segunda-feira, junho 29, 2015

O “Estado Mínimo” é bom ! Para o Brasil !

O maior empregador do mundo é o Pentágono !

O Conversa Afiada reproduz do Jornal do Brasil artigo de Mauro Santayana:



A OPERAÇÃO LAVA-JATO, A DEFESA NACIONAL, A CONTRA-INFORMAÇÃO E A ESPIONAGEM


Em suas críticas ao tamanho do Estado e na defesa da privatização a qualquer preço, os neoliberais tupiniquins se esforçam por defender a tese de que o poder de algumas das maiores nações do mundo “ocidental”, os EUA à frente, teria como únicos, principais esteios, o capitalismo, a livre iniciativa e o livre mercado, e defendem, sempre que podem, alegando a existência de “cabides de emprego”, e o grande número de ministérios, a diminuição do setor público no Brasil.

A informação, divulgada na semana passada, de que, com três milhões e duzentos mil funcionários, o Departamento de Defesa dos EUA é o maior empregador do mundo, tendo em sua folha de pagamento, sozinho, mais colaboradores que o governo brasileiro, com todos seus 39 ministérios, mostra como essa gente tem sido pateticamente enganada, e corrobora o fato de que a tese do enxugamento do estado, tão cantada em prosa e verso por certos meios de comunicação nacionais, não é mais, do ponto de vista da estratégia das nações, do que uma fantasia que beira a embromação.

Dificilmente vai se encontrar uma nação forte, hoje – como, aliás, quase sempre ocorreu na história – que não possua também um estado poderoso, decidida e vigorosamente presente em setores estratégicos, na economia, e na prestação de serviços à população.

Enquanto em nosso país, o número total de empregados da União, estados e municípios, somados, é de 1,5% da população, na Itália ele passa de 5%, na Alemanha, proporcionalmente, ele é de 80% a mais do que no Brasil, nos EUA, de 47% a mais e na França, também um dos países mais desenvolvidos do mundo, de 24% da população ativa, o que equivale a dizer que praticamente um a cada quatro franceses trabalha para o Setor Público.

Esses dados derrubam também a tese, tão difundida na internet, de que no Brasil se recebe pouco em serviços, comparativamente aos impostos que se pagam. Por aqui muitos gostariam de viver como na Europa e nos Estados Unidos, mas ninguém se pergunta quantos funcionários públicos como médicos, professores, advogados, técnicos, cientistas, possuem a mais do que o estado brasileiro, os governos dos países mais desenvolvidos do mundo, para prestar esse tipo de serviços à população.

E isso, sem ter que ouvir uma saraivada de críticas a cada vez que lança um concurso, e sem ter que enfrentar campanhas quase que permanentes de defesa da precarização do trabalho e da terceirização.

Aos três milhões e duzentos mil funcionários, cerca de 1% da população norte-americana, fichados apenas no Departamento de Defesa, é preciso agregar, no esforço de fortalecimento nacional dos Estados Unidos, centenas de universidades públicas e privadas, e grandes empresas, estas, sim, privadas, ou com pequena participação estatal, que executam os principais projetos estratégicos de um país que tem o dobro da relação dívida pública-PIB do Brasil e não parece estar, historicamente, preocupado com isso.

Companhias que, quando estão correndo risco de quebra, como ocorreu na crise de 2008, recebem dezenas de bilhões de dólares e novos contratos do governo, e que possuem legalmente, em sua folha de pagamento, “lobistas”, que defendem seus interesses junto à Casa Branca e ao Congresso, que, se estivessem no Brasil, já teriam sido, neste momento, provavelmente presos como “operadores”, por mera suspeição, mesmo sem a apresentação de provas concretas.

Da estratégia de fortalecimento nacional dos principais países do mundo, principalmente os ocidentais, faz parte a tática de enfraquecimento e desestruturação do Estado em países, que, como o Brasil, eles estão determinados a continuar mantendo total ou parcialmente sob seu controle.

Como mostra o tamanho do setor público na Alemanha, na França, nos Estados Unidos – ampla e propositadamente subestimado no Brasil – por lá se sabe que, quanto mais poderoso for o Estado em um potencial concorrente, mais forte e preparado estará esse país para disputar um lugar ao sol com as nações mais importantes, em um mundo cada vez mais complexo e competitivo.

Daí porque a profusão de organizações, fundações, “conferencistas”, “analistas” “comentaristas”, direta e indiretamente pagos pelos EUA, muitos deles ligados a braços do próprio Departamento de Defesa, como a CIA, e a aliança entre esses “conferencistas”, “analistas”, “filósofos”, “especialistas”, principescos sociólogos – vide o livro “Quem pagou a conta? A CIA na Guerra Fria da Cultura”, da jornalista inglesa Frances Stonor Saunders – etc, com a imprensa conservadora de muitos países do mundo, e mais especialmente da América Latina, na monolítica e apaixonada defesa do “estado mínimo”, praticada como recurso para o discurso político, mas também por pilantras a serviço de interesses externos, e por ignorantes e inocentes úteis.

Em matéria de capa para a Revista Rolling Stone, no final da década de 1970, Carl Bernstein, o famoso repórter do Washington Post, responsável pela divulgação e cobertura do Caso Watergate, que derrubou o Presidente Richard Nixon, mostrou, apresentando os principais nomes, como centenas de jornalistas norte-americanos foram recrutados pela CIA, durante anos, a fim de agir no exterior como espiões, na coleta de informações, ou para produzir e publicar matérias de interesse do governo dos Estados Unidos.

Muitos deles estavam ligados a grandes companhias, jornais e agências internacionais, como a Time Life, a CBS, a NBC, a UPI, a Reuters, a Associated Press, a Hearst Newspapers, e a publicações como o New York Times, a Newsweek e o Miami Herald, marcas que em muitos casos estão presentes diretamente no Brasil, por meio de tv a cabo, ou têm seu conteúdo amplamente reproduzido, quando não incensado e reverenciado, por alguns dos maiores grupos de comunicação nacionais.

Assim como a CIA influenciou e continua influenciando a imprensa norte-americana dentro e fora do território dos Estados Unidos, ela, como outras organizações oficiais e paraoficiais norte-americanas, também treina, orienta e subsidia centenas de veículos, universidades, estudantes, repórteres, em todo o mundo, em um programa que vem desde antes da Guerra Fria, e que nunca foi oficialmente interrompido.

O próprio Departamento de Defesa, o Departamento de Estado, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, USAID, o Fundo Nacional para a Democracia, NED, o Conselho Superior de Radiodifusão, BBG, e o Instituto dos EUA para a Paz, USIP, bancam atividades de “desenvolvimento de meios” em mais de 70 países, em programas que mantêm centenas de fundações, ONGs estrangeiras, jornalistas, meios de informação, institutos de “melhoramento” profissional, e escolas de jornalismo, com um investimento anual que pode chegar a bilhões de dólares.

Além deles, são usados, pelo Departamento de Estado, o Bureau de Assuntos Educacionais e Culturais, (Bureau of Educational and Cultural Affairs, BECA), o Bureau de Inteligência e Investigação, (Bureau of Intelligence and Research, INR) e o Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor, DRL), que apenas no ano de 2006 organizou, na Bolívia, por exemplo, 15 diferentes “oficinas” sobre “liberdade de imprensa e expressão”, além do Escritório de Diplomacia e Assuntos Públicos (Office of Public Diplomacy and Public Affaires, OPDPA).

“O que nós estamos ensinando – explica Paul Koscak, porta-voz da USAID – é a mecânica do jornalismo, na imprensa escrita, no rádio ou na televisão. Como fazer uma história, como escrever de forma equilibrada … tudo o que se espera de um verdadeiro profissional de imprensa.”

Isabel MacDonald, diretora de comunicação da Fairness And Accuracy in Reporting (FAIR) – Imparcialidade e Transparência na Informação – um observatório de meios de comunicação de Nova Iorque sem fins lucrativos, não tem, no entanto, a mesma opinião.

Para ela, “esse tipo de operação do governo norte-americano, a despeito de sua alegada defesa das normas da objetividade, trabalha, na verdade, contra a democracia, apoiando a dissensão sufocante, e divulgando informações deliberadamente falsas que são úteis para os objetivos da política exterior dos Estados Unidos.’

Um exemplo clásssico desse tipo de resultado, quanto aos objetivos norte-americanos, foi o envolvimento de Washington, denunciado pela comissão legislativa Church-Pike, no Congresso dos EUA, com o financiamento a jornais de oposição na América Latina, como o grupo “El Mercúrio” do Chile, por exemplo, na conspiração que levou ao golpe militar contra o presidente eleito de orientação nacionalista Salvador Allende, em 1973.

Em abril de 2015, a Associação dos Jornalistas Chilenos decidiu expulsar de seus quadros o dono do Grupo El Mercúrio, Agustín Edwards Eastman, de 87 anos, por violação do código de ética, depois que documentos oficiais revelados nos Estados Unidos mostraram, em 2014, que ele havia recebido dinheiro da CIA para publicar informações falsas contra o governo chileno.

A diferença entre os Estados Unidos, que se dizem “liberais” e “privatistas”, e na verdade não o são, e o Brasil, que cede a todo tipo de pressão, na tentativa de provar, todos os dias, que não é comunista nem estatizante, é que, mesmo quando envolvidas com corrupção – considerada uma espécie de “dano colateral” que deve ser “contornado” e “absorvido”, no contexto do objetivo maior, de permanente fortalecimento do complexo-industrial militar dos EUA – a existência das principais empresas de defesa norte-americanas nunca é colocada em risco.

Apenas como exemplo, a Lockheed Martin, uma das principais companhias de aviação e de defesa dos EUA, pagou, como lembrou André Motta Araújo no Jornal GGN outro dia, entre as décadas de 1950 e 1970, mais de 300 milhões de dólares, ou 3.7 bilhões de dólares em dinheiro de hoje, de propina para autoridades estrangeiras, entre elas – para quem acha que isso só acontece em paises “sub-desenvolvidos” – o então Ministro da Defesa da Alemanha Ocidental, Franz Joseph Strauss, os ministros Luigi Gul, e Maria Tanassi, o Primeiro-Ministro Mariano Rumor e o Presidente da República Italiana, Giovanni Leone, o general Minoru Genda e o Primeiro-Ministro japonês Kakuei Tanaka, e até o príncipe Bernhard, marido da Rainha Juliana, da Holanda.

E alguém acha que a Lockheed foi destruída por isso ? Como também informa Motta Araújo, seus principais dirigentes renunciaram alguns anos depois, e o governo norte-americano, no lugar de multar a empresa, lhe fez generoso empréstimo para que ela fizesse frente, em melhores condições, aos eventuais efeitos do escândalo sobre os seus negócios.

A Lockheed, conclui André Motta Araújo em seu texto, vale hoje 68 bilhões de dólares, e continua trabalhando normalmente, atendendo a enormes contratos, com o poderoso setor de defesa norte-americano.

Enquanto isso, no Brasil, os dirigentes de nossas principais empresas nacionais de defesa, constituídas, nesses termos, segundo a Estratégia Nacional de Defesa, em 2006, para, com sede no Brasil e capital votante majoritariamente nacional, fazer frente à crescente, quase total desnacionalização da indústria bélica, e gerir alguns dos mais importantes programas militares da história nacional, que incluem novos mísseis ar-ar, satélites e submarinos, entre eles nosso primeiro submersível atômico, encontram-se, quase todos, na cadeia.

O Grupo Odebrecht, o Grupo Andrade Gutierrez, o OAS e o Queiroz Galvão têm, todos, relevante participação na indústria bélica e são os mais importantes agentes empresariais brasileiros da Estratégia Nacional de Defesa. Essas empresas entraram para o setor há alguns anos, não por ter algum privilégio no governo, mas simplesmente porque se encontravam, assim como a Mendes Júnior, entre os maiores grupos de engenharia do Brasil, ao qual têm prestado relevantes serviços, desde a época do regime militar e até mesmo antes, não apenas para a União, mas também para estados e municípios, muitos deles governados pela oposição, a quem também doaram e doam recursos para campanhas políticas de partidos e candidatos.

Responsáveis por dezenas de milhares de empregos no Brasil e no exterior, muitos desses grupos já estão enfrentando, depois do início da Operação Lava-Jato, gravíssimos problemas de mercado, tendo tido, para gaúdio de seus concorrentes externos, suas notas rebaixadas por agências internacionais de crédito.

