O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
domingo, agosto 07, 2011
Michael Moore - Há 30 anos, nos EUA: “O dia em que o homem comum foi assassinado”
Michael Moore
30 Years Ago Today: The Day the Middle Class Died(Dica do Eliseu, amigo do pessoal da Vila Vudu que nos acompanha da Itália) Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Amigos, Volta e meia, alguém, com menos de 30 anos, me pergunta: ”Quando começou tudo isso, os EUA despencando ladeira abaixo?” Dizem que ouviram falar de um tempo em que os trabalhadores norte-americanos podiam sustentar a família e mandar os filhos à escola, só com o salário do pai (nos estados da Califórnia e de New York, por exemplo, o ensino era quase gratuito). Que quem quisesse salário decente, encontrava. Que as pessoas só trabalhavam cinco dias por semana, oito horas por dia, descansavam nos fins de semana e, no verão, tinham férias pagas.
Que muitos empregos eram protegidos por sindicatos, de empacotadores nas lojas ao sujeito que pintava sua casa, o que significava que, por menos ‘elevado’ que fosse o seu trabalho, você tinha garantia de aposentadoria, aumentos de salário vez ou outra, seguro-saúde, e alguém que o defendia, se você fosse desrespeitado ou tratado de modo injusto. Os mais jovens ouviram falar desse tempo mítico – mas não é mito: esse tempo existiu. E quando perguntam “Quando isso acabará?”, sempre respondo: “O que acabou, acabou há exatos 30 anos, dia 5/8/1981”. Naquele dia, há 30 anos, a Grande Finança e a direita norte-americana decidiram “ir p’rás cabeças” de uma vez por todas e destruir os homens comuns, toda a classe média. E enriquecerem eles mesmos, só eles, a valer. E conseguiram. Dia 5/8/1981, o presidente Ronald Reagan demitiu todos os empregados sindicalizados do Sindicato dos Controladores de Tráfego Aéreo [orig. Air Traffic Controllers Union, PATCO] que desobedeceram sua ordem para que voltassem ao trabalho e declarou ilegal o sindicato deles. Estavam em greve há apenas dois dias. Foi gesto violento. Ninguém antes jamais se atrevera a tanto.
E foi ainda mais violento, porque o PATCO foi um dos três únicos sindicatos que haviam apoiado a candidatura de Reagan à presidência! A decisão de Reagan disparou uma onda de choque que atingiu todos os trabalhadores nos EUA. Se fez o que fez contra sindicato que o apoiara, o que mais faria contra nós? Reagan tivera o apoio de Wall Street nas eleições à Casa Branca e eles, aliados aos cristãos de direita, queriam “reestruturar” os EUA e fazer recuar a maré que aumentava desde o primeiro governo do presidente Franklin D. Roosevelt – maré que visava a garantir melhores condições de vida aos trabalhadores norte-americanos da classe média, as pessoas comuns. Os ricos detestaram ser obrigados a pagar melhores salários e a garantir benefícios. Mais ainda, odiavam ter de pagar impostos. E desprezavam os sindicatos. Os cristãos de direita odiavam tudo que cheirasse a socialismo ou desse qualquer sinal de estender a mão às minorias ou às mulheres. Reagan prometeu pôr fim a tudo aquilo.
Então, quando os controladores de tráfego aéreo declararam-se em greve, ele aproveitou a ocasião. Ao demitir todos e ao tornar ilegal seu sindicato, enviou mensagem clara e violenta: acabava ali o tempo da vida decente e confortável para as pessoas comuns. Os EUA, daquele dia em diante, passavam a ser governados do seguinte modo: * Os super-ricos ganharão mais, mais, mais, cada vez mais dinheiro, e o resto de vocês terão de satisfazer-se com as migalhas que sobrarem das mesas deles. * Todo mundo terá de trabalhar! Mãe, pai, adolescentes, todos! O pai, que consiga um segundo emprego! Crianças, não percam a chave sobressalente! De agora em diante, pai e mãe só chegarão em casa para metê-los na cama! * 50 milhões de norte-americanos terão de viver sem seguro-saúde! Empresas serviços de saúde: encarreguem-se, vocês mesmas, de decidir quem querem atender e os que não serão atendidos. * Sindicatos são a casa do demônio! Ninguém será sindicalizado! Gente comum não precisa de advogado nem de defesa! Trabalhador tem de trabalhar. Calem o bico e voltem à fábrica.
Não, ninguém pode sair. O trabalho não está feito. As crianças, em casa, que preparem o próprio jantar. * Quer estudar? Na universidade? OK. Basta assinar as promissórias, e você estará endividado pelos próximos 20 anos, preso a um banco, até ficar velho! * Aumento? Que aumento? Volte ao trabalho e cale o bico! E assim foi. Mas Reagan não conseguiria, sozinho, fazer tudo que fez em 1981. Contou com uma grande ajuda: Da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (orig. American Federation of Labor and Congress of Industrial Organizations – AFL-CIO [1]) A maior organização de sindicatos dos EUA disse aos trabalhadores que furassem os piquetes da greve dos controladores de tráfego aéreo e voltassem ao trabalho. E foi o que os empregados sindicalizados fizeram. Pilotos, comissários de bordo, encarregados de bagagens, motoristas de empilhadeiras, carregadores – todos furaram os piquetes e ajudaram a pôr fim àquela greve. E todos os sindicalizados furaram todas as greves e continuaram a encher os aviões de carreira.
Reagan e Wall Street quase nem acreditaram no que viram! Centenas de milhares de trabalhadores, apoiando a demissão de outros trabalhadores, sindicalizados como eles. Foi um Papai Noel em agosto, para as grandes empresas dos EUA. E foi o começo do fim. Reagan e os Republicanos sabiam que se safariam – e safaram-se. Cortaram impostos dos ricos. Tornaram impossível organizar sindicatos nos locais de trabalho. Eliminaram leis de segurança no trabalho. Ignoraram leis antimonopólios e permitiram milhares de fusões entre empresas, com muitas empresas vendidas para serem fechadas. As empresas congelaram salários e ameaçaram os trabalhadores com a chantagem da transferência de empresas e empregos para o exterior, caso não aceitassem trabalhar por salários menores e sem garantias nem benefícios. E os trabalhadores aceitaram trabalhar por menores salários... E mesmo assim as empresas mudaram-se para o exterior, levando com elas os nossos empregos. E em cada passo desse processo, a maioria dos norte-americanos também se deixou levar. Praticamente não houve nem oposição nem resistência.
As “massas” não se levantaram nem defenderam seus empregos, suas casas, a escola dos filhos (consideradas das melhores do mundo). Apenas aceitaram o destino e curvaram-se. Muitas vezes me pergunto o que teria acontecido se todos, simplesmente, tivéssemos deixado de viajar de avião, ponto final, em 1981. E se todos os sindicatos tivessem dito a Reagan “Devolva os empregos dos controladores, ou fechamos o país: ninguém entra e ninguém sai.” Sabem o que teria acontecido? A elite corporativa e Reagan, seu moleque de recado, teriam afinado. Mas não fizemos nada disso. E assim, pedaço a pedaço, peça a peça, ao longo dos 30 anos seguintes, os que passaram pelo poder destruíram as pessoas comuns nos EUA e, em troca, desgraçaram o futuro de, no mínimo, uma geração de jovens norte-americanos. Os salários permaneceram estagnados durante 30 anos.
Basta olhar as estatísticas e vê-se que todas as perdas de tudo que hoje tanta falta nos faz começaram no início de 1981 (assista: cenas de meu último filme, que ilustram isso). Tudo começou no dia 5 de agosto, há 30 anos. Foi dos dias mais terríveis em toda a história dos EUA. E deixamos que acontecesse. Sim, eles tinham o dinheiro, a imprensa e os policiais. Mas nós éramos 200 milhões! Quem duvida de que teríamos vencido, se nós, todos os 200 milhões de enganados, ficássemos realmente furiosos e decidíssemos recuperar para nós o nosso país, nossa vida, nosso trabalho, nossos fins de semana, nosso tempo para educar e ver crescer nossos filhos? Será que já desistimos, mesmo? O que estamos esperando? Esqueçam aqueles 20% que apóiam o Tea Party – ainda temos os outros 80%! Esse declínio, nossa queda ladeira abaixo só parará quando exigirmos que pare.
E não por “abaixo-assinado” ou gorjeios pelo Twitter. Temos de desligar a televisão e o computador e os videogames e sair às ruas (como fez o pessoal de Wisconsin). Alguns de nós têm de candidatar-se às prefeituras, ano que vem. Temos de exigir que os Democratas, ou criem vergonha e parem de viver sustentados pelo dinheiro dos bancos e grandes empresas – ou pulem fora e devolvam os postos para os quais foram eleitos para fazer o que não estão fazendo.
Quando chega, chega, ok? O sonho comum da vida das pessoas comuns nos EUA não renascerá por mágica ou milagre. O plano de Wall Street é claro e está aí à vista de todos: os EUA serão nação dividida entre os Que-têm e os Que-não-têm. Está bom, assim, prá vocês? Vamos usar esse fim de semana para parar e pensar sobre os pequenos passos que podemos dar para virar esse jogo, com os vizinhos, no trabalho, na escola. Que melhor dia para começar que hoje, 30 anos depois?! Fraternalmente,[assina] Michael MooreMMFlint@aol.comMichaelMoore.com PS.
Aqui vão alguns endereços onde todos podem se encontrar e começar: Showdown in AmericaDemocracy ConventionOccupy Wall StreetOctober 2011How to Join a Union, from the AFL-CIO (O pessoal lá aprendeu a lição e afinal elegeu um bom presidente) ou UEChange to WinMoveOnHigh School Newspaper (Você ter menos de 18 anos não significa que você nada possa fazer. Acorde!)
Nota de tradução[1] AFL-CIO é a maior central operária dos EUA e Canadá. Formada em 1955 pela fusão da AFL (1886) com a CIO (1935). É composta de 54 federações nacionais e internacionais de sindicatos dos EUA e Canadá que juntos representam mais de 10 milhões de trabalhadores. É membro da Confederação Internacional das Organizacões Sindicais Livres. Até 2005, operou na prática como central sindical unitária, mas devido a discrepâncias internas, várias das maiores agremiações que a formavam se separaram da organização.
http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/ha-30-anos-nos-eua-o-dia-em-que-o-homem.html
http://goo.gl/u1EHz /Tweeter
sábado, agosto 06, 2011
"US Marine SEAL": A guerra secreta em 120 países
Nick Turse, Asia Times OnlineA secret war in 120 countriesTraduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Nick Turse é historiador e jornalista, editor associado de TomDispatch.com e novo editor sênior de Alternet.org.
Nesse instante, em algum ponto do planeta, um comando dos EUA está em ação. Repita a frase 70 vezes, e você terá mapeado a atividade dos SEALs[orig.Sea, Air and Land Forces, “Forças de Mar, Ar e Terra”] da Marinha dos EUA, num único dia. Sem que o povo norte-americano saiba, há uma força militar secreta dos EUA em ação num número imenso de países em todo o mundo. Essa nova elite do poder do Pentágono combate guerra global hoje, de cujos objetivo e dimensões a opinião pública norte-americana não tem conhecimento.
Mas, depois que uma equipe da força SEAL da Marinha dos EUA meteu uma bala no peito e outra na testa de Osama bin Laden, ao invadir a casa onde Osama morava no Paquistão, um dos braços clandestinos mais secretos das forças militares dos EUA surgiram, embora rapidamente, à vista da opinião pública. Foi atípico.
Embora se saiba que há forças de Operações Especiais em zonas de guerra no Afeganistão e no Iraque, e que surjam novas evidências a cada dia de que essas unidades operam também em zonas de conflito ainda mais nebulosas, como no Iêmen e na Somália, absolutamente não se conhece a extensão das suas operações em praticamente todo o planeta.
Ano passado, Karen DeYoung e Greg Jaffe do Washington Post noticiaram que havia forças de Operações Especiais dos EUA em ação em 75 países; no governo de George W Bush, eram 60. Ao final de 2011, o coronel Tim Nye, porta-voz do Comando das Operações Especiais dos EUA disse-me em entrevista que esse número já estará próximo de 120. “Viajamos muito, para muitos lugares, além de Afeganistão e Iraque” – disse recentemente o coronel Nye.
Essa presença global – em cerca de 60% das nações do mundo e muito mais vasta do que se sabia – é espantosa nova evidência de que a elite do poder do Pentágono está em guerra clandestina, saibam os países-alvo ou não, em praticamente todos os cantos do mundo.
O aumento do segredo militar dos militares
Nascido depois de um ataque fracassado, em 1980, para resgatar reféns norte-americanos no Irã, no qual morreram oito agentes norte-americanos, o Comando das Operações Especiais dos EUA [orig. US Special Operations Command (SOCOM)] foi criado em 1987. As forças especiais sobreviveram aos anos pós-Vietnã, desprestigiadas pelas forças militares regulares e com orçamento mínino; até que, repentinamente, ganharam sede própria, orçamento estável e um comandante com quatro estrelas.
