Por Laurindo Lalo Leal Filho
“Dia 1º de abril de 1964. Cinelândia, Rio de Janeiro. Em frente ao Clube Militar, um garoto de 12 anos começa a gritar ‘Jangooo’, ‘Jangooo’. Um homem alto e magro, cabelo cortado recente, bigodes finos, aponta a sua automática e explode a cabeça do menino. Nesse dia eu era diretor de jornalismo da Rede Excelsior de Televisão, na época líder absoluta de audiência. Nessa mesma noite de 1º de abril, no Jornal de Vanguarda, a cena foi ao ar”, lembra Fernando Barbosa Lima no livro Gloria in Excelsior escrito por Álvaro de Moya.
Era o início de uma longa ditadura e o começo do fim da única rede de televisão brasileira que, um dia, alinhou-se a um projeto nacional de desenvolvimento autônomo liderado pelo presidente João Goulart.
O Jornal de Vanguarda, havia sido premiado pela Eurovisão, a rede europeia de televisões públicas, como melhor do mundo no seu gênero, superando os programas de notícias da BBC de Londres. Com recursos e independência, a Excelsior criava um novo padrão de qualidade para a TV brasileira, copiado depois pela Globo.
Ao tiro na Cinelândia seguiu-se a invasão da emissora por policiais armados e a derrocada de um império comandado pelo empresário Mário Wallace Simonsen. Figura esquecida intencionalmente pela mídia de hoje já que sua lembrança destroi a lenda golpista de que o Brasil de Jango caminhava para o comunismo.
O dono da Excelsior, e também da Panair do Brasil e da maior empresa exportadora de café do pais, a Comal, de comunista não tinha nada. Tinha, isso sim, convicção que seus negócios só prosperariam se o país crescesse de forma independente, livre do jugo imposto pelos Estados Unidos. Disputava o mercado internacional do café com o grupo Rockfeller.
Esteve ao lado da ordem democrática durante os governos Juscelino, Jânio e Jango. Mandou um avião da Panair buscar o vice-presidente Goulart em Pequim, durante a crise da renúncia de Jânio em 1961 e hospedou-o em seu apartamento de Paris, durante uma das escalas da longa viagem. Os golpistas nunca o perdoaram.
Os projetos de reformas de base enviadas por Jango ao Congresso, em março de 1964, se efetivados, encaminhariam o Brasil para o patamar de “potência independente, com ascendência sobre a América Latina e a África” no dizer do sociólogo Octavio Ianni no livro ‘O colapso do populismo no Brasil’.
A essa política se contrapôs, com o golpe, um modelo de capitalismo associado e dependente mantendo o Brasil na condição de satélite da órbita centralizada pelos Estados Unidos. Coube à mídia dar respaldo à subserviência, sem o qual a ação dos golpistas e depois a da ditadura, teria sido mais árdua.
No centro desse processo, como coordenador do trabalho de conquista dos corações e mentes da sociedade, estavam o Instituto de Pesquisas Sociais, o IPES e o Instituto de Ação Social, o IBAD. Um complexo de produção ideológica que “publicava diretamente ou através de acordo com várias editoras, uma série extensa de trabalhos, incluindo livros, panfletos periódicos, jornais, revistas e folhetos. Saturava o rádio e a televisão com suas mensagens políticas e ideológicas”, como mostra a pesquisa de Rene Armand Dreifuss, publicada no livro ’1964: a conquista do Estado’.
A máquina da desinformação, azeitada por recursos captados nas elites empresariais pagava os donos de jornais, rádios e TVs ou diretamente os jornalistas, executores das pautas de interesse dos golpistas.
É precioso o relato de Rene Dreyfuss ao demonstrar como “o IPES organizava equipes de ‘manipuladores de notícias’ que preparavam e compilavam material sob a coordenação geral do general Golbery do Couto e Silva, especialista em guerra psicológica. Esses manipuladores se responsabilizavam pelas ‘campanhas de pânico’. A ‘campanha da ameaça vermelha’ empreendida pelo IPES mostrou-se muito útil na melhoria de sua situação financeira, já que atraiu contribuições de empresários tomados de pânico e profissionais que temiam o futuro”.
Segundo Dreyfuss, “eram também ‘feitas’ em O Globo notícias sem atribuição de fonte ou indicação de pagamento e reproduzidas como informação factual. Dessas notícias, uma que provocou um grande impacto na opinião pública foi a de que a União Soviética imporia a instalação de um Gabinete Comunista no Brasil, exercendo todas as formas de pressões internas e externas para aquele fim”.
O envenenamento simbólico de parte da população era feito com muita competência e a própria mídia apresentava possíveis antídotos, além do golpe que estava sempre presente no horizonte.
Sem registros históricos, um desses antídotos só não é risível porque o momento não estava para brincadeiras. A TV Paulista e a Rádio Nacional de São Paulo, que depois seriam vendidas para as Organizações Globo, numa operação até hoje contestada na justiça, propiciaram um espetáculo bizarro na semana santa que antecedeu o golpe.
O apresentador do programa de rádio diário, “A hora da Ave Maria”, Pedro Geraldo Costa, foi a Jerusalém às expensas das emissoras e de lá trouxe uma cruz enorme de madeira que chegou ao Rio de Janeiro de avião e seguiu em peregrinação para São Paulo trafegando lentamente pela via Dutra, com uma parada simbólica em Aparecida. Nas proximidades da capital foi içada por um helicóptero e suavemente depositada no Vale do Anhangabaú em meio a multidão convocada pelo rádio e pela TV para orar junto à cruz pelo país. Episódio esquecido que, no entanto, se articula com as marchas religiosas e golpistas do período, insufladas pela mídia.
Como depois as pesquisas do Ibope mostraram, essas multidões arregimentadas pelo conluio igreja-meios de comunicação representavam parcelas minoritárias da população. A maioria apoiava o governo Jango e a sua política reformista. Mas até hoje, passados 50 anos, o golpe ainda é apresentado pela mesma mídia como tendo sido respaldado pelo povo. Foi apenas por aqueles que se deixaram levar pela insidiosa campanha midiática do início dos anos 1960.
Apesar do desfecho trágico que levou o Brasil a uma ditadura sanguinária, em termos de mídia estávamos melhor naquela época do que hoje. Nas bancas, a Última Hora era a alternativa aos jornais reacionários, a TV Excelsior abria espaço para o contraditório e algumas emissoras de rádio mantinham-se alheias as pressões golpistas, como a 9 de Julho de São Paulo, cassada pela ditadura.
Hoje nem isso temos possibilitando que apenas uma versão, a dos golpistas, continue circulando pela mídia tradicional. O “esquecimento” de figuras como a de Mário Wallace Simonsen e de episódios como a da cruz que veio de Jerusalém são propositais. Se lembrados poriam em cheque a ameaça comunista e o apoio espontâneo das massas ao golpe.
Versões distorcidas, bem ao gosto do Instituto Millenium que está ai como um fantasma a lembrar alguns traços assustadores dos antigos IPES e do IBAD.
Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP.
O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
quarta-feira, abril 16, 2014
Em matéria de Ucrânia, o Brasil não está só
Rede Brasil Atual
Calma, leitoras e leitores. O enigma já se desfará.
Nós, no Brasil, conhecemos a parcialidade histórica (por vezes histérica...) da nossa velha mídia em relação a uma série de temas, a começar pelos governos do PT. Esta desconfiança chega também à velha mídia dos nossos co-irmãos da América Latina, como na Argentina e na Venezuela, para citar dois casos emblemáticos dentre outros.
Ao mesmo tempo, a maioria de nós guarda uma veneração pela mídia liberal dos países da Europa e dos Estados Unidos, vendo nela exemplos de moderação, equilíbrio e espírito isento.
Mas a realidade nem sempre coincide com este clichê. Muitas vezes esta mesma ‘mídia internacional’ se comporta de maneira bastante parcial. Citemos alguns exemplos igualmente emblemáticos: a invasão do Iraque, o noticiário sobre Cuba, ou sobre a Venezuela, e até recentemente o modo de encarar os rebeldes sírios frente ao governo de Bashar al-Assad. Podemos incluir aí o modo de encarar (quase sempre positivo) as crenças (crendices, superstições) da ortodoxia econômica neoliberal.
O Brasil entrou nesta roda. Há uma campanha disseminada contra o Brasil em boa parte da mídia convencional. No plano teórico-instrumental esta campanha (com apoio na nossa velha mídia e instituições como o Instituto Millenium ou a Associação Contas Abertas) é liderada por articulistas da The Economist e do Financial Times, com apoio também, mas mais discreto, no The Wall Street Journal. Já no plano factual, há uma disseminação desta campanha em um sem número de jornais e revistas, incluindo reportagens no The Guardian, The New York Times, Der Spiegel, por vezes El País, Le Monde, dentre muitos outros. Não são as únicas matérias, havendo outras de outro tipo. Mas elas se repetem – e repetem-se umas às outras – ad nauseam.
De repente – e a Copa estimulou a “reação” – ficou na moda falar mal do Brasil. Tudo é ruim, tudo é (ainda) pobreza, e o grande culpado por este "tudo" é o Estado paquidérmico do Brasil, desmesurado, ineficiente, corrupto, liderado pelos recentes ‘populismos’ e ‘desvarios econômicos’ das equipes de governo de 2003 para cá. Apesar da enorme popularidade internacional do ex-presidente Lula, apesar dos programas sociais do governo brasileiro serem referência no mundo inteiro, inclusive o de transferência de renda, do pleno emprego (que a lógica econômica ortodoxa condena, no fundo, porque aumenta os salários), etc., "o Brasil não está dando certo, não vai dar certo, não pode dar certo e se der certo ninguém vai dar pelota para isto, e a Copa vai ser um fracasso, um vexame de atrasos e mal-feitos e desperdício público..." e bota etcetera nisto.
Mas não há motivos para nos julgarmos privilegiados neste mal-dizer.
Olhemos a Ucrânia. A esmagadora maioria da mídia internacional – em que pesem as fotos, os relatos que podemos ler aqui e ali, dispersos, de repórteres in loco, algumas vozes de analistas mais independentes – repete com um um acento monogâmico a mesma ladainha. Tudo o que a Rússia diz sobre a Ucrânia é mentira, é mera propaganda deslavada, os rebeldes do leste do país são industriados pelos russos, alguns deles são russos disfarçados etc. Tudo o que os países do Ocidente dizem sobre a Ucrânia é verdade, e uma verdade dita de modo desinteressado, para defender que a democracia chegue (com as tropas da Otan, é claro) até as fronteiras da Rússia. Esta quer apenas reestender seus domínios até a fronteira oeste da Ucrânia, e já está de olho no Báltico, na Moldávia, quiçá na Polônia.
Há conflitos nestas afirmativas.
Basta comparar, por exemplo, os vídeos e fotos sobre os revoltosos da praça Maidan, em Kiev, e que são encarados por esta mídia como ‘heróis’ muitas vezes, com os vídeos e fotos dos rebeldes no leste da Ucrânia. No primeiro caso o que vemos é a progressiva substituição dos manifestantes originais por milícias treinadas, cuja descrição testemunhal aponta como neofascistas cujas organizações são remanescentes do apoio dado por ucranianos (não todos, provavelmente nem mesmo a maioria) à invasão nazista na Segunda Guerra. No segundo caso vemos a ação de grupos organizados – com disciplina militar – progressivamente apoiados pela população local, onde se destacam mulheres e trabalhadores das minas de carvão.
Hoje mesmo (16) chegaram à divulgação imagens, vídeos e relatos de carros de combate (cinco tanques, pelo menos, e alguns outros de transporte de tropas) “tomados” pelos rebeldes às forças enviadas para reprimi-los. Houve informes dispersos de que os soldados e oficiais destes veículos militares tinham “aderido” aos rebeldes, registrando-se o caso de pelo menos um deles ter dito que “não ia atirar contra seu próprio povo”.
Ou seja, a situação é, para dizer o mínimo, muito mais complexa do que aquele maniqueísmo midiático pretende reafirmar e vender.
Amanhã (17), reúne-se pela primeira vez o grupo formado por Estados Unidos, Rússia, União Europeia e governo de Kiev, em Genebra, para debater uma saída negociada e diplomática para a crise ucraniana.
Olho no que a velha mídia – a nossa e a dos outros – vai dizer e desdizer a este respeito.
Com a certeza de que em matéria de Ucrânia, o Brasil não está só... neste samba da mídia doida, mas certeira nas suas ideologias de plantão.
segunda-feira, abril 14, 2014
Colonização da Lua e viagens a Marte entram em agenda espacial russa
14/04/2014 Tatiana Russakova, Reportagem combinada
Autoridades concluíram o processo de elaboração da base conceitual referente à exploração e estudo do espaço exterior, cujas principais tarefas incluem a expansão da presença do país nas órbitas terrestres de baixa altitude, colonização de Lua, Marte e outros planetas do Sistema Solar. Sanções impostas por países ocidentais estimulam a elaboração de novas estratégias e produção de equipamentos nacionais.
Em entrevista ao jornal “Rossiyskaya Gazeta”, o vice-premiê russo Dmítri Rogózin declarou que os objetivos prioritários da área espacial do país incluem a criação de serviços destinados à exploração de recursos do espaço exterior. “Entre os principais objetivos estão o desenvolvimento de centrais nucleares e biotecnologias, tecnologia robótica e materiais inovadores, além das tecnologias de plasma destinadas à transformação de energia”, afirmou.
Para tanto, a Roscosmos (agência espacial nacional) está avaliando a possibilidade de realizar o projeto em colaboração com a Academia de Ciências da Rússia e o órgão estatal Rosatom. “Pretendemos criar um protótipo do complexo tripulado baseado em um foguete superpesado, que será usado para as viagens à Lua e ao Marte”, acrescentou.
As autoridades russas também já deram início às pesquisas científicas referentes à criação de rebocadores potentes interplanetários e interorbitais necessários para a exploração dos planetas do Sistema Solar.
Segundo Rogózin, a Lua é o principal objeto das pesquisas científicas fundamentais, além da fonte mais próxima das substâncias extraterrestres e satélite natural da Terra. “Ela poderá exercer a função de plataforma para as pesquisas tecnológicas e ensaios dos novos modelos de equipamentos espaciais”, explicou o vice-premiê.
Uma das tarefas incluídas no programa de exploração da Lua consiste na instalação do primeiro laboratório extraterrestre em seu solo, que seria assistido pelos cientistas e contaria com um conjunto de equipamentos para os fins de exploração da profundidade do Universo, minerais lunares, meteoritos, assim como para a elaboração dos protótipos das substâncias benéficas, gases e água.
Pela agenda do projeto, os primeiros seres humanos desembarcarão na Lua até o ano de 2030, seguidos pela construção da base lunar. A segunda etapa do programa será dedicada às viagens a asteroides e a Marte.
Segurança reforçada
O piloto espacial Serguêi Krikalev acredita que o governo russo possui todos os recursos necessários para realizar as suas iniciativas de exploração do espaço exterior. Mas, segundo ele, é necessário criar um sistema de campos-base ao redor da Lua e em sua superfície para garantir a segurança dos futuros astronautas.
“Creio que as autoridades acabarão lançando uma base circulante ao redor da Terra, de onde sairão voos extraterrestres”, sugere Krikalev, “mas não podemos deixar de lado os estudos do espaço nas órbitas de baixas altitudes, assim como precisamos criar uma base estratégica nesta área que, além de exercer a função do laboratório de pesquisa, serviria como complexo de lançamento e ensaios de navios destinados a percorrer longas distâncias, uma oficina montadora de novos veículos espaciais e um espaço de manutenção e ajustes dos satélites”.
Desse modo, as órbitas terrestres de baixa atitude exerceriam o papel de parada intermediária para a verificação de funcionamento dos equipamentos dos foguetes lançados da superfície terrestre, antes que possam continuar as suas viagens em total segurança.
Uma ‘pedra’ no espaço
Apesar dos planos ambiciosos, o setor espacial da Rússia deve enfrentar dificuldades no processo, tais como a falta dos equipamentos eletrônicos de alta qualidade. “Os aparelhos de retransmissão de bordo ou suas partes utilizadas nos satélites de comunicação nacionais vêm de outros países e, mesmo se produzidos no território russo, são feitos de componentes importados”, lamentou Rogózin.
Levando em consideração o presente cenário internacional, a Roscosmos foi autorizada pela Comissão de Indústria Militar a distribuir os pedidos de fabricação dos componentes eletrônicos básicos resistentes à radiação entre as empresas nacionais.
Rogózin ressaltou, contudo, que o cancelamento de projetos conjuntos russo-americanos pela Nasa (agência espacial norte-americana) oferece ao país um novo estímulo para elaboração da estratégia de desenvolvimento dos equipamentos espaciais tripulados, “sem depender de parceiros internacionais pouco confiáveis”.
Autoridades concluíram o processo de elaboração da base conceitual referente à exploração e estudo do espaço exterior, cujas principais tarefas incluem a expansão da presença do país nas órbitas terrestres de baixa altitude, colonização de Lua, Marte e outros planetas do Sistema Solar. Sanções impostas por países ocidentais estimulam a elaboração de novas estratégias e produção de equipamentos nacionais.
Em entrevista ao jornal “Rossiyskaya Gazeta”, o vice-premiê russo Dmítri Rogózin declarou que os objetivos prioritários da área espacial do país incluem a criação de serviços destinados à exploração de recursos do espaço exterior. “Entre os principais objetivos estão o desenvolvimento de centrais nucleares e biotecnologias, tecnologia robótica e materiais inovadores, além das tecnologias de plasma destinadas à transformação de energia”, afirmou.
Para tanto, a Roscosmos (agência espacial nacional) está avaliando a possibilidade de realizar o projeto em colaboração com a Academia de Ciências da Rússia e o órgão estatal Rosatom. “Pretendemos criar um protótipo do complexo tripulado baseado em um foguete superpesado, que será usado para as viagens à Lua e ao Marte”, acrescentou.
As autoridades russas também já deram início às pesquisas científicas referentes à criação de rebocadores potentes interplanetários e interorbitais necessários para a exploração dos planetas do Sistema Solar.
Segundo Rogózin, a Lua é o principal objeto das pesquisas científicas fundamentais, além da fonte mais próxima das substâncias extraterrestres e satélite natural da Terra. “Ela poderá exercer a função de plataforma para as pesquisas tecnológicas e ensaios dos novos modelos de equipamentos espaciais”, explicou o vice-premiê.
Uma das tarefas incluídas no programa de exploração da Lua consiste na instalação do primeiro laboratório extraterrestre em seu solo, que seria assistido pelos cientistas e contaria com um conjunto de equipamentos para os fins de exploração da profundidade do Universo, minerais lunares, meteoritos, assim como para a elaboração dos protótipos das substâncias benéficas, gases e água.
Pela agenda do projeto, os primeiros seres humanos desembarcarão na Lua até o ano de 2030, seguidos pela construção da base lunar. A segunda etapa do programa será dedicada às viagens a asteroides e a Marte.
Segurança reforçada
O piloto espacial Serguêi Krikalev acredita que o governo russo possui todos os recursos necessários para realizar as suas iniciativas de exploração do espaço exterior. Mas, segundo ele, é necessário criar um sistema de campos-base ao redor da Lua e em sua superfície para garantir a segurança dos futuros astronautas.
“Creio que as autoridades acabarão lançando uma base circulante ao redor da Terra, de onde sairão voos extraterrestres”, sugere Krikalev, “mas não podemos deixar de lado os estudos do espaço nas órbitas de baixas altitudes, assim como precisamos criar uma base estratégica nesta área que, além de exercer a função do laboratório de pesquisa, serviria como complexo de lançamento e ensaios de navios destinados a percorrer longas distâncias, uma oficina montadora de novos veículos espaciais e um espaço de manutenção e ajustes dos satélites”.
Desse modo, as órbitas terrestres de baixa atitude exerceriam o papel de parada intermediária para a verificação de funcionamento dos equipamentos dos foguetes lançados da superfície terrestre, antes que possam continuar as suas viagens em total segurança.
Uma ‘pedra’ no espaço
Apesar dos planos ambiciosos, o setor espacial da Rússia deve enfrentar dificuldades no processo, tais como a falta dos equipamentos eletrônicos de alta qualidade. “Os aparelhos de retransmissão de bordo ou suas partes utilizadas nos satélites de comunicação nacionais vêm de outros países e, mesmo se produzidos no território russo, são feitos de componentes importados”, lamentou Rogózin.
Levando em consideração o presente cenário internacional, a Roscosmos foi autorizada pela Comissão de Indústria Militar a distribuir os pedidos de fabricação dos componentes eletrônicos básicos resistentes à radiação entre as empresas nacionais.
Rogózin ressaltou, contudo, que o cancelamento de projetos conjuntos russo-americanos pela Nasa (agência espacial norte-americana) oferece ao país um novo estímulo para elaboração da estratégia de desenvolvimento dos equipamentos espaciais tripulados, “sem depender de parceiros internacionais pouco confiáveis”.
Brics avançam na criação de FMI próprio
14/04/2014 Olga Samofálova, Vzgliad
Os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão fazendo progresso na criação de alternativas ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, cujo domínio está concentrado em estruturas dos Estados Unidos e da União Europeia. Em um futuro próximo, órgão atual não será mais o único capaz de fornecer assistência financeira internacional.
Tudo indica que um pool de reservas cambiais, substituto do FMI, e um Banco de Desenvolvimento dos Brics, como alternativa para o Banco Mundial, irão funcionar já em 2015, garantiu o embaixador para missões especiais do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Vadim Lukov, em coletiva de imprensa na semana passada.
“O Brasil já preparou o projeto do estatuto do Banco de Desenvolvimento, enquanto a Rússia está desenvolvendo o acordo intergovernamental sobre a criação do banco”, disse o diplomata.
Os países do Brics já chegaram a um acordo sobre o montante do capital das novas estruturas, que será de US$ 100 bilhões para cada uma. “Estamos atualmente negociando a distribuição do capital inicial de US$ 50 bilhões entre os parceiros e a localização da sede”, continuou o diplomata, acrescentando que todos os membros do grupo manifestaram interesse em sediar as instituições.