Projetos gigantescos, tocados por essas empresas no exterior, sem financiamento do BNDES, mas com financiamento de bancos internacionais que sempre confiaram nelas, como o gasoduto do Perú, por exemplo, de quase 5 bilhões de dólares, ou a linha 2 do metrô do Panamá, que poderiam gerar centenas de milhões de dólares em exportação de produtos e serviços pelo Brasil, correm risco de ser suspensos, sem falar nas numerosas obras que estão sendo tocadas dentro do país.

Prisões provocadas, em alguns casos, por declarações de bandidos, que podem ser tão mentirosas quanto interesseiras ou manipuladas, que por sua vez, são usadas para justificar o uso do Domínio do Fato – cuja utilização como é feita no Brasil já foi criticada jurídica e moralmente pelo seu criador, o jurista alemão Claus Roxin – às quais se somam a mera multiplicação aritmética de supostos desvios, pelo número de contratos, sem nenhuma investigação, caso a caso, que os comprove, inequivocamente, e por suposições subjetivas, pseudo-premonitórias, a propósito da possível participação dessas empresas em um pacote de concessão de projetos de infra-estrutura que ainda está sendo planejado e não começou, de fato, sequer a ser oficialmente oficialmente estruturado.

O caso Lockheed, o caso Siemens, e mais recentemente, o do HSBC, em que o governo suiço multou esse banco com uma quantia mínima frente à proporção do escândalo que o envolve, nos mostram que a aplicação da justiça, lá fora, não se faz a ferro e fogo, e que ela exige bom senso para não errar na dose, matando o paciente junto com a doença.

Mais uma vez, é necessário lembrar, é preciso combater a corrupção, mas sem arrebentar com a Nação, e com alguns dos principais pilares que sustentam nossa estratégia de desenvolvimento nacional e de projeção nos mercados internacionais.
No futuro, quando se observar a história do Brasil deste período, ao tremendo prejuízo econômico gerado por determinados aspectos da Operação Lava-Jato, mutíssimo maior que o dinheiro efetivamente, comprovadamente, desviado da Petrobras até agora, terá de ser somado incalculável prejuízo estratégico para a defesa do país e para a nossa indústria bélica, que, assim como a indústria naval, se encontrava a duras penas em processo de soerguimento, depois de décadas de estagnação e descalabro.

No Exército, na Marinha, na Força Aérea, muitos oficiais – principalmente aqueles ligados a projetos que estão em andamento, na área de blindados, fuzis de assalto, aviação, radares, navios, satélites, caças, mísseis, submarinos, com bilhões de reais investidos – já se perguntam o que irá acontecer com a Estratégia Nacional de Defesa, caso as empresas que representam o Brasil nas joint-ventures empresariais e tecnológicas existentes vierem a quebrar ou a deixar de existir.

Vamos fazer uma estatal para a fabricação de armamento, que herde suas participações, hipótese que certamente seria destroçada por violenta campanha antinacional, levada a cabo pelos privatistas e entreguistas de sempre, com o apoio da imprensa estrangeira e de seus simpatizantes locais, com a desculpa de que não se pode “inchar”” ainda mais um estado que na verdade está sub-dimensionado para as necessidades e os desafios brasileiros?

Ou vamos simplesmente entregar essas empresas, de mão beijada, aos sócios estrangeiros, com a justificativa de que os projetos não podem ser interrompidos, perdendo o controle e o direito de decidir sobre nossos programas de defesa, em mais um capítulo de vergonhoso recuo e criminosa capitulação ?

Com a palavra, o STF, o Ministério da Defesa, e a consciência da Nação, incluindo a dos patriotas que militam, discreta e judiciosamente, de forma serena, honrosa e equilibrada, no Judiciário e no Ministério Público.


Seminário lança cartilha sobre reforma tributária


Sindicato dos Bancários

Material foi apontado como exemplo da importância de todos conhecerem como funciona o sistema tributário no país
São Paulo – O seminário sobre reforma tributária promovido pelo Sindicato na quinta-feira 25 lancou a cartilha Uma reforma tributária para melhorar a vida do trabalhador. O material foi produzido com a finalidade de apresentar as contradições do sistema de impostos no Brasil e alternativas para torná-lo mais justo. Redigida pelo economista João Sicsú, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cartilha foi ilustrada pelo cartunista Gilberto Maringoni, professor da Universidade Federal do ABC.



“A sociedade não tem ideia do que é o sistema tributário, e com esse nível de consciência não vamos conseguir levar propostas ao Congresso. O primeiro movimento deve ser de discussão nos movimentos sociais, com a sociedade”, explicou Sicsú, falando sobre a importância de uma cartilha como essa ser criada.

Para o professor, além de divulgar informações é preciso transfomar essa discussão em algo concreto. João também ressaltou diversos pontos abordados pela caderno, em especial a taxação de grandes fortunas, dando como exemplo veículos como iates e helicópteros que não possuem tributacão como o IPVA dos carros.

Juvandia Moreira, presidenta do Sindicato comandou a mesa de lançamento que encerrou o evento ao lado de Pedro Onofre Fernandes, diretor de estudos técnicos do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, Dão Real Pereira dos Santos, do Instituto Justica Fiscal, e Marcos Lisandro Puchêvitch, delegado sindical do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda.

“O que foi falado aqui é de suma importância para uma futura reforma, na cartilha o professor Sicsú conseguiu abordar o assunto de forma muito didática. A constituição diz que 'quem pode mais, paga mais e quem pode menos, paga menos', essa deveria ser a diretriz”, comentou Pedro Onofre.

A reforma tributária foi lembrada também como problema político. Segundo Dão, é importante saber quem está por trás dos políticos que regulamentam as leis fiscais, usando como exemplo a atual bancada de empresários que é maioria no Congressso Nacional. “O discurso deve ser popular, muitos pagam impostos sem saber e sem enxergar isso”, afirmou. “O sistema fiscal tem de estar a serviço da redução da desigualdade.”

Elogiando a cartilha, Marcos Puchêvitch, reforçou que “não é só o povo que deve pagar tributos, mas a única coisa que pode resolver isso é a pressão popular”. Para os participantes do lançamento, o material é um exemplo do que deveria ser feito nas escolas, onde o conhecimento sobre o sistema econômico e fiscal poderia ser transmitido desde o ensino fundamental.

“A cartilha está disponibilizada no nosso site para que todos possam ter acesso. Queríamos que ela fosse leve e acessível e acho que atingimos isso. Não haverá democracia total, de fato, se não fizermos as reformas tributária, política, agrária e da comunicação”, concluiu Juvandia Moreira.

Cartilha – O texto analisa o sistema tributário brasileiro como “complexo e regressivo” ao concentrar a arrecadação em impostos sobre consumo, seja de eletrodomésticos, bebidas ou alimentos. E exemplifica como o formato é injusto ao levar pobres e ricos a pagar o mesmo valor sobre um determinado produto. “O tributo que incide sobre um pacote de macarrão, por exemplo, pesa no orçamento de quem ganha um salário mínimo, mas os ricos nem sequer percebem esse valor.”

Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os 10% mais pobres destinam 32% das suas rendas para pagar impostos, enquanto os 10% mais ricos desembolsam apenas 21%. Isso decorre em parte do fato de o maior imposto do país, o ICMS, incidir sobre o consumo. É estadual e, sozinho, representa 20,32% (ou um quinto) de toda a arrecadação tributária do país. Sua carga é de 7,18% do PIB, diz a cartilha.

A edição observa que o ICMS é também responsável pela chamada “guerra fiscal” entre os estados. Cada unidade da federação tem a própria lei. Assim, os governos usam o imposto como instrumento para atrair empresas, por meio de benefícios fiscais. Para mexer no ICMS, é preciso discutir o próprio pacto federativo, defende o texto de João Sicsú.

Carga tributária – De acordo com o levantamento do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), divulgado no ano passado, 55,74% da arrecadação tributária do país, incluindo União, estados e municípios vêm de impostos sobre consumo, enquanto 30,48%, da tributação da renda (15,64% da renda do trabalho). Mas a tributação sobre patrimônio é de apenas 3,7%. Outro problema é a recusa dos poderes de encarar questões para as quais falta vontade política. A Constituição Federal de 1988 prevê a cobrança do imposto sobre grandes fortunas, mas esse tributo precisa ser regulamentado por lei complementar, o que nunca foi feito pelo Congresso Nacional.

Sicsú observa que “os que não querem mudanças” desenvolvem campanhas que simplesmente condenam a carga tributária no Brasil. “Uma meia-verdade”, diz. Segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a carga tributária brasileira é inferior a muitos países. A carga tributária corresponde atualmente a 35% do PIB do Brasil, menor do que a da Alemanha (37,1%), Áustria (42,1%), Bélgica (44%), Dinamarca (48,1%) e Itália (42,9%), entre outros. “O problema é que em outro países há educação pública, sistemas de saúde e outros serviços, como transporte, gratuitos e de boa qualidade”, ressalva o autor.
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Em pauta, tributar heranças e grandes fortunas


Sindicato dos Bancários

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Em seminário promovido pelo Sindicato, especialistas debatem formas para sistema tributário mais justo
São Paulo – “No Brasil, arrecada-se com os pobres e gasta-se com os ricos”. A frase dita pelo economista Márcio Pochmann durante a mesa de abertura do seminário De qual reforma tributária o Brasil precisa?, promovido pelo Sindicato na quinta-feira 25, explicitou uma das mais graves e injustas distorções do sistema tributário brasileiro.

> Fotos: galeria completa do dia de debates
> Vídeo: tributos para pobres; paraíso fiscal de ricos

A mesa seguinte – coordenada pela secretária-geral do Sindicato, Ivone Maria da Silva, e composta por Marcelo Lettieri , auditor fiscal integrante do Instituto Justiça Fiscal, e pelo economista do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), José Aparecido Carlos Ribeiro – debateu uma das alternativas para tornar mais justa a composição do nosso sistema tributário: taxação de grandes fortunas e heranças.

Em sua fala, Lettieri enfatizou que a tributação de grandes fortunas está prevista na Constituição de 1988, é praticada pela maioria dos países ocidentais desenvolvidos e, ao contrário do que defendem os críticos desse tipo de imposto, poderia gerar uma importante arrecadação para o Brasil.

“A taxação das grandes fortunas está prevista na Constituição de 1988 e dorme em berço esplêndido desde então. Os neoliberais, críticos do imposto, argumentam que teria baixo potencial de arrecadação. Porém, de acordo com estudos recentes, a estimativa é que se arrecadaria de R$ 6 bilhões, com um modelo de taxação de patrimônios bem altos com alíquotas baixas, até R$ 22 bilhões por ano”, explica o auditor fiscal. “Se aplicássemos o modelo francês, o Brasil arrecadaria 12,6 bilhões. Já seria o suficiente para que não fosse necessário adotar as medidas restritivas do seguro-desemprego”, exemplificou.

Em relação à tributação incidente sobre heranças, Lattieri afirma que o percentual aplicado no país é vergonhoso. “No Brasil, a alíquota média é de 3,8%, enquanto na Inglaterra é 36%, na França 35% e no Japão 44%. Essa é uma fonte extremamente importante de arrecadação, que é simplesmente desconsiderada no Brasil.”

De acordo com os dois especialistas, além da arrecadação gerada, taxar grandes fortunas e heranças também seria um incentivo para direcionar o capital para o setor produtivo. “O imposto sobre as grandes fortunas e heranças seria um estímulo para a utilização produtiva dos recursos. Um incentivo para que se produza renda para que se pague o tributo”, afirma Lettieri. “Precisamos de um sistema tributário que dê mais incentivos para a atividade produtiva do que para o rentismo”, completa Ribeiro.

Por fim, o economista do Ipea destacou também a importância de tornar o sistema tributário brasileiro mais transparente. “A transparência do sistema tributário pode ser dolorida para a gente como pessoa física, mas é uma condição necessária para aumentar o nível de civilização do sistema político, social e econômico brasileiro”, diz.