Desde então, o SOCOM só fez crescer, até converter-se em força mista de proporções gigantescas. O SOCOM reúne unidades especiais de todas as armas: os “Boinas Verdes” [orig. Green Berets] e os Rangers do Exército; os SEALs da Marinha; e outras equipes de Operações Especiais da Marinha e Comandos da Força Aérea, além de tripulações especializadas em helicópteros e barcos, pessoal civil, paraquedistas de resgate e até controladores de tráfego aéreo e meteorologistas para regiões de combate. O SOCOM coordena a maioria das operações secretas e missões especializadas de guerra de todas as forças militares nos EUA.
Essas missões e operações incluem assassinatos predeterminados, ataques a terroristas, reconhecimento de longo alcance, análise de inteligência, treinamento de tropas estrangeiras e operações contra proliferação de armas de destruição em massa.
Um dos principais braços do SOCOM é o Comando Conjunto das Forças Especiais [orig. Joint Special Operations Command (JSOC)], subcomando clandestino cuja principal missão é rastrear e matar pessoas acusadas de terrorismo e de associação com terroristas. O JSOC – que reporta diretamente ao presidente dos EUA e age sob sua autoridade – mantém uma lista global de alvos, entre os quais há cidadãos norte-americanos. Esse comando conduziu uma campanha extra-legal de “matar/capturar”, que John Nagl, antigo conselheiro de contrainsurgência do general de quatro estrelas e recentemente nomeado diretor da CIA David Petraeus, descreve como “máquina de matar terroristas em escala industrial”.
Esse programa de assassinatos predeterminados está sendo implementado por unidades como os SEALs da Marinha e a Delta Force do Exército e também pelos ataques com aviões-robôs pilotados a distância (drones), como parte de guerras clandestinas nas quais também está envolvida a CIA, como na Somália, no Paquistão e no Iêmen. Além disso, o JSOC opera uma rede de prisões secretas, talvez 20 pontos negros, só no Afeganistão, usados para interrogar alvos considerados de alto valor.
O crescimento da indústria
De força com cerca de 37 mil agentes no início dos anos 1990s, o Comando de Operações Especiais, SOCOM, cresceu muito; tem hoje quase 60 mil agentes, um terço dos quais, são membros de carreira do SOCOM; os demais são especialistas de outras áreas ocupacionais militares, que circulam periodicamente pelo Comando.
Depois de 11/9/2001, o crescimento foi exponencial: o orçamento básico do SOCOM quase triplicou, de $2,3 bilhões, para $6,3 bilhões. Se se soma o investimento para as guerras no Iraque e no Afeganistão, em três anos o orçamento mais que quadruplicou e chega hoje a $9,8 bilhões. Não surpreendentemente, o número de agentes ativos no exterior é hoje quatro vezes maior. E estão em estudo novos aumentos, com expansão das operações em curso.
O tenente-general Dennis Hejlik, ex-comandante do Comando de Operações Especiais da Marinha – o último ramo de serviços que foi incorporado aoSOCOM, em 2006 – indicou, por exemplo, que prevê a duplicação da unidade de 2.600 que comandou: “Vejo-os como força de cerca de 5 mil unidades ativas, aproximadamente o número de SEALs que temos no campo de combate. Entre 5 e 6 mil”, disse Hejlik em café da manhã com jornalistas que cobrem a Defesa, em Washington, em junho. Planos de longo prazo exigem que a força seja aumentada imediatamente em mais 1.000 unidades ativas.
Em recente depoimento ao Senado, depois de ter sido indicado para presidir o SOCOM, o vice-almirante William McRaven da Marinha, que acabava de deixar o comando do JSOC (que ainda comandava no ataque que matou bin Laden) defendeu crescimento continuado do contingente ao ritmo de 3-5% ao ano; e pediu mais recursos, inclusive novos aviões-robôs tripulados à distância (drones) e a construção de várias novas instalações para operações especiais.
Ex-agente SEAL que ainda várias vezes acompanha as ações de campo, McRaven disse acreditar que, com a retirada das forças convencionais do Afeganistão, os agentes das forças especiais terão de desempenhar papel mais amplo do que atualmente. O Iraque, disse ele, muito terá a ganhar se agentes das forças especiais dos EUA continuarem ativas lá, mesmo depois de esgotado o prazo final para total retirada, em dezembro de 2011. E garantiu à Comissão das Forças Armadas do Senado que “como ex-comandante do JSOC, posso dizer que também estamos examinando com atenção os casos do Iêmen e da Somália”.
Em discurso à Associação Nacional da Indústria de Defesa, no simpósio anual sobre Operações Especiais e Conflitos de Baixa Intensidade, no início de 2011, o almirante da Marinha Eric Olson, às vésperas de deixar o posto de Comandante do Comando de Operações Especiais, exibiu uma imagem noturna do planeta, feita de fotos feitas por satélites. Antes de 11/9/2001, a parte ‘iluminada’ do planeta – nações industrializadas do norte do globo – era definida como a área chave. “Mas o mundo mudou”, disse o almirante Olson. “Nosso foco estratégico e a ação da comunidade de operações especiais olham hoje sobretudo para o sul (...); temos de lidar com ameaças que vêm de áreas não iluminadas”.
Para essa finalidade, Olson lançou o “Projeto Lawrence” – esforço para ampliar as competências culturais dos agentes – estudos avançados de idiomas e melhor conhecimento da história e costumes locais, com vistas a preparar os agentes para operações em outras terras. O programa recebeu o nome do oficial britânico Thomas Edward Lawrence (“Lawrence da Arábia”), que se aliou a combatentes árabes numa luta de guerrilhas no Oriente Médio, durante a I Guerra Mundial. Falando sobre Afeganistão, Paquistão, Mali e Indonésia, Olson disse que o SOCOM precisa contar agora com “Lawrences de seja onde for”.
Olson falou de apenas 51 países como principais pontos de preocupação para o SOCOM; Nye disse-me em entrevista que, em termos gerais, há forças de Operações Especiais ativas hoje em aproximadamente 70 países em todo o mundo. E todas, apressou-se a esclarecer, a pedido dos respectivos governos locais.
Segundo depoimento que Olson prestou à Comissão de Forças Armadas da Câmara de Deputados no início desse ano, cerca de 85% dos agentes de operações especiais estão ativos em 20 países da área de operação do CENTCOM no Grande Oriente Médio: Afeganistão, Bahrain, Egito, Irã, Iraque, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Quirguistão, Líbano, Omã, Paquistão, Qatar, Arábia Saudita, Síria, Tadjiquistão, Turcomenistão, Emirados Árabes Unidos. Uzbequistão e Iêmen. Os demais estão distribuídos pelo planeta, da América do Sul ao Sudeste da Ásia, em alguns casos em pequenos números, em outros, com grandes contingentes.
O Comando de Operações Especiais não diz em que países operam seus agentes. “Evidentemente há casos em que não nos interessa divulgar a nossa presença”, diz Nye. Nem todos os países querem divulgar essa colaboração por razões deles, internas ou regionais.”
Mas se é segredo, é segredo mal guardado. Muitos sabem que os agentes ‘de uniformes pretos’ das operações especiais, como os SEALs e a Força Delta, estão engajados em ações de “matar/prender” no Afeganistão, Iraque, Paquistão e Iêmen; e que os agentes ‘de uniformes caquis’, como os Boinas Verdes e os Rangers treinam parceiros locais, como parte da guerra planetária contra a al-Qaeda e outros grupos militantes.
Nas Filipinas, por exemplo, os EUA gastam 50 milhões de dólares por ano com um contingente de 600 agentes de forças das Operações Especiais, SEALs da Marinha, operadores especiais da Força Aérea e outros, que trabalham em operações de contraterrorismo com aliados filipinos, contra grupos insurgentes como Jemaah Islamiyah e Abu Sayyaf.
Ano passado, como mostram análises de documentos do SOCOM, informações divulgadas pelo Pentágono e um banco de dados de missões das Operações Especiais reunido pela jornalista investigativa Tara McKelvey (para a Iniciativa “Jornalismo e Segurança Nacional” da Medill School of Journalism), as principais ações das tropas especiais dos EUA foram exercícios conjuntos no Belize, Brasil, Bulgária, Burkina Faso, Alemanha, Indonésia, Mali, Noruega, Panamá e Polônia.
Até agora, em 2011, missões similares de treinamento foram realizadas na República Dominicana, Jordânia, Romênia, Senegal, Coreia do Sul e Tailândia, dentre outros países. Nye disse-me que, de fato, há ações de treinamento em praticamente todas as nações para as quais se enviam agentes das Forças Especiais. “Dos 120 países que visitaremos até o final do ano, posso dizer que haverá operações de treinamento, de um modo ou de outro. São classificados como exercícios de treinamento.”
A elite do poder do Pentágono
Inicialmente vistas como filhas bastardas do establishment militar, as forças de Operações Especiais cresceram exponencialmente não só em tamanho e orçamento, mas também em poder e influência. Desde 2002, o SOCOM foi autorizado a criar suas próprias Força-tarefas Conjuntas – como a Força-tarefa Filipinas, do JSOC –, prerrogativa que, antes, era privilégio de comandos maiores, como o CENTCOM. Esse ano, sem qualquer alarde, o SOCOM criou também sua própria Força-tarefa de Aquisições, quadro de especialistas em design e aquisição de equipamentos.
Com autonomia sobre orçamento, treinamento e equipamento de suas forças, poderes que antes eram exclusivos de departamentos (como o Departamento do Exército ou o Departamento da Marinha), com dólares ‘carimbados’ em todos os orçamentos do Departamento da Defesa e com defensores influentes no Congresso, o SOCOM é hoje ator excepcionalmente poderoso no Pentágono.
Com esse efetivo poder, pode vencer batalhas burocráticas, comprar tecnologia de ponta e fazer pesquisa reservada no campo das comunicações ou das tecnologias ‘de invisibilidade’, como a dos aviões stealth invisíveis aos radares. Desde 2001, sextuplicou o número de contratos entre o SOCOM e pequenas empresas – produtoras, quase sempre, de equipamento bélico e armas.
O SOCOM tem quartel-general na base aérea de MacDill na Florida, mas opera em teatros de comando espalhados pelo planeta (com bases no Havaí, na Alemanha e na Coreia do Sul); ativo hoje na maioria dos países do planeta, o Comando de Operações Especiais já é força praticamente independente.
Como disse o comandante Olson, pouco antes de deixar o comando do SOCOM no início de 2011, o SOCOM “é um microcosmo do Departamento de Defesa, com forças de terra, mar e ar, presença global e autoridade e responsabilidade correspondentes ao dos Departamentos e Serviços militares e das agências da Defesa”.
Com a tarefa de coordenar todo o planejamento do Pentágono contra as redes globais de terrorismo e, como resultado disso, intimamente conectado a outras agências do governo dos EUA; a militares estrangeiros e a serviços de inteligência, e armado com enorme arsenal de helicópteros ‘invisíveis’, mísseis teleguiados, aviões-robôs (drones) pesadamente armados, barcos de alta velocidade armados e equipados com tecnologia ultrassofisticada, veículos Humvees especializados e veículos camuflados blindados à prova de minas [orig. Mine Resistant Ambush Protected vehicles (MRAPs)]; além de uma parafernália de equipamentos de tecnologias de última geração, com mais inovações já em planejamento e produção, o SOCOM representa algo completamente novo no campo militar.
O falecido especialista em militarismo Chalmers Johnson costumava referir-se à CIA como “o exército privado do presidente”. Hoje, esse papel cabe aoJSOC. Esse Comando Associado de Operações Especiais atua como esquadrão da morte privado do chefe do executivo nos EUA; e seu parente próximo, o Comando de Operações Especiais, SOCOM, funciona como uma elite superarmada do Pentágono – um exército secreto dentro do exército, com poder doméstico e alcance global.
Em 120 países em todo o globo, agentes do Comando de Operações Especiais fazem sua guerra secreta de assassinatos predeterminados pontuais de suspeitos ‘importantes’; ou de assassinatos ‘a granel’ de suspeitos menos ‘importantes’; operações de captura/sequestro; operações noturnas de derrubar portas de casas habitadas e explodir paredes; e missões de treinamento com parceiros ‘locais’ – ações de uma guerra clandestina sobre a qual os cidadãos norte-americanos nada sabem. Forças que já foram consideradas “especiais” por serem pequenas, ágeis e auxiliares no corpo do exército, são hoje “especiais”, pelo extraordinário poder que concentram, pelo acesso sem qualquer restrição a qualquer ponto de qualquer lugar do planeta, pela influência e pela “aura”.
