O objetivo deste blog é discutir um projeto de desenvolvimento nacional para o Brasil. Esse projeto não brotará naturalmente das forças de mercado e sim de um engajamento político que direcionará os recursos do país na criação de uma nação soberana, desenvolvida e com justiça social.
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terça-feira, novembro 20, 2012
SANTAYANA: A ESPANHA, A LISONJA E A CAUTELA
Receber espanhóis, mas com reciprocidade.
O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana, extraído do JB online:
O BRASIL E A ESPANHA, A LISONJA E A CAUTELA
por Mauro Santayana
A visita de Estado que a Presidente da República faz à Espanha, coincidindo com a Reunião Ibero Americana de Cádiz, reclama algumas reflexões. A primeira delas leva à necessária cautela diante da lisonja. É natural que os povos, como os indivíduos, sintam-se felizes, quando lisonjeados. Os indivíduos sábios, como os povos sábios, aceitam o respeito dos outros, mas desconfiam da lisonja. É como devemos nos comportar com os elogios do governo, das elites econômicas e de parte da imprensa espanhola, nestas horas.
De início, entendamos que a crise mundial, que afeta particularmente os países meridionais da Europa, é mais do que uma questão econômica. Ela está no núcleo da razão ocidental, e na incapacidade de as estruturas políticas conduzirem o processo do conhecimento científico, que introduziu novos módulos de convívio entre as pessoas e os povos, principalmente mediante os meios instantâneos de comunicação. O problema crucial do homem continua sendo o da desigualdade no usufruto da vida, e a ciência e a tecnologia, longe de resolvê-lo, têm agravado.
O bom momento por que estamos passando, no Brasil, pensando bem, não é tão bom assim, nem garantido: os horizontes do mundo são movediços, movediças as placas tectônicas, movediça a crosta flamejante do sol – que nos manda seus recados de perigo com as frequentes e intensas erupções – e, mais movediça ainda, a alma dos homens. Essa constatação nos inibe o exercício da soberba, ao mesmo tempo em que convoca a razão humanística da solidariedade. Há, no entanto, que se preservar a auto-estima. Aos que nos lisonjeiam, pensando que nos engambelam, devemos deixar claro que não somos parvos, e entendemos bem os seus interesses, da mesma forma que preservamos os nossos.
É assim que vemos a presença da Presidente Dilma Rousseff em Cádiz – que salvou, in extremis, o encontro, segundo a publicação El Confidencial de Madri. Mas é necessário deixar claro que ali não fomos em busca de nada, porque a Espanha nada nos pode oferecer, neste momento, senão suas mãos vazias, em busca de algum apoio, quando as suas ruas se enchem de desempregados e de famílias despejadas pela voracidade dos bancos credores. Feito esse reparo, voltamos à necessidade de que nos comportemos, nesta quadra, sem descabidos orgulhos, mas tampouco sem sinais de que nos curvamos a uma superioridade que os espanhóis insistem em proclamar. Somos solidários, sim, com o povo ibérico, mas nada nos obriga a ser solidários com o Santander, a Telefónica, a Iberdrola, que nos exploram, nem com uma monarquia que começa a divertir, com seus escândalos e gafes, o jet-set internacional.
A imprensa espanhola – a partir de El Pais, que se encontra em duras dificuldades financeiras – procura dar a versão de que fomos a Madri em busca de investimentos. A verdade, no entanto, é que a Espanha nunca teve dinheiro para investir no Brasil, nem mesmo os 90 bilhões de dólares que apregoa, porque todo o dinheiro que eventualmente trouxe, tomou emprestado de terceiros, e faz parte dos 3 trilhões de euros que o país e suas empresas estão do, e que seu povo terá que pagar a partir de agora.
A pretensa competência espanhola na condução de sua economia, ou de seus líderes empresariais na direção de seus negócios, é um mito que a realidade está demolindo. O país só conseguiu sair do atraso e do obscurantismo a que esteve relegado durante a maior parte do século XX, sob a peste do franquismo, porque recebeu bilhões de euros de recursos da União Européia, a fundo perdido, e fez empréstimos ainda maiores, aproveitando os juros historicamente baixos, durante os primeiros anos do euro. Uma fortuna imensa, muito acima da capacidade de produção do país, ou da renda real de sua população, que a Espanha não soube utilizar para forjar economia competitiva e sólida, mediante o desenvolvimento industrial interno e autônomo.
Investiu-se muito em obras de infraestrutura, muitas delas, hoje sub-utilizadas; os bancos usaram os recursos fartos na especulação imobiliária. E se aplicou, mais do que seria conveniente, no setor de serviços, como no mercado financeiro e nas telecomunicações. Aqui, no Brasil, há quem pense que a Telefónica é uma empresa de classe mundial, quando o grupo deve mais de 100 bilhões de dólares, dívida impagável, principalmente se considerarmos a situação de crise que a Europa e os Estados Unidos esperam nos próximos anos.
Da mesma forma, muita gente acredita que o Santander do Sr. Emilio Botin é uma potência, quando na verdade teve uma queda de 60% do lucro na matriz este ano, e perdeu quase 50% do seu valor de mercado no Brasil, desde 2009. Mal administradas, com o valor e o lucro em queda, que futuro as empresas espanholas esperam na América Latina? A nacionalização por capitais locais, com ou sem ajuda do governo, ou a transferência de seus ativos e contratos para empresas chinesas, que contam com real capacidade para investir, com o apoio do país que detêm as maiores reservas internacionais e é o maior credor dos Estados Unidos no mundo.
Esse foi o caso, por exemplo, da Repsol espanhola, que passou a metade do seu negócio no Brasil para a Sinopec, chinesa.
Mas, em vez de deixar que as coisas se desenrolem normalmente, o Governo Federal vem financiando, direta e indiretamente as multinacionais espanholas no Brasil, enquanto elas continuam, a enviar bilhões de dólares em remessa de lucros para as suas matrizes todos os anos.
Em setembro de 2011, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais eximiu o Santander de pagar cerca de 4 bilhões de reais em impostos. No mesmo ano, a Vivo, leia-se Telefónica, que tem entre seus “conselheiros”, o genro do rei da Espanha – um ex-jogador de handebol, agora processado por corrupção em seu país – obteve, de uma só vez, 3 bilhões de reais em empréstimos do BNDES para “expansão de infraestrutura”. O BNDES tem financiado a instalação e expansão de empresas espanholas em outras áreas, como as de transmissão de energia e geração eólica.
Outro mito que se propagou no Brasil, durante a tragédia neoliberal dos anos 90, é o da excelência técnica da engenharia espanhola, e dos técnicos espanhóis de modo geral. A imprensa espanhola não se cansa de dizer que precisamos de suas construtoras para reformar estádios de futebol e as instalações para as Olimpíadas, e para a construção de estradas. É risível. Como se não tivéssemos nós, brasileiros, construído Brasília, a cidade que surpreendeu o mundo por seu projeto urbanístico e arquitetônico; pontes como a Rio-Niterói, estradas como a Transmauritaniana, em pleno Saara, aproveitando conchas encontradas na areia para fazer cimento, ou Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo, com uso de uma linha de resfriamento contínuo de concreto, quando a Espanha, ainda na agonia do franquismo, nem mesmo sequer dispunha de uma rodovia duplicada. O mesmo erro se comete com relação às universidades. A possibilidade de, talvez, a média das universidades espanholas ser de boa qualidade, e de estarmos enviando estudantes pra lá, não nega o fato de, no ranking das melhores universidades do mundo, a USP estar à frente de qualquer universidade ibérica (segundo a The Times Higher Education World University Rankings, 2012/2013).
Ora, se a Espanha não tem capitais próprios para investir no Brasil, nem excelência em engenharia de grandes obras, qual a vantagem de continuar estreitando os laços com as elites espanholas e os seus representantes?
A Presidente salvou a cúpula de Cádiz do malogro, mas o Brasil, como nação e seus interesses continentais, foi golpeado, com uma conferência, dentro do evento, patrocinada pela Espanha, da Aliança do Pacífico, organização fomentada pelo México com a intenção de a fim de “rachar” a América do Sul, e que reúne a Colômbia, o Chile e o Peru, na tentativa de contrapor-se ao Mercosul, à UNASUL e ao Conselho de Defesa Sul-americano. Aproveitando a presença de Dilma, a imprensa espanhola voltou a anunciar, como faz regularmente, que o Brasil estaria mudando a legislação para permitir a entrada de trabalhadores espanhóis em nosso país.
Em respeito aos milhares de brasileiros expulsos da Espanha nos últimos anos, seria conveniente que nenhuma medida nesse sentido fosse tomada sem o critério de reciprocidade, de forma que se os cidadãos brasileiros quisessem – embora, nesse momento, seja improvável – pudessem usar do mesmo direito, o de entrar na Espanha e ali trabalhar, a qualquer momento.
Uma última observação: o governo espanhol anunciou ontem que pretende dar visto de residência automática aos nacionais de certos paises que ali adquirirem moradias (da qual estão sendo despejadas as famílias espanholas) pelo valor mínimo de 400.000 reais. A medida não favorece os espanhóis, mas, sim, reduz o buraco em que se meteram os bancos. Ora, como um país que se encontra nesta situação, se apresenta como “investidor” nas grandes obras brasileiras?
Ao aceitar tais “investimentos” o Brasil poderá estar salvando as elites empresariais claudicantes da Espanha, mas não estará ajudando seu povo, nem o nosso. E há mais, quando lhe perguntaram quem seriam os compradores dos imóveis, o funcionário citou russos e chineses, pertencentes ao BRICS. O Brasil é parte dos BRICS. Ao que parece, os brasileiros, mesmo com dinheiro, continuam sendo indesejáveis ali.
sexta-feira, julho 20, 2012
Santayana: reis inúteis e seus vassalos
Do Conversa Afiada
Estar com o povo espanhol é não favorecer aqueles que o oprimem.
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Saiu no JB Online:
De reis inúteis e de seus vassalos
Mauro Santayana
Um dos mais ácidos panfletos da História, contra a monarquia, é o livro de Étienne de la Boétie, Discours de la Servitude Volontaire. É texto de um adolescente prodígio, que o redigiu antes dos 18 anos, conforme seu amigo maior, e a quem o autor confiou os originais, Michel de Montaigne. Étienne morreu aos 33 anos, e Montaigne não se atreveu a publicar o texto famoso, que ficou conhecido anos depois de sua própria morte. Redigido no século 16, só no século 17 o livro passou a ser editado e a ser lido, assim mesmo com muitas cautelas.
La Boétie, no fabuloso talento prematuro, em que se misturam, ao mesmo tempo, certa ousadia que só a boa fé juvenil autoriza, e fantástica erudição clássica, pergunta-se por que os homens se submetem à vontade de um só, sem que nada, nem na natureza, nem na razão, determine essa submissão.
A monarquia de hoje não é a mesma daqueles séculos, em que os reis, não todos, mas muitos deles, comandavam seus exércitos e corriam todos os riscos nas batalhas, como, entre outros soberanos franceses, fizeram Francisco I e Henrique IV. As famílias reais de nosso tempo estão mais para a comédia do que para a tragédia; mais para a farsa do que para o drama. Luis 16 foi o último dos reis a ter a sua cabeça decapitada. Antes dele, Carlos I da Inglaterra, também conheceu o cepo e a lâmina do carrasco. Os Romanov, dominados por um grande embusteiro, que foi Rapustin, eram de um terceiro tipo, o de retardados mentais, não obstante a crueldade com que reprimiam seu povo, e não foram decapitados, mas fuzilados.
Hoje, os poucos príncipes destronados são meros adornos de festas milionárias. Ninguém se preocupou, nem se preocupa mais, em cortar as cabeças coroadas, porque elas não valem muita coisa, a não ser a despesa que os povos pagam, para que encabecem a lista das celebridades inúteis.
Os escândalos da família real espanhola, que estão na ordem do dia, fermentam novamente a reivindicação republicana na península, oitenta e um anos depois da abdicação de Afonso XIII. O retorno da monarquia foi útil ao processo de normalização espanhola, depois da morte de Franco. Todas as forças políticas aceitaram a fórmula, a fim de evitar nova guerra civil. Cumprido esse papel positivo, a instituição começa a ser um estorvo. O rei, neto de Alfonso XIII, nunca aceitou, em sua alma, o regime democrático e, em fevereiro de 1981, segundo indícios fortes, esteve à frente da conspiração militar contra o governo democrático, que levou à invasão do parlamento pelo tenente-coronel Antonio Tejero Molina. O monarca só interveio, com visível contragosto, pela televisão, depois que a reação dos militares democráticos, no interior dos quartéis, e o pronunciamento dos governos vizinhos inviabilizaram o golpe.
Agora, os escândalos reais se sucedem. Enquanto o governo conservador de Mariano Rajoy corta o orçamento social e a Espanha se submete aos ditados da Alemanha, com o povo em desespero protestando nas ruas, revela-se que as despesas da Casa Real chegam a quase seiscentos milhões de euros, incluídos os gastos com as viagens, a manutenção dos numerosos palácios, a segurança da família do soberano pelas forças armadas e outras despesas indiretas.
A insensibilidade do Rei diante do sofrimento do povo que chega, até mesmo, ao escárnio, em certos momentos, como nas caçadas aos elefantes da África e aos ursos da Romênia, vem retirando a credibilidade de seus súditos. Tanto nos meios intelectuais, quanto entre os trabalhadores espanhóis, começa a adensar-se um movimento para o fim do sistema monárquico e a instauração de uma república democrática.
Ontem, a Espanha foi às ruas, em oitenta cidades, para protestar contra a aprovação de medidas de arrocho contra os trabalhadores, entre elas o fim do 13º salário. Em Madri, os bombeiros e os policiais civis, chegaram a solidalizar-se com os manifestantes, e se opuseram a participar da repressão. Um grupo, com seus capacetes postos, desnudou-se. Um cartaz explicava que o governo os deixara “en pelotas”. O clima era o da véspera de grandes acontecimentos.
As nossas relações com a Espanha monárquica devem ser reavaliadas. Com todas as suas dificuldades atuais, as elites espanholas continuam a tratar-nos como se fôssemos colônia de Madri – o que só fomos, e por acidente histórico, entre 1580 e 1640. Em 1580, depois da morte de D. Sebastião, no norte da África, e de seu sucessor, o Cardeal D. Henrique, o trono de Portugal foi ocupado por Felipe II, tio de D. Sebastião. A coroa só foi recuperada para os portugueses, em 1640, pelo Duque de Bragança.
As grandes virtudes do povo espanhol sempre foram, e continuam a ser, insultadas pela sua anacrônica, cara e ociosa nobreza, por nascimento ou pelo êxito nos negócios. E, ao longo de sua história, talvez a Espanha não tenha tido família real tão insignificante, e tão corrompida como a de agora.
As dificuldades econômicas da Espanha de hoje são o resultado desse espírito de presunçosa superioridade de suas elites. Ao entrar para a Comunidade Econômica Européia, e obter vultosos recursos do grupo, os espanhóis, em lugar de investi-los no interior do país, usaram-nos para adquirir empresas na América Latina, principalmente no Brasil. Era uma nova forma de colonialismo que, apesar do saqueio, manso e “legal” de nossos recursos, principalmente depois da embasbacada regência de Fernando Henrique Cardoso, não serviu ao povo espanhol, embora tenha enriquecido muitos banqueiros.
Agora, o próprio genro do Rei é acusado de agir como criminoso, ao lavar dinheiro mal havido e transferir, só para Luxemburgo, mais de 700.000 euros. Suspeita-se de que muito mais dinheiro não honrado foi remetido para o Exterior. Esse genro, Iñaki Undagarin, recebe mais de um milhão de euros por ano, como conselheiro da Telefónica de Espanha para a América Latina. E na América Latina, quem contribui com mais lucros para a empresa espanhola é exatamente o Brasil.
A nossa postura é de solidariedade para com o povo espanhol. Esse grande povo nada tem a ver com esses señoritos que ainda se imaginam no tempo de Carlos V e de Felipe II. Estar com o povo espanhol é não favorecer aqueles que o oprimem.
sexta-feira, março 21, 2014
Novo Manifesto da dívida reúne 74 economistas de 20 países
Documento apela à reestruturação da dívida portuguesa, que considera insustentável, e recusa a austeridade, apoiando explicitamente o manifesto das 70 personalidades portuguesas. Entre os signatários estão seis editores de revistas científicas, autores de livros de grande relevo e economistas com um importante papel institucional fora das universidades.
Setenta e quatro economistas e académicos de 20 países assinaram um documento intitulado “Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade”, em que apoiam “os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida pública global”, referindo-se ao Manifesto das 70 personalidades portuguesas divulgado na semana passada.
O novo manifesto internacional reúne seis editores de revistas científicas, como o Journal of Institutional Economics, o Journal of Contemporary European Studies ou a International Review of Applied Economics; autores de livros de grande relevo, como Benjamim Coriat da Universidade de Paris, autor de Ving Ans d’Aveuglement, Giovanni Dosi, da Universidade de Pisa, autor de The Third Industrial Revolution in Global Business, ou Mark Blyth, da Universidade de Brown, EUA, autor de Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, escolhido pelo Financial Times como livro do ano.
