O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
domingo, setembro 25, 2011
Opus Dei quer “faxina verde-amarela”
Por Altamiro Borges, em seu blog
A indignação contra o desvio de recursos públicos é justa e necessária. Afinal, é dinheiro do povo extraviado para servir a corruptos e corruptores. Mas é preciso ficar esperto diante dos espertalhões, que usam causas nobres para fins ilícitos. É sempre bom lembrar que o golpe militar de 1964 teve como mote o “combate à corrupção e ao comunismo”. Pura manobra para enganar os ingênuos!
> Nas recentes “marchas contra a corrupção”, políticos e partidos que não tem qualquer moral para falar em ética fizeram escarcéu sobre o tema. O senador tucano Álvaro Dias, o neto-demo de ACM, a juventude do PSDB e a mídia demotucana foram os maiores incentivadores dos protestos “espontâneos”. Agora, é o Opus Dei, uma seita de fascistóide, de extrema-direita, que dá seu apoio às “marchas”.
“Mudar a cara do Brasil”
Em artigo publicado no jornal Estadão, o jornalista Carlos Alberto Di Franco, um dos fundadores e chefões do Opus Dei no país, defende a urgência de uma “faxina verde-amarela”. Ele se diz encantado com os protestos do Dia da Independência. “Assistiu-se ao primeiro lance de um movimento de cidadania que tem tudo para mudar a cara do Brasil”. O Opus Dei apoiou o golpe de 1964 com o mesmo objetivo.
Nas entrelinhas, Di Franco não esconde que seu objetivo é fustigar as forças de esquerda e o governo Dilma. “O movimento cobrou a punição dos envolvidos no mensalão do PT, aquele que o ex-presidente Lula diz que nunca existiu... A passeata ocorreu uma semana após o congresso nacional do PT deixar claro que não apóia nenhum tipo de faxina anticorrupção no governo”, mentiu.
Massa de manobra da direita
No artigo, ele lamenta a derrota da investida golpista de 2006, que pregou o impeachment de Lula. “O mensalão do PT parecia que podia terminar em punição. Acabou em pizza. Infelizmente”. Mas o líder do Opus Dei diz que, agora, está otimista com as marchas. Elas contam, entre outros, com o apoio de “meus colegas da mídia, depositários da esperança de uma sociedade traída por suas autoridades”. E concluí: “Vislumbro nas passeatas da faxina verde-amarela o reencontro do Brasil com a dignidade e esperança”.
O artigo-panfleto de Di Franco deve servir de alerta aos que ficam indignados contra a corrupção – não para arrefecer esta justa demanda, mas sim para que não sejam massa de manobra da direita. Esta mesma direita que se mascara de moralista para servir aos interesses dos poderosos – dos sonegadores, dos exploradores de trabalho escravo, dos rentistas, do capital.
Para conhecer melhor o Opus Dei e Carlos Alberto Di Franco, sugiro as seguintes leituras:
- Alckmin e a conspiração do Opus Dei
- Padre Marcelo S.A. e o Opus Dei
- Casoy e Gandra: CCC e Opus Dei unidosQuem são os "éticos" do Opus Dei
O Opus Dei (do latim, Obra de Deus) foi fundado em outubro de 1928, na Espanha, pelo padre Josemaría Escrivá. O jovem sacerdote de 26 anos diz ter recebido a “iluminação divina” durante a sua clausura num mosteiro de Madri. Preocupado com o avanço das esquerdas no país, este excêntrico religioso, visto pelos amigos de batina como um “fanático e doente mental”, decidiu montar uma organização ultra-secreta para interferir nos rumos da Espanha. Segundo as suas palavras, ela seria “uma injeção intravenosa na corrente sanguínea da sociedade”, infiltrando-se em todos os poros de poder. Deveria reunir bispos e padres, mas, principalmente, membros laicos, que não usassem hábitos monásticos ou qualquer tipo de identificação.
Reconhecida oficialmente pelo Vaticano em 1947, esta seita logo se tornou um contraponto ao avanço das idéias progressistas na Igreja. Em 1962, o papa João 23 convocou o Concílio Vaticano II, que marca uma viragem na postura da Igreja, aproximando-a dos anseios populares. No seu fanatismo, Escrivá não acatou a mudança. Criticou o fim da missa rezada em latim, com os padres de costas para os fiéis, e a abolição do Index Librorum Prohibitorum, dogma obscurantista do século 16 que listava livros “perigosos” e proibia sua leitura pelos fiéis. “Este concílio, minhas filhas, é o concílio do diabo”, garantiu Escrivá para alguns seguidores, segundo relato do jornalista Emílio Corbiere no livro “Opus Dei: El totalitarismo católico”.
O poder no Vaticano
Josemaría Escrivá faleceu em 1975. Mas o Opus Dei se manteve e adquiriu maior projeção com a guinada direitista do Vaticano a partir da nomeação do papa polonês João Paulo II. Para o teólogo espanhol Juan Acosta, “a relação entre Karol Wojtyla e o Opus Dei atingiu o seu êxito nos anos 80-90, com a irresistível ascensão da Obra à cúpula do Vaticano, a partir de onde interveio ativamente no processo de reestruturação da Igreja Católica sob o protagonismo do papa e a orientação do cardeal alemão Ratzinger”. Em 1982, a seita foi declarada “prelazia pessoal” – a única existente até hoje –, o que no Direito Canônico significa que ela só presta contas ao papa, que só obedece ao prelado (cargo vitalício hoje ocupado por dom Javier Echevarría) e que seus adeptos não se submetem aos bispos e dioceses, gozando de total autonomia.
O ápice do Opus Dei ocorreu em outubro de 2002, quando o seu fundador foi canonizado pelo papa numa cerimônia que reuniu 350 mil simpatizantes na Praça São Pedro, no Vaticano. A meteórica canonização de Josemaría Escrivá, que durou apenas dez anos, quando geralmente este processo demora décadas e até séculos, gerou fortes críticas de diferentes setores católicos. Muitos advertiram que o Opus Dei estava se tornando uma “igreja dentro da Igreja”. Lembraram um alerta do líder jesuíta Vladimir Ledochowshy que, num memorando ao papa, denunciou a seita pelo “desejo secreto de dominar o mundo”. Apesar da reação, o papa João Paulo II e seu principal teólogo, Joseph Ratzinger, ex-chefe da repressora Congregação para Doutrina da Fé e atual papa Bento 16, não vacilaram em dar maiores poderes ao Opus Dei.
Vários estudos garantem que esta relação privilegiada decorreu de razões políticas e econômicas. No livro “O mundo secreto do Opus Dei”, o jornalista canadense Robert Hutchinson afirma que esta organização acumula uma fortuna de 400 bilhões de dólares e que financiou o sindicato Solidariedade, na Polônia, que teve papel central na débâcle do bloco soviético nos anos 90. O complô explicaria a sólida amizade com o papa, que era polonês e um visceral anticomunista. Já Henrique Magalhães, numa excelente pesquisa na revista A Nova Democracia, confirma o anticomunismo de Wojtyla e relata que “fontes da Igreja Católica atribuem o poder da Obra a quitação da dívida do Banco Ambrosiano, fraudulentamente falido em 1982”.
O vínculo com os fascistas
Além do rigoroso fundamentalismo religioso, o Opus Dei sempre se alinhou aos setores mais direitistas e fascistas. Durante a Guerra Civil Espanhola, deflagrada em 1936, Escrivá deu ostensivo apoio ao general golpista Francisco Franco contra o governo republicano legitimamente eleito. Temendo represálias, ele se asilou na embaixada de Honduras, depois se internou num manicômio, “fingindo-se de louco”, antes de fugir para a França. Só retornou à Espanha após a vitória dos golpistas. Desde então, firmou sólidos laços com o ditador sanguinário Francisco Franco. “O Opus Dei praticamente se fundiu ao Estado espanhol, ao qual forneceu inúmeros ministros e dirigentes de órgãos governamentais”, afirma Henrique Magalhães.
Há também fortes indícios de que Josemaría Escrivá nutria simpatias por Adolf Hitler e pelo nazismo. De forma simulada, advogava as idéias racistas e defendia a violência. Na máxima 367 do livro Caminho, ele afirma que seus fiéis “são belos e inteligentes” e devem olhar aos demais como “inferiores e animais”. Na máxima 643, ensina que a meta “é ocupar cargos e ser um movimento de domínio mundial”. Na máxima 311, ele escancara: “A guerra tem uma finalidade sobrenatural... Mas temos, ao final, de amá-la, como o religioso deve amar suas disciplinas”. Em 1992, um ex-membro do Opus Dei revelou o que este havia lhe dito: “Hitler foi maltratado pela opinião pública. Jamais teria matado 6 milhões de judeus. No máximo, foram 4 milhões”. Outra numerária, Diane DiNicola, garantiu: “Escrivá, com toda certeza, era fascista”.
Escrivá até tentou negar estas relações. Mas, no seu processo de ascensão no Vaticano, ele contou com a ajuda de notórios nazistas. Como descreve a jornalista Maria Amaral, num artigo à revista Caros Amigos, “ao se mudar para Roma, ele estimulou ainda mais as acusações de ser simpático aos regimes autoritários, já que as suas primeiras vitórias no sentido de estabelecer o Opus Dei com estrutura eclesiástica capaz de abrigar leigos e ordenar sacerdotes se deram durante o pontificado do papa Pio XII, por meio do cardeal Eugenio Pacelli, responsável por controverso acordo da Igreja com Hitler”. Outro texto, assinado por um grupo de católicas peruanas, garante que a seita “recrutou adeptos para a organização fascista ‘Jovem Europa’, dirigida por militantes nazistas e com vínculos com o fascismo italiano e espanhol”.
Pouco antes de morrer, Josemaría Escrivá realizou uma “peregrinação” pela América Latina. Ele sempre considerou o continente fundamental para sua seita e para os negócios espanhóis. Na região, o Opus Dei apoiou abertamente várias ditaduras. No Chile, participou do regime terrorista de Augusto Pinochet. O principal ideólogo do ditador, Jaime Guzmá, era membro ativo da seita, assim como centenas de quadros civis e militares. Na Argentina, numerários foram nomeados ministros da ditadura. No Peru, a seita deu sustentação ao corrupto e autoritário Alberto Fujimori. No México, ajudou a eleger como presidente seu antigo aliado, Miguel de La Madri, que extinguiu a secular separação entre o Estado e a Igreja Católica.
Infiltração na mídia
Para semear as suas idéias religiosas e políticas de forma camuflada, Escrivá logo percebeu a importância estratégica dos meios de comunicação. Ele mesmo gostava de dizer que “temos de embrulhar o mundo em papel-jornal”. Para isso, contou com a ajuda da ditadura franquista para a construção da Universidade de Navarra, que possuí um orçamento anual de 240 milhões de euros. Jornalistas do mundo inteiro são formados nos cursos de pós-graduação desta instituição.
O Opus Dei exerce hoje forte influência sobre a mídia. Um relatório confidencial entregue ao Vaticano em 1979 pelo sucessor de Escrivá revelou que a influência da seita se estendia por “479 universidades e escolas secundárias, 604 revistas ou jornais, 52 estações de rádio ou televisões, 38 agências de publicidade e 12 produtores e distribuidoras de filmes”.
Na América Latina, a seita controla o jornal El Observador (Uruguai) e tem peso nos jornais El Mercúrio (Chile), La Nación (Argentina) e O Estado de S.Paulo. Segundo várias denúncias, ela dirige a Sociedade Interamericana de Imprensa, braço da direita na mídia hemisférica. No Brasil, a Universidade de Navarra é comandada por Carlos Alberto di Franco, numerário e articulista do Estadão, responsável pela lavagem cerebral semanal de Geraldo Alckmin nas famosas “palestras do Morumbi”.