“Quanto mais transparente for a tributação, mais sofrida será. Nós saberemos o que estamos pagando e quanto estamos pagando. Mas é melhor saber, porque assim a gente mobiliza, a gente cobra e não fica achando que a culpa é toda da presidenta que está lá. Vamos cobrar do prefeito o que é da sua responsabilidade, do governador o que é do governador e dos vereadores o que cabe a eles”, defende Ribeiro.
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Os aprendizes de feiticeiro e as soluções radicais na economia

Luis Nassif


Não existe nada de mais descolado da realidade econômica do que a ideia de que ajustes radicais promovem recuperações rápidas na economia.

Trata-se de opinião de economistas que jamais conseguiram avançar para além das planilhas. No poder, esses economistas promovem estragos incalculáveis.

Foi assim no plano Real, quando jogaram as taxas de juros para níveis inimagináveis. Em pouco tempo formou-se a maior dívida pública da história sem contrapartida de ativos.

O que aconteceu na economia real?

Ela já vinha em queda desde o final de 1994. No segundo semestre de 1994, a estabilização fez explodir o consumo e houve grande estímulo ao endividamento das empresas, visando ampliar seu capital de giro para atender o mercado que explodia. No final do ano, sentindo que haviam batido no limite, começaram a reduzir estoques e a sair gradativamente do nível anterior de endividamento.

Aí a elevação radical das taxas de juros apanhou-as no contrapé. Impedindo-as de voltar ao patamar anterior. Foram apanhadas pela armadilha do endividamento, criando-se o maior endividamento circular da história, que manietou a economia pelos anos seguintes. A crise arrebentou com o setor agrícola, bateu na indústria e desmontou a arrecadação. A dívida aumentou pelo exercício exagerado dos juros e pela queda da receita.

Isso acontece porque a economia é um conjunto de relações entre setores, que se afetam mutuamente. Não se está tratando com máquinas, mas com intenções, expectativas, um equilíbrio permanentemente precário entre crescimento e preços. E, na economia real, o tempo é muitissimo mais lento do que nos computadores dos traders de mercado.

Se a economia está em vôo cruzeiro, as empresas aumentam seus estoques, os consumidores ampliam seus financiamentos. Quando a economia começa a fraquejar, há um processo inverso de queima gradativa de estoques e de pisada no freio do endividamento pessoal. É um processo que demanda tempo. Não se liquidam dívidas em um piscar de olhos.

Quando, a pretexto de corrigir um desequilíbrio, inserem-se medidas radicais na economia - como essa mistura fatal de recessão, ajuste fiscal irreal e suspensão total do crédito -, corta-se a travessia de empresas e consumidores para a nova realidade que se pretende introduzir. Ambos são apanhados no contrapé e ficam presos à armadilha do endividamento.

O pensamento monofásico

Essas loucuras decorrem do pensamento monofásico dos nossos gestores econômicos.

O Ministro da Fazenda Joaquim Levy só tem olhos para uma equação simplória, tendo como foco único as decisões de investimento: Não se investe por falta de confiança na parte fiscal.

Se se fizer uma arrumação fiscal, aumenta-se a confiança. Ou seja, se vou de 0 para 1 na parte fiscal, a confiança aumentará de 0 para 1. Logo, se eu for de 0 para 5 na parte fiscal a confiança aumentará de 0 para 5.

Não lhe passa pela cabeça - ou melhor, só lhe passa depois do desastre consumado - o momento 2 do choque radical: a queda de receita, inviabilizando as metas fiscais; o aumento da fervura política, deixando o governo no corner junto ao Congresso e à opinião pública.

O presidente do Banco Central Alexandre Tombini é o monofásico das metas inflacionárias. Se a inflação sobe, basta aumentar os juros que a inflação desce. Debaixo dessa formulação simplória, há a economia como organismo vivo.

Divida-se o mercado em três preços: os importados, os administrados e os de mercado. Os primeiros e segundos independem da demanda; os terceiros são fundamentalmente regidos pela demanda. A inflação está sendo puxada pelos dois primeiros.

Se optasse por uma política gradativa, os preços de importados e administrados se estabilizariam em um patamar mais elevado - mas se estabilizariam. E inflação não é nível de preços, mas variação de preços.

Mas Tombini quer as soluções heróicas. Aumenta as taxas de juros a níveis pornográficos e corta completamente o crédito, para que a queda nos preços de mercado compense a alta nos preços dos importados e os administrados. Afinal, quanto mais radical o ajuste, mais rapidamente a inflação voltará para a meta.

Para atingir esse objetivo radical, só à custa de uma deflação radical nos preços de mercado.

Deflação ocorre apenas em situações em que a recessão é tão aguda que leva à queda até de preços em equilíbrio. Ou seja, pega-se um consumo em queda, com preços estabilizados, e aplica-se uma dose radical de juros para cair mais ainda, a fim de compensar as altas de preços não regulados pela demanda.

Nem tem o que calcular: somado à política fiscal de Levy, o resultado será recessão da grossa, com implicações no mercado de trabalho, na armadilha do endividamento das empresas. Em suma, tudo igual a 1995, com o agravante de não ter um Plano Real nas costas para legitimar as barbaridades cometidas.

Quando Gustavo "Saco de Maldades" Franco finalmente saiu do Banco Central, após uma sucessão amalucada de medidas "heroicas" que arrebentaram com a economia, ouvi de Luiz Carlos Mendonça de Barros - que foi economista do Cruzado - uma explicação sobre a formação dos economistas que sobem ao poder:

- Saiu quando ia ficar bom. Todos nós, na primeira vez, nos deslumbramos com o poder que tem uma autoridade monetária e econômica e cometemos as maiores barbaridades. Depois amadurecemos e aprendemos que a economia não é assim.

O problema brasileiro é o eterno aprendizado dos novos aprendizes de feiticeiro que ascendem à área econômica.

Trecho - Documentário "Let's make money" - Ex-assassino econômico John P...

segunda-feira, junho 15, 2015

BRASIL: O Início de uma potência militar 2015

Brasileiro vice-presidente do banco dos BRICS revela detalhes da instituição Leia mais: http://br.sputniknews.com/mundo/20150615/1298810.html#ixzz3dB1vBOzQ

Do SPUTNIK

Diretor do Fundo Monetário Internacional há oito anos, Paulo Nogueira Batista Junior está deixando o cargo para assumir uma das vice-presidências do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS.
Em entrevista exclusiva à Sputnik, ele revelou detalhes de como a nova instituição funcionará e de como a frustração com a ação recente do FMI motivou a criação de bancos de desenvolvimento pelo mundo. O brasileiro viaja nesta segunda-feira (15) para a Rússia onde, entre outros compromissos, participa de um painel na quinta-feira (18) no Fórum Econômico de São Petersburgo.

Sputnik: Como o senhor analisa a importância do banco dos BRICS, o que ele representa e como o senhor vê essa sua nova atribuição?

Paulo Nogueira Batista Junior: O banco dos BRICS, como ele é conhecido na imprensa, na verdade se chama Novo Banco de Desenvolvimento foi estabelecido pelos BRICS com o intuito de criar um novo canal de financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países em desenvolvimento em geral. Não é, portanto, um banco dos BRICS a rigor porque, pelo seu convênio constitutivo, ele já pretende estar aberto a outros países, inclusive países avançados que podem se tornar membros do Novo Banco de Desenvolvimento num segundo momento, juntamente com outros países em desenvolvimento.

S: Voltado exclusivamente para os países em desenvolvimento?

PNBJ: Os empréstimos serão apenas para países em desenvolvimento, nas áreas de infraestrutura e desenvolvimento sustentável, como eu vinha dizendo, mas é um banco que deve ser visto como aberto. Ele é aberto por estatuto, por convênio constitutivo a qualquer país membro das Nações Unidas e, uma vez que ele entre em operações, o que se espera que aconteça em janeiro do ano que vem, os países fundadores, que são os cinco BRICS, vão dividir, vão orientar a administração do banco, composta por um presidente e quatro vices, para definir, em detalhes, as condições de acesso para novos membros.

S: As informações que temos é que o Novo Banco de Desenvolvimento admitirá, como o senhor diz, novos membros, desde que eles tragam recursos para o banco. Procede esta informação?

PNBJ: Diferente do modelo que a China criou, liderado pela China, o AIIB, que terá sede em Pequim, o banco estabelecido pelos BRICS, inicialmente é um banco que trabalha com os cinco membros fundadores. O tratado que constituiu o Novo Banco de Desenvolvimento foi assinado em Fortaleza, em julho do ano passado. Este tratado foi negociado entre os cinco membros fundadores do novo banco. O outro banco de financiamento de infraestrutura para a Ásia seguiu o modelo de abrir a negociação do próprio estatuto, do próprio convênio constitutivo, para outros países, inclusive fora da Ásia. Então, o processo é diferente, mas os dois tem um ponto em comum: os dois bancos pretendem atrair membros de outros países. Para ser membro de uma instituição, o país precisa aportar recursos. Agora as condições, os montantes, isso vai depender de uma negociação entre os membros fundadores, mas também da negociação específica com cada país que queira considera entrar no banco a partir do ano que vem.

Sputnik: Ou seja, não haverá uma generalização, será estudado caso a caso.

PNBJ: Haverá regras gerais. Já existem, na verdade, alguns princípios gerais estabelecidos no convênio constitutivo, mas cada país fará a sua proposta de entrada que será considerada. Evidentemente, há uma condição natural, que todas as instituições aplicam, que o país que queira entrar precisa que estar disposto a aderir ao estatuto, ao convênio constitutivo do Novo Banco de Desenvolvimento que foi negociado entre os cinco membros fundadores. Não creio que isso seja um grande empecilho, porque o tratado que foi assinado em Fortaleza se inspirou em grande parte, no essencial, nos convênios constitutivos de bancos de desenvolvimento já existentes. Nós não quisemos reinventar a roda e fizemos algo que me parece muito consistente e que não será estranho a nenhum país que examine os compromissos básicos que orientam a construção desse novo banco.

S: A Sputnik quer renovar os cumprimentos pela sua nomeação para o Novo Banco de Desenvolvimento, popularmente chamado de banco dos BRICS. Como vice-presidente desta instituição, quais serão suas atribuições específicas?
PNBJ: Num primeiro momento, o que está acontecendo é a nomeação de um grupo chamado de pré-administração, integrado pelo presidente designado pela Índia e quatro vice-presidentes designados pelos outros bancos. Este grupo de cinco pessoas estará trabalhando a partir do início de julho em Xangai, para detalhar e construir o banco e deixá-lo pronto para entrar em funcionamento. Alguns passos muito importantes estão sendo construídos. Por exemplo: agora em junho, o Brasil conseguiu a ratificação na Câmara e no Senado do tratado que constitui o banco, tratado que já havia sido assinado em Fortaleza. E também o tratado que, aliás, estabeleceu o C.R.A., o Fundo Monetário dos BRICS, também assinado em Fortaleza. Os dois foram ratificados conjuntamente pela Câmara primeiro e pelo Senado.

S: O Acordo Contingente de Reservas?