Alguns dos economistas têm especial papel institucional fora das universidades, como Jose Antonio Ocampo, Universidade de Columbia, EUA, que foi secretário-geral adjunto da ONU, e é atual consultor da ONU e do Independent Evaluation Office do FMI, Richard Nelson, que foi conselheiro económico do Presidente Kennedy, ou Thomas Palley, académico, que é também Senior Economic Policy Adviser da AFL-CIO, central sindical dos EUA.
Os países dos 74 signatários são os EUA, Canadá, México, Brasil, Argentina, Africa do Sul, Austrália, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha, Grécia, Estónia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Áustria, Polónia, Suíça.
Em seguida, o texto do Manifesto, na íntegra, e a lista completa dos signatários.
Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade
O programa do FMI e da União Europeia para Portugal (2011-4) deve terminar a 17 de maio de 2014. Nas próximas semanas será tomada a decisão de aceitação de um programa precaucionário continuando as mesmas políticas ou de submissão à vontade dos mercados. Em qualquer dos casos, a regra da austeridade continuaria num país em que o nível de desemprego já duplicou para cerca de 20%, como resultado da estratégia escolhida.
Para mais, apesar de fortes reduções do orçamento de Estado, o rácio da dívida no PIB subiu para 129%. Nos dois anos anteriores a 2008, a dívida pública tinha aumentado 0,7%; nos dois anos seguintes, cresceu 15%. Os resultados são claros: a austeridade orçamental reduziu a procura agregada, agravou a recessão, aumentou o nível da dívida pública e impôs sofrimento social à medida que as pensões e salários foram reduzidos, os impostos foram aumentados e a proteção social foi degradada.
Como economistas de diversas opiniões, temos expressado as nossas preocupações quanto aos efeitos da estratégia de austeridade na Europa. Recomendámos fortemente a rejeição das ideias da “recessão curativa” e da “austeridade expansionista” e os programas impostos a vários países. Criticámos as decisões do BCE durante a recessão prolongada e a recuperação medíocre. Os resultados confirmam a razão da nossa crítica. É tempo de mudar o curso desta política.
Assim, apelamos a uma política europeia consistente contra a recessão. Apoiamos os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida pública global, no sentido de se obterem menores taxas de juro e prazos mais amplos, de modo que o esforço de pagamento seja compatível com uma estratégia de crescimento, de investimento e de criação de emprego.
Alberto Recio, Universidade Autonoma de Barcelona, Espanha
Alejandro Florito, Universidade Lujan, Buenos Aires, Argentina
Alexander Sulejewiz, Universidade de Varsóvia, Polónia
Alan Freeman, Universidade Metropolitana de Londres, Reino Unido
Andrea Roventini, Universidade de Verona, Itália
Andy Dennis, Universidade de Londres, Reino Unido
Anton Hellesoy, ex-vice presidente da Hoegh LNG, Noruega
Beng-Ake Lundvall, Universidade de Aalborg, Dinamarca, secretário geral de Globelic
Benjamim Coriat, Universidade Paris XIII, França
Carlota Perez, Centennial Professor, London School of Economics, Londres, Reino Unido
Dirk Erhuts, Universidade de Berlim, Alemanha
Eduardo Strachman, UNESP, Brasil
Engelbert Stockhammer, Universidade de Kingston, Reino Unido
Erik Reinert, Universidade Tecnológica de Tallinn, Estónia
Erisa Senerdem, Universidade de Istambul, Turquia
Gabriel Palma, Universidade de Cambridge, Reino Unido
Gary Dymski, Universidade de Leeds, Reino Unido
Geoffrey Hodgson, Universidade de Hertefordshire, Reino Unido, editor de Journal of Institutional Economics
Georges Caravelis, secretariado da Comissão de Economia, parlamento europeu, a título pessoal, Bélgica
Gerald Epstein, co-director de PERI, Universidade de Amherst, EUA
Gilad Isaacs, Universidade de Witwaterrand, Africa do Sul
Giovanni Dosi, Universidade de Pisa, Itália, editor de Industrial and Corporate Change
Guglielmo Davezanti, Universidade de Salento, Itália
Herbert Schui, Universidade de Bremen, Alemanha
Herman Boemer, Universidade de Dortmund, Alemanha
Ignacio Alvarez, Universidade de Valladolid, Espanha
James Galbraith, Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, University of Texas, EUA
Jan Fagerberg, Universidade de Oslo, Noruega
Jan Kregel, Universidade de Tallinn, Estónia, editor do Journal of Post-Keynesian Economics
Jan Toporowski, SOAS, Universidade de Londres, Reino Unido
Jeremy Leama, editor de Journal of Contemporary European Studies
Jesus Ferreiro, Universidade do País Basco, Espanha
Joannes Kpler, Universidade de Linz, Austria
Jacob Kapeller, Universidade de Linz, Austria
John King, professor honorário, Universidade La Trobe, Austrália
John Weeks, professor emérito, Universidade de Londres, Reino Unido
Jorge Arias, Universidade de Leon, Espanha
Jose Antonio Ocampo, Universidade de Columbia, EUA, consultor da ONU e do Independent Evaluation Office do FMI
Louis-Philippe Rochon, Universidade Laurentina, Canadá, co-editor de Review of Keynesian Economics
Michael White, Universidade de Monash, Austrália
Malcolm Sawyer, professor emérito, Universidade de Leeds, Reino Unido, editor de International Review of Applied Economics
Mariana Mazzucato, SPRU, Universidade de Sussex, Reino Unido
Marica Frangakis, investigadora em economia
Mario Cechini, Universidade de Turim, Itália
Mario Pianta, Universidade de Urbino, Itália
Mark Blyth, Universidade de Brown, EUA, autor de “Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa”
Martin Heindenreich Universidade de Oldenburg, Alemanha
Matias Vernengo, Universidade de Bucknell, EUA
Mauro Gallegati, Universidade de Ancona, Itália
Mauro Napoletano, OFCE, Paris, França
Michael Ash, director do departamento de economia, Universidade de Amherst, EUA
Michel Husson, IRES, França
Noemi Levy, UNAM, México
Ozlem Onaran, Universidade de Greenwich, Reino Unido
P. Raja Junankar, professor honorário, Universidade de Bona, professor emérito, Universidade de Sidney, Austrália
Thomas Palley, Senior Economic Policy Adviser, AFL-CIO, and Research Associate, Economic Policy Institute
Peter Herrmann, Eurispes, Roma, Itália
Rainer Bartel, Universidade de Linz, Austria
Rainer Kattel, Universidade de Talinn, Estónia
Raza Werner, Euromemorandum Group, Alemanha
Riccardo Bellofiore, Universidade de Bergamo, Itália
Richard Nelson, Universidade de Columbia, EUA,
Rorita Canale, Universidade de Nápoles, Itália
Robert Pollin, Universidade de Massachussets, EUA
Stephany Griffith-Jones, Universidade de Columbia, Financial Markets Director, EUA
Sergio Cesaratto, Universidade de Siena, Itália
Sergio Rossi, Universidade de Friburgo, Suíça
Slavo Radosevic, director da Escola de Estudos do Leste Europeu, University College Londres,
Reino Unido
Stefanos Joannon, Universidade de Leeds, Reino Unido
Trevor Evans, Universidade de Berlim, Alemanha
Wlodzimierz Dymarki, Universidade de Poznan, Polónia
Wolfgang Blaas, Universidade de Viena, Austria
Wolfgang Haug, Universidade de Berlim, Alemanha
Yannis Varoufakis, Universidade de Atenas, Grécia
Manifesto pela reestruturação da dívida A artilharia do Diário Económico contra o manifesto pela reestruturação da dívida
Setenta e quatro economistas e académicos de 20 países assinaram um documento intitulado “Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade”, em que apoiam “os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida pública global”, referindo-se ao Manifesto das 70 personalidades portuguesas divulgado na semana passada.
O novo manifesto internacional reúne seis editores de revistas científicas, como o Journal of Institutional Economics, o Journal of Contemporary European Studies ou a International Review of Applied Economics; autores de livros de grande relevo, como Benjamim Coriat da Universidade de Paris, autor de Ving Ans d’Aveuglement, Giovanni Dosi, da Universidade de Pisa, autor de The Third Industrial Revolution in Global Business, ou Mark Blyth, da Universidade de Brown, EUA, autor de Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa, escolhido pelo Financial Times como livro do ano.
Alguns dos economistas têm especial papel institucional fora das universidades, como Jose Antonio Ocampo, Universidade de Columbia, EUA, que foi secretário-geral adjunto da ONU, e é atual consultor da ONU e do Independent Evaluation Office do FMI, Richard Nelson, que foi conselheiro económico do Presidente Kennedy, ou Thomas Palley, académico, que é também Senior Economic Policy Adviser da AFL-CIO, central sindical dos EUA.
Os países dos 74 signatários são os EUA, Canadá, México, Brasil, Argentina, Africa do Sul, Austrália, Alemanha, França, Reino Unido, Itália, Espanha, Grécia, Estónia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, Áustria, Polónia, Suíça.
Em seguida, o texto do Manifesto, na íntegra, e a lista completa dos signatários.
Reestruturar a dívida insustentável e promover o crescimento, recusando a austeridade
O programa do FMI e da União Europeia para Portugal (2011-4) deve terminar a 17 de maio de 2014. Nas próximas semanas será tomada a decisão de aceitação de um programa precaucionário continuando as mesmas políticas ou de submissão à vontade dos mercados. Em qualquer dos casos, a regra da austeridade continuaria num país em que o nível de desemprego já duplicou para cerca de 20%, como resultado da estratégia escolhida.
Para mais, apesar de fortes reduções do orçamento de Estado, o rácio da dívida no PIB subiu para 129%. Nos dois anos anteriores a 2008, a dívida pública tinha aumentado 0,7%; nos dois anos seguintes, cresceu 15%. Os resultados são claros: a austeridade orçamental reduziu a procura agregada, agravou a recessão, aumentou o nível da dívida pública e impôs sofrimento social à medida que as pensões e salários foram reduzidos, os impostos foram aumentados e a proteção social foi degradada.
Como economistas de diversas opiniões, temos expressado as nossas preocupações quanto aos efeitos da estratégia de austeridade na Europa. Recomendámos fortemente a rejeição das ideias da “recessão curativa” e da “austeridade expansionista” e os programas impostos a vários países. Criticámos as decisões do BCE durante a recessão prolongada e a recuperação medíocre. Os resultados confirmam a razão da nossa crítica. É tempo de mudar o curso desta política.
Assim, apelamos a uma política europeia consistente contra a recessão. Apoiamos os esforços dos que em Portugal propõem a reestruturação da dívida pública global, no sentido de se obterem menores taxas de juro e prazos mais amplos, de modo que o esforço de pagamento seja compatível com uma estratégia de crescimento, de investimento e de criação de emprego.
Alberto Recio, Universidade Autonoma de Barcelona, Espanha
Alejandro Florito, Universidade Lujan, Buenos Aires, Argentina
Alexander Sulejewiz, Universidade de Varsóvia, Polónia
Alan Freeman, Universidade Metropolitana de Londres, Reino Unido
Andrea Roventini, Universidade de Verona, Itália
Andy Dennis, Universidade de Londres, Reino Unido
Anton Hellesoy, ex-vice presidente da Hoegh LNG, Noruega
Beng-Ake Lundvall, Universidade de Aalborg, Dinamarca, secretário geral de Globelic
Benjamim Coriat, Universidade Paris XIII, França
Carlota Perez, Centennial Professor, London School of Economics, Londres, Reino Unido
Dirk Erhuts, Universidade de Berlim, Alemanha
Eduardo Strachman, UNESP, Brasil
Engelbert Stockhammer, Universidade de Kingston, Reino Unido
Erik Reinert, Universidade Tecnológica de Tallinn, Estónia
Erisa Senerdem, Universidade de Istambul, Turquia
Gabriel Palma, Universidade de Cambridge, Reino Unido
Gary Dymski, Universidade de Leeds, Reino Unido
Geoffrey Hodgson, Universidade de Hertefordshire, Reino Unido, editor de Journal of Institutional Economics
Georges Caravelis, secretariado da Comissão de Economia, parlamento europeu, a título pessoal, Bélgica
Gerald Epstein, co-director de PERI, Universidade de Amherst, EUA
Gilad Isaacs, Universidade de Witwaterrand, Africa do Sul
Giovanni Dosi, Universidade de Pisa, Itália, editor de Industrial and Corporate Change
Guglielmo Davezanti, Universidade de Salento, Itália
Herbert Schui, Universidade de Bremen, Alemanha
Herman Boemer, Universidade de Dortmund, Alemanha
Ignacio Alvarez, Universidade de Valladolid, Espanha
James Galbraith, Lyndon B. Johnson School of Public Affairs, University of Texas, EUA
Jan Fagerberg, Universidade de Oslo, Noruega
Jan Kregel, Universidade de Tallinn, Estónia, editor do Journal of Post-Keynesian Economics
Jan Toporowski, SOAS, Universidade de Londres, Reino Unido
Jeremy Leama, editor de Journal of Contemporary European Studies
Jesus Ferreiro, Universidade do País Basco, Espanha
Joannes Kpler, Universidade de Linz, Austria
Jacob Kapeller, Universidade de Linz, Austria
John King, professor honorário, Universidade La Trobe, Austrália
John Weeks, professor emérito, Universidade de Londres, Reino Unido
Jorge Arias, Universidade de Leon, Espanha
Jose Antonio Ocampo, Universidade de Columbia, EUA, consultor da ONU e do Independent Evaluation Office do FMI
Louis-Philippe Rochon, Universidade Laurentina, Canadá, co-editor de Review of Keynesian Economics
Michael White, Universidade de Monash, Austrália
Malcolm Sawyer, professor emérito, Universidade de Leeds, Reino Unido, editor de International Review of Applied Economics
Mariana Mazzucato, SPRU, Universidade de Sussex, Reino Unido
Marica Frangakis, investigadora em economia
Mario Cechini, Universidade de Turim, Itália
Mario Pianta, Universidade de Urbino, Itália
Mark Blyth, Universidade de Brown, EUA, autor de “Austeridade: A História de uma Ideia Perigosa”
Martin Heindenreich Universidade de Oldenburg, Alemanha
Matias Vernengo, Universidade de Bucknell, EUA
Mauro Gallegati, Universidade de Ancona, Itália
Mauro Napoletano, OFCE, Paris, França
Michael Ash, director do departamento de economia, Universidade de Amherst, EUA
Michel Husson, IRES, França
Noemi Levy, UNAM, México
Ozlem Onaran, Universidade de Greenwich, Reino Unido
P. Raja Junankar, professor honorário, Universidade de Bona, professor emérito, Universidade de Sidney, Austrália
Thomas Palley, Senior Economic Policy Adviser, AFL-CIO, and Research Associate, Economic Policy Institute
Peter Herrmann, Eurispes, Roma, Itália
Rainer Bartel, Universidade de Linz, Austria
Rainer Kattel, Universidade de Talinn, Estónia
Raza Werner, Euromemorandum Group, Alemanha
Riccardo Bellofiore, Universidade de Bergamo, Itália
Richard Nelson, Universidade de Columbia, EUA,
Rorita Canale, Universidade de Nápoles, Itália
Robert Pollin, Universidade de Massachussets, EUA
Stephany Griffith-Jones, Universidade de Columbia, Financial Markets Director, EUA
Sergio Cesaratto, Universidade de Siena, Itália
Sergio Rossi, Universidade de Friburgo, Suíça
Slavo Radosevic, director da Escola de Estudos do Leste Europeu, University College Londres,
Reino Unido
Stefanos Joannon, Universidade de Leeds, Reino Unido
Trevor Evans, Universidade de Berlim, Alemanha
Wlodzimierz Dymarki, Universidade de Poznan, Polónia
Wolfgang Blaas, Universidade de Viena, Austria
Wolfgang Haug, Universidade de Berlim, Alemanha
Yannis Varoufakis, Universidade de Atenas, Grécia
Manifesto pela reestruturação da dívida A artilharia do Diário Económico contra o manifesto pela reestruturação da dívida
sexta-feira, agosto 19, 2011
Santayana: não subestimem a Direita
Do Conversa Afiada
O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana, extraído do JB:
A sombra dos anos 30
por Mauro Santayana
O século passado teve como eixo a década de 30. Ela se iniciou com a crise econômica mundial, que estas últimas horas de angústia nos mercados financeiros fazem lembrar, e se fechou com a conseqüência prevista pelos céticos: o início da Segunda Guerra Mundial. Foram os anos do grande confronto entre a esquerda e a direita, com contradições, idas e vindas, ilusões e tragédias, que os livros registram. Em suma, sinistras lições aos homens, que devem ser meditadas, para que o mundo não volte a ser encharcado de sangue.
Muitas são as teorias que tentam explicar aquela amostra do apocalipse. A mais conhecida é a de que, derrotada e humilhada em 1918, a Alemanha buscava a revanche com Hitler. Para isso, seu líder, encarnando o velho orgulho prussiano, obtivera o apoio da Nação a fim de vingar-se de seus inimigos e expandir o espaço vital, que consideravam necessário à plena realização de seu destino de povo de senhores.