Sanções de Obama à Rússia podem abrir caminho para Brasil
Para compor o pool de reservas cambiais, a China entrará com US$ 41 bilhões, o Brasil, a Índia e a Rússia, com 18 bilhões cada, e a África do Sul, com US$ 5 bilhões. O volume das quantias entregues está correlacionado com o volume das economias nacionais.
O montante atual de recursos do FMI, que é determinado por regras especiais de empréstimos (SDR), gira em torno de US$ 369,52 bilhões. No entanto, fazem parte FMI 188 países que, a qualquer momento, podem necessitar de assistência financeira.
Banco político
Outra promessa dos Brics é a criação de um Banco de Desenvolvimento como alternativa ao Banco Mundial para financiar projetos que não são de interesse dos EUA nem da UE. O objetivo principal da instituição, porém, é fornecer financiamento de projetos externos ao grupo e ajudar países que necessitam de ajuda para desenvolvimento de suas estruturas.
“Imaginemos que seja do interesse do Brics conceder um empréstimo a um país africano para o seu programa de desenvolvimento de energia hidrelétrica, no âmbito do qual os países do grupo poderão fornecer o seu equipamento ou atuarem como executantes dos trabalhos”, explica o especialista do Grupo de Peritos Econômicos, Iliá Prilepski. “Se o empréstimo for concedido pelo FMI, o equipamento será fornecido pelos países ocidentais, que irão também controlar o seu funcionamento.”
A criação do Banco de Desenvolvimento ganha, assim, conotação política, pois permite aos países do Brics avançar com seus interesses no exterior. “Esta é uma jogada de certa forma política, que pode enfatizar o fortalecimento crescente dos países cuja opinião não é muitas vezes levada em conta pelos países desenvolvidos”, ressalta a diretora do departamento de análise do Golden Hill Capital, Natália Samoilov.
Proteção entre iguais
O pool de reservas cambiais dos países do Brics será uma proteção para o caso de surgirem problemas financeiros e déficit orçamentário em algum dos países-membros, como a recente queda brusca do rublo, por exemplo. A ajuda poderá ser obtida quando se verificar uma indesejada desvalorização abrupta da moeda nacional ou em caso de grande saída de capital devido ao abrandamento da política monetária da Reserva Federal dos EUA, que leva ao surgimento de problemas internos de crise no sistema bancário.
“A maior parte do FMI vai para o resgate do euro ou das moedas nacionais dos países desenvolvidos. Em caso de necessidade, e levando em conta que a gestão do FMI está nas mãos dos países ocidentais, a esperança de ajuda por parte desta organização é pouca”, destacou o embaixador russo.
O pool de reservas também ajudará os países do Brics a interagir gradualmente sem a mediação do dólar norte-americano, segundo Natália Samoilova, embora tenha sido decidido repor o capital social do Banco de Desenvolvimento e do pool das reservas de divisas dos países do Brics com a moeda americana. “Não podemos excluir que em um futuro muito próximo, tendo em conta as ameaças de sanções econômicas contra a Rússia por parte dos EUA e da UE, o dólar possa vir a ser substituído pelo rublo e por outras moedas nacionais dos membros do grupo”, diz a economista.
Publicado originalmente pelo Vzgliad
Os países do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão fazendo progresso na criação de alternativas ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial, cujo domínio está concentrado em estruturas dos Estados Unidos e da União Europeia. Em um futuro próximo, órgão atual não será mais o único capaz de fornecer assistência financeira internacional.
Tudo indica que um pool de reservas cambiais, substituto do FMI, e um Banco de Desenvolvimento dos Brics, como alternativa para o Banco Mundial, irão funcionar já em 2015, garantiu o embaixador para missões especiais do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Vadim Lukov, em coletiva de imprensa na semana passada.
“O Brasil já preparou o projeto do estatuto do Banco de Desenvolvimento, enquanto a Rússia está desenvolvendo o acordo intergovernamental sobre a criação do banco”, disse o diplomata.
Os países do Brics já chegaram a um acordo sobre o montante do capital das novas estruturas, que será de US$ 100 bilhões para cada uma. “Estamos atualmente negociando a distribuição do capital inicial de US$ 50 bilhões entre os parceiros e a localização da sede”, continuou o diplomata, acrescentando que todos os membros do grupo manifestaram interesse em sediar as instituições.
Sanções de Obama à Rússia podem abrir caminho para Brasil
Para compor o pool de reservas cambiais, a China entrará com US$ 41 bilhões, o Brasil, a Índia e a Rússia, com 18 bilhões cada, e a África do Sul, com US$ 5 bilhões. O volume das quantias entregues está correlacionado com o volume das economias nacionais.
O montante atual de recursos do FMI, que é determinado por regras especiais de empréstimos (SDR), gira em torno de US$ 369,52 bilhões. No entanto, fazem parte FMI 188 países que, a qualquer momento, podem necessitar de assistência financeira.
Banco político
Outra promessa dos Brics é a criação de um Banco de Desenvolvimento como alternativa ao Banco Mundial para financiar projetos que não são de interesse dos EUA nem da UE. O objetivo principal da instituição, porém, é fornecer financiamento de projetos externos ao grupo e ajudar países que necessitam de ajuda para desenvolvimento de suas estruturas.
“Imaginemos que seja do interesse do Brics conceder um empréstimo a um país africano para o seu programa de desenvolvimento de energia hidrelétrica, no âmbito do qual os países do grupo poderão fornecer o seu equipamento ou atuarem como executantes dos trabalhos”, explica o especialista do Grupo de Peritos Econômicos, Iliá Prilepski. “Se o empréstimo for concedido pelo FMI, o equipamento será fornecido pelos países ocidentais, que irão também controlar o seu funcionamento.”
A criação do Banco de Desenvolvimento ganha, assim, conotação política, pois permite aos países do Brics avançar com seus interesses no exterior. “Esta é uma jogada de certa forma política, que pode enfatizar o fortalecimento crescente dos países cuja opinião não é muitas vezes levada em conta pelos países desenvolvidos”, ressalta a diretora do departamento de análise do Golden Hill Capital, Natália Samoilov.
Proteção entre iguais
O pool de reservas cambiais dos países do Brics será uma proteção para o caso de surgirem problemas financeiros e déficit orçamentário em algum dos países-membros, como a recente queda brusca do rublo, por exemplo. A ajuda poderá ser obtida quando se verificar uma indesejada desvalorização abrupta da moeda nacional ou em caso de grande saída de capital devido ao abrandamento da política monetária da Reserva Federal dos EUA, que leva ao surgimento de problemas internos de crise no sistema bancário.
“A maior parte do FMI vai para o resgate do euro ou das moedas nacionais dos países desenvolvidos. Em caso de necessidade, e levando em conta que a gestão do FMI está nas mãos dos países ocidentais, a esperança de ajuda por parte desta organização é pouca”, destacou o embaixador russo.
O pool de reservas também ajudará os países do Brics a interagir gradualmente sem a mediação do dólar norte-americano, segundo Natália Samoilova, embora tenha sido decidido repor o capital social do Banco de Desenvolvimento e do pool das reservas de divisas dos países do Brics com a moeda americana. “Não podemos excluir que em um futuro muito próximo, tendo em conta as ameaças de sanções econômicas contra a Rússia por parte dos EUA e da UE, o dólar possa vir a ser substituído pelo rublo e por outras moedas nacionais dos membros do grupo”, diz a economista.
Publicado originalmente pelo Vzgliad
domingo, abril 13, 2014
Por que estamos vivendo uma segunda 'Belle Époque'
Nós não só voltamos aos níveis de desigualdade de renda do século XIX, como também estamos em um caminho de volta para o capitalismo patrimonial.
Thomas Piketty , professor da Escola de Economia de Paris, não é um nome familia, mas isso pode mudar com a publicação em língua inglesa de sua magnífica e arrebatadora reflexão sobre a desigualdade , “O Capital no Século XXI” . No entanto, sua influência é mais profunda. Tornou-se um lugar-comum dizer que estamos vivendo uma segunda Idade de Ouro, ou, como Piketty gosta de dizer, uma segunda Belle Époque definida pela incrível ascensão do "um por cento" da população. Mas isso só se tornou um lugar-comum graças ao trabalho de Piketty.
Em particular, ele e alguns colegas (especialmente Anthony Atkinson em Oxford e Emmanuel Saez , em Berkeley ) foram pioneiros de técnicas estatísticas que tornam possível rastrear a concentração de renda e riqueza em profundidade em direção ao passado, chegando ao início do século XX nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e refazendo todo o caminho até o final do século XVIII, no caso da França.
O resultado tem sido uma revolução na nossa compreensão das tendências de longo prazo na formação da desigualdade. Antes dessa revolução, a maioria das discussões sobre a disparidade econômica mais ou menos ignorava os muito ricos.
Alguns economistas (para não mencionar os políticos ), tentaram calar qualquer menção ao papel da desigualdade. "Das tendências que são prejudiciais para a economia me parece que o mais sedutor, e na minha opinião o mais venenoso , é se concentrar em questões de distribuição (de renda)", declarou Robert Lucas Jr. , da Universidade de Chicago, o macroeconomista mais influente de sua geração, em 2004. Mas, mesmo aqueles que estão dispostos a discutir a desigualdade, geralmente focam na lacuna entre os pobres ou a classe operária e os meramente bem de vida, não os verdadeiramente ricos (dedicam-se ao estudo comparativo dos ganhos de salário dos que tiveram acesso à universidade, em comparação aos trabalhadores menos instruídos, ou à riqueza de um quinto da população, em relação aos outros quatro quintos, mas não levam em consideração, o vertiginoso aumento dos rendimentos de executivos e banqueiros).
Foi como uma revelação quando Piketty e seus colegas mostraram que os rendimentos do agora famoso "um por cento ", e até mesmo de grupos mais restritos , são na verdade a grande história de aumento da desigualdade. E esta descoberta veio acompanhada de uma segunda revelação: o que poderia ser uma hipérbole, ao se falar de uma segunda Era Dourada, não o era absolutamente. Nos Estados Unidos, em particular, a parcela da renda nacional que vai para o topo do “um por cento” mais rico tem seguido um grande arco em forma de U. Antes da Primeira Guerra Mundial, o “um por cento” recebeu cerca de um quinto do total da renda na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Por volta de 1950, essa participação foi cortada pela metade. Mas, desde 1980, o um por cento tem visto sua parcela de renda aumentar de novo e, nos Estados Unidos, está de volta ao que era há um século.
Ainda assim, a elite econômica de hoje é muito diferente daquela do século XIX, não é? Naquela época, uma grande riqueza tendia a ser resultado de herança; as pessoas da elite econômica de hoje não conquistaram a sua posição? Bem, Piketty nos diz que isso não é tão verdadeiro como se pensa e que, em qualquer caso, este estado de coisas pode não ser mais duradouro do que a sociedade de classe média , que floresceu por uma geração após a Segunda Guerra Mundial. A grande ideia de “Capital no Século XXI” é que nós não apenas voltamos aos níveis de desigualdade de renda do século XIX, como também estamos em um caminho de volta para o "capitalismo patrimonial", onde os altos comandos da economia são controlados não por indivíduos talentosos, mas por dinastias familiares.
É uma notável afirmação e precisamente por ser tão notável , precisa ser examinada com cuidado e de forma crítica. Antes de entrar nesse debate ,porém, quero dizer desde logo que Piketty escreveu um livro verdadeiramente soberbo . É um trabalho que mescla grande varredura histórica - quando foi a última vez que você ouviu um economista invocar Jane Austen e Balzac ? - com análise de dados meticulosa. E mesmo que Piketty zombe da profissão de economista por sua "paixão infantil para a matemática", subjacente a sua discussão há um tour de force de modelagem econômica, uma abordagem que integra a análise do crescimento econômico com o da distribuição de renda e riqueza. Este é um livro que vai mudar muito a maneira como pensamos a sociedade e o modo como fazemos economia.
Tradução: Louise Antonia Leon
Thomas Piketty , professor da Escola de Economia de Paris, não é um nome familia, mas isso pode mudar com a publicação em língua inglesa de sua magnífica e arrebatadora reflexão sobre a desigualdade , “O Capital no Século XXI” . No entanto, sua influência é mais profunda. Tornou-se um lugar-comum dizer que estamos vivendo uma segunda Idade de Ouro, ou, como Piketty gosta de dizer, uma segunda Belle Époque definida pela incrível ascensão do "um por cento" da população. Mas isso só se tornou um lugar-comum graças ao trabalho de Piketty.
Em particular, ele e alguns colegas (especialmente Anthony Atkinson em Oxford e Emmanuel Saez , em Berkeley ) foram pioneiros de técnicas estatísticas que tornam possível rastrear a concentração de renda e riqueza em profundidade em direção ao passado, chegando ao início do século XX nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, e refazendo todo o caminho até o final do século XVIII, no caso da França.
O resultado tem sido uma revolução na nossa compreensão das tendências de longo prazo na formação da desigualdade. Antes dessa revolução, a maioria das discussões sobre a disparidade econômica mais ou menos ignorava os muito ricos.
Alguns economistas (para não mencionar os políticos ), tentaram calar qualquer menção ao papel da desigualdade. "Das tendências que são prejudiciais para a economia me parece que o mais sedutor, e na minha opinião o mais venenoso , é se concentrar em questões de distribuição (de renda)", declarou Robert Lucas Jr. , da Universidade de Chicago, o macroeconomista mais influente de sua geração, em 2004. Mas, mesmo aqueles que estão dispostos a discutir a desigualdade, geralmente focam na lacuna entre os pobres ou a classe operária e os meramente bem de vida, não os verdadeiramente ricos (dedicam-se ao estudo comparativo dos ganhos de salário dos que tiveram acesso à universidade, em comparação aos trabalhadores menos instruídos, ou à riqueza de um quinto da população, em relação aos outros quatro quintos, mas não levam em consideração, o vertiginoso aumento dos rendimentos de executivos e banqueiros).
Foi como uma revelação quando Piketty e seus colegas mostraram que os rendimentos do agora famoso "um por cento ", e até mesmo de grupos mais restritos , são na verdade a grande história de aumento da desigualdade. E esta descoberta veio acompanhada de uma segunda revelação: o que poderia ser uma hipérbole, ao se falar de uma segunda Era Dourada, não o era absolutamente. Nos Estados Unidos, em particular, a parcela da renda nacional que vai para o topo do “um por cento” mais rico tem seguido um grande arco em forma de U. Antes da Primeira Guerra Mundial, o “um por cento” recebeu cerca de um quinto do total da renda na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Por volta de 1950, essa participação foi cortada pela metade. Mas, desde 1980, o um por cento tem visto sua parcela de renda aumentar de novo e, nos Estados Unidos, está de volta ao que era há um século.
Ainda assim, a elite econômica de hoje é muito diferente daquela do século XIX, não é? Naquela época, uma grande riqueza tendia a ser resultado de herança; as pessoas da elite econômica de hoje não conquistaram a sua posição? Bem, Piketty nos diz que isso não é tão verdadeiro como se pensa e que, em qualquer caso, este estado de coisas pode não ser mais duradouro do que a sociedade de classe média , que floresceu por uma geração após a Segunda Guerra Mundial. A grande ideia de “Capital no Século XXI” é que nós não apenas voltamos aos níveis de desigualdade de renda do século XIX, como também estamos em um caminho de volta para o "capitalismo patrimonial", onde os altos comandos da economia são controlados não por indivíduos talentosos, mas por dinastias familiares.
É uma notável afirmação e precisamente por ser tão notável , precisa ser examinada com cuidado e de forma crítica. Antes de entrar nesse debate ,porém, quero dizer desde logo que Piketty escreveu um livro verdadeiramente soberbo . É um trabalho que mescla grande varredura histórica - quando foi a última vez que você ouviu um economista invocar Jane Austen e Balzac ? - com análise de dados meticulosa. E mesmo que Piketty zombe da profissão de economista por sua "paixão infantil para a matemática", subjacente a sua discussão há um tour de force de modelagem econômica, uma abordagem que integra a análise do crescimento econômico com o da distribuição de renda e riqueza. Este é um livro que vai mudar muito a maneira como pensamos a sociedade e o modo como fazemos economia.
Tradução: Louise Antonia Leon
Somos educados para o analfabetismo econômico
Carta Maior
Somos treinados a concordar com coisas que não fazem sentido. Por exemplo, pagamos um Mineirão dia, em juros da dívida, e achamos que a Copa é o problema.
Os barões ladrões que rebaixam o Brasil
A agência Standard & Poors, uma das que fazem classificação de risco de países e empresas, alterou a nota do Brasil para pior: de BBB para BBB-.
E se alguém acha que esse é um debate econômico, está redondamente enganado. A economia continua sendo um assunto importante demais para ficar restrito aos economistas.
A elevação ou o rebaixamento da nota de um país são entendidas, mundo afora, como um sinal do quanto um país é rentável e confiável.
Confiável segundo agências de classificação especializadas em dizer aos grandes financistas internacionais onde investir seu dinheiro para obter maiores lucros, com a garantia de que não tomarão um calote.
A Standard & Poors foi criada no século XIX, nos Estados Unidos, por Henry Varnum Poor, em plena época dos chamados barões ladrões.
Os grandes investidores que Henry Poor avaliava e recomendava ganhavam dinheiro com ferrovias, siderúrgicas e empresas de petróleo.
Uma parte significativa dos lucros desses magnatas vinha da apropriação de terras e outros ativos públicos e da arte de usar e roubar o dinheiro de pequenos investidores desavisados, que depositavam suas economias no nascente mercado de ações.
Esses barões ladrões do século XIX não eram tão diferentes dos mais recentes, que causaram a grande crise financeira de 2008 e 2009. Todos bem recomendados pela Standard & Poors.
A avaliação de risco do Brasil basicamente expressa o quanto o país continua sendo um dos paraísos mundiais do rentismo, a mágica de ganhar dinheiro com o trabalho dos outros. Quanto mais a política econômica de um país é ditada pelos interesses dos rentistas, melhor a nota.
Para não ser rebaixado pelas agências, um país precisa rebaixar sua política econômica. Tem que seguir uma receita orientada pelo objetivo de fazer crescer o volume de dinheiro movimentado pelas finanças, e não o de fazer crescer o país.
E ainda tem gente que acha que nosso grande problema é a Copa
Se o Brasil sofreu o rebaixamento de um único pontinho, “o que eu tenho a ver com isso?”, pode e deve perguntar o cidadão. Como diria o velho Brecht, tem a ver com o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio. Não deveria ter, mas tem.
Para dizer a verdade, esse rebaixamento tem a ver até com a Copa do Mundo de futebol, pois, enquanto tem gente preocupada, com razão, com o custo dos estádios, esqueceram-se do principal.
Para se ter uma ideia: o País vai gastar cerca de 8 bilhões em estádios. É, de fato, muito dinheiro. Mas o analfabetismo econômico ajuda todo mundo a se esquecer de fazer a conta que importa.
O Brasil gastou, em 2013, R$ 248 bilhões com o pagamento de juros, segundo o Banco Central. Pois bem, dividindo esse valor pelos 365 dias do ano, pagamos mais de R$ 679 milhões por dia.
Vamos comparar com a copa? Dá quase para construir um estádio do Mineirão por dia. Aliás, registre-se que o Mineirão só tem R$11 milhões de dinheiro público envolvido em seu financiamento. O restante será pago pela iniciativa privada. Dois dias de juros da dívida pagam mais de um Maracanã.
E ainda tem gente que acha que a copa é o absurdo dos absurdos do gasto em dinheiro público. É a prova cabal do quanto perdemos a noção das coisas.
Perdemos a noção de grandeza e a de proporção. Com isso, perdemos também o senso crítico em relação a esse buraco negro de nossas finanças públicas. Depois, perdemos o foco das prioridades.
Finalmente, erramos o alvo das manifestações. Tem gente malhando o Judas (a Copa, a Fifa) fingindo que está enfrentando o Império Romano. Se não for piada, é teatro.
Quem sabe, um dia, alguém se lembre de escrever a frase em um cartaz: “Cada 1% de aumento na taxa de juros custa R$20 bilhões aos brasileiros”. É uma mensagem mais consistente e valiosa do que “Não é só pelos 20 centavos”.
Vinte bilhões são duas vezes e meia, por ano, o que iremos investir em estádios, que serão pagos em 15 anos em empréstimos ao BNDES – ou seja, dinheiro que voltará aos cofres públicos.
O rebaixamento do debate econômico nos fez perder a noção das coisas
O verdadeiro rebaixamento que o país sofre não é de hoje e não é só o da Standard & Poors. O mais prejudicial de todos é o rebaixamento do debate sobre os rumos da economia do país.
O Brasil continua sendo um carro em que os mecânicos do mercado puxam o freio de mão e culpam o motorista pela dificuldade de acelerar o crescimento, melhorar a infraestrutura e a qualidade do serviço público.
A primeira mudança para uma tomada de consciência é superar a visão de que os juros são um problema só da macroeconomia e que sua conta é paga pelo governo. Não é.
O governo é apenas quem assina o cheque. Quando falamos “o Brasil”, muita gente ainda acha que estamos falando do governo. Perdemos, talvez na ditadura, e ainda não recuperamos a noção de que o Brasil são os brasileiros.
Quem confunde isso com nacionalismo barato e governismo acaba por reproduzir, às avessas, a velha maneira de pensar ensinada pela própria ditadura. Puro analfabetismo cívico.
Quem paga a conta cara dos juros altos são todos os que pagam impostos, principalmente os mais pobres, que, proporcionalmente, pagam mais impostos.
A luta para inverter prioridades precisa convencer milhões de brasileiros de que é preciso virar as finanças públicas de cabeça para baixo.
Hoje, a principal função do Estado brasileiro é pagar juros, os maiores do planeta. O Brasil é um dos três países que mais comprometem recursos públicos com o pagamento de juros, em proporção do PIB, conforme diz até o Fundo Monetário Internacional.
A educação, a saúde, a segurança pública e os investimentos em infraestrutura são pagos com o troco do que sobra do pagamento de juros.
Somos educados para o analfabetismo econômico
O problema que temos em mãos lembra o alerta feito por um professor de Matemática, com cara de cientista maluco, chamado John Allen Paulos, em seu livro “O analfabetismo em Matemática e suas consequências" (publicado originalmente em 1988).