Segundo a revista Época, seu “programa de capacitação de editores já formou mais de 200 cargos de chefia dos principais jornais do país”. O mesmo artigo confirma que “o jornalista Carlos Alberto Di Franco circula com desenvoltura nas esferas de poder, especialmente na imprensa e no círculo íntimo do governador Geraldo Alckmin”.
O veterano jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, há muito denuncia a sinistra relação do Opus Dei com a mídia nacional. Num artigo intitulado “Estranha conversão da Folha”, critica seu “visível crescimento na imprensa brasileira. A Folha de S.Paulo parecia resistir à dominação, mas capitulou”. No mesmo artigo, garante que a seita “já tomou conta da Associação Nacional de Jornais (ANJ)”, que reúne os principais monopólios da mídia do país. Para ele, a seita não visa a “salvação das almas desgarradas. É um projeto de poder, de dominação dos meios de comunicação. E um projeto desta natureza não é nem poderia ser democrático. A conversão da Folha é uma opção estratégica, política e ideológica”.
A “santa máfia”
Durante seus longos anos de atuação nos bastidores do poder, o Opus Dei constituiu uma enorme fortuna, usada para bancar seus projetos reacionários – inclusive seus planos eleitorais. Os recursos foram obtidos com a ajuda de ditadores e o uso de máquinas públicas. “O Opus Dei se infiltrou e parasitou no aparato burocrático do Estado espanhol, ocupando postos-chaves. Constituiu um império econômico graças aos favores nas largas décadas da ditadura franquista, onde vários gabinetes ministeriáveis foram ocupados integralmente por seus membros, que ditaram leis para favorecer os interesses da seita e se envolveram em vários casos de corrupção, malversação e práticas imorais”, acusa um documento de um católico do Peru.
A seita também acumulou riquezas através da doação obrigatória de heranças dos numerários e do dizimo dos supernumerários e simpatizantes infiltrados em governos e corporações empresariais. Com a ofensiva neoliberal dos anos 90, a privatização das estatais virou outra fonte de receitas. Poderosas multinacionais espanholas beneficiadas por este processo, como os bancos Santander e Bilbao Biscaia, a Telefônica e a empresa de petróleo Repsol, têm no seu corpo gerencial adeptos do Opus.
Para católicos mais críticos, que rotulam a seita de “santa máfia”, esta fortuna também deriva de negócios ilícitos. Conforme denuncia Henrique Magalhães, “além da dimensão religiosa e política, o Opus Dei tem uma terceira face: da sociedade secreta de cunho mafioso. Em seus estatutos secretos, redigidos em 1950 e expostos em 1986, a Obra determina que ‘os membros numerários e supernumerários saibam que devem observar sempre um prudente silêncio sobre os nomes dos outros associados e que não deverão revelar nunca a ninguém que eles próprios pertencem ao Opus Dei’. Inimiga jurada da Maçonaria, ela copia sua estrutura fechada, o que frequentemente serve para encobrir atos criminosos”.
O jornalista Emílio Corbiere cita os casos de fraude e remessa ilegal de divisas das empresas espanholas Matesa e Rumasa, em 1969, que financiaram a Universidade de Navarra. Há também a suspeita do uso de bancos espanhóis na lavagem de dinheiro do narcotráfico e da máfia russa. O Opus Dei esteve envolvido na falência fraudulenta do banco Comercial (pertencente ao jornal El Observador) e do Crédito Provincial (Argentina). Neste país, os responsáveis pela privatização da petrolífera YPF e das Aerolineas Argentinas, compradas por grupos espanhóis, foram denunciados por escândalos de corrupção, mas foram absolvidos pela Suprema Corte, dirigida por Antonio Boggiano, outro membro da Opus Dei. No ano retrasado, outro numerário do Opus Dei, o banqueiro Gianmario Roveraro, esteve envolvido na quebra da Parlamat.
“A Internacional Conservadora”
O escritor estadunidense Dan Brown, autor do best seller “O Código da Vinci”, não vacila em acusar esta seita de ser um partido de fanáticos religiosos com ramificações pelo mundo. O Opus Dei teria cerca de 80 milhões de fiéis, muitos deles em cargos-chaves em governos, na mídia e em multinacionais. Henrique Magalhães garante que a “Obra é vanguarda das tendências mais conservadoras da Igreja Católica”.
Num livro feito sob encomenda pelo Opus Dei, o vaticanista John Allen confessa este poderio. Ele admite que a seita possui um patrimônio de US$ 2,8 bilhões – incluindo uma luxuosa sede de US$ 60 milhões em Manhattan – e que esta fortuna serve para manter as suas instituições de fachada, como a Heights School, em Washington, onde estudam os filhos dos congressistas do Partido Republicano de George W.Bush.
Numa reportagem que tenta limpar a barra do Opus Dei, a própria revista Superinteressante, da suspeita Editora Abril, reconhece o enorme influência política desta seita. E conclui: “No Brasil, um dos políticos mais ligados à Obra é o candidato a presidente Geraldo Alckmin, que em seus tempos de governador de São Paulo costumava assistir a palestras sobre doutrina cristã ministradas por numerários e a se confessar com um padre do Opus Dei. Alckmin, porém, nega fazer parte da ordem”. Como se observa, o candidato segue à risca um dos principais ensinamentos do fascista Josemaría Escrivá: “Acostuma-se a dizer não”.
Os tentáculos no Brasil
No Brasil, o Opus Dei fincou a sua primeira raiz em 1957, na cidade de Marília, no interior paulista, com a fundação de dois centros. Em 1961, dada à importância da filial, a seita deslocou o numerário espanhol Xavier Ayala, segundo na hierarquia. “Doutor Xavier, como gostava de ser chamado, embora fosse padre, pisou em solo brasileiro com a missão de fortalecer a ala conservadora da Igreja. Às vésperas do Concílio Vaticano II, o clero progressista da América Latina clamava pelo retorno às origens revolucionárias do cristianismo e à ‘opção pelos pobres’, fundamentos da Teologia da Libertação”, explica Marina Amaral na revista Caros Amigos.
Ainda segundo seu relato, “aos poucos, o Opus Dei foi encontrando seus aliados na direita universitária... Entre os primeiros estavam dois jovens promissores: Ives Gandra Martins e Carlos Alberto Di Franco, o primeiro simpático ao monarquismo e candidato derrotado a deputado; o segundo, um secundarista do Colégio Rio Branco, dos rotarianos do Brasil. Ives começou a freqüentar as reuniões do Opus Dei em 1963; Di Franco ‘apitou’ (pediu para entrar) em 1965. Hoje, a organização diz ter no país pouco mais de três mil membros e cerca de quarenta centros, onde moram aproximadamente seiscentos numerários”.
Crescimento na ditadura
Durante a ditadura, a seita também concentrou sua atuação no meio jurídico, o que rende frutos até hoje. O promotor aposentado e ex-deputado Hélio Bicudo revela ter sido assediado duas vezes por juízes fiéis à organização. O expoente nesta fase foi José Geraldo Rodrigues Alckmin, nomeado ministro do STF pelo ditador Garrastazu Médici em 1972, e tio do governador Geraldo Alckmin. Até os anos 70, porém, o poder do Opus Dei era embrionário. Tinha quadros em posições importantes, mas sem atuação coordenada. Além disso, dividia com a Tradição, Família e Propriedade (TFP) as simpatias dos católicos de extrema direita.
Seu crescimento dependeu da benção dos generais golpistas e dos vínculos com poderosas empresas. Ives Gandra e Di Franco viraram os seus “embaixadores”, relacionando-se com donos da mídia, políticos de direita, bispos e empresários. É desta fase a construção da sua estrutura de fachada – Colégio Catamarã (SP), Casa do Moinho (Cotia) e Editora Quadrante. Ela também criou uma ONG para arrecadar fundos: OSUC (Obras Sociais, Universitárias e Culturais). Esta recebe até hoje doações do Itaú, Bradesco, GM e Citigroup. Confrontado com esta denúncia, Lizandro Carmona, da OSUC, implorou à jornalista Marina Amaral: “Pelo amor de Deus, não vá escrever que empresas como o Itaú doam dinheiro ao Opus Dei”.http://altamiroborges.blogspot.com
Homenagem ao povo palestino - Bob Dylan
COMENTÁRIO E & P
Agora somos todos palestinos. De um lado a humanidade, a civilização, do outro a barbárie...
Palestina: La verdadera historia
Do Tijolaço
Minha geração cresceu admirando a luta dos palestinos por sua terra. A de meus filhos, idem. Não pode haver um de nós que, baseado nos princípios de justiça, possam desejar que mais uma geração tenha de ver um povo ser pátria, como foi, antes, o próprio povo judeu.
A fala do líder da Autoridade Palestina, Mahamoud Abbas, hoje, na Assembléia da ONU, foi um momento do qual devemos nos envergonhar. Não porque é justo, correto e civilizado. Mas porque é tardio e, ainda assim, rechaçado.
66 anos após a fundação das Nações Unidas, 64 anos após a comunidade dos países ter criado, com terra palestina, o Estado de Israel, nem mesmo o Estado Palestino, estabelecido ali, pôde começar a existir.
De novo como os judeus, eles passaram a andar de terra em terra, apartados, colocados em guetos, discriminados. Onde se refugiavam, eram alvo de ataque, como ocorreu na Jordânia e, depois, no Líbano.
Lembro-me, com toda a nitidez, de uma cena impressionante, eu jamais me sairá da memória, quando dois palestinos, com uma pequeníssima metralhadora montada na traseira de uma camionete dos anos 50, corriam como numa daquelas antigas comédias dos anos 30, pelas ruas destruídas de Beirute, tentando, obviamente em vão, atingir os jatos F-5 americanos da Força Aérea que bombardeavam impiedosamente a cidade de um dos lados da chamada “Linha Verde”, que a separava entre cristãos e muçulmanos.
Os israelenses, agora, eram Golias, não mais David.
Inútil argumentar que há terroristas entre os palestinos. Havia-os também entre os judeus dos anos 40, ansiosos por terem seu país, sua terra, seu Heretz Israel.
Entre eles, Menahen Beguin, que fez parte da organização Irgun, que matou soldados britânicos e explodiu o Hotel Rei David, onde funcionavam serviços britânicos e moravam as famílias dee seus funcionários. Morreram 91 pessoas: ingleses, árabes e judeus, em 1.946. Menahem Beguin tornou-se, três décadas depois, primeiro-ministro de Israel.
Israel tem razão ao afirmar que não se fará a paz com o simples reconhecimento do Estado Palestino. Não, não se fará. O reconhecimento pleno da palestina é, porém, o primeiro e indispensável passo para qualquer possibilidade de acordo duradouro, porque nivela os palestinos á condição de um povo que precisa de soluções para ter um território e, assim, ter um país.
Sem a figura de Yasser Arafat, o homem que simbolizou a longa luta palestina, tudo é mais difícil. Não há outra liderança simbólica como ele, é verdade, capaz de unir os palestinos. Igualmente, a prolongada política de tolerância internacional com a ocupação de terras palestinas criou centenas de milhares de problemas, um em cada família israelense que ocupa o chão palestino e seus melhores – e parcos – recursos de terra agricultável, com fontes de água.
Não importa o tamanho das dificuldades, porém, para tornar pequenos os deveres com os palestinos que o mundo tem. Se saudamos e até autorizamos ações militares para que árabes tenham direito a terem livremente seus governos, não reconhecemos o dever da humanidade de interferir para que os palestinos tenham um país?