Naqueles anos e meses da República de Weimar, mais do que em outras épocas históricas, as distorções da linguagem serviram para confundir e desorientar os homens. A esquerda buscava construir, na antiga Rússia, uma sociedade socialista. Hitler começou filiando-se a um pequeno partido de trabalhadores, que ele dominaria e o ampliaria no Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Os comunistas e socialistas alemães menosprezaram aquele grupo de bêbados, que se vestiam militarmente e brandiam slogans primários. A Alemanha não é a Itália, declarou, confiante, aos que temiam o totalitarismo no país, Ernst Thälmann, o lendário dirigente do Partido Comunista Alemão, depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais de 1932, por Hindemburg, e da ascensão de Hitler à chefia do governo, à frente da coligação de direita, graças ao apoio dos católicos. Em março de 33, poucas semanas depois, Thälmann seria metido no campo de concentração de Buchenwald, onde foi executado em agosto de 1944.
Os democratas e as organizações de esquerda não souberam unir-se, ali, para a resistência – o que reclamava a construção de uma idéia forte de centro político, a fim de impedir, a tempo, a ascensão dos nazistas. Não souberam unir-se ali, nem em outras nações. O caso mais dramático, fora da Alemanha, foi o da Espanha. Como anotou Salvador de Madariaga, de resto um homem rigorosamente de centro, o malogro da República Espanhola foi o malogro do centro político. Ao crescer o radicalismo tanto na direita quanto na esquerda, não houve espaço para a moderação do centro. Mais poderosa – com a ajuda dos fascistas italianos e dos nazistas, e a total adesão da hierarquia da Igreja Católica – a direita esmagou a República, depois de quase três anos de conflito. De nada valeu a pouca ajuda soviética que conseguia chegar ao país – nem a presença simbólica dos corajosos intelectuais que formaram as Brigadas Internacionais. Madariaga tinha razão: se tivesse havido o entendimento entre os partidos de esquerda, que mal se acomodavam na Frente Popular, e, depois, com as forças de centro, não haveria clima para a insurreição dos generais Sanjurjo, Mola, Queipo de Llano e Francisco Franco. Madariaga foi rigorosamente de centro no eclodir do conflito: como embaixador da República, não tomou partido na guerra, mas se tornou vigoroso opositor da ditadura franquista, e só voltou à Espanha em 1976, depois da morte do ditador.
Menosprezar a direita tem sido, mais do que erro de percepção política, ilusão criminosa. Na mesma Espanha, quando o governo dispunha de informes seguros da conspiração em marcha, o então chefe do governo, Casares Quiroga, recebeu a advertência do serviço secreto republicano com um muxoxo: se eles se levantam, eu vou me deitar. Em 1964 – recordam-se? – as esquerdas, também divididas em nosso país, percorreram as mesmas sendas da ilusão. Não só é vezo da esquerda subestimar as forças adversárias, mas também assusta-las, com os espantalhos da insurreição. Em seu favor milita realmente a ilusão. As Ligas Camponesas, armadas de fé e de espingardas cartucheiras, cresciam seu ilusório poder, diante da classe média em pânico. O mito de Che Guevara empolgava os jovens, da mesma maneira que a invencibilidade cubana, na Bahia dos Porcos, atiçava os ânimos bélicos de muitos de nós, os que vivemos aquele tempo.
Esse excurso ao passado não é por acaso. Estamos em tempo muito parecido aos anos 30. Nos Estados Unidos, um governo que tenta chegar ao centro, o de Obama, é acossado pelo Tea Party e pelos velhos texanos, que sempre estiveram na linha de frente do obscurantismo. Basta recordar que foi em Dallas que a direita eliminou Kennedy, ainda que o jovem presidente, como a história nos mostra, não fosse exatamente um liberal de esquerda. Do Texas vieram Bush pai e Bush filho, e os republicanos agora ameaçam buscar em Rick Perry, seu atual governador, e raivoso direitista, o oponente a Obama nas eleições vindouras.
A Europa caminha rapidamente para a direita, e os governantes buscam justificar a repressão policial como necessária, diante das crescentes manifestações populares contra o desemprego, a redução das pensões, a falta de moradias e de perspectivas para o povo - também comuns nos anos 30. A Espanha recebeu ontem a visita do papa Bento 16, cuja simpatia pela direita é notória. Os espanhóis foram às ruas, protestar contra os gastos governamentais com a recepção ao pontífice, em momento de gravíssima crise econômica interna. Ainda que o papa se tenha declarado contra a lógica do “lucro acima do direito das pessoas”, seus atos não confirmam a retórica. A posição do papa, diante das dificuldades da Península, foi bem exposta em visita anterior a Santiago de Compostela, quando Ratzinger expressou preocupação contra a crescente laicidade dos espanhóis e o seu anticlericalismo, “que lembra os anos 30”, e pediu “nova evangelização” na península. A “evangelização” franquista dos anos 30, apoiada na Opus Dei e no garrote vil, nós já conhecemos. Que outra “evangelização” pretende agora o papa, quando se queixa da liberdade de pensamento na Espanha atual?
A presidente Dilma Roussef atribuiu-se duas missões em seu governo: a de combater a corrupção e a de eliminar a miséria que ainda assola grande parte de nosso povo. E a direita nacional, ainda que com certa dissimulação, começa a articular-se. Isso vai exigir da esquerda, no diálogo com o centro, grande esforço, para a criação de força política de centro, organizada e articulada, firme em sua ação, a fim de dar o suporte da nação, para que possa enfrentar o vendaval internacional – com a crise econômica, o renascimento brutal do racismo na Europa e a reorganização dos nazistas e fascistas.
A Alemanha, contra o otimismo dos comunistas e socialistas, repetiu, em 30, com mais tragédias, o fascismo italiano. Por pouco, os integralistas não se apossaram do Brasil, nos anos 30. Sofremos o que sofremos sob a direita nacional, a partir de 1964. Essas lições dos anos 30 nos exigem acurada vigilância e a visão real do processo histórico. A direita está aí, firme, construindo sua vez e sua hora.
quarta-feira, junho 13, 2012
Santayana: EUA e Espanha. Olho neles !
O Conversa Afiada reproduz artigo de Mauro Santayana, do JB online:
por Mauro Santayana
Em discurso recente no Senado, Pedro Simon advertiu contra o perigo de que o crime organizado se aposse das instituições do Estado. Até o caso Cachoeira, disse o parlamentar gaúcho, havia sido comprovada a corrupção de setores da burocracia dos governos, mas não a da estrutura do Estado.
O governador Marconi Perillo se esquivou, com habilidade, das questões mais graves, em seu depoimento na CPMI. Registre-se que ele se encontrava mais do que tranqüilo, mesmo respondendo às indagações precisas do relator, até que chegou a vez do deputado Miro Teixeira. O experiente homem público, mesmo tendo como ponto de partida o caso menor, que é o da venda da casa de Perillo, deixou, na argúcia de suas perguntas, graves suspeitas.
Como pôde o governador receber o dinheiro de uma empresa e passar a escritura a um particular? Também ficou claro a quem ouviu o governador ser difícil que ele ignorasse as atividades ilícitas do apontado contraventor; ele conhecia, com intimidade, a sua vida empresarial, social e familiar.
O caso Cachoeira – e a advertência de Pedro Simon é importante – mostra como a nação está acossada por um inimigo interno insidioso, que é o crime organizado. Os recursos públicos são desviados para alimentar um estado clandestino, que está deixando de ser paralelo, para constituir o núcleo do poder, em alguns municípios, em muitos estados e na própria União. Essa erosão interna da nacionalidade brasileira, que se assemelha a uma gangrena, coincide com o cerco internacional contra o nosso país.
Enquanto parte da opinião nacional acompanha, indignada, as revelações do esquema Cachoeira, articula-se eixo internacional entre os Estados Unidos, a Espanha e todos os países da Costa do Pacífico, com a exceção do Equador e da Nicarágua, contra o nosso povo, mediante a Aliança do Pacífico. Não há qualquer dissimulação.
Como informa a publicação Tal Cual, da oposição venezuelana, o foro funciona ativamente e já celebrou seis reuniões de alto nível. “Os quatro países signatários da nova Aliança do Pacífico – revela a publicação – têm, todos eles, governos de centro ou centro-direita, crêem no capitalismo, são amigos dos Estados Unidos, e favorecem os tratados de livre comércio e o princípio do livre-comércio em geral. Une-os sobretudo um temor comum e impulso defensivo frente à ascendente potência hegemônica ou neo-imperial que é o Brasil”. E termina: “sentimo-nos satisfeitos e aliviados pelo surgimento do muro de contenção à expansão brasileira, que é a Aliança do Pacífico”.
Assim, os Estados Unidos cuidam de retomar a sua influência e presença militar na América Latina. Nesse sentido, procuram valer-se da Aliança do Pacífico para estabelecer bases militares cercando o Brasil, da Colômbia ao sul do Chile. Leon Paneta, o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, acaba de acertar com o presidente do Chile, Sebastián Piñera, o estabelecimento de uma base norte-americana em Fuerte Aguayo, nas proximidades de Valparaíso. Entre outras missões dos militares americanos está a de treinar os carabineiros chilenos, a fim de coibir manifestações populares. Há, ao mesmo tempo, uma orquestração da imprensa e dos meios políticos e empresariais, a fim de reabilitar a figura do ditador Pinochet.
Os Estados Unidos, que mantêm uma base no Chaco paraguaio, quiseram também ocupar o aeroporto de Resistência, na província argentina do Chaco, e o governador Capitanich assentiu, mas o governo de Cristina Kirchner vetou o acordo.
A participação da Espanha nesse novo cerco ao Brasil é evidente. Em Madri, os embaixadores dos quatro paises maiores envolvidos (México, Colômbia, Peru e Chile) se reuniram, para defender a nova aliança, e coube ao embaixador do Chile, Sergio Romero, ser bem explícito. Ao afirmar que o bloco não nasce contra o Brasil, nem contra o Mercosul, aclara, no entanto, que o grupo recebe de braços abertos os investimentos europeus, especialmente da Espanha e dos Estados Unidos – que poderiam formalmente participar da Aliança.
Limpemos os nossos olhos, vejamos os perigos que ameaçam diretamente a nossa sobrevivência como nação independente, nas vésperas do segundo centenário do Grito do Ipiranga. Não temos que ficar abrindo mais divisões internas, e devemos nos unir para enfrentar, ao mesmo tempo, o inimigo interno, que é o crime organizado e suas teias nas instituições do Estado, e os inimigos externos.
Esses, sempre que estivemos avançando no desenvolvimento social e econômico, procuraram quebrar as nossas pernas, contando com traidores brasileiros. Não é preciso recuar muito no passado. Basta lembrar o cerco contra Vargas, em 1954, a tentativa de golpe de 1955, repetida em 1961 e, por fim, o golpe de 1964, com as conseqüências conhecidas. Registre-se que, apesar da vinculação com os Estados Unidos, durante o governo Castelo Branco, e a famosa doutrina das “fronteiras ideológicas”, vigente durante o governo Médici, a partir de Geisel os militares brasileiros não mantiveram a mesma subserviência diante de Washington.
Enfim, espera-se que o Itamaraty mantenha o governo da Sra. Dilma Roussef a par dessas manobras anti-brasileiras, comandadas a partir de Madri e de Washington, e que a CPMI vá até o fundo, nas investigações em curso. Elas não devem parar nas imediações de Anápolis, mas chegar a todo o Brasil, conforme os indícios surjam. É bom conhecer a verdade do passado, mediante a Comissão formada para isso. E se faz também necessário conhecer a verdade do presente, e impedir que o crime tome conta das instituições nacionais, como está ocorrendo no México de Calderón.
E não nos devemos esquecer que o sistema financeiro mundial é também uma forma – superior e mais poderosa – de crime organizado. E muito bem organizado.
COMENTÁRIO E & P
Não esquecer que a grande imprensa brasileira, composta por Globo, Veja, Folha e
Estado, entre outras, está pautada de acordo com os interesses dos esteites. Reproduzem material da imprensa internacional que é feito pelo Departamento de Estado dos esteites, além disso sempre que há um conflito de interesses, os jornalistas da velha mídia defendem os esteites. A geopolítica dos Estados Unidos dominam a imprensa mundial e a brasileira. Precisamos urgente construirmos uma imprensa que defenda dos interesses do Brasil e do povo brasileiro. Necessitamos também de construção de uma elite brasileira compromissada com seu povo. O que temos hoje é uma subelite vassala, que não tem um projeto de nação e de desenvolvimento. A elite brasileira deve ser formada a partir de um pacto social entre trabalhadores, empresários, intelectuais, estudantes, camponeses, entre outros. O objetivo dessa elite é se unir em torno de um projeto nacional defendendo o bem-estar do nosso povo, desenvolvimento social e econômico e a nossa soberania. Estamos no caminho. Quem se coloca contra esse projeto é justamente a velha mídia tendo por braço político o PSDB. O projeto deles é de um país subordinado aos interesses estrangeiros, pagando juro alto aos banqueiros e abrindo mão de qualquer projeto de nação.
sexta-feira, junho 07, 2013
Agências de Ri(s)cos ou A Máquina Mortífera
Do www.arnobiorocha.com.br
Arnóbio Rocha
Rating – exercício aleatório e bem pago, sem compromisso com a realidade.
Hoje foi manchete dos jornais, quase uma comemoração, de que a “famosa” standard & Poor’s AMEAÇA rebaixar a nota do Brasil, por sinais “ambíguos” e perda de credibilidade. Vejam que interessante, a desmoralizada agência de classificação de riscos, ameaçando mais uma vez um país e contando com o aplauso de uma mídia cada vez mais burra e divorciada da realidade, apenas interessada em acossar o governo com oposição não a ele, mas ao país como um todo.
Cerca de um ano e meio escrevi um texto no Crise 2.0 explicando o que são as tais agências e o papel nefasto delas, antes e agora na atual crise. Vamos ao artigo,pois está muito atual:
“Como não sei se todos estão familiarizados com o que são as famosas Agências de Ri(s)cos vou tentar explicar, grosso modo, como elas funcionam. Fundamentalmente elas são grupos especializados em ler e interpretar dados de economia de uma empresa, grupo econômico e por vezes de países, para que recomende aos seus clientes onde melhor aplicar seu dinheiro.
Em tese esta é a função que nos anos 70/80 era parte da estruturas dos grandes bancos. Nos anos 90/00 com a reestruturação do sistema financeiro estas Agência se tornaram grupos autônomos que vendem seus serviços não só aos bancos, como também empresas, fundos de pensões e governos.
Porém, na recente crise do subprimes, estas agências foram postas à nu, pois longe de efetivamente elas analisarem e ter cenários econômicos precisos sobre os investimentos, elas simplesmente entraram na ciranda financeira, fazendo recomendações de altíssimos ricos, pois suas notas passaram a ter muito peso para as empresas e instituições analisadas. Um exemplo clássico é que Lehman Brothers era AAA, a máxima nota, um mês antes de ruir completamente.
A falta de órgãos reguladores fortes e atuantes provocada pela onda neoliberal, em particular nos EUA, fez crescer mais o valor destas agências privadas, pouco importando os métodos de atuação e precisão científica de suas analises.
Países inteiros passaram a depender de grupos yuppies com seus ternos modernos, lembro de uma porta voz da S&P no Brasil, não tinha nem 30 anos, impondo “regras” de economia ao Brasil, mostrando o caminho para um governo de 190 milhões de pessoas, com uma arrogância de dar nojo.
A S&P condenou a Espanha a mais sofrimento(2011), rebaixou sua nota soberana e com um cínico comunicado, uma pérola digna de Mailson: “Apesar dos sinais de resistência no desempenho econômico em 2011, vemos riscos destacados para as perspectivas de crescimento da Espanha devido à alta taxa de desemprego, duras condições financeiras, o nível ainda elevado da dívida do setor privado e a provável desaceleração econômica nos principais parceiros comerciais da Espanha“
No ponto que mais há sacrifício do povo espanhol, já tão punido pela desastrada situação econômica, a S&P lhe impõe mais um problema, o que agravou sobremaneira a cambaleante economia do país. A frase de Delfim Neto, sobre as agências, é o que melhor as define: “As agências são todas 171″
COMENTÁRIO E & P
E o PIG do Brasil, que está a serviço de interesses estrangeiros e conspira contra o Brasil passa a ideia de que essas agências são sérias. É por isso que a Globo, Folha, Veja e Estado cada dia mais estão desacreditados pelo povo brasileiro, afinal quem assistiu ao documentário "Inside Job" sabe que essas agências agiram de forma irregular contra os povos do mundo e vários dirigentes delas deveriam estar presos. Pelo visto, não é só a justiça brasileira que é cega para os ricos, pois as agências de rating ajudaram a dar um prejuízo de quase R$ 800 bilhões ao povo estadunidense.
Arnóbio Rocha
Rating – exercício aleatório e bem pago, sem compromisso com a realidade.
