enviarem seus recursos ao exterior. “Instituições como Bank of America, Goldman Sachs, JP Morgan e Citibank vêm oferecendo este serviço. Como o governo norte-americano não compartilha informações tributárias, fica muito difícil para estes países chegar aos donos destas contas e taxar os recuros”, afirma.
Segundo o diretor da Tax Justice Network, além dos acionistas de empresas dos setores exportadores de minerais (mineração e petróleo), os segmentos farmacêutico, de comunicações e de transportes estão entre os que mais remetem recursos para paraísos fiscais. “As elites fazem muito barulho sobre os impostos cobrados delas, mas não gostam de pagar impostos”, observa Christensen. “No caso do Brasil, quando vejo os ricos brasileiros reclamando de impostos, só posso crer que estejam blefando. Porque eles remetem dinheiro para paraísos fiscais há muito tempo”.
Chistensen diz ainda que no caso do México, da Venezuela e Argentina, tratados bilaterais como o Nafta (tratado de livre comércio EUA-México) e a ação dos bancos norte-americanos fizeram os valores escondidos no exterior subirem vertiginosamente desde os anos 70, embora “este seja um fenômeno de mais de meio século”. O diretor da Tax Justice Network destaca que há enormes recursos de países africanos em contas offshore.
Um estudo inédito que, pela primeira vez, chegou a valores depositados nas chamadas contas offshore sobre as quais as autoridades tributárias dos países não têm como cobrar impostos, mostra que os super-ricos brasileiros somaram até 2010 cerca de US$520 bilhões (ou mais de R$1 trilhão) em paraísos fiscais. Trata-se da quarta maior quantia do mundo depositada nesta modalidade de conta bancária.
O documento The price of offshore revisited, escrito por James Henry, ex-economista-chefe da consultoria McKinsey, e encomendado pela Tax Justice Network, cruzou dados do Banco de Compensações Internacionais, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de governos nacionais para chegar a valores considerados pelo autor.
O relatório destaca o impacto sobre as economias dos 139 países mais desenvolvidos da movimentação de dinheiro enviado a paraísos fiscais. Henry estima que, desde os anos 1970 até 2010, os cidadãos mais ricos desses 139 países aumentaram de US$$7,3 trilhões para US$9,3 trilhões a “riqueza offshore não registrada” para fins de tributação.
A riqueza privada offshore representa “um enorme buraco negro na economia mundial”, disse o autor do estudo. Na América Latina, chama a atenção o fato de, além do Brasil, países como o México, a Argentina e Venezuela aparecerem entre os 20 que mais enviaram recusos a paraísos fiscais.
John Christensen, diretor da Tax Justice Network, organização que combate os paraísos fiscais e que encomendou o estudo, afirmou ao jornal da BBC Brasil que países exportadores de riquezas minerais seguem um padrão. Segundo ele, elites locais vêm sendo abordadas há décadas por bancos, principalmente norte-americanos, para enviarem seus recursos ao exterior. “Instituições como Bank of America, Goldman Sachs, JP Morgan e Citibank vêm oferecendo este serviço. Como o governo norte-americano não compartilha informações tributárias, fica muito difícil para estes países chegar aos donos destas contas e taxar os recuros”, afirma.
Segundo o diretor da Tax Justice Network, além dos acionistas de empresas dos setores exportadores de minerais (mineração e petróleo), os segmentos farmacêutico, de comunicações e de transportes estão entre os que mais remetem recursos para paraísos fiscais. “As elites fazem muito barulho sobre os impostos cobrados delas, mas não gostam de pagar impostos”, observa Christensen. “No caso do Brasil, quando vejo os ricos brasileiros reclamando de impostos, só posso crer que estejam blefando. Porque eles remetem dinheiro para paraísos fiscais há muito tempo”.
Chistensen diz ainda que no caso do México, da Venezuela e Argentina, tratados bilaterais como o Nafta (tratado de livre comércio EUA-México) e a ação dos bancos norte-americanos fizeram os valores escondidos no exterior subirem vertiginosamente desde os anos 70, embora “este seja um fenômeno de mais de meio século”. O diretor da Tax Justice Network destaca que há enormes recursos de países africanos em contas offshore.
Veríssimo: O fenômeno do espírito golpista dos ricos contra os pobres
Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. Economistas liberais recomeçaram a pregar abertura comercial absoluta e a dizer que os empresários brasileiros são incompetentes e superprotegidos, quando a verdade é que têm uma desvantagem competitiva enorme.
Por Luis Fernando Veríssimo*
O país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores e setores da baixa classe média, contra os rentistas, o setor financeiro e interesses estrangeiros. Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos. O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas.
Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Dilma chamou o Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem o poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.
Nada do que está escrito no parágrafo anterior foi dito por um petista renitente ou por um radical de esquerda. São trechos de uma entrevista dada à Folha de São Paulo pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, que, a não ser que tenha levado uma vida secreta todos estes anos, não é exatamente um carbonário. Para quem não se lembra, Bresser Pereira foi ministro do Sarney e do Fernando Henrique. A entrevista à Folha foi dada por ocasião do lançamento do seu novo livro A construção politica do Brasil e suas opiniões, mesmo partindo de um tucano, não chegam a surpreender: ele foi sempre um desenvolvimentista nacionalista neokeynesiano. Mas confesso que até eu, que, como o Antônio Prata, sou meio intelectual, meio de esquerda, me senti, lendo o que ele disse sobre a luta de classes mal abafada que se trava no Brasil e o ódio ao PT que impele o golpismo, um pouco como se visse meu avô dançando seminu no meio do salão – um misto de choque (“Olha o velhinho!”) e de terna admiração. Às vezes, as melhores definições de onde nós estamos e do que está nos acontecendo vem de onde menos se espera.
Outro trecho da entrevista: “Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de desenvolvimento crítica do imperialismo, crítica do processo de entrega de boa parte do nosso excedente a estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não nação.”
*Luis Fernando Verissimo é cronista, cartunista e humorista. Artigo publicado originalmente em O Globo
Por Luis Fernando Veríssimo*
O país precisa de um novo pacto, reunindo empresários, trabalhadores e setores da baixa classe média, contra os rentistas, o setor financeiro e interesses estrangeiros. Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. Não é preocupação ou medo. É ódio. Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. Continuou defendendo os pobres contra os ricos. O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. Não deu à classe rica, aos rentistas.
Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. Dilma chamou o Joaquim Levy por uma questão de sobrevivência. Ela tinha perdido o apoio na sociedade, formada por quem tem o poder. A divisão que ocorreu nos dois últimos anos foi violenta. Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.
Nada do que está escrito no parágrafo anterior foi dito por um petista renitente ou por um radical de esquerda. São trechos de uma entrevista dada à Folha de São Paulo pelo economista Luiz Carlos Bresser Pereira, que, a não ser que tenha levado uma vida secreta todos estes anos, não é exatamente um carbonário. Para quem não se lembra, Bresser Pereira foi ministro do Sarney e do Fernando Henrique. A entrevista à Folha foi dada por ocasião do lançamento do seu novo livro A construção politica do Brasil e suas opiniões, mesmo partindo de um tucano, não chegam a surpreender: ele foi sempre um desenvolvimentista nacionalista neokeynesiano. Mas confesso que até eu, que, como o Antônio Prata, sou meio intelectual, meio de esquerda, me senti, lendo o que ele disse sobre a luta de classes mal abafada que se trava no Brasil e o ódio ao PT que impele o golpismo, um pouco como se visse meu avô dançando seminu no meio do salão – um misto de choque (“Olha o velhinho!”) e de terna admiração. Às vezes, as melhores definições de onde nós estamos e do que está nos acontecendo vem de onde menos se espera.
Outro trecho da entrevista: “Os brasileiros se revelam incapazes de formular uma visão de desenvolvimento crítica do imperialismo, crítica do processo de entrega de boa parte do nosso excedente a estrangeiros. Tudo vai para o consumo. É o paraíso da não nação.”
*Luis Fernando Verissimo é cronista, cartunista e humorista. Artigo publicado originalmente em O Globo
Ao arrocho!' E Dilma respondeu com a solidariedade
Dilma teimou e não cumpriu o script da Folha de cortar os gastos sociais. Ao criar uma CPMF para garantir a aposentadoria, resgatou o princípio da solidariedade
por: Saul Leblon
O óleo da frigideira política fervia na manhã desta segunda-feira.
Estava tudo pronto para o suicídio.
A Presidenta da República deveria cumprir o derradeiro capítulo do roteiro que o conservadorismo prepara meticulosamente para ela, desde a sua vitória nas urnas em outubro de 2014.
A precipitada adesão de sua equipe ao diagnóstico do descalabro fiscal, foi o ponto de partida.
O arrocho improcedente adotado então, a contrapelo do discurso de campanha, sancionou o clima de juízo final construído pelo jogral do Brasil aos cacos.
Ao endossar o alarmismo, o governo reforçou uma espiral autodestrutiva (queda de receita, juros siderais, queda de investimento, dívida pública em estirão altista cujo epílogo seria o anúncio suicida de um pacote de arrocho, nesta 2ª feira.
O corte na nota de risco do Brasil pela impoluta Standard & Poor’s funcionou como a ordem unida na dispersão golpista.
Catalisou a expectativa do tiro de misericórdia.
O arrocho suicida tornara-se incontornável, urgente, imperativo --faiscava o noticiário isento como as sentenças de Gilmar Mendes.
Na véspera da eutanásia, todos ajudaram a ajustar a corda no pescoço presidencial.
A Folha quis roubar a cena.
Com o exibicionismo característico da frivolidade do seu jornalismo, o diário dos Frias imitou o dos Marinhos na véspera do golpe de 1964.
O editorial de domingo, levado à primeira página emparedava a Presidenta da República na disjuntiva do ultimato: anunciar um ‘arrocho sem precedente, ou renunciar’.
Parecia coisa de horas.
O golpe avançava em cada linha do texto na marcha batida de uma articulação gordurosamente explícita, na melhor tradição democrática da Marcha com Deus pela Família e, depois, da faxina patriótica urdida pela OBAN.
Simples assim: Dilma assumiria um arrocho antissocial, antipopular e antinacional.
Ato contínuo, sua cabeça –e depois todo o corpo-- despencaria para dentro da frigideira fervente.
Escorraçada pelo movimentos sociais, então, ela possivelmente perderia o apoio do próprio Lula, que já rechaçara a agenda do arrocho, seguidas vezes, na semana anterior.
Sem chão, nem ar, Dilma despencaria, finalmente no vazio do cadafalso.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está aí para isso.
O melhor dos mundos viria em seguida para o golpismo.
A vítima fez o serviço sujo (por eles exigido, mas temido) e saiu da cena em seguida.
É ruim?
A manhã prevista para ser apoteótica, porém, de repente teimou em desandar.
O cheiro de óleo fervente cedeu lugar ao de fio queimado.
O curto circuito aos poucos se derramou em manchetes impacientes, incrédulas –irritadiças, melhor dizendo.
A moça do Painel da Folha, casada com o rapaz da Veja, aquele que se licenciou da revista para servir mais diretamente à campanha de Aécio em 2014, soou o alarme vermelho.
Em nota extraordinária às 6:23 da manhã, na Folhaonline, alertou a tropa ainda sonolenta:
‘Insistência de Dilma em poupar o social dificulta o corte de mais de R$ 20 bilhões’, dizia a manchete. E a impaciência se derramava pelo texto a escandir desdém e irritação com a teimosia em ignorar o editorial do dia anterior: ‘Não, não e não; a maior dificuldade de fechar no fim de semana a lista de cortes de despesas do governo federal é que Dilma Rousseff ainda se mostrava inflexível na determinação de preservar os programas sociais. A presidente não admitia reduzir dotações ... ---‘mesmo para programas de menos visibilidade’, indignava-se.
A irritação foi num crescendo ao longo dia e com o passar das horas.
Replicada na mesma toada em diferentes veículos (‘mas como, ela resiste?’) atingiu o auge do desrespeito no final da tarde, quando o anticlímax explodiu no espetáculo grotesco da entrevista coletiva concedida pelos ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa para explicar as medidas.