A atitude de negar o Estado palestino não é uma vergonha apenas para Israel e para os EUA. É uma vergonha para a humanidade, como foi a perseguição dos judeus pelo nazismo.
E se não queremos que nosos filhos e netos vejam isso, muitíssimo menos queremos ver geração após geração de crianças palestinas aprendendo a jogar pedras ou crescer manejando armas como faria qualquer povo por sua pátria.
COMENTÁRIO E&P
E pior que tudo isso é feito com apoio dos rabinos. Estava assistindo a um programa no Sportv sobre alguns israelenses feridos em Gaza. Vieram ao Brasil através de uma organização judia para tentar curar suas feridas, acho que muito mais psicológicas do que físicas, pelas atrocidades que cometeram lá. E no final aparece um rabino dizendo que eles mereciam pois estavam lutando pela liberdade. Que liberdade? De assassinar árabes impunemente? Do crime contra a humanidade que Israel praticou contra o povo palestino? Que espécie de religioso é esse que defende genocídio? A religião não devia pregar a paz entre os homens? Esse rabino não deveria estar defendendo um Estado Palestino? E os palestinos de Gaza, quem vai curar as suas dores? The answer my friend, is blowing, in the wind...
sexta-feira, setembro 23, 2011
A marcha da insensatez
Mauricio Dias
Carta Capital
Agora contra o voto secreto, decisiva conquista democrática. Foto: Rudy Trindade/Folhapress
No Rio de Janeiro, na tarde de 20 de setembro, houve a segunda rodada de manifestações contra a corrupção no País. A primeira, no dia 7, foi simultânea às solenidades da Independência. Em Brasília, calcularam 25 mil pessoas presentes na marcha pela Esplanada dos Ministérios. O número pode ter sido engordado por aqueles que foram ver o desfile oficial.
De qualquer forma, na capital do País, nas imediações do Congresso Nacional, ocorreu o movimento mais numeroso, simultaneamente ao que ocorria também em outros estados da federação.
No Rio, desta vez, o palco dos manifestantes foi a praça da Cinelândia, no centro da cidade. Os organizadores, confiantes nas redes sociais, anunciaram que haveria cerca de 30 mil pessoas. Compareceram, aproximadamente, 2,5 mil, segundo cálculos do comando da Polícia Militar.
Nessa “multidinha”, antônimo popular de multidão, alguns erguiam vassouras, símbolo da faxina moralista de Jânio Quadros, aquele cidadão conturbado que ocupou a Presidência da República por sete meses, antes de renunciar. Outros empunhavam cartazes propondo a transformação da corrupção em crime hediondo e pregando o fim do voto secreto no Congresso, onde, por sinal, acaba de ser criada a Frente Parlamentar em Defesa do Voto Aberto, cuja vanguarda é o PSOL, partido nascido da costela do PT, formado em reação moral ao “mensalão”.
Essas manifestações, à direita e à esquerda, expressam em conjunto uma insensata demonização da política.
O “voto aberto” entrou em pauta em 2005, após os episódios do chamado “mensalão” e “sanguessugas”.
Depois de amputado o ritual da presunção de inocência com a lei chamada de “Ficha Limpa” atacam, agora, o voto secreto no Parlamento, implantado para garantir a independência dos integrantes do Legislativo diante de tentativas de interferência e pressões do Executivo. Eventualmente, esse sistema pode livrar parlamentares da camisa de força da própria disciplina partidária, como pode ocorrer em casos de objeção de consciência.
Maria Inês: Cerra, um tucano sem poleiro
Do Conversa Afiada
O Conversa Afiada reproduz artigo de Maria Inês Nassif na Carta Maior
A neblina é densa no horizonte de Serra
Desgastado internamente por decisões de campanha e pela segunda derrota para o PT na disputa presidencial, José Serra fracassou ao tentar retomar áreas de influência no PSDB nacional. O ex-governador não tem mais espaço nacional no PSDB. E o seu “Plano B”, o PSD do prefeito Gilberto Kassab, alçou voos próprios que não credenciam seu criador a ir além da capital paulista no apoio a Serra. O artigo é de Maria Inês Nassif.
Maria Inês Nassif
Candidato derrotado do PSDB à Presidência da República no ano passado, José Serra hoje é um tucano sem poleiro. Desgastado internamente por decisões de campanha e pela segunda derrota para o PT na disputa presidencial, fracassou ao tentar retomar áreas de influência no PSDB nacional. Os cardeais do partido – Serra excluído do concílio – preferiram manter no comando nacional o inexpressivo Sérgio Guerra a arriscar abrir espaço de poder para o ex-governador, um político que levou ao limite, nas eleições passadas, sua vocação desagregadora.
O ex-governador não tem mais espaço nacional no PSDB. E o seu “Plano B”, o PSD do prefeito Gilberto Kassab, alçou voos próprios que não credenciam seu criador a ir além da capital paulista no apoio a Serra. Integrantes do novo partido consideram que o prefeito pode cumprir seus compromissos passados com o ex-governador se ele decidir disputar as eleições para prefeito. Para aí. A vocação governista com que nasce o PSD não aconselhariam a apoiar Serra contra o governador Geraldo Alckmin, numa disputa pelo governo do Estado, ou ir na direção contrária a da presidenta Dilma Rousseff, na disputa pela reeleição.
No PSDB paulista, Serra perdeu terreno na capital, onde tinha mais influência que Alckmin, e não expandiu seus domínios para o interior, reduto alckmista. A avaliação no núcleo tucano paulistano é que o PSDB não pode recusar a Serra a legenda para a prefeitura, se ele quiser, mas nem o partido gostaria que isso acontecesse, dado o alto grau de rejeição ao seu nome acusado por pesquisa do instituto DataFolha há duas semanas, nem o próprio ex-governador parece disposto a correr o risco de uma derrota municipal num momento em que está particularmente fraco. Isso inviabilizaria por completo qualquer tentativa futura de retomar uma carreira política nacional.
A estratégia de fazer o PSDB paulistano engolir um dos poucos serristas que restaram, o senador Aloysio Nunes, como candidato à prefeitura, caiu pela total falta de interesse do próprio senador. O espaço está aberto para a disputa entre dois nomes da órbita de influência de Alckmin, seus secretários José Anibal e Bruno Covas, na disputa pela legenda do partido à prefeitura.
Os destinos de Serra e do PSD dificilmente se encontrarão no âmbito nacional porque, afirma um dos seus articuladores, “o partido nasce com uma grande vocação governista”. Em São Paulo, para cumprir a sua vocação, tem que ser Dilma Rousseff – não existe possibilidade de acordo com o governador tucano, com quem Kassab disputou a prefeitura, com o apoio de Serra, em 2008. O único caminho para acordo seriam ambos se unirem em torno de uma candidatura Serra, o que é altamente improvável. Sem essa alternativa, o PSD deve caminhar em faixa própria lançando um candidato.
No resto do país, o partido já exerce sua vocação governista de maneira plena. Nos redutos dos governadores de partidos da base de apoio de Dilma, o PSD, na grande maioria, conseguiu unir, de forma conveniente, dois governismos, o estadual e o federal. O governador Jaques Wagner (PT) ajudou a formação do partido na Bahia; Marcelo Déda (PT), em Sergipe; Eduardo Campos (PSB), em Pernambuco e Cid Gomes (PSB) no Ceará. No Rio, o partido foi montado com a ajuda de um governador e um prefeito governistas no plano federal, Sérgio Cabral (PMDB) e Eduardo Paes (PMDB). No Maranhão, foi constituído na órbita de influência da governadora Roseana Sarney (PMDB). No Piauí, está ligado ao governador Wilson Martins (PSB); na Paraíba, ao governador Ricardo Coutinho (PSB).
No Rio Grande do Norte, que tem a única governadora do DEM, Rosalba Ciarlini, e no Pará, com o tucano Simão Jatene, ambos de oposição ao governo federal, o PSD nasce apoiando o governo do Estado e o governo federal, ao mesmo tempo. Em Santa Catarina, o próprio governador, Raimundo Colombo, aderiu ao novo partido. Segundo um dos organizadores da nova legenda, o PSD apenas sera oposição estadual, de fato, no Acre e no Amapá.
Os interesses nacionais do PSD, portanto, não credenciam Kassab a se comprometer com Serra além das fronteiras da capital paulista. Os interesses nacionais do PSDB não convergem para Serra. Este é o horizonte do adversário de Dilma Rousseff nas eleições presidenciais do ano passado.
O Impostômetro e o Pedagiômetro
Evaristo Almeida*
O Impostômetro é um contador instalado pela Associação Comercial de São Paulo - ACSP e cujo objetivo é medir a arrecadação de impostos no Brasil.
Recentemente a grande imprensa deu grande destaque ao fato desse dispositivo ter ultrapassado a marca de R$ 1 trilhão. Todos os comentaristas martelaram o fato tratando o pagamento de impostos como se a sociedade estivesse sendo roubada.
Os comentários recaíram sobre o governo federal como se os Estados e Municípios também não cobrassem impostos. O Impostômetro da Associação Comercial é uma marca de viés político conservador. E a usam contra o governo federal.
Não colocam na conta o quanto é arrecadado pelo governo paulista, que até agosto já cobrou R$75 bilhões, através de principalmente ICMS e IPVA. As receitas orçamentárias totais paulistas somam R$ 106 bilhões nesse período. As alíquotas de ICMS do Estado de São Paulo estão entre as maiores do país, assim como a de IPVA, que cobra 4% de todo veículo emplacado no Estado, enquanto em outros estados essa cobrança chega a 1%. Dessa forma é preciso que a Associação Comercial crie também o Impostômetro Paulista, para que o cidadão do Estado tenha ciência do quanto está pagando de tributo no Estado.
A sonegação no país é de em cada R$ 3 arrecadados, R$1 é sonegado. E quem sonega? Os trabalhadores não podem, pois o tributo já vem descontado antes do pagamento. Em anos anteriores uma grande loja que vende produtos apenas para os mais ricos foi incriminada pela Polícia Federal por sonegação de R$ 1 bilhão. Isso mostra que esse problema está mais presente nas classes mais abastadas do que nas populares.
Fica a sugestão para a Associação Comercial de São Paulo, instalar ao lado do Impostômetro o Sonegômetro, que medirá em tempo real o quanto deixou de ser pago aos cofres públicos federais, estaduais e municipais. A julgar pelo Impostômetro, o Sonegômetro já estaria acusando a sonegação de R$ 250 bilhões. Dinheiro que deveria ser usado para o bem-estar do povo brasileiro.
De tudo que é arrecadado, 65% é federal, mas a União não fica com tudo, pois tem repasses aos estados pelo Fundo de Participação dos Estados - FPE, aos municípios, Fundo de Participação dos Municípios - FPM, recursos para educação, saúde, segurança, infraestrutura, transferência de renda e outras ajudas federais. Assim os recursos voltam para os contribuintes na forma de serviços e renda.
A grande imprensa poderia dar uma grande contribuição ao país se trabalhasse por uma reforma tributária, que depende do Congresso Nacional, em que a maioria dos impostos sejam progressivos, como em outros países desenvolvidos. Os pobres pagam mais impostos no Brasil do que os mais ricos, segundo artigo publicado no valor pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica aplicada Marcio Pochmann.
Para tornar mais equitativo o pagamento de impostos é preciso taxar mais a renda e a propriedade, cobrar impostos sobre grandes fortunas, impostos específicos cobrados dos mais ricos para atender necessidades da população mais pobre, direitos de herança, entre outros.