Hoje foi manchete dos jornais, quase uma comemoração, de que a “famosa” standard & Poor’s AMEAÇA rebaixar a nota do Brasil, por sinais “ambíguos” e perda de credibilidade. Vejam que interessante, a desmoralizada agência de classificação de riscos, ameaçando mais uma vez um país e contando com o aplauso de uma mídia cada vez mais burra e divorciada da realidade, apenas interessada em acossar o governo com oposição não a ele, mas ao país como um todo.
Cerca de um ano e meio escrevi um texto no Crise 2.0 explicando o que são as tais agências e o papel nefasto delas, antes e agora na atual crise. Vamos ao artigo,pois está muito atual:
“Como não sei se todos estão familiarizados com o que são as famosas Agências de Ri(s)cos vou tentar explicar, grosso modo, como elas funcionam. Fundamentalmente elas são grupos especializados em ler e interpretar dados de economia de uma empresa, grupo econômico e por vezes de países, para que recomende aos seus clientes onde melhor aplicar seu dinheiro.
Em tese esta é a função que nos anos 70/80 era parte da estruturas dos grandes bancos. Nos anos 90/00 com a reestruturação do sistema financeiro estas Agência se tornaram grupos autônomos que vendem seus serviços não só aos bancos, como também empresas, fundos de pensões e governos.
Porém, na recente crise do subprimes, estas agências foram postas à nu, pois longe de efetivamente elas analisarem e ter cenários econômicos precisos sobre os investimentos, elas simplesmente entraram na ciranda financeira, fazendo recomendações de altíssimos ricos, pois suas notas passaram a ter muito peso para as empresas e instituições analisadas. Um exemplo clássico é que Lehman Brothers era AAA, a máxima nota, um mês antes de ruir completamente.
A falta de órgãos reguladores fortes e atuantes provocada pela onda neoliberal, em particular nos EUA, fez crescer mais o valor destas agências privadas, pouco importando os métodos de atuação e precisão científica de suas analises.
Países inteiros passaram a depender de grupos yuppies com seus ternos modernos, lembro de uma porta voz da S&P no Brasil, não tinha nem 30 anos, impondo “regras” de economia ao Brasil, mostrando o caminho para um governo de 190 milhões de pessoas, com uma arrogância de dar nojo.
A S&P condenou a Espanha a mais sofrimento(2011), rebaixou sua nota soberana e com um cínico comunicado, uma pérola digna de Mailson: “Apesar dos sinais de resistência no desempenho econômico em 2011, vemos riscos destacados para as perspectivas de crescimento da Espanha devido à alta taxa de desemprego, duras condições financeiras, o nível ainda elevado da dívida do setor privado e a provável desaceleração econômica nos principais parceiros comerciais da Espanha“
No ponto que mais há sacrifício do povo espanhol, já tão punido pela desastrada situação econômica, a S&P lhe impõe mais um problema, o que agravou sobremaneira a cambaleante economia do país. A frase de Delfim Neto, sobre as agências, é o que melhor as define: “As agências são todas 171″
COMENTÁRIO E & P
E o PIG do Brasil, que está a serviço de interesses estrangeiros e conspira contra o Brasil passa a ideia de que essas agências são sérias. É por isso que a Globo, Folha, Veja e Estado cada dia mais estão desacreditados pelo povo brasileiro, afinal quem assistiu ao documentário "Inside Job" sabe que essas agências agiram de forma irregular contra os povos do mundo e vários dirigentes delas deveriam estar presos. Pelo visto, não é só a justiça brasileira que é cega para os ricos, pois as agências de rating ajudaram a dar um prejuízo de quase R$ 800 bilhões ao povo estadunidense.
sexta-feira, agosto 09, 2013
Troika provoca indignação em Espanha com proposta de cortes salariais de 10%
Do Esquerda.Net
"É preciso cortar 10% nos salários dos trabalhadores espanhóis", aconselhou o FMI, logo seguido pelo comissário europeu Olli Rehn. Patrões, sindicatos e partidos de esquerda reagiram com indignação a este "dardo envenenado contra os trabalhadores da Europa do Sul". E também há quem peça a demissão imediata de Rehn.
ARTIGO | 8 AGOSTO, 2013 - 18:16
Christine Lagarde e Olli Rehn querem cortar 10% dos salários aos trabalhadores espanhóis. Foto EPA
Algumas das reações mais indignadas vieram das hostes socialistas. O porta-voz para a Saúde pediu mesmo a demissão do comissário europeu para os assuntos económicos e um dos homens-fortes da Comissão Barroso. "É uma indecência política recomendar um corte salarial generalizado e não ter a mínima preocupação com o impacto dessa medida no sobre-empobrecimento de amplas camadas da população", afirmou José Martinez Olmos, que também é deputado do PSOE.
Num comentário publicado no Facebook, a vice-secretária-geral dos socialistas espanhóis lembrou ao comissário que "em Espanha há milhões de trabalhadores que ganham ao fim do mês o que você gasta em dois jantares". Elena Valenciano diz que "cada reflexão de Rehn é um dardo envenenado para milhões de trabalhadores da Europa do Sul, que já não podem fazer mais sacrifícios".
O próprio líder do PSOE veio comentar as declarações de Rehn e do FMI, pedindo ao comissário "que esqueça as suas receitas, porque foram nefastas para Espanha", antes de classificar de "disparate económico" pedir um corte salarial ainda maior do que o imposto pela reforma laboral impulsionada pelo governo do Partido Popular.
O presidente do grupo parlamentar da Izquierda Unida chamou "cínico e mentiroso" a Olli Rehn por defender que baixar salários ajuda a combater o desemprego, mas "nunca falarem em investir os lucros empresariais" para criar emprego. Mas também se referiu a Christine Lagarde, que "cobra 324 mil euros por ano, livres de impostos", enquanto pede aos trabalhadores que sacrifiquem ainda mais os seus salários.
Do lado sindical, as Comisiones Obreras manifestaram total oposição à ideia de novos cortes salariais, considerando que está na altura de fazer justamente o contrário: aumentar os salários para ajudar a economia através do consumo. Também a UGT lembrou que foi a queda salarial dos últimos anos que levou à quebra do consumo e do investimento, com as famílias a sofrerem ao ponto de não poderem pagar as hipotecas.
Até os patrões olharam de lado para a proposta do FMI e da Comissão Europeia. Um responsável da confederação patronal CEOE afirmou que este "não é o momento oportuno nem para aumentar impostos nem para baixar salários". Arturo Fernández aconselhou mesmo os homens de Bruxelas a "conter os seus próprios salários, que creio estarem a aumentar". Já o PP parece ter ficado incomodado com as palavras de Olli Rehn, preferindo dizer que as mexidas salariais dependem da negociação com os parceiros sociais e do pacto assinado em 2012 que prevê aumentos máximos de 0,6% para este ano.
terça-feira, março 25, 2014
O Gato e a Lebre O México é um país pobre e desigual
Em dezembro do ano passado, em sua última mudança significativa das suas notas de crédito antes da de ontem, que rebaixou o Brasil (de BBB para BBB-), a agência classificadora de risco Standard & Poor’s elevou o “rating” do México de BBB para BBB+.
Um artigo publicado hoje por Mauro Santayanna no Jornal do Brasil ajuda a entender porque o país se tornou o “queridinho” dos mercados sem exibir um sucesso econômico quue se reflita nos padrões de vida de seu povo.
O “prêmio de bom-comportamento” do México é, essencialmente, ter feito o que Fernando Henrique fez no Brasil em 1997: abrir a exploração de petróleo aos grupos estrangeiros.
Santayanna é o melhor remédio contra o discursoo que a direita brasileira se prepara para fazer; o da “mexicanização” do Brasil.
Isso inclui, além do petróleo, acordos comerciais lesivos, com o abandono das parcerias no Mercosul e “fllexibilização” dos direitos trabalhistas para que se possa usar o Brasil como plataforma de montagem de produtos para a exportaçãoo, o que definirão com o nome de “reindustrialização” do país.
O mundo está mudando, mas não mudou e nem mudaram os interesses que fazem “money makes the world go around”.
O Gato e a Lebre
O México é um país pobre e desigual
Mauro Santayanna
A OCDE – Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico, divulgou um relatório, na última terça-feira, classificando o México e o Chile, ambos formalmente sócios da “Aliança do Pacífico”, como os dois países com maior desigualdade do grupo.
Até aí, nada a estranhar, a OCDE reúne países teoricamente desenvolvidos, que exibem dados sociais – remanescentes do período anterior à crise economia – melhores do que a da maioria dos países latino-americanos, mas eles tem se deteriorado rapidamente nos últimos anos.
A dívida explodiu entre os 34 membros da OCDE, principalmente os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda e Espanha). E o desemprego aumentou para um total de 48 milhões de pessoas, 15 milhões a mais do que em 2007, alcançando em alguns lugares, como a própria Espanha, taxas próximas a 30%.
O Chile – costumeiramente apresentado como um “milagre” latino-americano, que muitos atribuem a Pinochet – consegue ser ainda mais desigual que o México.
Mas o México perde para o Chile em renda. A sua é a menor da OCDE, e uma das mais baixas entre os países latino-americanos.
O país de Zapata, também cantado pela mídia como “exemplo” para o continente, tem, segundo estatística do FMI de 2012, renda menor que a do Chile, Uruguai, Brasil, Argentina e Venezuela.
E o pior, no lugar de crescer, ela tem diminuído nos últimos três anos. Isso, considerando-se que o México não conta com uma legislação trabalhista ou uma rede de proteção social, ou programas de renda mínima, que possam garantir um mínimo de dignidade para a população.
Na nação dos tacos e da tequila – o que explica parte de seu “sucesso” manufatureiro na montagem e maquiagem, com peças de terceiros, de produtos destinados aos Estados Unidos – sequer existe seguro-desemprego.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, quase 60% dos empregos no México são informais, contra 28% na Argentina, 34% no Brasil, 45% na Colômbia, e 45% no Peru. E quatro em cada dez cidadãos mexicanos não conseguem dinheiro para pagar uma cesta básica a cada 30 dias.
Como faziam os meios de comunicação espanhóis, que achavam que a Espanha estava uma maravilha, quando na verdade, já estava sendo engolida pela crise, os jornais mexicanos se gabam do país ter entrado para o NAFTA, o acordo que os uniu, economicamente, ao Canadá e aos Estados Unidos, e de terem assinado, com outros países, dezenas de acordos bilaterais de livre comércio.
Mas não falam dos déficits históricos em sua balança comercial, que sua renda per capita está praticamente estagnada há mais de duas décadas, e que seu poder de compra tem caído, no lugar de aumentar, nos últimos anos.
O problema da fome, do abastecimento e da inflação de alimentos também é muito grave no membro mais pobre do NAFTA.
Muita gente acha que o Brasil tem que parar de mandar alimentos para a Venezuela, mas não sabe que o governo mexicano está ultimando a compra, em nosso país, em caráter emergencial, de 300.000 toneladas de frango, para impedir que o preço das proteínas exploda, e que falte comida nos supermercados.
Muitos mexicanos também acreditam na balela de que o México é grande exportador de manufaturas, enquanto o Brasil só exporta commodities – esquecendo-se que somos o terceiro maior fabricante e vendedor global de aviões.
O fato de que sejamos o maior exportador mundial de suco de laranja, café, açúcar, carnes, – além de primeiro em minério de ferro e o segundo em etanol – e de que tenhamos triplicado nossa safra de grãos nos últimos 12 anos e estejamos a ponto de ultrapassar os EUA como o maior exportador de soja do mundo, só quer dizer uma coisa: soubemos dar mais valor à segurança alimentar do que outros países latino-americanos, e hoje temos comida para abastecer nossa mesa, e para vender para o resto do mundo.
Na hora de ler os jornais, ouvir o rádio, ou ver os noticiários de televisão, ao ouvir falar das ”reformas” e de supostos avanços mexicanos com relação ao Brasil – quando eles cresceram a metade do nosso PIB no último ano – é bom ficar com o pé atrás e colocar as barbas de molho.
Não podemos comer gato por lebre, e seguir os passos dos mexicanos, que venderam a alma ao diabo, ao se agregar – como pouco mais que escravos e camareiros – ao sistema econômico norte-americano.
Ao nos oferecer acordos semelhantes, como a UE está fazendo agora – e os EUA tentarão fazer logo em seguida – os países “ocidentais” não vão abrir seus mercados para nossas manufaturas – pelo contrário, eles têm reduzido suas compras e aumentado as vendas para cá nos últimos anos. Irão apenas tomar, implacavelmente, das nossas indústrias, o mercado sul-americano.
Um artigo publicado hoje por Mauro Santayanna no Jornal do Brasil ajuda a entender porque o país se tornou o “queridinho” dos mercados sem exibir um sucesso econômico quue se reflita nos padrões de vida de seu povo.
O “prêmio de bom-comportamento” do México é, essencialmente, ter feito o que Fernando Henrique fez no Brasil em 1997: abrir a exploração de petróleo aos grupos estrangeiros.
Santayanna é o melhor remédio contra o discursoo que a direita brasileira se prepara para fazer; o da “mexicanização” do Brasil.
Isso inclui, além do petróleo, acordos comerciais lesivos, com o abandono das parcerias no Mercosul e “fllexibilização” dos direitos trabalhistas para que se possa usar o Brasil como plataforma de montagem de produtos para a exportaçãoo, o que definirão com o nome de “reindustrialização” do país.
O mundo está mudando, mas não mudou e nem mudaram os interesses que fazem “money makes the world go around”.
O Gato e a Lebre
O México é um país pobre e desigual
Mauro Santayanna
A OCDE – Organização para o Comércio e o Desenvolvimento Econômico, divulgou um relatório, na última terça-feira, classificando o México e o Chile, ambos formalmente sócios da “Aliança do Pacífico”, como os dois países com maior desigualdade do grupo.
Até aí, nada a estranhar, a OCDE reúne países teoricamente desenvolvidos, que exibem dados sociais – remanescentes do período anterior à crise economia – melhores do que a da maioria dos países latino-americanos, mas eles tem se deteriorado rapidamente nos últimos anos.
A dívida explodiu entre os 34 membros da OCDE, principalmente os PIIGS (Portugal, Itália, Irlanda e Espanha). E o desemprego aumentou para um total de 48 milhões de pessoas, 15 milhões a mais do que em 2007, alcançando em alguns lugares, como a própria Espanha, taxas próximas a 30%.
O Chile – costumeiramente apresentado como um “milagre” latino-americano, que muitos atribuem a Pinochet – consegue ser ainda mais desigual que o México.
Mas o México perde para o Chile em renda. A sua é a menor da OCDE, e uma das mais baixas entre os países latino-americanos.
O país de Zapata, também cantado pela mídia como “exemplo” para o continente, tem, segundo estatística do FMI de 2012, renda menor que a do Chile, Uruguai, Brasil, Argentina e Venezuela.
E o pior, no lugar de crescer, ela tem diminuído nos últimos três anos. Isso, considerando-se que o México não conta com uma legislação trabalhista ou uma rede de proteção social, ou programas de renda mínima, que possam garantir um mínimo de dignidade para a população.
Na nação dos tacos e da tequila – o que explica parte de seu “sucesso” manufatureiro na montagem e maquiagem, com peças de terceiros, de produtos destinados aos Estados Unidos – sequer existe seguro-desemprego.
Segundo a Organização Internacional do Trabalho, quase 60% dos empregos no México são informais, contra 28% na Argentina, 34% no Brasil, 45% na Colômbia, e 45% no Peru. E quatro em cada dez cidadãos mexicanos não conseguem dinheiro para pagar uma cesta básica a cada 30 dias.
Como faziam os meios de comunicação espanhóis, que achavam que a Espanha estava uma maravilha, quando na verdade, já estava sendo engolida pela crise, os jornais mexicanos se gabam do país ter entrado para o NAFTA, o acordo que os uniu, economicamente, ao Canadá e aos Estados Unidos, e de terem assinado, com outros países, dezenas de acordos bilaterais de livre comércio.
Mas não falam dos déficits históricos em sua balança comercial, que sua renda per capita está praticamente estagnada há mais de duas décadas, e que seu poder de compra tem caído, no lugar de aumentar, nos últimos anos.
O problema da fome, do abastecimento e da inflação de alimentos também é muito grave no membro mais pobre do NAFTA.
Muita gente acha que o Brasil tem que parar de mandar alimentos para a Venezuela, mas não sabe que o governo mexicano está ultimando a compra, em nosso país, em caráter emergencial, de 300.000 toneladas de frango, para impedir que o preço das proteínas exploda, e que falte comida nos supermercados.
Muitos mexicanos também acreditam na balela de que o México é grande exportador de manufaturas, enquanto o Brasil só exporta commodities – esquecendo-se que somos o terceiro maior fabricante e vendedor global de aviões.
O fato de que sejamos o maior exportador mundial de suco de laranja, café, açúcar, carnes, – além de primeiro em minério de ferro e o segundo em etanol – e de que tenhamos triplicado nossa safra de grãos nos últimos 12 anos e estejamos a ponto de ultrapassar os EUA como o maior exportador de soja do mundo, só quer dizer uma coisa: soubemos dar mais valor à segurança alimentar do que outros países latino-americanos, e hoje temos comida para abastecer nossa mesa, e para vender para o resto do mundo.