Jornalistas (sic) cobravam do ortodoxo Levy o porquê de um pacote tão brando em relação aos ‘gastos’ sociais. Uma moçoila adestrada na vassalagem à pauta da hora –qualquer pauta-- foi às vias de fato com o Bolsa Família, inexplicavelmente poupado das tesouradas, segundo a sua douta avaliação.
Nessa hora, mesmo as orelhas amigáveis do impassível Levy, esboçaram um tique de estupefação.
O fracasso da operação ‘Dilma, de hoje não passa’ tornou pedagogicamente explícita a qualidade do material humano produzido nas redações atualmente.
O fato é que Dilma passou.
O ajuste que o Brasil precisa para retomar seu crescimento, evidentemente, não é esse que tanta decepção causa a repórteres ansiosas por razões opostas.
O país vive um divisor histórico.
É mais que uma pauta.
O ajuste da retomada econômica brasileira requer uma repactuação política do desenvolvimento.
Não é obra para Levy.
É desafio para uma articulação social dotada de força e consentimento para impulsionar o passo seguinte da nossa história.
Coisa só cabível se liderada por uma frente popular, ainda em formação.
O que tanta irritação causou no golpismo é que o pacote de Dilma ganha tempo para que esse instrumento político avance.
Mais que isso: não se contrapõe a esse estirão. E ao não se opor reabre espaço, por exemplo, para um protagonismo ativo de Lula antes emparedado, mas agora liberado em duas frentes articuladas.
Cabe a ele atuar para conseguir a aprovação do ajuste no Congresso, mas faze-lo arregimentando, simultaneamente, base social para um segundo estirão de medidas destinadas a pactuar garantias de emprego, controle da inflação, barateamento do crédito, retomada das grandes obras públicas, capitalização da Petrobras (contra a entrega do pre-sal) e a taxação da riqueza financeira, entre outras providências que Dilma sozinha simplesmente não tem como abraçar.
O ajuste anunciado na segunda feira, repita-se, não é isso.
Mas ganha tempo para isso na medida em que tira o governo do corner em que se encontrava por conta do cerco golpista e de seus próprios erros.
O golpismo não teve o que queria, cobrado pela Folha com requintes de amadorismo e petulância, típicos de uma redação de segundo escalão em que se converteu o jornal que um dia teve Antonio Callado e Otto Lara Resende como colunistas.
Dilma teimou e não arrochou como estava escrito no script que lhe foi enviado como ultimato público, na manhã de domingo.
Com isso dificultou –ou pelo menos adiou- a operação golpista.
O governo realocou fontes de recursos no valor de R$ 8,6 bilhões mas não cortou ‘na carne’, as áreas da Saúde e no Minha Casa e manteve intacto o Bolsa Família, para desgosto profissional e político da Folha e da Veja, que ‘antecipou’ a tesourada no programa.
Mais que isso.
Dilma devolveu a batata quente, fervendo, às mãos do conservadorismo ao criar uma CPMF de 0,2% para garantir a aposentadoria dos velhinhos.
Quem vai vetar um imposto financeiro para a aposentadoria dos velhinhos?
Quem vai rechaçar a consagração do princípio da solidariedade no cuidado dos idosos?
Aécio Neves, por exemplo.
Em demonstração explícita do nível político e cognitivo do conservadorismo, o tucano caiu de boca na isca lançada habilmente por Dilma.
Em nota apressada para satisfazer a varanda gourmet e o tanquinho de areia de kim catupiry & imberbes ultraneoliberalis, o candidato da derrota conservadora em 2014 afirmou: a) é 'inaceitável' taxar ganhos de capital (em vendas de imóveis acima de R$ 1,5 milhão); b) inaceitável igualmente para ele é a CPMF, que fortalece o princípio segundo o qual toda a sociedade é responsável pelo amparo à velhice.
O conceito de solidariedade nasceu com a Revolução Francesa, em 1789, mas ainda não chegou ao mecanismo da gente polida do PSDB.
O uivo pioneiro do tucano estendeu-se pelos telejornais noite adentro da segunda-feira; e amanheceu quase rouco nas manchetes idôneas da terça-feira.
Estropiado com o revés, o colunismo aposta na guerra porta a porta no Congresso para reverter a ducha fria em que se transformou o encontro programado entre a guilhotina e o pescoço de Dilma Roussef.
A nova CPMF, com alíquota de 0,2% --assim rebaixada para permitir que governadores e prefeitos pressionem o Congresso a elevar o percentual em benefício dos demais orçamentos federativos-- destinará R$ 32 bilhões por ano ao idoso e ao pensionista.
Corrige-se assim, por vias tortas, uma inconstitucionalidade sedimentada contra o espírito da Carta de 1988 .
A ‘lamparina dos desgraçados’, como a classificou Ulysses Guimarães, consagrou a responsabilidade compartilhada de todo o corpo social no cuidado dos mais frágeis, os idosos entre eles.
A Constituinte de 1987 endossaria assim, a contrapelo da ascensão neoliberal em marcha naquele momento, o ‘espírito de 45’, como diria Ken Loach, do direito universal ao bem-estar e à segurança social.
Trata-se de algo muito distinto da privatização que transforma direitos em serviços pagos. Ou desse remendo que se adotou na prática no país, em que as despesas da previdência rural e urbana passaram a ser cobertas integralmente com a receita das contribuições individuais.
Não é uma questão semântica.
É uma escolha em relação à sociedade que se quer construir com o esforço do desenvolvimento econômico.
Cada vez mais, com o envelhecimento demográfico, o Brasil será chamado a fazer escolhas nessa direção tendo a sorte e o destino dos idosos como esfinge a decifrar.
Não por acaso, o colunismo isento (ideológico são os blogueiros) tem piscado diuturnamente sua nova ordem unida: ‘a Constituição de 1988 não cabe no equilíbrio fiscal’.
Em linguagem cifrada o que se está dizendo é que os pobres não cabem na sociedade, sobretudo quando são crianças, doentes ou velhos. Enfim, quando não servíveis no modo mão de obra barata.
A senha reflete uma determinação de blindar o privilégio das elites e endinheirados.
O conjunto dos benefícios que hoje compõem o sistema de Seguridade Social brasileira (aposentadorias, pensões, benefícios, assistência social, Bolsa Família, seguro desemprego, entre outros) é uma ameaça ao cofres recheados.
A sustentação dessa rede de proteção social exige romper o privilégio tributário atual, em que os ricos, os acionistas, bancos e rentistas pagam menos IR que os assalariados da classe média, e que os pobres, via consumo.
A Seguridade Social acolhe direta ou indiretamente (filhos e dependentes), a metade da população brasileira.
São cerca de 100 milhões de homens, mulheres e crianças, a metade mais pobre da nação, que de outro modo vegetaria no degredo, como refugiado dentro do próprio país.
Ao olhar conservador, repugna a 'escala insustentável do assistencialismo'.
Transformar pobres em cidadão, porém, pode significar outra coisa muito distinta daquilo que se dardeja como ‘gastança’.
Cerca de 2/3 dos pagamentos da seguridade social no país estão indexados ao salário mínimo.
Seu poder de compra aumentou cerca de 60%, acima da inflação, nos últimos 12 anos.
É caro? Sim.
Mas um inédito mercado de massa emergiu do cruzamento entre essas duas curvas desde 2003, com desdobramentos sabidos na geografia da produção e do consumo.
O desequilíbrio cambial vazou um pedaço desse trunfo para as fábricas e empregos asiáticos, na forma de importações.
O furo está sendo calafetado, algo tardiamente para a industrialização, com uma desvalorização cambial de quase 50% em nove meses.
Visto assim da ponte do desassombro, o panorama ajuda a entender por que as medidas desta segunda-feira decepcionaram tanto o jornalismo isento.
Não se omita o erro no acerto: há lacunas, contradições e limites no que foi anunciado.
Adiar o reajuste do funcionalismo (R$ 7 bilhões) , por exemplo. Essa concessão ao jogral do ‘Estado mínimo’ poderia ser evitada com maior progressividade no IR, atingindo o núcleo duro da riqueza no país.
Não está descartada a possibilidade, porém.
O pacote de 2ª feira apenas tirou o governo da guilhotina.
Ao fazê-lo, reabriu o trânsito na enorme avenida da repactuação do desenvolvimento brasileiro.
Cabe à construção de uma frente popular democrática providenciar a mudança na correlação de forças existente.
Somente assim a democracia social ganhará a envergadura necessária para ser o GPS hegemônico do novo ciclo de expansão do país.
por: Saul Leblon
O óleo da frigideira política fervia na manhã desta segunda-feira.
Estava tudo pronto para o suicídio.
A Presidenta da República deveria cumprir o derradeiro capítulo do roteiro que o conservadorismo prepara meticulosamente para ela, desde a sua vitória nas urnas em outubro de 2014.
A precipitada adesão de sua equipe ao diagnóstico do descalabro fiscal, foi o ponto de partida.
O arrocho improcedente adotado então, a contrapelo do discurso de campanha, sancionou o clima de juízo final construído pelo jogral do Brasil aos cacos.
Ao endossar o alarmismo, o governo reforçou uma espiral autodestrutiva (queda de receita, juros siderais, queda de investimento, dívida pública em estirão altista cujo epílogo seria o anúncio suicida de um pacote de arrocho, nesta 2ª feira.
O corte na nota de risco do Brasil pela impoluta Standard & Poor’s funcionou como a ordem unida na dispersão golpista.
Catalisou a expectativa do tiro de misericórdia.
O arrocho suicida tornara-se incontornável, urgente, imperativo --faiscava o noticiário isento como as sentenças de Gilmar Mendes.
Na véspera da eutanásia, todos ajudaram a ajustar a corda no pescoço presidencial.
A Folha quis roubar a cena.
Com o exibicionismo característico da frivolidade do seu jornalismo, o diário dos Frias imitou o dos Marinhos na véspera do golpe de 1964.
O editorial de domingo, levado à primeira página emparedava a Presidenta da República na disjuntiva do ultimato: anunciar um ‘arrocho sem precedente, ou renunciar’.
Parecia coisa de horas.
O golpe avançava em cada linha do texto na marcha batida de uma articulação gordurosamente explícita, na melhor tradição democrática da Marcha com Deus pela Família e, depois, da faxina patriótica urdida pela OBAN.
Simples assim: Dilma assumiria um arrocho antissocial, antipopular e antinacional.
Ato contínuo, sua cabeça –e depois todo o corpo-- despencaria para dentro da frigideira fervente.
Escorraçada pelo movimentos sociais, então, ela possivelmente perderia o apoio do próprio Lula, que já rechaçara a agenda do arrocho, seguidas vezes, na semana anterior.
Sem chão, nem ar, Dilma despencaria, finalmente no vazio do cadafalso.
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, está aí para isso.
O melhor dos mundos viria em seguida para o golpismo.
A vítima fez o serviço sujo (por eles exigido, mas temido) e saiu da cena em seguida.
É ruim?
A manhã prevista para ser apoteótica, porém, de repente teimou em desandar.
O cheiro de óleo fervente cedeu lugar ao de fio queimado.
O curto circuito aos poucos se derramou em manchetes impacientes, incrédulas –irritadiças, melhor dizendo.
A moça do Painel da Folha, casada com o rapaz da Veja, aquele que se licenciou da revista para servir mais diretamente à campanha de Aécio em 2014, soou o alarme vermelho.
Em nota extraordinária às 6:23 da manhã, na Folhaonline, alertou a tropa ainda sonolenta:
‘Insistência de Dilma em poupar o social dificulta o corte de mais de R$ 20 bilhões’, dizia a manchete. E a impaciência se derramava pelo texto a escandir desdém e irritação com a teimosia em ignorar o editorial do dia anterior: ‘Não, não e não; a maior dificuldade de fechar no fim de semana a lista de cortes de despesas do governo federal é que Dilma Rousseff ainda se mostrava inflexível na determinação de preservar os programas sociais. A presidente não admitia reduzir dotações ... ---‘mesmo para programas de menos visibilidade’, indignava-se.
A irritação foi num crescendo ao longo dia e com o passar das horas.
Replicada na mesma toada em diferentes veículos (‘mas como, ela resiste?’) atingiu o auge do desrespeito no final da tarde, quando o anticlímax explodiu no espetáculo grotesco da entrevista coletiva concedida pelos ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa para explicar as medidas.