Essa “aura” cresce hoje, por efeito de uma incansável campanha de propaganda e publicidade, que divulga nos EUA e no exterior imagens de agentes sobre-humanos, como se fossem super-heróis, apesar de aqueles agentes, hoje, trabalharem cada vez mais escondidos na clandestinidade, exatamente o contrário do que fazem os heróis de televisão e histórias em quadrinho. Exemplar dessa visão de propaganda com que se querem travestir, foi a frase do almirante Olson: “Estou convencido de que as Forças [Especiais] são os parceiros mais culturalmente bem afinados, os caçadores-matadores mais eficientes, os assessores e instrutores mais empenhados, ágeis, criativos, inovadores, os mais eficientes solucionadores de problemas e guerreiros intrépidos que qualquer nação do mundo pode hoje oferecer”. Dão a impressão de que estão à venda, como numa feira de rua.
Recentemente, no Fórum de Segurança do Instituto Aspen, Olson repetiu esses comentários de propaganda, além de informação falsa, ao dizer que as Forças Especiais dos EUA estariam operando em apenas 65 países e engajadas em combate em apenas dois. Perguntado sobre os ataques com aviões-robôs não tripulados (drones) em território do Paquistão, Olson, segundo os jornais, respondeu: “Vocês estão falando daquelas explosões sem causa conhecida?”
Mas há outras coisas reveladoras, no que disse. Olson observou, por exemplo, que operações “de uniformes pretos”, como a ‘missão bin Laden’, de agentes em helicópteros em ataque noturno, tornaram-se extremamente comuns. “Uma dúzia dessas missões, ou quase isso, acontecem por noite” – disse ele. Talvez ainda mais reveladora seja uma observação que fez sobre o tamanho do SOCOM. Hoje, disse Olson, as forças de Operações Especiais dos EUA têm números equivalentes a todo o exército canadense hoje em serviço ativo. As forças especiais dos EUA são, de fato, maiores que os exércitos regulares de muitas nações nas quais operam hoje. E esses números continuam a aumentar.
Os cidadãos norte-americanos têm de enfrentar o significado de o país manter força “especial” tão gigantesca, tão ativa e tão secreta – o que jamais conseguirão fazer até que haja mais e melhor informação. Não é discussão que se possa esperar que Olson ou seus soldados proponham. “Nosso acesso [aos países estrangeiros] depende de nossa capacidade de não falar sobre o que fazemos” – disse Olson em resposta a perguntas sobre o segredo que cerca o SOCOM. Os soldados secretos reclamam, quando as missões são divulgadas e expostas, como aconteceu no assassinato de bin Laden. E concluiu: os exércitos secretos sempre querem voltar às sombras, “para fazer o que sabem fazer”.
http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/us-marine-seal-guerra-secreta-em-120.html
http://goo.gl/Jy84l /tweeter
Mais guerras! A rota para o Armagedon
por Paul Craig Roberts [*]
Quando principiou a segunda década do século XXI, a economia estadunidense não se recuperara da Grande Recessão iniciada em Dezembro de 2007. O fracasso da recuperação econômica verificou-se apesar do maior estímulo fiscal e monetário da história do país. Houve um salvamento bancário de US$700 bilhões, um programa de estímulo de US$700 trilhões, um par de trilhões (trillion) de “facilidade quantitativa”, isto é, monetização de dívida ou impressão de dinheiro para financiar as despesas do governo.
Além disso, o balanço do Federal Reserve expandiu-se em trilhões de dólares quando o Fed comprou títulos hipotecários e derivativos problemáticos no seu esforço para manter o sistema financeiro solvente e em funcionamento. Segundo auditoria do Government Accountability Office do Federal Reserve, divulgada pelo senador Bernie Sanders, o Federal Reserve proporcionou empréstimos secretos a bancos dos EUA e estrangeiros que totalizavam US$16,1 trilhões, uma soma maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA.
Apesar do enorme estímulo fiscal e monetário, a economia permaneceu morta. Em 2011 o déficit das despesas anuais do governo federal foi de 43 por cento do orçamento. Por outras palavras, o governo dos EUA tinha de tomar emprestado, ou o Fed tinha de monetizar, 43 por cento das despesas federais durante o ano fiscal de 2011. Apesar deste estímulo fiscal e monetário sem precedentes, a economia não recuperou. No fim da primeira década do século XXI, o declínio da economia foi temporariamente suspenso pelos subsídios federais para compras de carros e de casa. O subsídio de habitação de US$8.000 ajudou recém-casados a comprarem as primeiras casas, pois o subsídio era uma grande fatia da entrada num mercado habitacional em depressão. O subsídio à compra de carro transferiu procura futura para o presente. Quando estes subsídios expiraram, os aparelhos salva-vidas da economia foram desligados. Problemas com informação estatística de desemprego, inflação e PIB disfarçaram o agravamento para pior da economia.
Ajustamentos sazonais utilizados para aplanar os dados ao longo do ano não foram concebidos para recessão prolongada. Nem tão pouco o modelo “nascimento-morte” utilizado pelo US Bureau of Labor Statistics (BLS) para estimar empregos não relatados de novas companhias que arrancavam e perdas de companhias que abandonaram os negócios. O modelo nascimento-morte foi concebido para uma economia em crescimento e durante épocas baixas superestima o número de novos empregos criados. O “efeito substituição” utilizado no índice de preço no consumidor (IPC) subestima a inflação ao assumir que os consumidores substituem alimentos mais baratos por aqueles que sobem de preço. Por exemplo: se o preço de um bife em Nova York sobe, isto não é mostrado no IPC devido à suposição de que as pessoas mudam as suas compras para bife menos caro. Cozinhando a contabilidade A medida amplamente utilizada do “núcleo inflacionário” (“core inflation”) não inclui alimentos ou energia. O núcleo inflacionário é uma medida útil para aqueles que querem dar uma visão otimista da perspectiva.
Ao subestimar a inflação, o governo pode superestimar o crescimento do PIB real, criando, portanto, uma perspectiva fictícia rósea. Analogamente, ao utilizar a medida do emprego conhecida como U.3, o governo subestima o desemprego. A “manchete” da taxa de desemprego, aquela enfatizada pela “imprensa” e a imprensa financeira, fixava-se em 9,2 por cento em Junho de 2011. Mas esta taxa não inclui quaisquer trabalhadores desencorajados. Um trabalhador desencorajado é uma pessoa que cessou de procurar um emprego, porque não há empregos a serem descobertos. Um trabalhador desencorajado não é considerado estar na força de trabalho e não é contado entre os desempregados U.3. O governo federal sabe que isto é falso e tem uma medida U.6 do desemprego que conta os desencorajados a curto prazo. Esta medida, raramente informada pela “imprensa”, fixava-se em 16,2 por cento em Junho de 2011. O estatístico John Williams ( shadowstats.com) continua a contar também os trabalhadores desencorajados a longo prazo de acordo com o modo como era feito oficialmente em 1980. Em Junho de 2011, esta medida completa da taxa de desemprego nos EUA era de 22,7 por cento. Em outras palavras; em 2011 entre um quinto e um quarto da força de trabalho dos EUA estava sem emprego. À medida que 2011 avançava, os Estados Unidos enfrentavam três crises econômicas simultâneas.
Uma crise decorre da perda de empregos nos EUA, PIB, rendimento do consumidor e base fiscal causada por corporações deslocalizando sua produção destinada ao mercado estadunidense. Ao invés de fabricar seus produtos em casa com trabalho americano e proporcionar empregos aos americanos e receitas fiscais aos estados e localidades, corporações estadunidenses proporcionam PIB, empregos, rendimento do consumidor e uma base fiscal a países como a China, Índia e Indonésia. Esta prática significa que o estímulo econômico foi incapaz de ressuscitar a economia dos EUA, pois os americanos não podem ser chamados de volta a empregos que foram exportados. Outra crise foi a financeira resultante da desregulamentação; fraude e cobiça. A titularização de hipotecas significou que emissores de hipotecas já não tinham qualquer incentivo para averiguar a possibilidade de crédito do tomador do empréstimo, porque os emissores vendiam as hipotecas a terceiros os quais combinavam as hipotecas com outros e vendiam-nas a investidores. Como as hipotecas foram emitidas à base de comissões (fees), quanto mais hipotecas emitidas, mais alto era o rendimento das comissões. A fim de arrecadar rendimento de comissões, alguns emissores falsificaram relatórios de crédito para tomadores de empréstimos. Com o mercado habitacional em expansão, muitas pessoas fizeram hipotecas a fim de ganhar dinheiro com a revenda das propriedades. Com os preços habitacionais a subir rapidamente, as entradas e a confiabilidade do crédito tornaram-se preocupações do passado. A crise financeira foi agravada pela capacidade de bancos de investimentos para contornar exigências de capital e, portanto, alavancar seu capital incorrendo em enormes dívidas. Quando todas as bolhas estouraram, o castelo de cartas entrou em colapso.
Armagedon econômico
A terceira crise foram os déficits do orçamento federal de US$1,5 trilhão, os quais eram demasiado grandes para serem financiados sem que o Federal Reserve comprasse novas emissões de dívida do Tesouro. Conhecido como monetização da dívida, o Federal Reserve comprou os Títulos do Tesouro, notas e outros títulos através da criação de uma conta corrente, da qual o Tesouro retiraria para pagar as contas do governo. A expansão da dívida do Tesouro despertou preocupações acerca do valor cambial do dólar e do seu papel como divisa de reserva, e despertou temores de inflação. Os preços do ouro e da prata se elevaram quando o dólar declinou em mercados de câmbio estrangeiros. Qualquer uma destas crises era séria. Todas juntas, implicavam o Armagedon econômico. Não havia caminho óbvio de saída, mas mesmo que alguém pudesse descobri-lo o governo estava focado alhures – em guerras. Além das operações em curso no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iêmen e Somália, os EUA e a NATO começaram operações militares contra a Líbia em 19 de março de 2011.
Tal como as guerras existentes, o objetivo real da agressão contra a Líbia não foi reconhecido, mas ficou claro que o objetivo da guerra era expulsar a China dos seus investimentos em petróleo na Líbia oriental. Ao contrário dos protestos árabes anteriores, a rebelião Líbia foi um levantamento armado no qual alguns viram a mão da CIA. A guerra líbia aumentou o risco, porque embora escondendo-se por trás do véu do protesto árabe, os EUA estavam realmente confrontando a China. Analogamente, no apoio estadunidense à rebelião armada na Síria, o objetivo de Washington era a base naval russa em Tartus. Derrubando o governo Assad na Síria e instalando ali um regime amistoso para com os EUA poria fim à presença naval russa no Mediterrâneo. Ocultando seus objetivos por trás dos protestos árabes na Líbia e na Síria que pode ter iniciado, Washington evitou conflitos diretos com a China e a Rússia, mas, no entanto as duas potências entenderam que Washington estava atacando os seus interesses. Isto elevou a imprudência das políticas agressivas de Washington ao iniciar confrontação com duas potências nucleares, uma das quais possui poder financeiro sobre os EUA, pois é o maior credor estrangeiro da América. Os investimentos petrolíferos da China em Angola e na Nigéria eram outros dos objetivos. Para conter a penetração econômica da China na África, os EUA criaram o American African Command nos últimos anos da primeira década do século XXI. Perturbado pela ascensão da China, os EUA procuraram impedir a China de ter fontes de energia independentes.
O grande jogo que no passado sempre levou à guerra está sendo jogado outra vez. O 11 de Setembro de 2001 proporcionou a Washington uma nova “ameaça” para substituir a ameaça soviética, a qual expirou em 1991. Apesar da ausência da ameaça soviética, o orçamento militar e de segurança foi mantido alto durante uma década. O 11 de Setembro de 2011 injetou crescimento rápido no orçamento militar e de segurança. Uma década mais tarde o orçamento fixava-se em aproximadamente US$1,1 trilhões por ano, ou aproximadamente 70 por cento do déficit federal, o qual debilitava o dólar e ameaçava a classificação de crédito do Tesouro dos EUA. Centrada nas guerras do Médio Oriente, Washington estava perdendo a guerra da economia dos EUA. Quando a expectativa de recuperação econômica se evaporou, no decorrer de 2011, a necessidade da guerra tornou-se mais imperiosa.
01/Agosto/2011 [*] Ex-editor do Wall Street Journal e ex-assistente do secretário do Tesouro dos EUA. Seu último livro, HOW THE ECONOMY WAS LOST , foi publicado por CounterPunch/AK Press. Este artigo saiu no número do Verão de 2011 do Trends Journal, publicação do Trends Research Institute de Gerald Celente. O artigo original, em inglês, encontra-se em: More War! The Road to Armageddon Esta tradução foi extraída de: Resistir
http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/08/mais-guerra-rota-para-o-armagedon.html
http://goo.gl/5dwV /tweeter
sexta-feira, agosto 05, 2011
Guerra contra a Líbia :“Uma loucura perversa, mal intencionada”
29-31/7/2011, Charles Abugre, Counterpunch (edição de fim de semana) - http://counterpunch.org/abugre07292011.html
Charles Abugre é mestre em Economia para o Desenvolvimento pelo Institute of Social Studies, em Haia;
formado em Geografia e Economia pela Universidade de Ghana em Accra;
e está concluindo seu doutoramento na Universidade de Wales, Swansea, Reino Unido.