Na hora de ler os jornais, ouvir o rádio, ou ver os noticiários de televisão, ao ouvir falar das ”reformas” e de supostos avanços mexicanos com relação ao Brasil – quando eles cresceram a metade do nosso PIB no último ano – é bom ficar com o pé atrás e colocar as barbas de molho.
Não podemos comer gato por lebre, e seguir os passos dos mexicanos, que venderam a alma ao diabo, ao se agregar – como pouco mais que escravos e camareiros – ao sistema econômico norte-americano.
Ao nos oferecer acordos semelhantes, como a UE está fazendo agora – e os EUA tentarão fazer logo em seguida – os países “ocidentais” não vão abrir seus mercados para nossas manufaturas – pelo contrário, eles têm reduzido suas compras e aumentado as vendas para cá nos últimos anos. Irão apenas tomar, implacavelmente, das nossas indústrias, o mercado sul-americano.
terça-feira, junho 12, 2012
"Criamos uma Europa dos bancos"
A solução histórica para a Europa seria uma melhor integração numa união política e orçamentária, de acordo com modalidades capazes de pôr termo ao “déficit democrático” e de tornar as instituições europeias mais responsáveis perante os cidadãos. Mas, antes que a Europa esteja em condições de dar esse passo histórico, ela deve mostrar que aprendeu com as lições do passado. A União Europeia foi criada para evitar a repetição dos desastres dos anos 1930. O artigo é de Nouriel Roubini (foto) e Niall Ferguson.
Niall Ferguson e Nouriel Roubini - Le Monde
Qual é a situação hoje? Diferentes países da zona do euro estão em depressão. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Produto Interno Bruto sofrerá uma contração de 4,7% na Grécia e de 3,3% em Portugal. A taxa de desemprego atinge 24,3% na Espanha, 21,7% na Grécia, 15,2% em Portugal e 14,2% na Irlanda. A dívida pública já ultrapassa em 110% do PIB da Grécia, da Irlanda e de Portugal. Esses países, com a Espanha, estão de fato excluídos do mercado obrigatório em Euros.
É nesse contexto que se perfila a crise bancária. Faz mais de três anos que repetimos que a Europa continental deve apurar os balanços deploráveis de seus bancos. E nada foi feito. Ao mesmo tempo, persegue-se há dois anos uma discreta fuga de liquidez nesses países da zona do euro: o financiamento transfronteiriço e interbancário pouco a pouco se esgotou, em troca de financiamento pelo Banco Central Europeu (BCE); e o “smart money” - depósitos de altas quantias não garantidas efetuados por fortunas privadas – abandonou os rios da Grécia e os bancos dos países do Sul da Europa.
Mas o público perdeu a confiança e o movimento de desengajamento bancário poderá estender-se aos depósitos garantidos de menor volume. Na verdade, se a Grécia vier a sair da zona do euro, assistiremos a um congelamento dos depósitos e os depósitos em euro seriam convertidos em novos dracmas: também, um euro num banco grego já não é equivalente a um euro depositado num banco alemão. No mês de abril os gregos sacaram mais de 700 milhões de euros de seus bancos.
Mais inquietante ainda: assistimos em abril a um nítido aumento das retiradas em alguns bancos espanhóis. O lamentável resgate do Bankia pelo governo só fez agravar a ansiedade do público. Quando de uma passada recente por Barcelona, um de nós foi diversas vezes questionado se arriscaria confiar seu dinheiro a um banco espanhol. Esse tipo de processo é explosivo. O que é apenas um “jogging bancário” poderá se transformar numa rápida fuga de capitais. E assistiríamos a um pânico bancário generalizado no seio dos PIIGs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia, Espanha), caso uma saída da Grécia gere um congelamento nos depósitos em euro e uma mudança na moeda do país. "Quem é o próximo? - se perguntará, então.
Ao mesmo tempo, a restrição do crédito pelos bancos da zona do euro presentes nos países ditos periféricos permanece severa, apesar das denegações dos bancos – incapazes de elevar o nível de seus próprios fundos a 9%, segundo as exigências da autoridade bancária europeia pela elevação dos capitais privados – vendem ativos e contraem o crédito, agravando de uma só vez a recessão na zona do euro. Fragmentação e balcanização bancárias, mas também “nacionalização’ das dívidas públicas não cessam de ganhar terreno, o que poderá conduzir à desintegração do sistema bancário da zona do euro.
O processo de fragmentação política se acentua igualmente na Europa. Quando das eleições gregas, sete em cada dez eleitores deram voz a pequenos partidos opostos ao programa de austeridade imposto a Grécia, em vez de a dois planos de resgate capitaneados pela União Europeia (EU).
Os partidos tradicionais também perderam terreno para formações dissidentes na Itália, onde a “geração 5 estrelas” do artista Beppe Grillo acaba de obter o controle da cidade de Parma, e na Alemanha, onde o partido franco atirador Pirata está fazendo um estrago.
O caminho que permitirá a saída da crise parece no entanto claro. Primeiramente, como os Estados Unidos fizeram com o Plano Paulson, é preciso que o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FESF) e o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MES) ponham em marcha – pelo viés das ações preferenciais de dividendos prioritários sem direito de voto – um programa de recapitalização direta dos bancos da zona do euro, tanto na periferia como no centro.
Uma abordagem consistente na recapitalização dos bancos pelos empréstimos subscritos pelos Estados sob os mercados nacionais obrigatórios – e ou a cargo do FESF – produziu efeitos desastrosos na Irlanda e na Grécia: levou a um forte aumento da dívida pública e a um aumento ainda maior da insolvência dos Estados, tornando os bancos mais arriscados, à medida que, quanto mais a dívida pública for “nacionalizada”, mais uma parte crescente da dívida presumida repousa entre as suas mãos.
As injeções diretas de capital contornariam os Estados e permitiram que se evitasse o aumento da dívida pública. Na prática, o contribuinte da zona do euro tornar-se-ia acionista dos bancos da zona e a balcanização bancária em curso – assim como a resistência política às fusões-aquisições transnacionais que os sistemas bancários nacionais, mimados por demais, oferecem - seria refreada.
Claro, com o tempo, os bancos saudáveis que constituiriam seu capital graças aos seus lucros poderiam recomprar as ações preferenciais públicas. Assim, essa nacionalização parcial seria provisória, levaria o tempo de resgate e de re-privatizações.
Em segundo lugar, a fim de evitar um pânico bancário no seio da zona do euro – coisa certa no caso da saída da Grécia da zona, e provável em todo caso – é preciso instaurar, na escala da União Europeia, um sistema de garantia de depósitos bancários. A fim de reduzir o risco moral (assim como o risco das ações e do crédito endossado pelos contribuintes da zona do euro na fase de recapitalização e de instauração do mecanismo de garantia dos depósitos), várias outras medidas deveriam ser tomadas
De início, o sistema de garantia de depósitos deve ser financiado pelas contribuições bancárias apropriadas: isso poderia tomar a forma de uma taxa sobre as transações financeiras ou, melhor ainda, de retenções sobre todos os passivos dos bancos – tanto dos depósitos como dos títulos da dívida.
Segundo, para limitar as perdas potenciais para os contribuintes da zona do euro, é preciso pôr em cena um sistema de resolução de problemas de falência bancária pelos quais os credores sem garantias – tanto subordinadas como principais – dos bancos arcariam com uma parte das perdas antes que o dinheiro dos contribuintes fosse utilizado para cobrir as perdas dos bancos.
Em terceiro lugar, é preciso adotar medidas para limitar o tamanho dos bancos, para evitar o problema dos “grandes demais para quebrar”: no caso do Bankia, é a fusão de sete estabelecimentos de tamanho modesto que deu nascimento a esse banco grande demais para se tornar sombra.
Em quarto, é preciso adotar na escala da União Europeia, um sistema de supervisão e de regulação: se o dinheiro do contribuinte da zona do euro serve de rede de segurança para os capitais e depósitos bancários da zona, então supervisão e regulação não podem permanecer em nível nacional, onde considerações políticas estreitas impedem uma vigilância exemplar.
Outros problemas devem ser resolvidos. Se um dos membros da zona do euro vier a operar sua saída – em razão de uma dívida insustentável e de uma falta de competitividade – os depósitos garantidos em euros seriam muito custosos, pois os países antes de optarem pela saída deverão ter de converter na nova divisa nacional os créditos até então liberados em euros.
De outra parte, se a garantia dos depósitos não for validada senão à condição de o país não sair da zona, então esse país ficaria incapacitado de evitar uma fuga de liquidez. Também é preciso adotar políticas que permitam minimizar os riscos de saída da zona. Três medidas, em particular, são necessárias:
1. As políticas de austeridade orçamentária não devem ser estritas demais em sua fase inicial (pois assim corre-se o risco de se ter um efeito recessivo), ao passo que as reformas estruturais que melhorem a produtividade devem ser aceleradas.
2. O crescimento econômico na zona do euro deve ser retomado. Sem crescimento, a reação política e social diante da austeridade corre o risco de ser devastadora. Reembolsar suas dívidas não é sustentável sem crescimento.
3. As políticas para alcançar esse objetivo poderiam implicar uma flexibilização monetária da parte do Banco Central Europeu, um euro menos forte, um pouco de estímulo orçamentário no coração da zona do euro, mais despesas com infraestrutura, redução de bloqueios e estímulos de ofertas à periferia (com uma “regra de ouro” para os investimentos públicos), e a vinculação dos altos salários à produtividade nos países de centro, a fim de se incrementar a renda e o consumo.
É preciso, enfim, um processo que permita se chegar à mutualização das dívidas. Existe um certo número de propostas de obrigações europeias e, cada uma delas, tem vantagens e inconvenientes. Dentre elas, é preciso apoiar a proposição, feita pelo Conselho alemão de experts para a apreciação da evolução econômica geral, de um Fundo de Amortização Europeu (FAE) – não porque seja a solução ideal, mas porque é a única capaz de dar segurança aos alemães.
Um programa de empregos temporários que não implique a emissão de obrigações europeias permanentes; o FAE se apoia numa garantia e estabelece prioridades para o seu financiamento, e ofereceria uma forte condicionalidade. O risco principal é que toda proposta aceitável pela Alemanha implique uma perda tal de soberania nacional em matéria de política orçamentária que ela seria inaceitável para os países da periferia.
Renunciar a uma parte de sua soberania é inevitável. No entanto, que a política orçamentária de um país se torne objeto de uma submissão “neocolonial” à Alemanha – como o formulou para nós um alto responsável de um país periférico, quando da reunião do Instituto Nicolas Berggruen, em Roma – não é aceitável. Até aqui, a posição alemã tem sido negativa, a respeito de propostas desse gênero. A proposta nuançada que fazemos aqui poderia apaziguar as inquietações alemãs. Mesmo que eles não estejam convencidos, eles devem compreender que o custo de uma quebra da zona do euro seria astronômico – tanto para a Alemanha, como para os outros países.
No fim das contas, a solução histórica para a Europa seria uma melhor integração numa união política e orçamentária, de acordo com modalidades capazes de pôr termo ao “déficit democrático” e de tornar as instituições europeias mais responsáveis perante os cidadãos. Isso sempre esteve implícito no projeto da união monetária.
Mas, antes que a Europa esteja em condições de dar esse passo histórico, ela deve mostrar que aprendeu com as lições do passado. A União Europeia foi criada para evitar a repetição dos desastres dos anos 1930. Chegou o tempo de os responsáveis europeus – e sobretudo os dirigentes alemães – de compreenderem que eles estão perto de provocarem um retorno aqueles anos.
(*) Niall Ferguson é professor de história da economia na Universidade Harvard; Nouriel Roubini é professor de economia da Universidade de Nova York.
Tradução do francês: Katarina Peixoto
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
Brasil pode crescer sem problemas a 7% ao ano, diz Delfim
Entrevista: Déficit em transações correntes não assusta o ex-ministro, conselheiro informal do governo Lula
A política cambial brasileira é um desastre, mas sua consequência mais imediata – o aumento do déficit em transações correntes – não assusta. O país pode crescer 7% ao ano com endividamento externo nos próximos cinco anos e, antes que se torne um problema, o déficit poderá ser resolvido com a entrada dos dólares oriundos das exportações do petróleo do pré-sal, que começarão a fluir a partir de 2015. O que assusta nesse cenário otimista de crescimento elevado são os efeitos do câmbio valorizado sobre a indústria nacional. Essa é a avaliação do economista Antônio Delfim Netto, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.
O petróleo da camada do pré-sal, para Delfim, é a grande saída para evitar os dois entraves que “sempre limitaram nosso crescimento”: o déficit em conta corrente e a falta de energia. O pré-sal, no entanto, pode chegar atrasado. Graças ao câmbio valorizado, que, segundo ele, “está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada”, a atividade industrial pode alcançar 2015 fragilizada.
Segundo Delfim, um dos conselheiros econômicos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe, o governo agiu de maneira “razoavelmente correta”. A estratégia de fundir e fortalecer grandes grupos nacionais em diferentes setores por meio de operações financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é acertada, diz Delfim. “Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando essa estratégia com aquela história de que ‘o Estado escolhe os vencedores’. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.”
Delfim reconhece que os investimentos públicos melhoraram um pouco, mas critica outros gastos do governo federal, como os aumentos dados ao funcionalismo público. “É muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo”, diz. Para ele, é preciso aproveitar as eleições de outubro deste ano para conscientizar a sociedade de que “existem limites físicos ao crescimento”, que para ocorrer no longo prazo prescinde de um consumo menos acelerado no presente. A seguir, os principais trechos da entrevista de Delfim Netto:
Valor: A crise mundial acabou?
Antonio Delfim Netto : O pior passou, mas temos resquícios, embora isso não signifique uma crise em forma de “W” ou “L”. O nível de atividade na economia real está com um sentimento de entusiasmo, porque voltou a crescer, mas continua um resíduo no sistema financeiro. Agora, o equilíbrio fiscal de alguns países, que tinham razoável equilíbrio antes da crise, piorou demais por causa da ação anticíclica feita no ano passado. O problema mais importante hoje é o risco que se estabeleceu sobre o euro. No fundo, na minha opinião, nenhum daqueles países mais enrascados, como Grécia, Espanha, Portugal ou Itália vai quebrar. Eles vão ter de fazer um ajuste que vai depender da política de cada país, da qualidade de sua administração, mas todos têm um interesse medonho de permanecer no euro. A questão é que esses países já estavam quebrados há muito tempo, mas não era algo visível, porque eles se beneficiavam do euro, que reduziu as taxas de juros dos papéis desses países dramaticamente. Em lugar de aproveitar os juros baixos da moeda única para melhorar sua situação fiscal, reduzindo sua dívida, eles continuaram em situações dramáticas. No caso da Espanha, você tem país robusto, grande, com investimentos externos importantes, mas com uma taxa de desemprego gigantesca e de composição crítica, porque ocorre na faixa entre 20 e 30 anos de idade.
Valor: A situação fiscal dos países europeus é a grande preocupação deste 2010?
Delfim : Todo mundo sempre imaginou que a Europa fosse uma área monetária ótima. Agora está provado que não é possível ter uma área monetária ótima sem ter um governo, sem uma política fiscal ou uma política monetária. Esses países abdicaram de seus poderes. Lá os presidentes e primeiro-ministros são como os prefeitos de regiões dentro de um só país. Os presidentes da Grécia, da Espanha, da Itália são prefeitos para administrar saúde, educação. Essa área monetária ótima para a qual estão caminhando na comunidade europeia chegou num ponto crítico. Bateram no teto. Daqui para frente, precisarão instituir um controle muito maior da parte fiscal dos países membros. Agora é um problema sério.
Valor: Há um ano, havia certo consenso de que o Estado deveria ampliar gastos e incorrer em déficits fiscais, se preciso, para estimular a economia. Hoje, o debate se dá quanto à retirada desses estímulos. O cenário mudou rapidamente?
Delfim : Quando se está em processo recessivo é natural que se use a política fiscal para reduzir os efeitos negativos. Mas é natural que se use a política fiscal no sentido correto. Ninguém propõe aumento de custeio. O ideal seria que cada país tivesse um estoque de projetos de infraestrutura com taxas de retorno baixas – porque se fossem altas o setor privado os faria – que poderia ser rolado pelo Estado num momento de crise. Quando termina a crise, a situação fiscal volta para o equilíbrio. Só que é muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo.
Valor: É o que tem acontecido no Brasil?
Delfim : Em parte é, mas no caso brasileiro houve um aumento do investimento um pouquinho maior do que as pessoas dizem. É claro que tudo isso é medido em relação ao PIB e essas medidas são terrivelmente enganosas, porque quando se diz que a despesa de custeio do governo está constante em 5% do PIB, as pessoas esquecem que o PIB está crescendo, então se ela permanece constante significa que a despesa aumentou também. É um truque impressionístico.