Mas para que pagar impostos?
Os governos federal, estaduais e municipais possuem uma série de obrigações que são pagas com tributos. De onde vem o dinheiro do Bolsa Família, que atende os mais pobres? Com que dinheiro se constrói
universidades, aeroportos, rodovias? Como manter as forças armadas e as polícias? E os recursos do BNDES que servem para financiar empresas?
O Estado é financiado por impostos e taxas cobradas dos contribuintes. Tem um papel civilizador de redução das desigualdades sociais, conforme tem acontecido nos últimos oito anos com programas que visam erradicar a miséria do Brasil.
Os mesmos que gritam contra a cobrança de impostos são os mesmos que reclamam dos aeroportos, que querem mais crédito para a agricultura, mais rodovias, portos e toda uma série de benesses. Não querem pagar impostos e exigem em contrapartida por aquilo que não contribuíram.
O Brasil não é o país que paga mais impostos no mundo em relação ao seu Produto Interno Bruto. Os países escandinavos, que possuem as melhores escolas do mundo, os melhores hospitais, qualidade de vida e tudo isso é público, não se pagam por esses serviços nesses países, chegam a ficar com 60% de toda riqueza produzida.
A carga tributária brasileira aumentou bastante no governo do Fernando Henrique Cardoso, passando de 28% para 33% do PIB. O governo Lula praticamente a manteve, ao redor de 35%.
O país só não tem ainda os serviços compatíveis com os países mais adiantados porque paga uma carga muito pesada da sua dívida interna, cerca de R$ 220 bilhões ficam com as 20.000 famílias mais ricas do país.
Isso será resolvido com a queda da taxa básica de juros que está acima do que o resto do mundo paga. Os mais ricos não querem que a taxa Selic seja reduzida, pois quanto maior mais eles ganham.
O Pedagiômetro
Já o Pedagiômetro é de forma sistemática ignorada pela grande imprensa. Ele mede o quanto de pedágio o povo paulista paga nas rodovias estaduais. São as tarifas mais caras do Brasil e entre as mais caras do mundo, quando comparamos com a renda média dos demais países.
Atualmente o Pedagiômetro já ultrapassou os R$ 4 bilhões. Por uma série de razões, como aumento da tarifa inicial, cobrança de ônus na concessão,
utilização do IGP-M como indexador e Taxa Interna de Retorno ao redor de 20% faz com os pedágios cobrados em São Paulo sejam sete vezes mais caros do que os federais implantados em 2007.
Isso impacta toda a cadeia produtiva paulista, aumentando o “custo São Paulo”, onerando as famílias que pagam por produtos mais caros, visto que 93% das mercadorias são transportadas por caminhão. Em Indaiatuba, segundo um deputado da região, as empresas não querem mais se instalar pelo ônus do pagamento da tarifa.
Para cada caminhão uma transportadora em oito anos de operação deixa o equivalente a dois no pagamento de pedágio, segundo a Associação do Transporte Rodoviário do Brasil – ATR. Do faturamento bruto das transportadoras paulistas 18% ficam nas praças de pedágio. O custo do pagamento pela utilização das rodovias em São Paulo, na maior parte das viagens é superior ao gasto com combustível.
Quando se viaja de ônibus em longos ou curtos trechos se paga pedágio embutido nas passagens. Dessa forma todos os paulistas pagam mesmo quem não tem carro.
A questão é tão séria que um apresentador de televisão perdeu o emprego ao fazer uma pergunta a um candidato do PSDB sobre o porquê das tarifas serem tão caras em São Paulo.
A grande imprensa paulista nunca deu destaque aos pedágios paulistas. Matéria sobre a questão em São Paulo, só quando a rodovia é federal.
A abordagem do tema no Estado é proibida na grande imprensa. Isso explica porque ignoram solenemente o Pedagiômetro.
Para quem quiser acompanhar o Pedagiômetro é só acessar http://pedagiometro.com.br/
*Mestre em Economia Política pela PUC-SP
quinta-feira, setembro 22, 2011
Oriente Médio nunca mais será o mesmo
Robert Fisk, The Independent, UKhttp://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/robert-fisk-why-the-middle-east-will-never-be-the-same-again-2357514.html
Os palestinos não conseguirão seu estado essa semana. Mas os palestinos provarão – se obtiverem votos suficientes na Assembleia Geral e se Mahmoud Abbas não sucumbir à sua subserviência característica ante o poder de EUA-Israel – que já fizeram por merecer ser estado. E estabelecerão para os árabes o que Israel gosta de chamar – enquanto amplia suas colônias em terra roubada – “fatos em campo”: nunca mais EUA e Israel estalarão os dedos e verão árabes bater continência perfilados. Os EUA perderam a aposta que fizeram para o Oriente Médio. Acabou: fim do “processo de paz”, do “mapa do caminho”, do “acordo de Oslo”. Esse fandango já é história.
Pessoalmente, acho que “Palestina” é estado-fantasia, já impossível, agora que Israel já roubou quase toda a terra dos árabes, para os projetos coloniais israelenses. Quem duvidar, que dê uma olhada na Cisjordânia. Colônias em massa, exclusivas para judeus, as daninhas restrições que impedem palestinos de construírem casas de mais de um piso, e a destruição, como castigo, do sistema de esgotos urbanos, os “cordões sanitários” ao lado da fronteira com a Jordânia, as estradas exclusivas para colonos israelenses, tudo isso converteu o mapa da Cisjordânia em pára-brisa esfacelado de carro detonado. Às vezes, suspeito que a única força que impede que haja ali a “Grande Israel” é a obstinação daqueles palestinos incansáveis.
Mas, agora, se fala afinal de temas maiores. Essa votação na ONU – na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança; em certo sentido, nem faz diferença – dividirá o ocidente: EUA de um lado; árabes, de outro. Abrirá em fendas as divisões que há dentro da União Europeia, entre europeus do leste e europeus do oeste; entre Alemanha e França (Alemanha apoiando Israel pelas razões históricas de sempre; a França atormentada pelo sofrimento dos palestinos). E, claro, será como cunha cravada entre Israel e a União Europeia.
Décadas de poder, brutalidade e colonização, pelos militares israelenses; milhões de europeus, já conscientes da responsabilidade histórica que pesa sobre eles pelo holocausto de judeus e conhecedores da violência das nações muçulmanas, já não se deixam acovardar na crítica, por medo de serem ofendidos, acusados de antissemitismo. Há racismo no ocidente – e temo que sempre haverá – contra muçulmanos e africanos e judeus. Mas as colônias israelenses na Cisjordânia nas quais não podem viver árabes palestinos muçulmanos são o quê, além de expressão de racismo?
Israel sofre parte dessa tragédia, é claro. O insano governo israelense levou os israelenses por esse caminho de perdição, que se viu adequadamente sintetizado no medo que lhes causou a democracia na Tunísia e no Egito. O principal aliado de Israel é hoje a Arábia Saudita, o que é caso exemplar de toda essa insensatez. E a cruel recusa, por Israel, a desculpar-se pela matança de nove turcos, ano passado, em ataque contra a Flotilha da Paz em Gaza, e de cinco policiais egípcios durante incursão de palestinos em Israel.
Por tudo isso, adeus aos únicos aliados que Israel ainda tinha na região, Turquia e Egito, no curto espaço de 12 meses. No governo de Israel há hoje gente inteligente, potencialmente equilibrados, como Ehud Barak, e loucos, como o ministro dos Negócios Exteriores Avigdor Lieberman (...). Sarcasmos à parte, os israelenses merecem coisa melhor.
O estado de Israel talvez tenha sido criado por ato injusto – a Diáspora Palestina é prova disso – mas foi criado por ato legal. Os fundadores foram perfeitamente capazes de construir acordo com o rei Abdullah da Jordânia depois da guerra 1948-49 para dividir a Palestina entre judeus e árabes. Mas foi a ONU, que se reuniu para decidir o destino da Palestina dia 29/11/1947, quem deu a Israel sua legitimidade, com EUA como primeira nação a votar a favor de criar-se o estado de Israel. E agora – por uma suprema ironia da história –, Israel quer impedir que a ONU garanta legitimidade aos árabes palestinos e os EUA serão a primeira nação a votar contra essa legitimidade justa.
Israel não tem direito de existir? É a velha armadilha, estupidamente repetida pelos assim ditos “apoiadores de Israel”, também para mim, pessoalmente, muitas vezes repetida, embora, ultimamente, cada vez menos frequentemente. Cabe aos estados – que não são seres humanos – assegurar a outros estados o direito de existir. Para que indivíduos façam a mesma coisa, é indispensável que considerem um mapa. Porque, afinal, onde, exatamente, geograficamente, fica Israel?
Israel é a única nação do planeta que não sabe e não diz onde está sua fronteira leste. Acompanha a velha linha do armistício da ONU, a fronteira de 1967, que Abbas tanto ama e Netanyahu tanto odeia? Exclui toda a Cisjordânia palestina menos as colônias exclusivas para israelenses... Ou exclui toda a Cisjordânia?
Mostrem-me mapa do Reino Unido que inclua Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, e o Reino Unido tem direito de existir. Mas mostrem-me mapa do RU que pretenda incluir no RU os 26 condados da Irlanda independente e mostre que Dublin seria cidade britânica, não cidade irlandesa, e direi não: essa nação não tem direito de existir nessas fronteiras inchadas. No caso de Israel, aí está a razão pela qual quase todas as embaixadas ocidentais, inclusive as embaixadas dos EUA e da Grã-Bretanha, estão instaladas em Telavive, não em Jerusalém.
No novo Oriente Médio, com o Despertar Árabe e a revolta de povos livres que exigem dignidade e liberdade, esse voto da ONU – aprovado pela Assembleia Geral, vetado pelos EUA se for para o Conselho de Segurança – constitui uma espécie de pino que faz girar tudo que a ele esteja ligado: vira-se aí uma página, e marca-se também o fracasso do império.
A política externa dos EUA tornou-se de tal modo presa a Israel, tão temerosos, tão assustadiços ante Israel tornaram-se quase todos os deputados, deputadas, senadores e senadoras dos EUA – a ponto de amarem mais Israel que os EUA –, que os EUA, essa semana, deixarão de ser a nação que gerou Woodrow Wilson e seus 14 princípios de autodeterminação, não o país que combateu o nazismo e o fascismo e o militarismo japonês, não o farol da liberdade que, como nos dizem, os seus Pais Fundadores representaram –, e se revelarão ao mundo como estado autista, intratável, acovardado, cujo presidente, depois de prometer novo afeto ao mundo muçulmano, é forçado a apoiar uma potência ocupante contra um povo que nada pede além do reconhecimento do estado independente ao qual tem perfeito direito.
Será o caso de dizer “pobre velho Obama”, como eu disse em outros tempos? Acho que não. Bom de retórica, vão, superficial, distribuindo fingido respeito em Istanbul e no Cairo poucos meses depois de eleito, essa semana o mesmo Obama comprovará que a reeleição parece-lhe mais importante que o futuro do Oriente Médio; que sua ambição pessoal de continuar no poder supera, em importância, os sofrimentos de um povo que sobrevive sob ocupação. Nesse específico contexto, chega a ser bizarro que alguém que se apresenta como homem de tão altos princípios aja tão covardemente. Para o novo Oriente Médio, onde árabes exigem para eles os mesmos direitos e liberdades dos quais Israel e EUA dizem-se campeões, é tragédia profunda.