Em 2009 foi nomeado diretor da Campanha “Milênio” da ONU, para a África
(mais em Guardian, UK em http://www.guardian.co.uk/profile/charles-abugre).
_______________________________________________________________________
“O plano da União Africana para um acordo negociado ainda é o melhor – cessar-fogo imediato; intervenção humanitária por força externa ao conflito; governo de transição constituído de representantes dos dois lados em luta; cronograma para que se formem partidos políticos; eleições; e processo legal para investigar, identificar e punir os responsáveis. E – se posso contribuir – compromisso, das forças invasoras, de não requerer reparações de guerra. Essa, precisamente, seria a via acertada a ser seguida, desde o início, se ‘o ocidente’ não tivesse impedido que a estratégia proposta pelo presidente Lula do Brasil e União Africana prosperasse.”
___________________________________________
A intervenção militar estaria salvando vidas? Claramente não! Como bombardeios aéreos de acampamentos civis e atrocidades cometidas por milícias armadas pela OTAN implicariam salvar vidas de civis? Serão os habitantes de Benghazi talvez ‘mais civis’ que os habitantes de Trípoli e outras cidades? A história das invasões militares ocidentais sempre significa só salvar vidas de quem se empenha em matar. No Iraque, por exemplo, morreram um milhão de pessoas por efeito direto de bombas e por efeito indireto da violência sectária, e mais um milhão de pessoas perderam casas e terras e foram convertidos em refugiados de guerra. Nem Saddam, durante anos de ditadura, matou tanta gente e arrancou tantos de suas terras e casas. Ou no Afeganistão, na Somália e, também, nas intervenções nos Bálcãs.
Esses invasores ocidentais encontram pretextos e falsos motivos para justificar invasões armadas? Sim, há muitas provas de que sim. É bem conhecida a história das mentiras e falsas razões que uma mídia sectária vendeu à opinião pública, para justificar a invasão do Iraque. George Bush e Tony Blair sabiam perfeitamente que Saddam Hussein não tinha armas de destruição em massa[1]. Mas já estava decidido que o Iraque seria invadido; e fizeram de tudo para inventar um modo de ‘justificar’ a invasão. Antes da invasão ao Afeganistão, feita sob o falso pretexto de caçar Osama Bin Laden e a Al-Qaeda, os Talibãs já haviam proposto entregar Bin Laden para ser julgado por tribunal internacional, se os EUA provassem que estivera envolvido nos ataques do 11/9 às Torres Gêmeas em New York. E há histórias, bem provadas, semelhantes a essas, também no caso dos bombardeios contra a Iugoslávia.
Por que a ‘mudança de regime’?
Sabendo-se de tudo isso, e sabendo-se também que os levantes no Norte da África, que respingaram na Líbia, criaram o quadro ideal para forçar a ‘mudança de regime’ que já estava planejada há muito tempo e que ‘salvar vidas’ não foi o verdadeiro objetivo da intervenção militar, por que EUA e os países europeus estavam tão desesperadamente interessados em derrubar o coronel (Irmão) Muammar Gaddafi e afastá-lo, com os filhos, do poder? Há várias teorias.
Retaliação
Diferentes governos têm diferentes questões contra ‘o Irmão’. Há quem diga que Sarkozy trabalha para encobrir questões que lhe causariam dores de cabeças com a lei, se acontecesse de o letárgico sistema judiciário francês acordar e divulgar informes sobre o importante apoio que a família Gaddafi deu, em dinheiro, à campanha eleitoral que levou Sarkozy à presidência da república francesa. 'Papi Silvio' (Berlusconi) também tem interesses em afastar ‘o Irmão’, que lhe causou embaraços quando montou sua tenda beduína em Milão, num momento em que Berlusconi enfrentava a ira popular por causa de escândalos em que aparecia envolvido em casos extraconjugais. O ‘o Irmão’ falou a uma platéia de italianas indignadas, cercado por sua guarda pessoal constituída só de mulheres ‘liberadas’ (e armadas), ocasião em que se apresentou como protetor das mulheres italianas. Britânicos e norte-americanos talvez tenham questões mais graves, como a explosão de um avião da Pan Am sobre a cidade escocesa de Lockerbie. E o mesmo tipo de ira-ressentimentos também pode ter levado vários países africanos a aceitar a Resolução n. 1.073. Muitos gostariam muito de ver pelas costas esse beduíno estranho, que jamais reverenciou o ocidente como o ocidente está habituado a ser reverenciado e expôs tantos governantes ao ridículo também em seus respectivos domínios. E não se recomenda ridicularizar, muito menos enfurecer, esses poderosos exércitos.
Em apoio a uma luta legítima por independência
Dmitry Isayev, no New Eastern Outlook journal[2], cita ‘Papi’ Silvio (Berlusconi), que diz que a guerra da Líbia seria a guerra de independência da Cyrenaica (leste da Líbia), que seria colonizada pela Líbia Ocidental, em processo semelhante ao que levou à separação do Sudão do Sul. Nesse caso, a Itália de Berlusconi estaria apoiando claramente um movimento separatista. Por menos que essa visão da guerra seja partilhada por outros estados-membros da OTAN, as ideias de Berlusconi encontraram eco. A insurreição armada foi lançada de Benghazi (capital do leste), cidade que por vários séculos foi sede da monarquia. Durante o período monárquico, a Cyrenaica controlou o petróleo, um porto importante, a pesca e, assim, a riqueza líbia.
Essa, precisamente, foi a monarquia que Gaddafi derrubou em 1969, com o apoio das tribos do oeste. Desde então, o leste foi política e economicamente marginalizado. Mas se objetivo da guerra é criar duas Líbias, como se articulam esse objetivo e a Resolução n. 1.073 do Conselho de Segurança da ONU, que autoriza exclusivamente a proteger civis?
Interesses geopolíticos
Na edição de 23/6/2011 do jornal Pambazuka News, principal publicação online sobre questões africanas, Ismael Hossein-Zadeh sugere que a OTAN decidiu derrubar Gaddafi por sua insubordinação, que ameaça interesses estratégicos e os fundamentos do poder na região. Um dos pontos em que a radical insubordinação de Gadaffi parece ‘imperdoável’ é a recusa, apoiada pela Síria – são as únicas ‘nações árabes’ que tomaram essa decisão – a deixar-se absorver nos arranjos de segurança estratégica comandados por OTAN/França/EUA para controlar a bacia do Mar Mediterrâneo e o Oriente Médio: “Líbia e Síria não participaram, há dez anos, da operação “Active Endeavor” de patrulhas e exercícios navais no Mediterrâneo; a Líbia não é membro do Diálogo Mediterrâneo, parceria militar da OTAN que reúne quase todos os países da região: Israel, Jordânia, Egito, Tunísia, Argélia, Marrocos e Mauritânia; e a Líbia de Gaddafi sempre se opôs ao Africon (US Africa Command)”.[3]
São ‘infrações’ graves, dada a importância estratégica do Mediterrâneo. Ficar de fora implica que Gaddafi não participa das preocupações com a segurança de Israel – país, ao que parece, intocável. Com Gaddafi fora da ‘aliança’, importantes recursos de petróleo, gás e minérios não ficam acessíveis ao ocidente e não podem ser incluídos no planejamento estratégico ocidental.
Admitir o ‘não-alinhamento’ de Gaddafi também cria perigosa ‘abertura’, para que outros países que não integram a OTAN, sobretudo China, Brasil, Índia e Rússia, encontrem base de apoio na região. Gaddafi fora da ‘aliança’ é perigoso risco geoestratégico, que a OTAN não poderia admitir.
Tampouco se deve esquecer a necessidade de conter Índia e China. Perguntado sobre os reais motivos da invasão ao Afeganistão, Henry Kissinger, secretário de Estado dos EUA durante a Guerra Fria, diz que “tendências apoiadas por Japão e China, para criar uma área de livre comércio na Ásia – um bloco de oposição que reuniria as nações mais populosas do planeta, com muitos recursos estratégicos e algumas das nações mais industrializadas, não é consistente com os interesses nacionais dos EUA, Por isso, os EUA devem manter presença na Ásia” (“Does America need a foreign policy?”, citado em Economicsnews[4]). Faz perfeito sentido com as ideias de Zbigniew Brzezinsky, secretário de Estado de Jimmy Carter, que há quem diga que foi o ‘tutor’ político de Barack Obama, que o encaminhou ao partido e à presidência. Para Brzezinsky, a Eurásia seria um “tabuleiro de xadrez no qual se disputa o controle global”. O Mediterrâneo é o coração da Eurásia.
Em discurso do dia 28 de março, Barack Obama disse, sobre a invasão da Líbia: “Quando os interesses e valores da América estão em jogo, temos responsabilidade de agir (...). A América tem importante interesse estratégico em impedir que Gaddafi derrote os que lhe fazem oposição”.[5]
Interesses econômicos estratégicos
Há três áreas nas quais se manifestam claramente interesses econômicos estratégicos: nas políticas econômicas que influenciam a acumulação, a propriedade e os movimentos do capital, de bens e serviços; no controle direto ou indireto de recursos naturais; e no poder para manter dívidas de longo prazo. No artigo já citado do jornal Pambazuka, Ismael argumenta que o controle sobre as fontes de petróleo é importante, mas que os países da OTAN e França já controlam essas fontes, mediante a presença, ali, de suas empresas.
A questão é que Gaddafi recusou-se a privatizar seus poços de petróleo e portanto, na Líbia, o estado ainda exerce controle efetivo. Por isso Gaddafi é visto como ameaça, exatamente como Hugo Chavez da Venezuela também é tratado como perigoso inimigo. Mas Gaddafi mantém política de acolher empresas estrangeiras. Por essa via, a China pode, facilmente, entrar na Líbia – o que, sim, aos olhos de OTAN/EUA complicaria a questão do que chamam “a segurança estratégica”. Como George Bush explicou “quem não está conosco, está contra nós”. Obama apenas repete.
Além do mais, quem controle os recursos naturais controla as políticas. O neoliberalismo talvez esteja morto nos círculos intelectuais, mas está bem vivo na real politik. Não fosse assim, Goldman Sachs não comandaria literalmente, como comanda, a política econômica dos EUA. Também nessa área, Gaddafi nunca se ‘alinhou’.
Se se analisam os índices de desenvolvimento do Banco Mundial, vê-se que a Líbia não tomou empréstimos nem do Banco Mundial nem do FMI, mesmo depois de as sanções terem sido levantadas. A economia líbia é marcadamente estatal. O país tem índices de qualidade e expectativa de vida comparáveis aos mais ricos países do mundo. Nada disso é admissível.
Ainda pior: ao apoiar ativamente, inclusive com fartos recursos, os sonhos das três principais instituições panafricanas – o Fundo Monetário Africano, o Banco Africano de Investimentos e o Banco Central Africano – a Líbia trabalha ativamente contra as instituições de Bretton Woods controladas pelos países da OTAN e França. Romper o domínio que essas instituições têm sobre a África também implica enfraquecer a influência geopolítica dos países da OTAN/França sobre o continente.
E a Líbia também compete por investimentos na África. O portfólio africano da Líbia prevê cerca de 8 bilhões de dólares dirigidos para investimentos africanos nos setores de telecomunicações, turismo, algumas manufaturas e distribuição de gás e petróleo. A Líbia está reaplicando boa parte de seus fundos soberanos, tirando-os de papéis do Tesouro dos EUA e orientando-os para investimentos na África. Nada disso é admissível, dado que os EUA dependem dos petrodólares para vender as ações do Tesouro.
A guerra como meio para tirar da Líbia o capital de que o ocidente precisa
O ataque militar à Líbia já resultou em grandes transferência de capital, da Líbia para a economia dos países invasores. Diretamente, já confiscaram dinheiro do povo líbio, sob a guarda de instituições públicas líbias, que está sendo consumido na própria defesa. São gastos com equipamento militar e apoio logístico ao exército líbio. Os EUA congelaram cerca de 30 bilhões de dólares, que Ismael sugere que a Líbia estaria reservando para a construção das instituições pan-africanas acima mencionadas3. A Grã-Bretanha congelou depósitos; e teme-se que entregue aos ‘rebeldes’ o equivalente a 700 milhões de dinares líbios que estavam sendo impressos pela empresa britânica De la Rue. A guerra também tem importante efeito de estímulo fiscal na economia desses países, todos produtores de material bélico.
Antes da guerra, várias figuras da ‘oposição’ líbia discretamente transferiram para o exterior os seus fundos financeiros mal havidos, em vários casos, para paraísos fiscais controlados por empresas dos países invasores. Jamais se saberá quanto.