Valor: O estímulo do consumo foi a estratégia correta?
Delfim : Claro, mas o nível de consumo não cresceu em relação ao PIB, permanecendo constante na casa dos 65% do PIB mesmo depois das medidas. Essa foi uma medida anticíclica de verdade, porque ela vai terminar. Aumento de funcionalismo público não é medida anticíclica.
Valor: Mas isso também não aconteceu?
Delfim : Aconteceu. Acho o governo Lula com muitas virtudes, mas não é uma coisa perfeita. Como todo governo, tem suas idiossincrasias, suas preferências. É um Estado onde o sindicalismo tem um poder muito maior do que tinha, apesar da participação dos sindicatos ter diminuído. O verdadeiro trabalhador teme o sindicato. Mas tudo isso são pequenas coisas dentro de um grande projeto. É uma ilusão tentar diminuir o governo Lula, como é uma ilusão tentar diminuir o governo Fernando Henrique, que cometeu seus erros. Desde 1988 o país foi encontrando seu caminho com um sistema político organizado. Talvez seja o único país subdesenvolvido que não tem nenhum problema maior.
Valor: O que o sr. achou da ação do Banco Central no período?
Delfim : O governo entrou na crise no dia 16 de setembro de 2008 [um dia depois da falência do Lehman Brothers nos EUA]. Por quê? Porque o sistema bancário brasileiro não poderia ficar em tom de deselegância com o resto do mundo. O sistema bancário do mundo parou, o sistema bancário brasileiro tinha de parar também. O Banco Central poderia ter agido mais rapidamente, mas também há justificativas para seu conservadorismo. O funcionário do BC é um homem temeroso, porque está vendo aqueles que fizeram o Proer, que com custo de 3% do PIB higienizou o sistema bancário brasileiro, respondendo a processos do Ministério Público, com bens indisponíveis e tudo o mais. Isso assusta o funcionário. Como é que ele vai tomar risco, se não tem proteção? Acho que isso torna a ação do BC sempre lenta e homeopática.
Valor: O sr. percebe uma ressureição do consenso acerca do Estado grande?
Delfim : É preciso separar as coisas. Estado balofo é um equívoco. A economia de mercado não é o sistema financeiro. A economia de mercado é o sistema produtivo, a economia real. Esse foi vítima, tendo sido encoleirado pelo sistema financeiro, que deveria ser servo do sistema produtivo. Foi uma farra em que todo mundo ganhou e é visível que esse sistema não pode continuar sem um controle eficaz das operações financeiras. Mas isso nada tem a ver com o sistema produtivo. O Estado produtor é uma tragédia, mas Estado indutor é fundamental. Não há desenvolvimento econômico no mundo que não tenha sido feito sem o apoio de um Estado indutor. A maior ilusão é pensar que o desenvolvimento inglês, na revolução industrial, não tinha o Estado por trás. Os americanos então nem se fala. Algumas pessoas imaginam que os EUA sempre foram liberais. Não tem nada disso.
Valor: O sr. vê gente no governo defendendo o Estado balofo?
Delfim : Honestamente, não. É preciso distinguir o partido do governo. O PT tem isso no sangue, não adianta ficar com ilusão. É o Estado que convém ao estamento sindical. Não acredito que algum dos dois candidatos [do PT e do PSDB] tenha uma ideia de Estado balofo. Os dois, acredito, defendem um Estado indutor forte, mas isso nada tem a ver com o Estado cheio de funcionário público fingindo que está trabalhando.
Valor: A oposição critica o governo Lula por, segundo entende, promover um retorno do Estado interventor. O que o sr. acha?
Delfim : Nenhum tijolo do Minha Casa, Minha Vida foi feito pelo Estado. Tudo tem participação do setor privado. Este é o efeito típico do Estado indutor. É uma crítica indevida. O absurdo seria o Estado fazer as usinas de Santo Antônio e Jirau, mas o Estado criar condições para essas usinas é algo fundamental. Acho que o governo tem agido de maneira razoavelmente correta. Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando o governo com aquela história de que “o Estado escolhe os vencedores”. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.
Valor: O cenário pós-2010 é de continuidade?
Delfim : O Brasil é o ‘avant-garde’ do mundo. A situação brasileira melhorou muito mesmo, mas o Lula soube vender isso como ninguém, ele é um ótimo marqueteiro. É claro que os investidores estrangeiros enxergam o Brasil com muitos bons olhos e veem isso porque as perspectivas de crescimento são importantes e são reais.
Valor: O que o sr. mudaria?
Delfim : Estou velho demais para isso. Vejo o Brasil com grande otimismo. Temos todas as condições para engrenar um crescimento de 6% ou 7% ao ano. Com o crescimento populacional diminuindo, isso nos colocará numa situação muito interessante, com consciência ecológica e desenvolvimento dos combustíveis renováveis. O Brasil tem tudo para chegar na metade do século XXI como um país desenvolvido, democrático, um mercado interno com proporções extraordinárias e importante participação política no mundo. Não vejo nenhuma restrição. O pré-sal é uma garantia, que vai aparecer entre 2014 e 2015. Até lá o câmbio flutuante e as reservas que temos vão dar conta desse processo de endividamento nas transações correntes. Não vamos voltar a nos endividar nos níveis que nos endividamos no passado, quando ocorreram crises nos anos 80 e 90. Isso dá uma perspectiva nova para o nosso crescimento. O pré-sal é uma espécie de seguro contra os riscos do passado.
Valor: A aposta nesta década que se inicia deve ser o petróleo?
Delfim : O petróleo é século XX, temos de reservá-lo para seu uso mais nobre, que é a indústria química. O Brasil tem tudo para ser um participante extraordinário nisso. Sem o comércio exterior robusto, nenhuma indústria brasileira consegue a dimensão ótima. O comércio exterior é um complemento fundamental do mercado interno.
Valor: O que o sr. acha da queda na balança comercial, que sai de US$ 25 bilhões no ano passado para pouco acima de zero, como prevê o governo, neste ano?
Delfim : A política cambial brasileira é um desastre. É uma ilusão em um país pobre como o Brasil, cujo câmbio é um ativo financeiro manipulado por forças que ele não conhece, ficar defendendo a ideia de que é o mercado quem produz o equilíbrio cambial adequado. Essa ilusão é dirigida por esse mito do fundamentalismo mercadista de que a taxa de câmbio é um fenômeno natural, que intervir é um pecado capital, uma violação às leis divinas. O real valorizado está destruindo nossas cadeias produtivas. Isso está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada. Nós temos que continuar insistindo na diversificação das exportações, no aperfeiçoamento dos ganhos de valor adicionado interno.
Valor: Como isso pode ser feito com câmbio valorizado?
Delfim: Fico espantado de ver as mesmas pessoas que diziam que o câmbio de R$ 1,60 era ruim, agora pedindo para o BC vender dólar a fim de evitar que a cotação alcance R$ 2,00. Sabe qual é a explicação disso? É que as mesmas experiências de derivativos tóxicos realizadas por empresas no período pré-crise estão sendo realizadas agora. Acho que o governo deveria explodi-los mesmo. Nós já fizemos o que podíamos fazer por eles. Daqui para frente é usar o regime iraquiano, que é a limpeza do sistema.
Valor: Das empresas que operam com derivativos de câmbio?
Delfim : O hedge é a coisa mais perfeita que existe. Mas quem usou hedge para especular com a cotação não pode continuar. Não tem nenhuma importância, o patrimônio está aí. Arranja-se um comprador, o BNDES dá um dinheiro, substitui-se a gestão e pronto, melhora.
Valor: A China, com seu câmbio desvalorizado praticamente fixo ao dólar, é um exemplo?
Delfim : Não, e, aliás, do jeito que está, se a China não fechar um acordo razoável de valorização de sua moeda veremos aumento do protecionismo e redução do movimento de capitais. Só um país descerebrado pode pensar que o yuan [a moeda chinesa] vai ser uma moeda internacional. Moeda é confiança. Quem confia no Partido Comunista chinês? Nem os comunistas confiam.
Valor: O que o sr. acha dos candidatos a presidente?
Delfim : A gente só vai julgar os candidatos com seus programas. A coisa mais fundamental é chamar a atenção dos eleitores para um debate novo. Há uns candidatos que chamo de “vendedor de óleo de cobra”, que era aquele sujeito do Velho Oeste que vendia uma solução para qualquer problema, de unha do pé encravada a tumor cerebral. Tem outros que vão vender as coisas possíveis. Temos de insistir em determinados assuntos. O eleitor precisa entender que existem sim limites físicos que não são manipuláveis por nenhum vendedor de óleo de cobra. Que crescimento rápido hoje exige menor consumo. Aumento do consumo hoje significa redução do crescimento amanhã. Portanto, por maior que seja o desejo de redistribuir e crescer, existe um limite físico para isso.
Valor: Algum candidato vai defender consumo menor?
Delfim : Essa é a tarefa da mídia. Não é o candidato que vai dizer isso – embora espere que digam.
A política cambial brasileira é um desastre, mas sua consequência mais imediata – o aumento do déficit em transações correntes – não assusta. O país pode crescer 7% ao ano com endividamento externo nos próximos cinco anos e, antes que se torne um problema, o déficit poderá ser resolvido com a entrada dos dólares oriundos das exportações do petróleo do pré-sal, que começarão a fluir a partir de 2015. O que assusta nesse cenário otimista de crescimento elevado são os efeitos do câmbio valorizado sobre a indústria nacional. Essa é a avaliação do economista Antônio Delfim Netto, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Fazenda e do Planejamento.
O petróleo da camada do pré-sal, para Delfim, é a grande saída para evitar os dois entraves que “sempre limitaram nosso crescimento”: o déficit em conta corrente e a falta de energia. O pré-sal, no entanto, pode chegar atrasado. Graças ao câmbio valorizado, que, segundo ele, “está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada”, a atividade industrial pode alcançar 2015 fragilizada.
Segundo Delfim, um dos conselheiros econômicos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe, o governo agiu de maneira “razoavelmente correta”. A estratégia de fundir e fortalecer grandes grupos nacionais em diferentes setores por meio de operações financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) é acertada, diz Delfim. “Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando essa estratégia com aquela história de que ‘o Estado escolhe os vencedores’. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.”
Delfim reconhece que os investimentos públicos melhoraram um pouco, mas critica outros gastos do governo federal, como os aumentos dados ao funcionalismo público. “É muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo”, diz. Para ele, é preciso aproveitar as eleições de outubro deste ano para conscientizar a sociedade de que “existem limites físicos ao crescimento”, que para ocorrer no longo prazo prescinde de um consumo menos acelerado no presente. A seguir, os principais trechos da entrevista de Delfim Netto:
Valor: A crise mundial acabou?
Antonio Delfim Netto : O pior passou, mas temos resquícios, embora isso não signifique uma crise em forma de “W” ou “L”. O nível de atividade na economia real está com um sentimento de entusiasmo, porque voltou a crescer, mas continua um resíduo no sistema financeiro. Agora, o equilíbrio fiscal de alguns países, que tinham razoável equilíbrio antes da crise, piorou demais por causa da ação anticíclica feita no ano passado. O problema mais importante hoje é o risco que se estabeleceu sobre o euro. No fundo, na minha opinião, nenhum daqueles países mais enrascados, como Grécia, Espanha, Portugal ou Itália vai quebrar. Eles vão ter de fazer um ajuste que vai depender da política de cada país, da qualidade de sua administração, mas todos têm um interesse medonho de permanecer no euro. A questão é que esses países já estavam quebrados há muito tempo, mas não era algo visível, porque eles se beneficiavam do euro, que reduziu as taxas de juros dos papéis desses países dramaticamente. Em lugar de aproveitar os juros baixos da moeda única para melhorar sua situação fiscal, reduzindo sua dívida, eles continuaram em situações dramáticas. No caso da Espanha, você tem país robusto, grande, com investimentos externos importantes, mas com uma taxa de desemprego gigantesca e de composição crítica, porque ocorre na faixa entre 20 e 30 anos de idade.
Valor: A situação fiscal dos países europeus é a grande preocupação deste 2010?
Delfim : Todo mundo sempre imaginou que a Europa fosse uma área monetária ótima. Agora está provado que não é possível ter uma área monetária ótima sem ter um governo, sem uma política fiscal ou uma política monetária. Esses países abdicaram de seus poderes. Lá os presidentes e primeiro-ministros são como os prefeitos de regiões dentro de um só país. Os presidentes da Grécia, da Espanha, da Itália são prefeitos para administrar saúde, educação. Essa área monetária ótima para a qual estão caminhando na comunidade europeia chegou num ponto crítico. Bateram no teto. Daqui para frente, precisarão instituir um controle muito maior da parte fiscal dos países membros. Agora é um problema sério.
Valor: Há um ano, havia certo consenso de que o Estado deveria ampliar gastos e incorrer em déficits fiscais, se preciso, para estimular a economia. Hoje, o debate se dá quanto à retirada desses estímulos. O cenário mudou rapidamente?
Delfim : Quando se está em processo recessivo é natural que se use a política fiscal para reduzir os efeitos negativos. Mas é natural que se use a política fiscal no sentido correto. Ninguém propõe aumento de custeio. O ideal seria que cada país tivesse um estoque de projetos de infraestrutura com taxas de retorno baixas – porque se fossem altas o setor privado os faria – que poderia ser rolado pelo Estado num momento de crise. Quando termina a crise, a situação fiscal volta para o equilíbrio. Só que é muito mais fácil gastar em custeio que em investimento. Investimento dá trabalho. Precisa de projeto, administração. Custeio é uma alegria, distribui-se empregos, aumenta salário, algo que dá grande prestígio ao governo.
Valor: É o que tem acontecido no Brasil?
Delfim : Em parte é, mas no caso brasileiro houve um aumento do investimento um pouquinho maior do que as pessoas dizem. É claro que tudo isso é medido em relação ao PIB e essas medidas são terrivelmente enganosas, porque quando se diz que a despesa de custeio do governo está constante em 5% do PIB, as pessoas esquecem que o PIB está crescendo, então se ela permanece constante significa que a despesa aumentou também. É um truque impressionístico.
Valor: O estímulo do consumo foi a estratégia correta?
Delfim : Claro, mas o nível de consumo não cresceu em relação ao PIB, permanecendo constante na casa dos 65% do PIB mesmo depois das medidas. Essa foi uma medida anticíclica de verdade, porque ela vai terminar. Aumento de funcionalismo público não é medida anticíclica.
Valor: Mas isso também não aconteceu?
Delfim : Aconteceu. Acho o governo Lula com muitas virtudes, mas não é uma coisa perfeita. Como todo governo, tem suas idiossincrasias, suas preferências. É um Estado onde o sindicalismo tem um poder muito maior do que tinha, apesar da participação dos sindicatos ter diminuído. O verdadeiro trabalhador teme o sindicato. Mas tudo isso são pequenas coisas dentro de um grande projeto. É uma ilusão tentar diminuir o governo Lula, como é uma ilusão tentar diminuir o governo Fernando Henrique, que cometeu seus erros. Desde 1988 o país foi encontrando seu caminho com um sistema político organizado. Talvez seja o único país subdesenvolvido que não tem nenhum problema maior.
Valor: O que o sr. achou da ação do Banco Central no período?
Delfim : O governo entrou na crise no dia 16 de setembro de 2008 [um dia depois da falência do Lehman Brothers nos EUA]. Por quê? Porque o sistema bancário brasileiro não poderia ficar em tom de deselegância com o resto do mundo. O sistema bancário do mundo parou, o sistema bancário brasileiro tinha de parar também. O Banco Central poderia ter agido mais rapidamente, mas também há justificativas para seu conservadorismo. O funcionário do BC é um homem temeroso, porque está vendo aqueles que fizeram o Proer, que com custo de 3% do PIB higienizou o sistema bancário brasileiro, respondendo a processos do Ministério Público, com bens indisponíveis e tudo o mais. Isso assusta o funcionário. Como é que ele vai tomar risco, se não tem proteção? Acho que isso torna a ação do BC sempre lenta e homeopática.
Valor: O sr. percebe uma ressureição do consenso acerca do Estado grande?
Delfim : É preciso separar as coisas. Estado balofo é um equívoco. A economia de mercado não é o sistema financeiro. A economia de mercado é o sistema produtivo, a economia real. Esse foi vítima, tendo sido encoleirado pelo sistema financeiro, que deveria ser servo do sistema produtivo. Foi uma farra em que todo mundo ganhou e é visível que esse sistema não pode continuar sem um controle eficaz das operações financeiras. Mas isso nada tem a ver com o sistema produtivo. O Estado produtor é uma tragédia, mas Estado indutor é fundamental. Não há desenvolvimento econômico no mundo que não tenha sido feito sem o apoio de um Estado indutor. A maior ilusão é pensar que o desenvolvimento inglês, na revolução industrial, não tinha o Estado por trás. Os americanos então nem se fala. Algumas pessoas imaginam que os EUA sempre foram liberais. Não tem nada disso.
Valor: O sr. vê gente no governo defendendo o Estado balofo?