Na fonte de tudo estão os fracassos dos EUA, que não se ergueram para enfrentar Israel e que não insistiram em obter acordo de paz justo na “Palestina”, atrelados ao herói da guerra do Iraque, Blair. Os árabes também são responsáveis, por terem permitido que as ditaduras durassem tanto tempo, tentando conter dunas de areia com falsas fronteiras, velhos dogmas e petróleo (e que ninguém acredite que alguma “nova” “Palestina” seria um paraíso para seu próprio povo).
E Israel também é responsável, porque é dever de Israel acolher respeitosamente o pedido dos palestinos que requerem à ONU que reconheça o estado palestino e que cumpra todas as suas obrigações de garantir, com o reconhecimento, como de tantos outros estados-membros, segurança e paz também aos palestinos.
Mas nada disso acontecerá. O jogo está perdido. O poder político dos EUA no Oriente Médio essa semana será sacrificado aos pés de Israel. Servicinho vagabundo, esse, dos EUA, em nome da liberdade...
enviado da Vila Vudu
Jovens jornalistas: criados com os lobos
Do Blog do Nassif
Tinha menos de dois anos de formado o jovem repórter que tentou invadir o apartamento de José Dirceu no Hotel Nahoum. Pelo que soube em Brasília, voltou para a casa da mãe.
Não sei a idade do repórter da Folha que iludiu a confiança do tio, no caso Battisti. Mas foi exposto de forma fatal pelo próprio tio, em um artigo demolidor. E inspirou um artigo da ombudsman do jornal, no qual afirmava que era ingenuidade confiar em jornalistas. Tornou-se exemplo de como não se deve confiar em jornalistas. Dificilmente conseguirá fontes dispostas a lhe passar informações relevantes.
A campanha eleitoral do ano passado expôs outros jovens jornalistas, alguns com belo potencial, mas que tiveram a imagem afetada no alvorecer de suas carreiras, por conta de métodos inescrupulosos empregados em suas reportagens.
Culpa deles? Apenas em parte. Esse clima irracional foi fomentado por chefias que não se pejaram em jogar os repórteres aos lobos.
Processo semelhante ocorreu na campanha do impeachment, mas com resultados inversos. Uma enorme quantidade de mentiras divulgada, aceita pelos editores e pelos leitores sob o álibi de que valia qualquer coisa contra Collor. Foi um período vergonhoso para a mídia, no qual os escândalos reais não eram apurados, mas divulgava-se uma enxurrada de mentiras que não resistiam a um mero teste de verossimilhança. Dizia-se que Collor injetava cocaína por supositório, que ficava em estado catatônico e precisava ser penetrado por trás por um assessor, que fazia macumba nos porões do Alvorada.
Os que mais mentiram se consagraram, ganharam posições de destaque em seus veículos. Premiou-se a mentira e a falta de jornalismo, porque os escândalos reais demoravam mais para serem apurados e nem de longe de aproximavam do glamour da notícia inventada.
Processo similar ocorreu durante e após a campanha do mensalão. Surgiu uma nova geração de repórteres sem limites, hoje em dia utilizados pelas chefias para atingir adversários através da escandalização de fatos normais.
Agora, em plena era da Internet, ocorre o inverso. Esses jovens ambicionam a manchete, a aprovação das chefias, o curto prazo. Mas o registro de seus malfeitos estará indelevelmente registrado na Internet. A médio prazo, será veneno na veia para suas carreiras.
Pior, está-se criando uma geração de jornalistas para quem o jornalismo virou um vale-tudo: vale mentir, inventar, enganar, espionar, supor sem comprovar.
A reação de Caco Barcelos na Globonews nada teve de política ou ideológica - no programa sobre a tal Marcha Contra a Corrupção, depois editado para tirar suas afirmações mais impactantes contra o mau jornalismo. Ao denunciar esse jornalismo declaratório, simplesmente fazia uma defesa do jornalismo que aprendeu a praticar, de respeito aos fatos, de apuração das denúncias, de cautela nas acusações.
Em muitos outros jornais há uma geração de jornalistas mais velhos formados sob esses princípios, mas que a falta de opções obriga a se calar ante tais abusos. Há igualmente uma jovem geração saindo do forno das faculdades que entendeu a diferença entre os princípios jornalísticos e esse arremedo que a era Murdoch lançou sobre a mídia mundial - especialmente sobre a brasileira.
No final dos anos 80, quando a mídia brasileira abraçou o jornalismo sensacionalista, considerava-se ter entrado em linha com os grandes veículos globais - para quem a notícia é espetáculo, não serviço público.
Nos últimos anos, Roberto Civita importou de forma chocante o padrão Murdoch para a mídia brasileira - rapidamente imitada por outros jornais carentes de personalidade jornalística própria. A cada dia que passa, esse estilo - ainda que influenciando setores mais desinformados - parece cada vez mais velho e anacrônico.
Muitos dizem que o problema da velha mídia é não saber como se colocar nas novas tecnologias. Penso que é outro: é ter desaprendido as lições do velho jornalismo legitimador.
terça-feira, setembro 20, 2011
Delfim desmancha o neolibês
Neolibelê (*) não presta nem em alemão
Do Conversa Afiada
Saiu no Tijolaço:
Que ninguém durma…
O ex-ministro Delfim Netto publica hoje, no Valor Econômico, um artigo onde desenha um quadro completo e terrível da situação econômica mundial. vale a pena ser lido, para entendermos melhor a extensão dos problemas das economias centrais. O título, que traduzo aí em cima, é de uma ária de Turandot, ópera de Puccini, em que a Princesa Turandot submete os seus pretendentes a decifrar enigmas, ao preço de suas próprias vidas.
Nessun dorma…
É um fato conhecido que os competentes economistas alemães representam a fina flor do mais extremo monetarismo ao qual somam uma boa dose de conservadorismo. Foram ferozmente contra as concessões (com implicações econômicas) feitas por Helmut Kohl, quando aproveitou uma janela semiaberta e teve a coragem de reunificar a Alemanha, objetivo político de longo prazo absolutamente desdenhado pelos “puristas econômicos”.
Quando a Alemanha decidiu participar do euro, 150 dos seus mais reconhecidos acadêmicos publicaram um célebre manifesto contra, com bons argumentos, mas que de novo ignorava solenemente o objetivo político de longo prazo, que era a pacificação de um continente que durante os últimos mil anos foi atormentado por guerras.
Os argumentos eram respeitáveis e mostravam que o sucesso do euro dependia de um rigoroso controle da situação fiscal de cada país, preliminar para a construção de uma área monetária ótima: absoluto controle fiscal, liberdade de movimentos da mão de obra e de capitais e a cessão da emissão das moedas nacionais a um banco central autônomo, com uma nova unidade monetária, com relação à qual as taxas de câmbio de cada país seriam irrevogavelmente fixadas.
Eram contra, porque não acreditavam que os países se submeteriam a tal disciplina. Para impô-la, foi formalmente estabelecido e aprovado no acordo de Maastricht, que precedeu a introdução do euro, que: 1) nenhum país poderia ter déficit nominal superior a 3% do PIB; e 2) uma relação dívida/PIB maior do que 60%.
Por que não funcionou? Porque os governos de vários países (em particular da Grécia) mentiram, como suspeitavam os economistas alemães! Ilidiram aquelas condições com a conivência do sistema financeiro internacional e das agências de risco. Tudo veio à tona depois da “quebra” do Lehman Brothers, quando a “rede de patifarias” escondida nos derivativos tóxicos explodiu na cara dos bancos centrais, sob o nariz dos quais ela se realizara. É cada vez mais evidente que esses não se recuperaram do choque: nem o Federal Reserve dos EUA, nem o BCE da Eurolândia sabem, até agora, o que fazer.
Nos EUA, parece que começa a haver uma mudança. Mais de uma dezena de instituições financeiras, que ativamente (com a conivência das agências de risco) assaltaram os incautos aplicadores, começam a ser investigadas e, seguramente, algumas serão responsabilizadas criminalmente. Trata-se de um problema moral, que não pode mais ser escondido pelo governo Obama como foi até agora.
Tardiamente, ele propõe ao Congresso um novo pacote de estímulos para diminuir o sofrimento de 25 milhões de honestos trabalhadores (15 milhões com desemprego aberto e 10 milhões semiempregados), que acabaram desempregados com a política econômica (inspirada por distintos acadêmicos comprometidos com o sistema financeiro) que “salvou” os desonestos administradores.
Até agora, o presidente do Fed, Ben Bernanke, não disse a que veio: apenas repete, repete e repete o velho refrão, “farei o que tenho de fazer”. Continua indeciso sobre como atender ao seu duplo mandato: manter alto o nível de emprego e manter baixa a taxa de inflação.
(*) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.
Do Conversa Afiada
Saiu no Tijolaço:
Que ninguém durma…
O ex-ministro Delfim Netto publica hoje, no Valor Econômico, um artigo onde desenha um quadro completo e terrível da situação econômica mundial. vale a pena ser lido, para entendermos melhor a extensão dos problemas das economias centrais. O título, que traduzo aí em cima, é de uma ária de Turandot, ópera de Puccini, em que a Princesa Turandot submete os seus pretendentes a decifrar enigmas, ao preço de suas próprias vidas.
Nessun dorma…
É um fato conhecido que os competentes economistas alemães representam a fina flor do mais extremo monetarismo ao qual somam uma boa dose de conservadorismo. Foram ferozmente contra as concessões (com implicações econômicas) feitas por Helmut Kohl, quando aproveitou uma janela semiaberta e teve a coragem de reunificar a Alemanha, objetivo político de longo prazo absolutamente desdenhado pelos “puristas econômicos”.
Quando a Alemanha decidiu participar do euro, 150 dos seus mais reconhecidos acadêmicos publicaram um célebre manifesto contra, com bons argumentos, mas que de novo ignorava solenemente o objetivo político de longo prazo, que era a pacificação de um continente que durante os últimos mil anos foi atormentado por guerras.
Os argumentos eram respeitáveis e mostravam que o sucesso do euro dependia de um rigoroso controle da situação fiscal de cada país, preliminar para a construção de uma área monetária ótima: absoluto controle fiscal, liberdade de movimentos da mão de obra e de capitais e a cessão da emissão das moedas nacionais a um banco central autônomo, com uma nova unidade monetária, com relação à qual as taxas de câmbio de cada país seriam irrevogavelmente fixadas.
Eram contra, porque não acreditavam que os países se submeteriam a tal disciplina. Para impô-la, foi formalmente estabelecido e aprovado no acordo de Maastricht, que precedeu a introdução do euro, que: 1) nenhum país poderia ter déficit nominal superior a 3% do PIB; e 2) uma relação dívida/PIB maior do que 60%.
Por que não funcionou? Porque os governos de vários países (em particular da Grécia) mentiram, como suspeitavam os economistas alemães! Ilidiram aquelas condições com a conivência do sistema financeiro internacional e das agências de risco. Tudo veio à tona depois da “quebra” do Lehman Brothers, quando a “rede de patifarias” escondida nos derivativos tóxicos explodiu na cara dos bancos centrais, sob o nariz dos quais ela se realizara. É cada vez mais evidente que esses não se recuperaram do choque: nem o Federal Reserve dos EUA, nem o BCE da Eurolândia sabem, até agora, o que fazer.
Nos EUA, parece que começa a haver uma mudança. Mais de uma dezena de instituições financeiras, que ativamente (com a conivência das agências de risco) assaltaram os incautos aplicadores, começam a ser investigadas e, seguramente, algumas serão responsabilizadas criminalmente. Trata-se de um problema moral, que não pode mais ser escondido pelo governo Obama como foi até agora.