O divertido livro de Paulos relembra casos famosos que denunciam a falta nem tanto de habilidade, mas de uso prático e corriqueiro até das operações matemáticas mais simples.
A principal denúncia de Paulos é ao quanto nos desacostumamos da operação mais essencial de todas, não exclusiva da Matémática: pensar sobre os problemas e raciocinar logicamente sobre eles.
Paulos nos avisa que isso é um perigo. Corremos riscos diários com essa nossa preguiça de pensar logicamente sobre os problemas e com a nossa incapacidade de extrair resultados práticos e numéricos dessas operações.
O que acho mais curioso nesse livro, e muito similar ao que acontece em nosso debate econômico, é que esse tipo de analfabetismo é ensinado diariamente.
É como se fôssemos educados para o analfabetismo. Somos treinados a esquecer a lógica dos argumentos e a concordar com coisas que não fazem o menor sentido.
Paulos usa, dentre tantos exemplos, o livro “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift (1667-1745). O matemático nos mostra como o autor de Gulliver, ao descrever um gigante em uma terra de pequeninos (Lilliput), lascou o livro de grandezas absurdas, que não fazem o menor sentido.
As histórias de Gulliver são de 1726. Para não parecer tão distante, Paulos escreveu, em 1995, “Como um Matemático lê os Jornais”, publicado no Brasil como “As Notícias e a Matemática” ou “Como um Matemático lê jornal”.
Acertou na mosca. A imprensa é useira e vezeira em nos deseducar a usar não só os números, mas a lógica. É assim também com as notícias cujo título é contraditado pelas próprias matérias, armadilha comum aos que leem jornal com o espírito crítico repimpado e babando no sofá.
Terrorismo fiscal, um atentado ao raciocínio lógico
A notícia sobre o rebaixamento da nota do Brasil foi uma farra nesse sentido de propagar o analfabetismo econômico.
A conclusão enfiada goela abaixo é a de que o País precisa aumentar seu rigor fiscal e seu controle sobre a inflação.
Ou seja, o Brasil precisaria urgentemente cortar gastos e continuar elevando sua taxa de juros. Como assim, se o nosso principal gasto extraordinário é com juros? Não faz sentido, faz? Depende pra quem.
A ideia brilhante para atender às agências de risco é cortar o que o governo faz para pagar mais juros. Faz todo o sentido – para o financismo, não para a maioria dos brasileiros.
Mal começou o ano, os problemas sazonais dos preços dos alimentos, que impactam também os alugueis, são traduzidos na conclusão disparatada e tão absurda quanto os números das “Viagens de Gulliver”.
A lógica é a seguinte: se choveu muito, ou se choveu pouco, a inflação de alimentos elevou-se. Solução: aumentem os juros. Elevando-se os juros, as pessoas vão comer menos alimentos e os agricultores assim plantarão mais alimentos. Com juros mais altos, choverá a quantidade certa, no lugar certo. Entendeu? Nem eu.
O preço do tomate disparou, então o remédio é aumentar os juros. A pessoa irá desistir de levar tomates quando pensar que a taxa Selic está mais alta. Quando a taxa Selic alcança dois dígitos, as pessoas trocam a macarronada a bolonhesa por lasanha ao molho branco.
Os alugueis subiram, então os juros precisam aumentar, pois, em Lilliput, a terra de quem pensa pequeno, quando os juros sobem, ao contrário do que ocorre em qualquer lugar do mundo, mais imóveis são construídos e os alugueis baixam.
Engraçado, pensávamos que seria o contrário; que, com juros mais baixos, mais pessoas poderiam comprar seus próprios imóveis e se livrar dos alugueis. Aumentaria a própria oferta de imóveis e os aluguéis cairiam. Difícil entender os lilliputianos.
Essa falta de parâmetros e de noção do debate econômico causa uma deficiência grave em nossas políticas públicas.
Figuras exemplares que alertam sobre isso, como fazem Paulo Kliass, Ladislaw Dowbor e Amir Khair aqui na Carta Maior, há muito tempo, falam de coisas sobre as quais deveríamos não só prestar mais atenção, mas usar em nosso dia a dia.
Os movimentos sociais precisam se lembrar de explicar essa lógica dos argumentos aos seus militantes.
Precisam fazer as contas de quantos trabalhadores do setor público poderiam ser contratados e pagos com esses valores estratosféricos e escatológicos pagos com juros.
Precisam mostrar para a opinião pública quanto custa o reajuste de salários de suas categorias e compará-los com o que se paga em juros aos banqueiros.
Quem sabe, uma boa ideia seria acampar no gramado em frente ao Banco Central toda vez que ocorre uma reunião do Copom. E por que não fazer pelo menos um dia de luto quando se decreta aumento na taxa de juros.
Imagine todo mundo com a fitinha preta no braço explicando quanto vai nos custar pagar 0,25 ou meio ponto percentual a mais na taxa Selic, e quanto deixará de ser aplicado em prioridades para o país.
Pode até não ajudar a pressionar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas, pelo menos, seria um sinal de quantas pessoas terão se livrado do analfabetismo econômico atroz que nos acomete.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
Somos treinados a concordar com coisas que não fazem sentido. Por exemplo, pagamos um Mineirão dia, em juros da dívida, e achamos que a Copa é o problema.
Os barões ladrões que rebaixam o Brasil
A agência Standard & Poors, uma das que fazem classificação de risco de países e empresas, alterou a nota do Brasil para pior: de BBB para BBB-.
E se alguém acha que esse é um debate econômico, está redondamente enganado. A economia continua sendo um assunto importante demais para ficar restrito aos economistas.
A elevação ou o rebaixamento da nota de um país são entendidas, mundo afora, como um sinal do quanto um país é rentável e confiável.
Confiável segundo agências de classificação especializadas em dizer aos grandes financistas internacionais onde investir seu dinheiro para obter maiores lucros, com a garantia de que não tomarão um calote.
A Standard & Poors foi criada no século XIX, nos Estados Unidos, por Henry Varnum Poor, em plena época dos chamados barões ladrões.
Os grandes investidores que Henry Poor avaliava e recomendava ganhavam dinheiro com ferrovias, siderúrgicas e empresas de petróleo.
Uma parte significativa dos lucros desses magnatas vinha da apropriação de terras e outros ativos públicos e da arte de usar e roubar o dinheiro de pequenos investidores desavisados, que depositavam suas economias no nascente mercado de ações.
Esses barões ladrões do século XIX não eram tão diferentes dos mais recentes, que causaram a grande crise financeira de 2008 e 2009. Todos bem recomendados pela Standard & Poors.
A avaliação de risco do Brasil basicamente expressa o quanto o país continua sendo um dos paraísos mundiais do rentismo, a mágica de ganhar dinheiro com o trabalho dos outros. Quanto mais a política econômica de um país é ditada pelos interesses dos rentistas, melhor a nota.
Para não ser rebaixado pelas agências, um país precisa rebaixar sua política econômica. Tem que seguir uma receita orientada pelo objetivo de fazer crescer o volume de dinheiro movimentado pelas finanças, e não o de fazer crescer o país.
E ainda tem gente que acha que nosso grande problema é a Copa
Se o Brasil sofreu o rebaixamento de um único pontinho, “o que eu tenho a ver com isso?”, pode e deve perguntar o cidadão. Como diria o velho Brecht, tem a ver com o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio. Não deveria ter, mas tem.
Para dizer a verdade, esse rebaixamento tem a ver até com a Copa do Mundo de futebol, pois, enquanto tem gente preocupada, com razão, com o custo dos estádios, esqueceram-se do principal.
Para se ter uma ideia: o País vai gastar cerca de 8 bilhões em estádios. É, de fato, muito dinheiro. Mas o analfabetismo econômico ajuda todo mundo a se esquecer de fazer a conta que importa.
O Brasil gastou, em 2013, R$ 248 bilhões com o pagamento de juros, segundo o Banco Central. Pois bem, dividindo esse valor pelos 365 dias do ano, pagamos mais de R$ 679 milhões por dia.
Vamos comparar com a copa? Dá quase para construir um estádio do Mineirão por dia. Aliás, registre-se que o Mineirão só tem R$11 milhões de dinheiro público envolvido em seu financiamento. O restante será pago pela iniciativa privada. Dois dias de juros da dívida pagam mais de um Maracanã.
E ainda tem gente que acha que a copa é o absurdo dos absurdos do gasto em dinheiro público. É a prova cabal do quanto perdemos a noção das coisas.
Perdemos a noção de grandeza e a de proporção. Com isso, perdemos também o senso crítico em relação a esse buraco negro de nossas finanças públicas. Depois, perdemos o foco das prioridades.
Finalmente, erramos o alvo das manifestações. Tem gente malhando o Judas (a Copa, a Fifa) fingindo que está enfrentando o Império Romano. Se não for piada, é teatro.
Quem sabe, um dia, alguém se lembre de escrever a frase em um cartaz: “Cada 1% de aumento na taxa de juros custa R$20 bilhões aos brasileiros”. É uma mensagem mais consistente e valiosa do que “Não é só pelos 20 centavos”.
Vinte bilhões são duas vezes e meia, por ano, o que iremos investir em estádios, que serão pagos em 15 anos em empréstimos ao BNDES – ou seja, dinheiro que voltará aos cofres públicos.
O rebaixamento do debate econômico nos fez perder a noção das coisas
O verdadeiro rebaixamento que o país sofre não é de hoje e não é só o da Standard & Poors. O mais prejudicial de todos é o rebaixamento do debate sobre os rumos da economia do país.
O Brasil continua sendo um carro em que os mecânicos do mercado puxam o freio de mão e culpam o motorista pela dificuldade de acelerar o crescimento, melhorar a infraestrutura e a qualidade do serviço público.
A primeira mudança para uma tomada de consciência é superar a visão de que os juros são um problema só da macroeconomia e que sua conta é paga pelo governo. Não é.
O governo é apenas quem assina o cheque. Quando falamos “o Brasil”, muita gente ainda acha que estamos falando do governo. Perdemos, talvez na ditadura, e ainda não recuperamos a noção de que o Brasil são os brasileiros.
Quem confunde isso com nacionalismo barato e governismo acaba por reproduzir, às avessas, a velha maneira de pensar ensinada pela própria ditadura. Puro analfabetismo cívico.
Quem paga a conta cara dos juros altos são todos os que pagam impostos, principalmente os mais pobres, que, proporcionalmente, pagam mais impostos.
A luta para inverter prioridades precisa convencer milhões de brasileiros de que é preciso virar as finanças públicas de cabeça para baixo.
Hoje, a principal função do Estado brasileiro é pagar juros, os maiores do planeta. O Brasil é um dos três países que mais comprometem recursos públicos com o pagamento de juros, em proporção do PIB, conforme diz até o Fundo Monetário Internacional.
A educação, a saúde, a segurança pública e os investimentos em infraestrutura são pagos com o troco do que sobra do pagamento de juros.
Somos educados para o analfabetismo econômico
O problema que temos em mãos lembra o alerta feito por um professor de Matemática, com cara de cientista maluco, chamado John Allen Paulos, em seu livro “O analfabetismo em Matemática e suas consequências" (publicado originalmente em 1988).
O divertido livro de Paulos relembra casos famosos que denunciam a falta nem tanto de habilidade, mas de uso prático e corriqueiro até das operações matemáticas mais simples.
A principal denúncia de Paulos é ao quanto nos desacostumamos da operação mais essencial de todas, não exclusiva da Matémática: pensar sobre os problemas e raciocinar logicamente sobre eles.
Paulos nos avisa que isso é um perigo. Corremos riscos diários com essa nossa preguiça de pensar logicamente sobre os problemas e com a nossa incapacidade de extrair resultados práticos e numéricos dessas operações.
O que acho mais curioso nesse livro, e muito similar ao que acontece em nosso debate econômico, é que esse tipo de analfabetismo é ensinado diariamente.
É como se fôssemos educados para o analfabetismo. Somos treinados a esquecer a lógica dos argumentos e a concordar com coisas que não fazem o menor sentido.
Paulos usa, dentre tantos exemplos, o livro “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift (1667-1745). O matemático nos mostra como o autor de Gulliver, ao descrever um gigante em uma terra de pequeninos (Lilliput), lascou o livro de grandezas absurdas, que não fazem o menor sentido.
As histórias de Gulliver são de 1726. Para não parecer tão distante, Paulos escreveu, em 1995, “Como um Matemático lê os Jornais”, publicado no Brasil como “As Notícias e a Matemática” ou “Como um Matemático lê jornal”.
Acertou na mosca. A imprensa é useira e vezeira em nos deseducar a usar não só os números, mas a lógica. É assim também com as notícias cujo título é contraditado pelas próprias matérias, armadilha comum aos que leem jornal com o espírito crítico repimpado e babando no sofá.
Terrorismo fiscal, um atentado ao raciocínio lógico
A notícia sobre o rebaixamento da nota do Brasil foi uma farra nesse sentido de propagar o analfabetismo econômico.
A conclusão enfiada goela abaixo é a de que o País precisa aumentar seu rigor fiscal e seu controle sobre a inflação.
Ou seja, o Brasil precisaria urgentemente cortar gastos e continuar elevando sua taxa de juros. Como assim, se o nosso principal gasto extraordinário é com juros? Não faz sentido, faz? Depende pra quem.
A ideia brilhante para atender às agências de risco é cortar o que o governo faz para pagar mais juros. Faz todo o sentido – para o financismo, não para a maioria dos brasileiros.
Mal começou o ano, os problemas sazonais dos preços dos alimentos, que impactam também os alugueis, são traduzidos na conclusão disparatada e tão absurda quanto os números das “Viagens de Gulliver”.
A lógica é a seguinte: se choveu muito, ou se choveu pouco, a inflação de alimentos elevou-se. Solução: aumentem os juros. Elevando-se os juros, as pessoas vão comer menos alimentos e os agricultores assim plantarão mais alimentos. Com juros mais altos, choverá a quantidade certa, no lugar certo. Entendeu? Nem eu.
O preço do tomate disparou, então o remédio é aumentar os juros. A pessoa irá desistir de levar tomates quando pensar que a taxa Selic está mais alta. Quando a taxa Selic alcança dois dígitos, as pessoas trocam a macarronada a bolonhesa por lasanha ao molho branco.
Os alugueis subiram, então os juros precisam aumentar, pois, em Lilliput, a terra de quem pensa pequeno, quando os juros sobem, ao contrário do que ocorre em qualquer lugar do mundo, mais imóveis são construídos e os alugueis baixam.
Engraçado, pensávamos que seria o contrário; que, com juros mais baixos, mais pessoas poderiam comprar seus próprios imóveis e se livrar dos alugueis. Aumentaria a própria oferta de imóveis e os aluguéis cairiam. Difícil entender os lilliputianos.
Essa falta de parâmetros e de noção do debate econômico causa uma deficiência grave em nossas políticas públicas.
Figuras exemplares que alertam sobre isso, como fazem Paulo Kliass, Ladislaw Dowbor e Amir Khair aqui na Carta Maior, há muito tempo, falam de coisas sobre as quais deveríamos não só prestar mais atenção, mas usar em nosso dia a dia.
Os movimentos sociais precisam se lembrar de explicar essa lógica dos argumentos aos seus militantes.
Precisam fazer as contas de quantos trabalhadores do setor público poderiam ser contratados e pagos com esses valores estratosféricos e escatológicos pagos com juros.
Precisam mostrar para a opinião pública quanto custa o reajuste de salários de suas categorias e compará-los com o que se paga em juros aos banqueiros.
Quem sabe, uma boa ideia seria acampar no gramado em frente ao Banco Central toda vez que ocorre uma reunião do Copom. E por que não fazer pelo menos um dia de luto quando se decreta aumento na taxa de juros.
Imagine todo mundo com a fitinha preta no braço explicando quanto vai nos custar pagar 0,25 ou meio ponto percentual a mais na taxa Selic, e quanto deixará de ser aplicado em prioridades para o país.
Pode até não ajudar a pressionar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas, pelo menos, seria um sinal de quantas pessoas terão se livrado do analfabetismo econômico atroz que nos acomete.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
sexta-feira, abril 11, 2014
Como diria Lula: onde está o blog da Petrobras?
Na entrevista que deu aos blogueiros, o ex-presidente Lula, quando falou da campanha da oposição contra a Petrobras perguntou: onde está o blog da Petrobras?
Boa pergunta.
O silêncio da companhia nada tem a ver com ser “republicano”, como tanto gostam de dizer os que cultivam a ideia de “neutralidade”.
É, ao contrário, um dever da companhia esclarecer os seus atos.
Está certo que o caso da compra da refinaria de Pasadena está sendo objeto de uma apuração interna e, por isso, a companhia seja “econômica” no que diz sobre o assunto.
Mas a Petrobras ficou “boa de bater”, porque não dá um pio.
As “denúncias” se sucedem e – embora durem apenas uma edição de jornal, por não se sustentarem minimamente – vão criando um clima público que, apesar de não corresponder ao profissionalismo da empresa, afeta sua imagem e os seus negócios.
E, afetando essa imagem, afeta uma posição do Estado brasileiro, que a ela delegou a coordenação de nossa maior riqueza: o pré-sal.
As empresas privadas, inclusive as que têm negócios com a Petrobras, se aproveitam disso e põem as manguinhas de fora.
Ontem, os dirigentes da Total e da Shell, parceiras da Petrobras em Libra, já começaram com a historinha de que o fato de ser a Petrobras ser a operadora exclusiva do campo “vai atrasar” sua exploração.
Claro, estão de olho em controlar as torneirinhas dos poços, coisa que o modelo de partilha adotado por Lula não lhes permite – e faz muito bem em não permitir – e começaram a criticar o conteúdo nacional obrigatório, sugerindo que seja trocado por “investimentos na cadeia produtiva do petróleo”.
Os distintos amigos conhecem, só como exemplo, algum navio que tenha sido encomendado no Brasil pela Total ou pela Shell?
Ninguém duvida da honradez e da capacidade de gestão da presidenta da Petrobras. Ou melhor, ninguém entre os que defendem a Petrobras, porque sua própria imagem é tisnada pela campanha que sofre a empresa, embora alguns ainda procurem lhe tentar com o canto da sereia de que ela pode “flexibilizar” o controle nacional sobre o petróleo.
Sem pretender ensinar exploração petróleo a Graça Foster, permitam-me ensinar-lhe uma regra de comunicação: tudo o que se aforma nos meios de comunicação é tomado como verdadeiro, a não ser em duas situações.
A primeira é quando o receptor da mensagem, por sua experiência pessoal, sabe que os fatos não podem se passar da maneira que foram descritos.
Mas isso só ocorre com uma pequena minoria que, por alguma razão, convive com a empresa e sabe de seu nível de rigidez e controles.
A segunda é quando a mensagem é prontamente rebatida.
O que é dito hoje não pode ser respondido daqui a 200 ou 30 dias, quando ela ou outro dirigente da Petrobras forem ao Congresso, ou ao Tribunal de Contas, ou a qualquer outro fórum institucional de prestação de esclarecimentos.
Tem de ser respondidos imediata, clara, enérgica e afirmativamente.
Como fazia, lembrou Lula, o Fatos e Dados, blog da Petrobras que provocou a fúria da grande imprensa quando lhe quebrou o monopólio da “verdade”.
Lula, quando precisou falar, falou a quem queria ouvi-lo e a grande mídia, querendo ou não, teve de publicar o que disse, sem muita manipulação, porque havia uma entrevista inteira, mostrada a todos e disponível para ser confrontada às versões que sobre ela quisessem publicar.
Negar isso é negar a própria essência da democracia, porque é negar o contraditório.
É esse contraditório que ele pediu, ao perguntar onde estava o blog da Petrobras.
Que, infelizmente, ninguém sabe, ninguém viu.
Boa pergunta.
O silêncio da companhia nada tem a ver com ser “republicano”, como tanto gostam de dizer os que cultivam a ideia de “neutralidade”.
É, ao contrário, um dever da companhia esclarecer os seus atos.
Está certo que o caso da compra da refinaria de Pasadena está sendo objeto de uma apuração interna e, por isso, a companhia seja “econômica” no que diz sobre o assunto.
Mas a Petrobras ficou “boa de bater”, porque não dá um pio.
As “denúncias” se sucedem e – embora durem apenas uma edição de jornal, por não se sustentarem minimamente – vão criando um clima público que, apesar de não corresponder ao profissionalismo da empresa, afeta sua imagem e os seus negócios.
E, afetando essa imagem, afeta uma posição do Estado brasileiro, que a ela delegou a coordenação de nossa maior riqueza: o pré-sal.
As empresas privadas, inclusive as que têm negócios com a Petrobras, se aproveitam disso e põem as manguinhas de fora.
Ontem, os dirigentes da Total e da Shell, parceiras da Petrobras em Libra, já começaram com a historinha de que o fato de ser a Petrobras ser a operadora exclusiva do campo “vai atrasar” sua exploração.
Claro, estão de olho em controlar as torneirinhas dos poços, coisa que o modelo de partilha adotado por Lula não lhes permite – e faz muito bem em não permitir – e começaram a criticar o conteúdo nacional obrigatório, sugerindo que seja trocado por “investimentos na cadeia produtiva do petróleo”.
Os distintos amigos conhecem, só como exemplo, algum navio que tenha sido encomendado no Brasil pela Total ou pela Shell?
Ninguém duvida da honradez e da capacidade de gestão da presidenta da Petrobras. Ou melhor, ninguém entre os que defendem a Petrobras, porque sua própria imagem é tisnada pela campanha que sofre a empresa, embora alguns ainda procurem lhe tentar com o canto da sereia de que ela pode “flexibilizar” o controle nacional sobre o petróleo.
Sem pretender ensinar exploração petróleo a Graça Foster, permitam-me ensinar-lhe uma regra de comunicação: tudo o que se aforma nos meios de comunicação é tomado como verdadeiro, a não ser em duas situações.
A primeira é quando o receptor da mensagem, por sua experiência pessoal, sabe que os fatos não podem se passar da maneira que foram descritos.
Mas isso só ocorre com uma pequena minoria que, por alguma razão, convive com a empresa e sabe de seu nível de rigidez e controles.
A segunda é quando a mensagem é prontamente rebatida.