Delfim : Honestamente, não. É preciso distinguir o partido do governo. O PT tem isso no sangue, não adianta ficar com ilusão. É o Estado que convém ao estamento sindical. Não acredito que algum dos dois candidatos [do PT e do PSDB] tenha uma ideia de Estado balofo. Os dois, acredito, defendem um Estado indutor forte, mas isso nada tem a ver com o Estado cheio de funcionário público fingindo que está trabalhando.
Valor: A oposição critica o governo Lula por, segundo entende, promover um retorno do Estado interventor. O que o sr. acha?
Delfim : Nenhum tijolo do Minha Casa, Minha Vida foi feito pelo Estado. Tudo tem participação do setor privado. Este é o efeito típico do Estado indutor. É uma crítica indevida. O absurdo seria o Estado fazer as usinas de Santo Antônio e Jirau, mas o Estado criar condições para essas usinas é algo fundamental. Acho que o governo tem agido de maneira razoavelmente correta. Frequentemente ouvimos certas pessoas criticando o governo com aquela história de que “o Estado escolhe os vencedores”. Fazem isso porque eles são perdedores, não foram escolhidos, como gostariam ser.
Valor: O cenário pós-2010 é de continuidade?
Delfim : O Brasil é o ‘avant-garde’ do mundo. A situação brasileira melhorou muito mesmo, mas o Lula soube vender isso como ninguém, ele é um ótimo marqueteiro. É claro que os investidores estrangeiros enxergam o Brasil com muitos bons olhos e veem isso porque as perspectivas de crescimento são importantes e são reais.
Valor: O que o sr. mudaria?
Delfim : Estou velho demais para isso. Vejo o Brasil com grande otimismo. Temos todas as condições para engrenar um crescimento de 6% ou 7% ao ano. Com o crescimento populacional diminuindo, isso nos colocará numa situação muito interessante, com consciência ecológica e desenvolvimento dos combustíveis renováveis. O Brasil tem tudo para chegar na metade do século XXI como um país desenvolvido, democrático, um mercado interno com proporções extraordinárias e importante participação política no mundo. Não vejo nenhuma restrição. O pré-sal é uma garantia, que vai aparecer entre 2014 e 2015. Até lá o câmbio flutuante e as reservas que temos vão dar conta desse processo de endividamento nas transações correntes. Não vamos voltar a nos endividar nos níveis que nos endividamos no passado, quando ocorreram crises nos anos 80 e 90. Isso dá uma perspectiva nova para o nosso crescimento. O pré-sal é uma espécie de seguro contra os riscos do passado.
Valor: A aposta nesta década que se inicia deve ser o petróleo?
Delfim : O petróleo é século XX, temos de reservá-lo para seu uso mais nobre, que é a indústria química. O Brasil tem tudo para ser um participante extraordinário nisso. Sem o comércio exterior robusto, nenhuma indústria brasileira consegue a dimensão ótima. O comércio exterior é um complemento fundamental do mercado interno.
Valor: O que o sr. acha da queda na balança comercial, que sai de US$ 25 bilhões no ano passado para pouco acima de zero, como prevê o governo, neste ano?
Delfim : A política cambial brasileira é um desastre. É uma ilusão em um país pobre como o Brasil, cujo câmbio é um ativo financeiro manipulado por forças que ele não conhece, ficar defendendo a ideia de que é o mercado quem produz o equilíbrio cambial adequado. Essa ilusão é dirigida por esse mito do fundamentalismo mercadista de que a taxa de câmbio é um fenômeno natural, que intervir é um pecado capital, uma violação às leis divinas. O real valorizado está destruindo nossas cadeias produtivas. Isso está destruindo o que tínhamos de mais precioso, que era uma indústria extremamente sofisticada e diversificada. Nós temos que continuar insistindo na diversificação das exportações, no aperfeiçoamento dos ganhos de valor adicionado interno.
Valor: Como isso pode ser feito com câmbio valorizado?
Delfim: Fico espantado de ver as mesmas pessoas que diziam que o câmbio de R$ 1,60 era ruim, agora pedindo para o BC vender dólar a fim de evitar que a cotação alcance R$ 2,00. Sabe qual é a explicação disso? É que as mesmas experiências de derivativos tóxicos realizadas por empresas no período pré-crise estão sendo realizadas agora. Acho que o governo deveria explodi-los mesmo. Nós já fizemos o que podíamos fazer por eles. Daqui para frente é usar o regime iraquiano, que é a limpeza do sistema.
Valor: Das empresas que operam com derivativos de câmbio?
Delfim : O hedge é a coisa mais perfeita que existe. Mas quem usou hedge para especular com a cotação não pode continuar. Não tem nenhuma importância, o patrimônio está aí. Arranja-se um comprador, o BNDES dá um dinheiro, substitui-se a gestão e pronto, melhora.
Valor: A China, com seu câmbio desvalorizado praticamente fixo ao dólar, é um exemplo?
Delfim : Não, e, aliás, do jeito que está, se a China não fechar um acordo razoável de valorização de sua moeda veremos aumento do protecionismo e redução do movimento de capitais. Só um país descerebrado pode pensar que o yuan [a moeda chinesa] vai ser uma moeda internacional. Moeda é confiança. Quem confia no Partido Comunista chinês? Nem os comunistas confiam.
Valor: O que o sr. acha dos candidatos a presidente?
Delfim : A gente só vai julgar os candidatos com seus programas. A coisa mais fundamental é chamar a atenção dos eleitores para um debate novo. Há uns candidatos que chamo de “vendedor de óleo de cobra”, que era aquele sujeito do Velho Oeste que vendia uma solução para qualquer problema, de unha do pé encravada a tumor cerebral. Tem outros que vão vender as coisas possíveis. Temos de insistir em determinados assuntos. O eleitor precisa entender que existem sim limites físicos que não são manipuláveis por nenhum vendedor de óleo de cobra. Que crescimento rápido hoje exige menor consumo. Aumento do consumo hoje significa redução do crescimento amanhã. Portanto, por maior que seja o desejo de redistribuir e crescer, existe um limite físico para isso.
Valor: Algum candidato vai defender consumo menor?
Delfim : Essa é a tarefa da mídia. Não é o candidato que vai dizer isso – embora espere que digam.
sexta-feira, abril 20, 2012
Santayana, Cristina Kirchner e Evita. Pobre Urubóloga
Santayana, Cristina Kirchner
e Evita. Pobre Urubóloga
Publicado em 20/04/2012 | Imprima | Vote (+28)
Evita a Franco: e por que não fazem pão ?
O Conversa Afiada reproduz artigo de Mauro Santayana, do JB online:
Mauro Santayana
O Brasil e a Argentina, sendo os dois maiores países da América do Sul, têm sido alvos preferenciais do domínio euro-americano em nosso continente. A Argentina, sob Cristina Kirchner, depois de anos desastrados de ditadura militar, e do governo caricato e neoliberal de Menen, se confronta com Madri, ao retomar o controle de suas jazidas de petróleo que estava com a Repsol. Quando um governo entrega, de forma aviltante, os bens nacionais ao estrangeiro, como também ocorreu no Brasil, procede como quem oferece seu corpo no mercado da prostituição. Assim, as medidas de Cristina buscam reparar a abjeção de Menem.
Será um equívoco discutir o conflito de Buenos Aires com Madri dentro dos estreitos limites das relações econômicas. A economia de qualquer país é um meio para assegurar sua soberania e dignidade – não um fim em si mesma.
As elites espanholas, depois da morte de Franco, foram seduzidas pela idéia de que poderiam recuperar sua presença na América Latina, perdida na guerra contra os Estados Unidos e durante a ditadura de quase 40 anos. Já durante o governo de Adolfo Suárez, imaginaram que poderiam, pouco a pouco, readquirir a confiança dos latino-americanos, ofendidos pela intervenção descarada dos Estados Unidos no continente. De certa forma, procediam com inteligência estratégica: a nossa América necessitava de aliados, mesmo frágeis, como era a Península Ibérica, na reconstrução de sua soberania, mutilada pelos governos militares alinhados a Washington.
Mas faltou aos governantes e homens de negócios espanhóis a habilidade diplomática, que se dissimula na modéstia, e lhes sobrou arrogância. Essa arrogância cresceu quando a Espanha foi admitida na União Européia, e passou a receber fartos recursos dos países ricos do Norte, a fim de acertar o passo continental. A sua estratégia foi a de, com parte dos recursos disponíveis, “comprar” empresas e constituir outras em nossos países. Isso os levou a imaginar que poderiam ditar a nossa política externa, como serviçais que foram, e continuam a ser, dos Estados Unidos. A idéia era a de que, em espanhol, os ditados de Washington seriam mais bem ouvidos.
O paroxismo dessa paranóia ocorreu quando José Maria Aznar telefonou ao presidente Duhalde, da Argentina, determinando-lhe que aceitasse as imposições do FMI, sob a ameaça de represálias. E a insolência maior ocorreu, e sob o governo socialista de Zapatero, quando esse heróico matador de paquidermes indefesos, Juan Carlos, mandou que o presidente Chávez (eleito livremente pelo seu povo, sob a fiscalização de observadores internacionais, entre eles o ex-presidente Carter) se calasse, no encontro iberoamericano de Santiago. Um rei matador de elefantes indefesos e sogro de um acusado de peculato – o bem apessoado serviçal da Telefónica de Espanha, Iñaki Urdangarin, pago com lucros obtidos pela empresa na América Latina, principalmente no Brasil.
Os espanhóis parecem não se dar conta de que as suas antigas colônias se tornaram independentes, umas mais cedo – como é o caso da Argentina – e outras mais tarde, embora muitas passassem ao domínio ianque. Imaginaram que podiam fazer o que faziam antes disso no continente – e incluíram o Brasil na geografia de sua presunção.
O Brasil pode e deve, ser solidário com a Argentina, no caso da recuperação, para seu povo, das jazidas petrolíferas da YPF. E manter a nossa posição histórica de reconhecimento da soberania de Buenos Aires sobre o arquipélago das Malvinas.
Que querem os espanhóis em sua gritaria por solidariedade contra a Argentina, pelo mundo afora? Eles saquearam tudo o que puderam, durante o período colonial, em ouro e prata. Usaram esses recursos imensos – assim como os portugueses fizeram com o nosso ouro – a fim de construir castelos e armar exércitos que só se revelaram eficazes na repressão contra o seu próprio povo – como ocorreu na guerra civil.
Durante o seu período de arrogância subsidiada, trataram com desdém os mal chamados iberoamericanos, humilhando e ofendendo brasileiros e hispanoamericanos, aviltando-os ao máximo. Um só ser humano, em sua dignidade, vale mais do que todos os poços de petróleo do mundo. Antes que Cristina Kirchner determinasse a recompra das ações da YPF em poder da Repsol, patrimônio muito maior dos argentinos e de todos os latinoamericanos, sua dignidade, havia sido aviltada, de forma abjeta e continuada, pelas autoridades espanholas no aeroporto de Barajas e em seu território.
Que se queixem agora aos patrões, como seu chanceler, Garcia-Margallo fez, ao chorar nos ombros da senhora Clinton, e busquem a solidariedade de uma Europa em frangalhos. Ou que rearmem a sua Invencível Armada em Cádiz, e desembarquem no Rio da Prata . Isso, se antes, os milhões de jovens desempregados – a melhor parcela de um povo maravilhoso, como é o da Espanha – não resolvam destituir suas elites políticas, corruptas, incompetentes e opressoras, e seu rei tão ocioso quanto descartável.
E, ao final, vale lembrar a viagem histórica que Eva Perón fez à Europa, no auge de sua popularidade. Em Madri, diante da miséria em que se encontrava o povo, ofereceu a Franco, em nome do povo argentino, alguns navios cheios de trigo. O general respondeu que não era necessário, que os celeiros espanhóis estavam cheios de farinha. E Evita replicou, de pronto: ¿entonces, por qué no hacen pan?
sábado, outubro 20, 2012
Por que a Europa do euro afunda na crise que ela própria alimenta
A Europa do euro, pela ideologia de seus dirigentes e por sua institucionalidade, mergulhou nas tramas de um oximoro: com a decisão do BCE, ela pode ter uma maior capacidade de gasto público, sim, mas desde que não use essa capacidade do lado fiscal, já que tem que reduzir o déficit e a dívida pública. Enquanto isso, a demanda continua estagnada, o desemprego se eleva às nuvens – 13% em média, 25% na Espanha e na Grécia, 50% entre jovens, contração na maioria dos países e queda da taxa de crescimento até na Alemanha. O artigo é de J. Carlos de Assis.
J. Carlos de Assis (*)
Qualquer pessoa com nível razoável de reflexão é capaz de entender a essência da crise financeira mundial que se concentra, sobretudo, nos países mais ricos do mundo, e principalmente na área do euro. Entretanto, essa percepção fica comprometida por um bombardeio ideológico de mídia que se manifesta ora pela distorção dos fatos ora pela manipulação de conceitos econômicos tendo em vista a defesa de interesses específicos de grupos. Vejamos como isso tem funcionado.
A crise originou-se de uma bacanal especulativa nos Estados Unidos e na Europa pela qual trilhões de dólares emprestados e rolados no mercado virtual de tomadores essencialmente insolventes revelaram-se impagáveis. Diante da quebra iminente, o Governo norte-americano, isto é, o Tesouro e o Fed intervieram no mercado para salvar os bancos ilíquidos. A crise financeira privada migrou para a Europa, forçando os governos locais a também intervirem para salvar os bancos.
A contrapartida do socorro aos bancos foi a absorção das suas dívidas pelos governos. No caso norte-americano, o Fed e o Tesouro atuaram conjuntamente, no primeiro caso através de trilhões de dólares de empréstimos de liquidez, e no segundo através de um programa especial (TARF) adotado ainda no Governo Bush, da ordem de 700 bilhões. Além disso, no caso americano, já no Governo Obama aprovou-se um programa adicional de 767 bilhões de dólares de estímulos fiscais, que em parte funcionou.
Disso tudo resultou um aumento vertiginoso do déficit e da dívida pública norte-americana, esta alcançando cerca de 90% do PIB. Não é uma dívida nada extraordinária, considerando-se o tamanho da recessão e do desemprego. Contudo, é uma dívida muito grande para o Partido Republicano. Tendo este último ganhado as eleições para a Câmara em 2009, tratou imediatamente de bloquear no Congresso um novo programa de estímulo proposto por Obama em 2010 de 400 bilhões de dólares.
Portanto, os Estados Unidos poderiam ter perfeitamente insistido no programa de recuperação não fosse a postura fundamentalmente ideológica republicana. Isso teria custado alguns pontos percentuais adicionais da dívida pública, os quais seriam provavelmente recuperados com uma aceleração do crescimento e da receita pública, como acontece em todos os ciclos de crises. Afinal, a despeito do valor absoluto da dívida, o país continua financiando-a a taxas extremamente baixas (3,5%). De qualquer modo, é preciso esperar o resultado das eleições para especular sobre qual destino os Estados Unidos escolherão levando boa parte do mundo consigo.
Na área do euro a situação tornou-se bem mais complexa. Os governos, para salvar os bancos, tiveram de levar a níveis recordes o déficit e a dívida pública. O que surgiu como crise financeira devida à pornográfica especulação foi transformada em crise fiscal pelos governos neoliberais. Assim mesmo, teria sido possível enfrentar a crise mediante um programa de estímulo fiscal caso esses governos, justamente por serem neoliberais, não estivessem obcecados pela idéia de cortar o déficit e a dívida.
E aqui não se trata apenas de ideologia, mas da institucionalidade européia estabelecida a partir da ideologia neoliberal. A Europa do euro criou um Banco Central independente (BCE) que se subordina aos mercados privados, não aos governos. Quando um governo, digamos, a Espanha, decide captar empréstimos, aumentando a dívida pública, fica exclusivamente em mãos do mercado financeiro, que exige a taxa de juros que quiser. Diferentemente do Fed americano, que irriga o mercado de moeda para facilitar a colocação desses títulos a taxas mais baixas, o BCE mantém rígida a oferta monetária, não prestando qualquer ajuda aos governos.
Mais recentemente, Mario Draghi, o presidente do BCE, anunciou a disposição do banco de adquirir títulos dos governos em dificuldade de forma ilimitada desde que subordinem sua política fiscal a programas de austeridade. Isso ajuda muito pouco. É que a compra será no mercado secundário, criando grande conforto para os investidores, mas não liberando dinheiro diretamente para os governos A hipótese é que os donos privados dos títulos no mercado secundário vendam esses títulos ao BCE criando espaço para a compra de títulos novos emitidos pelos governos. Contudo, atenção: os governos não poderão fazer gastos novos financiados por esses títulos porque estarão limitados pelo programa de austeridade.
Assim, a Europa do euro, pela ideologia de seus dirigentes e por sua institucionalidade, mergulhou nas tramas de um oximoro: com a decisão do BCE, ela pode ter uma maior capacidade de gasto público, sim, mas desde que não use essa capacidade do lado fiscal, já que tem que reduzir o déficit e a dívida pública. Enquanto isso, a demanda continua estagnada, o desemprego se eleva às nuvens – 13% em média, 25% na Espanha e na Grécia, 50% entre jovens, contração na maioria dos paises e queda da taxa de crescimento até na orgulhosa Alemanha, que tem feito tudo para matar o seu mercado impondo-lhe políticas restritivas do gasto público!