PNBJ: Isso. A Rússia e a Índia já ratificaram o banco. A China está prestes a ratificar. E nós recebemos indicações que a África do Sul também está prestes a ratificar. Então chegando ao final deste mês, se tudo correr bem e não houver nenhum imprevisto, os cinco países terão ratificado. E ao mesmo tempo, nos últimos meses, foram estabelecidas regras de funcionamento desse grupo de pré-administração que vai trabalhar em Xangai mesmo antes da entrada em operação do banco para justamente permitir que o banco entre em operação. Acho que foi uma idéia válida que se inspira também nas experiências de outros bancos que foram constituídos há mais tempo. Por exemplo, o banco europeu de reconstrução e desenvolvimento. Para maior segurança do banco, da instituição que vai entrar em operação, é importante que mesmo antes da sua entrada em operação, a futura administração do banco, ou seja, no nosso caso o presidente e os quatro vices, estejam trabalhando já na futura sede, para garantir que quando o banco entrar formalmente em operações, abrir as portas para funcionamento, que esteja realmente preparado em todos os detalhes essenciais.
Agora nós estamos entrando no campo da definição operacional, dos regulamentos, das regras de procedimentos para que o banco possa operar, fazer funcionar. Mas não é só isso. Também esse grupo de cinco pessoas, do qual eu tenho a honra de ter sido convidado a participar, também vai ajudar a definir a estratégia do banco. Nós vamos pegar os documentos que foram preparados pela diretoria interina, que é, aliás, comandada pelo Brasil, vamos fazer uma proposta em cima disso, submeter à diretoria e submeter ao conselho de governadores. É importante explicar a estrutura de funcionamento, como esse banco foi desenhado. Os cinco países fundadores se farão representar no banco e no nível mais alto pelos governadores que serão designados pelos governos em nível ministerial. E esses governadores, uma vez designados, irão designar os diretores. Por enquanto, nós temos uma diretoria provisória dos cinco países, funcionando desde Brisbane, desde aquele encontro dos líderes dos BRICS na Austrália, à margem do G20. O Brasil, por exemplo, terá um ministro, e a presidenta Dilma (Rousseff) o designará como governador e esse ministro designará um diretor. Estas pessoas são as responsáveis por representar o Brasil no Novo Banco de Desenvolvimento. Cada um dos sócios fundadores se reservou o direito, no estatuto, no convênio constitutivo, de designar um membro da alta administração do banco e por acordo também se chegou à conclusão de que haveria uma rotação com a Índia ocupando a primeira presidência e, depois de cinco anos, o Brasil será o segundo a designar um presidente. Uma sutileza jurídica e política importante: a administração não tem a função de representar os países. A alta administração do banco – o presidente e os vices – são responsáveis e devem sua lealdade exclusiva, pelo próprio tratado, ao banco, com a instituição que irá se constituir. O presidente do banco, em conjunto com os vices, toma as decisões tendo em vista o interesse da instituição e reportam às entidades políticas que representam os países – o conselho de governadores e o conselho de diretores.

S: Cada presidente tem mandato de cinco anos?

PNBJ: Na verdade os primeiros vice-presidentes terão mandatos de seis anos para evitar que todos deixem o cargo simultaneamente com o presidente, gerando uma descontinuidade. Mas basicamente, a partir da primeira rodada, serão períodos de cinco anos. Isto que eu descrevi não é estranho, não é muito diferente da governança que existe em outros bancos de desenvolvimento, as entidades de Bretton Woods, inclusive o Fundo Monetário. Nesse sentido não é uma inovação, mas eu procurei agora te explicar rapidamente porque eu noto, pelo meu período aqui no Fundo, que eu fui mal compreendido.

S: Veja se eu estou concluindo corretamente: primeiro presidente terá o mandato de cinco anos. Significa que em 2021 o presidente do Novo Banco de Desenvolvimento será o senhor?

PBNJ: Não, não, não. Por acordo será um brasileiro, mas não há nenhuma determinação de que a pessoa designada para vice vá continuar numa outra condição no banco. Não, de forma alguma. Isto será decidido daqui a cinco, seis anos e até lá muita água vai rolar.
S: O fato de assumir a vice-presidência do Novo Banco de Desenvolvimento obrigará o senhor a deixar o Fundo Monetário Internacional, instituição em que o senhor representou o Brasil e mais dez países, a saber: Cabo Verde, República Dominicana, Equador, Guiana, Haiti, Nicarágua, Panamá, Suriname, Timor Leste e Trinidade e Tobago. Por quanto tempo o senhor exerceu essas funções e que avaliação faz do seu desempenho no FMI?

S: Eu sou diretor do Fundo há mais de oito anos. Cheguei em abril de 2007 e não esperava ficar tanto tempo. Acho que foi uma experiência muito boa. Acabei ficando muito mais do que eu pretendia inicialmente, em parte, porque a crise internacional que estourou nos países desenvolvidos – EUA e Europa em 2008 –tornou o trabalho no Fundo muito mais interessante do que era antes. Colocou o Fundo no centro da crise, da administração da crise, e isso foi uma experiência muito rica, não só por isso, mas por várias outras razões. Por exemplo: a representação de um grupo de 11 países, inclusive países da América Latina, do Caribe, um da África, um da Ásia, foi muito rica. Eu aprendi muito sobre outros continentes, sobre a nossa região, latino americana, sobre o Caribe, acho uma experiência muito boa que me ajudará um pouco a trabalhar nesse banco em Xangai, que é um banco que pretende ser global. Então eu diria que não foi fácil, também, porque aqui em Washington há muita inércia, há muita resistência a mudanças, mas a crise abalou convicções, abalou certezas dos americanos, os europeus aqueles que têm mais influência nas entidades aqui de Bretton Woods e isso favoreceu, pelo menos durante um certo período, favoreceu algumas mudanças importantes. Entretanto num período mais recente houve uma frustração: a frustração da falta de progresso convincente na reforma da governança do FMI. Não é por acaso, embora os países do BRICS valorizem o FMI, valorizem o Banco Mundial, que eles estão se dando ao trabalho de criarem novas instituições, o Novo Banco de Desenvolvimento, o Acordo Contingente de Reservas, essas entidades que a China lidera, AIIB. Nada disso teria acontecido, não nessa medida, vamos dizer assim, se as entidades de Bretton Woods, o FMI e o Banco Mundial tivessem mostrando uma capacidade de adaptação maior à realidade do mundo no século 21.
Na medida em que o Fundo Monetário e o Banco Mundial se apegaram demais ao século XX, eles vão correndo riscos crescentes de serem ultrapassados pelos acontecimentos. Mas este é um lado. Um outro lado, que é também muito verdadeiro, é o seguinte: estas entidades que estão sendo estabelecidas pelos BRICS, o Acordo Contingente de Reservas e o Novo Banco de Desenvolvimento, não estão sendo criadas contra ninguém. Ao contrário, elas estão expressamente negociadas para poder cooperar, se conveniente, atuar em conjunto, se possível, com as entidades existentes. Eu vejo muito bem, por exemplo, que o Novo Banco de Desenvolvimento poderá, num futuro não muito distante, estabelecer mecanismos até formais de cooperação com o Banco Mundial, com o banco asiático de desenvolvimento, com o BNDES, por exemplo, já conversei a respeito com o Luciano Coutinho, presidente do BNDES, em caráter preliminar. Eu vou te dar uma notícia que deve ser pública já, mas também não é secreta: o presidente do banco e os vice-presidentes do Novo Banco de Desenvolvimento vão se encontrar, foram convidados a participar da reunião de bancos de desenvolvimentos dos BRICS em Ufa, à margem da cúpula que será sediada pela Rússia, dias 9 e 10 de julho. Haverá uma reunião nossa com os cinco bancos de desenvolvimento dos BRICS que é uma oportunidade extraordinária para começar a conversar sobre como é que nós vamos aprender com a experiência do BNDES, do Banco de Desenvolvimento da China, com o Banco de Desenvolvimento da Rússia e como vamos cooperar. Aliás, algo que será facilitado pelo fato de que a Rússia escolheu, como vice-presidente, um executivo de grande experiência que está neste momento no Banco de Desenvolvimento da Rússia. Então nós teremos um colega no nosso time que estará saindo do equivalente ao BNDES brasileiro.

S: O senhor tem falado, ao longo desta entrevista, da importância da China e, como o senhor disse no início, o Novo Banco de Desenvolvimento terá sede em Xangai, na China, o país que já sedia o AIIB – sigla em inglês para Banco de Investimento e Infraestrutura da Ásia e um banco mais antigo, o Banco de Desenvolvimento da Ásia. O fato de sediar três grandes instituições financeiras de porte internacional revela que a China se transformou na grande pujança econômica do século 21?

PNBJ: Não sei se colocaria dessa maneira exatamente, mas indubitavelmente a China é o país que cresce mais, juntamente com a Índia e, pelo seu tamanho, tamanho da sua economia, população, área, é hoje o país que mais pesa no contexto asiático, mundial, fora os EUA. Então a China é uma potência econômica e política e, dentro dos BRICS, é o país de maior porte, evidentemente, e que mais poder de fogo tem em termos de dinheiro, “bala na agulha”, tem muita munição, tanto que é capaz não só de participar ativamente como tem participado desde o início da negociação do nosso banco, que ela sedia, mas, posteriormente à Fortaleza, iniciou um outro banco de financiamento de infraestrutura, AIIB, com sede em Pequim, que terá um capital autorizado do mesmo tamanho do nosso, daquele sediado em Xangai. É o único país dos BRICS que tem condições de ter iniciativas simultâneas tão grandes. Um ponto no qual o Brasil insistiu muito nas negociações que culminaram em Fortaleza é que esse banco nosso tivesse uma igualdade na distribuição do poder de voto entre os cinco países membros. Então os cinco tem a mesma participação no capital e no poder de voto.

S: No capital cada um contribui com US$ 10 bilhões, para um capital subscrito de US$ 50 bilhões e outros US$ 50 bilhões divididos equitativamente.

PNBJ: Exato. É um capital de 50 bilhões subscrito, ele será dividido igualmente em cinco partes de US$ 10 bilhões que serão integralizados ao longo de sete anos.

S: Os senhores do banco também administrarão o Acordo Contingente de Reservas?

PNBJ: Não. Esses dois acordos foram negociados simultaneamente no mesmo período e foram assinados os dois em Fortaleza, mas eles são entidades separadas. É claro podem também cooperar, não há dúvida, mas um é um fundo monetário e o outro é um banco de desenvolvimento, são entidades com fins distintos, com propósitos distintos que têm, entretanto, um ponto comum: elas foram criadas pelos mesmos cinco membros fundadores.

S: Aí no caso do acordo já entra a diferença na composição do capital de US$ 100 bilhões. A China é a maior contribuinte com US$ 41 bilhões, Rússia, Índia e Brasil cada um contribui com US$ 18 bilhões e à África do Sul competem os restantes US$ 5 bilhões.

PNBJ: É verdade. Mas na verdade o acordo contingente de reservas não tem um capital propriamente. Ele é um fundo de compartilhamento de reservas que tem um caráter virtual, ou seja, as reservas continuam depositadas nos cinco bancos centrais até o momento em que, obedecidas certas regras e condições que o tratado especifica, até que elas sejam requisitadas por um dos cinco membros para apoiar o seu balanço de pagamentos. Então são reservas virtuais. Esse acordo foi desenhado de tal maneira que apesar de a China entrar com 41, ela não tem a maioria, sozinha, nas decisões que são tomadas por votos e quase todas as decisões são tomadas por consenso no caso do Acordo Contingente de Reservas. Então o desequilíbrio de poder decisório é menor do que sugerem esses números que você corretamente lembrou.

S: Em sua recente visita ao Brasil, no mês de maio, a diretora geral do Fundo Monetário Internacional, a francesa Christine Lagarde, elogiou as medidas de ajuste da economia nacional postas em prática pela presidenta Dilma Rousseff e pelo ministro da Fazenda Joaquim Levy. Na sua opinião, estas medidas são as necessárias para recolocar a economia nacional no rumo do crescimento e do progresso?

PNBJ: O Brasil está fazendo um esforço agora de ajuste fiscal, que é necessário porque é sempre importante manter a sustentabilidade das contas públicas. Não se pode descuidar nunca deste aspecto. Às vezes há conjunturas em que o controle é menos adequado. Eu acho que em 2014, em particular, foi um ano em que talvez tenha faltado maior controle, maior consistência da política fiscal. Então agora o país está retomando uma trajetória que já vinha de antes, que já vinha dos governos anteriores, inclusive do próprio governo Dilma. Não esquecer que o primeiro ano do governo Dilma, em 2011, foi um ano de forte ajustamento fiscal. Há um pouco de ciclo político. Todos os países, então os períodos pós-eleitorais são períodos, vamos dizer assim, de ajustamento, de correção de rumo, mas eu diria que o que está acontecendo hoje no Brasil é uma freada de arrumação, mas o samba-enredo não mudou, ou seja, há uma estratégia que vem do período Lula e que na verdade, se você adotar uma postura um pouco mais isenta, é uma estratégia nacional que antecede também o período Lula, que é a construção de um grande país que é o Brasil. E esse grande país tem que se desenvolver, tem que investir, tem que ter uma atuação internacional forte, mas não pode descuidar de sua retaguarda. O que eu estou chamando de retaguarda é a solidez das contas públicas, cuidado na condução da política monetária e controle da inflação, por exemplo. Então o país vai avançar, está lançando projeto de infraestrutura, está construindo junto com outros BRICS um banco de desenvolvimento, um fundo monetário, mas não pode deixar de fazer o básico, e nunca houve dúvida sobre isso, acredito. Esse básico é a solidez das contas públicas, a administração correta da política monetária e o controle da inflação, entre outras coisas.