Mas talvez o meio mais significativo e de longo prazo, para forçar capitais para fora da Líbia, será exigir pagamento de indenizações de guerra. O custo de cada bala usada pelos ‘rebeldes’ líbios e pelos soldados da OTAN/França; o custo de cada míssil disparado de jatos ou de navios; o custo de cada avião espião que invade o espaço aéreo líbio; o custo de cada soldado mobilizado para a invasão; o custo dos agentes de inteligência e de empresas privadas contratadas serão cobrados do povo líbio, em petróleo e gás, ao longo de décadas, no futuro. E não será pouco.
Jornais britânicos especulam que, se a guerra continuar até o outono, a Grã-Bretanha gastará mais de 1 bilhão de libras. Ao final de maio, as forças armadas britânicas estimavam que tivessem feito 1.500 ataques aéreos, atacado 300 alvos e disparado, no mínimo, 20 mísseis Tomahawk, ao preço, cada um, de 1 milhão de dólares norte-americanos. Cada viagem de um jato bombardeiro Tornado, ida e volta, da base até Trípoli (cerca de 3.000 milhas), custa 300 mil dólares por voo. Um avião de transporte C17 custa 60 mil dólares por hora de voo. Os britânicos dizem que têm mais de mil soldados e agentes envolvidos na operação.
Estima-se que, até o outono, os contribuintes norte-americanos terão gasto 1 bilhão de dólares. Em março, os EUA tinham 75 aviões de combate envolvidos na operação e o Financial Times noticiou que, no primeiro dia da operação, os EUA gastaram 110 milhões de dólares. Se a guerra do Kosovo pode ser usada como parâmetro, ao final do terceiro mês de operações os EUA haviam ali gasto 2,4 bilhões de dólares. Somem-se a isso os gastos dos demais parceiros da OTAN e aliados árabes. e é possível que, ao final do mês de julho, a invasão da Líbia já tenha consumido, no mínimo, 10 bilhões de dólares. David Cameron, primeiro-ministro britânico, disse claramente, pela televisão, que, aconteça o que acontecer naquela guerra, a Líbia terá de pagar o que os britânicos consumiram ali. E também se têm de somar os custos de reconstrução e indenizações, os salários dos mercenários e o simples roubo praticado pelos escroques do governo provisório. O povo líbio foi assaltado, de fato, em dezenas de bilhões de dólares.
O que os invasores esperam ganhar no longo prazo
Deve-se lembrar que o poder da dívida não está só no volume de dinheiro que alguém deva, mas, sim, no efeito que a dívida tem nas relações de poder. Se for derrotada, a Líbia ficará escravizada aos credores, mesmo que a dívida seja resultado de invasão militar odiosa. Terá de abrir suas políticas econômicas aos interesses dos credores. Terá de abrir a eles os seus bancos, terá de importar o que eles lhe queiram vender; terá de privatizar empresas – inclusive o petróleo. Se for derrotada, a Líbia será obrigada a conformar-se e integrar-se às mesmas organizações das quais tão atentamente fugiu até hoje.
E quanto a os invasores destruírem a Líbia... quanto mais destruição, melhor! Destruído o país, começam os negócios da reconstrução. É o que mais interessa às empresas de construção dos vitoriosos, fornecedores de materiais de construção, arquitetos, engenheiros. Os depauperados bancos europeus e norte-americanos serão reenergizados pelos financiamentos massivos para reconstruir a Líbia – que aumentarão o peso com o qual terá de arcar a população líbia, mas engordarão os lucros dos bancos de investimentos e o exército de rentistas que vêm com eles – contadores, advogados e especialistas na jogatina financeira. A guerra, sobretudo contra países ricos em petróleo, sempre interessa a economias agonizantes.
Impacto no continente africano
Apresentei a invasão da Líbia como perversa e mal intencionada, bem deliberadamente. É perversa e é mal intencionada, movida por uma agenda de ganância que levou à invasão e ao ataque militar à Líbia que em nenhum momento considerou o impacto que terão sobre o povo líbio. Se a Líbia for derrotada, a invasão terá convertido os líbios, de povo orgulhoso de si, em nação de miseráveis (o que a Líbia jamais foi, apesar da ditadura de Gaddafi e de vários anos de sanções econômicas). A Líbia corre o risco de ser convertida em típica nação subsaariana: uma pequena elite rica nadando num oceano de miseráveis e desesperados, cujo orgulho terá sido ferido fundo. Não é inconcebível que se constituam ali vários grupos armados que se porão a matar-se uns os outros, até a consumação dessa loucura ‘ocidental’.
O ocidente terá reaberto chagas históricas: divisões centenárias entre clãs e tribos terão sido ampliadas, não superadas ou conciliadas. Se espalhará o ódio racial, já desencadeado ali pela imprensa ocidental que continua a falar muito sobre o apoio dos africanos negros a Gaddafi. Há risco de a Líbia ser destruída para sempre. E se se vê o que foi feito no Iraque, pode-se ter certeza de que nenhuma ‘mudança’ na Líbia foi ou será para melhor, por muitos e muitos anos.
E os efeitos mais perversos não ficarão limitados ao território líbio. Alguma coisa entre 500 mil e 1 milhão de trabalhadores de todo a região sul do Saara foram expulsos de onde viviam e trabalhavam; somam-se hoje ao oceano de desempregados que já extravasa em todas as direções. O presidente do Niger estima que haja hoje cerca de 200 mil cidadãos do Niger que trabalhavam na Líbia, desempregados. Quem pagará compensações de guerra por essas perdas?
O efeito dessas ondas de refugiados e desempregados não está em simplesmente agravar a já difícil situação de miséria em toda a África, mas também no potencial que tem para exacerbar a insegurança nessas áreas frágeis – sobretudo na região que vai da Mauritânia, pelo Niger, Mali, Chad, Sudão, Etiópia, Somália, Eritreia e Djibouti. São áreas frágeis e voláteis em vários sentidos – ecologicamente, economicamente, socialmente e, também, porque são expostos ao surgimento de conflitos armados.
A invasão da Líbia tornou ainda mais perigosa a situação nessas áreas, porque há hoje, ali, ainda mais armas de todos os tipos, circulando praticamente de mão em mão. São as armas levadas para lá e distribuídas fartamente pela OTAN/França.
E a invasão é mal intencionada, é maléfica, também, porque visa a privar a África de recursos de investimento e bloqueia o processo de criação de instituições, sem as quais o continente mais pobre não conseguirá transformar suas economias nacionais e superar a indignidade e as dores da miséria. A invasão de OTAN-EUA-França à Líbia, já praticamente converteu a União Africana, de instituição que representava toda a África, em parainstituição que só representa o sul do Saara, como a Líbia foi descrita pelos invasores – como país árabe –, caracterização que os ‘rebeldes’ parecem carregar orgulhosamente nas camisetas.
O que nos espera
Muita água já correu sob a ponte. A família Gaddafi provavelmente deixará o poder. De fato, ninguém, seja quem for, pode arrogar-se poderes sobre os recursos da terra, sem ser democraticamente eleito. Aplica-se à família Gaddafi, como se aplica também à gangue que se autodenomina “governo de transição”, sobretudo se se sabem que ali se reúnem alguns dos mais perigosos elementos do governo Gaddafi.
Isso implica que não resta qualquer via de negociação a ser tentada. Até os invasores da OTAN/França foram obrigados a reconhecê-lo, sobretudo quando se viram presos numa situação que não esperavam: não derrotaram Gaddafi.
O plano da União Africana para um acordo negociado ainda é o melhor – cessar-fogo imediato; intervenção humanitária por força externa ao conflito; governo de transição constituído de representantes dos dois lados em luta; cronograma para que se formem partidos políticos; eleições; e processo legal para investigar, identificar e punir os responsáveis. E – se posso contribuir – compromisso a ser assumido pelas forças invasoras, de não requerer reparações de guerra. Essa, precisamente, seria a via acertada a ser seguida, desde o início, se ‘o ocidente’ tivesse permitido que a estratégia proposta pelo presidente Lula do Brasil e da União Africana prosperasse.
A conclusão é que foi guerra imprudente, ensandecida. Mas minha maior tristeza, minha maior vergonha, foi ver a ONU batendo tambores de guerra, incendiando o desvario geral, em vez de conclamar à paz. Vivemos tempos muito tristes. De que outro modo se pode descrever o que foi feito contra a Líbia, senão como “loucura perversa, mal intencionada”?
[1] Sobre isso, ver “Pela porta dos fundos, Mr. Murdoch, pelase”, 22/7/2011, Geoffrey wheatcroft, The New York Review of Books Blogs, vol. 58, n. 12, em em português, em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/07/pela-porta-dos-fundos-mr-murdoch-please.html
[2] “The Economics of the Libyan War and NATO's Crisis”, Dmitry Isayev, New Eastern Outlook, 17/5/2011, em http://www.journal-neo.com/?q=node/6532
[3] “Why Regime Change in Libya?”, Ismael Hossein-Zadeh, Pambazuka, ed. 536, 23/6/2011, em http://pambazuka.org/en/category/features/74278
[4] “Understanding the war in Libya”, Economics Newspaper, em http://economicsnewspaper.com/economics/understanding-the-war-in-libya-11018.html
[5] 28/3/2011, “Remarks by the President in Address to the Nation on Libya”, na National Defense University, em http://www.whitehouse.gov/the-press-office/2011/03/28/remarks-president-address-nation-libya
Santayana critica os mitos americanos
O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana no JB:
EUA: os mitos e a História
por Mauro Santayana
Toda reconstrução histórica, por mais isento seja o pesquisador, corre o risco de se transformar em mitologia. Os heróis crescem em cada nova versão de seus feitos, geração após geração. Homero, em sua cegueira, viu os heróis míticos – já agigantados nas rapsódias de poetas anônimos e mais antigos – sob o esplendor de suas luzes interiores. Os rochedos e as correntes marinhas do estreito de Messina se transformam em monstros e sereias. Os prováveis conquistadores da pequena cidade costeira de Tróia e seus defensores se elevam à natureza de titãs.
As cores, na alma dos cegos, são muito mais intensas, e, da mesma forma, maiores os gigantes, mais rijos os heróis; a morte, quanto mais terrível, mais gloriosa. Mas os cegos não são apenas aqueles desprovidos da visão convencional. Confirmando o ditado popular, piores são os cegos que não querem ver.
Quando surgem os destruidores de mitos, nascem os construtores do homem. O mais belo dos mitos, o do Cristianismo, é, na sua essência, o não mito: é na debilidade de um homem açoitado, vaiado por seus conterrâneos, desdenhado e crucificado, que o verdadeiro cristianismo levanta seus alicerces.
Todos os povos temem confrontar-se com seus próprios mitos. E quanto mais grandiosos eles sejam, mais dramática é a tarefa de reduzi-los aos módulos humanos. Os Estados Unidos são o mais mitológico dos paises modernos, e é no embalo dessa mitologia que eles foram construindo o seu destino. Há um livro de leitura obrigatória sobre a reconstrução de seu passado, traduzido ao português, Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos, do historiador americano Ray Raphael, publicado pela Civilização Brasileira em 2004. O autor desmonta os mais fascinantes mitos da Revolução e da criação da República, da famosa marcha de Paul Revere à Declaração da Independência e aos feitos bélicos de George Washington. Paul Revere foi um dos três mensageiros que alertaram contra a movimentação dos ingleses – e não o único “cavaleiro da meia-noite” do mito; Jefferson foi apenas um dos cinco redatores da Declaração da Independência, e não seu autor solitário; as tropas rebeldes cometeram tantas atrocidades contra os civis quanto as realistas. Enfim, a mitologia dos pais fundadores surgiu de autores que reescreveram a História, décadas depois, durante o período de afirmação nacionalista e da presunção do “Destino Manifesto”, na segunda metade do século 19.
É certo que todas as nações necessitam de heróis, mas esses heróis são bem maiores quando se trata de homens comuns, com seus temores, suas fraquezas, suas incertezas. Em 1908, outro livro, de título semelhante, e citado por Ray Raphael – Mitos e fatos da Revolução Americana – mostra a raiz da distorção histórica:
“Que utilidade política pode haver em descobrir, ainda que seja verdade, que Washington não era assim tão sábio, nem Warren tão corajoso, nem Putnam tão aventuroso, nem Bunker Hill disputado heroicamente, como se tem acreditado? Chega de tanto ceticismo, dizemos; e da crítica bisbilhoteira com a qual às vezes se tenta sustenta-lo. Essas crenças, de qualquer modo, tornaram-se reais para nós quando penetraram na própria alma da nossa história e formaram o estilo de nosso pensamento nacional. Tira-las, agora, seria uma desorganização danosa da mente nacional”.