Jornalistas (sic) cobravam do ortodoxo Levy o porquê de um pacote tão brando em relação aos ‘gastos’ sociais. Uma moçoila adestrada na vassalagem à pauta da hora –qualquer pauta-- foi às vias de fato com o Bolsa Família, inexplicavelmente poupado das tesouradas, segundo a sua douta avaliação.
Nessa hora, mesmo as orelhas amigáveis do impassível Levy, esboçaram um tique de estupefação.
O fracasso da operação ‘Dilma, de hoje não passa’ tornou pedagogicamente explícita a qualidade do material humano produzido nas redações atualmente.
O fato é que Dilma passou.
O ajuste que o Brasil precisa para retomar seu crescimento, evidentemente, não é esse que tanta decepção causa a repórteres ansiosas por razões opostas.
O país vive um divisor histórico.
É mais que uma pauta.
O ajuste da retomada econômica brasileira requer uma repactuação política do desenvolvimento.
Não é obra para Levy.
É desafio para uma articulação social dotada de força e consentimento para impulsionar o passo seguinte da nossa história.
Coisa só cabível se liderada por uma frente popular, ainda em formação.
O que tanta irritação causou no golpismo é que o pacote de Dilma ganha tempo para que esse instrumento político avance.
Mais que isso: não se contrapõe a esse estirão. E ao não se opor reabre espaço, por exemplo, para um protagonismo ativo de Lula antes emparedado, mas agora liberado em duas frentes articuladas.
Cabe a ele atuar para conseguir a aprovação do ajuste no Congresso, mas faze-lo arregimentando, simultaneamente, base social para um segundo estirão de medidas destinadas a pactuar garantias de emprego, controle da inflação, barateamento do crédito, retomada das grandes obras públicas, capitalização da Petrobras (contra a entrega do pre-sal) e a taxação da riqueza financeira, entre outras providências que Dilma sozinha simplesmente não tem como abraçar.
O ajuste anunciado na segunda feira, repita-se, não é isso.
Mas ganha tempo para isso na medida em que tira o governo do corner em que se encontrava por conta do cerco golpista e de seus próprios erros.
O golpismo não teve o que queria, cobrado pela Folha com requintes de amadorismo e petulância, típicos de uma redação de segundo escalão em que se converteu o jornal que um dia teve Antonio Callado e Otto Lara Resende como colunistas.
Dilma teimou e não arrochou como estava escrito no script que lhe foi enviado como ultimato público, na manhã de domingo.
Com isso dificultou –ou pelo menos adiou- a operação golpista.
O governo realocou fontes de recursos no valor de R$ 8,6 bilhões mas não cortou ‘na carne’, as áreas da Saúde e no Minha Casa e manteve intacto o Bolsa Família, para desgosto profissional e político da Folha e da Veja, que ‘antecipou’ a tesourada no programa.
Mais que isso.
Dilma devolveu a batata quente, fervendo, às mãos do conservadorismo ao criar uma CPMF de 0,2% para garantir a aposentadoria dos velhinhos.
Quem vai vetar um imposto financeiro para a aposentadoria dos velhinhos?
Quem vai rechaçar a consagração do princípio da solidariedade no cuidado dos idosos?
Aécio Neves, por exemplo.
Em demonstração explícita do nível político e cognitivo do conservadorismo, o tucano caiu de boca na isca lançada habilmente por Dilma.
Em nota apressada para satisfazer a varanda gourmet e o tanquinho de areia de kim catupiry & imberbes ultraneoliberalis, o candidato da derrota conservadora em 2014 afirmou: a) é 'inaceitável' taxar ganhos de capital (em vendas de imóveis acima de R$ 1,5 milhão); b) inaceitável igualmente para ele é a CPMF, que fortalece o princípio segundo o qual toda a sociedade é responsável pelo amparo à velhice.
O conceito de solidariedade nasceu com a Revolução Francesa, em 1789, mas ainda não chegou ao mecanismo da gente polida do PSDB.
O uivo pioneiro do tucano estendeu-se pelos telejornais noite adentro da segunda-feira; e amanheceu quase rouco nas manchetes idôneas da terça-feira.
Estropiado com o revés, o colunismo aposta na guerra porta a porta no Congresso para reverter a ducha fria em que se transformou o encontro programado entre a guilhotina e o pescoço de Dilma Roussef.
A nova CPMF, com alíquota de 0,2% --assim rebaixada para permitir que governadores e prefeitos pressionem o Congresso a elevar o percentual em benefício dos demais orçamentos federativos-- destinará R$ 32 bilhões por ano ao idoso e ao pensionista.
Corrige-se assim, por vias tortas, uma inconstitucionalidade sedimentada contra o espírito da Carta de 1988 .
A ‘lamparina dos desgraçados’, como a classificou Ulysses Guimarães, consagrou a responsabilidade compartilhada de todo o corpo social no cuidado dos mais frágeis, os idosos entre eles.
A Constituinte de 1987 endossaria assim, a contrapelo da ascensão neoliberal em marcha naquele momento, o ‘espírito de 45’, como diria Ken Loach, do direito universal ao bem-estar e à segurança social.
Trata-se de algo muito distinto da privatização que transforma direitos em serviços pagos. Ou desse remendo que se adotou na prática no país, em que as despesas da previdência rural e urbana passaram a ser cobertas integralmente com a receita das contribuições individuais.
Não é uma questão semântica.
É uma escolha em relação à sociedade que se quer construir com o esforço do desenvolvimento econômico.
Cada vez mais, com o envelhecimento demográfico, o Brasil será chamado a fazer escolhas nessa direção tendo a sorte e o destino dos idosos como esfinge a decifrar.
Não por acaso, o colunismo isento (ideológico são os blogueiros) tem piscado diuturnamente sua nova ordem unida: ‘a Constituição de 1988 não cabe no equilíbrio fiscal’.
Em linguagem cifrada o que se está dizendo é que os pobres não cabem na sociedade, sobretudo quando são crianças, doentes ou velhos. Enfim, quando não servíveis no modo mão de obra barata.
A senha reflete uma determinação de blindar o privilégio das elites e endinheirados.
O conjunto dos benefícios que hoje compõem o sistema de Seguridade Social brasileira (aposentadorias, pensões, benefícios, assistência social, Bolsa Família, seguro desemprego, entre outros) é uma ameaça ao cofres recheados.
A sustentação dessa rede de proteção social exige romper o privilégio tributário atual, em que os ricos, os acionistas, bancos e rentistas pagam menos IR que os assalariados da classe média, e que os pobres, via consumo.
A Seguridade Social acolhe direta ou indiretamente (filhos e dependentes), a metade da população brasileira.
São cerca de 100 milhões de homens, mulheres e crianças, a metade mais pobre da nação, que de outro modo vegetaria no degredo, como refugiado dentro do próprio país.
Ao olhar conservador, repugna a 'escala insustentável do assistencialismo'.
Transformar pobres em cidadão, porém, pode significar outra coisa muito distinta daquilo que se dardeja como ‘gastança’.
Cerca de 2/3 dos pagamentos da seguridade social no país estão indexados ao salário mínimo.
Seu poder de compra aumentou cerca de 60%, acima da inflação, nos últimos 12 anos.
É caro? Sim.
Mas um inédito mercado de massa emergiu do cruzamento entre essas duas curvas desde 2003, com desdobramentos sabidos na geografia da produção e do consumo.
O desequilíbrio cambial vazou um pedaço desse trunfo para as fábricas e empregos asiáticos, na forma de importações.
O furo está sendo calafetado, algo tardiamente para a industrialização, com uma desvalorização cambial de quase 50% em nove meses.
Visto assim da ponte do desassombro, o panorama ajuda a entender por que as medidas desta segunda-feira decepcionaram tanto o jornalismo isento.
Não se omita o erro no acerto: há lacunas, contradições e limites no que foi anunciado.
Adiar o reajuste do funcionalismo (R$ 7 bilhões) , por exemplo. Essa concessão ao jogral do ‘Estado mínimo’ poderia ser evitada com maior progressividade no IR, atingindo o núcleo duro da riqueza no país.
Não está descartada a possibilidade, porém.
O pacote de 2ª feira apenas tirou o governo da guilhotina.
Ao fazê-lo, reabriu o trânsito na enorme avenida da repactuação do desenvolvimento brasileiro.
Cabe à construção de uma frente popular democrática providenciar a mudança na correlação de forças existente.
Somente assim a democracia social ganhará a envergadura necessária para ser o GPS hegemônico do novo ciclo de expansão do país.
As razões da crise presente
Aceitar os erros não revela fraqueza. Fraqueza é ceder interminavelmente às pressões conservadoras. Grandeza é reconhecer os problemas e mudar.
por Emir Sader
Na crise atual se cruzam razões de fundo, herdadas dos governos neoliberais, e questões que os governos do PT não souberam superar e que agora os afetam de maneira profunda.
Entre as razões estruturais estão a desindustrialização promovida pela abertura escancarada do mercado interno feita pelos governos Collor e FHC, que além de enfraquecer o poderio industrial do pais, gerou a dependência da exportação de produtos primários. Por outro lado, paralelamente, não se alterou o papel hegemônico do capital financeiro, que reproduz a especulação como fenômeno central no processo de acumulação de capital.
Além desses fatores econômicos, com todas suas consequências no plano social e político, o governo não avançou nem na democratização dos meios de comunicação, nem no fim do financiamento privado das campanhas eleitorais. Não afetou assim dois elementos políticos e ideológicos fundamentais que jogam fortemente contra o governo. A mídia, com seu terrorismo econômico e denuncismo seletivo e reiterado, o Congresso com seu cerco fisiológico sobre o governo.
A combinação desses fatores gerou as condições da crise atual. A eles se acrescenta um diagnóstico errado do governo, que o tem levado na direção oposta da forma como atuou na crise de 2008, levando a cortes reiterados de gastos, que só aprofundam e prolongam a recessão, isolando ainda mais o governo das suas bases populares, tornando-o mais frágil e mais prisioneiro da direita. O mercado, como se viu esta semana, vai sempre querer mais sangue, sempre vai impor novos cortes, que levam a novos cortes. O governo fica assim prisioneiro do mercado e da direita. Entrou no despenhadeiro interminável de responder à direita e ao capital especulativo com mais cortes, que é o que eles pedem.
O governo faz tudo isso, mas foi rebaixado pelas agências de risco, prevê recessão pelo menos até o fim de 2016, a inflação persiste, o desemprego aumenta. Um ano e meio a mais de clima de pessimismo e de deterioração dos índices sociais é a pior perspectiva possível. O ajuste nunca leva à retomada econômica, ao contrário, leva a mais recessão, com mais desemprego.
Esse não é o caminho com que reagimos vitoriosamente à crise de 2008, recuperando o pais da crise, retomando o desenvolvimento e aprofundando as políticas de distribuição de renda, ao invés de cortar recursos das políticas sociais. Assim, o caminho oposto é que deveria ser trilhado.
Reabrir créditos para reativar a economia, terminar de vez com cortes nos recursos das políticas sociais e nos custos do governo, taxar as grandes fortunas, combater dura e abertamente a sonegação. Além de propor um plano de saída da crise, coerente com esse projeto de retomada do crescimento econômico, sem ficar sujeito às iniciativas da oposição e de outros setores adversos ao governo, que cobram mais concessões políticas em troca do fim do risco do impeachment.
Não se é governo sem ter capacidade de iniciativa política, senão se é governado pelos outros, só se reage às ofensivas reiteradas do capital especulativo e da direita política. Falta coordenação política para isso e um plano econômico que não assopre na direção da tempestade mas que, ao contrário, mediante medidas anticíclicas, resista a ela. A via adotada só aprofunda a necessidade de mais cortes, a recessão, o isolamento e a fragilidade do governo. Com todos os cortes, não se impediu o rebaixamento da avaliação do governo e o retorno à ofensiva sobre o impeachment. Além de não se superar a recessão, com mais desemprego.