S: Para concluir: Dr. Paulo Batista Nogueira Jr, já há uma definição de quem irá sucedê-lo em suas atribuições no Fundo Monetário Internacional?

PNBJ: Já há uma definição. Eu não quero mencionar porque não cabe a mim divulgar, mas já há uma definição inclusive o governo brasileiro está iniciando os procedimentos para propor o nome aos dez outros países da nossa cadeira.



Leia mais: http://br.sputniknews.com/mundo/20150615/1298810.html#ixzz3dB1Mdcgb

sexta-feira, maio 15, 2015

A América Latina na dinâmica da guerra global

Carta Maior


Na América Latina assistimos a um processo de crise muito profundo: convergem progressismos declinantes com neoliberalismo integralmente degradado.

Jorge Beinstein


Tudo ao mesmo tempo: em meados do mês de Março de 2015 os Estados Unidos deram um salto qualitativo de claro perfil belicista nas suas ações contra a Venezuela, também desenvolvem exercícios militares em países limítrofes com a Rússia na chamada operação "Atlantic Resolve", algumas dessas operações são realizadas a uns 100 quilómetros de São Petersburgo [1], além disso, intensificam-se informações acerca de uma nova ofensiva do governo de Kiev contra a região do Donbass [2], aumenta a circulação de naves de guerra da Otan no Mar Negro, continuam as velhas guerras imperiais no Iraque e no Afeganistão às quais se acrescentou a seguir a ofensiva contra a Síria (passando pela Líbia)... e muito mais...

Evidentemente o Império está lançado numa catastrófica fuga militar para frente estendendo suas operações a todos os continentes, encontramo-nos em plena guerra global. Nem os grandes meios de comunicação, nem os dirigentes internacionais mais importantes registaram publicamente o facto, todos falam como se vivêssemos em tempos de paz, só em alguns poucos casos surgem alguns deles a advertir sobre o perigo de guerra mundial ou regional. Uma exceção recente é a do Papa Francisco quando afirmou que atualmente nos encontramos perante "uma terceira guerra mundial" que ele descreve como a desenvolver-se "por partes" ainda que sem designar os contendores e fazendo vagas referências à "cobiça" e a "interesses espúrios" com a linguagem confusa e jesuítica que o caracteriza [3].

A cada mês acrescenta-se algum novo indiciar que anuncia a proximidade de uma nova recessão global muito mais forte e extensa que a de 2009. O capitalismo, a começar pelo seu polo imperialista, foi-se convertendo velozmente num sistema de saqueio onde a reprodução das forças produtivas fica completamente subordinada à lógica do parasitismo. As elites imperiais e suas lumpen-burguesias satélites "necessitam" superexplorar até ao extermínio seus recursos naturais e mercados periféricos para sustentar as taxas de lucro do seu decadente sistema produtivo-financeiro.

As tendências globais rumo à decadência econômica exprimem-se de múltiplas maneiras no dia a dia. Dentre elas, a volatilidade dos preços das matérias-primas, o petróleo, por exemplo, chave mestra da economia mundial, cujo estancamento extrativo (que não conseguiu ser superado pelo show mediático em torno do "milagroso" petróleo de xisto) combina-se com desacelerações da procura internacional como ocorre atualmente. A isso se somam golpes especulativos e geopolíticos que convertem os mercados em espaços instáveis onde as manobras de curto prazo impõem a incerteza.

O curto-prazismo especulativo hegemônico engendra pacotes tecnológicos depredadores como a mineração a céu aberto, a fratura hidráulica ou a agricultura com base em transgênicos acompanhados por operações políticas e comunicacionais que degradam, desarticulam sistemas sociais procurando convertê-los em espaços indefesos diante dos saqueios.

O otimismo econômico da época do auge neoliberal deu lugar ao pessimismo do "estancamento secular" agora apregoado pelos grandes peritos do sistema [4]. Eles indicam que a salvação do capitalismo não chegará a partir da economia condenada a sofrer recessões ou crescimentos insignificantes, o melhor é nem falar demasiado desses tristes temas. Então a guerra ascende ao primeiro plano, algum massacre protagonizado por tropas regulares ou mercenárias, algum bombardeio, alguma ameaça de ataque na Europa do Leste, Ásia, África ou América Latina. Os meios de comunicação nos esmagam com essas notícias, contudo ninguém fala da guerra global.

Tudo acontece como se a dinâmica da guerra se houvesse autonomizado mas empregado um discurso embrulhado, difícil de entender. Mas assim como os super-poderes dos homens de negócios dos anos 1990 não eram independentes e sim compartilhados no interior de uma complexa trama de poderes (políticos, mediáticos, militares, etc) que em termos gerais costuma-se denominar como "classe dominante", também a aparente autonomia do militar dificulta-nos ver as redes mafiosas de interesses onde se borram as fronteiras entre os seus componentes. As elites da era neoliberal sofreram mudanças decisivas, experimentaram mutações que as converteram em classes completamente degeneradas que, cada vez mais, só podem recorrer à força bruta, à lógica da guerra. Não se trata, portanto de a componente militar se autonomizar e sim, antes, de que as elites imperialistas se militarizam. Elas já não seduzem com ofertas de consumo mais algumas doses de violência, agora só propagam o medo, ameaçam com as suas armas ou utilizam-nas.

Progressismos latino-americanos
Dentro desse contexto global devemos avaliar os progressismos latino-americanos [5] que se instalaram na base das crises de governabilidade dos regimes neoliberais.

Os bons preços internacionais das matérias-primas durante a década passada, somados a políticas de contenção social dos pobres, permitiram-lhes recompor a governabilidade dos sistemas existentes. Em alguns desses casos desenvolveram-se ampliações ou renovações das elites capitalistas e em quase todos eles prosperaram as classes médias. Os governos progressistas iludiram-se supondo que as melhorias econômicas lhes permitiriam ganhar politicamente os referidos setores, mas, como era previsível, ocorreu o contrário: as camadas médias iam para a direita e, enquanto ascendiam, olhavam com desprezo os de baixo e assumiam como próprios os delírios mais reacionários das suas burguesias.

A explicação é simples, na medida em que são preservados (e ainda fortalecidos) os fundamentos do sistema e em que seus núcleos decisivos radicalizam seu elitismo depredador seguindo a rota traçada pelos Estados Unidos (e "Ocidente" em geral) produz-se um encadeamento de subculturas neofascistas que vão desde acima até abaixo, desde o centro até as burguesias periféricas e desde estas até suas camadas médias. Na Venezuela, Brasil ou Argentina as classes médias melhoravam seu nível de vida e ao mesmo tempo despejavam seus votos nos candidatos da direita velha ou renovada.

Estabeleceu-se um conflito interminável entre governos progressistas que tornavam governáveis os capitalismos locais e direitas selvagens ansiosas por realizar grandes roubos e esmagar os pobres. O progressismo, confrontado politicamente com essa direita qualificada de "irresponsável", cujos fundamentos económicos respeitava, chantageava aqueles na esquerda que criticavam sua submissão às regras do jogo do capitalismo utilizando o papão reacionário ("nós ou a besta"), acusando-os de fazerem o jogo da direita.

Na realidade o progressismo é um grande jogo favorável ao sistema e em última análise à direita, sempre em condições de retornar ao governo graças à moderação, à "astúcia" aparentemente estúpida dos progressistas que por vezes conseguem cooptar esquerdas claudicantes cuja obsessão em "não fazer o jogo da direita" (e simultaneamente integrar-se no sistema) é completamente funcional à reprodução do país burguês e em consequência a essa detestável direita.

Agora o jogo começa a esgotar-se. Os progressismos governantes, com diferentes ritmos e variados discursos, acossados pelo arrefecimento económico global e pelo crescente intervencionismo dos Estados Unidos, vão perdendo espaço político. Em vários casos suas dificuldades fiscais pressionam-nos a ajustar despesas públicas (e de modo algum a reduzir os super lucros dos grupos económicos mais concentrados), a aceitar as devastações da mega-mineração ou a adotar medidas que facilitam a concentração de rendimentos.

No Brasil, o segundo governo Dilma colocou um neoliberal puro e duro no comando da política económica, encurralado por uma direita ascendente, uma economia oscilando entre o estancamento e a recessão e uma intervenção norte-americana cada vez mais ativa. No Uruguai o novo governo de Tabaré Vazquez mostra um rosto claramente conservador e no Chile a presidência Bachelet não precisa correr demasiado à direita, depois da sua rosada demagogia eleitoral afirma-se como continuidade do governo anterior e em consequência, passada a confusão inicial, herdará também a hostilidade de importantes faixas de esquerda e dos movimentos sociais.

Na Argentina, o núcleo duro agro mineral exportador-financeiro e os grupos industriais exportadores mais concentrados estão mais prósperos do que nunca enquanto a ingerência norte-americana amplia-se conduzindo o jogo de títeres políticos rumo a uma ruptura ultra-direitista. Na Venezuela a eterna transição rumo a um socialismo que nunca acaba de chegar não conseguiu superar o capitalismo ainda que torne caótico o seu funcionamento, forjando desse modo o cenário de uma grande tragédia. Por enquanto só a Bolívia parece salvar-se da avalanche, afirmando-se na maior mutação social da sua história moderna sem superar o âmbito do subdesenvolvimento capitalista mas recompondo-o integrando as massas submersas, multiplicando por mil o que havia feito o peronismo na Argentina entre 1945 e 1955 (de qualquer forma isso não a liberta da mudança de contexto regional-global).

Na América Latina assistimos a um processo de crise muito profundo onde convergem progressismos declinantes com neoliberalismo integralmente degradado, como na Colômbia ou no México, conformando um panorama comum de perda de legitimidade do poder político, avanços de grupos econômicos saqueadores e ativismo imperialista cada vez mais forte.

A este panorama sombrio é necessário incorporar elementos que dão esperança, sem os quais não poderíamos começar a entender o que está a ocorrer. Por debaixo dos truques políticos, dos negócios rápidos e das histerias fascistas aparecem os protestos populares multitudinários, a persistência de esquerdas não cooptadas pelo sistema (para além dos seus perfis mais ou menos moderados ou radicais), a presença de insurgências incipientes ou poderosas (como na Colômbia).

Nem os cantos de sereia progressistas nem a repressão neoliberal puderam fazer desaparecer ou marginalizar completamente esses fantasmas. Realidade latino-americana que preocupa os estrategas do Império, que temem o que consideram como sua inevitável arremetida contra a região possa desencadear o inferno da insurgência continental. Nesse caso o paraíso dos grandes negócios poderia converter-se num grande atoleiro onde afundaria o conjunto do sistema.

Geopolítica do Império, integrações e colonizações
A estratégia dos Estados Unidos aparece articulada em torno de três grandes eixos; o transatlântico e o transpacífico que apontam num gigantesco jogo de pinças contra a convergência russo-chinesa, centro motor da integração euro-asiática. E a seguir o eixo latino-americano destinado à recolonização da região.

Os Estados Unidos tentam converter a massa continental asiática e sua ampliação russo-europeia num espaço desarticulado, com grandes zonas caóticas, objeto de saqueio e super-exploração.

Os recursos naturais, assim como os laborais, desses territórios constituem seu centro de atenção principal, na elipse estratégica que cobre o Golfo Pérsico e a Bacia do Mar Cáspio estendendo-se em direção à Rússia encontram-se 80% das reservas globais de gás e 60% das de petróleo e na China habitam pouco mais de 230 milhões de operários industriais (aproximadamente um terço do total mundial).

A América Latina aparece como o quintal a recolonizar. Ali se encontram, por exemplo, as reservas petrolíferas da Venezuela (as primeira do mundo, 20% do total global), cerca de 80% das reservas mundiais de lítio (num triângulo territorial compreendido pelo Norte do Chile e Argentina e pelo Sul da Bolívia) imprescindível na futura indústria do automóvel eléctrico, as reservas de gás e petróleo de xisto do Sul argentino, fabulosas reservas de água doce do aquífero guarani entre o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Uma das ofensivas fortes do Império na década passada foi a tentativa de constituição da ALCA, zona de livre comércio e investimentos que significava a anexação económica da região por parte dos Estados Unidos. O projeto fracassou. A ascensão do progressismo latino-americano somado à emergência de potências não ocidentais, sobretudo a China, e o atolamento estadunidense nas suas guerras asiáticas foram fatores decisivos que em diferentes medidas debilitaram a investida imperial.