A História oficial norte-americana tem suas razões para raras vezes citar o mais inquietante de seus personagens, o jornalista inglês Tom Payne. Payne era o tipo perfeito do anti-herói: cachaceiro, utópico defensor de uma sociedade igualitária, pregador da educação para todas as crianças pobres, sonhador de uma “justiça agrária”, e autor do mais importante paper em favor da Independência, The Common Sense. Ele era, em tudo por tudo – até mesmo pelo seu autodidatismo – o contrário dos aristocratas virginianos e bostonianos que a mitologia americana cultua como os pais fundadores.
De mito em mito, os norte-americanos construíram sua civilização e, diga-se a verdade, amedrontaram grande parte do mundo. Agora, no entanto, começam a descobrir a sua própria verdade, ao mesmo tempo que vêem crescer o apelo à mitologia. A direita norte-americana recorre ao famoso episódio da revolta contra a tributação do chá – outro mito desfeito por Ray Raphael – e tenta amarrar-se à ficção histórica, com a presunção de que possa reeditar o “Destino Manifesto” de John L. Sullivan, de 1845, texto visto como justificação ideológica para a guerra de conquista contra o México, que se iniciaria no ano seguinte.
Há quem preveja nova guerra civil nos Estados Unidos, e essa profecia, que pode parecer insana, encontra alguma base na divisão nítida entre os republicanos envenenados pela mitologia do Tea Party e a população pobre que irá pagar pela avidez doentia de seus banqueiros e chefes militares.
Os tempos são novos. Não estamos mais no governo de Roosevelt e seu “new deal”. Diante da crise de 1929, que se estendeu até sua posse, o presidente valeu-se dos recursos fiscais acumulados, a fim de socorrer os trabalhadores, criando empregos para tarefas até mesmo desnecessárias, mas não dando dinheiro aos banqueiros nem aos outros especuladores no mercado de capitais, que haviam provocado o desastre. Pouco a pouco, a população se torna a cada dia mais bem informada, e não é improvável que os descontentes venham a organizar-se.
Os donos do poder nos Estados Unidos continuam insistindo nas versões “patrióticas” construídas pelos interesses das famílias no poder, mas começa a crescer a consciência da realidade. As derrotas sucessivas mostram que a invencibilidade militar ianque é outro mito, e é melhor somar-se à Humanidade do que pretender dominá-la.
quinta-feira, agosto 04, 2011
Fatos do PAC que a mídia omite (José Dirceu)
Ler os jornais depois do balanço dos seis primeiros meses do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em sua segunda versão, também conhecida por PAC 2, é um exercício interessante.
A Folha de São Paulo, por exemplo, escolheu falar na diminuição do ritmo dos investimentos. Na matéria “Execução de obras do PAC cai 10% no governo Dilma”, ressalta que uma suposta crise nos Transportes estaria prejudicando os projetos classificados como prioritários pelo governo. E cita o trem-bala, e o fracasso de seu leilão.
A tese da Folha é o PAC 2 perdeu fôlego no governo Dilma Rousseff. A própria matéria cita a ministra Miriam Belchior (Planejamento), que anunciou uma execução de R$ 86,4 bilhões entre janeiro e junho. E informa que o número seria 10,8% menor que os R$ 95,7 bilhões registrados entre maio e outubro de 2010, “ano eleitoral e, tradicionalmente, de gastos maiores”.
Crise internacional e seus reflexos no Brasil
Esse é o mesmo jornal que, em seus editoriais pede insistentemente pelo controle, quando não, por cortes, dos gastos públicos. A matéria de hoje omite um fato, no mínimo, importante, para a interpretação do cenário: a crise internacional e seus graves reflexos no Brasil, que pressionam a inflação, os juros (leia mais neste blog) e o câmbio. Em certo ponto, admite, pelas palavras da ministra Miriam Belchior (Planejamento) que “é natural que, em início de governo, haja um ritmo um pouco menor”.
No Estadão, o destaque é outro. Para o jornal, a “crise na área de transportes eclipsou os resultados apresentados ontem”. A sua matéria prefere focar nas novas regras – mais rígidas a partir de agora – nas licitações do PAC. As condições para a contratação das empreiteiras daqui para frente estarão feitas com base em projetos executivos da obra e não mais em projetos básicos. A medida é aplaudida por Paulo Godoy, presidente da Associação Brasileira de Infraestrutura e Indústria de Base, ainda que venha a atrasar em três ou quatro meses o cronograma, segundo cálculos de Maurício Muniz, secretário do PAC.
Globo dá espaço para as críticas da oposição ao PAC, que usa termos como fracasso, incapacidade e incompetência para descrever os feitos do governo. Também cita o ministro Paulo Passos (Transportes) quando afirmou que a crise política no setor teve repercussão no ritmo das obras.
O que interessa é a obra física
A imprensa, em seu balanço sobre o PAC, omite o que realmente interessa para os usuários das obras de logística e transportes. Como diz José Augusto Valente, diretor da agência T1, ao invés de olhar para a execução física da obra, mira na execução financeira (leia em Nossos Convidados). Há um intervalo natural entre a conclusão de uma parte ou de toda a obra e o seu pagamento, já que ninguém paga por serviço não executado. Na administração pública, devido à legislação existente no país, uma obra (ou parte dela) fica pronta hoje e a empresa somente receberá daqui a dois meses.
Na prática, pouco se falou já foram investidos R$ 86,4 bilhões no primeiro semestre de 2011 e que, até 2014, 74% do valor das obras serão concluídas. Ou que a lei de licitações exige só o projeto básico para a contratação das empreiteiras. As novas regras, promulgadas pelo governo para evitar aditivos nos contratos nas obras rodoviárias e ferroviárias, são resultante do zelo com que o governo quer conduzir o PAC.
O PAC 2, relativo aos projetos previstos entre 2011 e 2014, compreende investimentos próximos a um trilhão de reais. Para ser mais preciso, R$ 955 bilhões. O balanço do governo informa que até 2014 serão investidos R$ 708 bilhões, o que representa 74% do total previsto. O restante diz respeito a obras de maior duração, como a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro e a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste.
Impactos diretos no PIB
Já disse aqui que os investimentos do PAC 1 tiveram um impacto importante no PIB brasileiro, que registrou aumentos de 5% e 7%, a partir de 2007. O que possibilitou entre janeiro de 2007 e junho de 2011, a geração de 8,9 milhões empregos formais.
Agora, com o PAC 2, o desenvolvimento da infraestrutura do país segue com ritmo forte. Entre os diversos projetos, há 17 obras de aeroportos em andamento, R$ 18 bilhões investidos na mobilidade urbana de cidades com mais de 700 mil habitantes, R$ 5,2 bilhões contratados para a prevenção de desastres naturais. Também, o programa Luz para Todos já entregou 131 mil ligações neste primeiro semestre, das 813 mil ligações prometidas até 2014.
(Publicado em 30-Jul-2011, no Blog do Zé Dirceu)
Balanço do PAC: o que interessa é a execução física das obras e não o seu pagamento
Toda vez que o governo federal apresenta o balanço do PAC, a imprensa confunde o que realmente interessa para os usuários das obras de logística e transportes e o que não tem interesse algum para estes.
Já escrevi alguns artigos a esse respeito, mas é sempre bom repetir, porque o enfoque da imprensa continua o mesmo: ao invés de olhar para a execução física da obra, mira na execução financeira.
Todo mundo sabe (porque já fez alguma obra em casa) que há um intervalo natural entre a conclusão de uma parte ou de toda a obra e o seu pagamento, já que ninguém paga por serviço não executado.
Na administração pública, devido à legislação existente no país, uma obra (ou parte dela) fica pronta hoje e a empresa somente receberá daqui a dois meses.
Sempre haverá um período de diferença entre momento da realização e o momento do pagamento!
Entretanto, para o usuário interessa saber se a obra está pronta ou em andamento, pouco importando se a empresa já recebeu ou não.
Por exemplo, se a duplicação da BR-101/RJ foi entregue ao tráfego, gerando os benefícios pretendidos, o que importa se somente será paga dois ou três meses depois?
***
Como exemplo dessa confusão da imprensa, publico parte do texto de matéria do G1, sobre o balanço apresentado hoje (29/7/11)
“O primeiro balanço da segunda versão do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC 2, divulgado nesta sexta-feira (29) pelo governo, mostra que foram executados 37,5% do orçamento previsto para 2011. O investimento executado corresponde a R$ 10,3 bilhões até 30 de junho e não inclui o programa Minha Casa, Minha Vida.”
Essa informação serve para que? O que ela avalia? Nada!
Apenas constata o óbvio: pagamentos de parte de obras realizadas somente são feitos dois a três meses após a sua execução física.
José Augusto Valente - Diretor Executivo da Agência T1
COMENTÁRIO E & P
Há má vontade dos jornalões e da imprensa brasileira com o PAC porque o projeto é exitoso e transparente. Na luta política tentam descaracterizar o PAC como um projeto implantado pelo Partido dos Trabalhadores e os comentários são sempre jocosos. Não cobram o mesmo dos governos paulistas do PSDB,por exemplo, que fizeram vários Planos Plurianuais e não executaram praticamente nada. Em São Paulo não há transparência sobre execução do que o governo promete. Isso para não desmascará-lo. Também falta transparência. Os jornalões e a imprensa se calam sobre esses fatos. Deveriam é estar fazendo uma campanha para que todos os governos tantos municipais como estaduais do Brasil copiassem o modo de gestão do PAC para que pudessem ser acompanhados e cobrados pela sociedade como acontece com o programa federal. Usar o que foi pago como referência é má-fé da imprensa brasileira, principalmente ancorada com a ONG Contas Abertas de orientação de um partido de oposição ao governo federal. O que importa é o que foi executado fisicamente e não o que foi liquidado. Pegaram essa rubrica porque ela está atrasada alguns meses. A imprensa brasileira desde 1950 vem sendo a oposição aos governos trabalhistas no Brasil, inclusive ajudando a dar o golpe de estado de 1964. É uma imprensa que serve aos interesses oligárquicos de uma minoria que não quer o país se desenvolvendo com igualdade social.
quarta-feira, agosto 03, 2011
Distorções - Delfim Netto
ANTONIO DELFIM NETTO
Analistas que se pensam portadores da "verdadeira" teoria econômica fizeram duras críticas às medidas complementares que, em legítima defesa, foram anunciadas pelo ministro da Fazenda.
Ninguém discute que seu uso precisa de moderação, porque tem larga influência na economia. As críticas mais ferozes, entretanto, foram fundadas numa proposição absolutamente infundada: que a liberdade de movimento de capitais está implícita na natureza das coisas, como as "vantagens comparativas".
Por que infundada? Porque, em primeiro lugar, com relação ao comércio de bens, a teoria das vantagens comparativas é pouco mais do que uma relação aritmética engenhosa, verdadeira por definição. Em segundo lugar, porque a sua extensão ao movimento de capitais é apenas mais uma das analogias despropositadas com frequência negadas empiricamente.
Basta dizer que uma de suas conclusões é que elas fluiriam para seu uso mais produtivo, como investimento físico, para os países com maior taxa de retorno físico, maximizando, assim, a taxa de crescimento mundial! Trata-se de pura teologia com chance de tornar-se "ciência" somente num mundo habitado por anjos...
O que revela a ampla, geral e irrestrita liberdade de movimento dos capitais? Apenas que ela, devido à flutuação do comportamento dos intermediários financeiros internacionais e da sua tendência à imitação e ao comportamento de "manada", cria movimentos destrutivos de "euforia" e "depressão" que perturbam as economias que, por motivos reais ou imaginários, escolhe como "bolas da vez".
Compromete a sua política monetária e retira da taxa de câmbio o papel decisivo de "preço relativo" que mantém em equilíbrio o balanço em conta-corrente. Até o FMI reconheceu isso, surpreendido pela crise de 2007-09.
São fatos claramente confirmados pela crise asiática de 1997-98 e, agora, no Brasil e em outros emergentes. Estes tornaram-se refúgio de incansáveis e espertos capitais bucaneiros sempre à procura de maior lucro financeiro. Retorno de qualquer natureza, menos o produzido pelo efetivo investimento direto que aumenta a oferta de bens e produtos, os únicos que realmente interessam aos emergentes.
Há dois sistemas financeiros: 1) o que está a serviço do processo produtivo de bens e serviços e é indispensável para o desenvolvimento econômico e 2) o que é um fim em si mesmo, controla o poder político dos Estados nacionais e, mais dia, menos dia, interrompe o "circuito econômico".
Não deixa de ser curioso ouvir que as medidas tomadas "causam distorções". Distorções em relação a quê? Ao sistema financeiro das "inovações", que se transformou em arma de destruição em massa?