(*) Economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, do recém-lançado “A Razão de Deus”, pela editora Civilização Brasileira. Esta coluna sai também nos sites Brasilianas e Rumos do Brasil, e, às terças, no jornal carioca “Monitor Mercantil”.
quinta-feira, maio 08, 2014
LEBLON: ARROCHO, DUDU E A RECEITA PARA DESIGUALDADE
Ambos – Arrocho Neves e Dudu 3% – querem devolver aos mercados o comando do país.
O Conversa Afiada reproduz editorial de Saul Leblon, extraído da Carta Maior:
UMA RECEITA PARA A DESIGUALDADE
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como se fosse um biscoito fino para o país.
por: Saul Leblon
O conservadorismo costuma se declarar vítima do maniqueísmo que regularmente carimbaria na testa de seus candidatos rótulos depreciativos aos olhos da população.
Elitistas e entreguistas, por exemplo.
O problema real parece ser outro. Candidaturas conservadoras mostram dificuldade para conciliar o discurso de palanque com a identidade do projeto que defendem para o país.
Na história recente tornou-se emblemático o caso do governador Geraldo Alckmin.
Presidenciável tucano em 2006, ele se fantasiou com adesivos de estatais brasileiras na vã tentativa de afastar compreensíveis suspeitas do eleitor.
Convenceu tanto quanto o lobo vestido de vovozinha na história da Chapeuzinho Vermelho.
Ou então Serra. Em 2010, já descendo a ladeira, aliado ao humanista bispo Malafaia para atacar gays, aborto e petistas, o tucano chegou a acenar com um gesto generoso.
O governo propunha então R$ 538 reais para o salario mínimo válido a partir de 2011, um valor calculado conforme a regra pactuada com CUT e sindicatos quatro anos antes.
‘Acho pouco’, disse o tucano e sapecou:
‘Vou fixar em R$ 600 reais’ (veja aqui: www.youtube.com/watch?v=qzyOIv–uKw).
Não contente, prometeu um aumento de 10% para os aposentados.
E arrematou com o compromisso de incluir 15 milhões no Bolsa Família (o programa reunia então 12,3 milhões; hoje são 13, 8 milhões), ademais de assegurar um 13º pagamento a todos os beneficiados.
Digamos que Dilma tomasse decisão semelhante hoje.
O que diriam os centuriões do equilíbrio fiscal que saíram de faca na boca diante do reajuste de 10% para o Bolsa Família, somado à correção da tabela do IR, ambos anunciados no discurso presidencial do 1º de Maio?
No caso de Serra, zumbiu um silencio obsequioso.
Inútil.
A credibilidade do discurso tucano não superou as desconfianças entranhadas no personagem.
O resultado é sabido: Dilma venceu as eleições de 2010, no 2º turno, por uma diferença de mais de 10 milhões de votos sobre o delfim do conservadorismo.
Tome-se agora o caso dos gêmeos ideológicos, Aécio & Eduardo.
Ambos querem devolver aos mercados o comando do país.
Há diferenças de estilo, mas nisso são univitelinos.
Em linguagem explícita ou cifrada vão alternando, como num jogral, detalhes de como se faz esse cozido de uma Nação.
Junte um Banco Central independente (da sociedade), a um choque de juros; acrescente mais duas voltas de arrocho com um superávit de 3,5%. Pique a meta da inflação ao gosto dos rentistas. Depois misture tudo com a batedeira da liberdade irrestrita aos capitais; leve ao forno da abertura comercial plena, geral e irrestrita.
Sirva fervendo.
Só falta explicitar à opinião pública os custos de cada ingrediente.
Colunistas isentos (ideológicos são os blogueiros ) adornam a omissão com uma condescendência melosa e enjoativa.
A exemplo do que fizeram com Serra não arguem o preço social e estratégica do cardápio maturado na cozinha dos gêmeos ideológicos.
Coube à Presidenta Dilma quebrar o segredo culinário nesta 3ª feira, ao calcular aquilo que se omite deliberadamente:
‘Baixar a meta da inflação para 3% (como querem os gêmeos) jogaria 8,2% dos trabalhadores no desemprego’, advertiu escancarando a linha tênue que separa o salitre impopular do lacto purga antipopular.
Preguiçosa nos cálculos quando se trata de escarafunchar a cozinha conservadora, a mídia reagiu celeremente ao discurso do 1º de Maio.
Manchetes faiscantes denunciavam no dia seguinte a ‘gastança’: R$ 8,9 bi vai custar o reajuste de 10% para o Bolsa Família e a correção da tabela do IR.
A assimetria da reação reflete uma divergência de prioridades.
Um aumento anterior de impostos providenciado pelo governo, sobre cervejas e refrigerantes, custeará quase a metade da despesa anunciada no 1º de Maio (R$ 3,6 bi).
O mercado financeiro reagiu inconsolável.
Do Itaú, o Banco Central tucano, veio a explicação: ‘esperava-se que a receita extra fosse cobrir despesas das elétricas para não prejudicar ainda mais o superávit de 2014’.
Em bom português: teme-se que a hidráulica fiscal vire o registro para subtrair água dos que já tem a caixa cheia, em benefício de que vivem de gota em gota.
Só no 1º trimestre deste ano, por exemplo, R$ 13,048 bilhões foram adicionados à caixa dos rentistas da dívida interna.
O volume poderia ser significativamente menor se o registro dos juros girasse para baixo.
O Brasil paga o terceiro juro real mais alto do mundo, cerca de 5%, depois de uma queda de braço em que Dilma conseguiu, momentaneamente, trazer para 3,5%, uma taxa real que foi da ordem de 11,5%, em média, no segundo governo Lula e de 18,5% na média do segundo governo FHC.
As medidas que os gêmeos ideológicos listam para o país requisitam um cavalo de pau nessa trajetória descendente.
Com elevado risco de retornos pífios em relação aos seus próprios objetivos.
É o que demonstra o pulso agonizante de países europeus que desde a crise de 2008 vem sendo tratados com o receituário que Aécio & Eduardo querem agora ministrar aqui.
Vejamos.
Depois de três anos de arrocho, que decepou 7% de sua economia, a dívida pública em Portugal saltou de 108% para 129% do PIB. O desemprego médio passa de 15%; e supera os 30% entre os jovens.
Na Espanha, que começou o arrocho antes do vizinho ibérico, ainda com o PSOE, e o aprofundou com a chegada da direita ao poder, em 2011, o quadro é ainda mais sombrio.
A ponto de o país registrar um déficit fiscal que é quase o dobro daquele anterior à crise.
O arrocho congelou a economia e decepou a receita do governo. A recessão fez o resto e tornou a crise autossustentável.
Há quase seis milhões de desempregados na Espanha (24% da força de trabalho)
A população ativa encolhe mês a mês pela desistência pura e simples de se procurar o que não tem: emprego.
Hoje ela é inferior à existente há seis anos –evolução semelhante a uma situação de guerra, quando os adultos em idade produtiva, jovens, sobretudo, vão para os campos de batalha e não retornam.
Na Espanha eles estão indo às filas de embarque .
A taxa de desemprego na juventude espanhola passa de 55%. Significa que metade de uma geração inteira talvez nunca encontre trabalho em sua terra.
Pior só a Grécia.
Seis de cada 10 jovens gregos estão desempregados e cerca de 4 milhões dos seus 11 milhões de habitantes vivem em um labirinto de pobreza e exclusão.
Há seis anos sob implacável terapia de arrocho, o país perdeu 25% de seu PIB. Em compensação, a taxa de suicídio aumentou 45% desde 2007.
O conservadorismo sabe as consequências da receita que preconiza para o Brasil.
O colunismo especializado, que encena esclarecimento diante do livro de Thomas Piketty (‘ O Capital no Século XXI’), tem a exata dimensão do que está em jogo.
Está em jogo assegurar aos endinheirados uma fatia da riqueza crescentemente superior ao desempenho médio da economia. Exatamente o traço forte do capitalismo atual denunciado minuciosamente por Piketty.
Ao fixar essa estaca, a conta de chegar não fecha para o resto da sociedade.
O capitalismo assume a sua genética como usina imbatível de assimetrias sociais.
Ou não será exatamente essa a raiz da desordem europeia nos dias que correm?
Rentistas e banqueiros (alemães, sobretudo) festejam a ‘retomada’, laços sociais se desintegram e a extrema direita colhe os frutos desesperados da pobreza e do desemprego propondo uma ordem policial contra a anomia neoliberal.
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como biscoito fino para o país.
Apenas os mais afoitos admitem que o segredo da massa remonta a uma tradição que vem da casa grande no trato com a senzala.
Trata-se da receita da desigualdade, segundo a qual , para uma sociedade avançar , é preciso o seu povo regredir.
O Conversa Afiada reproduz editorial de Saul Leblon, extraído da Carta Maior:
UMA RECEITA PARA A DESIGUALDADE
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como se fosse um biscoito fino para o país.
por: Saul Leblon
O conservadorismo costuma se declarar vítima do maniqueísmo que regularmente carimbaria na testa de seus candidatos rótulos depreciativos aos olhos da população.
Elitistas e entreguistas, por exemplo.
O problema real parece ser outro. Candidaturas conservadoras mostram dificuldade para conciliar o discurso de palanque com a identidade do projeto que defendem para o país.
Na história recente tornou-se emblemático o caso do governador Geraldo Alckmin.
Presidenciável tucano em 2006, ele se fantasiou com adesivos de estatais brasileiras na vã tentativa de afastar compreensíveis suspeitas do eleitor.
Convenceu tanto quanto o lobo vestido de vovozinha na história da Chapeuzinho Vermelho.
Ou então Serra. Em 2010, já descendo a ladeira, aliado ao humanista bispo Malafaia para atacar gays, aborto e petistas, o tucano chegou a acenar com um gesto generoso.
O governo propunha então R$ 538 reais para o salario mínimo válido a partir de 2011, um valor calculado conforme a regra pactuada com CUT e sindicatos quatro anos antes.
‘Acho pouco’, disse o tucano e sapecou:
‘Vou fixar em R$ 600 reais’ (veja aqui: www.youtube.com/watch?v=qzyOIv–uKw).
Não contente, prometeu um aumento de 10% para os aposentados.
E arrematou com o compromisso de incluir 15 milhões no Bolsa Família (o programa reunia então 12,3 milhões; hoje são 13, 8 milhões), ademais de assegurar um 13º pagamento a todos os beneficiados.
Digamos que Dilma tomasse decisão semelhante hoje.
O que diriam os centuriões do equilíbrio fiscal que saíram de faca na boca diante do reajuste de 10% para o Bolsa Família, somado à correção da tabela do IR, ambos anunciados no discurso presidencial do 1º de Maio?
No caso de Serra, zumbiu um silencio obsequioso.
Inútil.
A credibilidade do discurso tucano não superou as desconfianças entranhadas no personagem.
O resultado é sabido: Dilma venceu as eleições de 2010, no 2º turno, por uma diferença de mais de 10 milhões de votos sobre o delfim do conservadorismo.
Tome-se agora o caso dos gêmeos ideológicos, Aécio & Eduardo.
Ambos querem devolver aos mercados o comando do país.
Há diferenças de estilo, mas nisso são univitelinos.
Em linguagem explícita ou cifrada vão alternando, como num jogral, detalhes de como se faz esse cozido de uma Nação.
Junte um Banco Central independente (da sociedade), a um choque de juros; acrescente mais duas voltas de arrocho com um superávit de 3,5%. Pique a meta da inflação ao gosto dos rentistas. Depois misture tudo com a batedeira da liberdade irrestrita aos capitais; leve ao forno da abertura comercial plena, geral e irrestrita.
Sirva fervendo.
Só falta explicitar à opinião pública os custos de cada ingrediente.
Colunistas isentos (ideológicos são os blogueiros ) adornam a omissão com uma condescendência melosa e enjoativa.
A exemplo do que fizeram com Serra não arguem o preço social e estratégica do cardápio maturado na cozinha dos gêmeos ideológicos.
Coube à Presidenta Dilma quebrar o segredo culinário nesta 3ª feira, ao calcular aquilo que se omite deliberadamente:
‘Baixar a meta da inflação para 3% (como querem os gêmeos) jogaria 8,2% dos trabalhadores no desemprego’, advertiu escancarando a linha tênue que separa o salitre impopular do lacto purga antipopular.
Preguiçosa nos cálculos quando se trata de escarafunchar a cozinha conservadora, a mídia reagiu celeremente ao discurso do 1º de Maio.
Manchetes faiscantes denunciavam no dia seguinte a ‘gastança’: R$ 8,9 bi vai custar o reajuste de 10% para o Bolsa Família e a correção da tabela do IR.
A assimetria da reação reflete uma divergência de prioridades.
Um aumento anterior de impostos providenciado pelo governo, sobre cervejas e refrigerantes, custeará quase a metade da despesa anunciada no 1º de Maio (R$ 3,6 bi).
O mercado financeiro reagiu inconsolável.
Do Itaú, o Banco Central tucano, veio a explicação: ‘esperava-se que a receita extra fosse cobrir despesas das elétricas para não prejudicar ainda mais o superávit de 2014’.
Em bom português: teme-se que a hidráulica fiscal vire o registro para subtrair água dos que já tem a caixa cheia, em benefício de que vivem de gota em gota.
Só no 1º trimestre deste ano, por exemplo, R$ 13,048 bilhões foram adicionados à caixa dos rentistas da dívida interna.
O volume poderia ser significativamente menor se o registro dos juros girasse para baixo.
O Brasil paga o terceiro juro real mais alto do mundo, cerca de 5%, depois de uma queda de braço em que Dilma conseguiu, momentaneamente, trazer para 3,5%, uma taxa real que foi da ordem de 11,5%, em média, no segundo governo Lula e de 18,5% na média do segundo governo FHC.
As medidas que os gêmeos ideológicos listam para o país requisitam um cavalo de pau nessa trajetória descendente.
Com elevado risco de retornos pífios em relação aos seus próprios objetivos.
É o que demonstra o pulso agonizante de países europeus que desde a crise de 2008 vem sendo tratados com o receituário que Aécio & Eduardo querem agora ministrar aqui.
Vejamos.
Depois de três anos de arrocho, que decepou 7% de sua economia, a dívida pública em Portugal saltou de 108% para 129% do PIB. O desemprego médio passa de 15%; e supera os 30% entre os jovens.
Na Espanha, que começou o arrocho antes do vizinho ibérico, ainda com o PSOE, e o aprofundou com a chegada da direita ao poder, em 2011, o quadro é ainda mais sombrio.
A ponto de o país registrar um déficit fiscal que é quase o dobro daquele anterior à crise.
O arrocho congelou a economia e decepou a receita do governo. A recessão fez o resto e tornou a crise autossustentável.
Há quase seis milhões de desempregados na Espanha (24% da força de trabalho)
A população ativa encolhe mês a mês pela desistência pura e simples de se procurar o que não tem: emprego.
Hoje ela é inferior à existente há seis anos –evolução semelhante a uma situação de guerra, quando os adultos em idade produtiva, jovens, sobretudo, vão para os campos de batalha e não retornam.
Na Espanha eles estão indo às filas de embarque .
A taxa de desemprego na juventude espanhola passa de 55%. Significa que metade de uma geração inteira talvez nunca encontre trabalho em sua terra.
Pior só a Grécia.
Seis de cada 10 jovens gregos estão desempregados e cerca de 4 milhões dos seus 11 milhões de habitantes vivem em um labirinto de pobreza e exclusão.
Há seis anos sob implacável terapia de arrocho, o país perdeu 25% de seu PIB. Em compensação, a taxa de suicídio aumentou 45% desde 2007.
O conservadorismo sabe as consequências da receita que preconiza para o Brasil.
O colunismo especializado, que encena esclarecimento diante do livro de Thomas Piketty (‘ O Capital no Século XXI’), tem a exata dimensão do que está em jogo.
Está em jogo assegurar aos endinheirados uma fatia da riqueza crescentemente superior ao desempenho médio da economia. Exatamente o traço forte do capitalismo atual denunciado minuciosamente por Piketty.
Ao fixar essa estaca, a conta de chegar não fecha para o resto da sociedade.
O capitalismo assume a sua genética como usina imbatível de assimetrias sociais.
Ou não será exatamente essa a raiz da desordem europeia nos dias que correm?
Rentistas e banqueiros (alemães, sobretudo) festejam a ‘retomada’, laços sociais se desintegram e a extrema direita colhe os frutos desesperados da pobreza e do desemprego propondo uma ordem policial contra a anomia neoliberal.
Os gêmeos ideológicos e a mídia complacente desconversam sobre os efeitos indigestos da receita que anunciam como biscoito fino para o país.
Apenas os mais afoitos admitem que o segredo da massa remonta a uma tradição que vem da casa grande no trato com a senzala.
Trata-se da receita da desigualdade, segundo a qual , para uma sociedade avançar , é preciso o seu povo regredir.
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