O que é dito hoje não pode ser respondido daqui a 200 ou 30 dias, quando ela ou outro dirigente da Petrobras forem ao Congresso, ou ao Tribunal de Contas, ou a qualquer outro fórum institucional de prestação de esclarecimentos.
Tem de ser respondidos imediata, clara, enérgica e afirmativamente.
Como fazia, lembrou Lula, o Fatos e Dados, blog da Petrobras que provocou a fúria da grande imprensa quando lhe quebrou o monopólio da “verdade”.
Lula, quando precisou falar, falou a quem queria ouvi-lo e a grande mídia, querendo ou não, teve de publicar o que disse, sem muita manipulação, porque havia uma entrevista inteira, mostrada a todos e disponível para ser confrontada às versões que sobre ela quisessem publicar.
Negar isso é negar a própria essência da democracia, porque é negar o contraditório.
É esse contraditório que ele pediu, ao perguntar onde estava o blog da Petrobras.
Que, infelizmente, ninguém sabe, ninguém viu.
Era uma vez uma CPI
A tentativa oposicionista de restringir o assunto da CPI a Pasadena foi fruto de um acerto para fazer um cordão sanitário em torno de Eduardo Campos.
Quem tem medo de uma CPI ampla?
Era uma vez uma CPI proposta para "identificar responsabilidades no setor da administração pública em decorrência de qualquer tipo de corrupção". Alguém contra?
A oposição é contra. O PSDB e seus coadjuvantes: o PSB, o PSOL e a intrépida trupe de senadores que são oposição em partidos que são governo, como Cristovam Buarque e Pedro Taques, do PDT; Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, do PMDB. Eles querem uma CPI minimalista, para não dizer míope, para investigar apenas a compra de uma refinaria em Pasadena, pela Petrobras.
Segundo a suspeita oposicionista, a refinaria fica do outro lado da rua que atravessa a Praça dos Três Poderes. Dá para ir a pé, do Senado. Pasadena fica, pelo que imaginam, no 3º. andar do Palácio do Planalto.
Essa não é a primeira CPI da Corrupção. Em 1988, o então senador senador Fernando Henrique Cardoso e a maioria dos parlamentares peemedebistas que, um ano depois, formariam o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), apoiaram o requerimento de criação de uma CPI que tinha como objetivo identificar responsabilidades “na administração pública” e em decorrência “de qualquer tipo de corrupção".
Era, portanto, uma CPI ampla, geral e irrestrita. FHC manifestou-se favoravelmente a que o poder de fiscalização do Congresso fosse exercido “em toda a sua plenitude".
A “CPI da Corrupção” investigou, de tudo, um pouco. De liberação de verbas para prefeituras à gestão de Jader Barbalho no Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (Mirad). Depois, fez-se um desvio de rota e a CPI passou a olhar contratos com empreiteiras - sempre elas - com suspeita de superfaturamento, a construção de um aeroporto na cidade natal de Sarney, entre outras coisas.
Anos depois, em 2001, eis que aparece outra proposta de “CPI da Corrupção”. Dessa vez, o PSDB é governo, e FHC, o presidente. O PT encabeçava a iniciativa e mirava desde as denúncias de compra de votos da emenda da reeleição; o caixa 2 em campanhas eleitorais (o ministro de FHC, Andrea Matarazzo, é citado); o tráfico de influência na Presidência da República; a privatização de uma empresa pública de telefonia; as verbas do antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER); os desvios no Banpará (de novo, aparece o nome de Jader Barbalho) etc, etc, etc.
FHC, dessa vez, posicionou-se terminantemente contra a CPI. Seu ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, acusou o PT de ser “neo-udenista”, o que, como se sabe, significa dizer que alguém usa e abusa do discurso do combate à corrupção com a intenção golpista de derrubar o governo. A “cruzada ética redentora” acabaria por solapar as próprias bases da democracia no país, acusava Aloysio Nunes.
Os tucanos acabaram conseguindo impedir a instalação daquela CPI. Diziam que a mesma era desnecessária, pois o governo já investigava as denúncias. Parece que é o mesmo “script” de hoje, mas não é. As diferenças são muitas. A começar que a base governista criou sua própria CPI.
Além disso, à época de FHC, a Procuradoria-Geral da República era chefiada por um procurador que ganharia o irônico apelido de “Engavetador-Geral da Nação”. Sequer havia a Controladoria-Geral da União.
A Polícia Federal tinha, como seu Diretor-Geral, um filiado ao PSDB. Ele seria figura chave no desmonte da candidatura de Roseana Sarney, então do PFL, principal rival, no campo governista, da candidatura de José Serra à Presidência da República.
O jogo de comadres que uniu PSDB e PSB
Hoje, estamos diante da possibilidade de mais uma CPI da Corrupção. O governo Dilma chamou tucanos e eduardistas para dançar.
A estratégia visa, claramente, se contrapor à tentativa da oposição em torno de uma CPI exclusivamente da Petrobras e que teria como alvo direto não Pasadena, mas o Palácio do Planalto. Pasadena é pretexto.
Ao criar uma CPI para chamar de sua, os governistas diluíram o foco da oposição. O governo percebeu o “jogo de comadres” entre PSDB e PSB. A tentativa oposicionista de restringir o assunto da CPI a Pasadena foi fruto de um acerto para fazer um cordão sanitário em torno de Eduardo Campos. Em troca, o PSB, depois de titubear em apoiar a CPI, acabou tornando-se um de seus mais enfáticos defensores.
Pelo acordo dos oposicionistas, Eduardo Campos seria poupado do risco de ser envolvido nas acusações contra a Refinaria “Abreu e Lima”, em Pernambuco. É impossível falar na refinaria sem que o assunto respingue em Eduardo Campos. Não só porque ele era, até semana passada, governador daquele estado.
A “Abreu e Lima” sempre foi propagandeada por Campos como uma vitória pessoal sua. O plano era levar a refinaria para Pernambuco, trazer empresas estrangeiras para ali fazerem grandes investimentos, relacionar o empreendimento ao porto de Suape e montar um grande complexo petrolífero que reposicionaria a economia do estado.
Em meio a tanta grandiloquência do discurso da grande política, havia a pequena política dos grandes negócios. A oposição tucana a Campos, em Pernambuco, sempre o acusou de usar Suape e “Abreu e Lima” para se promover.
Pior, o PSDB de Pernambuco levantava suspeitas de que Campos estivesse associando a obra a seu financiamento de campanha. Criticavam Campos por ter feito inúmeras viagens à Holanda para discutir negócios que interessavam a empreiteiras e outros grupos empresariais de seu estado. Grupos que, coincidentemente, depois aportariam recursos para a sua campanha.
Depois do acordo PSDB-PSB em favor da CPI sobre Pasadena,curiosamente, o assunto da refinaria “Abreu e Lima” deixou de sair da boca dos tucanos e, como num passe de mágica, sumiu momentaneamente do noticiário. Todo o esforço seria concentrado só na compra da refinaria de Pasadena.
O jogo bruto da política come solto, apimentado pelo calendário eleitoral e animado por capítulos de um novelão que vai longe. O próximo capítulo é a decisão do STF sobre quem tem razão: quem pede uma CPI ampla, ou quem quer restringí-la.
Repleta de expectativas, com uma fila de vilões, promessas de reviravoltas surpreendentes e clima de suspense, a guerra de CPIs deixa no ar uma questão: para que servem e para onde vão as CPIs?
As CPIs de hoje e seus fantasmas
Essa deve ser a terceira CPI da Corrupção - ampla, geral e irrestrita. Ela se instala sob a sombra de vários fantasmas: a CPI dos Correios (que resultou no escândalo do “mensalão”), a CPI do “Fim do Mundo”, a CPI do Banestado, a CPI do Cachoeira.
Lula, na entrevista aos blogueiros (8/4), chamou para a briga. Conclamou os petistas a defenderem Dilma. Mandou os deputados e senadores serem mais aguerridos. Lembrou que não se pode cometer os mesmos erros que levaram o PT a abaixar a cabeça no “mensalão”. "Se você baixa a cabeça, eles colocam uma canga em cima".
A CPI do “Fim do Mundo” começou como CPI “dos Bingos”, feita para investigar o bicheiro Carlos Cachoeria - ele depois daria mote a uma outra, a CPI “do Cachoeira”. Cachoeira agora disputa, com Jader Barbalho e Matarazzo, o posto de quem mais provocou CPIs no Congresso.
Aqueles que acham que nascemos ontem, que hoje pedem CPIs restritas e bem definidas e pensam que não nos lembramos do que eles fizeram no verão passado, usaram aquela CPI “dos Bingos” para pular dos assuntos de Cachoeira para o “mensalão”; para os casos de assassinato dos prefeitos petistas Toninho do PT, de Campinas, e Celso Daniel, de Santo André; para os contratos de coleta de lixo em Ribeirão Preto; para as empresas GTech; para a Caixa Econômica Federal; para o boato reproduzido pela revista Veja de que dólares “cubanos” teriam vindo em caixas de bebida para abastecer a campanha de 2002; e até para a “máfia do apito” do Campeonato Brasileiro de Futebol.
CPIs de políticos x CPIs de políticas
Dois tipos de CPIs hoje tomam conta do Congresso: as que investigam políticos e as que investigam políticas. As primeiras estão em franca decadência. As segundas sempre viveram sob o risco de serem condenadas à irrelevância.
As CPIs que investigam políticos, mesmo as que incidem sobre membros do Congresso, acabam tendo seus resultados dependentes mais dos procedimentos das comissões de ética e das decisões do plenário do que propriamente das investigações. Com a instituição do voto aberto, a pressão em favor das renúncias se tornou ainda maior, e o peso dessas CPIs, cada vez menor.
As CPIs que investigam governos normalmente chovem no molhado. Todas as denúncias e revelações com as quais trabalham já foram feitas pelos órgãos de fiscalização e controle, pela Polícia Federal ou por tribunais. Ninguém mais troca uma delação premiada por um depoimento em CPI.
Raros são os depoentes que vão às CPIs sem um prévio “habeas corpus” que lhes garanta o direito de permanecer calados e a satisfação de fazerem os parlamentares perderem seu tempo à toa, ouvindo a mesma resposta: “reservo-me o direito de permanecer calado…”.
O desgaste das CPIs feitas para animar eleições, que fazem muito barulho por nada, tende ajudar que as CPIs de políticas públicas prevaleçam. Mas, para isso, a relação entre os governos e os legislativos precisaria mudar.
Por enquanto, o descompromisso da maioria dos governos com CPIs propositivas são um tiro no pé. Fazem parecer que CPI pra valer tem que ter dedo na cara, berros e algemas.
A maioria das pessoas ainda associa o sucesso de uma CPI à derrubada de um ministro, à cassação de um parlamentar, à prisão de um malfeitor ou de quem quer que seja.
A última CPI que conseguiu prender alguém foi a da pedofilia. Mesmo assim, porque um depoimento estava sendo acompanhado ao vivo por uma autoridade judiciária que, assim que o depoente proferiu sua última frase, já tinha uma ordem de prisão aguardando sua saída do recinto.
As CPIs, ao contrário, deveriam ter como principal resultado a criação de novas leis e a avaliação de políticas e programas, com a recomendação de mudanças e de maior controle pelo próprio legislativo. O resto é pose para fotografia. Se esvai após os flashes.
Dos governos, se esperaria que eles pegassem carona, no melhor sentido, no trabalho das CPIs para apoiar iniciativas legislativas e modificar sua conduta.
A CPI do Sistema Carcerário, criada em 2007, fez o mais profundo diagnóstico da crise permanente que ainda abala essa área. Dos 12 projetos de lei apresentados, nenhum chegou a ser aprovado. A principal proposta, o Estatuto Penitenciário Nacional, demonstra bem a disposição dos parlamentares de se debruçarem sobre o tema: a comissão especial para analisar o projeto sequer chegou a ser criada.
Essa CPI voltou a ser lembrada com a crise no Maranhão, no início deste ano, dramatizada pelas cenas tétricas de degola na Penitenciária de Pedrinhas. O relator daquela CPI, por coincidência, era um deputado maranhense, o combativo Domingos Dutra.
Dutra chamou o episódio de Pedrinhas de uma “tragédia anunciada”. A expressão nos dá um bom contraste para confrontar quem acha que o principal problema das CPIs ainda é quando elas acabam em pizza. É muito pior quando elas acabam em tragédias, com sangue no lugar do molho de tomate.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
Quem tem medo de uma CPI ampla?
Era uma vez uma CPI proposta para "identificar responsabilidades no setor da administração pública em decorrência de qualquer tipo de corrupção". Alguém contra?
A oposição é contra. O PSDB e seus coadjuvantes: o PSB, o PSOL e a intrépida trupe de senadores que são oposição em partidos que são governo, como Cristovam Buarque e Pedro Taques, do PDT; Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, do PMDB. Eles querem uma CPI minimalista, para não dizer míope, para investigar apenas a compra de uma refinaria em Pasadena, pela Petrobras.
Segundo a suspeita oposicionista, a refinaria fica do outro lado da rua que atravessa a Praça dos Três Poderes. Dá para ir a pé, do Senado. Pasadena fica, pelo que imaginam, no 3º. andar do Palácio do Planalto.
Essa não é a primeira CPI da Corrupção. Em 1988, o então senador senador Fernando Henrique Cardoso e a maioria dos parlamentares peemedebistas que, um ano depois, formariam o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), apoiaram o requerimento de criação de uma CPI que tinha como objetivo identificar responsabilidades “na administração pública” e em decorrência “de qualquer tipo de corrupção".
Era, portanto, uma CPI ampla, geral e irrestrita. FHC manifestou-se favoravelmente a que o poder de fiscalização do Congresso fosse exercido “em toda a sua plenitude".
A “CPI da Corrupção” investigou, de tudo, um pouco. De liberação de verbas para prefeituras à gestão de Jader Barbalho no Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (Mirad). Depois, fez-se um desvio de rota e a CPI passou a olhar contratos com empreiteiras - sempre elas - com suspeita de superfaturamento, a construção de um aeroporto na cidade natal de Sarney, entre outras coisas.
Anos depois, em 2001, eis que aparece outra proposta de “CPI da Corrupção”. Dessa vez, o PSDB é governo, e FHC, o presidente. O PT encabeçava a iniciativa e mirava desde as denúncias de compra de votos da emenda da reeleição; o caixa 2 em campanhas eleitorais (o ministro de FHC, Andrea Matarazzo, é citado); o tráfico de influência na Presidência da República; a privatização de uma empresa pública de telefonia; as verbas do antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER); os desvios no Banpará (de novo, aparece o nome de Jader Barbalho) etc, etc, etc.
FHC, dessa vez, posicionou-se terminantemente contra a CPI. Seu ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira, acusou o PT de ser “neo-udenista”, o que, como se sabe, significa dizer que alguém usa e abusa do discurso do combate à corrupção com a intenção golpista de derrubar o governo. A “cruzada ética redentora” acabaria por solapar as próprias bases da democracia no país, acusava Aloysio Nunes.
Os tucanos acabaram conseguindo impedir a instalação daquela CPI. Diziam que a mesma era desnecessária, pois o governo já investigava as denúncias. Parece que é o mesmo “script” de hoje, mas não é. As diferenças são muitas. A começar que a base governista criou sua própria CPI.
Além disso, à época de FHC, a Procuradoria-Geral da República era chefiada por um procurador que ganharia o irônico apelido de “Engavetador-Geral da Nação”. Sequer havia a Controladoria-Geral da União.
A Polícia Federal tinha, como seu Diretor-Geral, um filiado ao PSDB. Ele seria figura chave no desmonte da candidatura de Roseana Sarney, então do PFL, principal rival, no campo governista, da candidatura de José Serra à Presidência da República.
O jogo de comadres que uniu PSDB e PSB
Hoje, estamos diante da possibilidade de mais uma CPI da Corrupção. O governo Dilma chamou tucanos e eduardistas para dançar.
A estratégia visa, claramente, se contrapor à tentativa da oposição em torno de uma CPI exclusivamente da Petrobras e que teria como alvo direto não Pasadena, mas o Palácio do Planalto. Pasadena é pretexto.
Ao criar uma CPI para chamar de sua, os governistas diluíram o foco da oposição. O governo percebeu o “jogo de comadres” entre PSDB e PSB. A tentativa oposicionista de restringir o assunto da CPI a Pasadena foi fruto de um acerto para fazer um cordão sanitário em torno de Eduardo Campos. Em troca, o PSB, depois de titubear em apoiar a CPI, acabou tornando-se um de seus mais enfáticos defensores.
Pelo acordo dos oposicionistas, Eduardo Campos seria poupado do risco de ser envolvido nas acusações contra a Refinaria “Abreu e Lima”, em Pernambuco. É impossível falar na refinaria sem que o assunto respingue em Eduardo Campos. Não só porque ele era, até semana passada, governador daquele estado.
A “Abreu e Lima” sempre foi propagandeada por Campos como uma vitória pessoal sua. O plano era levar a refinaria para Pernambuco, trazer empresas estrangeiras para ali fazerem grandes investimentos, relacionar o empreendimento ao porto de Suape e montar um grande complexo petrolífero que reposicionaria a economia do estado.
Em meio a tanta grandiloquência do discurso da grande política, havia a pequena política dos grandes negócios. A oposição tucana a Campos, em Pernambuco, sempre o acusou de usar Suape e “Abreu e Lima” para se promover.
Pior, o PSDB de Pernambuco levantava suspeitas de que Campos estivesse associando a obra a seu financiamento de campanha. Criticavam Campos por ter feito inúmeras viagens à Holanda para discutir negócios que interessavam a empreiteiras e outros grupos empresariais de seu estado. Grupos que, coincidentemente, depois aportariam recursos para a sua campanha.
Depois do acordo PSDB-PSB em favor da CPI sobre Pasadena,curiosamente, o assunto da refinaria “Abreu e Lima” deixou de sair da boca dos tucanos e, como num passe de mágica, sumiu momentaneamente do noticiário. Todo o esforço seria concentrado só na compra da refinaria de Pasadena.
O jogo bruto da política come solto, apimentado pelo calendário eleitoral e animado por capítulos de um novelão que vai longe. O próximo capítulo é a decisão do STF sobre quem tem razão: quem pede uma CPI ampla, ou quem quer restringí-la.
Repleta de expectativas, com uma fila de vilões, promessas de reviravoltas surpreendentes e clima de suspense, a guerra de CPIs deixa no ar uma questão: para que servem e para onde vão as CPIs?
As CPIs de hoje e seus fantasmas
Essa deve ser a terceira CPI da Corrupção - ampla, geral e irrestrita. Ela se instala sob a sombra de vários fantasmas: a CPI dos Correios (que resultou no escândalo do “mensalão”), a CPI do “Fim do Mundo”, a CPI do Banestado, a CPI do Cachoeira.
Lula, na entrevista aos blogueiros (8/4), chamou para a briga. Conclamou os petistas a defenderem Dilma. Mandou os deputados e senadores serem mais aguerridos. Lembrou que não se pode cometer os mesmos erros que levaram o PT a abaixar a cabeça no “mensalão”. "Se você baixa a cabeça, eles colocam uma canga em cima".
A CPI do “Fim do Mundo” começou como CPI “dos Bingos”, feita para investigar o bicheiro Carlos Cachoeria - ele depois daria mote a uma outra, a CPI “do Cachoeira”. Cachoeira agora disputa, com Jader Barbalho e Matarazzo, o posto de quem mais provocou CPIs no Congresso.
Aqueles que acham que nascemos ontem, que hoje pedem CPIs restritas e bem definidas e pensam que não nos lembramos do que eles fizeram no verão passado, usaram aquela CPI “dos Bingos” para pular dos assuntos de Cachoeira para o “mensalão”; para os casos de assassinato dos prefeitos petistas Toninho do PT, de Campinas, e Celso Daniel, de Santo André; para os contratos de coleta de lixo em Ribeirão Preto; para as empresas GTech; para a Caixa Econômica Federal; para o boato reproduzido pela revista Veja de que dólares “cubanos” teriam vindo em caixas de bebida para abastecer a campanha de 2002; e até para a “máfia do apito” do Campeonato Brasileiro de Futebol.
CPIs de políticos x CPIs de políticas
Dois tipos de CPIs hoje tomam conta do Congresso: as que investigam políticos e as que investigam políticas. As primeiras estão em franca decadência. As segundas sempre viveram sob o risco de serem condenadas à irrelevância.
As CPIs que investigam políticos, mesmo as que incidem sobre membros do Congresso, acabam tendo seus resultados dependentes mais dos procedimentos das comissões de ética e das decisões do plenário do que propriamente das investigações. Com a instituição do voto aberto, a pressão em favor das renúncias se tornou ainda maior, e o peso dessas CPIs, cada vez menor.
As CPIs que investigam governos normalmente chovem no molhado. Todas as denúncias e revelações com as quais trabalham já foram feitas pelos órgãos de fiscalização e controle, pela Polícia Federal ou por tribunais. Ninguém mais troca uma delação premiada por um depoimento em CPI.
Raros são os depoentes que vão às CPIs sem um prévio “habeas corpus” que lhes garanta o direito de permanecer calados e a satisfação de fazerem os parlamentares perderem seu tempo à toa, ouvindo a mesma resposta: “reservo-me o direito de permanecer calado…”.
O desgaste das CPIs feitas para animar eleições, que fazem muito barulho por nada, tende ajudar que as CPIs de políticas públicas prevaleçam. Mas, para isso, a relação entre os governos e os legislativos precisaria mudar.
Por enquanto, o descompromisso da maioria dos governos com CPIs propositivas são um tiro no pé. Fazem parecer que CPI pra valer tem que ter dedo na cara, berros e algemas.
A maioria das pessoas ainda associa o sucesso de uma CPI à derrubada de um ministro, à cassação de um parlamentar, à prisão de um malfeitor ou de quem quer que seja.
A última CPI que conseguiu prender alguém foi a da pedofilia. Mesmo assim, porque um depoimento estava sendo acompanhado ao vivo por uma autoridade judiciária que, assim que o depoente proferiu sua última frase, já tinha uma ordem de prisão aguardando sua saída do recinto.