FSP – 03.08.11
ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras nesta coluna.
contatodelfimnetto@terra.com.br
Brasil Maior desonera folha de confecções, calçados, móveis e softwares
A nova política industrial brasileira – o Plano Brasil Maior, lançado nesta terça-feira (2/8) pela presidenta Dilma Rousseff – reduz a zero a alíquota de 20% para o INSS de setores sensíveis ao câmbio e à concorrência internacional e intensivos em mão de obra, como confecções, calçados, móveis e softwares. Em contrapartida, será cobrada uma contribuição sobre o faturamento com alíquota a partir de 1,5% de acordo com o setor.
O plano garante que o Tesouro Nacional arcará com a diferença para cobrir a eventual perda de arrecadação da Previdência Social. A medida funcionará como um projeto piloto até dezembro de 2012 e seu impacto será acompanhado por uma comissão tripartite, formada por governo, setor produtivo e sociedade civil.
“Esse plano tem uma principal característica, que é a de ser um plano corajoso, um plano ousado, um plano audaz, que não fugiu ao desafio imposto pelo cenário internacional (…). Vamos defender nosso mercado interno”, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.
Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou que as medidas são uma resposta “à concorrência predatória” imposta pelos países desenvolvidos frente à crise econômica internacional. Na opinião dele, a atual conjuntura financeira mundial prejudica em especial o setor manufatureiro, que “busca mercados a qualquer custo”.
“Vamos tomar conjunto de medidas para dar mais condições de competitividade à indústria brasileira”, afirmou.
Além da desoneração da folha, o Brasil Maior prevê uma série de ações iniciais que vão desde a desoneração das exportações, com a criação do Reintegra, até a regulamentação da Lei de Compras Governamentais, passando pelo fortalecimento da defesa comercial e pela criação de regimes especiais setoriais, com redução de impostos.
Devolução em dinheiro
Criado por medida provisória, o Reintegra (Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras) irá devolver ao exportador de bens industrializados 0,5% da receita da exportação, nos mesmos moldes da restituição do Imposto de Renda. Por meio de decreto presidencial, a presidenta da República poderá elevar esse percentual para até 4%. O valor em espécie será depositado na conta do exportador, mas quem desejar também poderá usar os recursos para quitar débitos existentes junto à Receita Federal.
O PiG (*) é contra o PIB
Se o Hamilton fosse urubólogo os EUA seriam sempre colonia inglesa
Por setenta segundos, a urubóloga destruiu o plano Brasil Maior, ou PIB, Plano de Inovação do Brasil.
Esse fenômeno de fulminante efeito ocorreu na transmissão do programa Bom (?) Dia Brasil, da Rede Globo, aquela que fez de Ricardo Teixeira o seu Murdoch.
Observe-se que, diante da inelutável batalha pela audiência, o Bom (?) Dia passou a restringir o espaço destinado à urubologa.
Como se diz no jargão da televisão, ela “derruba” a audiência enquanto derruba o Brasil.
Onde foi que a Globo – porque são essências idênticas – destruiu o Brasil Maior.
Qual é o cerne da “destruição” ?
É a manchete do Globo: “Governo vai gastar até 25% mais para proteger a indústria”.
Ou, como diz o economista José Márcio Camargo, frequentemente citado pela urubóloga e que aparece no Valor, na pág. A6:
“ … elevar a 25% o ágio que o Governo pagará ao produto nacional em suas licitações … tem forte conteúdo inflacionário, porque reduz ainda mais a taxa de desemprego (?)”.
Ou como disse a urubóloga no Bom (?) Dia: os empresários vão elevar o preço em 25% para vender ao Governo.
O que pressupõe duas hipóteses:
1) como diz o em breve ex-ministro Johnbim, que já respira por aparelhos, o Governo é composto por um conjunto de “idiotas”, que não vai fazer concorrência e se deixará ludibriar pelo mais esperto;
2) que não há concorrência – que todos os fornecedores do Governo são monopolistas e vão aumentar os preços em 25% sem que nada aconteça no mercado à sua volta.
O problema da crítica do PiG (*) ao PIB vem lá de trás, quando o candidato à Presidência Luis Inácio Lula da Silva foi ao Rio e disse que, se eleito, ia rasgar a compra de petroleiros da Petrobrás na Ásia.
O sombrio Governo do Farol de Alexandria rezava pela cartilha da urubóloga e por meia dúzia de percentuais comprava petroleiros na Ásia – e assim destruiu a indústria naval brasileira.
Oito anos e meio depois, é um horror !
Clique aqui para ler: só o programa de contratações da Petrobrás prevê a construção de 46 navios e a contratação de 75 mil trabalhadores até 2014.
Este ansioso blogueiro aconselharia o redator da manchete do Globo, acompanhado da urubóloga e do José Marcio a dar um pulinho a Suape, onde se construiu o primeiro petroleiro, o João Cândido, o Almirante Negro, depois que o Nunca Dantes ressuscitou a indústria da construção naval brasileira.
No vôo até Recife, recomenda a leitura do “Relatório sobre Manufaturas” de um certo Alexander Hamilton, que fundou a indústria (e a economia moderna) dos Estados Unidos.
É melhor do que ler O Globo.
Paulo Henrique Amorim
(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.
terça-feira, agosto 02, 2011
PT foi investigado até 99, mostram documentos da Polícia Civil
Lula durante campanha em 1998; PT foi alvo de arapongagem
Departamento de Comunicação Social da polícia manteve dossiê sobre PT até 1999, quando órgão foi extinto
Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 02/08/2011
PT foi investigado até 99, mostram documentos da Polícia CivilDepartamento de Comunicação Social da polícia manteve dossiê sobre PT até 1999, quando órgão foi extinto
PT foi investigado até 99, mostram documentos da Polícia CivilDepartamento de Comunicação Social da polícia manteve dossiê sobre PT até 1999, quando órgão foi extinto Seu nome* Seu e-mail* Mensagem
* campos obrigatórios
A Polícia Civil de São Paulo espionou clandestinamente o PT durante todo o primeiro mandato do tucano Mário Covas no governo do Estado. Segundo documentos secretos disponibilizados pelo Arquivo Público do Estado e obtidos pelo iG, o Departamento de Comunicação Social da polícia manteve um dossiê sobre o PT até 1999, quando foi extinto por ordem de Covas.
A maior parte dos documentos arquivados no dossiê 079 (PT) são recortes de jornais ou transcrições de reportagens do rádio ou TV, preferencialmente sobre disputas internas, crises, proximidade com movimentos populares radicais e denúncias de corrupção envolvendo petistas. O ex-ministro da casa Civil, Antonio Palocci, é objeto de um dossiê específico com número 305. Na época Palocci, então prefeito de Ribeirão Preto, era visto como uma liderança ascendente no partido.
O DCS produziu dossiês sobre praticamente todos os partidos políticos a partir de 1983. Mas referências ao PSDB, PFL (hoje DEM) e PPS acabam em 1995, quando Covas tomou posse, enquanto a pasta do PT continuou sendo alimentada até a extinção do departamento, em 1999.
Além dos recortes, o dossiê 079 mostra que a polícia tucana produzia informação própria e chegou a infiltrar agentes em eventos ligados ao PT. De acordo com os documentos, a espionagem era acompanhada pela Secretaria de Segurança Pública.
O relatório 049/98, endereçado ao então secretário-adjunto de Segurança, Luiz Antonio Alves de Souza, relata uma assembléia do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sindisaúde) realizada na sede do Sindicato dos Químicos, no bairro da Liberdade, no dia 16 de setembro de 1998, menos de um mês antes do primeiro turno das eleições daquele ano, quando Covas e o então presidente Fernando Henrique Cardoso tentavam a reeleição.
Lula anuncia apoio do PT ao candidato Mário Covas ao governo de São Paulo, em novembro de 94. Geraldo Alckmin aparece atrás
Na época, Covas aparecia em terceiro lugar nas pesquisas de opinião, atrás de Francisco Rossi e Paulo Maluf e pouco à frente da petista Marta Suplicy. Havia risco de o governador ficar fora do segundo turno e os sindicatos de servidores estaduais ligados à CUT e ao PT preparavam para o dia seguinte uma grande manifestação contra o governo tucano em frente ao Palácio dos Bandeirantes.
Um agente infiltrado que assina como “Gama 42” acompanhou a assembléia e fez um relatório de três páginas com destaque para a mobilização rumo o ato no Palácio dos Bandeirantes e à movimentação eleitoral dos sindicalistas.
“Sônia Takeda (dirigente do Sindisaúde) apresentou resultado de uma prévia que foi feita no local onde, de 149 votos, 133 foram dados ao Lula, um ao Enéas (Carneiro, candidato a presidente pelo Prona) e alguns brancos e nulos: repetindo-se o mesmo para o Senado, onde Suplicy teve 141 votos, um para João Leite e outro para Oscar e, para Marta Suplicy, foram dados 143 votos e um para o Rossi”, diz o documento.
No final, Covas foi para o segundo turno contra Maluf com apenas cinco mil votos a mais do que Marta, acabou reeleito mas morreu em 2001, deixando o governo nas mãos do vice, Geraldo Alckmin (PSDB), atual governador do Estado.
Embora seja citado nominalmente como destinatário do relatório, o ex-secretário adjunto de Segurança Luiz Antonio Alves de Souza negou ter tomado conhecimento da ação policial na assembléia do Sindisaúde. “Mandamos monitorar uma greve de motoristas de ônibus em 1998 porque existia risco de depredação das garagens e piquetes para impedir que os ônibus fossem para as ruas. Não autorizei nem soube de nada no Sindisaúde”, disse ele.
O ex-secretário adjunto atribuiu a responsabilidade pela arapongagem a delegados e policiais que agiam à revelia da secretaria, com objetivo de desestabilizar o governo e beneficiar Maluf. “Infelizmente a polícia tinha muita gente remanescente da época do Erasmo Dias (secretário de Segurança no governo Maluf). Era véspera de eleição. Eles faziam essas coisas para prejudicar o Covas. Existia o risco de ele ficar fora do segundo turno. Esse pessoal preferia o Maluf”, afirmou Souza.
52 mil páginas registram espionagem da Polícia Civil de SP
Até 1999, central de arapongagem espionou partidos, autoridades nacionais, políticos, movimentos sociais, igrejas e sindicatos
Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 02/08/2011
52 mil páginas registram espionagem da Polícia Civil de SPAté 1999, central de arapongagem espionou partidos, autoridades nacionais, políticos, movimentos sociais, igrejas e sindicatos
A Polícia Civil de São Paulo espionou clandestinamente partidos, líderes políticos, autoridades estaduais e nacionais, movimentos sociais, igrejas e sindicatos até 1999, quase 15 anos depois do fim da ditadura militar (1964-1985). A existência de uma central de arapongagem política em pleno período democrático está registrada em mais de 50 mil documentos disponibilizados pelo Arquivo Público do Estado aos quais o iG teve acesso.
Segundo os documentos, o Departamento de Comunicação Social da Polícia Civil (DCS), criado em 1983 pelo governador Franco Montoro e extinto em 1999 no segundo mandato de Mário Covas, infiltrava agentes em assembléias sindicais e reuniões partidárias, fotografava e documentava atos políticos e acompanhava de perto as principais lideranças e entidades sem que houvesse qualquer indício de crime que justificasse a ação policial.
Entre os investigados estão os ex-presidentes Tancredo Neves, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, nomes importantes da política nacional nas últimas décadas como Ulysses Guimarães, Mário Covas, José Dirceu, Antonio Palocci, Paulo Maluf, Leonel Brizola, Miguel Arraes e José Serra, além de personalidades do mundo artístico, religioso e esportivo que participaram da luta pela redemocratização, como Chico Buarque de Holanda, Fafá de Belém, Maytê Proença, Martinho da Vila, Ligia Fagundes Telles, Renata Sorrah, Bruna Lombardi, Dom Paulo Evaristo Arns, Edir Macedo e os ex-jogadores Sócrates e Casagrande.
Forças Armadas mantiveram espionagem até 91
Com Collor, Forças Armadas mantiveram espionagem política até 91
Senador e ex-presidente é um dos maiores opositores à abertura dos arquivos secretos do governo; ele defende o sigilo eterno
Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 02/08/2011
Documentos confidenciais disponibilizados recentemente pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo mostram que as Forças Armadas mantiveram um esquema de espionagem política até 1991, quando o presidente era Fernando Collor de Mello. Atualmente Collor é senador pelo PTB-AL e um dos maiores opositores à abertura dos arquivos secretos do governo.
Entenda a polêmica do sigilo eterno de documentos
Os papéis encontrados no extinto Departamento de Comunicação Social (DCS) da Polícia Civil de São Paulo mostram que Exército, Marinha e Aeronáutica compartilhavam relatórios de teor exclusivamente político entre si e com órgãos estaduais de segurança como as polícias Militar e Civil, além da Polícia Federal. Entre os investigados estavam partidos de oposição, sindicatos, movimentos sociais e militantes de esquerda. Os documentos sugerem que as Forças Armadas infiltravam agentes em assembleias de trabalhadores, reuniões partidárias, atos com conotação esquerdista e até instituições como a Câmara Municipal de São Paulo.