Tardiamente, ele propõe ao Congresso um novo pacote de estímulos para diminuir o sofrimento de 25 milhões de honestos trabalhadores (15 milhões com desemprego aberto e 10 milhões semiempregados), que acabaram desempregados com a política econômica (inspirada por distintos acadêmicos comprometidos com o sistema financeiro) que “salvou” os desonestos administradores.
Até agora, o presidente do Fed, Ben Bernanke, não disse a que veio: apenas repete, repete e repete o velho refrão, “farei o que tenho de fazer”. Continua indeciso sobre como atender ao seu duplo mandato: manter alto o nível de emprego e manter baixa a taxa de inflação.
(*) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.
segunda-feira, setembro 19, 2011
Os economistas: entre a civilização e a barbárie
Evaristo Almeida*
A economia é uma ciência humana, histórica que depende de decisões políticas para que determinada teoria seja hegemônica ou não. Ela não é uma ciência dura que independe do tempo para que suas leis sejam válidas.
Nos últimos 30 anos a economia se transformou num simulacro da matemática. Essa manipulação foi pra esconder as contradições existentes na sociedade, na política, na história e o conflito de classes sociais. O objetivo do uso sistemático de equações matemáticas foi tentar esconder da sociedade os conflitos inerentes da apropriação de renda e poder por determinado grupo social.
O ódio da direita com Karl Marx é que ele mostrou que o capitalismo cresceu sobre a exploração do trabalho. A criação do valor de um produto está no trabalho não pago, a mais-valia, que é apropriado por uma elite. As equações matemáticas davam um verniz novo a luta entre trabalho e capital.
No Brasil sempre tivemos duas escolas de economia, uma preocupada com o desenvolvimento social e econômico do país, da qual Celso Furtado é o maior expoente e outra dentro dos princípios neoclássicos, em que prevalecem os interesses financeiros e estrangeiros em detrimento do país e do seu povo, no qual Eugenio Gudin é o mais ilustre representante.
A escola desenvolvimentista foi hegemônica desde a revolução de 1930 que veio acoplada a um projeto de nação. Junto com a perda do poder os conservadores também viram o livre cambismo da Velha República ser colocado de lado.
Nos anos 1990 o país foi assaltado pela teologia neoliberal, a-histórica, a-social e comprometida com os interesses estrangeiros. O mantra era privatização, diminuição da ação do Estado, reforma fiscal permanente, abertura do mercado, leis trabalhistas para acabar com os sindicatos e precarizar o trabalho no Brasil, abrir mão de qualquer política de desenvolvimento por parte do Estado e ficar a mercê do mercado.
Os teólogos neoliberais advogavam que bastava o país fazer a lição de casa, como colegiais, fazendo as reformas, que o capital viria e desenvolveria o país.
A velha imprensa entrou de cabeça com os ensinamentos da teologia neoliberal. Fundamentalistas de mercado eram entrevistados todo dia nos jornais, dando ares de gênios, afinal tinham estudado em escolas estadunidenses, especialmente Harvard, Yale e Chicago.
O que eles aprenderam lá não se aplicava aqui, pois deu totalmente o contrário, o país não cresceu, criou o maior nível de desemprego de sua história industrial, aumentou o nível de violência nas regiões metropolitanas, o tráfico de drogas floresceu, se endividou, quebrou três vezes, aumentaram os juros em níveis estratosféricos, salários caíram. E prometiam a cada ano que o crescimento econômico, segundo suas fórmulas matemáticas viriam no ano seguinte.
E o crescimento não veio, mostrando a falácia dos anos de FHC e seus economistas axiomáticos.
Muitos deles ficaram ricos, pelas informações que tinham ou foram trabalhar em bancos ou empresas que ajudaram a vender a preço de banana.
Nesse período os trabalhadores brasileiros e empresários eram taxados quase que como bandidos, por defenderem uma política de renda e desenvolvimento.
O país sobreviveu a esse verdadeiro tsunami que foram os anos do tucano Fernando Henrique Cardoso.
O povo votou no presidente Lula em 2002 e a política econômica começou a ter outro viés. Uma nova escola de economia começou a ganhar escopo no governo, principalmente a partir de 2005.
Resgatamos a tradição desenvolvimentista da economia brasileira. Só que com mais qualidade, pois pela primeira vez crescemos acumulando divisas externas, distribuindo renda e com inflação sob controle.
O país voltou a formular políticas desenvolvimentistas com o Plano de Aceleração do Crescimento – PAC, que estruturou projetos de infraestrutura social, de transportes e de energia com uma nova gestão, que torna eficaz os projetos, resolvendo gargalos e melhorando a vida do povo brasileiro.
Também o Estado brasileiro voltou a formular políticas industriais com o resgate da indústria de construção naval, ferroviária e incentivo à inovação tecnológica.
Com a política de rendas o salário mínimo teve aumento real que se aproxima dos 70% em 2012, criação de 12 milhões de empregos, colocação de uma argentina na classe média, aumento dos salários em todos os níveis, queda abrupta dos níveis de pobreza.
O Brasil passa por um processo virtuoso de desenvolvimento social e econômico, apesar da grave crise internacional.
Mas o fundamentalismo neoliberal, apesar de derrotado como ciência, sobrevivendo apenas como ideologia, não desistiu de suas teses.
Continuam nas escolas conservadoras de economia e nos comentaristas econômicos, que são bem pagos pela velha imprensa para desinformar o povo brasileiro.
Eles representam o pensamento da sub-elite brasileira (não tem projeto de nação e é colonizada) e seus dogmas são a necessidade de uma reforma trabalhista, que tire direitos dos trabalhadores brasileiros, como FGTS, férias remuneradas, deixando-os na condição existente antes da criação da CLT; reforma previdenciária, que talvez só garanta aposentadoria depois que o trabalhador completar 100 anos, forte ajuste fiscal, que pare de gastar com o Bolsa Família, Pronaf, saúde, educação, segurança, entre outros gastos com pobres para prover dinheiro e pagar os juros mais altos do planeta.
É óbvio que esses economistas não perderiam seus direitos trabalhistas, pois possuem empregos com excelentes contratos, suas aposentadorias também não correriam riscos, pois as instituições em que trabalham garantem a aposentadoria integral e como geralmente são ricos e não utilizam serviços públicos de educação e saúde, suas famílias não seriam afetadas pela queda da qualidade ou inexistência dos serviços, caso suas receitas fossem seguidas.
Manutenção da taxa de juros na estratosfera, pois a acham natural, visto que as 20.000 famílias mais ricas do Brasil se locupletam com ela. Daí tirar o dinheiro gasto com pobres para pagá-los, mesmo não tendo evidência científica da necessidade de doar 5% do PIB para os mais ricos via juros.
Aliás, os economistas neoliberais só se preocupam em garantir o pagamento para ricos. Nunca li nenhum deles reclamando que o Estado não paga os precatórios, cujos credores são essencialmente os mais pobres. Esses precisam esperar e muitas vezes são os netos que recebem essas dívidas, pois demora tanto que as pessoas não vivem o suficiente.
Para o fundamentalismo neoliberal o aumento do salário mínimo é prejudicial ao país, pois encarece o custo de produção e aumenta a inflação. Assisti até um deles dizendo que não era interesse dos trabalhadores que o salário mínimo aumentasse, pois geraria desemprego. É lógico que todos eles não dependem de salário mínimo, pois ganham fortunas para defender suas teses.
O desemprego para eles é necessário, principalmente se fosse feito o ajuste fiscal que pregam. Também não atingiria o emprego deles em escolas de economia, postos em governos ou em bancos.
Para os economistas conservadores o país deveria abrir mão de uma política desenvolvimentista, pois acreditam piamente na lei das vantagens comparativas, criada por David Ricardo, um economista inglês do século XVIII, para quem cada país só deve produzir aquilo que tem vocação.
Assim o Brasil deveria continuar a ser um imenso cafezal, não produzir aço, automóvel, avião, computador. Até li um deles no jornal Valor Econômico, encantado com um carro coreano. Vinte anos atrás ninguém daria nada por um carro coreano. Eles provaram que a teoria das vantagens comparativas é para ingênuos ou colonizados.
Foi por não ter economistas que defendessem essas idéias que o Japão e Coreia do Sul enriqueceram e china e Índia estão se desenvolvendo. Os países passam por várias etapas de desenvolvimento industrial até incorporar a tecnologia e passar a desenvolvê-la. Como o Brasil fez com os aviões. Infelizmente não criamos uma indústria automobilística nacional e iniciativas como a Gurgel, Puma, Santa Matilde, entre outras fracassaram, pela ideologia de que o mercado é quem deveria dar conta de uma indústria de ponta sem nenhuma ajuda do governo.
Tiveram que enfrentar câmbio sobrevalorizado falta de crédito, taxas de juros astronômicas, abertura descontrolada da economia e não sobreviveram para contar a história. Se os coreanos tivessem seguido a receita neoliberal, o carro coreano não estaria emocionando um economista conservador no jornal Valor Econômico.
A indústria de telecomunicação brasileira também foi pro ralo na política neoliberal da privatização das companhias telefônicas brasileiras para capitais estrangeiros. Perdemos a capacidade de política industrial e de inovação nessa área. E pagamos os serviços de telefonia e banda larga mais caros do mundo e com baixa qualidade.
O escopo dessas ideias são marteladas dia e noite pela velha imprensa, mancomunada com a teologia neoliberal. Eles agora estão criticando o governo federal por ter baixado os juros e ter aumentado o imposto sobre os automóveis importados.
Ações que protegem o dinheiro do povo brasileiro e o emprego estão sendo criticadas pelos porta-vozes do neoliberalismo no Brasil. Porque será?
Nenhum país do mundo se desenvolveu, distribuiu renda, criou uma indústria sólida dentro dos preceitos que eles defendem.
Cada vez fica mais evidenciado os interesses que permeiam essa gente e não são os do povo brasileiro.
Suas teses levam à concentração de renda, desemprego, queda dos salários, redução dos direitos trabalhistas, juros altos, desindustrialização, dependência de outros povos, aumento da violência e da falta de perspectiva para o Brasil.
E tudo com uma roupagem moderna e pseudo-científica. É a barbárie com promessa de civilização.
Felizmente o povo brasileiro em 2010 refutou o atraso e sofrimento que as teses neoliberais representam e continuamos crescendo, distribuindo renda e vamos erradicar a miséria do Brasil.
Quanto à miséria intelectual representada pelo neoliberalismo esta está enraizada nas classes mais ricas e nos partidos políticos de direita brasileiros que se recusam a aprender com a história.
*Mestre em Economia Política pela PUC-SP
O inferno astral do neoliberalismo
Por Antonio Lassance, na Carta Maior
O velho liberalismo romântico
O neoliberalismo é uma ideologia, uma visão de mundo. Mais precisamente, é uma visão de mundo adepta do individualismo, da competição, do Estado mínimo e da primazia do mercado, o que justifica sua filiação ao velho liberalismo. O que havia de novo nesse liberalismo?
O velho liberalismo de Adam Smith reservava funções claras ao Estado, mesmo que sumárias, como a defesa do território, a proteção (que hoje preferimos chamar de segurança pública), o recolhimento de impostos e a política monetária. Mas nenhum liberal clássico, ao defender o indivíduo, deixava de olhar a sociedade como um todo. A liberdade individual supostamente promoveria o bem estar da sociedade. Smith externava preocupação com o [fato] de que seus concidadãos, que vestiam o mundo, estavam em farrapos.