Essas são as raízes da crise presente. Um diagnóstico errado sobre ela levou ao pacote de ajuste, socialmente injusto, economicamente ineficaz e politicamente desastroso. Sem uma virada no plano econômico, o governo não terá mínimas condições de enfrentar a crise política, que se expressa na ofensiva permanente sobre ele. Desde dezembro o governo colocou a agenda do ajuste e nunca mais pôde sair dela. Já é tempo de fazer um balanço dos seus resultados, que só pioraram a situação, e dar uma virada no governo, a partir das experiências positivas do passado.
Aceitar os erros não revela fraqueza. Fraqueza é ceder interminavelmente às pressões conservadoras. Grandeza é reconhecer os problemas, os erros cometidos e dar uma virada econômica e política. É aprender do passado, para superar a crise presente e projetar um futuro de continuidade e não de ruptura com os governos iniciados em 2003. Não se pode colocar em risco tudo o que foi construído desde então, pela insistência equivocada no caminho oposto ao trilhado no passado.
por Emir Sader
Na crise atual se cruzam razões de fundo, herdadas dos governos neoliberais, e questões que os governos do PT não souberam superar e que agora os afetam de maneira profunda.
Entre as razões estruturais estão a desindustrialização promovida pela abertura escancarada do mercado interno feita pelos governos Collor e FHC, que além de enfraquecer o poderio industrial do pais, gerou a dependência da exportação de produtos primários. Por outro lado, paralelamente, não se alterou o papel hegemônico do capital financeiro, que reproduz a especulação como fenômeno central no processo de acumulação de capital.
Além desses fatores econômicos, com todas suas consequências no plano social e político, o governo não avançou nem na democratização dos meios de comunicação, nem no fim do financiamento privado das campanhas eleitorais. Não afetou assim dois elementos políticos e ideológicos fundamentais que jogam fortemente contra o governo. A mídia, com seu terrorismo econômico e denuncismo seletivo e reiterado, o Congresso com seu cerco fisiológico sobre o governo.
A combinação desses fatores gerou as condições da crise atual. A eles se acrescenta um diagnóstico errado do governo, que o tem levado na direção oposta da forma como atuou na crise de 2008, levando a cortes reiterados de gastos, que só aprofundam e prolongam a recessão, isolando ainda mais o governo das suas bases populares, tornando-o mais frágil e mais prisioneiro da direita. O mercado, como se viu esta semana, vai sempre querer mais sangue, sempre vai impor novos cortes, que levam a novos cortes. O governo fica assim prisioneiro do mercado e da direita. Entrou no despenhadeiro interminável de responder à direita e ao capital especulativo com mais cortes, que é o que eles pedem.
O governo faz tudo isso, mas foi rebaixado pelas agências de risco, prevê recessão pelo menos até o fim de 2016, a inflação persiste, o desemprego aumenta. Um ano e meio a mais de clima de pessimismo e de deterioração dos índices sociais é a pior perspectiva possível. O ajuste nunca leva à retomada econômica, ao contrário, leva a mais recessão, com mais desemprego.
Esse não é o caminho com que reagimos vitoriosamente à crise de 2008, recuperando o pais da crise, retomando o desenvolvimento e aprofundando as políticas de distribuição de renda, ao invés de cortar recursos das políticas sociais. Assim, o caminho oposto é que deveria ser trilhado.
Reabrir créditos para reativar a economia, terminar de vez com cortes nos recursos das políticas sociais e nos custos do governo, taxar as grandes fortunas, combater dura e abertamente a sonegação. Além de propor um plano de saída da crise, coerente com esse projeto de retomada do crescimento econômico, sem ficar sujeito às iniciativas da oposição e de outros setores adversos ao governo, que cobram mais concessões políticas em troca do fim do risco do impeachment.
Não se é governo sem ter capacidade de iniciativa política, senão se é governado pelos outros, só se reage às ofensivas reiteradas do capital especulativo e da direita política. Falta coordenação política para isso e um plano econômico que não assopre na direção da tempestade mas que, ao contrário, mediante medidas anticíclicas, resista a ela. A via adotada só aprofunda a necessidade de mais cortes, a recessão, o isolamento e a fragilidade do governo. Com todos os cortes, não se impediu o rebaixamento da avaliação do governo e o retorno à ofensiva sobre o impeachment. Além de não se superar a recessão, com mais desemprego.
Essas são as raízes da crise presente. Um diagnóstico errado sobre ela levou ao pacote de ajuste, socialmente injusto, economicamente ineficaz e politicamente desastroso. Sem uma virada no plano econômico, o governo não terá mínimas condições de enfrentar a crise política, que se expressa na ofensiva permanente sobre ele. Desde dezembro o governo colocou a agenda do ajuste e nunca mais pôde sair dela. Já é tempo de fazer um balanço dos seus resultados, que só pioraram a situação, e dar uma virada no governo, a partir das experiências positivas do passado.
Aceitar os erros não revela fraqueza. Fraqueza é ceder interminavelmente às pressões conservadoras. Grandeza é reconhecer os problemas, os erros cometidos e dar uma virada econômica e política. É aprender do passado, para superar a crise presente e projetar um futuro de continuidade e não de ruptura com os governos iniciados em 2003. Não se pode colocar em risco tudo o que foi construído desde então, pela insistência equivocada no caminho oposto ao trilhado no passado.
quinta-feira, setembro 17, 2015
Dilma resiste ao ultimato e à vendeta neoliberal
MARCELO ZERO
Sociólogo, especialista em relações internacionais e assessor da Liderança do PT no Senado
Publicado no Brasil 247
A Folha e outros deram o ultimato, mas o governo Dilma não apresentou novo ajuste colocando o custo da busca do reequilíbrio das contas públicas nas vastas camadas da população que dependem de programas sociais e serviços públicos.
O ajuste, reconheçamos, começou mal, sem transparência e revisando programas trabalhistas e previdenciários. Embora alguns desses programas precisassem mesmo de correções, essa primeira iniciativa emitiu uma sinalização política ruim: o custo, como sempre, recairia sobre os trabalhadores.
Agora, no entanto, as novas medidas anunciadas mostram disposição para preservar programas sociais e serviços públicos essenciais, bem como decisão de colocar o maior custo dos ajustes fiscais no "andar de cima".
Alguém poderá indagar sobre o corte de R$ 26 bilhões nos gastos públicos.
Na realidade, cerca de metade desse corte (R$ 12,4 bilhões) não é realmente corte. É mera mudança da fonte das receitas. Assim, os cortes orçamentários no Minha Casa Minha Vida, na Saúde e no PAC serão ao menos parcialmente repostos pelo FGTS e por emendas parlamentares. Corta-se o orçamento, mas o gasto efetivo básico permanece. Com isso, tais programas ficam preservados, em suas diretrizes essenciais.
O grande corte foi só mesmo para os servidores públicos. Propõe-se o adiamento dos reajuste dos servidores de janeiro para agosto, a suspensão provisória dos concursos, a eliminação do abono de permanência para os servidores que já podem se aposentar, a implementação do teto constitucional, sistematicamente desrespeitado, e ainda a economia com a diminuição de passagens, diárias, contratos e outras despesas de custeio.
São medidas que talvez pudessem ser evitadas, no contexto de uma Reforma Tributária extensa e progressista e sob circunstâncias políticas mais favoráveis. Mas ninguém pode afirmar que são medidas que penalizam os mais pobres e o grosso da classe trabalhadora.
Portanto, o corte efetivo de gastos corresponde a apenas R$ 13,6 bilhões e recai sobre um segmento social específico, que está muito longe se ser o mais desprotegido.
Além disso, o esforço maior dessa vez está no lado do aumento das receitas (R$ 28,4 bilhões, mais que o dobro do corte efetivo de gastos), efetuado sobre a base de uma tributação maior que incidirá fundamentalmente em setores mais abastados. Assim, propõe-se a tributação para a venda de bens com valor acima de R$ 1 milhão, bem como a prorrogação da CPMF por 48 meses, com o intuito específico de custear déficits da seguridade social.
Ressalte-se que a CPMF é uma boa contribuição, que jamais deveria ter sido suspensa. Ela tem baixo impacto inflacionário, caráter na realidade progressivo, mesmo com alíquota fixa, pois ela incide sobre longas cadeias de transações financeiras, poupando transações simples, e, sobretudo, se constitui em excelente instrumento para o combate à sonegação a à corrupção. Por isso, é tão combatida.
Por conseguinte, no cômputo geral essas novas medidas tem caráter mais progressista, distinto dos ajustes que predominam, de um modo geral, em outros países do mundo, especialmente em países europeus, nos quais a ênfase maior da busca do reequilíbrio das contas públicas recai, em tom monocórdio e ortodoxo, sobre os gastos públicos que beneficiam a população mais desprotegida e necessitada.
É claro que mais pode ser realizado, no sentido de fazer com que os setores realmente afluentes deem contribuição adicional. Deve-se ter em mente que a carga tributária no Brasil é muito regressiva. Por exemplo, a isenção do imposto de renda para pessoa física de lucros e dividendos, implementada na era tucana, é uma jabuticaba jurídica, que precisa ser revertida urgentemente. Devido a isso, entre outros fatores, os cerca de 70 mil contribuintes muito ricos do Brasil pagam uma ninharia de imposto de renda: 6,1%, em média. Caso essa isenção escandalosa fosse revertida, teríamos, conforme estimativas conservadoras, cerca de R$ 50 bilhões adicionais por ano, praticamente igualando o todo o esforço fiscal anunciado com as novas medidas.
Várias outras medidas, como o imposto sobre grandes fortunas, o imposto sobre a herança, a extinção de juros sobre capital próprio etc. poderiam ser adotadas para que a nossa carga tributária incida mais sobre a renda e o patrimônio das classes mais abastadas, e não sobre o consumo, que recai, de forma proporcionalmente maior, nos mais pobres. Recorde-se que, nos EUA, exemplo de liberalidade econômica, a alíquota máxima do imposto de renda é de 39,6%, a que incide em dividendos e ganhos de capital está em 20% e a relativa ao imposto sobre herança situa-se em 40%.
Por outro lado, é óbvio que torna-se imprescindível que as taxas de juros caiam rapidamente, sob pena de que todo esse esforço fiscal signifique mero "enxugar gelo". Em julho, no acumulado de 12 meses, a conta de juros sobre a dívida pública acumulou R$ 452 bilhões, ou o correspondente a 7,92% do PIB. Hoje, a Selic está em indecentes 14,25% ao ano. Conforme as estatísticas da OCDE, as taxas de juros de longo prazo estavam, em 2014, em 2,28%, na Zona do Euro; em 2,54%, nos EUA; em 4,69%, no Chile; e em 8,46%, na Rússia. Mesmo na Grécia, provavelmente o país mais afetado pela crise mundial, as taxas de juros internas estavam, em 2014, num patamar bem mais baixo que no Brasil: 6,93%.
Assim sendo, caso tivéssemos taxas de juros gregas, economizaríamos cerca de R$ 250 milhões ao ano e poderíamos ser poupados de quase todo esse sacrifício fiscal.
Não obstante, parece-nos que as recentes medidas do governo Dilma têm de ser apoiadas pela forças progressistas do país, mesmo com eventuais críticas pontuais e sugestões de aperfeiçoamentos.
É preciso entender o que está em jogo aqui.
Assiste-se, especialmente na América Latina, tentativas de restaurar, com plena força, as políticas neoliberais ou paleoliberais que haviam levado a região praticamente à bancarrota, no início deste século. Trata-se da restauração neoliberal, mais apropriadamente denominada, por Domenico de Mais, de "vendeta neoliberal".
O Brasil, maior economia da região, é o principal palco dessa disputa político-ideológica. Em 2014, tal disputa tornou-se muito clara, ao longo do período eleitoral.
Mas ela permanece e se acirra, com o não reconhecimento da derrota política das forças conservadoras. A tentativa dessas forças que apostam na vendeta neoliberal é fazer que o ano de 2014 só termine em 2018, ou então com o golpe contra a presidenta legitimamente eleita.
A estratégia é cristalina: querem impor à presidenta um ajuste draconiano e uma política econômica geral bastante ortodoxa com dois grandes objetivos fundamentais.