As CPIs, ao contrário, deveriam ter como principal resultado a criação de novas leis e a avaliação de políticas e programas, com a recomendação de mudanças e de maior controle pelo próprio legislativo. O resto é pose para fotografia. Se esvai após os flashes.
Dos governos, se esperaria que eles pegassem carona, no melhor sentido, no trabalho das CPIs para apoiar iniciativas legislativas e modificar sua conduta.
A CPI do Sistema Carcerário, criada em 2007, fez o mais profundo diagnóstico da crise permanente que ainda abala essa área. Dos 12 projetos de lei apresentados, nenhum chegou a ser aprovado. A principal proposta, o Estatuto Penitenciário Nacional, demonstra bem a disposição dos parlamentares de se debruçarem sobre o tema: a comissão especial para analisar o projeto sequer chegou a ser criada.
Essa CPI voltou a ser lembrada com a crise no Maranhão, no início deste ano, dramatizada pelas cenas tétricas de degola na Penitenciária de Pedrinhas. O relator daquela CPI, por coincidência, era um deputado maranhense, o combativo Domingos Dutra.
Dutra chamou o episódio de Pedrinhas de uma “tragédia anunciada”. A expressão nos dá um bom contraste para confrontar quem acha que o principal problema das CPIs ainda é quando elas acabam em pizza. É muito pior quando elas acabam em tragédias, com sangue no lugar do molho de tomate.
(*) Antonio Lassance é cientista político.
A indigência intelectual e a caça às bruxas da Folha
A Folha de S.Paulo registra nesta 5ª feira o seu descontentamento com o fato de o escritório do Ipea , em Caracas, não seguir a pauta do jornal na Venezuela.
por: Saul Leblon
O jornal Folha de São Paulo traz na edição desta 5ª feira um artigo assinado pelo jornalista Fabio Maisonnave sobre o escritório regional do Ipea na Venezuela.
O texto registra o descontentamento do veículo e do autor com o fato de a representação do instituto em Caracas não seguir a pauta do jornal na abordagem dos problemas venezuelanos.
A cobertura do jornal dedicada ao país, como é notório, e reafirmado no artigo desta 5ª feira, carrega nas tintas do primarismo maniqueísta, prática de resto generalizada em uma linha editorial que alimenta a infantilização progressiva do seu público leitor na compreensão e abordagem dos graves problemas enfrentados pelas economias em desenvolvimento na era da globalização.
A endogamia entre o emissor e o receptor compõe uma espiral de indigência histórica que, no caso da Folha, tem no tema do ‘chavismo’ um de seus vórtices mais dinâmicos.
Os relatos dos seus correspondentes em Caracas, e o senhor Maisonnave foi um deles, notabilizam-se por reduzir a complexidade dos desafios econômicos e sociais da Venezuela aos mandamentos do maniqueísmo colegial.
A indigência intelectual na abordagem dos problemas mais amplos do continente latino-americano, em grande parte ainda refém dos ciclos das commodities, conduzem ao paradoxo de um jornalismo que se esponja nos mesmos limites do personalismo politico que pretende criticar.
Escapa-lhe, por dificuldades cognitivas, ou opção deliberada, que a atrofia da participação democrática da sociedade na AL explica em grande parte a rigidez de seus gargalos econômicos. Sem alterar um lado dificilmente se avançará na equação do outro.
O resultado dessa omissão mais oculta do que revela da dinâmica de uma Venezuela secularmente espremida entre uma elite próspera, uma vasta massa de alijados da renda petroleira e instituições --inclusive o aparelho de Estado, mas também a atrofia partidária-- contidos pela importância subalterna atribuída à vontade popular na ordenação do que estava condenado a ser um eterno entreposto de óleo bruto.
Desarmar essa rigidez --que o caso venezuelano magnifica, mas não é o único-- é um dos problemas macroeconômicos mais complexos da luta pelo desenvolvimento latino-americano.
Não por acaso está no centro das análises de Raúl Prebisch e Celso Furtado-- autor de um estudo de 1957, ainda atual, sobre a armadilha do petróleo venezuelano—bem como de Fernando Henrique e Faleto, entre outros.
Os 50 anos do golpe de Estado de 1964, agora em março, reavivaram a natureza desses impasses no Brasil. Há meio século, a encruzilhada do desenvolvimento brasileiro foi respondida pela elites com um ataque às instituições democráticas que permitiriam escrutinar transformações estruturais interditadas pela lógica dos interesses dominantes.
Em 1964 a Folha não perfilou ao lado dos que reconheciam a prerrogativa soberana da democracia para superar os impasses nacionais e aderiu aos golpistas.
Adota opção semelhante hoje na forma obtusa como aborda os --repita-se-- graves dilemas enfrentados pela sociedade venezuelana na luta para escapar à dependência da renda petroleira –hoje melhor repartida, mas de forma ainda limitante.
Por discordar dessa renitente irresponsabilidade no tratamento de questões cuja raiz histórica transcende o caso venezuelano –embora tenha ali um mirante extremado-- Carta Maior convidou o economista Pedro Barros Silva para colaborar em sua página, com análises e informações de escopo mais amplo e equilíbrio indisponível nos despachos e no foco da Folha e da mídia conservadora em geral.
Barros e Silva é o responsável pelo escritório do Ipea instalado em 2010 em Caracas. Seus textos em Carta Maior refletem opiniões pessoais, não do órgão que coordena.
O artigo do senhor Maisonnave na Folha questiona a colaboração do economista com ‘um portal de esquerda’, Carta Maior.
Faria o mesmo se a contribuição fosse com o site do Instituto Millenium, um sucedâneo do Ipes e do Ibad que tonificaram intelectualmente o golpe de 1964?
Dezenas de intelectuais de distintas instituições do governo ou associados ao aparelho público brasileiro escrevem na Folha.
É ótimo que seja assim.
Carta Maior reserva-se o mesmo direito de --a exemplo de outras publicações democráticas-- recorrer à reflexão ecumênica de estudiosos e pesquisadores da universidade e de esferas do setor público.
Inspira-nos contribuir assim para formar um discernimento desassombrado e progressista dos desafios e das opções colocados ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.
Quanto à instalação do escritório do Ipea em Caracas, criticado pelo senhor Maisonnave por não 'tratar de temas econômicos', por certo incomoda à pauta da Folha o fato de ter sido criado, e assim funcionar, como uma contribuição ao desenvolvimento venezuelano nas diferentes dimensões que o termo encerra.
A expansão do mercado interno, como se sabe, fez daquele país um dos principais destinos das exportações brasileiras nos últimos anos.
Entre 1999 e 2012, o volume negociado bilateralmente saltou de US$ 1,5 bilhão para US$ 6 bilhões. As exportações brasileiras passaram de 36% do valor total intercambiado, que tornavam a balança deficitária para o país, para 84% das transações. O dado é do Ministério do Desenvolvimento (MDIC).
A Venezuela constitui hoje um dos principais parceiros do comércio exterior brasileiro; o Brasil é o terceiro maior parceiro da Venezuela. Os dois primeiros são Estados Unidos e China. Como se vê, um espectro ideológico distinto da obtusidade destilada por um certo jornalismo.
Alimentos, aviões, automóveis e serviços --sobretudo a construção de grandes obras públicas, incluem-se na pauta das exportações brasileiras.
Em 2010, quase seis meses depois de o Congresso Nacional ter aprovado o ingresso da Venezuela no Mercosul, o então pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, o delfim da derrota conservadora predileto da Folha, manifestou-se contrário à entrada daquele país no bloco do Cone Sul.
A sandice ideológica foi recebida com apreensão na Fiesp.
Contribuir para o desenvolvimento sócio-econômico da sociedade venezuelana, uma das atribuições da missão do Ipea, rebate favoravelmente --até do ponto de vista capitalista-- no comércio exterior e no crescimento brasileiro.
Mas a Folha talvez preferisse que o Ipea funcionasse ali como uma extensão da Casa das Garças, o think tank tucano da apologia de um receituário econômico que jogou o mundo na pior crise do capitalismo desde 1929. Indisponível essa opção, o jornal procura compensá-la –com denodo, reconheça-se— através de textos e artigos como o desta 5ª feira, onde a indigência intelectual bordeja a caça às bruxas.
por: Saul Leblon
O jornal Folha de São Paulo traz na edição desta 5ª feira um artigo assinado pelo jornalista Fabio Maisonnave sobre o escritório regional do Ipea na Venezuela.
O texto registra o descontentamento do veículo e do autor com o fato de a representação do instituto em Caracas não seguir a pauta do jornal na abordagem dos problemas venezuelanos.
A cobertura do jornal dedicada ao país, como é notório, e reafirmado no artigo desta 5ª feira, carrega nas tintas do primarismo maniqueísta, prática de resto generalizada em uma linha editorial que alimenta a infantilização progressiva do seu público leitor na compreensão e abordagem dos graves problemas enfrentados pelas economias em desenvolvimento na era da globalização.
A endogamia entre o emissor e o receptor compõe uma espiral de indigência histórica que, no caso da Folha, tem no tema do ‘chavismo’ um de seus vórtices mais dinâmicos.
Os relatos dos seus correspondentes em Caracas, e o senhor Maisonnave foi um deles, notabilizam-se por reduzir a complexidade dos desafios econômicos e sociais da Venezuela aos mandamentos do maniqueísmo colegial.
A indigência intelectual na abordagem dos problemas mais amplos do continente latino-americano, em grande parte ainda refém dos ciclos das commodities, conduzem ao paradoxo de um jornalismo que se esponja nos mesmos limites do personalismo politico que pretende criticar.
Escapa-lhe, por dificuldades cognitivas, ou opção deliberada, que a atrofia da participação democrática da sociedade na AL explica em grande parte a rigidez de seus gargalos econômicos. Sem alterar um lado dificilmente se avançará na equação do outro.
O resultado dessa omissão mais oculta do que revela da dinâmica de uma Venezuela secularmente espremida entre uma elite próspera, uma vasta massa de alijados da renda petroleira e instituições --inclusive o aparelho de Estado, mas também a atrofia partidária-- contidos pela importância subalterna atribuída à vontade popular na ordenação do que estava condenado a ser um eterno entreposto de óleo bruto.
Desarmar essa rigidez --que o caso venezuelano magnifica, mas não é o único-- é um dos problemas macroeconômicos mais complexos da luta pelo desenvolvimento latino-americano.
Não por acaso está no centro das análises de Raúl Prebisch e Celso Furtado-- autor de um estudo de 1957, ainda atual, sobre a armadilha do petróleo venezuelano—bem como de Fernando Henrique e Faleto, entre outros.
Os 50 anos do golpe de Estado de 1964, agora em março, reavivaram a natureza desses impasses no Brasil. Há meio século, a encruzilhada do desenvolvimento brasileiro foi respondida pela elites com um ataque às instituições democráticas que permitiriam escrutinar transformações estruturais interditadas pela lógica dos interesses dominantes.
Em 1964 a Folha não perfilou ao lado dos que reconheciam a prerrogativa soberana da democracia para superar os impasses nacionais e aderiu aos golpistas.
Adota opção semelhante hoje na forma obtusa como aborda os --repita-se-- graves dilemas enfrentados pela sociedade venezuelana na luta para escapar à dependência da renda petroleira –hoje melhor repartida, mas de forma ainda limitante.
Por discordar dessa renitente irresponsabilidade no tratamento de questões cuja raiz histórica transcende o caso venezuelano –embora tenha ali um mirante extremado-- Carta Maior convidou o economista Pedro Barros Silva para colaborar em sua página, com análises e informações de escopo mais amplo e equilíbrio indisponível nos despachos e no foco da Folha e da mídia conservadora em geral.
Barros e Silva é o responsável pelo escritório do Ipea instalado em 2010 em Caracas. Seus textos em Carta Maior refletem opiniões pessoais, não do órgão que coordena.
O artigo do senhor Maisonnave na Folha questiona a colaboração do economista com ‘um portal de esquerda’, Carta Maior.
Faria o mesmo se a contribuição fosse com o site do Instituto Millenium, um sucedâneo do Ipes e do Ibad que tonificaram intelectualmente o golpe de 1964?
Dezenas de intelectuais de distintas instituições do governo ou associados ao aparelho público brasileiro escrevem na Folha.
É ótimo que seja assim.
Carta Maior reserva-se o mesmo direito de --a exemplo de outras publicações democráticas-- recorrer à reflexão ecumênica de estudiosos e pesquisadores da universidade e de esferas do setor público.
Inspira-nos contribuir assim para formar um discernimento desassombrado e progressista dos desafios e das opções colocados ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.
Quanto à instalação do escritório do Ipea em Caracas, criticado pelo senhor Maisonnave por não 'tratar de temas econômicos', por certo incomoda à pauta da Folha o fato de ter sido criado, e assim funcionar, como uma contribuição ao desenvolvimento venezuelano nas diferentes dimensões que o termo encerra.
A expansão do mercado interno, como se sabe, fez daquele país um dos principais destinos das exportações brasileiras nos últimos anos.
Entre 1999 e 2012, o volume negociado bilateralmente saltou de US$ 1,5 bilhão para US$ 6 bilhões. As exportações brasileiras passaram de 36% do valor total intercambiado, que tornavam a balança deficitária para o país, para 84% das transações. O dado é do Ministério do Desenvolvimento (MDIC).
A Venezuela constitui hoje um dos principais parceiros do comércio exterior brasileiro; o Brasil é o terceiro maior parceiro da Venezuela. Os dois primeiros são Estados Unidos e China. Como se vê, um espectro ideológico distinto da obtusidade destilada por um certo jornalismo.
Alimentos, aviões, automóveis e serviços --sobretudo a construção de grandes obras públicas, incluem-se na pauta das exportações brasileiras.
Em 2010, quase seis meses depois de o Congresso Nacional ter aprovado o ingresso da Venezuela no Mercosul, o então pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, o delfim da derrota conservadora predileto da Folha, manifestou-se contrário à entrada daquele país no bloco do Cone Sul.
A sandice ideológica foi recebida com apreensão na Fiesp.
Contribuir para o desenvolvimento sócio-econômico da sociedade venezuelana, uma das atribuições da missão do Ipea, rebate favoravelmente --até do ponto de vista capitalista-- no comércio exterior e no crescimento brasileiro.
Mas a Folha talvez preferisse que o Ipea funcionasse ali como uma extensão da Casa das Garças, o think tank tucano da apologia de um receituário econômico que jogou o mundo na pior crise do capitalismo desde 1929. Indisponível essa opção, o jornal procura compensá-la –com denodo, reconheça-se— através de textos e artigos como o desta 5ª feira, onde a indigência intelectual bordeja a caça às bruxas.
Reuters confirma Cafezinho: Pasadena foi um ótimo negócio
Enviado por Miguel do Rosário on 11/04/2014
Uma matéria da Reuters, assinada por Jeb Blount, com base em opiniões de especialistas em petróleo de Nova York, Chicago e São Paulo, corrobora nossa argumentação, de que a compra da refinaria de Pasadena foi um ótimo negócio.
Diz o repórter: ”a refinaria de Pasadena pode ter sido o melhor negócio com refinaria que a empresa já fez em três décadas”.
Logo em seguida, o repórter explica que, na verdade, a Petrobrás não pagou um preço excessivo.
A matéria não é “chapa branca”. É feita por um repórter americano ou inglês com gana de falar mal da Petrobrás. Só que, após entrevistar especialistas em pelo menos três praças comerciais importantes, ele conclui que a Petrobrás pode ter mil outros problemas, mas não é Pasadena.
O foco da matéria é falar mal da refinaria Abreu Lima, que a Petrobrás está construindo em Pernambuco, comparando seus custos com a de outras refinarias no mundo. Só que o repórter mesmo admite que é difícil comparar refinarias. Uma coisa é construir uma refinaria numa área já dotada de logística e infra-estrutura. Outra é montar uma no meio do nada.
O repórter observa, além disso, que investigações sobre Abreu Lima podem trazer mais prejuízos a Eduardo Campos, candidato de oposição, do que a Dilma Rousseff.
Blount também observa que o preço de US$ 1,2 bilhão pago por Pasadena superestima o valor da refinaria porque inclui quase US$ 600 milhões em ativos não ligados à refinaria, como estoques, custos bancários e o braço comercial da Astra.
O preço pago pela Petrobrás pela refinaria em si, segundo a matéria, com base na avaliação de uma firma de Chicago, a Good and Margolin, foi US$ 486 milhões.
Entretanto, mesmo considerando os US$ 1,2 bilhão, trata-se de um valor que Pasadena poderá pagar em apenas cinco anos de operação, estima o jornalista, em virtude do fantástico momento vivido pelas refinarias norte-americanas, principalmente as situadas no Texas.
O novo boom de produção de petróleo de xisto nos EUA reduziu os custos da matéria-prima, e ao mesmo tempo o preço dos derivados está alto, por causa da recuperação econômica do país, de maneira que as margens de lucro das refinarias nunca foram tão altas.
Espero que os deputados e senadores que cometem o equívoco de não ler o Cafezinho, ou se lêem, de não acreditarem no que escrevo, apesar de trazer sempre a fonte, ao menos leiam a Reuters.
*
Trechos da matéria
ANÁLISE-Brasil investiga Pasadena, mas Refinaria do Nordeste é problema maior
sexta-feira, 11 de abril de 2014 13:52 BRT Imprimir [-] Texto [+]
Por Jeb Blount, Reuters Brasil
SÃO PAULO, 11 Abr (Reuters) – A compra de uma refinaria nos Estados Unidos pela Petrobras por 1,2 bilhão de dólares virou tema de campanha eleitoral, com a oposição afirmando que a estatal pagou 20 vezes mais que o valor justo pela unidade no Texas e que Dilma Rousseff errou ao aprovar o negócio quando era presidente do Conselho da empresa em 2006.
A investigação, porém, está provavelmente mirando na refinaria errada: mesmo que a Petrobras tenha pago caro, a refinaria de Pasadena, com capacidade para processar 100 mil barris por dia, pode ter sido o melhor negócio em refino que a petroleira já fez em pelo menos três décadas.
(…) A Petrobras não quis comentar sobre Pasadena, pois está conduzindo sua própria investigação, mas José Sergio Gabrielli, que era presidente da Petrobras na época da aquisição, disse nesta semana que a compra de Pasadena foi “um grande investimento”.
(…) Para efeito de comparação, a saudita Aramco e a francesa Total construíram em Jubail (Arábia Saudita) uma refinaria para 400 mil barris diários por 10 bilhões de dólares, ou 25 mil dólares por barril –menos de um terço do custo da Rnest (refinaria do Nordeste, a Abreu Lima).
A chinesa Sinopec planeja concluir no ano que vem em Guangdong uma refinaria para 200 mil barris diários ao preço de 9 bilhões de dólares (45 mil dólares por barril), quase metade do custo da refinaria no Nordeste.
Em Port Arthur (Texas), a Aramco e a anglo-holandesa Royal Dutch Shell gastaram 10 bilhões de dólares por uma refinaria para 350 mil barris/dia, o que também equivale a um terço do valor em Pernambuco.
Em nível mundial, refinarias novas para o processamento de petróleo pesado estão custando “no máximo” 38 a 45 mil dólares por barril, segundo um consultor de refino dos EUA que trabalhou em refinarias da América do Norte, Oriente Médio, América Latina e Ásia.
(…) As refinarias na costa norte-americana do Golfo do México, onde fica Pasadena, geralmente lucram cerca de 10 dólares por barril refinado, segundo Margolin, da Cowan and Company, e Alen Good, analista de ações de empresas de petróleo e refino na Morningstar, em Chicago.
(…) Com base no desembolso de 1,2 bilhão de dólares, a Petrobras provavelmente conseguiria reaver o investimento de Pasadena em cinco anos, segundo Good.
Isso pode se dever mais à sorte do que a um investimento inteligente. Quando a compra foi aprovada, em 2006, a Petrobras estava procurando formas de refinar seu petróleo nos EUA, pois havia a expectativa de que esse país passaria a comprar mais petróleo bruto do Brasil.
Desde então, o boom do petróleo de xisto nos EUA aumentou a demanda pelo refino de petróleo, tornando mais valiosas as refinarias na costa do Golfo.
A cifra de 1,2 bilhão de dólares também pode representar um valor superestimado em relação ao verdadeiro custo de Pasadena, já que o total incluía 595 milhões de dólares em outros itens, como uma parte do estoque de petróleo da empresa Astra já presente na unidade, além de multas e taxas legais. Good e Margolin disseram que esses custos deveriam ser excluídos da avaliação da refinaria.
Quando isso é feito, chega-se ao valor de 486 milhões de dólares pela refinaria propriamente dita, ou 4.860 dólares por barril –valor que pode ser recuperado em um ano de operação a plena capacidade. Ainda para efeito de comparação, 18 vezes menos que a Rnest.
“Faz pouco sentido se comover com Pasadena quando você considera o que a Petrobras está pagando mais pela capacidade de refino no Brasil”, disse Good. “Com esses preços, faz mais sentido para a Petrobras comprar refinarias nos EUA do que construí-las no Brasil.”
Gabrielli também questionou a cifra de 1,2 bilhão de dólares, alegando que na verdade a refinaria texana custou menos de 500 milhões de dólares.
GASOLINA POLÍTICA
Pedro Galdi, analista-chefe da SLW Corretora, de São Paulo, disse que os investigadores deveriam se voltar muito mais para a Rnest do que para Pasadena.
“Todas as refinarias da Petrobras são, de alguma forma, fora da norma, e tenho poucas dúvidas de que, se uma CPI for realmente instalada, isso vai aparecer muito claramente”, disse ele. “Houve uma séria má gestão.”
A refinaria Rnest surgiu de um acordo entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, da Venezuela.
A ideia inicial era que a unidade recebesse 60 por cento do petróleo do Brasil e 40 por cento da Venezuela, numa demonstração de amizade internacional e como forma de impulsionar a indústria regional.
Mas para lidar com petróleo venezuelano, que é mais pesado e com poluentes tóxicos do que o produto brasileiro, a Petrobras precisava de duas linhas de refino separadas, e por isso foi preciso acrescentar instalações adicionais.