Mas a partir da chegada de Obama à presidência os Estados Unidos desencadearam uma ofensiva flexível de reconquista da América Latina: foi posta em marcha uma complexa mescla de pressões, negociações, desestabilizações e golpes de estado. Os golpes brandos com êxito em Honduras e no Paraguai, as tentativas de desestabilização no Equador, Argentina, Brasil e sobretudo na Venezuela (onde se vai perfilando uma intervenção militar), mas também a tentativa em curso de extinção negociada da guerrilha colombiana e a domesticação de Cuba fazem parte dessa estratégia de recolonização.

A mesma é implementada através de uma sucessão de tentativas suaves e duras tendente a desarticular as resistências estatais e os processos de integração regional (Unasul, Celac, Alba) e extra-regionais periféricos (BRICS, acordos com a China e a Rússia, etc) assim como a bloquear, corromper ou dissolver as resistências sociais e as alternativas políticas mais avançadas, em curso ou potenciais. Tentando levar avante uma dinâmica de desarticulação mas procurando evitar que a mesma gere rebeliões que se propaguem como um rastilho de pólvora numa região atualmente muito inter-relacionada.

Sabem muito bem que em muitos países da região a substituição de governos "progressistas" por outros abertamente pró-imperialistas significa a ascensão de camarilhas enlouquecidas que a curto prazo causariam situações de caos que poderiam desencadear insurgências perigosas. Alguns estrategistas do Império acreditam poder neutralizar esse perigo com o próprio caos, desenvolvendo "guerras de quarta geração" instalando diferentes formas de violência social desestruturante combinadas com destruições mediático-culturais e repressões seletivas. Nesse sentido, o modelo mexicano é para eles (por agora) um paradigma interessante.

Temem, por exemplo, que um cenário de caos fascista na Venezuela derive numa guerra popular que os obrigaria a intervir diretamente num conflito prolongado, o que somado às suas guerras asiáticas os conduziria a uma super extensão estratégica ingovernável. É por isso que consideram imprescindível obter o apaziguamento da guerrilha colombiana, potencial aliada estratégica de uma possível resistência popular venezuelana.

O panorama é completado com o processo de integração colonial dos países da chamada Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Peru e Chile). A isso se somam os tratados de livre comércio de maneira individual com países da América Central e outros como o Chile e a Colômbia e o velho tratado entre EUA, Canadá e México.

Integração colonial e desarticulação, manipulação do caos e fortalecimento de polos repressivos, Capriles mais Peña Nieto, Ollanta Humana mais Santos mais bandos narco-mafiosos... tudo isso dentro de um contexto global de decadência sistémica onde a velha ordem unipolar declina sem ser substituída por uma nova ordem multipolar. Tentativa de controle imperialista da América Latina submersa na desordem do capitalismo mundial.

O cérebro do Império não consegue superar as mazelas do seu corpo envelhecido e enfermo, os delírios reproduzem-se, as fugas para frente multiplicam-se. Evidentemente encontramo-nos num momento histórico decisivo.
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Jorge Beinstein é doutor em economia e professor catedrático das universidades de Buenos Aires e Córdoba, na Argentina, e de Havana, em Cuba. É autor de Capitalismo senil: a grande crise da economia global, publicado no Brasil pela editora Record (2001). Dirige o Instituto de Pesquisa Científica da Universidade da Bacia do Prata e publica regularmente em Le Monde Diplomatique (em castelhano).

Notas
[1] Finian Cunningham, "NATO's Shadow of Nazi Operation Barbarossa", Strategic Culture Foundation, 13/03/2015

[2] Colonel Cassad, "Ukraine: Reprise de la guerre au printemps?", http://lesakerfrancophone.net/ le 13 mars 2015

[3] "El papa Francisco advirtió que vivimos una tercera guerra mundial combatida 'por partes' ", http://www.lanacion.com.ar , 13 de septiembre de 2014

[4] Laurence H Summers, "Reflections on the 'New Secular Stagnation Hypothesis'" y Robert J Gordon, "The turtle's progress: Secular stagnation meets the headwinds" en "Secular Stagnation: Facts, Causes, and Cures", CEPR Press, 2014.

[5] Utilizo o termo "progressista" no sentido mais amplo, desde governos que se proclamam socialistas ou pró socialistas como na Venezuela ou Bolívia até outros de corte neoliberal-progressista como os do Uruguai ou Brasil.

A pobreza sai às ruas nos EUA mais que no Brasil

Carta Maior


Os críticos do país não usam óculos, resistem ou não querem ver direito, embora haja casos que merecem internação definitiva para recuperação ocular e mesmo cegueira. Não só da oposição política propriamente dita mas da midiática também. Enxergam qual país? Qual deles é o que vale?

Falar mal do país virou tônica diária dos oposicionistas. Como prato principal e sobremesa. Nem os cafezinhos nos intervalos do trabalho escapam. O país para eles afunda em corrupção e economia fraca, decadente.

Bom, mas disso tudo já sabíamos, infelizmente, desde o final do primeiro governo de Dilma. O pior é que não se cansaram, nem se cansam, querem ou ganhar no tapetão ou criar dificuldades diárias, permanentes, até secar as expectativas de aposta política e recuperação econômica.

Tentaram bandeiras, faixas, panelas, reportagens falsas, notícias mentirosas, denúncias sem provas, samba do crioulo doido como diria Stanislaw Ponte Preta nos idos dos anos 60. A baderna política na busca de perdurar imagens caricatas do governo eleito democraticamente.

O pior é que não só deturpam a realidade. Não enxergam como convém com nenhum dos olhos o que ocorre no país tampouco no vizinho que tanto adoram, onde mora o Tio Sam. Diria minha avó, para que enxergar direito se eles querem mesmo é ver errado?

Pois bem, enquanto já caem de pau sobre a performance do PIB brasileiro no 1o trimestre desse ano, com queda prevista de 0,5% em relação à leve alta de 0,1% no 3o trimestre de 2014, os EUA registraram queda de 0,2% diante de alta de 2,2% nos mesmos períodos (fonte: Federal Reserve, o banco central norte-americano).

Desaceleram ambas as economias, tendo sido o tombo mais acentuado nos EUA. O Brasil está pelo menos de farol baixo desde a 2a metade do ano passado por várias razões, inclusive pela pressão política dos empresários nacionais sobre a política econômica como tentativa de reversão do quadro sucessório.

A mesma fonte norte-americana de informação indica que ocorre naquele país um período de estagnação econômica após o curto surto de recuperação, ao qual se apegaram muitos países em dificuldades e que agora não sabem bem para onde caminhar.

As exportações recuaram nos EUA, o que mostra a menor procura do setor externo: China em ritmo menor de crescimento, a Zona do Euro pior, às voltas com a austeridade, e os emergentes boiando meio que na expectativa. Já o consumo interno igualmente volta atrás, o que revela a atenuação dos ganhos de renda da população americana.

Guardadas as devidas e honrosas proporções, fenômeno semelhante ocorre no Brasil, apimentado ademais pela quadra difícil dos embates jurídicos com relação aos desvios na Petrobras, o resultado do pleito presidencial ainda atravessado na garganta da oposição e o ataque feroz e diário da mídia desde o ano passado. Qualquer economia sofreria o mesmo tranco.
Carta Maior

Na meca do capitalismo, 45 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza. Mas parece que os arautos do american way of life não querem ver.

José Carlos Peliano


O Bureau do Censo estadunidense informa que a população que vive abaixo do nível de pobreza de lá está em torno de 14,5% ou 45 milhões de pessoas. Como se pode imaginar que a meca do capitalismo moderno apresenta quadro tão alarmante de pobreza? Pois é o que ocorre, o que os arautos do american way of life não querem ver, se emudecem ou olham de revés.

No Brasil**, em fins de 2013, a população em estado de pobreza era de 8,8% e em estado de extrema pobreza 4%, ou 12,8% na soma, cerca de 26 milhões de pessoas. A comparação é imperfeita porque a renda limite de lá é bem superior, mas o que vale são as condições vigentes em cada país, quanto ao custo de vida, as necessidades básicas e as oportunidades de ascensão social.

Daí o tamanho da pobreza aqui ser pouco mais da metade dos EUA. Não adianta o contra-argumento de que no limite de lá caberiam muito mais brasileiros porque os ricos daqui igualmente não chegariam aos pés dos de lá. Tudo relativo.

A grande diferença, contudo, está no fato de que nos EUA o contingente pobre aumentou, enquanto aqui no país ele declina. De 2006 a 2014 nos EUA o nível de pobreza veio de 12,3% a 14,5%, sem falar no contingente de sem teto que aumenta cada vez mais nas ruas das metrópoles. Enquanto no Brasil vem de 22,6% a 12,8% no mesmo período. Isso mostra que a política econômica brasileira privilegiou a população mais necessitada, enquanto nos EUA o benefício ficou para os abastados.

Os bons reflexos da economia chegaram ao custo da cesta básica no país ajudando a recuperação da renda real dos pobres. A relação custo da cesta básica/valor do salário mínimo evoluiu de forma descendente desde dezembro de 1995 até dezembro 2014. De 91,5% a 44,9% em São Paulo e de 72,7% a 35,6% em Fortaleza.

A grande dificuldade de recuperação estadunidense em relação ao Brasil, no que se refere ao mercado interno, sem depender da evolução das transações com o exterior, é o fato de que a população trabalhadora de lá tem um peso mais acentuado para as condições do país.

Em tempos recentes a criação de empregos americanos tem sido nos setores urbanos de comércio e serviços, onde os salários são menores. Daí para que a economia se expanda há que se criar mais e novos empregos com salários maiores, o que vai exigir projetos de médio e longo prazos nos setores industriais e de alta tecnologia. Vai demandar tempo.

Aqui no Brasil nem tanto. Um reforço ao mercado interno vai consolidar o que já existe, especialmente em relação aos trabalhadores com menores salários. Com a expansão de projetos de infraestrutura o impulso fica por conta dos setores de bens de capital e intermediários, que geram valor e reproduzem mais oportunidades de negócios, renda e emprego através do chamado efeito multiplicador dos investimentos.

De onde virá o impulso gerador? O primeiro ministro chinês anunciou esta semana a intenção da China investir US$ 53 bilhões no país em infraestrutura, exatamente a área que o governo federal anunciou como prioritária para expansão de projetos.

Além do banco dos BRICS com recursos para a mesma área e correlatas, que deve finalmente ser operacionalizado mês que vem em reunião na Rússia. Outros bilhões virão do Pré-Sal apesar da pressão de opositores que querem abrir o setor para a combalida economia americana.

Mas isso só será bem sucedido e em pouco tempo caso o ministro da Fazenda não segure mais e indevidamente as rédeas da economia brasileira. Outro da turma dos que precisam enxergar melhor o que se passa aqui e lá fora.
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José Carlos Peliano é colaborador da Carta Maior.

**Dados do Brasil são de Vinte Anos de Economia Brasileira 1995/2014, Gerson Gomes e Carlos Antônio Silva da Cruz, Centro de Altos Estudos Brasil Século XXI.


Indústria de Defesa no Brasil

quarta-feira, maio 13, 2015

“Se o Brasil abrir a operação para as estrangeiras no pré-sal, podemos dizer adeus aos royalties para educação e saúde”

Viomundo

Por Conceição Lemes


“Se o Brasil abrir a operação para as estrangeiras no pré-sal, podemos dizer adeus aos royalties para educação e saúde” - See more at: http://brasildebate.com.br/se-o-brasil-abrir-a-operacao-para-as-estrangeiras-no-pre-sal-podemos-dizer-adeus-aos-royalties-do-petroleo-para-educacao-e-saude/#sthash.arm66r0U.dpuf


Em entrevista no último domingo, 2 de maio, o ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB-AM), durante entrevista realizada antes da Offshore Technology Conference, em Houston, nos Estados Unidos, deixou abertas duas portas perigosas. Acenou com mudanças no marco regulatório do pré-sal e abrandamento da norma de conteúdo local, que determina à Petrobras a compra preferencial de equipamentos e serviços de origem nacional.

Verdadeira sinfonia para os ouvidos das grandes petroleiras estrangeiras, como Shell, ExxonMobil, Chevron, BP e Total.