O primeiro grande objetivo é político. Ao forçar a implementação de um ajuste draconiano, socialmente regressivo e economicamente recessivo, busca-se ou criar condições favoráveis ao golpe ou a destruição do capital político que o PT e outras forças políticas progressistas obtiveram com a verdadeira revolução social efetuada no Brasil, nos últimos 12 anos, com vistas à obter sucesso no pleito de 2018. Querem que o PT e seu governo assumam o ônus político do tipo de ajuste extremamente ortodoxo que eles gostariam de fazer. Para essas forças conservadoras, é um jogo "ganha-ganha". Ou ganha no curto prazo, com o golpe, ou ganha em 2018, com a baixa popularidade do governo associado às forças progressistas. Para essas últimas forças, seria um jogo "perde-perde".
O segundo grande objetivo é econômico: restaurar o neoliberalismo no Brasil. Isso implicaria a volta da alienação do patrimônio público, inclusive e sobretudo do pré-sal, o regresso às políticas irresponsáveis da abertura, sem critérios, da economia brasileira à concorrência internacional, num cenário de guerra cambial, a volta de uma política externa que nos coloque na órbita estratégica dos EUA, e a restauração das medidas e programas destinados a reduzir a participação do Estado na economia e o gasto com programas sociais e serviços públicos de um modo geral. Observe-se que, nesse caso, o ajuste fiscal seria uma política permanente, com centralidade estratégica na política econômica.
Enfim, querem transformar a República Federativa do Brasil numa espécie de Estados Unidos Mexicanos do Sul, alienando nosso patrimônio, nossa soberania e nosso futuro.
Já o governo Dilma Rousseff, mesmo em circunstâncias políticas muito difíceis, dado o golpismo e a falta de compromisso com o país de setores expressivos da oposição, tenta promover o necessário reequilíbrio das contas com um ajuste que agora assume contornos políticos e sociais mais equilibrados.
A aposta é a de que essas medidas transitórias permitam a retomada do crescimento, sem comprometer os avanços sociais básicos alcançados nos últimos anos, até mesmo porque, num cenário externo restritivo, a manutenção de um dinamismo basal do mercado interno de consumo é vital para a recuperação do desenvolvimento.
A diferença política essencial entre as duas propostas é que, para o governo Dilma, o ajuste equilibrado é concessão tática para a rearticulação de uma estratégia desenvolvimentista de longo prazo, que coloque ênfase no mercado interno, na distribuição do rendimentos e das oportunidades e na reindustrialização do Brasil, com fulcro na promoção da Educação e da Inovação.
Para as forças empenhadas na restauração neoliberal, políticas draconianas de ajuste são a estratégia de longo prazo. Elas não têm outra coisa a propor ao país.
O segmentos políticos progressistas e responsáveis do Brasil precisam entender essa diferença fundamental.
Precisam entender também que, ou se unem, ou morrerão afogados no mar de ódio da vendeta neoliberal.
terça-feira, agosto 18, 2015
O Estado deve garantir qualidade de vida ou é cada um por si?
Leonardo Sakamoto 17/08/2015
Percorri durante um mês o São Francisco, da nascente à foz, bem como regiões do Semiárido, para uma reportagem sobre o projeto de transposição das águas do rio. Isso já faz 13 anos – o que mostra que estou mais velho, mas não necessariamente mais sábio.
Particularmente, sou contrário à forma como o projeto (que é tão velho quanto Dom Pedro II) foi tocado, pois não irá capilarizar o acesso aos mais pobres ao contrário do que o governo afirma. Mas esse não é o tema deste post. Durante as entrevistas, um especialista me disse que todos querem o rio, mas não eram todos que topavam, de forma democrática e transparente, discutir a natureza da sua utilização. E que o correto seria fazer um “orçamento'' do Velho Chico envolvendo a população, rica e pobre, que dele se beneficia.
Considerando que a quantidade de água é finita, quais deveriam ser as prioridades do rio? Abastecimento humano? Geração de energia elétrica? Produção agropecuária? Indústria? Navegação? Sabendo, é claro, que tomar decisões significa excluir opções, mais do que agregar.
Como um orçamento doméstico. Que, convenhamos, a maioria dos brasileiros conhece bem. Afinal, comer um bifão hoje pode significa viver de ovo o resto da semana.
Todos concordamos que o Estado deveria garantir as condições para possibilitar condições mínimas de qualidade de vida da população. Daí aparece a divergência, do que seria essas “condições mínimas''.
Pois pedimos mais educação, mais saúde, mais segurança, mais transporte. Mas isso, claro, tem um custo. E o Estado brasileiro, desde a redemocratização, gasta cada vez mais para cobrir a crescente demanda da população.
Demanda que não vai parar de crescer, pois aprendemos o que é cidadania e queremos parte do bolo que, durante a ditadura, nos pediram para esperar porque ia crescer para ser dividido.
Mesmo se um dia conseguirmos reduzir significativamente a sangria da corrupção que envolve, historicamente, todos os níveis administrativos, não haverá “água'' para fazer as vontades de todo o mundo. O montante que será recuperado no âmbito da Lava Jato e o que deveria ser na operação Zelotes (cujo rombo é maior, mas ninguém se importa muito) não seriam suficientes para fazer frente a todas essas demandas.
Há quem defenda que o Estado não deveria ser tão responsável por educação, saúde, segurança, transporte. Ou seja, ao invés de sustentar com impostos a manutenção e ampliação de escolas públicas e do Sistema Único de Saúde, por exemplo, destinaria o dinheiro para o bolso das famílias – que usariam o que foi economizado para por os filhos na escola ou comprar um plano de saúde.
Outros defendem que o poder público deve atuar redistribuindo riqueza e, através de impostos cobrados de forma mais pesada dos mais ricos do que dos pobres, custear um Estado que cuide do bem estar da parte de sua população que não poderia adquirir esses serviços de outra forma.
O fato é que pedir mínima participação do Estado não casa, necessariamente, com a garantia de serviços públicos de saúde, educação, transporte, segurança pública de qualidade.
A Folha de S.Paulo publicou, neste domingo (16), uma boa matéria de Patrícia Campos Mello sobre jovens da periferia que se engajaram nas manifestações contra o governo, mas tinham uma visão diferente sobre o papel do Estado de parte dos organizadores dos protestos.
Ou seja, em algum momento, teremos que promover um debate amplo e público sobre o que queremos do Estado brasileiro, explicando direitinho o que significa cada escolha. Sem mimimis e discussões em forma de gritos.
Há economistas falando em mexer na Previdência Social, aumentando o tempo que uma pessoa tem que ficar trabalhando para evitar que o país quebre. E há os que defendem a ampliação da terceirização e uma reforma que diminua direitos trabalhistas para reduzir custos. Outros defendem uma reforma tributária, aliviando a taxação do consumo e aumentando, de forma progressiva (quem ganha mais, paga mais), os impostos sobre renda do trabalho e, principalmente, do capital. Movimentos sociais defendem taxar grandes heranças e fortunas. Sem contar os que falam da repatriação de bilhões de brasileiros que estão ilegalmente no exterior.
Cada um de nós têm uma posição sobre como o Estado deveria agir no Brasil frente aos recursos limitados – posição que precisa ser confrontada, de forma tranquila no espaço público e no Congresso Nacional, para que voltemos a construir um projeto de país.
O problema é que tem sido bastante difícil travar um debate honesto e racional nesses ambientes. Um debate em que ninguém te xingue ou dê as costas quando não concorde, que não queira “ganhar'' no grito, que apresente argumentos e dados comprovados e não obscuros e refutados pela comunidade científica. No Congresso, a situação é ainda pior. Acompanhei este ano votações por lá cuja qualidade do debate foi um show de horrores de dar vergonha alheia.
Alguns temas parecem áridos para uma parte da população que não está acostumada a eles. Mas isso não significa que essa parcela deva continuar alijada da discussão. Porque isso tem a ver diretamente com a sua qualidade de vida.
Então, temos que nos esforçar para democratiza-la. Se as experiências de orçamento participativo não tivessem sido atacadas de forma injusta, talvez hoje estaríamos em um outro patamar para esse debate.
O que você quer do Estado brasileiro – para além da premissa básica de que ele não desvie, via corrupção, dinheiro dos seus cidadãos? Um Estado mínimo ou Estado de bem-estar social?
E o seu representante político no Congresso pensa como você ou você só votou nele porque o anônimo no WhatsApp disse que era adversário do grupo que você não curte?
quinta-feira, julho 30, 2015
Segredos militares estariam por trás da prisão de Othon Pinheiro da Silva Da Redação
O Wikileaks havia cantado a pedra em 2011. Na ocasião, a preocupação latente do governo americano com o trabalho desenvolvido por cientistas brasileiros no campo da energia nuclear, que culminaria com a entrada em operação, em 2025, de um submarino de propulsão nuclear, produzido em conjunto com a França, já havia sido tornada pública. Desta forma há de se questionar: qual o papel que a Polícia Federal, sob o mando (e desmando) do ministro Sérgio Moro assume agora? Por que ela invade a área da Segurança Nacional e decide investigar o nosso principal representante no campo estratégico da segurança de estado e da energia? Veja a reportagem publicada pela Gazeta do Povo em 2011.
WikiLeaks revela disputa entre Defesa e Itamaraty nos bastidores da corrida nuclear
Nas correspondências, a diplomacia americana constata que há um único "quase-consenso" em Brasília, que é a resistência em aderir ao Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação (TNP).
Os bastidores da política nuclear do Brasil ocuparam os Estados Unidos tanto quanto o monitoramento de possíveis acordos de cooperação com potências nucleares como a Índia, ou a aproximação com o Irã. A disputa de poder e influência entre o Ministério da Defesa e o Itamaraty sobre a política nuclear vem à tona em telegramas diplomáticos americanos sobre não proliferação, revelados ao O Globo pelo WikiLeaks. Nas correspondências, a diplomacia americana constata que há um único "quase-consenso" em Brasília - a resistência em aderir ao Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação (TNP).
As fissuras dentro do governo brasileiro aparecem na descrição de um encontro do então embaixador Clifford M. Sobel com o presidente da Eletrobras, Othon Pinheiro, apontado pelos americanos como "o czar da energia nuclear do Brasil". Diante da constante pressão dos EUA pela adesão brasileira ao Protocolo Adicional do TNP - que autoriza a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a inspecionar instalações nucleares com um curtíssimo aviso prévio - Pinheiro sugere uma medida menos intrusiva: a instalação de sensores capazes de identificar material nuclear, uma vez que elementos físseis são facilmente detectados. O projeto fora apresentado ao Itamaraty e recebido sem grande entusiasmo. Sobel, então, levou a ideia ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, e questionou quem mais poderia participar do debate.
Veja também
Por que o ministro Sérgio Moro mandou prender Othon Pinheiro?
"Jobim respondeu que qualquer discussão sobre esses tópicos deve passar por ele, exclusivamente, e não pelo Ministério das Relações Exteriores", relatou um trecho do telegrama enviado a Washington em 17 de fevereiro de 2009.
Outro episódio que expôs irritação do ministro da Defesa foi o pedido da AIEA para entrevistar um cientista brasileiro após a publicação de uma tese sobre como produzir a bomba atômica. Jobim disse ter "ficado perturbado" ao descobrir que o Ministério das Relações Exteriores estava cooperando com a AIEA.
"Ele declarou estar engajado em pôr um fim a qualquer permissão para que a AIEA interrogue o cientista", descreve a embaixada, na mesma mensagem.
O ministro se referia à controvérsia acerca do físico Dalton Barroso, um doutorando do Instituto Militar de Engenharia (IME) que, baseado em sua tese, publicou em livro a fórmula para se chegar à W-87, uma das mais poderosas ogivas americanas - o que explica o alarmismo dos EUA diante da informação.
Três meses depois, a vice-chefe da missão americana em Brasília, Lisa Kubiske, reuniu-se com funcionários do governo brasileiro e observou que Nelson Jobim estava ciente de que sua recusa em cooperar com a AIEA causou desconforto. Segundo o informe da embaixada, "ele está agora buscando uma maneira de cooperar sem minar o que vê como responsabilidade dele em temas nucleares". Na mesma série de reuniões, diante da recusa definitiva do Brasil em aderir ao Protocolo Adicional do TNP na Conferência de Revisão de 2010, os americanos advertiram que o governo do presidente Lula "sempre apoiou com relutância medidas de não proliferação e permanece desconfiado de propostas novas, uma situação que provavelmente só será alterada com a entrada de um novo governo em 2011".