Funcionários do governo já alertaram aos críticos de Pasadena que uma investigação mais ampla poderá respingar sobre eles próprios. Pernambuco, afinal, é um Estado que já foi governado por Eduardo Campos, ex-aliado e hoje rival eleitoral de Dilma. (…)
- See more at: http://www.ocafezinho.com/2014/04/11/reuters-confirma-cafezinho-pasadena-foi-um-otimo-negocio/#sthash.YtK8putB.dpuf
Uma matéria da Reuters, assinada por Jeb Blount, com base em opiniões de especialistas em petróleo de Nova York, Chicago e São Paulo, corrobora nossa argumentação, de que a compra da refinaria de Pasadena foi um ótimo negócio.
Diz o repórter: ”a refinaria de Pasadena pode ter sido o melhor negócio com refinaria que a empresa já fez em três décadas”.
Logo em seguida, o repórter explica que, na verdade, a Petrobrás não pagou um preço excessivo.
A matéria não é “chapa branca”. É feita por um repórter americano ou inglês com gana de falar mal da Petrobrás. Só que, após entrevistar especialistas em pelo menos três praças comerciais importantes, ele conclui que a Petrobrás pode ter mil outros problemas, mas não é Pasadena.
O foco da matéria é falar mal da refinaria Abreu Lima, que a Petrobrás está construindo em Pernambuco, comparando seus custos com a de outras refinarias no mundo. Só que o repórter mesmo admite que é difícil comparar refinarias. Uma coisa é construir uma refinaria numa área já dotada de logística e infra-estrutura. Outra é montar uma no meio do nada.
O repórter observa, além disso, que investigações sobre Abreu Lima podem trazer mais prejuízos a Eduardo Campos, candidato de oposição, do que a Dilma Rousseff.
Blount também observa que o preço de US$ 1,2 bilhão pago por Pasadena superestima o valor da refinaria porque inclui quase US$ 600 milhões em ativos não ligados à refinaria, como estoques, custos bancários e o braço comercial da Astra.
O preço pago pela Petrobrás pela refinaria em si, segundo a matéria, com base na avaliação de uma firma de Chicago, a Good and Margolin, foi US$ 486 milhões.
Entretanto, mesmo considerando os US$ 1,2 bilhão, trata-se de um valor que Pasadena poderá pagar em apenas cinco anos de operação, estima o jornalista, em virtude do fantástico momento vivido pelas refinarias norte-americanas, principalmente as situadas no Texas.
O novo boom de produção de petróleo de xisto nos EUA reduziu os custos da matéria-prima, e ao mesmo tempo o preço dos derivados está alto, por causa da recuperação econômica do país, de maneira que as margens de lucro das refinarias nunca foram tão altas.
Espero que os deputados e senadores que cometem o equívoco de não ler o Cafezinho, ou se lêem, de não acreditarem no que escrevo, apesar de trazer sempre a fonte, ao menos leiam a Reuters.
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Trechos da matéria
ANÁLISE-Brasil investiga Pasadena, mas Refinaria do Nordeste é problema maior
sexta-feira, 11 de abril de 2014 13:52 BRT Imprimir [-] Texto [+]
Por Jeb Blount, Reuters Brasil
SÃO PAULO, 11 Abr (Reuters) – A compra de uma refinaria nos Estados Unidos pela Petrobras por 1,2 bilhão de dólares virou tema de campanha eleitoral, com a oposição afirmando que a estatal pagou 20 vezes mais que o valor justo pela unidade no Texas e que Dilma Rousseff errou ao aprovar o negócio quando era presidente do Conselho da empresa em 2006.
A investigação, porém, está provavelmente mirando na refinaria errada: mesmo que a Petrobras tenha pago caro, a refinaria de Pasadena, com capacidade para processar 100 mil barris por dia, pode ter sido o melhor negócio em refino que a petroleira já fez em pelo menos três décadas.
(…) A Petrobras não quis comentar sobre Pasadena, pois está conduzindo sua própria investigação, mas José Sergio Gabrielli, que era presidente da Petrobras na época da aquisição, disse nesta semana que a compra de Pasadena foi “um grande investimento”.
(…) Para efeito de comparação, a saudita Aramco e a francesa Total construíram em Jubail (Arábia Saudita) uma refinaria para 400 mil barris diários por 10 bilhões de dólares, ou 25 mil dólares por barril –menos de um terço do custo da Rnest (refinaria do Nordeste, a Abreu Lima).
A chinesa Sinopec planeja concluir no ano que vem em Guangdong uma refinaria para 200 mil barris diários ao preço de 9 bilhões de dólares (45 mil dólares por barril), quase metade do custo da refinaria no Nordeste.
Em Port Arthur (Texas), a Aramco e a anglo-holandesa Royal Dutch Shell gastaram 10 bilhões de dólares por uma refinaria para 350 mil barris/dia, o que também equivale a um terço do valor em Pernambuco.
Em nível mundial, refinarias novas para o processamento de petróleo pesado estão custando “no máximo” 38 a 45 mil dólares por barril, segundo um consultor de refino dos EUA que trabalhou em refinarias da América do Norte, Oriente Médio, América Latina e Ásia.
(…) As refinarias na costa norte-americana do Golfo do México, onde fica Pasadena, geralmente lucram cerca de 10 dólares por barril refinado, segundo Margolin, da Cowan and Company, e Alen Good, analista de ações de empresas de petróleo e refino na Morningstar, em Chicago.
(…) Com base no desembolso de 1,2 bilhão de dólares, a Petrobras provavelmente conseguiria reaver o investimento de Pasadena em cinco anos, segundo Good.
Isso pode se dever mais à sorte do que a um investimento inteligente. Quando a compra foi aprovada, em 2006, a Petrobras estava procurando formas de refinar seu petróleo nos EUA, pois havia a expectativa de que esse país passaria a comprar mais petróleo bruto do Brasil.
Desde então, o boom do petróleo de xisto nos EUA aumentou a demanda pelo refino de petróleo, tornando mais valiosas as refinarias na costa do Golfo.
A cifra de 1,2 bilhão de dólares também pode representar um valor superestimado em relação ao verdadeiro custo de Pasadena, já que o total incluía 595 milhões de dólares em outros itens, como uma parte do estoque de petróleo da empresa Astra já presente na unidade, além de multas e taxas legais. Good e Margolin disseram que esses custos deveriam ser excluídos da avaliação da refinaria.
Quando isso é feito, chega-se ao valor de 486 milhões de dólares pela refinaria propriamente dita, ou 4.860 dólares por barril –valor que pode ser recuperado em um ano de operação a plena capacidade. Ainda para efeito de comparação, 18 vezes menos que a Rnest.
“Faz pouco sentido se comover com Pasadena quando você considera o que a Petrobras está pagando mais pela capacidade de refino no Brasil”, disse Good. “Com esses preços, faz mais sentido para a Petrobras comprar refinarias nos EUA do que construí-las no Brasil.”
Gabrielli também questionou a cifra de 1,2 bilhão de dólares, alegando que na verdade a refinaria texana custou menos de 500 milhões de dólares.
GASOLINA POLÍTICA
Pedro Galdi, analista-chefe da SLW Corretora, de São Paulo, disse que os investigadores deveriam se voltar muito mais para a Rnest do que para Pasadena.
“Todas as refinarias da Petrobras são, de alguma forma, fora da norma, e tenho poucas dúvidas de que, se uma CPI for realmente instalada, isso vai aparecer muito claramente”, disse ele. “Houve uma séria má gestão.”
A refinaria Rnest surgiu de um acordo entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez, da Venezuela.
A ideia inicial era que a unidade recebesse 60 por cento do petróleo do Brasil e 40 por cento da Venezuela, numa demonstração de amizade internacional e como forma de impulsionar a indústria regional.
Mas para lidar com petróleo venezuelano, que é mais pesado e com poluentes tóxicos do que o produto brasileiro, a Petrobras precisava de duas linhas de refino separadas, e por isso foi preciso acrescentar instalações adicionais.
Funcionários do governo já alertaram aos críticos de Pasadena que uma investigação mais ampla poderá respingar sobre eles próprios. Pernambuco, afinal, é um Estado que já foi governado por Eduardo Campos, ex-aliado e hoje rival eleitoral de Dilma. (…)
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segunda-feira, março 31, 2014
sexta-feira, março 28, 2014
Rússia dá início a nova fase na política externa
Em um discurso de uma hora feito durante a cerimônia de assinatura do acordo de reunificação com a Crimeia e Sevastopol, o presidente da Rússia, Vladímir Pútin, esboçou os princípios da nova política externa do país e resumiu o período de 25 anos após o fim da Guerra Fria.
Segundo Pútin, a Rússia está cansada de não ser vista como um parceiro igual pelo Ocidente. “Nós fomos enganados várias vezes, tomaram decisões pelas nossas costas, nos colocaram perante o fato consumado”, disse o presidente. “Foi assim com a expansão da Otan para o leste, com a implantação dos sistemas de defesa antimísseis e com a interminável procrastinação das negociações sobre a questão dos vistos, assim como com as promessas de concorrência justa e o livre acesso aos mercados globais”, enumerou Pútin.
O presidente ressaltou que Moscou quer que as relações entre a Rússia e os países ocidentais “sejam igualitárias, abertas e honestas” e acrescentou que a Rússia tem uma posição independente no cenário mundial e pretende defendê-la com todos os meios disponíveis.
“Nós não concordamos mais com o fato de apenas um país poder violar o direito internacional. Com o fato de apenas um país poder apelar para as realidades da política internacional a fim de proteger os seus interesses nacionais”, disse o vice-diretor do Centro de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscou, Dmítri Suslov.
Em seu discurso, Pútin deu a entender que agora a Rússia vai se comportar como os EUA: “Por que razão aquilo que os albaneses do Kosovo podem fazer não pode ser feito pelos russos, ucranianos e tártaros na Crimeia?”.
Nosso povo, nossos interesses
A segurança dos russos no exterior foi outro elemento importante no discurso de Pútin. O Kremlin se proclamou protetor dos russos que, após o colapso da União Soviética, acabaram espalhados por diversos países. “Milhões de russos foram dormir em um país e acordaram em um lugar estrangeiro... o povo russo se tornou uma das maiores, se não a maior, nação dividida do mundo”, disse Pútin.
Se antes Moscou preferia agir por meio de instituições supranacionais de integração, como a Comunidade Econômica Euroasiática, agora, depois das tentativas do Ocidente de afastar a Ucrânia da Rússia através de um golpe de Estado, o governo russo se declarou disposto a proteger os interesses e a segurança de seu povo das formas mais radicais.
“Pútin falou de uma eventual revisão das fronteiras existentes na ex-União Soviética em caso de ameaça àquilo a que o próprio presidente da Rússia chama de ‘mundo russo’”, explicou o analista político russo Serguêi Markedonov.
Tais declarações intensificaram os temores dos países ocidentais e a apreensão de alguns países parceiros da CEI (Comunidade dos Estados Independentes), em particular do Cazaquistão, cuja região norte é povoada por russos. No entanto, especialistas acreditam que esses receios são prematuros. “A Rússia não vai iniciar conflitos ao longo de suas fronteiras”, disse Markedonov. “Mas a situação com a Crimeia mostrou que se houver ameaças, haverá reação. E se até a reunificação da Crimeia Moscou estava pronto para considerar as fobias e preocupações do Ocidente, agora ele coloca os seus próprios interesses em primeiro lugar.”
É necessário negociar
O discurso de Pútin causou surpresa em países da Europa e nos Estados Unidos. “O Ocidente olha com crescente apreensão para a mudança na política externa russa, estamos falando cada vez mais de um retorno ao confronto ou mesmo de uma nova Guerra Fria com a Rússia”, explicou o vice-presidente da fundação norte-americana Carnegie, Andrew Weiss. “Moscou já não é mais capaz de trabalhar como antes com os parceiros ocidentais. Após a anexação da Crimeia por Moscou, o Ocidente irá mudar sua forma de pensar em relação à Rússia. No que vai consistir essa nova forma de pensar, ainda é muito cedo para dizer. Estamos apenas no início do processo”, completou.
No entanto, em seu discurso, Pútin deu a entender que esta nova forma de pensar a política externa não precisa ser de confronto: ele não pretende transformar a Rússia em um centro de antiamericanismo e fonte de instabilidade do mundo.
“No discurso de Putin, o mais importante foi o resumo do período após o colapso da URSS”, disse o editor-chefe da revista “Rússia na Política Global”, Fiódor Lukianov. “É claro que agora não está se falando da restauração da União Soviética, mas da recusa de ver o que aconteceu como o desfecho fatal do processo. Moscou considera o processo do fim da Guerra Fria incompleto e pretende ajustar os seus resultados intermediários. Não necessariamente no sentido da revisão das fronteiras. A Crimeia é antes um caso único do que um modelo. O principal aqui é a reavaliação moral e política”, disse Lukianov.
Além disso, o Kremlin entende que ninguém sairá ganhando com o agravamento das relações entre a Rússia e os EUA e Europa. Por isso, percebe-se no discurso de Pútin um tom conciliador. O presidente russo tentou mostrar que existem mais questões além da Ucrânia e que há outros problemas no mundo que a Rússia e o Ocidente precisam resolver juntos.
"Os esforços dos EUA para impedir a reintegração têm um caráter artificial, de inércia. Se formos capazes de chegar a um entendimento de que a unificação dessas terras por parte de Moscou não cria nenhum polo de poder antiamericano, então uma nova definição de fronteiras poderá se tornar a garantia para a cooperação em questões transnacionais, principalmente no que diz respeito ao Afeganistão, ao leste da Ásia e ao Oriente Médio”, disse Suslov.
Contudo, os EUA ainda não estão dispostos, por enquanto, a aceitar a nova política externa da Rússia. “Não vale a pena esperar que o Ocidente reconheça a Ucrânia como uma parte da esfera de influência da Rússia. Esse seria um passo para trás do ponto de vistas dos últimos 20 anos de integração da Ucrânia no espaço transatlântico”, opinou Andrew Weiss.
No entanto, esta posição não é construtiva e está repleta de novos desafios. "O Ocidente pode, é claro, continuar a recusar essas negociações, mas isso implica grande desestabilização da situação na Europa. É preciso pôr fim à incerteza e às omissões que persistiram após a Guerra Fria", acredita Dmítri Suslov.
Segundo Pútin, a Rússia está cansada de não ser vista como um parceiro igual pelo Ocidente. “Nós fomos enganados várias vezes, tomaram decisões pelas nossas costas, nos colocaram perante o fato consumado”, disse o presidente. “Foi assim com a expansão da Otan para o leste, com a implantação dos sistemas de defesa antimísseis e com a interminável procrastinação das negociações sobre a questão dos vistos, assim como com as promessas de concorrência justa e o livre acesso aos mercados globais”, enumerou Pútin.
O presidente ressaltou que Moscou quer que as relações entre a Rússia e os países ocidentais “sejam igualitárias, abertas e honestas” e acrescentou que a Rússia tem uma posição independente no cenário mundial e pretende defendê-la com todos os meios disponíveis.
“Nós não concordamos mais com o fato de apenas um país poder violar o direito internacional. Com o fato de apenas um país poder apelar para as realidades da política internacional a fim de proteger os seus interesses nacionais”, disse o vice-diretor do Centro de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscou, Dmítri Suslov.
Em seu discurso, Pútin deu a entender que agora a Rússia vai se comportar como os EUA: “Por que razão aquilo que os albaneses do Kosovo podem fazer não pode ser feito pelos russos, ucranianos e tártaros na Crimeia?”.
Nosso povo, nossos interesses
A segurança dos russos no exterior foi outro elemento importante no discurso de Pútin. O Kremlin se proclamou protetor dos russos que, após o colapso da União Soviética, acabaram espalhados por diversos países. “Milhões de russos foram dormir em um país e acordaram em um lugar estrangeiro... o povo russo se tornou uma das maiores, se não a maior, nação dividida do mundo”, disse Pútin.
Se antes Moscou preferia agir por meio de instituições supranacionais de integração, como a Comunidade Econômica Euroasiática, agora, depois das tentativas do Ocidente de afastar a Ucrânia da Rússia através de um golpe de Estado, o governo russo se declarou disposto a proteger os interesses e a segurança de seu povo das formas mais radicais.
“Pútin falou de uma eventual revisão das fronteiras existentes na ex-União Soviética em caso de ameaça àquilo a que o próprio presidente da Rússia chama de ‘mundo russo’”, explicou o analista político russo Serguêi Markedonov.
Tais declarações intensificaram os temores dos países ocidentais e a apreensão de alguns países parceiros da CEI (Comunidade dos Estados Independentes), em particular do Cazaquistão, cuja região norte é povoada por russos. No entanto, especialistas acreditam que esses receios são prematuros. “A Rússia não vai iniciar conflitos ao longo de suas fronteiras”, disse Markedonov. “Mas a situação com a Crimeia mostrou que se houver ameaças, haverá reação. E se até a reunificação da Crimeia Moscou estava pronto para considerar as fobias e preocupações do Ocidente, agora ele coloca os seus próprios interesses em primeiro lugar.”
É necessário negociar
O discurso de Pútin causou surpresa em países da Europa e nos Estados Unidos. “O Ocidente olha com crescente apreensão para a mudança na política externa russa, estamos falando cada vez mais de um retorno ao confronto ou mesmo de uma nova Guerra Fria com a Rússia”, explicou o vice-presidente da fundação norte-americana Carnegie, Andrew Weiss. “Moscou já não é mais capaz de trabalhar como antes com os parceiros ocidentais. Após a anexação da Crimeia por Moscou, o Ocidente irá mudar sua forma de pensar em relação à Rússia. No que vai consistir essa nova forma de pensar, ainda é muito cedo para dizer. Estamos apenas no início do processo”, completou.
No entanto, em seu discurso, Pútin deu a entender que esta nova forma de pensar a política externa não precisa ser de confronto: ele não pretende transformar a Rússia em um centro de antiamericanismo e fonte de instabilidade do mundo.
“No discurso de Putin, o mais importante foi o resumo do período após o colapso da URSS”, disse o editor-chefe da revista “Rússia na Política Global”, Fiódor Lukianov. “É claro que agora não está se falando da restauração da União Soviética, mas da recusa de ver o que aconteceu como o desfecho fatal do processo. Moscou considera o processo do fim da Guerra Fria incompleto e pretende ajustar os seus resultados intermediários. Não necessariamente no sentido da revisão das fronteiras. A Crimeia é antes um caso único do que um modelo. O principal aqui é a reavaliação moral e política”, disse Lukianov.
Além disso, o Kremlin entende que ninguém sairá ganhando com o agravamento das relações entre a Rússia e os EUA e Europa. Por isso, percebe-se no discurso de Pútin um tom conciliador. O presidente russo tentou mostrar que existem mais questões além da Ucrânia e que há outros problemas no mundo que a Rússia e o Ocidente precisam resolver juntos.
"Os esforços dos EUA para impedir a reintegração têm um caráter artificial, de inércia. Se formos capazes de chegar a um entendimento de que a unificação dessas terras por parte de Moscou não cria nenhum polo de poder antiamericano, então uma nova definição de fronteiras poderá se tornar a garantia para a cooperação em questões transnacionais, principalmente no que diz respeito ao Afeganistão, ao leste da Ásia e ao Oriente Médio”, disse Suslov.
Contudo, os EUA ainda não estão dispostos, por enquanto, a aceitar a nova política externa da Rússia. “Não vale a pena esperar que o Ocidente reconheça a Ucrânia como uma parte da esfera de influência da Rússia. Esse seria um passo para trás do ponto de vistas dos últimos 20 anos de integração da Ucrânia no espaço transatlântico”, opinou Andrew Weiss.
No entanto, esta posição não é construtiva e está repleta de novos desafios. "O Ocidente pode, é claro, continuar a recusar essas negociações, mas isso implica grande desestabilização da situação na Europa. É preciso pôr fim à incerteza e às omissões que persistiram após a Guerra Fria", acredita Dmítri Suslov.
quarta-feira, março 26, 2014
Por trás da CPI da Petrobras, um outro megacampo de petróleo, maior que Libra
Autor: Fernando Brito
Não surpreende a aliança de sangue entre Aécio Neves e Eduardo Campos pela CPI da Petrobras.
Quem leu a história do diálogo entre José Serra e Patrícia Pradal, diretora da Chevron, às vésperas da eleição de 2010, onde o tucano pedia paciência porque, no Governo, desfaria a regra dos contratos de partilha e devolveria o pré-sal ao regime de concessão entreguista de Fernando Henrique Cardoso deveria saber que, a cada eleição presidencial, coloca-se em jogo o grande “cofre público” que representam as megajazidas de petróleo encontradas no litoral brasileiro.
Sempre é bom repetir: as maiores descobertas no século 21, ao ponto de fazerem a Agência Internacional de Energia prever que virá mais petróleo “novo” do Brasil do que do Oriente médio nos próximos 10 anos, e tanto quanto do xisto norte americano, a nova grande fronteira energética mundial.
Em 2010, a jóia da coroa que o candidato a Rei procurava usar como penhor de sua ascensão ao poder chamava-se Libra, com seus 10 bilhões de barris em reservas.
Em 2014, chama-se Franco (se seu complexo de campos semi-contíguos, Florim e o Entorno de Iara) com mais de 12 bilhões de barris.
Em 2010, também travou-se uma batalha prévia, igualmente com uma CPI da Petrobras (alguém consegue lembrar o pretexto desta CPI?) que visava inviabilizar politicamente a adoção do modelo de partilha, que custou duras penas ao Governo Lula ver aprovado no Congresso.
Agora, a batalha política é para inviabilizar, com o enfraquecimento da Petrobras, a decisão que terá de ser tomada, até setembro, de estender – ou não – a entrega da exploração desta nova mega-reserva de petróleo à Petrobras, que dela só tem assegurados 5 bilhões de barris, concedidos à empresa como cessão onerosa no processo de capitalização feito àquela época.
Estender a cessão onerosa de toda a área à Petrobras seria o natural, mas como fazê-lo se a empresa é pintada como fraca, semi-falida e, pior, desacreditada por escândalos fabricados?
Param por aí as semelhanças e começam as dessemelhanças, que colocam em risco esta imensa riqueza, que os cochichos oposicionistas, como ocorreu com Serra, desfilam aos olhos famintos dos interesses internacionais.
