quarta-feira, fevereiro 03, 2016

Tempo de despertar



Por: Laerte Fedrigo*, publicado na Tribuna Regional

Tenho o privilégio de ocupar este espaço. Considerando as características do público que prioritariamente leem as matérias, decidi abordar as contradições do nosso tempo. Não pretendo ferir rente ou atirar farpas. Tampouco arregimentar seguidores. Meu propósito é elucidar aspectos relevantes e preocupantes do processo civilizatório, tendo como foco meus medos e angústias, minhas expectativas e esperanças. Aprecie com moderação.

Vivemos um tempo líquido. A cada instante uma nova tecnologia é apresentada para o deleite de homens e mulheres. O Iphone não é mais só um desejo de consumo. Virou objeto sexual. No ônibus, no trem ou na sala de aula, os gemidos chamam atenção: o ponto G mudou de lugar. Apesar de conectados, estamos todos solitários, numa espécie de transe, onde o afeto se atrela à angústia e se expressa pela ira. Em algum quarto dos EUA, da Alemanha, da Rússia ou do meu sobrinho no Brasil, uma mensagem é disparada a cada minuto. As notícias se espalham em tempo recorde, causando rebuliços e revoluções. Em segundos, a mentira vira verdade e a verdade vira mentira e tudo o que é sólido desmancha no ar.

Vivemos um tempo de capital fetiche. O dinheiro circula e se reproduz pelas ondas da internet e, mesmo quando passa por outras formas de mercadoria, a produção é cada vez mais intensiva em tecnologia, com a contínua substituição do trabalho presente pelo trabalho pretérito. Do obscurantismo, miramos o espaço, supernovas, buracos negros. A medicina se renova e a biogenética prolonga a vida. Pela primeira vez na história da humanidade, vislumbramos a possibilidade de superação da condenação bíblica de se viver com o suor do próprio rosto. Em contraposição, o processo civilizatório está sendo levado para uma nova encruzilhada, com a crise subjetiva, de pertencimento, manifesta pela xenofobia, pelo fanatismo e pelo recrudescimento da política.

Vivemos um tempo de distopia. No passado, a acumulação de capital produzia, por dentro de suas contradições, iniciativas coletivas e libertárias de enfrentamento. À medida que se desenvolviam as forças produtivas, o movimento social se fortalecia em torno das associações, dos sindicatos e dos partidos. Entre tentativas e erros, abalamos o mundo em diferentes ocasiões na América, na Europa, na África e na Ásia. Numa era de extremos, enfrentamos impérios e ditaduras. Nesses tempos líquidos, porém, as iniciativas são conservadoras, fragmentadas, individualizadas, fetichizadas. Projetar o futuro é um exercício que exige compromisso. Como tudo se modifica rapidamente, todos querem o agora, rápido, sem pesar consequências. Todos buscam um lugar ao sol, levando o coletivo para a penumbra. Os sonhos se divorciaram. A perspectiva utópica foi prejudicada e deu lugar à missa aeróbica, à banalização do humano.

Vivemos o tempo da história. No final dos anos oitenta, Francis Fukuyama afirmou que o capitalismo teria levado a humanidade ao cume de sua evolução, o que equivaleria ao fim da história. Essa heresia embalou a onda neoliberal que varreu direitos sociais e promoveu uma espécie de folia financeira, com constantes crises, ampliando as diferenças sociais da população em geral, inclusive nas economias centrais. O que dizer dos milhões e milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que não têm trabalho e moradia digna, abaixo da linha da pobreza? Hobsbawm dizia que não poderíamos construir um futuro reconhecível pelo prolongamento do passado ou do presente. Por esse caminho iríamos fracassar e o preço do fracasso seria a escuridão. Concordo com ele. Enquanto existir sobre a terra um homem ou uma mulher sem condições dignas de sobrevivência; enquanto não for reestabelecida a integração da sociedade com a natureza, nenhum sistema econômico triunfará.

É tempo de resgatar utopias. É verdade: a humanidade não conseguiu dar o grande salto para o reino da liberdade. Mas, como diria Antônio Cândido, mesmo sabendo da improbabilidade, precisamos agir cotidianamente como se fosse possível chegar ao paraíso. Do contrário, cairemos no inferno. Cair no inferno soa como suicídio coletivo. Não o fim da história, mas do processo civilizatório. A bandeira da luta por um mundo melhor precisa continuar tremulando. Os instrumentos para esta luta cotidiana estão à disposição. Qual é o seu instrumento? De que lado você está? Decida-se!


* Bacharel em Ciências Econômicas pela PUC/SP, onde obteve também o título de Mestre em Economia Política. É professor de Economia.

Um comentário:

Unknown disse...

É...
É frustrante.
Não somos deuses atemporais.
Somos meros indivíduos humanos com prazo de validade médio (crescente) de 70 anos e capacidade produtiva otimizada de ao redor de 30 anos de exercício.
É muito pouco, muito trivial, se considerarmos que temos a capacidade cognitiva de eras, milhões de anos pregressos.
O instrumento da hora é este. Ir construindo uma narrativa crível com milhões de pessoas que usam este instrumento – o ciberespaço – sem abandonar as refregas cotidianas cara-a-cara.
Se considera desanimador estarmos há ~=400 anos empacados neste modo capitalista de produção lembre-se do quanto durou o feudalismo...
Cordialmente
Halter Maia
haltermaia@yahoo.com