"Embora o Ministério das Relações Exteriores insista que conduz a questão do Protocolo Adicional, na nossa visão, depois do presidente Lula, é o ministro Jobim que tem mais influência em temas nucleares", avaliou o telegrama de 11 de maio de 2009.
O Protocolo Adicional, aliás, era apontado como o único consenso em Brasília. Ou quase, devido à posição do diretor da Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis do Itamaraty, Santiago Mourão, único funcionário brasileiro favorável à adesão. Os americanos também observaram divergências de abordagem entre civis e militares brasileiros quanto aos temas nucleares.
Na correspondência de 26 de janeiro de 2009, pouco depois de uma visita da representante oficial da Presidência dos EUA para Não Proliferação, embaixadora Susan Burk, é relatado um encontro dela com o diretor do Departamento Internacional do Ministério da Defesa, general Marcelo Mario de Holanda Coutinho. E numa indicação de que havia percepções distintas entre o ministro e funcionários do ministério, dele, a americana ouviu que "apesar de o Ministério da Defesa ser parte do grupo que cuida de questões nucleares, é o Ministério das Relações Exteriores quem comanda e fala em nome do Brasil".
O general aproveitou, ainda, para minimizar uma declaração recente do então vice-presidente, José Alencar, segundo a qual "o Brasil estaria melhor se tivesse armas nucleares".
"Ele enfatizou que as declarações devem ser ignoradas e certamente contrariam a política do governo brasileiro. Ele deu de ombros à declaração, como coisa de políticos, que às vezes dizem o que vem à cabeça", informou o texto.
http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/politica/geral/segredos-militares-estariam-por-tras-da-prisao-de-othon-pinheiro-74-40006
WikiLeaks revela disputa entre Defesa e Itamaraty nos bastidores da corrida nuclear
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Os bastidores da política nuclear do Brasil ocuparam os Estados Unidos tanto quanto o monitoramento de possíveis acordos de cooperação com potências nucleares como a Índia, ou a aproximação com o Irã. A disputa de poder e influência entre o Ministério da Defesa e o Itamaraty sobre a política nuclear vem à tona em telegramas diplomáticos americanos sobre não proliferação, revelados ao O Globo pelo WikiLeaks. Nas correspondências, a diplomacia americana constata que há um único "quase-consenso" em Brasília - a resistência em aderir ao Protocolo Adicional do Tratado de Não Proliferação (TNP).
As fissuras dentro do governo brasileiro aparecem na descrição de um encontro do então embaixador Clifford M. Sobel com o presidente da Eletrobras, Othon Pinheiro, apontado pelos americanos como "o czar da energia nuclear do Brasil". Diante da constante pressão dos EUA pela adesão brasileira ao Protocolo Adicional do TNP - que autoriza a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) a inspecionar instalações nucleares com um curtíssimo aviso prévio - Pinheiro sugere uma medida menos intrusiva: a instalação de sensores capazes de identificar material nuclear, uma vez que elementos físseis são facilmente detectados. O projeto fora apresentado ao Itamaraty e recebido sem grande entusiasmo. Sobel, então, levou a ideia ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, e questionou quem mais poderia participar do debate.
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"Jobim respondeu que qualquer discussão sobre esses tópicos deve passar por ele, exclusivamente, e não pelo Ministério das Relações Exteriores", relatou um trecho do telegrama enviado a Washington em 17 de fevereiro de 2009.
Outro episódio que expôs irritação do ministro da Defesa foi o pedido da AIEA para entrevistar um cientista brasileiro após a publicação de uma tese sobre como produzir a bomba atômica. Jobim disse ter "ficado perturbado" ao descobrir que o Ministério das Relações Exteriores estava cooperando com a AIEA.
"Ele declarou estar engajado em pôr um fim a qualquer permissão para que a AIEA interrogue o cientista", descreve a embaixada, na mesma mensagem.
O ministro se referia à controvérsia acerca do físico Dalton Barroso, um doutorando do Instituto Militar de Engenharia (IME) que, baseado em sua tese, publicou em livro a fórmula para se chegar à W-87, uma das mais poderosas ogivas americanas - o que explica o alarmismo dos EUA diante da informação.
Três meses depois, a vice-chefe da missão americana em Brasília, Lisa Kubiske, reuniu-se com funcionários do governo brasileiro e observou que Nelson Jobim estava ciente de que sua recusa em cooperar com a AIEA causou desconforto. Segundo o informe da embaixada, "ele está agora buscando uma maneira de cooperar sem minar o que vê como responsabilidade dele em temas nucleares". Na mesma série de reuniões, diante da recusa definitiva do Brasil em aderir ao Protocolo Adicional do TNP na Conferência de Revisão de 2010, os americanos advertiram que o governo do presidente Lula "sempre apoiou com relutância medidas de não proliferação e permanece desconfiado de propostas novas, uma situação que provavelmente só será alterada com a entrada de um novo governo em 2011".
"Embora o Ministério das Relações Exteriores insista que conduz a questão do Protocolo Adicional, na nossa visão, depois do presidente Lula, é o ministro Jobim que tem mais influência em temas nucleares", avaliou o telegrama de 11 de maio de 2009.
O Protocolo Adicional, aliás, era apontado como o único consenso em Brasília. Ou quase, devido à posição do diretor da Divisão de Desarmamento e Tecnologias Sensíveis do Itamaraty, Santiago Mourão, único funcionário brasileiro favorável à adesão. Os americanos também observaram divergências de abordagem entre civis e militares brasileiros quanto aos temas nucleares.
Na correspondência de 26 de janeiro de 2009, pouco depois de uma visita da representante oficial da Presidência dos EUA para Não Proliferação, embaixadora Susan Burk, é relatado um encontro dela com o diretor do Departamento Internacional do Ministério da Defesa, general Marcelo Mario de Holanda Coutinho. E numa indicação de que havia percepções distintas entre o ministro e funcionários do ministério, dele, a americana ouviu que "apesar de o Ministério da Defesa ser parte do grupo que cuida de questões nucleares, é o Ministério das Relações Exteriores quem comanda e fala em nome do Brasil".
O general aproveitou, ainda, para minimizar uma declaração recente do então vice-presidente, José Alencar, segundo a qual "o Brasil estaria melhor se tivesse armas nucleares".
"Ele enfatizou que as declarações devem ser ignoradas e certamente contrariam a política do governo brasileiro. Ele deu de ombros à declaração, como coisa de políticos, que às vezes dizem o que vem à cabeça", informou o texto.
http://www.conexaojornalismo.com.br/colunas/politica/geral/segredos-militares-estariam-por-tras-da-prisao-de-othon-pinheiro-74-40006
quarta-feira, julho 08, 2015
Richard Duncan: O esquema Ponzi de U$ 50 trilhões vai desabar?
O esquema Ponzi, ilustração de George Bates
por Luiz Carlos Azenha
Richard Duncan é autor do livro The Dollar Crisis, lançado em 2003, que anteviu a crise financeira global deflagrada em 2008 com a implosão do banco de investimentos Lehman Brothers nos Estados Unidos. Em entrevista à revista New Left Review, ele define o capitalismo em que vivemos como a era do “creditismo” e prevê que qualquer regulamentação do sistema financeiro resultará num colapso econômico global, por revelar as falcatruas nas quais o sistema hoje se sustenta. Ele identifica a origem da crise atual na decisão dos Estados Unidos de abandonar o padrão-ouro, que exigia que o país tivesse depositados 25 centavos em ouro para cada dólar impresso pelo Tesouro.
Na entrevista (em inglês aqui), defende um salário mínimo global, diz que o mundo paga no preço dos alimentos pela decisão do governo dos Estados Unidos de imprimir dinheiro e diz que a globalização gerou um investimento tão maciço em capacidade instalada que isso explica a falta de lucratividade e investimento, motores do sistema. Prevê: ou os governos investem maciçamente em tecnologias transformadoras ou o esquema Ponzi de crédito, de U$ 50 trilhões, vai implodir.
Alguns excertos:
NLR: Qual o efeito que o QE [Quantitative Easing, impressão de dinheiro] tem tido nos lucros e no investimento? O lucro dos negócios nos Estados Unidos atingiu 15% este ano, de acordo com a [revista britânica] Economist, mas as corporações parecem sentadas sobre uma montanha de dinheiro que não está sendo usado.
Richard Duncan: Sim, os lucros estão bem altos, primeiro porque a remuneração do trabalho tem ficado com uma porção cada vez menor. Além disso, relativamente ao PIB, a taxação corporativa nos Estados Unidos foi a mais baixa desde os anos 50. A arrecadação no país como um todo ficou em menos de 15% do PIB, o que é, de novo, o índice mais baixo desde os anos 50. Sim, os lucros das corporações tem sido excepcionalmente bons, embora neste trimestre, de repente, todos estejam preocupados com uma queda repentina.
Mas há um problema fundamental: não existem oportunidades de investimento viáveis. Tanto crédito foi dado e tanta capacidade de produção construída que já temos muito de tudo relativamente à renda como é hoje distribuída e absorvida. Se investir mais, você vai perder dinheiro; se você pegar seu dinheiro e comprar títulos do governo, pode preservar o dinheiro para usar num dia melhor — mas isso ajuda a empurrar as taxas de juros para baixas históricas. É por isso que, mesmo no Japão, depois de duas décadas de déficits fiscais maciços, a taxa de juros de um papel de 10 anos do governo é de 0,8%; na Alemanha, 1,2%; nos Estados Unidos, 1,5%; no Reino Unido, cerca de 1,6%. Nunca foram tão baixas e isso é parte da razão. Quando a bolha estoura, não há lugar para investir dinheiro com lucro, então é melhor colocar em papéis do governo.
NLR: Quais são as opções de longo prazo?
Richard Duncan: Acho que há três opções para o futuro da economia dos Estados Unidos — três caminhos que poderiam ser seguidos. Opção um é a dos libertários e do Tea Party: eliminar o déficit. Isso resultaria em imediata depressão e colapso, o pior cenário possível.
A segunda opção é a que eu chamo de modelo do Japão. Quando a grande bolha econômica do Japão estourou 22 anos atrás, o governo japonês começou a gerar grandes déficits de orçamento e tem feito isso por 22 anos. A relação dívida/PIB aumentou de 60% para 240%. Isso é o que os Estados Unidos e o Reino Unido estão fazendo agora: gerando déficits maciços para impedir o colapso da economia.
Eles podem continuar a fazer isso por outros cinco anos com pequena dificuldade e talvez até por dez anos. A dívida do governo dos Estados Unidos é apenas 100% do PIB, o país poderia prosseguir neste caminho por cinco anos sem atingir 150%. Embora não seja claro o quanto é desejável aumentar, sabemos que não pode aumentar para sempre. Mais cedo ou mais tarde — digamos, dez ou quinze anos — o governo dos Estados Unidos estará tão falido quanto o da Grécia e a economia norte-americana vai desabar numa Grande Depressão. Esta é a opção dois. Melhor que a um, já que é melhor morrer em dez anos do que morrer agora; mas não é o ideal.
Opção número três é o governo dos Estados Unidos continuar emprestando e gastando agressivamente, como faz agora, mas mudando a forma como gasta. Em vez de gastar em consumo e para a guerra, por exemplo — o governo dos Estados Unidos gastou até agora U$ 1,4 trilhão para invadir o Iraque e o Afeganistão — deveria investir; não apenas para reformar estradas e pontes, mas investir agressivamente em tecnologias transformadoras do século 21, como energia renovável, engenharia genética, biotecnologia e nanotecnologia, em grande escala. O governo dos Estados Unidos poderia colocar um trilhão de dólares em cada uma destas indústrias nos próximos dez anos — ter um plano para desenvolver estes novos setores da economia.