É que em 2010 esta batalha se desenvolvia diante dos olhos do povo brasileiro, embora só com os telegramas do Wikileaks tenhamos sabido dos detalhes dos encontros com os representantes das “potências estrangeiras”.
Agora, a pretexto de prudência, procura-se manter um segredo de polichinelo sobre o tamanho desta riqueza, com a vã ilusão de que, assim, haverá condições administrativas melhores para transferi-las integralmente à Petrobras.
Segredo é apenas para o povo brasileiro, porque todo o “mercado” já sabe daquelas potencialidade e da intenção de que fique com a nossa petroleira.
Como, porém, o Brasil e a Petrobras têm administrações que se preocupam em ser “essencialmente técnicas”, esperam, antes de falar disso, equacionar todas as condições de viabilidade da exploração daquele tesouro.
Não compreendem que esta viabilidade é, essencialmente, política, embora vá expressar-se em dinheiro, sondas, navios, dutos e outros equipamentos.
O petróleo está lá, tudo isso é necessário para tirá-lo (e às vezes é preciso pedir ajuda, como este blog não hesitou em defender quando do leilão de Libra), mas o essencial, para tê-lo, é saber que é nosso e que é preciso retirá-lo de forma a que seus frutos venham para o povo brasileiro.
No seu terceiro ano de governo, Fernando Henrique teve força para desfazer um dogma histórico fundado pelas ruas com a campanha do Petróleo é Nosso e parido pela mão de Getúlio Vargas.
Como é que outro Governo não teria força para revogar um simples regime de partilha e abrir este megacampo (e tudo o que ainda está por ser descoberto) ao capital estrangeiro?
Lula travou a batalha do pré-sal diante dos olhos dos brasileiros.
Por melhor que seja como gerentes e por mais comprometidas que sejam com a defesa da Petrobras, Dilma Roussef e Graça Foster, a presidente da empresa, devem entender que a fonte da energia da Petrobras é o desejo de progresso e soberania do povo brasileiro.
Se as razões profundas das sucessivas “ondas” contra a Petrobras nãos forem mostradas ao Brasil, não há peito forte o suficiente para arrostá-las.
A virtude de um líder não é fazer sozinho, substituindo-se ao povo.
É ser a chama que acende a vontade profunda deste povo e confiar na sabedoria coletiva que, quando sabe o que se passa, não erra ao decidir.
Não surpreende a aliança de sangue entre Aécio Neves e Eduardo Campos pela CPI da Petrobras.
Quem leu a história do diálogo entre José Serra e Patrícia Pradal, diretora da Chevron, às vésperas da eleição de 2010, onde o tucano pedia paciência porque, no Governo, desfaria a regra dos contratos de partilha e devolveria o pré-sal ao regime de concessão entreguista de Fernando Henrique Cardoso deveria saber que, a cada eleição presidencial, coloca-se em jogo o grande “cofre público” que representam as megajazidas de petróleo encontradas no litoral brasileiro.
Sempre é bom repetir: as maiores descobertas no século 21, ao ponto de fazerem a Agência Internacional de Energia prever que virá mais petróleo “novo” do Brasil do que do Oriente médio nos próximos 10 anos, e tanto quanto do xisto norte americano, a nova grande fronteira energética mundial.
Em 2010, a jóia da coroa que o candidato a Rei procurava usar como penhor de sua ascensão ao poder chamava-se Libra, com seus 10 bilhões de barris em reservas.
Em 2014, chama-se Franco (se seu complexo de campos semi-contíguos, Florim e o Entorno de Iara) com mais de 12 bilhões de barris.
Em 2010, também travou-se uma batalha prévia, igualmente com uma CPI da Petrobras (alguém consegue lembrar o pretexto desta CPI?) que visava inviabilizar politicamente a adoção do modelo de partilha, que custou duras penas ao Governo Lula ver aprovado no Congresso.
Agora, a batalha política é para inviabilizar, com o enfraquecimento da Petrobras, a decisão que terá de ser tomada, até setembro, de estender – ou não – a entrega da exploração desta nova mega-reserva de petróleo à Petrobras, que dela só tem assegurados 5 bilhões de barris, concedidos à empresa como cessão onerosa no processo de capitalização feito àquela época.
Estender a cessão onerosa de toda a área à Petrobras seria o natural, mas como fazê-lo se a empresa é pintada como fraca, semi-falida e, pior, desacreditada por escândalos fabricados?
Param por aí as semelhanças e começam as dessemelhanças, que colocam em risco esta imensa riqueza, que os cochichos oposicionistas, como ocorreu com Serra, desfilam aos olhos famintos dos interesses internacionais.
É que em 2010 esta batalha se desenvolvia diante dos olhos do povo brasileiro, embora só com os telegramas do Wikileaks tenhamos sabido dos detalhes dos encontros com os representantes das “potências estrangeiras”.
Agora, a pretexto de prudência, procura-se manter um segredo de polichinelo sobre o tamanho desta riqueza, com a vã ilusão de que, assim, haverá condições administrativas melhores para transferi-las integralmente à Petrobras.
Segredo é apenas para o povo brasileiro, porque todo o “mercado” já sabe daquelas potencialidade e da intenção de que fique com a nossa petroleira.
Como, porém, o Brasil e a Petrobras têm administrações que se preocupam em ser “essencialmente técnicas”, esperam, antes de falar disso, equacionar todas as condições de viabilidade da exploração daquele tesouro.
Não compreendem que esta viabilidade é, essencialmente, política, embora vá expressar-se em dinheiro, sondas, navios, dutos e outros equipamentos.
O petróleo está lá, tudo isso é necessário para tirá-lo (e às vezes é preciso pedir ajuda, como este blog não hesitou em defender quando do leilão de Libra), mas o essencial, para tê-lo, é saber que é nosso e que é preciso retirá-lo de forma a que seus frutos venham para o povo brasileiro.
No seu terceiro ano de governo, Fernando Henrique teve força para desfazer um dogma histórico fundado pelas ruas com a campanha do Petróleo é Nosso e parido pela mão de Getúlio Vargas.
Como é que outro Governo não teria força para revogar um simples regime de partilha e abrir este megacampo (e tudo o que ainda está por ser descoberto) ao capital estrangeiro?
Lula travou a batalha do pré-sal diante dos olhos dos brasileiros.
Por melhor que seja como gerentes e por mais comprometidas que sejam com a defesa da Petrobras, Dilma Roussef e Graça Foster, a presidente da empresa, devem entender que a fonte da energia da Petrobras é o desejo de progresso e soberania do povo brasileiro.
Se as razões profundas das sucessivas “ondas” contra a Petrobras nãos forem mostradas ao Brasil, não há peito forte o suficiente para arrostá-las.
A virtude de um líder não é fazer sozinho, substituindo-se ao povo.
É ser a chama que acende a vontade profunda deste povo e confiar na sabedoria coletiva que, quando sabe o que se passa, não erra ao decidir.
EUA reclamam 5 mil milhões de dólares de indemnização à Standard & Poor’s
O procurador-geral americano diz que a conduta da agência foi "escandalosa" e acusa-a de ter tido um papel importante na crise financeira.
A Administração norte-americana vai reclamar à Standard & Poor’s uma indemnização de cinco mil milhões de dólares (o equivalente a 3,7 mil milhões de euros). O processo tem como base o papel que a agência de rating desempenhou na crise financeira que eclodiu em 2008 e a acusação centra-se na prática de fraude junto dos investidores.
A Standard & Poor’s, segundo a acusação, terá inflacionado os ratings atribuídos aos chamados produtos tóxicos (derivados financeiros que tinham na base uma hipoteca) e negligenciou os riscos que lhes estavam associados. Esta combinação de análises acabou por ditar fortes perdas para milhões de investidores quando o preço das casas começou a cair e o negócio do subprime ruiu.
“Posto de forma simples, esta alegada conduta foi escandalosa”, afirmou nesta terça-feira o procurador-geral (equivalente a ministro da Justiça) norte-americano, Eric Holder. O responsável não esclareceu por que é que as duas outras agências de rating dos Estados Unidos, a Moody’s e a Fitch, não foram alvo de processos.
Para além da Administração federal, também os governos de 16 estados estão a processar a agência, que é acusada de ter manipulado os ratings para agradar e conseguir mais negócios dos bancos de investimento que criaram a gama tóxica de derivados financeiros.
A Standard & Poor’s emitiu ontem um comunicado onde nega as acusações do Governo e promete uma defesa “vigorosa” em tribunal.
A Administração norte-americana vai reclamar à Standard & Poor’s uma indemnização de cinco mil milhões de dólares (o equivalente a 3,7 mil milhões de euros). O processo tem como base o papel que a agência de rating desempenhou na crise financeira que eclodiu em 2008 e a acusação centra-se na prática de fraude junto dos investidores.
A Standard & Poor’s, segundo a acusação, terá inflacionado os ratings atribuídos aos chamados produtos tóxicos (derivados financeiros que tinham na base uma hipoteca) e negligenciou os riscos que lhes estavam associados. Esta combinação de análises acabou por ditar fortes perdas para milhões de investidores quando o preço das casas começou a cair e o negócio do subprime ruiu.
“Posto de forma simples, esta alegada conduta foi escandalosa”, afirmou nesta terça-feira o procurador-geral (equivalente a ministro da Justiça) norte-americano, Eric Holder. O responsável não esclareceu por que é que as duas outras agências de rating dos Estados Unidos, a Moody’s e a Fitch, não foram alvo de processos.
Para além da Administração federal, também os governos de 16 estados estão a processar a agência, que é acusada de ter manipulado os ratings para agradar e conseguir mais negócios dos bancos de investimento que criaram a gama tóxica de derivados financeiros.
A Standard & Poor’s emitiu ontem um comunicado onde nega as acusações do Governo e promete uma defesa “vigorosa” em tribunal.
EUA avançam para tribunal para responsabilizar S&P de fraude que levou à crise económica
FÉLIX RIBEIRO 05/02/2013
Está em movimento o primeiro grande processo judicial nos EUA contra uma agência de rating. EUA acusam Standard & Poor's de fraude civil na crise do subprime.
O Departamento de Justiça norte-americano deu início a um processo de fraude contra a Standard & Poor’s na segunda-feira, por considerar que a agência de rating ignorou as fragilidades dos investimentos em produtos financeiros hipotecários durante o período que antecedeu a crise económica de 2008.
Tal como refere o New York Times, este é o primeiro grande processo norte-americana para a responsabilização de uma agência de rating face à crise do subprime. Esta crise esteve na raiz da explosão da bolha do mercado imobiliário norte-americano, em 2008, que levaria à propagação mundial da crise económica.
Os EUA acusam agora a maior agência de rating norte-americana de ter classificado os agregados de créditos hipotecários conhecidos como subprime com a classificação mais alta de triplo-A, quando estes apresentavam um risco muito maior. Com base no alto rating que estes subprime tinham conseguido junto da S&P, os investidores reforçaram o seu apetite.
Mas, na realidade, estes produtos financeiros não apresentavam a segurança que a agência norte-americana garantia através do selo de qualidade triplo-A, o que levou a que os investidores não conseguissem reaver o seu investimento. A par deste fenómeno encontrava-se então uma acelerada corrida ao mercado hipotecário, o que contribuiu para o engordar da bolha do mercado imobiliário.
“[A S&P] conscientemente e com a intenção de defraudar, participou e executou um esquema para defraudar os investidores”, lê-se no documento apresentado aos tribunais na segunda-feira pelo Departamento de Justiça dos EUA, citado pelo New York Times.
O órgão de justiça norte-americano vai mais longe e afirma que a S&P passou a falsa ideia de que as suas classificações “eram objectivas, independentes e que não eram influenciadas por conflitos de interesses”. As acusações dirigem-se também à empresa-mãe da agência de rating, a McGraw-Hill Companies. Ao processo de acusação espera-se ainda que se juntem à volta de 12 procuradores estatais e que o regulador financeiro norte-americano apresente um processo em separado.
Processo arrasta-se há três anos
O Departamento de Justiça estava há três anos a negociar um acordo com a Standard & Poor’s que evitasse o processo judicial. Mas o acordo terá falhado definitivamente há cerca de três semanas, com a recusa da agência de rating em pagar uma indemnização de mil milhões de dólares (cerca de 737 milhões de euros) que tolheria os lucros de um ano à empresa-mãe, McGraw-Hill.
Em contraponto à indemnização exigida pelos EUA, a McGraw-Hill terá sugerido uma multa de 100 milhões de dólares (cerca de 73 milhões de euros), segundo fontes ligadas ao processo ouvidas pelo diário nova-iorquino. Dentro deste acordo, a agência de rating procurava também não ter que admitir ou confirmar a sua culpa nas acusações para evitar responsabilizar-se frente a eventuais novas acusações, algo que não foi aceite pelos responsáveis do Governo nas negociações.
Com o falhanço das negociações, entrou em acção o processo de fraude civil.
S&P recusa responsabilidade
Como escreve o Washington Post, a Standard & Poor’s antecipou-se à confirmação oficial do processo de fraude civil, que foi avançado pelo Wall Street Journal.
Num comunicado enviado aos órgãos de comunicação dos EUA, a agência de rating “parece ter delineado a sua táctica judicial para o processo”, como escreve a jornalista do Washington Post Jia Lynn Yang. Esta táctica deve passar por recusar responsabilidade ao apontar o mesmo erro a outras agências de rating e ao atribuir esse erro a falta de informação sobre os compostos financeiros avaliados.
Está em movimento o primeiro grande processo judicial nos EUA contra uma agência de rating. EUA acusam Standard & Poor's de fraude civil na crise do subprime.
O Departamento de Justiça norte-americano deu início a um processo de fraude contra a Standard & Poor’s na segunda-feira, por considerar que a agência de rating ignorou as fragilidades dos investimentos em produtos financeiros hipotecários durante o período que antecedeu a crise económica de 2008.
Tal como refere o New York Times, este é o primeiro grande processo norte-americana para a responsabilização de uma agência de rating face à crise do subprime. Esta crise esteve na raiz da explosão da bolha do mercado imobiliário norte-americano, em 2008, que levaria à propagação mundial da crise económica.
Os EUA acusam agora a maior agência de rating norte-americana de ter classificado os agregados de créditos hipotecários conhecidos como subprime com a classificação mais alta de triplo-A, quando estes apresentavam um risco muito maior. Com base no alto rating que estes subprime tinham conseguido junto da S&P, os investidores reforçaram o seu apetite.
Mas, na realidade, estes produtos financeiros não apresentavam a segurança que a agência norte-americana garantia através do selo de qualidade triplo-A, o que levou a que os investidores não conseguissem reaver o seu investimento. A par deste fenómeno encontrava-se então uma acelerada corrida ao mercado hipotecário, o que contribuiu para o engordar da bolha do mercado imobiliário.
“[A S&P] conscientemente e com a intenção de defraudar, participou e executou um esquema para defraudar os investidores”, lê-se no documento apresentado aos tribunais na segunda-feira pelo Departamento de Justiça dos EUA, citado pelo New York Times.
O órgão de justiça norte-americano vai mais longe e afirma que a S&P passou a falsa ideia de que as suas classificações “eram objectivas, independentes e que não eram influenciadas por conflitos de interesses”. As acusações dirigem-se também à empresa-mãe da agência de rating, a McGraw-Hill Companies. Ao processo de acusação espera-se ainda que se juntem à volta de 12 procuradores estatais e que o regulador financeiro norte-americano apresente um processo em separado.
Processo arrasta-se há três anos
O Departamento de Justiça estava há três anos a negociar um acordo com a Standard & Poor’s que evitasse o processo judicial. Mas o acordo terá falhado definitivamente há cerca de três semanas, com a recusa da agência de rating em pagar uma indemnização de mil milhões de dólares (cerca de 737 milhões de euros) que tolheria os lucros de um ano à empresa-mãe, McGraw-Hill.
Em contraponto à indemnização exigida pelos EUA, a McGraw-Hill terá sugerido uma multa de 100 milhões de dólares (cerca de 73 milhões de euros), segundo fontes ligadas ao processo ouvidas pelo diário nova-iorquino. Dentro deste acordo, a agência de rating procurava também não ter que admitir ou confirmar a sua culpa nas acusações para evitar responsabilizar-se frente a eventuais novas acusações, algo que não foi aceite pelos responsáveis do Governo nas negociações.
Com o falhanço das negociações, entrou em acção o processo de fraude civil.
S&P recusa responsabilidade
Como escreve o Washington Post, a Standard & Poor’s antecipou-se à confirmação oficial do processo de fraude civil, que foi avançado pelo Wall Street Journal.
Num comunicado enviado aos órgãos de comunicação dos EUA, a agência de rating “parece ter delineado a sua táctica judicial para o processo”, como escreve a jornalista do Washington Post Jia Lynn Yang. Esta táctica deve passar por recusar responsabilidade ao apontar o mesmo erro a outras agências de rating e ao atribuir esse erro a falta de informação sobre os compostos financeiros avaliados.
terça-feira, março 25, 2014
O Gato e a Lebre O México é um país pobre e desigual
Em dezembro do ano passado, em sua última mudança significativa das suas notas de crédito antes da de ontem, que rebaixou o Brasil (de BBB para BBB-), a agência classificadora de risco Standard & Poor’s elevou o “rating” do México de BBB para BBB+.
Um artigo publicado hoje por Mauro Santayanna no Jornal do Brasil ajuda a entender porque o país se tornou o “queridinho” dos mercados sem exibir um sucesso econômico quue se reflita nos padrões de vida de seu povo.
O “prêmio de bom-comportamento” do México é, essencialmente, ter feito o que Fernando Henrique fez no Brasil em 1997: abrir a exploração de petróleo aos grupos estrangeiros.
Santayanna é o melhor remédio contra o discursoo que a direita brasileira se prepara para fazer; o da “mexicanização” do Brasil.
Isso inclui, além do petróleo, acordos comerciais lesivos, com o abandono das parcerias no Mercosul e “fllexibilização” dos direitos trabalhistas para que se possa usar o Brasil como plataforma de montagem de produtos para a exportaçãoo, o que definirão com o nome de “reindustrialização” do país.
O mundo está mudando, mas não mudou e nem mudaram os interesses que fazem “money makes the world go around”.
O Gato e a Lebre
O México é um país pobre e desigual
Mauro Santayanna
A OCDE – Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico, divulgou um relatório, na última terça-feira, classificando o México e o Chile, ambos formalmente sócios da “Aliança do Pacífico”, como os dois países com maior desigualdade do grupo.
Até aí, nada a estranhar, a OCDE reúne países teoricamente desenvolvidos, que exibem dados sociais – remanescentes do período anterior à crise economia – melhores do que a da maioria dos países latino-americanos, mas eles tem se deteriorado rapidamente nos últimos anos.
A dívida explodiu entre os 34 membros da OCDE, principalmente os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda e Espanha). E o desemprego aumentou para um total de 48 milhões de pessoas, 15 milhões a mais do que em 2007, alcançando em alguns lugares, como a própria Espanha, taxas próximas a 30%.
O Chile – costumeiramente apresentado como um “milagre” latino-americano, que muitos atribuem a Pinochet – consegue ser ainda mais desigual que o México.
Mas o México perde para o Chile em renda. A sua é a menor da OCDE, e uma das mais baixas entre os países latino-americanos.
O país de Zapata, também cantado pela mídia como “exemplo” para o continente, tem, segundo estatística do FMI de 2012, renda menor que a do Chile, Uruguai, Brasil, Argentina e Venezuela.
E o pior, no lugar de crescer, ela tem diminuído nos últimos três anos. Isso, considerando-se que o México não conta com uma legislação trabalhista ou uma rede de proteção social, ou programas de renda mínima, que possam garantir um mínimo de dignidade para a população.
Na nação dos tacos e da tequila – o que explica parte de seu “sucesso” manufatureiro na montagem e maquiagem, com peças de terceiros, de produtos destinados aos Estados Unidos – sequer existe seguro-desemprego.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, quase 60% dos empregos no México são informais, contra 28% na Argentina, 34% no Brasil, 45% na Colômbia, e 45% no Peru. E quatro em cada dez cidadãos mexicanos não conseguem dinheiro para pagar uma cesta básica a cada 30 dias.
Como faziam os meios de comunicação espanhóis, que achavam que a Espanha estava uma maravilha, quando na verdade, já estava sendo engolida pela crise, os jornais mexicanos se gabam do país ter entrado para o NAFTA, o acordo que os uniu, economicamente, ao Canadá e aos Estados Unidos, e de terem assinado, com outros países, dezenas de acordos bilaterais de livre comércio.
Mas não falam dos déficits históricos em sua balança comercial, que sua renda per capita está praticamente estagnada há mais de duas décadas, e que seu poder de compra tem caído, no lugar de aumentar, nos últimos anos.
O problema da fome, do abastecimento e da inflação de alimentos também é muito grave no membro mais pobre do NAFTA.
Muita gente acha que o Brasil tem que parar de mandar alimentos para a Venezuela, mas não sabe que o governo mexicano está ultimando a compra, em nosso país, em caráter emergencial, de 300.000 toneladas de frango, para impedir que o preço das proteínas exploda, e que falte comida nos supermercados.
Muitos mexicanos também acreditam na balela de que o México é grande exportador de manufaturas, enquanto o Brasil só exporta commodities – esquecendo-se que somos o terceiro maior fabricante e vendedor global de aviões.
O fato de que sejamos o maior exportador mundial de suco de laranja, café, açúcar, carnes, – além de primeiro em minério de ferro e o segundo em etanol – e de que tenhamos triplicado nossa safra de grãos nos últimos 12 anos e estejamos a ponto de ultrapassar os EUA como o maior exportador de soja do mundo, só quer dizer uma coisa: soubemos dar mais valor à segurança alimentar do que outros países latino-americanos, e hoje temos comida para abastecer nossa mesa, e para vender para o resto do mundo.
Na hora de ler os jornais, ouvir o rádio, ou ver os noticiários de televisão, ao ouvir falar das ”reformas” e de supostos avanços mexicanos com relação ao Brasil – quando eles cresceram a metade do nosso PIB no último ano – é bom ficar com o pé atrás e colocar as barbas de molho.
Não podemos comer gato por lebre, e seguir os passos dos mexicanos, que venderam a alma ao diabo, ao se agregar – como pouco mais que escravos e camareiros – ao sistema econômico norte-americano.