Para o neoliberalismo, porém, não existe sociedade; o que existe são indivíduos (frase de Margareth Thatcher, ex-primeira ministra do Reino Unido). Não existe serviço público que não possa e não deva ser prestado por empresas privadas (frase de David Cameron, atual primeiro ministro do britânico).
Para o liberalismo clássico, as corporações eram um problema a ser atacado. “A riqueza das nações”, de Adam Smith, criticava a proteção estatal às companhias comerciais, que exerciam atividades mercantis de forma monopolística, financiadas e escoltadas com recursos públicos. Para o novo liberalismo, as corporações são “a firma” e são equiparadas aos indivíduos. São pessoas jurídicas e têm por trás de si acionistas (indivíduos). Ao contrário da versão original, para o neoliberalismo a riqueza dos indivíduos é apátrida, e não uma riqueza “das nações”.
Outro fator de novidade do neoliberalismo era a globalização, uma marcha tida como inexorável para o domínio absoluto do globo por essas grandes corporações (comerciais, industriais, mas sobretudo financeiras). Bem diferente da ideia de divisão internacional do trabalho, que tinha como base as nações, e não as empresas. Romanticamente, Smith apontava um caminho para cada país encontrar seu lugar ao sol, produzindo de acordo com sua vocação. Deve-se dar um desconto ao romantismo de Adam Smith, pois ele era contemporâneo da poesia de Lord Byron, da música de Beethoven, da pintura de Delacroix. O mundo respirava romantismo por todos os lados e parecia que o progresso salvaria a todos.
A visão do neoliberalismo não é nada romântica. Os neoliberais são realistas até o último fio de cabelo. Eles são herdeiros da mutação genética introduzida no velho liberalismo pelo darwinismo social de Herbert Spencer, na segunda metade do século XIX. Sua vinculação a Friedrich Hayek tem traços claros que os colocam mais como apóstolos da lei do mais forte do que da lei do livre mercado.
Ascensão e queda do neoliberalismo
A construção do neoliberalismo desenrolou-se aos soluços, com inúmeros sobressaltos. Ele sobreviveu em estado vegetativo por décadas, até ganhar uma dimensão política avassaladora com o tridente formado por Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, nos anos 1980, personificado nas lideranças de Ronald Reagan, Margareth Thatcher e Helmut Kohl.
Sua força política empunhava um ideário econômico agressivo, cuja síntese mais propalada tornou-se conhecida como o “Consenso de Washington”.
O ciclo do neoliberalismo, quase como um ciclo biológico tradicional, durou cerca de vinte e cinco anos. É difícil encontrar hoje em dia algo que não traga sinais dessa herança. Mesmo com seus abalos, ao final dos anos 1990, ele ainda ganhou uma sobrevida por meio de governos da autointitulada “terceira via”. Sob esse guarda-chuvas está uma legião composta pelos democratas nos EUA (Bill Clinton), socialdemocratas da Europa (Tony Blair, no Reino Unido; Gerhard Schröder, na Alemanha; Lionel Jospin, na França; Massimo D’Alema, na Itália) e parte da América Latina (como Fernando Henrique Cardoso, no Brasil; Carlos Andrés Perez, na Venezuela; Carlos Menem, na Argentina; e todos os governos da Concertación chilena).
O inferno astral
O neoliberalismo sofreria um profundo abalo e entraria definitivamente em seu inferno astral a partir de 2008, quando se ouviu um dobre de finados não na periferia do sistema, mas na catedral do capitalismo, em Nova York. Era o enterro da Lehman Brothers Holdings Incorporated.
Mas uma das características do neoliberalismo, além da ousadia e do cinismo, é a teimosia. Ele insistia em disputar projetos políticos e em ganhar eleições com seus arautos. Neles residiam as últimas esperanças de dar a volta por cima, recobrar as energias e reinventar formas de acumulação que evitassem que o capitalismo carregasse a pecha de ser um grande prejuízo para a vida da maioria dos mortais.
Para a surpresa dos incautos, o neoliberalismo conseguiu eleger novos garotos-propaganda. Na pátria-mãe, o Reino Unido, David Cameron; no Chile, Sebastián Piñera; na Alemanha, Angela Merkel.
O Reino Unido é o exemplo mais retumbante do fracasso estrutural do neoliberalismo. Sua política econômica tem como eixo a redução de serviços públicos e a tentativa de desmonte de estruturas de Estado, uma retórica persistente, mas pouco efetiva. O inglês mantém um alto grau de prestação de serviços públicos estatais. Conjunturalmente, a inflação está em alta, com as projeções beirando os 5% – pois é, eles não vão cumprir a meta de inflação, que por lá está fixada em 2%. O desemprego não só está em alta, como é o maior dos últimos dois anos.
A Escócia de Adam Smith, em má homenagem ao credo neoliberal, ostenta um grande número de serviços públicos gratuitos à população. Seu Estado de bem-estar social faz inveja ao dos ingleses. Os escoceses já haviam conseguido um parlamento próprio e agora têm ganhado mais adeptos em favor de sua independência. A política de desmonte, do governo Cameron, tem ajudado em muito a aumentar a adesão à proposta de secessão. As receitas da Escócia são suficientes para mostrar que, se alguém pode sair perdendo com a separação, é a Inglaterra.
No País de Gales, a seção local do partido conservador cogita até trocar de nome e reclama de sua associação ao legado de Margareth Thatcher. A má fama do thatcherismo, segundo pesquisas, os prejudica eleitoralmente.
No Chile, Piñera enfrenta as maiores manifestações desde Pinochet. Além dos estudantes nas ruas, grande parte dos moradores das cidades do sul do país, dependentes do gás subsidiado para se proteger do frio, protesta contra o reajuste do produto e o encarecimento do custo de vida.
Na Alemanha, Merkel tem feito pouca coisa que pode ser considerada verdadeiramente neoliberal. Tanto que até seu companheiro de partido, Helmut Kohl, lhe faz críticas sistemáticas. Os socialdemocratas alemães parecem bem mais apegados ao neoliberalismo e dizem que a Alemanha vai pagar caro pelas “vacilações” de Merkel, que deveria ser mais dura em cobrar ajustes rigorosos em toda a zona do Euro.
O conservadorismo e seu contraponto
Mas a hora não é dada a comemorações. O que está ruim ainda tem a chance de ficar pior. A crise profunda do neoliberalismo tem tido como efeito político a ressurreição do conservadorismo. Se os novos liberais perderam força, os conservadores tomaram muito de seu espaço. A última vez em que isso aconteceu foi após a I Guerra Mundial, com o nazismo e do facismo.
O conservadorismo tem como bandeiras o combate aos imigrantes, o protecionismo, o militarismo e o gasto social seletivo. Quer reduzir a prestação de serviços públicos e trocá-los por cheques, “vouchers” e descontos de imposto de renda, mas não exatamente por razões privatistas. Há um duplo propósito. Torna possível financiar empresas privadas nacionais para prestar serviços públicos essenciais e fecha a porta aos imigrantes, que vivem na ilegalidade e não podem receber esses benefícios focalizados.
O conservadorismo que tem no “Tea Party”, dos EUA, seu movimento mais proeminente, é protecionista, nacionalista, militarista, xenófobo, intolerante Os neoliberais não são a fonte desses cacoetes. Seus vícios originais são outros, embora aceitem compartilhá-los, principalmente o militarismo, se isso justificar vantagens competitivas.
Neoliberais apóiam a imigração como forma de atrair talentos de qualquer parte do mundo e reduzir o custo da mão-de-obra, assim como para manter uma ampla parcela de trabalhadores apartada de direitos sociais. São a favor do direito de mulheres muçulmanas escolherem se querem ou não usar a burka, pois sua proibição desrespeita a liberdade individual. São cautelosos quanto ao militarismo, pois seus gastos são elevados. Henry Kissinger e James Baker escreveram, meses atrás, um artigo condenando a intervenção na guerra da Líbia, com base em um cálculo da relação custo-benefício para os Estados Unidos.
Na crise financeira de 2008, os neoliberais foram, em grande medida, “liquidacionistas”, como o velho Hayek pergava. Disseram que os bancos em dificuldades deveriam ser deixados à sua própria sorte e quebrarem, se preciso fosse.
Se há um contraponto político ao conservadorismo, ele ronda a América do Sul. Está pelo Brasil, pela Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, a Venezuela, o Equador e o Peru. Com defeitos, limitações, tibiezas e inúmeros problemas. Na Europa e nos Estados Unidos, os movimentos de esquerda são de uma espontaneidade sem luxemburguismo (o da Rosa, não o do Vanderley). Dependem de associações civis pouco conectadas à luta política nacional e têm um profundo descrédito pelos partidos, inclusive os de ultraesquerda, afogados em sua própria retórica e empacados em sua falta de projeto.
sábado, setembro 17, 2011
Opinião: Capitalismo para os pobres, socialismo para os ricos
Imagem perversa do capitalismo
Do
palavras-diversas.blogspot.com
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago
através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial
do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais.
Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que
Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
Gore Vidal disse, certa vez, preferir morar em Ravello na costa Amalfitana, do que viver nos Estados Unidos, onde os pobres viviam no capitalismo e os ricos, no socialismo. E explicou: enquanto 80% da população disputam os 20% da riqueza do país, numa luta encarniçada e sem quartel por empregos, saúde, educação, moradia, aposentadoria — isto dentro das regras de um capitalismo neoliberal pós-keinesiano e da política laissez-faire e ao arbítrio da mágica mão do mercado, os 20% dos donos dos poderes, num verdadeiro regime socialista, distribuem entre si os 80% do PIB restante da nação.
A virada do capitalismo social e includente para o brutal e excludente foi representada, em suas bases teóricas, na Sociedade Mont Pèlerin, fundada na cidade suíça do mesmo nome em 1947. Seus idealizadores foram economistas como Frederick Hayek, Karl Popper e Milton Friedman, Ludwig Von Mises, Joseph Schumpeter entre outros, que se propunham a defender o liberalismo clássico, a liberdade de expressão, o livre mercado e os valores políticos de uma sociedade aberta. Os “manuais operacionais” da Mont Pèlerin foram os livros “O caminho da servidão”, de Hayek, de 1944, e “A sociedade aberta e seus inimigos”, de Karl Popper, de 1945. As ideias básicas desses textos eram que a atividade empresarial deveria ser deixada livre, sem amarras para governar o mundo como bem entendesse.
Muito desse purismo vinha de Hayek, o guru de Milton Friedman, líder da escola econômica da Universidade de Chicago, o qual em tons severos dizia que qualquer envolvimento governamental na economia seria capaz de lançar a sociedade no “caminho da servidão” e, portanto, deveria ser implacavelmente extirpado.
Nos anos 50, os sociaisdemocratas e os keynesianos dos países ricos comemoravam uma série de histórias de sucesso em vários países que adotaram as políticas econômicas da escola de Chigago e da turma de Mont Pélerin. O laboratório mais avançado do desenvolvimento era o Cone Sul da América: Chile, Argentina, Uruguai, o sudeste brasileiro e seu epicentro foi a CEPAL, de Raul Prebisch, que treinou diversas equipes de economistas desenvolvimentistas para atuarem como assessores dos governos da região. Durante esse período de expansão espetacular, o Cone Sul parecia mais a Europa do que o resto da América Latina.