Até agora, Eduardo Braga não desmentiu a entrevista, que saiu em vários veículos da mídia brasileira.

Para João Antônio de Moraes, diretor de relações internacionais da Federação Única dos Petroleiros (FUP), é muito grave a declaração de Braga nos EUA.

“Onde já se viu abordar uma questão estratégica para o Brasil, fora do Brasil, num lugar onde a disputa pelo petróleo é gigantesca?”, critica. “Se já está havendo pressão sobre o Congresso Nacional para flexibilizar a partilha, com essa declaração absurda, a tendência é que a pressão só aumente.”

Nota da FUP (na íntegra, abaixo) publicada nessa quinta-feira, 7, lembra: “Só o PSDB já tem três projetos em andamento no Congresso para alterar o modelo de partilha e retirar da estatal o papel de operadora única”. Têm projetos para abrir o pré-sal às petroleiras internacionais os senadores tucanos José Serra, Aloysio Nunes e o deputado federal Jutahy Júnior. O deputado federal Leonardo Picciani (PMDB-RJ) também projeto nessa linha.

Moraes adverte: “Flexibilizar a partilha, não garantir a Petrobras como operadora única do pré-sal e abrandar a exigência de conteúdo local, como prega o ministro, significam abrir as portas para o Brasil ser saqueado novamente nos seus recursos naturais por interesses externos como já aconteceu ao longo da história, com o pau-brasil, o ouro, por exemplo”.

Ele enfatiza: “A operação só nas mãos da Petrobras nos garante desenvolvimento, segurança ambiental e segurança energética. Essas três coisas ficariam fragilizadas se empresas estrangeiras entrarem na operação”.

Ele denuncia: “Se o Brasil abrir a operação para as petroleiras estrangeiras, podemos dizer adeus aos royalties do petróleo para Educação e Saúde. No mundo inteiro, a história das petroleiras é uma história de não cumprimento da destinação social das riquezas”.

Segue a íntegra da nossa entrevista.

Viomundo — O que achou da declaração do ministro Eduardo Braga nos EUA?

João Moraes – Muito grave. Onde já se viu abordar uma questão estratégica para o Brasil, fora do Brasil, num país onde a disputa pelo petróleo é gigantesca? Se já está havendo pressão sobre o Congresso Nacional para flexibilizar a partilha, com essa declaração absurda, a tendência é que a pressão só aumente. Lembre-se de que há no Congresso vários projetos de tucanos que visam justamente flexibilizar o modelo de partilha no pré-sal.

Viomundo – O que acontece se o Brasil alterar o modelo?

João Moraes — Flexibilizar a partilha, não garantir a Petrobras como operadora única do pré-sal e abrandar a exigência de conteúdo local significam abrir as portas do Brasil para que seja saqueado novamente nos seus recursos naturais por interesses externos, como já foi ao longo da história, com o pau-brasil, o ouro, por exemplo.

Definitivamente, se o povo brasileiro não garantir esses três sustentáculos do modelo brasileiro, o ciclo econômico do petróleo vai repetir o que já aconteceu em outros ciclos econômicos. Vai embora o recurso natural, não fica o desenvolvimento aqui. Então, nós temos de realmente nos mobilizar para impedir que iniciativas para alterar o modelo de partilha tenham sucesso.

Viomundo – Em que setor do pré-sal as petroleiras internacionais podem atuar?

João Moraes – O modelo de partilha permite que elas invistam junto com a Petrobras. Foi o que aconteceu no campo de Libra, na Bacia de Campos, Rio de Janeiro. Em Libra, a Petrobras ficou com 40% dos investimentos, os europeus (Total e Elf), também com 40%, e os chineses com 20%.

Na verdade, o modelo de partilha só não permite atuar na operação. A declaração do ministro toca justamente nesse ponto. A declaração dele e os projetos dos tucanos no Congresso Nacional vão todos no mesmo sentido: o de abrir a operação do pré-sal para as petroleiras estrangeiras. Em resumo, é isso que eles e elas querem.

Viomundo – Qual o mérito da partilha?

João Moraes – As empresas estrangeiras podem investir junto com a Petrobras, mas quem vai operar é a Petrobras.

Viomundo — O que significa operar?

João Moraes – É a Petrobras que vai pegar esses investimentos, comprar os equipamentos, desenvolver os projetos e o mais importante – depois vai controlar a produção de petróleo. A Petrobras é que vai dizer se vai produzir 100 mil, 200 mil, 300 mil barris.

Viomundo — Com isso o que o Brasil tem a lucrar?

João Moraes – Primeiro, a garantia do conteúdo local, porque as empresas estrangeiras não estão cumprindo o conteúdo local nas áreas em que atuam.

Viomundo – Não estão cumprindo?!

João Moraes – Não. Elas encontram um monte de subterfúgios para não comprar aqui. A Shell, por exemplo, é a segunda produtora no Brasil. Ela tem ativos importantes nas áreas já licitadas do pré-sal. Mas a Shell não tem nenhuma plataforma encomendada aos estaleiros brasileiros.

Se flexibilizar o pré-sal vai acontecer o que já acontece com áreas licitadas antes da lei da partilha. As petroleiras estrangeiras não cumprem o conteúdo local. Não cumprindo o conteúdo local, elas não geram emprego aqui, não geram renda aqui, não geram desenvolvimento aqui. Essa é uma etapa importante do ponto de vista do desenvolvimento.

Clique para contribuir!

Viomundo – O que Brasil tem a ganhar mais com o modelo de partilha?

João Moraes — Soberania energética e meio ambiente. Por que aconteceu aquele acidente importante da Chevron, no Campo de Frade, em 2012? Por que a Chevron avançou na produção além do que podia e dos equipamentos que detinha. Isso causou uma fratura no subsolo do oceano, provocando dano ambiental muito grande.

Viomundo – Mas a Petrobras não está livre de produzir danos ambientais.

João Moraes – Não está. Nenhuma petroleira está livre disso. Mas os mecanismos de pressão do povo brasileiro sobre a Petrobras são muito maiores do que sobre as petroleiras estrangeiras. Então, a Petrobras como operadora única nos dá uma garantia ambiental muito maior do que as estrangeiras.

Viomundo – O que mais o Brasil tem a lucrar mais com a partilha?

João Moraes – Impedir a produção predatória. Qual é o grande dilema que a Argentina vive hoje em dia? A Argentina privatizou a YPF. A maior empresa que assumiu foi a Repsol espanhola. A Repsol começou a ter produção predatória , não investiu em desenvolvimento de novas reservas nem em novas tecnologias. Resultado: hoje a Argentina é dependente da importação de petróleo e gás.

Viomundo — Por quê?

João Moraes — Justamente porque não era uma empresa estatal nacional que detinha a operação. Então esse é outro aspecto muito negativo dos projetos dos tucanos que estão no Congresso e buscam garantir a entrada de estrangeiras na operação.

A operação só nas mãos da Petrobras nos garante desenvolvimento, segurança ambiental e segurança energética. Essas três coisas ficariam fragilizadas se empresas estrangeiras entrarem na operação.

Viomundo – Pela lei da partilha foi criado um fundo social – o Fundo Social Soberano – que prevê a destinação dos royalties para Educação e Saúde. As petroleiras estrangeiras fariam isso?

João Moraes – De jeito nenhum. A história das petroleiras no mundo é uma história de não cumprimento da destinação social das riquezas. Então, essa batalha importante que tivemos para garantir os royalties para Educação e Saúde vai para o espaço se a operação do pré-sal for aberta para as empresas estrangeiras. Portanto, é muito ruim se acontecer isso que o ministro Eduardo Braga disse.

Viomundo – Nos últimos meses, estamos assistindo ao acirramento na disputa do petróleo brasileiro. Teria a ver com as denúncias da Lava Jato?

João Moraes – Tudo isso é fruto da campanha de desmoralização da Petrobras desenvolvida pela grande imprensa nos últimos meses. Não tem a ver com corrupção. É uma campanha antinacional. É uma campanha antipatriótica como se as nossas grandes redes de comunicação fossem de outros países e estivessem fazendo aqui uma campanha de interesse delas.

Portanto, é um absurdo sem tamanho, nessa conjuntura, um ministro de Estado ir lá fora e dar uma declaração tenebrosa como a que deu.

Mesmo que o governo tivesse a intenção, o ministro não poderia fazer essa declaração. Porque ao fazê-lo, se um dia isso vier acontecer, a Petrobras vai estar com o preço rebaixado.

Olhando pela lógica do capital, mesmo que fosse uma decisão de governo fazer isso – o que eu não acredito que seja –, ele não poderia declarar isso no exterior. Realmente um despreparo, um absurdo. É um negócio descabido.

Viomundo – A FUP pretende fazer algo em relação a isso?

João Moraes — A direção da FUP está reunida, aqui, em Curitiba, nesta quinta e sexta, onde vamos discutir o assunto. Nós trouxemos a nossa reunião mensal para cá como forma de darmos a nossa solidariedade. Na quarta-feira, inclusive, participamos de atos de solidariedade aos professores.

Mas, desde já, a sociedade tem de estar ciente. Se houver flexibilização no modelo de partilha do pré-sal, o povo brasileiro pode dizer adeus ao Fundo Social e ao uso dos seus recursos para a Educação e Saúde.

Nota da FUP publicada na quinta-feira, 7, no boletim da entidade:

Tirem as mãos do que é nosso!
Em vez de fortalecer a Petrobrás, ministro de Minas e Energia quer flexibilizar partilha

Enquanto a Petrobrás recebia o prêmio OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, o maior reconhecimento de uma operadora offshore por tecnologias desenvolvidas e desafios vencidos, o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, pregava publicamente a redução da participação da estatal na exploração do pré-sal.

Em entrevista coletiva aos jornalistas que cobriam o evento em Houston (EUA), o ministro do PMDB não mediu palavras e anunciou que o Congresso (onde seu partido comanda a Câmara e o Senado) está aberto a alterar o modelo de partilha.

“O que se discute é a obrigatoriedade da operação. Defendo que a Petrobrás tenha direito à recusa”, declarou, alegando que a empresa não tem condições hoje de “alavancar os investimentos que a economia brasileira necessita”.

Na mesma linha foi a diretora geral da ANP, Magda Chambriard, que também participou da feira de petróleo em Houston e defendeu “uma flexibilização muito bem calibrada” da lei do pré-sal, com vistas aos leilões futuros.

Declarações deste tipo reforçam e alimentam os ataques da oposição contra a Petrobrás. Só o PSDB já tem três projetos em andamento no Congresso para alterar o modelo de partilha e retirar da estatal o papel de operadora única.

A defesa intransigente da soberania é um compromisso que deve ser honrado por um governo eleito pelos trabalhadores. A hora é de fortalecer a Petrobrás para que siga avançando na exploração do pré-sal, cuja riqueza deve ser servir ao povo brasileiro e não às multinacionais.



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quinta-feira, maio 07, 2015

Brasil, Petróleo e Geo Política

Dia da Vitória!

Dia 9 de maio será comemorado o 70° aninversário da vitória do Exército Vermelho junto com os aliados sobre o nazifascismo que ameaçava o mundo. Morreram 9 milhões de soldados soviéticos e 17 milhões de cidadãos soviéticos. O mundo deve muito a eles por hoje não estar vivendo um mundo de horror como queriam os nazistas. Pouca gente sabe dos feitos dos soviéticos na Segunda Guerra Mundial, pois eles venceram a guerra, mas os estadunidenses fizeram os filmes. Batalhas como de Stalingrado, a primeira vitória dos aliados sobre os alemães, de Moscou, de Kursk, entre outras deveriam ser melhor conhecidas, pois milhões de pessoas se sacrificaram para que hoje as pessoas não fossem escravas, como era o objetivo do III Reich. No dia 9 de maio todas as pessoas do mundo deveriam comemorar essa vitória, que foi por nós.

A CIA e sua simpatia pela campanha contra Dilma

Do Carta Maior


Sibá Machado falou da proximidade entre Aécio Neves e venezuelanos acusados de conspiração e de sua desconfiança do envolvimento da CIA no Brasil.