Ao nos oferecer acordos semelhantes, como a UE está fazendo agora – e os EUA tentarão fazer logo em seguida – os países “ocidentais” não vão abrir seus mercados para nossas manufaturas – pelo contrário, eles têm reduzido suas compras e aumentado as vendas para cá nos últimos anos. Irão apenas tomar, implacavelmente, das nossas indústrias, o mercado sul-americano.
Um artigo publicado hoje por Mauro Santayanna no Jornal do Brasil ajuda a entender porque o país se tornou o “queridinho” dos mercados sem exibir um sucesso econômico quue se reflita nos padrões de vida de seu povo.
O “prêmio de bom-comportamento” do México é, essencialmente, ter feito o que Fernando Henrique fez no Brasil em 1997: abrir a exploração de petróleo aos grupos estrangeiros.
Santayanna é o melhor remédio contra o discursoo que a direita brasileira se prepara para fazer; o da “mexicanização” do Brasil.
Isso inclui, além do petróleo, acordos comerciais lesivos, com o abandono das parcerias no Mercosul e “fllexibilização” dos direitos trabalhistas para que se possa usar o Brasil como plataforma de montagem de produtos para a exportaçãoo, o que definirão com o nome de “reindustrialização” do país.
O mundo está mudando, mas não mudou e nem mudaram os interesses que fazem “money makes the world go around”.
O Gato e a Lebre
O México é um país pobre e desigual
Mauro Santayanna
A OCDE – Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico, divulgou um relatório, na última terça-feira, classificando o México e o Chile, ambos formalmente sócios da “Aliança do Pacífico”, como os dois países com maior desigualdade do grupo.
Até aí, nada a estranhar, a OCDE reúne países teoricamente desenvolvidos, que exibem dados sociais – remanescentes do período anterior à crise economia – melhores do que a da maioria dos países latino-americanos, mas eles tem se deteriorado rapidamente nos últimos anos.
A dívida explodiu entre os 34 membros da OCDE, principalmente os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda e Espanha). E o desemprego aumentou para um total de 48 milhões de pessoas, 15 milhões a mais do que em 2007, alcançando em alguns lugares, como a própria Espanha, taxas próximas a 30%.
O Chile – costumeiramente apresentado como um “milagre” latino-americano, que muitos atribuem a Pinochet – consegue ser ainda mais desigual que o México.
Mas o México perde para o Chile em renda. A sua é a menor da OCDE, e uma das mais baixas entre os países latino-americanos.
O país de Zapata, também cantado pela mídia como “exemplo” para o continente, tem, segundo estatística do FMI de 2012, renda menor que a do Chile, Uruguai, Brasil, Argentina e Venezuela.
E o pior, no lugar de crescer, ela tem diminuído nos últimos três anos. Isso, considerando-se que o México não conta com uma legislação trabalhista ou uma rede de proteção social, ou programas de renda mínima, que possam garantir um mínimo de dignidade para a população.
Na nação dos tacos e da tequila – o que explica parte de seu “sucesso” manufatureiro na montagem e maquiagem, com peças de terceiros, de produtos destinados aos Estados Unidos – sequer existe seguro-desemprego.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, quase 60% dos empregos no México são informais, contra 28% na Argentina, 34% no Brasil, 45% na Colômbia, e 45% no Peru. E quatro em cada dez cidadãos mexicanos não conseguem dinheiro para pagar uma cesta básica a cada 30 dias.
Como faziam os meios de comunicação espanhóis, que achavam que a Espanha estava uma maravilha, quando na verdade, já estava sendo engolida pela crise, os jornais mexicanos se gabam do país ter entrado para o NAFTA, o acordo que os uniu, economicamente, ao Canadá e aos Estados Unidos, e de terem assinado, com outros países, dezenas de acordos bilaterais de livre comércio.
Mas não falam dos déficits históricos em sua balança comercial, que sua renda per capita está praticamente estagnada há mais de duas décadas, e que seu poder de compra tem caído, no lugar de aumentar, nos últimos anos.
O problema da fome, do abastecimento e da inflação de alimentos também é muito grave no membro mais pobre do NAFTA.
Muita gente acha que o Brasil tem que parar de mandar alimentos para a Venezuela, mas não sabe que o governo mexicano está ultimando a compra, em nosso país, em caráter emergencial, de 300.000 toneladas de frango, para impedir que o preço das proteínas exploda, e que falte comida nos supermercados.
Muitos mexicanos também acreditam na balela de que o México é grande exportador de manufaturas, enquanto o Brasil só exporta commodities – esquecendo-se que somos o terceiro maior fabricante e vendedor global de aviões.
O fato de que sejamos o maior exportador mundial de suco de laranja, café, açúcar, carnes, – além de primeiro em minério de ferro e o segundo em etanol – e de que tenhamos triplicado nossa safra de grãos nos últimos 12 anos e estejamos a ponto de ultrapassar os EUA como o maior exportador de soja do mundo, só quer dizer uma coisa: soubemos dar mais valor à segurança alimentar do que outros países latino-americanos, e hoje temos comida para abastecer nossa mesa, e para vender para o resto do mundo.
Na hora de ler os jornais, ouvir o rádio, ou ver os noticiários de televisão, ao ouvir falar das ”reformas” e de supostos avanços mexicanos com relação ao Brasil – quando eles cresceram a metade do nosso PIB no último ano – é bom ficar com o pé atrás e colocar as barbas de molho.
Não podemos comer gato por lebre, e seguir os passos dos mexicanos, que venderam a alma ao diabo, ao se agregar – como pouco mais que escravos e camareiros – ao sistema econômico norte-americano.
Ao nos oferecer acordos semelhantes, como a UE está fazendo agora – e os EUA tentarão fazer logo em seguida – os países “ocidentais” não vão abrir seus mercados para nossas manufaturas – pelo contrário, eles têm reduzido suas compras e aumentado as vendas para cá nos últimos anos. Irão apenas tomar, implacavelmente, das nossas indústrias, o mercado sul-americano.
A “nota” da Standard & Poor’s: a economia “é a política, estúpido”…
O noticiário econômico dos últimos dias, afora o que é simples alarmismo, foi positivo.
O PIB surpreendeu os analistas, subindo mais que o esperado.
Os serviços cresceram, a indústria cresceu, a inflação manteve-se sob controle.
O governo dançou direitinho a música do capital, aumentou juros mês após mês, até o nível absurdo a que chegamos.
Mas a fome dos lobos é insaciável e o cordeiro ganhou a mordida merecida.
A tal “agência de risco” Standard & Poor’s baixou a “nota” do país.
Nem é o caso de discutir a seriedade destas agências, que não perceberam a crise de 2008 debaixo do nariz delas.
Ou de lembrar que essa nota foi dada já em pleno Governo Dilma, em novembro de 2011, sem que tenha contribuído em nada para a economia brasileira avançar.
Ou ainda que a nota, agora, é a mesma que tínhamos em pleno “boom” econômico de 2010.
A economia, agora, é a política, dir-se-ia aos estúpidos.
A mídia, amanhã, comemorará e cantará a ópera do caos.
“Eu não disse?”
E o povo brasileiro procurará a voz de seus líderes e não a encontrará, como já não encontra há alguns meses.
Ouve-se um uníssono.
E não se ouve a polêmica.
E a política, este blog escreve lá em cima, todas as horas e dias, sem polêmica, é a arma poderosa das elites.
O PIB surpreendeu os analistas, subindo mais que o esperado.
Os serviços cresceram, a indústria cresceu, a inflação manteve-se sob controle.
O governo dançou direitinho a música do capital, aumentou juros mês após mês, até o nível absurdo a que chegamos.
Mas a fome dos lobos é insaciável e o cordeiro ganhou a mordida merecida.
A tal “agência de risco” Standard & Poor’s baixou a “nota” do país.
Nem é o caso de discutir a seriedade destas agências, que não perceberam a crise de 2008 debaixo do nariz delas.
Ou de lembrar que essa nota foi dada já em pleno Governo Dilma, em novembro de 2011, sem que tenha contribuído em nada para a economia brasileira avançar.
Ou ainda que a nota, agora, é a mesma que tínhamos em pleno “boom” econômico de 2010.
A economia, agora, é a política, dir-se-ia aos estúpidos.
A mídia, amanhã, comemorará e cantará a ópera do caos.
“Eu não disse?”
E o povo brasileiro procurará a voz de seus líderes e não a encontrará, como já não encontra há alguns meses.
Ouve-se um uníssono.
E não se ouve a polêmica.
E a política, este blog escreve lá em cima, todas as horas e dias, sem polêmica, é a arma poderosa das elites.
A reunificação da Crimeia e os interesses geopolíticos
25/03/2014 Vladímir Pozner, jornalista
A reunificação - ou anexação, dependendo das preferências políticas - da Crimeia é resultado de mais de vinte anos de relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Excluo a Europa, que se limita a um todo geográfico, mas não político. Houve um tempo em que ela sonhava com uma Constituição unificada, com os Estados Unidos da Europa, capazes de competirem com os EUA e a China, mas esses sonhos não passaram disso mesmo: de sonhos.
Quando a União Soviética caiu no esquecimento ficou claro, embora não formalmente reconhecido, que a Rússia havia perdido a Guerra Fria para os EUA. E do lado destes últimos surgiram expectativas de que a parte perdedora fosse se comportar exatamente como devem se comportar aqueles que perdem, que logo ela estaria seguindo as regras ocidentais do jogo, que seria receptiva à mentalidade ocidental e que iria crescer bem calminha sem voltar nunca mais à grandeza do passado.
Essas expectativas não se concretizaram. A Rússia não foi receptiva nem aos valores ocidentais, nem à mentalidade ocidental. E não porque tenha permanecido prisioneira do seu passado soviético, mas por um motivo bem mais sério: porque as origens da Rússia estão no cristianismo oriental, bizantino, ao contrário do Ocidente, cujas fontes remontam a Roma, ao cristianismo ocidental. Entre estas duas mentalidades e valores existe um abismo. Essa foi a primeira razão.
Balança de sanções e promessas
Em segundo lugar, a Rússia, que estava de joelhos, começou a se levantar bem mais rápido do que se esperava, em grande parte por conta dos inesperados altos preços do petróleo. Em terceiro lugar, rapidamente ficou claro que a Rússia não ia se comportar como um país derrotado. O primeiro sinal disso foi o conflito que resultou da decisão da Otan de bombardear a Iugoslávia, à qual a Rússia se opôs abertamente. Por outro lado, lembramos que nem o Conselho de Segurança da ONU, nem a União Europeia, deram o seu aval para esses bombardeios. Os EUA tomaram a decisão, dizendo à Rússia que davam conta do recado sem ela. A partir desse acontecimento verificamos um acúmulo de desentendimentos entre os EUA e a Rússia, sendo que em todos eles os Estados Unidos assumiram uma posição de força. A irritação foi aumentando em ambos os lados: nos EUA, porque a Rússia não se comportava "como devia", e na Rússia, porque o governo norte-americano não lhe prestava contas, considerando-o claramente como um país de segunda categoria.
Durante todo esse tempo os EUA tentaram – sem sucesso – pressionar a Rússia a sair daquelas regiões que ela tradicionalmente considerava como sua esfera de influência: o Cáucaso, a Ásia Central, o Oriente Médio e a Europa do Leste. A Rússia não tinha resposta para isso (leia-se: forças), embora o uso extremamente hábil de erros norte-americanos lhe permitiu aumentar fortemente a sua popularidade no mundo árabe, em países como a Síria e o Irã.
Mas o que a Rússia não poderia tolerar em hipótese alguma era o desejo dos EUA de tomar o seu lugar na Ucrânia. E a questão não estava apenas no temor de a Ucrânia se tornar membro da Otan, cujas tropas, nesse caso, ficariam às portas da fronteira sudoeste da Rússia. A questão estava (e está) na profunda crença psicológica de que a Ucrânia é "nossa" e que os ucranianos são "nossos" (tente imaginar por um momento que ocorreu uma revolução no México e que o novo líder mexicano convidou a Rússia a colocar parte de suas Forças Armadas ao longo da fronteira entre o país e os EUA. Consegue imaginar? As consequências ficaram claras?).
Partitura clássica para consertar nações
Enquanto isso, os conflitos que ocorriam na Ucrânia sacudiam cada vez mais o país. A chegada de Viktor Iuchenko [presidente da Ucrânia entre 2005 e 2010] ao poder não só não trouxe salvação à Ucrânia, como mergulhou o país no caos. Nas eleições presidenciais seguintes, Iuchenko obteve 5% dos votos. É evidente que a eleição de Viktor Ianukovitch [presidente que foi deposto no final de fevereiro passado, em meio à crise no país] foi resultado do voto de protesto. Com Ianukovitch, a independência da Ucrânia se aproximou do zero, a corrupção atingiu um tal nível que, em comparação, a corrupção russa ficou parecendo brincadeira de criança. O descontentamento popular não parou de crescer, mas...
Tudo isso foi interpretado pela liderança russa como uma nova confirmação daquilo que vem acontecendo nos últimos vinte anos: o Ocidente impõe as suas decisões e se recusa por completo em seus atos (mas não nas palavras) a levar em conta os interesses da Rússia – neste caso, em uma região que durante séculos fez parte do chamado "mundo russo". Só uma pessoa muito limitada poderia duvidar que a resposta não tardasse. E ela não tardou. Eu não excluo a possibilidade de que era precisamente com isto que os EUA estavam contando, para aproveitar a situação e, até certo ponto, voltar para o estado psicológico da Guerra Fria. Não estou afirmando que foi o que aconteceu, tampouco estou excluindo: ficou penoso para os EUA ver o papel proeminente que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, passou a desempenhar, a ponto de ser reconhecido como "o político mais influente do ano", "o homem do ano" etc.
E quanto à Crimeia? Será necessário lembrar que, a rigor, a Crimeia nunca fez parte da Ucrânia? A Presidência do Conselho Supremo, que deveria ter aprovado a decisão de Nikita Khrushchev sobre a transferência da Crimeia do território da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) para a RSSU (República Socialista Soviética da Ucrânia), votou com apenas 13 votos. A Presidência era formada por 27 pessoas e, por isso, não houve quorum (os outros 14 simplesmente faltaram à votação). Mas a questão não está nos artifícios legais. A questão está na tomada de decisão de que qualquer negociação com o Ocidente é inútil, de que chegou a hora de dar a entender que os interesses nacionais da Rússia não podem ser tratados desse modo. E o fato de a Crimeia (para não mencionar Sevastopol) pertencer histórica e eticamente à Rússia, de os habitantes da Crimeia, na sua esmagadora maioria, se voltarem para a Rússia, era perfeitamente claro. E a decisão foi tomada.
Confira mais opiniões
Em seguida poderíamos discutir a questão dos prós e dos contras. Mas eu insisto que tais discussões devem se basear em conhecimento e na sóbria compreensão daquilo que aconteceu e está acontecendo.
A postura do Ocidente em tudo o que aconteceu não tem nada a ver nem com o desejo de proteger os direitos humanos na Ucrânia, nem com nenhuma preocupação com a preservação da integridade do país. Ela tem a ver com interesses estratégicos geopolíticos. E a ação da Rússia, em minha opinião, não foi de todo ditada pelo desejo de "proteger os russos, os ucranianos e os tártaros da Crimeia", mas pela mesma razão: devido a interesses geopolíticos e nacionais.
Publicado originalmente em pozneronline.ru
A reunificação - ou anexação, dependendo das preferências políticas - da Crimeia é resultado de mais de vinte anos de relações entre a Rússia e os Estados Unidos. Excluo a Europa, que se limita a um todo geográfico, mas não político. Houve um tempo em que ela sonhava com uma Constituição unificada, com os Estados Unidos da Europa, capazes de competirem com os EUA e a China, mas esses sonhos não passaram disso mesmo: de sonhos.
Quando a União Soviética caiu no esquecimento ficou claro, embora não formalmente reconhecido, que a Rússia havia perdido a Guerra Fria para os EUA. E do lado destes últimos surgiram expectativas de que a parte perdedora fosse se comportar exatamente como devem se comportar aqueles que perdem, que logo ela estaria seguindo as regras ocidentais do jogo, que seria receptiva à mentalidade ocidental e que iria crescer bem calminha sem voltar nunca mais à grandeza do passado.
Essas expectativas não se concretizaram. A Rússia não foi receptiva nem aos valores ocidentais, nem à mentalidade ocidental. E não porque tenha permanecido prisioneira do seu passado soviético, mas por um motivo bem mais sério: porque as origens da Rússia estão no cristianismo oriental, bizantino, ao contrário do Ocidente, cujas fontes remontam a Roma, ao cristianismo ocidental. Entre estas duas mentalidades e valores existe um abismo. Essa foi a primeira razão.
Balança de sanções e promessas
Em segundo lugar, a Rússia, que estava de joelhos, começou a se levantar bem mais rápido do que se esperava, em grande parte por conta dos inesperados altos preços do petróleo. Em terceiro lugar, rapidamente ficou claro que a Rússia não ia se comportar como um país derrotado. O primeiro sinal disso foi o conflito que resultou da decisão da Otan de bombardear a Iugoslávia, à qual a Rússia se opôs abertamente. Por outro lado, lembramos que nem o Conselho de Segurança da ONU, nem a União Europeia, deram o seu aval para esses bombardeios. Os EUA tomaram a decisão, dizendo à Rússia que davam conta do recado sem ela. A partir desse acontecimento verificamos um acúmulo de desentendimentos entre os EUA e a Rússia, sendo que em todos eles os Estados Unidos assumiram uma posição de força. A irritação foi aumentando em ambos os lados: nos EUA, porque a Rússia não se comportava "como devia", e na Rússia, porque o governo norte-americano não lhe prestava contas, considerando-o claramente como um país de segunda categoria.
Durante todo esse tempo os EUA tentaram – sem sucesso – pressionar a Rússia a sair daquelas regiões que ela tradicionalmente considerava como sua esfera de influência: o Cáucaso, a Ásia Central, o Oriente Médio e a Europa do Leste. A Rússia não tinha resposta para isso (leia-se: forças), embora o uso extremamente hábil de erros norte-americanos lhe permitiu aumentar fortemente a sua popularidade no mundo árabe, em países como a Síria e o Irã.
Mas o que a Rússia não poderia tolerar em hipótese alguma era o desejo dos EUA de tomar o seu lugar na Ucrânia. E a questão não estava apenas no temor de a Ucrânia se tornar membro da Otan, cujas tropas, nesse caso, ficariam às portas da fronteira sudoeste da Rússia. A questão estava (e está) na profunda crença psicológica de que a Ucrânia é "nossa" e que os ucranianos são "nossos" (tente imaginar por um momento que ocorreu uma revolução no México e que o novo líder mexicano convidou a Rússia a colocar parte de suas Forças Armadas ao longo da fronteira entre o país e os EUA. Consegue imaginar? As consequências ficaram claras?).
Partitura clássica para consertar nações
Enquanto isso, os conflitos que ocorriam na Ucrânia sacudiam cada vez mais o país. A chegada de Viktor Iuchenko [presidente da Ucrânia entre 2005 e 2010] ao poder não só não trouxe salvação à Ucrânia, como mergulhou o país no caos. Nas eleições presidenciais seguintes, Iuchenko obteve 5% dos votos. É evidente que a eleição de Viktor Ianukovitch [presidente que foi deposto no final de fevereiro passado, em meio à crise no país] foi resultado do voto de protesto. Com Ianukovitch, a independência da Ucrânia se aproximou do zero, a corrupção atingiu um tal nível que, em comparação, a corrupção russa ficou parecendo brincadeira de criança. O descontentamento popular não parou de crescer, mas...
Tudo isso foi interpretado pela liderança russa como uma nova confirmação daquilo que vem acontecendo nos últimos vinte anos: o Ocidente impõe as suas decisões e se recusa por completo em seus atos (mas não nas palavras) a levar em conta os interesses da Rússia – neste caso, em uma região que durante séculos fez parte do chamado "mundo russo". Só uma pessoa muito limitada poderia duvidar que a resposta não tardasse. E ela não tardou. Eu não excluo a possibilidade de que era precisamente com isto que os EUA estavam contando, para aproveitar a situação e, até certo ponto, voltar para o estado psicológico da Guerra Fria. Não estou afirmando que foi o que aconteceu, tampouco estou excluindo: ficou penoso para os EUA ver o papel proeminente que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, passou a desempenhar, a ponto de ser reconhecido como "o político mais influente do ano", "o homem do ano" etc.
E quanto à Crimeia? Será necessário lembrar que, a rigor, a Crimeia nunca fez parte da Ucrânia? A Presidência do Conselho Supremo, que deveria ter aprovado a decisão de Nikita Khrushchev sobre a transferência da Crimeia do território da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) para a RSSU (República Socialista Soviética da Ucrânia), votou com apenas 13 votos. A Presidência era formada por 27 pessoas e, por isso, não houve quorum (os outros 14 simplesmente faltaram à votação). Mas a questão não está nos artifícios legais. A questão está na tomada de decisão de que qualquer negociação com o Ocidente é inútil, de que chegou a hora de dar a entender que os interesses nacionais da Rússia não podem ser tratados desse modo. E o fato de a Crimeia (para não mencionar Sevastopol) pertencer histórica e eticamente à Rússia, de os habitantes da Crimeia, na sua esmagadora maioria, se voltarem para a Rússia, era perfeitamente claro. E a decisão foi tomada.
Confira mais opiniões
Em seguida poderíamos discutir a questão dos prós e dos contras. Mas eu insisto que tais discussões devem se basear em conhecimento e na sóbria compreensão daquilo que aconteceu e está acontecendo.
A postura do Ocidente em tudo o que aconteceu não tem nada a ver nem com o desejo de proteger os direitos humanos na Ucrânia, nem com nenhuma preocupação com a preservação da integridade do país. Ela tem a ver com interesses estratégicos geopolíticos. E a ação da Rússia, em minha opinião, não foi de todo ditada pelo desejo de "proteger os russos, os ucranianos e os tártaros da Crimeia", mas pela mesma razão: devido a interesses geopolíticos e nacionais.
Publicado originalmente em pozneronline.ru
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