E o que receitavam esses assessores? Em primeiro lugar os governos deveriam abolir todas as regras e regulamentações que se interpunham no caminho da acumulação de capitais. Em segundo, deveriam vender todos os ativos que possuíam e que poderiam ser administrados com lucro. Em terceiro, deveriam cortar drasticamente os fundos destinados aos programas sociais. Além disso, os impostos deveriam ser baixos, taxando os ricos e pobres na mesma proporção. As corporações ficariam livres para vender seus produtos para todo o mundo e os governos deveriam ser impedidos de proteger as indústrias de seus países. Todos os preços, inclusive o dos salários, seriam definidos pelo mercado, e o salário mínimo, abolido. Friedman e seus sequazes ainda ofereciam à iniciativa privada os serviços de saúde, de correios, a educação, os transportes, as aposentadorias e até a água e os parques nacionais.
Enfim, a contrarrevolução da Escola de Chicago pretendia eliminar todas as formas de proteção que os trabalhadores haviam conquistado por meio de lutas antigas e sangrentas e e queriam explorar com lucros de mercado todos os serviços públicos nos quais o Estado havia investido com recursos da população trabalhadora. Tudo isso tinha a finalidade de aparar as agudas arestas do mercado.
Assim, no entendimento de Friedman, toda essa riqueza deveria ser compartilhada e, como princípio, passada às mãos da iniciativa privada. E apara atrair investimentos, os governos do Cone Sul publicavam caros anúncios nos principais jornais dos Estados Unidos e da Europa nos quais declaravam explicitamente, e sem qualquer pejo, que “poucos governos da história foram tão encorajadores para os investimentos privados. Estamos atravessando uma verdadeira revolução social; procuramos parceiros que ajudem a nos livrar do estatismo e que nos auxiliem a demonstrar o imprescindível papel do setor privado” (anúncio da ditadura argentina na Business Week).
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais. Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
As fantásticas quantias de capitais não controlados e a ruptura das estruturas reguladoras, exerceram um impacto de grande escala sobre a economia mundial. Assim, chegamos a uma situação na qual, como diz Joseph Siglitz, “fomos envolvidos por uma mistura tóxica de interesses especiais, políticas econômicas mal-orientadas e ideologias da direita política as quais desembocaram na atual crise global. E alguém como Michael Moore falou “curto e grosso”: “Fomos vítimas de um gigantesco roubo planejado e executado por banqueiros, economistas, políticos e seus acólitos neoliberais”. E agora não há dinheiro estatal que chegue, pois conforme Slavoj Zizek “a solução dos graves problemas da maioria dos países em quebra é o uso de medidas socialistas para salvar o capitalismo”.
Daí a justa e lúcida afirmação de Gore Vidal que abre este texto.
Franklin Cunha (médico) / Sul 21
Do
palavras-diversas.blogspot.com
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago
através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial
do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais.
Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que
Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
Gore Vidal disse, certa vez, preferir morar em Ravello na costa Amalfitana, do que viver nos Estados Unidos, onde os pobres viviam no capitalismo e os ricos, no socialismo. E explicou: enquanto 80% da população disputam os 20% da riqueza do país, numa luta encarniçada e sem quartel por empregos, saúde, educação, moradia, aposentadoria — isto dentro das regras de um capitalismo neoliberal pós-keinesiano e da política laissez-faire e ao arbítrio da mágica mão do mercado, os 20% dos donos dos poderes, num verdadeiro regime socialista, distribuem entre si os 80% do PIB restante da nação.
A virada do capitalismo social e includente para o brutal e excludente foi representada, em suas bases teóricas, na Sociedade Mont Pèlerin, fundada na cidade suíça do mesmo nome em 1947. Seus idealizadores foram economistas como Frederick Hayek, Karl Popper e Milton Friedman, Ludwig Von Mises, Joseph Schumpeter entre outros, que se propunham a defender o liberalismo clássico, a liberdade de expressão, o livre mercado e os valores políticos de uma sociedade aberta. Os “manuais operacionais” da Mont Pèlerin foram os livros “O caminho da servidão”, de Hayek, de 1944, e “A sociedade aberta e seus inimigos”, de Karl Popper, de 1945. As ideias básicas desses textos eram que a atividade empresarial deveria ser deixada livre, sem amarras para governar o mundo como bem entendesse.
Muito desse purismo vinha de Hayek, o guru de Milton Friedman, líder da escola econômica da Universidade de Chicago, o qual em tons severos dizia que qualquer envolvimento governamental na economia seria capaz de lançar a sociedade no “caminho da servidão” e, portanto, deveria ser implacavelmente extirpado.
Nos anos 50, os sociaisdemocratas e os keynesianos dos países ricos comemoravam uma série de histórias de sucesso em vários países que adotaram as políticas econômicas da escola de Chigago e da turma de Mont Pélerin. O laboratório mais avançado do desenvolvimento era o Cone Sul da América: Chile, Argentina, Uruguai, o sudeste brasileiro e seu epicentro foi a CEPAL, de Raul Prebisch, que treinou diversas equipes de economistas desenvolvimentistas para atuarem como assessores dos governos da região. Durante esse período de expansão espetacular, o Cone Sul parecia mais a Europa do que o resto da América Latina.
E o que receitavam esses assessores? Em primeiro lugar os governos deveriam abolir todas as regras e regulamentações que se interpunham no caminho da acumulação de capitais. Em segundo, deveriam vender todos os ativos que possuíam e que poderiam ser administrados com lucro. Em terceiro, deveriam cortar drasticamente os fundos destinados aos programas sociais. Além disso, os impostos deveriam ser baixos, taxando os ricos e pobres na mesma proporção. As corporações ficariam livres para vender seus produtos para todo o mundo e os governos deveriam ser impedidos de proteger as indústrias de seus países. Todos os preços, inclusive o dos salários, seriam definidos pelo mercado, e o salário mínimo, abolido. Friedman e seus sequazes ainda ofereciam à iniciativa privada os serviços de saúde, de correios, a educação, os transportes, as aposentadorias e até a água e os parques nacionais.
Enfim, a contrarrevolução da Escola de Chicago pretendia eliminar todas as formas de proteção que os trabalhadores haviam conquistado por meio de lutas antigas e sangrentas e e queriam explorar com lucros de mercado todos os serviços públicos nos quais o Estado havia investido com recursos da população trabalhadora. Tudo isso tinha a finalidade de aparar as agudas arestas do mercado.
Assim, no entendimento de Friedman, toda essa riqueza deveria ser compartilhada e, como princípio, passada às mãos da iniciativa privada. E apara atrair investimentos, os governos do Cone Sul publicavam caros anúncios nos principais jornais dos Estados Unidos e da Europa nos quais declaravam explicitamente, e sem qualquer pejo, que “poucos governos da história foram tão encorajadores para os investimentos privados. Estamos atravessando uma verdadeira revolução social; procuramos parceiros que ajudem a nos livrar do estatismo e que nos auxiliem a demonstrar o imprescindível papel do setor privado” (anúncio da ditadura argentina na Business Week).
Já sabemos como terminou a atuação dos economistas da escola de Chicago através das políticas econômicas do FMI, do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio, dos bancos e de outros organismos neoliberais. Na realidade foi um outro e gigantesco golpe financeiro ao estilo do que Bernard Maddof aplicou em investidores de tudo o mundo que acreditaram nele.
As fantásticas quantias de capitais não controlados e a ruptura das estruturas reguladoras, exerceram um impacto de grande escala sobre a economia mundial. Assim, chegamos a uma situação na qual, como diz Joseph Siglitz, “fomos envolvidos por uma mistura tóxica de interesses especiais, políticas econômicas mal-orientadas e ideologias da direita política as quais desembocaram na atual crise global. E alguém como Michael Moore falou “curto e grosso”: “Fomos vítimas de um gigantesco roubo planejado e executado por banqueiros, economistas, políticos e seus acólitos neoliberais”. E agora não há dinheiro estatal que chegue, pois conforme Slavoj Zizek “a solução dos graves problemas da maioria dos países em quebra é o uso de medidas socialistas para salvar o capitalismo”.
Daí a justa e lúcida afirmação de Gore Vidal que abre este texto.
Franklin Cunha (médico) / Sul 21
Em defesa da Grécia
Aminha primeira neta, Helena, tem sangue grego. Mas não é por isso que resolvi sair em defesa da Grécia hoje. É que ela tem sido injustiçada, no meu entender. Quem acompanha a crise pelos jornais fica com a impressão de que se trata de um país relapso, que não cumpre o que promete, apesar da enorme ajuda que tem recebido do FMI e dos seus parceiros da área do euro.
Não é bem assim. A Grécia está sendo massacrada por uma crise de proporções monumentais. O ajustamento fiscal já realizado é imenso. Basta dizer o seguinte: o atual governo grego, que tomou posse em outubro de 2009, reduziu a razão déficit público/PIB em nada menos que 7 pontos percentuais em apenas dois anos — de 15,5% em 2009 para algo como 8,5% em 2011, segundo as projeções revistas, isto é, levando em conta que a meta original do programa de ajustamento acordado com os europeus e o FMI não será alcançada este ano.
Repare, leitor, que esse resultado foi alcançado em meio a uma recessão de rachar quarteirão. Estima-se que o PIB da Grécia, que já caíra 2% em 2009, tenha se reduzido em mais cerca de 10% em 2010 e 2011! Ora, não é pouca coisa alcançar um corte da ordem de 7 pontos de percentagem na razão déficit/PIB com a economia passando por uma contração tão brutal. Uma recessão forte sempre afeta de forma muito negativa as receitas do governo — e é o que está acontecendo no caso da Grécia.
Assim, as queixas de alemães e outros europeus de que os gregos não estão cumprindo as metas, precisam fazer mais etc., devem ser relativizadas. A verdade é que a população grega está pagando um preço altíssimo pela crise e pelo ajustamento fiscal draconiano.
A recessão em 2011 está se mostrando mais profunda do que se esperava. As novas estimativas indicam que 2012 será outro ano de recessão na Grécia, o quarto consecutivo de queda da atividade econômica. Em junho, a taxa de desemprego chegou a 16% contra 12% um ano antes. Para os jovens o problema é ainda mais grave. A taxa de desemprego para pessoas com menos de 25 anos alcançou 43% contra 30% em junho de 2010!
Como se chegou a esse ponto? A Grécia tem a sua quota de responsabilidade, claro. Nos anos anteriores à crise internacional e até 2009, o governo grego fez o diabo em matéria de política econômica. Por exemplo, acumulou imensos déficits fiscais e ocultou parte desses déficits com vários artifícios contábeis. Valeu-se da sua condição de membro da então prestigiosa área do euro para financiar esses enormes déficits fiscais nos mercados internacionais. A grande entrada de capitais externos, principalmente europeus, cobriu também elevados déficits nas contas externas correntes, que refletiam outro grave problema: a competitividade baixa e decrescente da economia grega. A condição de membro da área do euro revelou-se um ônus considerável para a Grécia. Primeiro porque, se ela não tivesse sido aceita como membro, nunca teria recebido os capitais externos que financiaram a farra fiscal e os grandes déficits externos no período anterior à crise. Segundo, sem moeda própria, a Grécia não tem agora como suavizar os efeitos do violento ajuste fiscal com uma política monetária mais flexível e depreciação cambial.
Para completar o quadro, o apoio financeiro recebido pela Grécia é insuficiente. Pede-se demais aos gregos, e muito pouco aos credores privados da Grécia, que são principalmente bancos e outras instituições financeiras europeias. Está ficando cada vez mais claro que a Grécia precisa de uma reestruturação mais ambiciosa da dívida externa privada.
Quanto mais cedo isso for reconhecido, maior será a chance de superar a crise da Grécia e conter as suas repercussões no resto da zona do euro.
Um “post scriptum” estritamente sentimental: o nome oficial da Grécia é “República Helênica”.
Paulo Nogueira Batista Jr
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