Um trilhão de dólares, digamos, em energia solar nos próximos dez anos: não estou falando em construir paineis solares para o mercado; estou falando em cobrir o deserto de Nevada com paineis solares, construir uma linha costa-a-costa para transmitir esta energia; converter a indústria automobilística para a eletricidade, substituir os postos de gasolina por postos para recarregar baterias e desenvolver nova tecnologia para fazer o carro elétrico andar a 110 km/hora. Então, em dez anos os Estados Unidos terão energia gratuita e sem limites.
O déficit comercial será equilibrado, já que não teremos de importar qualquer petróleo estrangeiro e os Estados Unidos poderão gastar 100 bilhões de dólares a menos com os militares, que não precisarão defender o petróleo do Golfo [Pérsico]. O governo dos Estados Unidos poderia taxar a eletricidade produzida domesticamente, ajudando a reduzir o déficit do orçamento; e o custo de energia para o setor privado provavelmente cairia 75% — isso, em si, poderia gerar uma onda de inovação no setor privado capaz de criar nova prosperidade.
Se o governo dos Estados Unidos investisse um trilhão de dólares em engenharia genética, é provável que poderia criar milagres médicos: cura do câncer ou formas de reduzir o processo de envelhecimento. Temos de pensar em Projetos Manhattan dos tempos de paz: juntar os melhores cérebros, a melhor tecnologia e definir alvos; usar o ‘creditismo’ para produzir resultados. Podemos todos ver os defeitos do creditismo — eles são óbvios. Mas, como sociedade, penso que os Estados Unidos estão desprezando as oportunidades que existem dentro do novo sistema econômico — a oportunidade para o governo emprestar quantidades maciças de dinheiro pagando juros de 1,5% e investir agressivamente em tecnologias transformativas que poderiam reestruturar a economia dos Estados Unidos, para que ela se livre da dependência debilitadora do setor financeiro — que se tornou um gigantesco esquema Ponzi — antes que ele entre em colapso. Caso contrário, a economia dos Estados Unidos vai, mais cedo que se pensa, entrar numa espiral letal de dívida-deflação.
NLR: Presumivelmente essa estratégia do ‘creditismo’ se aplicaria apenas à economia dos Estados Unidos?
Richard Duncan: Não necessariamente. Por exemplo, o Banco da Inglaterra imprimiu tanto dinheiro para comprar papéis do governo que agora controla mais de um terço de toda a dívida do Reino Unido. Não custou um centavo para o banco comprar todos estes papéis — nem precisou comprar papel ou tinta para imprimir dinheiro, agora é tudo eletrônico. Por que não cancelar esta dívida? Não custaria nada a ninguém; mesmo que falisse o Banco da Inglaterra, ele poderia imprimir mais dinheiro para se recapitalizar. Da noite para o dia, o Reino Unido teria uma dívida um terço menor e a qualidade de seu crédito aumentaria enormemente.
O governo anunciaria sua pretensão de tirar proveito desta oportunidade histórica para aumentar os gastos e investir em novas indústrias, para que o país pudesse finalmente se livrar de sua dependência debilitadora do esquema Ponzi das finanças e desenvolver indústrias manufatureiras novamente. Por exemplo: jogar 100 bilhões em Cambridge para investir em engenharia genética nos próximos três anos, para se tornar a força dominante em tecnologia genética no mundo. Criaria com isso empregos e ao mesmo tempo poderia reformar a infraestrutura.
NLR: Mas estas novas indústrias não estariam sujeitas à mesma falta de demanda existente hoje?
Richard Duncan: Bem, não haveria falta de demanda para uma terapia molecular que retardasse o envelhecimento ou curasse uma doença fatal. O objetivo seria mirar em inovações tecnológicas que fossem completamente transformadoras, como foi a revolução tecnológica agrícola dos anos 60, que mudou a natureza da produção global de alimentos. De certa forma esta é uma oportunidade sem precedentes, por causa da quantidade de dinheiro que os governos investiriam agora, quando as taxas de juros estão tão baixas. Se houvesse direcionamento [do investimento] para tecnologias transformadoras, poderiamos criar mercados para produtos que nem existem ainda, onde haveria demanda. Se pudessemos mudar a economia dos Estados Unidos, tirá-la da dependência do petróleo para a da energia solar, isso livraria imensa quantidade de dinheiro para gastar em outras coisas. De forma polêmica, quero enfatizar que não podemos apenas esperar por uma recuperação cíclica dos velhos tempos — não vai acontecer.
Temos um novo sistema econômico. Ou nos damos conta disso e tiramos proveito das oportunidades para emprestar e investir, ou o sistema vai desabar numa depressão severa, desfazendo uma expansão de crédito de U$ 50 trilhões. Vai ser pelo menos tão ruim quanto nos anos 30.
por Luiz Carlos Azenha
Richard Duncan é autor do livro The Dollar Crisis, lançado em 2003, que anteviu a crise financeira global deflagrada em 2008 com a implosão do banco de investimentos Lehman Brothers nos Estados Unidos. Em entrevista à revista New Left Review, ele define o capitalismo em que vivemos como a era do “creditismo” e prevê que qualquer regulamentação do sistema financeiro resultará num colapso econômico global, por revelar as falcatruas nas quais o sistema hoje se sustenta. Ele identifica a origem da crise atual na decisão dos Estados Unidos de abandonar o padrão-ouro, que exigia que o país tivesse depositados 25 centavos em ouro para cada dólar impresso pelo Tesouro.
Na entrevista (em inglês aqui), defende um salário mínimo global, diz que o mundo paga no preço dos alimentos pela decisão do governo dos Estados Unidos de imprimir dinheiro e diz que a globalização gerou um investimento tão maciço em capacidade instalada que isso explica a falta de lucratividade e investimento, motores do sistema. Prevê: ou os governos investem maciçamente em tecnologias transformadoras ou o esquema Ponzi de crédito, de U$ 50 trilhões, vai implodir.
Alguns excertos:
NLR: Qual o efeito que o QE [Quantitative Easing, impressão de dinheiro] tem tido nos lucros e no investimento? O lucro dos negócios nos Estados Unidos atingiu 15% este ano, de acordo com a [revista britânica] Economist, mas as corporações parecem sentadas sobre uma montanha de dinheiro que não está sendo usado.
Richard Duncan: Sim, os lucros estão bem altos, primeiro porque a remuneração do trabalho tem ficado com uma porção cada vez menor. Além disso, relativamente ao PIB, a taxação corporativa nos Estados Unidos foi a mais baixa desde os anos 50. A arrecadação no país como um todo ficou em menos de 15% do PIB, o que é, de novo, o índice mais baixo desde os anos 50. Sim, os lucros das corporações tem sido excepcionalmente bons, embora neste trimestre, de repente, todos estejam preocupados com uma queda repentina.
Mas há um problema fundamental: não existem oportunidades de investimento viáveis. Tanto crédito foi dado e tanta capacidade de produção construída que já temos muito de tudo relativamente à renda como é hoje distribuída e absorvida. Se investir mais, você vai perder dinheiro; se você pegar seu dinheiro e comprar títulos do governo, pode preservar o dinheiro para usar num dia melhor — mas isso ajuda a empurrar as taxas de juros para baixas históricas. É por isso que, mesmo no Japão, depois de duas décadas de déficits fiscais maciços, a taxa de juros de um papel de 10 anos do governo é de 0,8%; na Alemanha, 1,2%; nos Estados Unidos, 1,5%; no Reino Unido, cerca de 1,6%. Nunca foram tão baixas e isso é parte da razão. Quando a bolha estoura, não há lugar para investir dinheiro com lucro, então é melhor colocar em papéis do governo.
NLR: Quais são as opções de longo prazo?
Richard Duncan: Acho que há três opções para o futuro da economia dos Estados Unidos — três caminhos que poderiam ser seguidos. Opção um é a dos libertários e do Tea Party: eliminar o déficit. Isso resultaria em imediata depressão e colapso, o pior cenário possível.
A segunda opção é a que eu chamo de modelo do Japão. Quando a grande bolha econômica do Japão estourou 22 anos atrás, o governo japonês começou a gerar grandes déficits de orçamento e tem feito isso por 22 anos. A relação dívida/PIB aumentou de 60% para 240%. Isso é o que os Estados Unidos e o Reino Unido estão fazendo agora: gerando déficits maciços para impedir o colapso da economia.
Eles podem continuar a fazer isso por outros cinco anos com pequena dificuldade e talvez até por dez anos. A dívida do governo dos Estados Unidos é apenas 100% do PIB, o país poderia prosseguir neste caminho por cinco anos sem atingir 150%. Embora não seja claro o quanto é desejável aumentar, sabemos que não pode aumentar para sempre. Mais cedo ou mais tarde — digamos, dez ou quinze anos — o governo dos Estados Unidos estará tão falido quanto o da Grécia e a economia norte-americana vai desabar numa Grande Depressão. Esta é a opção dois. Melhor que a um, já que é melhor morrer em dez anos do que morrer agora; mas não é o ideal.
Opção número três é o governo dos Estados Unidos continuar emprestando e gastando agressivamente, como faz agora, mas mudando a forma como gasta. Em vez de gastar em consumo e para a guerra, por exemplo — o governo dos Estados Unidos gastou até agora U$ 1,4 trilhão para invadir o Iraque e o Afeganistão — deveria investir; não apenas para reformar estradas e pontes, mas investir agressivamente em tecnologias transformadoras do século 21, como energia renovável, engenharia genética, biotecnologia e nanotecnologia, em grande escala. O governo dos Estados Unidos poderia colocar um trilhão de dólares em cada uma destas indústrias nos próximos dez anos — ter um plano para desenvolver estes novos setores da economia.
Um trilhão de dólares, digamos, em energia solar nos próximos dez anos: não estou falando em construir paineis solares para o mercado; estou falando em cobrir o deserto de Nevada com paineis solares, construir uma linha costa-a-costa para transmitir esta energia; converter a indústria automobilística para a eletricidade, substituir os postos de gasolina por postos para recarregar baterias e desenvolver nova tecnologia para fazer o carro elétrico andar a 110 km/hora. Então, em dez anos os Estados Unidos terão energia gratuita e sem limites.
O déficit comercial será equilibrado, já que não teremos de importar qualquer petróleo estrangeiro e os Estados Unidos poderão gastar 100 bilhões de dólares a menos com os militares, que não precisarão defender o petróleo do Golfo [Pérsico]. O governo dos Estados Unidos poderia taxar a eletricidade produzida domesticamente, ajudando a reduzir o déficit do orçamento; e o custo de energia para o setor privado provavelmente cairia 75% — isso, em si, poderia gerar uma onda de inovação no setor privado capaz de criar nova prosperidade.
Se o governo dos Estados Unidos investisse um trilhão de dólares em engenharia genética, é provável que poderia criar milagres médicos: cura do câncer ou formas de reduzir o processo de envelhecimento. Temos de pensar em Projetos Manhattan dos tempos de paz: juntar os melhores cérebros, a melhor tecnologia e definir alvos; usar o ‘creditismo’ para produzir resultados. Podemos todos ver os defeitos do creditismo — eles são óbvios. Mas, como sociedade, penso que os Estados Unidos estão desprezando as oportunidades que existem dentro do novo sistema econômico — a oportunidade para o governo emprestar quantidades maciças de dinheiro pagando juros de 1,5% e investir agressivamente em tecnologias transformativas que poderiam reestruturar a economia dos Estados Unidos, para que ela se livre da dependência debilitadora do setor financeiro — que se tornou um gigantesco esquema Ponzi — antes que ele entre em colapso. Caso contrário, a economia dos Estados Unidos vai, mais cedo que se pensa, entrar numa espiral letal de dívida-deflação.
NLR: Presumivelmente essa estratégia do ‘creditismo’ se aplicaria apenas à economia dos Estados Unidos?
Richard Duncan: Não necessariamente. Por exemplo, o Banco da Inglaterra imprimiu tanto dinheiro para comprar papéis do governo que agora controla mais de um terço de toda a dívida do Reino Unido. Não custou um centavo para o banco comprar todos estes papéis — nem precisou comprar papel ou tinta para imprimir dinheiro, agora é tudo eletrônico. Por que não cancelar esta dívida? Não custaria nada a ninguém; mesmo que falisse o Banco da Inglaterra, ele poderia imprimir mais dinheiro para se recapitalizar. Da noite para o dia, o Reino Unido teria uma dívida um terço menor e a qualidade de seu crédito aumentaria enormemente.