Darío Pignotti - Página/12

Brasília - Washington apoia o movimento de desestabilização do governo de Dilma? Foi que o este diário perguntou a políticos e acadêmicos brasileiros que, invariavelmente, responderam que “sim”, mas quase todos sob condição de anonimato. Alguns solicitaram o sigilo alegando carecer de provas, outros, possivelmente, por temor às chicotadas da imprensa, que ridiculiza esse tipo de especulação relacionada à intervenção norte-americana.

O Brasil vive sob um estado de sítio midiático, onde se difama sumariamente qualquer um que apoie o governo, denuncie o golpe branco ou insinue que a presidenta recebe apoio externo. O chefe da bancada de deputados do PT, Sibá Machado, não se coíbe diante das críticas da imprensa tradicional e responde sem papas na língua ao que indagamos sobre uma eventual conexão estadunidense. “Tem que ser muito inocente para supor que uma campanha de desestabilização como essa não recebe nenhum tipo de apoio de fora. Chama a nossa atenção que nenhum dos meios de imprensa investigue esse tema, quando é bastante lógico pensar que tudo isso está manipulado desde altas esferas”.

– As “altas esferas” a que você se refere seriam as da Inteligência norte-americana?

– Já disse, e continuo dizendo, que trabalho com a hipótese de que a Inteligência golpista que está atuando na América do Sul não se limita à Inteligência de cada país. Estamos enfrentando interesses que vêm de fora da região em represália a vários governos sul-americanos que assumiram uma linha de maior independência dos Estados Unidos. Vejamos o que está se passando na Venezuela, no Brasil, na Argentina. Vemos muitas semelhanças nas ações contra esses governos, na linguagem utilizada, no papel dos grandes meios de comunicação, no papel jogado pelo Poder Judiciário.

Se olhamos para trás teremos mais exemplos, como o golpe contra Hugo Chávez (2002), o golpe com maquiagem institucional contra o presidente paraguaio Fernando Lugo (2012) e aqui também estamos vendo, agora, quando a oposição busca o parecer de juristas para justificar o impeachment (julgamento político) contra a presidenta Dilma.

– Existem documentos sobre a participação da CIA e da NSA?

– Não tenho documentos, estou formulando uma hipótese a partir dos antecedentes e elementos políticos. Trabalho com a hipótese de que a CIA e outros órgãos de Inteligência como a NSA estão operando, é algo que podemos perceber. E essa desestabilização regional tem interesses particulares no Brasil, onde o PT ganhou quatro eleições consecutivas, todas desde 2002. Vamos fazer uma retrospectiva. Não caiu bem para os norte-americanos a atitude da Dilma, suspendendo a visita de Estado a Washington, em 2013, devido à espionagem que ela sofreu por parte da Agência de Segurança Nacional (NSA). Os Estados Unidos tampouco viram com satisfação a nossa participação na formação dos Brics, na criação de um banco alternativo ao Banco Mundial, de uma agência alternativa ao FMI. Eles não aprovam nenhuma mudança mais importante na ordem geopolítica e econômica. Não gostaram dos investimentos na construção do Porto de Mariel, em Cuba, da diversificação dos mercados, do novo paradigma da política externa brasileira, entre outras coisas.

Aécio e os reacionários

Depois de ser derrotado nas eleições presidenciais de outubro de 2014, Aécio Neves, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), adotou um discurso incendiário contra Dilma, exigindo sua destituição através de um processo de impeachment, considerado inapropriado até mesmo por caciques do seu partido, como o ex-mandatário Fernando Henrique Cardoso.

Durante a entrevista com Página/12, em seu escritório na Câmara dos Deputados, o petista Sibá Machado fala da proximidade entre Aécio e os dirigentes venezuelanos acusados de conspirar contra o presidente Nicolás Maduro. E mencionou a recente participação do líder opositor brasileiro no Fórum de Lima, onde ele confraternizou com grandes nomes da direita latina, como o ex-presidente uruguaio Jorge Batlle, o escritor peruano Mario Vargas Llosa e o cubano-estadunidense Carlos Alberto Montaner, paladino do pensamento reacionário de Miami.

– Como Aécio se articula com seus colegas latino-americanos?

– Por um lado, está a sua atividade pública. Esteve em Lima, onde se reuniu com familiares dos golpistas venezuelanos (as esposas de Leopoldo López e Antonio Ledezma, ambos processados). Pelo que vejo, Aécio está tomando o modelo da ultra-direita venezuelana. Na realidade, esses contatos internacionais me lembram muito a Operação Condor, quando as ditaduras atuavam em rede. E digo mais, suspeitamos que Aécio se comunica frequentemente com outros golpistas, que mantém reuniões clandestinas e que se articula para semear a instabilidade contra os governos progressistas.

– Uma das bandeiras de Aécio agora é a corrupção na Petrobras….

– Mas é curioso que logo o Aécio venha a criticar a Petrobras, pedindo o fim o novo marco regulatório da exploração do petróleo, implantado nos governos do PT. Aécio defende o mesmo discurso das empresas multinacionais com sede nos Estados Unidos. Estou convencido de que os norte-americanos não estão satisfeitos com a nova lei do petróleo, que dá muito poder à Petrobras. Eles preferiam o modelo anterior, de concessões, que era um paradigma entreguista conveniente para as multinacionais. No entanto, a lei que aprovamos garante que o petróleo é um patrimônio nacional.

– Dilma viajará a Washington em junho, mas até agora os EUA não deu satisfações ao Brasil sobre os documentos roubados dos arquivos da Petrobras.

– Digo novamente que não tenho documentos, mas desconfio que parte dessa informação roubada pela NSA a respeito da Petrobras tenha parado nas mãos de líderes da oposição. A NSA e a oposição golpista, não tem escrúpulos, jogam no vale tudo, o que eles querem é desmontar a Petrobras e as grandes empresas nacionais brasileiras. O que aconteceu aqui foi muito grave. A NSA roubou segredos de Estado, é possível que eles tenham tido conhecimento prévio dos descobrimentos dos gigantescos poços de petróleo em águas profundas, da zona do Pré-Sal (revelados pelo governo brasileiro em 2007), e que tenham manejado essa informação antes de o ex-presidente Lula anunciar isso publicamente.


"Катюша" Валентина Батищева

Hino Soviético da vitória sobre o fascismo na Segunda Guerra Mundial

terça-feira, maio 05, 2015

Baltimore é o retrato de décadas de desigualdade nos EUA

El País


Os helicópteros sobrevoam a cidade. A Guarda Nacional havia enviado seus soldados depois dos confrontos da segunda-feira passada. Centenas de jornalistas registravam nas ruas as patologias dos Estados Unidos: violência, marginalização, racismo. A dois quilômetros de distância, nos bairros de brancos de Baltimore, tudo aquilo parecia distante.

“Estão a um universo de distância”, afirmava Paul Taylor, residente de Bolton Hill, um bairro de ruas arborizadas, mansões de tijolos e cafés descolados. “Tão distantes quanto a lua”, destacou.

Esse passeio por esta Baltimore em estado de emergência — até domingo, quando a Guarda Nacional começou a se retirar, havia sido estabelecido um toque de recolher a partir das 22h— começa em Bolton Hill. Taylor, de 33 anos, conversa nos degraus de uma casa com Reuben Lee, seu vizinho. Ambos são brancos. Lee tem 80 anos e vivenciou todas as mudanças de Baltimore dos últimos cinquenta anos: de uma cidade de guetos étnicos —os irlandeses, italianos, judeus, poloneses, brancos— para uma região de maioria negra, depois que os brancos fugiram para os arredores nos anos sessenta e setenta.

Hoje existem duas Baltimore que se dão as costas. “Não é algo que estamos acostumados a ver ou sentir, nem que nos preocupe”, diz Taylor, respondendo à pergunta se os brancos entram nos bairros de West Baltimore, onde em 12 de abril Freddie Gray, negro, de 25 anos, foi preso. Morreu uma semana depois. A promotora de Baltimore, Marilyn Mosby, acusou seis policiais de homicídio.

A disparidade entre a Baltimore negra e branca é, como diz o morador de Bolton Hill, cósmica. Na galáxia branca está a Universidade John Hopkins, um centro avançado de ensino e pesquisas. “Apenas seis milhas separaram os bairros de Roland Park e Hollins Market”, disse há alguns anos Jonathan Bagger, vice-reitor da John Hopkins, fazendo referência aos 10 quilômetros entre um bairro rico e outro pobre. “Mas a diferença na expectativa de vida é de 20 anos.” Em Sandtown-Winchester, o bairro de Freddie Gray, a expectativa de vida é de 69,7 anos, o mesmo nível do Iraque. Desde janeiro, foram registrados 74 homicídios em toda Baltimore, uma cidade de 620.000 habitantes. Em 2014, houve 17 homicídios em Madri, uma cidade de mais de três milhões de habitantes. Nos Estados Unidos, os negros representam 13% da população e 30% das vítimas dos disparos da polícia.

Com nuances, as estatísticas citadas não são exclusivas de Baltimore: basta apenas se deslocar alguns quilômetros da Casa Branca para descobrir problemas semelhantes nos bairros de Washington.

Mas em Baltimore, onde os principais cargos políticos, do judiciário e da polícia são ocupados por negros, é preciso considerar certas sutilezas quando se buscam explicações unicamente racistas.

Alguns bairros, com residências abandonadas e casarões, parecem uma paisagem afetada por uma catástrofe natural. Tudo isso não começou agora, mas muito antes, com a desindustrialização, a epidemia do crack, a delinquência local e a repressão policial e, na década passada, com os abusos das hipotecas de alto risco, que atingiram as minorias.

Todos os negros entrevistados em Baltimore conhecem alguém que passou pelo vendaval. Em uma livraria nos arredores, Natashia Heggins lembra da mãe, professora, acompanhando as alunas ao médico: estavam grávidas.

“Estávamos esperando, estávamos esperando”, repete, ao comentar os confrontos, Keyon Johnson, morador de Oliver, um bairro de negros na periferia. Johnson, de 32 anos, diz que muitos amigos de infância morreram. Ele conseguiu se salvar através do basquete. Agora promove atividades esportivas para as crianças do bairro.

Em um escritório de advocacia central, o advogado negro Derrick Hamlin —terno listrado, lenço e gravata borboleta: um dândi da periferia— lembra sua juventude. “Se você via a polícia, saía correndo”, diz. Foi preso duas vezes quando menor e outra quando já era maior de idade.

“Meu pai passou parte da minha infância na prisão. Foi preso pelo menos 15 vezes, num período de 20 anos, por roubar um banco, assaltos ou drogas”, diz. Foi sua mãe quem o criou e o salvou. Entrou na universidade: em seu escritório estão pendurados diplomas de química e direito. A ausência dos pais é um traço comum na América negra.

Hamlin assumiu a defesa de alguns jovens presos nos distúrbios. “Não aprovo o vandalismo nem a destruição, mas entendo a ira”, escreveu. O passeio por Baltimore termina em um restaurante tailandês de um bairro burguês. Os clientes são brancos. As telas de TV estão sintonizadas na CNN, que faz a cobertura diretamente do local dos protestos. Parece um país remoto, mas está a menos de dez minutos de carro. Antes das 21h, com as pessoas ainda comendo, a garçonete traz a conta. “É por causa do toque de recolher”, explica.

Baltimore não é o Iraque nem a lua: está a 70 quilômetros da Casa Branca.

A cidade que matou o nazismo

DCM

por : Paulo Nogueira

Na Batalha de Stalingrado Hitler começou a desmoronar, e Drummond reconheceu isso num poema pungente.

E eis que a vitória russa sobre os alemães em Stalingrado completa 70 anos.

Hitler foi batido ali.

Os nazistas jamais se recuperaram da Batalha de Stalingrado, uma das mais sanguinolentas na história militar. Foram 2 milhões de mortos. A aura de invencibilidade alemã, tão vital no início da II Guerra, perdeu-se em Stalingrado.

Churchill e os ingleses ofereceram resistência épica aos nazistas, mas quem os derrotou foram os russos.

No Brasil, o poeta Carlos Drummond de Andrade dedicou um poema à cidade que dobrou os joelhos do nazismo, chamado Carta a Estalingrado.

O Diário se orgulha de publicá-lo, em memória dos que tombaram para que a humanidade se livrasse do nazismo.



CARTA A STALINGRADO

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

[*] Extraído do livro A Rosa do Povo (poemas escritos entre 1943 e 1945). Rio de Janeiro: Record, 1987