As incursões clandestinas viravam relatórios, todos com carimbo “confidencial”, que eram distribuídos em uma espécie de rede de informações que incluía setores das Forças Armadas como o Centro de Inteligência do Exército (CIE), 11ª Brigada de Infantaria Blindada, 12ª Brigada de Infantaria Motorizada, 2ª Brigada de Artilharia, 4º Comando Aéreo Regional (4º Comar), Comando Militar Sudoeste (CMSE), Superintendência Regional da Polícia Federal, Polícia Militar do Estado de São Paulo e o DCS da Polícia Civil, entre outros.
Em uma rápida pesquisa nos arquivos do DCS, o iG encontrou seis documentos com timbre das Forças Armadas. Dois deles dizem respeito ao PC do B, um ciclo de debates sobre “Problemas do Socialismo e Situação Mundial” e a participação da Corrente Sindical Classista, braço sindical do partido, no 4º Congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
O terceiro documento relata a realização de encontros zonais e municipais do PT preparatórios ao 1º Congresso Nacional do partido.
O quarto documento relata uma sessão solene da Câmara Municipal de São Paulo em “Homenagem à Amizade Entre os Povos Brasileiro e Cubano e Pelo Fim do Bloqueio Econômico a Cuba”, no dia 27 de setembro de 1991.
O quinto documento reproduz um suplemento do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos da CUT e cita nomes de dirigentes como os de Osvaldo Bargas e Jorge Lorenzetti que, 15 anos depois, protagonizariam o escândalo dos aloprados.
O sexto papel é um relatório sobre a decisão da CUT de apoiar a Contag e, assim, passar a influenciar três mil sindicatos rurais e 22 federações.
Todos os papéis têm conteúdo exclusivamente político. Nenhum relatório registra ameaças de violência, desobediência civil ou qualquer outro fato que justifique a ação dos militares.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o senado Fernando Collor disse que desconhecia as atividades.
O iG procurou a assessoria de imprensa do Exército que, depois de saber o teor da reportagem disse que a resposta caberia ao Ministério da Defesa pois os fatos envolvem as três forças. O ministério foi procurado por telefone. Assessores do ministro Nelson Jobim pediram que as questões fossem encaminhadas por e-mail. O iG encaminhou a mensagem, mas não recebeu resposta.
Momentos históricos como Diretas e eleição de Tancredo foram investigados pela polícia
Departamento de Comunicação Social da polícia manteve dossiê sobre PT até 1999, quando órgão foi extinto
Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 02/08/2011
PT foi investigado até 99, mostram documentos da Polícia CivilDepartamento de Comunicação Social da polícia manteve dossiê sobre PT até 1999, quando órgão foi extinto
PT foi investigado até 99, mostram documentos da Polícia CivilDepartamento de Comunicação Social da polícia manteve dossiê sobre PT até 1999, quando órgão foi extinto Seu nome* Seu e-mail* Mensagem
* campos obrigatórios
A Polícia Civil de São Paulo espionou clandestinamente o PT durante todo o primeiro mandato do tucano Mário Covas no governo do Estado. Segundo documentos secretos disponibilizados pelo Arquivo Público do Estado e obtidos pelo iG, o Departamento de Comunicação Social da polícia manteve um dossiê sobre o PT até 1999, quando foi extinto por ordem de Covas.
A maior parte dos documentos arquivados no dossiê 079 (PT) são recortes de jornais ou transcrições de reportagens do rádio ou TV, preferencialmente sobre disputas internas, crises, proximidade com movimentos populares radicais e denúncias de corrupção envolvendo petistas. O ex-ministro da casa Civil, Antonio Palocci, é objeto de um dossiê específico com número 305. Na época Palocci, então prefeito de Ribeirão Preto, era visto como uma liderança ascendente no partido.
O DCS produziu dossiês sobre praticamente todos os partidos políticos a partir de 1983. Mas referências ao PSDB, PFL (hoje DEM) e PPS acabam em 1995, quando Covas tomou posse, enquanto a pasta do PT continuou sendo alimentada até a extinção do departamento, em 1999.
Além dos recortes, o dossiê 079 mostra que a polícia tucana produzia informação própria e chegou a infiltrar agentes em eventos ligados ao PT. De acordo com os documentos, a espionagem era acompanhada pela Secretaria de Segurança Pública.
O relatório 049/98, endereçado ao então secretário-adjunto de Segurança, Luiz Antonio Alves de Souza, relata uma assembléia do Sindicato dos Trabalhadores da Saúde (Sindisaúde) realizada na sede do Sindicato dos Químicos, no bairro da Liberdade, no dia 16 de setembro de 1998, menos de um mês antes do primeiro turno das eleições daquele ano, quando Covas e o então presidente Fernando Henrique Cardoso tentavam a reeleição.
Lula anuncia apoio do PT ao candidato Mário Covas ao governo de São Paulo, em novembro de 94. Geraldo Alckmin aparece atrás
Na época, Covas aparecia em terceiro lugar nas pesquisas de opinião, atrás de Francisco Rossi e Paulo Maluf e pouco à frente da petista Marta Suplicy. Havia risco de o governador ficar fora do segundo turno e os sindicatos de servidores estaduais ligados à CUT e ao PT preparavam para o dia seguinte uma grande manifestação contra o governo tucano em frente ao Palácio dos Bandeirantes.
Um agente infiltrado que assina como “Gama 42” acompanhou a assembléia e fez um relatório de três páginas com destaque para a mobilização rumo o ato no Palácio dos Bandeirantes e à movimentação eleitoral dos sindicalistas.
“Sônia Takeda (dirigente do Sindisaúde) apresentou resultado de uma prévia que foi feita no local onde, de 149 votos, 133 foram dados ao Lula, um ao Enéas (Carneiro, candidato a presidente pelo Prona) e alguns brancos e nulos: repetindo-se o mesmo para o Senado, onde Suplicy teve 141 votos, um para João Leite e outro para Oscar e, para Marta Suplicy, foram dados 143 votos e um para o Rossi”, diz o documento.
No final, Covas foi para o segundo turno contra Maluf com apenas cinco mil votos a mais do que Marta, acabou reeleito mas morreu em 2001, deixando o governo nas mãos do vice, Geraldo Alckmin (PSDB), atual governador do Estado.
Embora seja citado nominalmente como destinatário do relatório, o ex-secretário adjunto de Segurança Luiz Antonio Alves de Souza negou ter tomado conhecimento da ação policial na assembléia do Sindisaúde. “Mandamos monitorar uma greve de motoristas de ônibus em 1998 porque existia risco de depredação das garagens e piquetes para impedir que os ônibus fossem para as ruas. Não autorizei nem soube de nada no Sindisaúde”, disse ele.
O ex-secretário adjunto atribuiu a responsabilidade pela arapongagem a delegados e policiais que agiam à revelia da secretaria, com objetivo de desestabilizar o governo e beneficiar Maluf. “Infelizmente a polícia tinha muita gente remanescente da época do Erasmo Dias (secretário de Segurança no governo Maluf). Era véspera de eleição. Eles faziam essas coisas para prejudicar o Covas. Existia o risco de ele ficar fora do segundo turno. Esse pessoal preferia o Maluf”, afirmou Souza.
52 mil páginas registram espionagem da Polícia Civil de SP
Até 1999, central de arapongagem espionou partidos, autoridades nacionais, políticos, movimentos sociais, igrejas e sindicatos
Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 02/08/2011
52 mil páginas registram espionagem da Polícia Civil de SPAté 1999, central de arapongagem espionou partidos, autoridades nacionais, políticos, movimentos sociais, igrejas e sindicatos
A Polícia Civil de São Paulo espionou clandestinamente partidos, líderes políticos, autoridades estaduais e nacionais, movimentos sociais, igrejas e sindicatos até 1999, quase 15 anos depois do fim da ditadura militar (1964-1985). A existência de uma central de arapongagem política em pleno período democrático está registrada em mais de 50 mil documentos disponibilizados pelo Arquivo Público do Estado aos quais o iG teve acesso.
Segundo os documentos, o Departamento de Comunicação Social da Polícia Civil (DCS), criado em 1983 pelo governador Franco Montoro e extinto em 1999 no segundo mandato de Mário Covas, infiltrava agentes em assembléias sindicais e reuniões partidárias, fotografava e documentava atos políticos e acompanhava de perto as principais lideranças e entidades sem que houvesse qualquer indício de crime que justificasse a ação policial.
Entre os investigados estão os ex-presidentes Tancredo Neves, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, nomes importantes da política nacional nas últimas décadas como Ulysses Guimarães, Mário Covas, José Dirceu, Antonio Palocci, Paulo Maluf, Leonel Brizola, Miguel Arraes e José Serra, além de personalidades do mundo artístico, religioso e esportivo que participaram da luta pela redemocratização, como Chico Buarque de Holanda, Fafá de Belém, Maytê Proença, Martinho da Vila, Ligia Fagundes Telles, Renata Sorrah, Bruna Lombardi, Dom Paulo Evaristo Arns, Edir Macedo e os ex-jogadores Sócrates e Casagrande.
Forças Armadas mantiveram espionagem até 91
Com Collor, Forças Armadas mantiveram espionagem política até 91
Senador e ex-presidente é um dos maiores opositores à abertura dos arquivos secretos do governo; ele defende o sigilo eterno
Ricardo Galhardo, iG São Paulo | 02/08/2011
Documentos confidenciais disponibilizados recentemente pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo mostram que as Forças Armadas mantiveram um esquema de espionagem política até 1991, quando o presidente era Fernando Collor de Mello. Atualmente Collor é senador pelo PTB-AL e um dos maiores opositores à abertura dos arquivos secretos do governo.
Entenda a polêmica do sigilo eterno de documentos
Os papéis encontrados no extinto Departamento de Comunicação Social (DCS) da Polícia Civil de São Paulo mostram que Exército, Marinha e Aeronáutica compartilhavam relatórios de teor exclusivamente político entre si e com órgãos estaduais de segurança como as polícias Militar e Civil, além da Polícia Federal. Entre os investigados estavam partidos de oposição, sindicatos, movimentos sociais e militantes de esquerda. Os documentos sugerem que as Forças Armadas infiltravam agentes em assembleias de trabalhadores, reuniões partidárias, atos com conotação esquerdista e até instituições como a Câmara Municipal de São Paulo.
As incursões clandestinas viravam relatórios, todos com carimbo “confidencial”, que eram distribuídos em uma espécie de rede de informações que incluía setores das Forças Armadas como o Centro de Inteligência do Exército (CIE), 11ª Brigada de Infantaria Blindada, 12ª Brigada de Infantaria Motorizada, 2ª Brigada de Artilharia, 4º Comando Aéreo Regional (4º Comar), Comando Militar Sudoeste (CMSE), Superintendência Regional da Polícia Federal, Polícia Militar do Estado de São Paulo e o DCS da Polícia Civil, entre outros.
Em uma rápida pesquisa nos arquivos do DCS, o iG encontrou seis documentos com timbre das Forças Armadas. Dois deles dizem respeito ao PC do B, um ciclo de debates sobre “Problemas do Socialismo e Situação Mundial” e a participação da Corrente Sindical Classista, braço sindical do partido, no 4º Congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
O terceiro documento relata a realização de encontros zonais e municipais do PT preparatórios ao 1º Congresso Nacional do partido.
O quarto documento relata uma sessão solene da Câmara Municipal de São Paulo em “Homenagem à Amizade Entre os Povos Brasileiro e Cubano e Pelo Fim do Bloqueio Econômico a Cuba”, no dia 27 de setembro de 1991.
O quinto documento reproduz um suplemento do Departamento de Estudos Sócio-Econômicos e Políticos da CUT e cita nomes de dirigentes como os de Osvaldo Bargas e Jorge Lorenzetti que, 15 anos depois, protagonizariam o escândalo dos aloprados.
O sexto papel é um relatório sobre a decisão da CUT de apoiar a Contag e, assim, passar a influenciar três mil sindicatos rurais e 22 federações.
Todos os papéis têm conteúdo exclusivamente político. Nenhum relatório registra ameaças de violência, desobediência civil ou qualquer outro fato que justifique a ação dos militares.
Por meio de sua assessoria de imprensa, o senado Fernando Collor disse que desconhecia as atividades.
O iG procurou a assessoria de imprensa do Exército que, depois de saber o teor da reportagem disse que a resposta caberia ao Ministério da Defesa pois os fatos envolvem as três forças. O ministério foi procurado por telefone. Assessores do ministro Nelson Jobim pediram que as questões fossem encaminhadas por e-mail. O iG encaminhou a mensagem, mas não recebeu resposta.
Momentos históricos como Diretas e eleição de Tancredo foram investigados pela polícia
Assinar:
Postagens (Atom)