O governo anunciaria sua pretensão de tirar proveito desta oportunidade histórica para aumentar os gastos e investir em novas indústrias, para que o país pudesse finalmente se livrar de sua dependência debilitadora do esquema Ponzi das finanças e desenvolver indústrias manufatureiras novamente. Por exemplo: jogar 100 bilhões em Cambridge para investir em engenharia genética nos próximos três anos, para se tornar a força dominante em tecnologia genética no mundo. Criaria com isso empregos e ao mesmo tempo poderia reformar a infraestrutura.
NLR: Mas estas novas indústrias não estariam sujeitas à mesma falta de demanda existente hoje?
Richard Duncan: Bem, não haveria falta de demanda para uma terapia molecular que retardasse o envelhecimento ou curasse uma doença fatal. O objetivo seria mirar em inovações tecnológicas que fossem completamente transformadoras, como foi a revolução tecnológica agrícola dos anos 60, que mudou a natureza da produção global de alimentos. De certa forma esta é uma oportunidade sem precedentes, por causa da quantidade de dinheiro que os governos investiriam agora, quando as taxas de juros estão tão baixas. Se houvesse direcionamento [do investimento] para tecnologias transformadoras, poderiamos criar mercados para produtos que nem existem ainda, onde haveria demanda. Se pudessemos mudar a economia dos Estados Unidos, tirá-la da dependência do petróleo para a da energia solar, isso livraria imensa quantidade de dinheiro para gastar em outras coisas. De forma polêmica, quero enfatizar que não podemos apenas esperar por uma recuperação cíclica dos velhos tempos — não vai acontecer.
Temos um novo sistema econômico. Ou nos damos conta disso e tiramos proveito das oportunidades para emprestar e investir, ou o sistema vai desabar numa depressão severa, desfazendo uma expansão de crédito de U$ 50 trilhões. Vai ser pelo menos tão ruim quanto nos anos 30.
Estados Unidos imprimem dinheiro e o mundo paga a conta
por Luiz Carlos Azenha
Richard Duncan é autor do livro The Dollar Crisis, lançado em 2003, que anteviu a crise financeira global deflagrada em 2008 com a implosão do banco de investimentos Lehman Brothers nos Estados Unidos. Em entrevista à revista New Left Review, ele define o capitalismo em que vivemos como a era do “creditismo” e prevê que qualquer regulamentação do sistema financeiro resultará num colapso econômico global, por revelar as falcatruas nas quais o sistema hoje se sustenta. Ele identifica a origem da crise atual na decisão dos Estados Unidos de abandonar o padrão-ouro, que exigia que o país tivesse depositados 25 centavos em ouro para cada dólar impresso pelo Tesouro.
Outros trechos:
[A primeira parte está aqui]
[A segunda parte está aqui]
NLR: Quais foram os objetivos do governo dos Estados Unidos ao lidar com a crise? Como você avaliaria as políticas até agora?
Richard Duncan: O objetivo da política do governo dos Estados Unidos tem sido a de perpetuar a expansão do crédito para evitar um colapso. Até agora os Estados Unidos conseguiram mais ou menos sustentar o nível total de dívida no mercado de crédito. Conseguiram isso acumulando um déficit de U$ 5 trilhões, o qual provavelmente não teriam conseguido financiar se o Banco Central [Federal Reserve] não tivesse imprimido U$ 2 trilhões para injetar na economia. Inicialmente, em 2007 e 2008, o resgate do setor financeiro e o estímulo de U$ 787 bilhões foram financiados com a venda de papéis do governo. Mas aquela rodada inicial de ajuda ao setor financeiro já tinha custado U$ 1 trilhão — cerca de U$ 544 bilhões em empréstimos aos bancos norte-americanos, U$ 118 bilhões ao Bear Stearns e [seguradora] AIG e U$ 333 bilhões à agência de financiamento de papéis comerciais. Então o Banco Central começou sua política de ‘quantitative easing’ em novembro de 2008. Naturalmente, QE é um eufemismo para criação de dinheiro do nada: a ‘quantidade’ se refere ao dinheiro em existência, o ‘easing’ significa criar mais — ‘facilitar’ as condições de liquidez.
A primeira rodada, QE1, foi usada principalmente para dar alívio aos bancos e outras instituições que estavam carregadas de papéis podres do mercado imobiliário. O programa foi ampliado em março de 2009, de U$ 600 bilhões para mais de U$ 1,75 trilhão, para durar até março de 2010. Assim que acabou, a economia dos Estados Unidos entrou numa fase ruim no verão de 2010. Em agosto de 2010 Bernanke já estava falando em outra rodada, a QE2, que foi anunciada formalmente em novembro, para continuar até junho de 2011. Daquela vez o Banco Central imprimiu U$ 600 bilhões, que usou para comprar de volta papéis do governo, financiando assim o déficit do orçamento. Com algumas diferenças, o mesmo caminho foi seguido pelo Banco Central Europeu e pelo Banco da Inglaterra, mas em escala menor.
Dada a natureza do debate sobre o déficit de orçamento dos Estados Unidos, é importante enfatizar qual seria a alternativa se o governo não tivesse se envolvido. O crédito total teria começa a se contrair em 2008, quando o setor privado não teria mais condições de pagar os juros de sua dívida e o tipo de espiral dívida-deflação descrita por Irving Fisher teria acontecido. A economia dos Estados Unidos teria mergulhado em uma nova Grande Depressão e, com ela, o resto do mundo.
[…]
Desde 2011, eu diria que os custos do QE se tornaram maiores que os benefícios, que tem dado retorno cada vez menor. O ‘quantitative easing’ criou inflação no preço dos alimentos, o que é muito danoso para 2 bilhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia. Li que os preços globais dos alimentos subiram 60% durante QE2 e este foi um dos fatores que levaram à Primavera Árabe. O aumento nos preços do petróleo foi muito negativa para a economia dos Estados Unidos; a queda do consumo nos Estados Unidos em 2011 se deveu ao aumento nos preços da comida e do petróleo. Voltamos à velha teoria sobre a quantidade de dinheiro em circulação: se você aumentar a quantidade de dinheiro, os preços sobem. Até agora, isso teve pequeno impacto no preço das manufaturas, por causa do grande efeito deflacionário da globalização e a redução de 95% no custo marginal do trabalho que ela representou.
Então, não vemos inflação nos produtos industrializados. Mas os preços dos alimentos aumentaram em todo lugar. Se o preço em dólar dos alimentos sobe — se o preço do arroz em dólar sobe — o preço do arroz aumenta em todo o mundo; caso contrário, o produto seria vendido no mercado dolarizado. Se o preço do arroz nos Estados Unidos aumenta, também aumenta na Tailândia. E quando o Banco Central dos Estados Unidos imprime dinheiro, o preço da comida sobe. Esta é a grande desvantagem, o grande problema real do QE — caso contrário, seria uma coisa boa: imprima dinheiro, faça o preço das ações subir na bolsa e todo mundo ficará rico e feliz. Mas existe também este impacto, de criar inflação no preço dos alimentos.
Richard Duncan é autor do livro The Dollar Crisis, lançado em 2003, que anteviu a crise financeira global deflagrada em 2008 com a implosão do banco de investimentos Lehman Brothers nos Estados Unidos. Em entrevista à revista New Left Review, ele define o capitalismo em que vivemos como a era do “creditismo” e prevê que qualquer regulamentação do sistema financeiro resultará num colapso econômico global, por revelar as falcatruas nas quais o sistema hoje se sustenta. Ele identifica a origem da crise atual na decisão dos Estados Unidos de abandonar o padrão-ouro, que exigia que o país tivesse depositados 25 centavos em ouro para cada dólar impresso pelo Tesouro.
Outros trechos:
[A primeira parte está aqui]
[A segunda parte está aqui]
NLR: Quais foram os objetivos do governo dos Estados Unidos ao lidar com a crise? Como você avaliaria as políticas até agora?
Richard Duncan: O objetivo da política do governo dos Estados Unidos tem sido a de perpetuar a expansão do crédito para evitar um colapso. Até agora os Estados Unidos conseguiram mais ou menos sustentar o nível total de dívida no mercado de crédito. Conseguiram isso acumulando um déficit de U$ 5 trilhões, o qual provavelmente não teriam conseguido financiar se o Banco Central [Federal Reserve] não tivesse imprimido U$ 2 trilhões para injetar na economia. Inicialmente, em 2007 e 2008, o resgate do setor financeiro e o estímulo de U$ 787 bilhões foram financiados com a venda de papéis do governo. Mas aquela rodada inicial de ajuda ao setor financeiro já tinha custado U$ 1 trilhão — cerca de U$ 544 bilhões em empréstimos aos bancos norte-americanos, U$ 118 bilhões ao Bear Stearns e [seguradora] AIG e U$ 333 bilhões à agência de financiamento de papéis comerciais. Então o Banco Central começou sua política de ‘quantitative easing’ em novembro de 2008. Naturalmente, QE é um eufemismo para criação de dinheiro do nada: a ‘quantidade’ se refere ao dinheiro em existência, o ‘easing’ significa criar mais — ‘facilitar’ as condições de liquidez.
A primeira rodada, QE1, foi usada principalmente para dar alívio aos bancos e outras instituições que estavam carregadas de papéis podres do mercado imobiliário. O programa foi ampliado em março de 2009, de U$ 600 bilhões para mais de U$ 1,75 trilhão, para durar até março de 2010. Assim que acabou, a economia dos Estados Unidos entrou numa fase ruim no verão de 2010. Em agosto de 2010 Bernanke já estava falando em outra rodada, a QE2, que foi anunciada formalmente em novembro, para continuar até junho de 2011. Daquela vez o Banco Central imprimiu U$ 600 bilhões, que usou para comprar de volta papéis do governo, financiando assim o déficit do orçamento. Com algumas diferenças, o mesmo caminho foi seguido pelo Banco Central Europeu e pelo Banco da Inglaterra, mas em escala menor.
Dada a natureza do debate sobre o déficit de orçamento dos Estados Unidos, é importante enfatizar qual seria a alternativa se o governo não tivesse se envolvido. O crédito total teria começa a se contrair em 2008, quando o setor privado não teria mais condições de pagar os juros de sua dívida e o tipo de espiral dívida-deflação descrita por Irving Fisher teria acontecido. A economia dos Estados Unidos teria mergulhado em uma nova Grande Depressão e, com ela, o resto do mundo.
[…]
Desde 2011, eu diria que os custos do QE se tornaram maiores que os benefícios, que tem dado retorno cada vez menor. O ‘quantitative easing’ criou inflação no preço dos alimentos, o que é muito danoso para 2 bilhões de pessoas que vivem com menos de 2 dólares por dia. Li que os preços globais dos alimentos subiram 60% durante QE2 e este foi um dos fatores que levaram à Primavera Árabe. O aumento nos preços do petróleo foi muito negativa para a economia dos Estados Unidos; a queda do consumo nos Estados Unidos em 2011 se deveu ao aumento nos preços da comida e do petróleo. Voltamos à velha teoria sobre a quantidade de dinheiro em circulação: se você aumentar a quantidade de dinheiro, os preços sobem. Até agora, isso teve pequeno impacto no preço das manufaturas, por causa do grande efeito deflacionário da globalização e a redução de 95% no custo marginal do trabalho que ela representou.
Então, não vemos inflação nos produtos industrializados. Mas os preços dos alimentos aumentaram em todo lugar. Se o preço em dólar dos alimentos sobe — se o preço do arroz em dólar sobe — o preço do arroz aumenta em todo o mundo; caso contrário, o produto seria vendido no mercado dolarizado. Se o preço do arroz nos Estados Unidos aumenta, também aumenta na Tailândia. E quando o Banco Central dos Estados Unidos imprime dinheiro, o preço da comida sobe. Esta é a grande desvantagem, o grande problema real do QE — caso contrário, seria uma coisa boa: imprima dinheiro, faça o preço das ações subir na bolsa e todo mundo ficará rico e feliz. Mas existe também este impacto, de criar inflação no preço dos alimentos.
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